terça-feira, 2 de junho de 2026

CONTO: VOVÓ QUER NAMORAR - FRAGMENTO - MARIA DE LOURDES KRIEGER - COM GABARITO

 Conto: Vovó quer namorar – Fragmento

        Ela estava ali, no meio da sala, miúda na cadeira alta que é ruim de sentar, porque a gente tem que ficar com as costas retinhas e aí dói, e esparramar não dá, que escorrega. Mas ela gosta de sentar justo ali e ali se encontrava ela. De vestido claro enfeitado de crisântemos, sapatos de salto. Cabelos caindo nos ombros, os reflexos de prata teimando em mostrar uma idade que só mamãe teima identificar. Joelhos juntinhos, braços cruzados, cabeça baixa. Ela, minha avó Frosina.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi7xM3cJWGXxrldGfsKFL8wDczzXx11ZcCyeiJ1phTyJRk_xxym3mYqAWyPhWI8l2Rk9BVppSR_sB_7aVbtQVneZJaAi8ADKZVsh8UlxT2Yx4lSBbw5-IXLrE6n1DPBWBE7n-reKhsigfULlNEXb9RTG6OmqzgnjtevKlhBctXmI09BCbSJivz7GPx6tLc/s1600/images.jpg


        -- Eles inventaram o capricho do nome, e eu precisei carregar o ridículo pala vida.

        Eles são meus bisavós, pais dela.

        -- Era para ser de sorte, lembrando flor, mas só me deu acasos na vida – ela diz.

        Parece dormir, os olhos fechados, mas no duro estava era olhando pra dentro dela mesma, gosta de fazer assim. Espiando a vida tanta que já viveu, os sorrisos que já sorriu, as alegrias e lágrimas que espalhou ou sufocou, os sustos, os sobressaltos.

        -- É viver de novo – ela diz. – Eu gosto dos meus pedaços bons, que foram tantos, e finjo que os maus não me tocaram.

        Estendeu a mão até a mesa do telefone, ao lado. Alcançou a bolsa vermelha de couro.

        -- É cor errada – reprova mamãe. – De mocinha, não de velha de respeito.

        Provocação, provocação e meia:

        -- Então combina comigo, que não sou de respeito... [...]

        Da bolsa a vó tirou um estojo de pintura, um espelho e se examinou. Retocou o blush, que deixou mais rosado o rosto, e o batom, que lhe avisou os lábios. Mirou-se e gostou do que viu.

        Vaidosa, molhou na língua a ponta do indicador direito, passando nas sobrancelhas e nos cílios. Mamãe insiste em que isso é vergonhoso, na cidade da vó. A vó diz que então combina, que ela é toda vergonhosa – elas não vivem sem o pingue-pongue particular.

        Vó Frosina afastou um tanto o espelho, pra se conferir melhor: os olhos escuros analisaram o rosto e os frisos do cabelo, que ela consegue com um aparelho elétrico, antigo

        Guardou o espelho e o estojo na bolsa, olhou ao redor, não me percebeu atrás da cortina.

        Suspirou. Buliçosa, jamais suportou a espera que enfrenta agora: Frosina, minha avó. [...]

        Me aproximei, sentei no chão, perto da cadeira dela.

        -- Que foi, vó? A senhora está esquisita...

        Ela contornou com o indicador direito a raiz dos meus cabelos, um carinho bem dela. Suspirou.

        -- Luci já voltou?

        Neguei. Vó cansa de saber que mamãe chega do consultório só depois das sete, e eram cinco e meia.

        -- Ela não vai gostar. Reprova o que faço, porque o que faço não combina com a ideia dela de uma mãe com quase setenta anos. [...]

        Vó desceu a cabeça até a minha.

        -- Marquei encontro. Com um homem. Estou esperando por ele. [...]

        Eu teria aguentado, se ela tivesse contado que: estava planejando assaltar um banco; fizesse parte de um grupo de grafiteiros; fosse a responsável pela crise econômica do país.

        Mas um homem! Minha avó esperando um homem, e tão produzida!

        Pra mostrar que, naquela tarde, estava toda novidadeira, vó largou:

        -- É um gato. Com toda a idade, gatíssimo, como vocês dizem. Tem outras aí de olho nele. Mas cheguei primeiro... – Seus olhos maliciavam, divertidos.

        Por que uma avó, de cabelos brancos, tão cheia de idade – só nos olhos agarrando um brilho jovem –, inventa ilusões? Eu ouvia minha mãe:

        -- Mulher de respeito, ainda por cima viúva, é pra bordar, fazer crochê e doces. Acarinhar um pouco os netos, lembrar o passado, rezar.

        Certamente não pra acalentar esperanças próprias de futuro – não chegando aos setenta!

        Vai dizer isso pra vó Frosina!

        -- Velha é pra usar roupas escuras, quem sabe alguns rabiscos de cor, umas florzinhas, tudo muito discreto. Pra usar cabelo atrás, preso em caracol, sem vaidades. É pra ter um rosto de ninguém perceber direito.

        Vai dizer isso pra vó Frosina!

        Mãe foi e disse. Ou não disse: adiantou? Vó às vezes resmunga:

        -- Tanto estudo, ser médica-doutora pra quê?

        E mãe sabe que teimar é batalha perdida.

        -- Ele falou que viria às cinco.

        -- A mãe vai saber...

        -- Não, se guardarmos segredo, não acha? Antes das sete ele terá ido embora.

        Olhei o meu relógio.

        -- Vai ver, ele esqueceu a hora.

        Vó Frosina riu.

        -- Nessa idade, não dá mesmo pra lembrar tudo. Mas ele aparece, eu sei.

        Emocionei com o vermelho que pintou no rosto dela. Me fez pensar na outra vó Frosina, que conheci no álbum de família.

Maria de Lourdes Krieger. Vovó quer namorar. São Paulo, FTD, 1997.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 170-172.

Entendendo o conto:

01 – No início do texto, como a avó Frosina reage em relação ao próprio nome e qual justificativa ela dá para esse sentimento?

      Vó Frosina considera o próprio nome "um ridículo" que precisou carregar pela vida inteira, fruto de um "capricho" de seus pais (os bisavós do narrador). Ela justifica esse sentimento explicando que, embora o nome tenha sido escolhido para lhe trazer sorte por lembrar uma flor, ele acabou lhe trazendo apenas "acasos na vida".

02 – O narrador descreve um hábito que a avó tem quando parece estar dormindo de olhos fechados. Que hábito é esse e como ela mesma o define?

      Quando está de olhos fechados, a avó na verdade está "olhando para dentro dela mesma", espionando e relembrando a longa vida que já viveu, com seus sorrisos, alegrias, lágrimas e sustos. Ela define esse hábito como um ato de "viver de novo", no qual ela prefere focar nos inúmeros pedaços bons e fingir que os momentos ruins não a tocaram.

03 – Há um conflito geracional claro entre a mãe do narrador (Luci) e a avó Frosina. De que maneira a bolsa vermelha de couro simboliza esse embate?

      A bolsa vermelha simboliza a quebra das expectativas sociais sobre a velhice. A mãe reprova o acessório por achar que a cor vermelha é "de mocinha" e inadequada para uma "velha de respeito". Em contrapartida, a avó usa a bolsa como provocação, assumindo uma postura bem-humorada e rebelde ao responder que, justamente por não ser "de respeito", a bolsa combina perfeitamente com ela.

04 – Quais são os rituais de vaidade que a avó Frosina realiza enquanto se avalia no espelho antes do seu compromisso?

      Vó Frosina retoca o blush para deixar o rosto mais rosado e passa batom para destacar os lábios. Além disso, ela molha a ponta do dedo indicador na língua para alinhar as sobrancelhas e os cílios, e utiliza um aparelho elétrico antigo para fazer frisos (ondas/penteado) em seus cabelos.

05 – Qual é a grande revelação que a avó faz ao narrador e qual é a reação inicial dele diante dessa notícia?

      A avó revela que marcou um encontro amoroso com um homem e está esperando por ele. O narrador reage com extremo espanto e perplexidade; ele afirma que teria aguentado mais facilmente se ela contasse que planejava assaltar um banco, fazer parte de grafiteiros ou ter causado a crise econômica do país, demonstrando o quão impactante e fora do comum foi ver sua avó agindo daquela forma por causa de um homem.

06 – Segundo o pensamento da mãe do narrador, qual seria o papel social e o comportamento esperado de uma "mulher de respeito" e viúva de quase setenta anos?

      De acordo com a visão da mãe, uma mulher nessa idade deveria ter uma postura extremamente discreta e voltada ao lar. Esperava-se que ela usasse roupas escuras ou com estampas muito discretas, mantivesse o cabelo preso em um caracol sem vaidades, e ocupasse seu tempo bordando, fazendo crochê, preparando doces, rezando, lembrando o passado e acarinhando os netos, sem alimentar novas esperanças de futuro.

07 – Apesar do atraso do homem com quem marcou o encontro (já eram cinco e meia e ele havia marcado às cinco), como a avó reage à situação e o que isso revela sobre a sua personalidade?

      Diante do atraso, a avó reage com bom humor e leveza, rindo e comentando que "nessa idade, não dá mesmo pra lembrar tudo", mas demonstrando total confiança ao afirmar "mas ele aparece, eu sei". Essa reação revela que ela possui uma personalidade otimista, segura de si, paciente e que encara as limitações da velhice sem amargura ou desespero.

 

CORDEL: CARTILHA DO POVO - FRAGMENTO - RAIMUNDO SANTA HELENA - COM GABARITO

 Cordel: Cartilha do Povo – Fragmento

           Raimundo Santa Helena

Ninguém nasceu neste mundo

Pra sofrer e virar Santo

Deus nos fez para gozar

Mais do que derramar pranto

Mas na panela do povo

Só tem farofa de ovo

Quando almoço não janto.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj5jp_FHL-G11_XttepX_dxQyScecWx5IHwTDM4NKV_injnWYN_uzjQfFfHpMRmbH5JUV6leob0tpBh4cg064TyqPKqpIyCTsd8LhQff7-SXsDtf5vIqkG7mZRe8dXZzFvo_7jAxbrGNyuH_1M1jcUHLyOSl1UP7ctghB_Fy9h_fVxKo4VC9-VUDB1FWo8/s1600/images.jpg


E todo trabalhador

Ao teto vai ter direito

Um salário compatível

Pelo que faz ou foi feito

Quem lavrar terra é dono

Não haverá abandono

Para quem tiver defeito.

[...] 

Do progresso brasileiro

O povão não usufrui

Embora com seu suor

É o que mais contribui

Mas num regime que suga

O honesto que madruga

Nada que preste possui.

 

Ninguém aguenta mais

Abrangentes privações

Estrangeiros controlando

No Brasil nossas ações

Vamos revirar as normas

Decretar nossas reformas

A partir das eleições.

[...] 

Queremos Democracia

Plena e Constituinte.

Não queremos o menor

Vivendo como pedinte

O BNH dos nobres

Deve se virar pros pobres

Queremos mais o seguinte:

[...] 

Nosso povo apoiado

Na vida de mutirão

E queremos a mulher

Com mais valorização

Nosso meio ambiente

Puro como lá se sente

Nas florestas do sertão.

[...] 

Que haja maior respeito

Pelos grupos raciais

Também pelas minorias

Porque nós somos iguais

Um ensino democrático

Humano moderno prático

Justiça nos tribunais.

[...]

Nenhum Governo respeita

Povão que é desunido

O Lobo vira Senhor

Do cordeiro encolhido

Quem não se junta perece

Mas quem se une merece

Um viver evoluído.

[...]

Raimundo Santa Helena. In: Hélder Pinheiro e Ana Cristina M. Lúcio. Cordel na sala de aula. São Paulo, Duas Cidades, 2001.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 203.

Entendendo o cordel:

01 – Na primeira estrofe, o autor faz um contraste entre o plano divino para a humanidade e a realidade material do povo trabalhador. Como esse contraste é construído e qual expressão popular ilustra a escassez vivida por eles?

      O contraste é construído ao afirmar que Deus criou o ser humano para gozar da vida e não para sofrer ou derramar pranto. No entanto, a realidade material contraria esse plano divino devido à pobreza. A expressão que ilustra essa escassez é "Quando almoço não janto", que, somada à "farofa de ovo" na panela, sintetiza a situação de insegurança alimentar e a falta de recursos básicos.

02 – Na terceira estrofe, o eu lírico aborda a contradição entre a força de trabalho e a divisão das riquezas no país. Segundo o texto, por que o trabalhador honesto "nada que preste possui"?

      O trabalhador não possui bens de qualidade porque o país vive sob um "regime que suga" o cidadão. O texto aponta a injustiça social de que, embora o "povão" seja quem mais contribui para o progresso brasileiro por meio do seu suor e de madrugar para trabalhar, ele é excluído dos benefícios desse desenvolvimento, não conseguindo usufruir daquilo que produz.

03 – O cordelista manifesta um forte desejo de soberania nacional e mudança política. De acordo com a quarta estrofe, quem está controlando as ações no Brasil e qual é o mecanismo proposto pelo autor para alterar essa situação?

      De acordo com o texto, são os "estrangeiros" que estão controlando as ações dentro do Brasil, gerando privações que a população não aguenta mais. O mecanismo proposto pelo autor para mudar essa realidade, revirar as normas e decretar as reformas necessárias é a via democrática e institucional, especificamente através do voto nas "eleições".

04 – Nas estrofes centrais, o autor lista uma série de bandeiras e direitos sociais necessários para uma "Democracia Plena". Quais são as demandas apresentadas pelo eu lírico no que diz respeito à moradia, ecologia e igualdade social?

      No âmbito da moradia, ele exige que o BNH (Banco Nacional da Habitação, historicamente voltado aos nobres) seja direcionado para os pobres e que o menor não viva como pedinte. Na ecologia, demanda a preservação do meio ambiente puro, como as florestas do sertão. Já na igualdade social, defende a valorização da mulher, o respeito aos grupos raciais, às minorias e a garantia de que todos sejam tratados como iguais.

05 – Na última estrofe, o poeta utiliza a metáfora do "Lobo" e do "cordeiro". Qual é a lição moral que essa comparação transmite sobre a importância da organização popular frente aos governantes?

      A metáfora do "Lobo" (que representa os governantes opressores ou o poder instituído) e do "cordeiro encolhido" (que representa o povo acuado) serve para alertar que nenhum governo respeita uma população desunida. A lição moral é a de que a passividade e o isolamento levam à opressão ("quem não se junta perece"), enquanto a união do povo é a única ferramenta capaz de conquistar o respeito e um "viver evoluído".

 

CRÔNICA: A HORA CERTA - FRAGMENTO - OLAVO ROMANO - COM GABARITO

 Crônica: A hora certa – Fragmento

            Olavo Romano

        Maria Joana saiu da banda de fora da casa, olhou o céu, reparou na altura do Sol e disse pra filha:

        -- Já passa das três. Larga isso aí e refoga o arroz, senão vai atrasar a janta.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg1EGEb8ffYC92_3k5_-a5cpbXmG2GGBrzbTqklV0DP2rMRdHhU_DDHnhOqHFqiPT4dGL3_ktKT1WvKID65OFQ_k8XPX5A9vnm7JFoQMILnLMWaeTEfSQuNAASyZtt4d4IufYHOD6pJkJ-2-U7YXklmxzPW1CfQt6c03u-w9h5G-jNSxjKspBkiGJY5ZdY/s1600/SOL.jpg


        Nico brincava no terreiro-da-horta. Parou de tocar o carrinho de boi de sabugo e perguntou: –  Mãe, comé que a gente vê as hora pelo Sol?

        -- É fácil, uai. Questão de prática.

        O menino cresceu vendo a mãe medir o tamanho do dia pelo comprimento de uma sombra, pela altura do Sol nos dias mais claros ou só pelo jeitão quando o tempo ficava brusco [escuro, fechado].

        Rapazinho, Nico Pereira desistiu de aprender aquela arte da mãe. Virou foi catireiro. Excomungado de esperto, a fama correu mundo [...] O povo usava comentar: – “Deus é porque não dá asa a cobra. Analfabeto, é danado assim, imagina se soubesse ler e escrever. Aí ninguém ia poder com ele”.

        No começo, Nico cismou com animal. Cada hora montado num, trocava aquele por outro mais bonito, ficava todo intimado, com pose de fazendeiro forte, boiadeiro rico. Depois, parece coisa que enfarou, principiou lembrar do tempo de menino, recordar o velho Tertuliano, dono da fazenda onde foi criado.

        Aa coisa mais bonita que sempre achou no velho não era a barba branca, compridona. [...] Era o relógio de bolso, que ele puxava dum jeito todo especial, destampava, olhava assim meio de banda, via as horas, depois tornava a tampar. [...]  

        O Nico não queria saber de outra coisa. Vivia especulando, indaga daqui, indaga dali, não sossegou enquanto não apanhou [comprou] um relógio de bolso. Não era um patacão dourado, igual do velho Tertuliano, aquilo não era pro seu bico. Achou um Omega prateado, de duas tampas, bem conservado. Antes de fechar negócio, pegou o relógio com pose de entendido, abriu a primeira tampa, reparou no mostrador, um ponteiro maior e um menor, achou uma beleza o ponteirinho de segundo correndo disparado, os outros dois a gente nem via mexer. Depois abriu a segunda tampa, lá dentro o maquinismo movimentava parecendo fervura.

        Não demorou muito, todo mundo sabia daquele novo capricho do Nico Pereira. E o povo, sabe como é, tem lá sua maldade: logo descobriram que o Nico, aquela farrona toda [aquele contador de vantagens], nem olhar as horas sabia.

        Foi a conta. No primeiro domingo de missa, o arraial assim de gente, cada hora chegava um:

        -- Nico, vi falar que ocê tá de relógio novo?

        -- É devera. Uma beleza de relógio.

        Aí um outro, já combinado, perguntava:

        -- Falar nisso, quantas horas?

        Nico virava pro sujeito e devolvia a pergunta:

        -- Calcula?

        O interessado media a altura do Sol, pensava um pouco e respondia:

        -- Pode ser umas duas e meia, mais ou menos?

        Só então Nico abria o relógio, olhava sério e informava:

        -- Acertou. É duas e meia, exatinho.

        Aquilo funcionou bem com o primeiro, o segundo, o terceiro. Mas de repente o tempo começou a fechar, o céu escureceu, o Sol sumiu. Nico preocupou, resolveu escafeder, exalar do meio do povo. Não conseguiu. Foi pego pelo braço, mais um sujeito querendo saber as horas. Tentou sair correndo, disse que tinha pressa, ia fechar um negócio, depois informava as horas. O moço bateu o pé, insistiu. Apertando, Nico falou:

        -- Adivinha!

        Fazendo de nervoso, o rapaz disse:

        -- Adivinhar como? Deitei tarde, no maior pileque, acordei agora mesmo com gosto de cabo de guarda-chuva na boca. Ainda por cima, esse dia feio, eu nem sei se é de manhã ou de tarde... Falam que ocê anda de relógio novo, pra que serve esse troço, afinal? Quem sabe ocê não sabe é olhar as hora?

        No mesmo instante Nico meteu a mão no bolso, tirou o relógio, destampou e ficou olhando o ponteirinho de segundo. Depois levou o relógio ao ouvido e, então, informou:

        -- As hora, mesmo, não tá dando pra ver não. Mas os minuto, ó! Tá freveno que dá gosto!

Olavo Romano. Minas e seus casos. São Paulo, Ática, 1984.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 32-33. Unidade 4 – Orientações Específicas.

Entendendo a crônica:

01 – No início da crônica, vemos Maria Joana determinando as horas pela observação do céu e do Sol, uma habilidade que o texto chama de "arte". Como essa forma tradicional de medir o tempo se contrasta com o desejo posterior de Nico Pereira de possuir um relógio de bolso? O que esse relógio representava para ele?

      O contraste se dá entre o saber tradicional/rural — baseado na observação direta da natureza e na experiência prática ("questão de prática") — e a modernidade urbana, representada pelo relógio mecânico. Para Nico, o relógio de bolso não era um instrumento utilitário para saber as horas (já que ele sequer sabia lê-las), mas sim um símbolo de status, poder e prestígio. O objeto remetia à figura do velho Tertuliano, o rico dono da fazenda de sua infância, funcionando como um sinal de ascensão social e vaidade.

02 – O povo comentava sobre Nico: “Deus é porque não dá asa a cobra. Analfabeto, é danado assim, imagina se soubesse ler e escrever.” Explique a ironia contida nessa fala e como o comportamento de Nico ao comprar o relógio confirma ou contradiz essa fama de "esperto".

      A ironia reside no fato de Nico ser extremamente astuto nos negócios ("excomungado de esperto" como catireiro) mesmo sendo analfabeto. No entanto, o episódio do relógio contradiz parcialmente sua fama de esperteza absoluta, pois sua vaidade o faz cair em uma armadilha óbvia criada pelo povo. Ao comprar um objeto que não sabe usar apenas para ostentar, Nico deixa sua vulnerabilidade e ingenuidade social expostas, permitindo que a comunidade brinque com seu orgulho.

03 – Quando as pessoas no arraial começam a lhe perguntar as horas, Nico utiliza uma estratégia específica para não ser desmascarado. Explique como funcionava esse "truque" de Nico e por que a mudança nas condições climáticas (o tempo fechar) arruinou o seu plano.

      O truque de Nico consistia em devolver a pergunta ao interlocutor dizendo "Calcula?". A pessoa, então, olhava para o Sol, estimava a hora e respondia. Nico apenas abria o relógio e fingia confirmar a estimativa, dizendo que estava "exatinho". Essa estratégia dependia totalmente da natureza: quando o céu escureceu e o Sol sumiu, as pessoas perderam a referência visual para estimar o tempo. Sem o palpite dos outros, Nico ficou sem ter como inventar ou confirmar a hora, sendo desarmado pelo próprio clima.

04 – A crônica de Olavo Romano é rica em marcas de oralidade e expressões regionalistas. Identifique pelo menos três exemplos dessas marcas no texto (palavras ou expressões) e explique qual é o efeito que esse tipo de linguagem causa na narrativa.

      Exemplos de marcas de oralidade e regionalismo no texto incluem: "uai", "comé que", "devera", "exalar do meio do povo" (fugir), "pileque" e "tá freveno" (está fervendo). O efeito desse tipo de linguagem é conferir autenticidade e proximidade à narrativa, ambientando o leitor diretamente no universo caipira/interiorano de Minas Gerais. Isso humaniza as personagens e aproxima o leitor do ritmo e do tom de uma história contada "boca a boca".

05 – No clímax da crônica, pressionado por um rapaz em um dia nublado, Nico Pereira dá uma resposta surpreendente: "As hora, mesmo, não tá dando pra ver não. Mas os minuto, ó! Tá freveno que dá gosto!". Analise como essa resposta constrói o humor da crônica e salve o orgulho do personagem.

      O humor é construído pela resposta absurda e espirituosa de Nico, que subverte a lógica do uso de um relógio. Ao invés de admitir que é analfabeto e não sabe ler os ponteiros, ele usa uma metáfora visual baseada no movimento rápido do ponteiro dos segundos e no barulho do mecanismo interno (que ele já achava parecido com "fervura"). Com essa saída cômica e rápida, Nico tenta "sair por cima" e desviar o foco de sua ignorância, mostrando que, embora não saiba as horas, sua malícia e rapidez verbal continuam afiadas.

 

CORDEL: A MULHER QUE MAIS AMEI - FRAGMENTO - PATATIVA DO ASSARÉ - COM GABARITO

 Cordel: A Mulher Que Mais Amei – Fragmento

           Patativa do Assaré

Era um modelo perfeito 
A mulher que mais amei, 
Linda e simpática de um jeito 
Que eu mesmo dizer não sei. 
Era bela, muito bela; 
Para comparar com ela, 
Outra coisa eu não arranjo 
E por isso tenho dito 
Que se anjo é mesmo bonito, 
Era o retrato dum anjo.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhGU6ezcijxL5acd4s2uGVQysE_kIkpOXxBGBplDyjdEFJ498tmhiGrBfa398m_gBreBZZ988mk8R__k3i3R20VFN2dJtUNtLZVBIUAEPHhx9aBhbaWXXEGQGNMEjxUyRI0_APsDKqrfq-aedLl0dRakOMuOZH5FD1wRtnIn1YCXxDkVECeTwtOgTkTCX8/s1600/PATATIVA.jpg


Sei que alguém não me acredita, 
Mas eu digo com razão, 
Foi a mulher mais bonita 
De cima de nosso chão; 
Era mesmo de encomenda 
E do amor daquela prenda 
Eu fui o merecedor, 
Eu era mesmo sozinho 
Dono de todo carinho 

Daquele anjo encantador.

Era bem firme a donzela, 

Só em mim vivia pensando. 
Quando eu olhava ela, 
Ela já estava me olhando. 
Para a gente conversar 
Quando eu não ia, ela vinha, 
Um do outro sempre bem perto 
Nosso amor dava tão certo 
Quem nem faca na bainha.

E por sorte ou por capricho, 

Eu tinha prata, ouro e cobre. 
Dinheiro em mim era lixo 
Em casa de gente pobre. 
Nós nunca perdíamos ato 
De cinema e de teatro 
De drama e mais diversão, 
Não faltava coisa alguma, 
As notas eu tinha de ruma 
Para nós andar de avião.

Meu grande contentamento, 
Não havia mais maior 
E nossos dois pensamentos 
Pensava uma coisa só. 
Para desfrutar a minha vida 
Perto de minha queria 
Eu não poupava dinheiro. 
Tanta sorte nós tivemos 
Que muitas viagens fizemos 
Nas terras do estrangeiro.

[...]

Era boa a nossa sorte 
E n]ao mudava um segundo 
Ninguém pensava na morte 
E o céu era aqui no mundo. 
Na refeição nós comia 
Das melhores iguarias 
Sem falar de carne e arroz 
E por isso muita gente 
Ficava rangendo os dentes 
Com ciúmes de nós dois.

Foi uma coisa badeja 
A vida que eu desfrutei, 
Mas para quem tiver inveja 
Dessa vida que levei 
Com tanta felicidade, 
Eu vou dizer a verdade, 
Pois não engano ninguém. 
Aquele anjinho risonho 
Eu vi foi durante um sonho; 
Mulher nunca me quis bem!

A história não foi verdade, 
Todo sonho é mentiroso 
Aquela felicidade 
De tanto luxo e de gozo 
Sem o menor sacrifício, 
Foi negócio fictício, 
Não foi coisa verdadeira. 
Eu fiquei dando o cavaco: 
“Este alimento fraco 
Só dá para sonhar besteira.”

De noite eu tinha jantado 
Um mucunzá sem tempero 
E acordei alvoroçado 
Sem mulher e sem dinheiro; 
Ainda reparei bem 
Para vê se via alguém 
De junto de minha rede 
Mas, em vez de tudo aquilo 
Só ouvi cantando o grilo 
Nos buracos da parede.

Quando acordei estava só 
Sem ter ninguém do meu lado, 
Era muito mais melhor 
Que eu não tivesse sonhado. 
Quem já vai no fim da estrada 
Levando a carga pesada 
De sofrimento sem fim, 
Doente, cansado e fraco 
Vem um sonho enchendo o saco 
Piorar quem já está ruim.”

Patativa do Assaré. In: Hélder Pinheiro e Ana Cristina M. Lúcio. Cordel na sala de aula. São Paulo, Duas Cidades, 2001.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 185-187.

Entendendo o cordel:

01 – Nos dois primeiros estrofes, o eu lírico faz uma descrição detalhada da aparência da mulher amada. Que recurso comparativo ele utiliza para expressar essa beleza e como ele define a reciprocidade desse amor?

      O eu lírico compara a mulher a um anjo, afirmando que ela era o "retrato dum anjo" e a criatura mais bonita "de cima de nosso chão". Quanto à reciprocidade, ele deixa claro que o sentimento era mútuo e exclusivo, pois afirma ter sido o único merecedor e "dono de todo carinho daquele anjo encantador".

02 – No terceiro estrofe, o poeta recorre a uma metáfora popular e a descrições cotidianas para explicar a sintonia do casal. Explique a metáfora utilizada e como era a dinâmica de comunicação entre eles.

      A sintonia do casal é coroada com a metáfora "Nem faca na bainha", que expressa um encaixe perfeito, ou seja, que eles combinavam perfeitamente. A dinâmica de comunicação era marcada pela busca mútua e atenção constante: quando se olhavam, já havia reciprocidade no olhar e, se um não podia ir conversar, o outro tomava a iniciativa de ir ao seu encontro.

03 – O eu lírico descreve uma vida de extrema riqueza e ostentação. Quais são os luxos e prazeres mencionados por ele que contrastam drasticamente com a realidade da maioria das pessoas?

      Ele menciona possuir "prata, ouro e cobre" em abundância, afirmando que o dinheiro em suas mãos era tanto que parecia "lixo em casa de gente pobre" e que tinha notas "de ruma". Entre os luxos usufruídos pelo casal, destacam-se as idas frequentes ao cinema, teatro e dramas, viagens de avião e viagens internacionais para "terras do estrangeiro", além do consumo de refeições com as "melhores iguarias".

04 – Qual é a grande reviravolta (clímax) que ocorre no poema e como ela altera o sentido de tudo o que foi narrado até então?

      A reviravolta ocorre quando o eu lírico revela que toda aquela vida de riqueza, viagens e felicidade ao lado da mulher perfeita não passou de um sonho. Ele confessa que "mulher nunca me quis bem" e que a história era mentira, transformando o tom do poema de um relato romântico e triunfante para uma realidade de solidão e desilusão.

05 – O que o eu lírico aponta, no plano real, como a causa física e biológica para ter tido um sonho tão fantasioso e cheio de luxos?

      O poeta atribui o sonho fantasioso à sua alimentação precária daquela noite. Ele revela ter jantado apenas "um mucunzá sem tempero" e conclui, de forma bem-humorada e irônica, que aquele "alimento fraco só dá para sonhar besteira".

06 – Ao acordar do sonho, qual é o cenário real que o eu lírico encontra ao seu redor e como esse ambiente é descrito?

      Ao acordar alvoroçado, ele se depara com a mais completa solidão e pobreza. Ele percebe que está deitado em uma rede, sem mulher e sem dinheiro. Em vez do luxo sonhado, o ambiente é silencioso e precário, restando-lhe apenas ouvir o canto de um grilo saindo "nos buracos da parede".

07 – No último estrofe, o eu lírico reflete sobre o impacto de sonhar acordado para quem já vive uma realidade difícil. Qual é a conclusão dele sobre os efeitos desse sonho em sua vida atual?

      O eu lírico conclui que o sonho, em vez de trazer alento, acabou por piorar o seu estado. Para quem já está no "fim da estrada" carregando uma "carga pesada de sofrimento sem fim", estar doente, cansado e fraco e ter um vislumbre de falsa felicidade só serve para "encher o saco" e trazer mais frustração ao acordar e encarar a dura realidade.

 

 

CORDEL: INFÂNCIA - UM LUGAR DE FLORESCER - COM GABARITO

 Cordel: Infância – Um lugar de florescer

18 de maio é lembrança
Pra memória não morrer.
É lembrar de um passado
Que não se pode esquecer.
Toda criança violentada,
Toda história silenciada
Precisa reaparecer.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjby_hXPagDFWAQL7vv9HcLk2dbE0pZiET6k9MYuYZX7Jp2KEYwemRY8xKfWRtjv87EAEUFboHZEo6p1qqXWk0kg91Zf278DebvxoD9SOtd45D67RbHA-O57BLhEFyiErdN3btow1RscOh5Xb1n6_TvtpR5uDvOeeVRwIr99NkMORIvxXMwfl-huiZ-Cb4/s1600/CORDEL.jpg

Entendendo o cordel:

 

01 – Qual é o principal objetivo desse cordel?

      O objetivo principal do cordel é conscientizar as pessoas sobre a importância de proteger as crianças e adolescentes contra a violência, reforçando o dever de denunciar abusos e acolher as vítimas.

 

02 – No poema, o que a cor laranja e a flor simbolizam?

      A cor laranja representa a campanha de combate ao abuso infantil (Maio Laranja) e a flor simboliza a infância como uma "vida delicada" que precisa de cuidados, afeto e espaço seguro para crescer e florescer.

 

03 – De acordo com a terceira estrofe, como devemos agir quando uma criança pede ajuda?

      Devemos acolher o pedido com respeito e empatia. O texto destaca que a "escuta é um abrigo", ou seja, é preciso ouvir a criança com atenção e seriedade, indo além de leis ou burocracias ("papelada").

 

04 – Quem, segundo os versos, tem a responsabilidade de perceber e denunciar situações suspeitas?

      A responsabilidade é de toda a sociedade. O cordel deixa isso claro ao citar que "seja pai, vizinho ou tia", todos devem ficar atentos e agir.

 

05 – Qual é o canal de denúncia indicado no cordel e como ele deve ser usado?

      O canal indicado é o Disque 100. Ele deve ser usado sem medo ("sem se esconder") sempre que houver qualquer suspeita de violência ou abuso contra crianças e adolescentes.

06 – Explique o significado do último verso: "A infância é um lugar de florescer".

      Significa que a infância deve ser um período de vida seguro, saudável e feliz, onde a criança receba amor, proteção e estímulos para se desenvolver plenamente, livre de traumas e violências.

 

CONTO: A HISTÓRIA DE IAÇÁ - SUELY MENDES BRAZÃO - COM GABARITO

 Conto: A HISTÓRIA DE IAÇÁ

           Suely Mendes Brazão

        A bela índia Iaçá, da tribo dos caxinauás, apaixonou-se por Tupá, filho do deus supremo, Tupã.

 
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi7OPvuvXwHZWbhrtWdCk3wcXeWn_eseWxnPboJr2BIcjbKmi788tLOfI8FL7hF3Ryhhyphenhyphenx2NZO7L1Kgw7gUVVLiUH9vm7QZdIqi1u3uRj0w1kyxZ_Xrf88xZJ4QjBW4-lci93zWMAf5Y_yobCp-CSRRjVQdNOil6YGk9WGUcBYeas7uoP2yzsiBm6MivDA/s1600/IA%C3%87A.jpg

        Com muita inveja de Tupá, o demônio Anhangá resolveu tomar sua noiva. Para isso, propôs à mãe de Iaçá que impedisse o casamento da filha, dando-lhe em troca caça e pesca abundantes para o resto da vida.

        Interesseira, a mãe de Iaçá proibiu-a de ver Tupá e marcou logo o casamento da filha com Anhangá.

        Triste e desesperada, a jovem não tinha outra saída, mas pediu a Anhangá que a deixasse ver Tupá pela última vez, nem que fosse de longe. Ela sabia que, depois de casada, teria de ir para o interior da terra, para o inferno, onde morava Anhangá, e nunca mais poderia chegar perto de Tupá, que vivia no céu, junto com seu pai, Tupã.

        Anhangá resolveu atender ao pedido da moça, mas com uma condição: ela teria de fazer um corte em seu braço, para que o sangue pingado fosse formando um rastro em sua subida ao céu; desse modo, o demônio poderia acompanhar sua caminhada.

        No dia do casamento, pouco antes da cerimônia, Iaçá partiu para sua última visita a Tupá. E o sangue de seu braço foi formando um arco vermelho no céu.

        Tupá, que era muito poderoso, mandou que o sol, o céu e o mar fizessem companhia à jovem em sua viagem, descrevendo outros três rastros, ao lado do risco vermelho, para confundir Anhangá. O sol, Guaraci, traçou um arco amarelo; o céu, Iuaca, um arco azul-claro; e o mar, Pará, um arco azul-escuro.

        Iaçá, porém, não conseguiu chegar ao céu, nem ver Tupá: muito enfraquecida, foi caindo lentamente em direção à terra. Seu sangue misturou-se primeiro com o traçado amarelo de Guaraci, formando um rastro laranja, e depois com o arco azul de Iuaca, descrevendo outro rastro, cor de violeta.

        Quando chegou à terra, Iaçá não foi para o inferno, nem se casou com Anhangá. Morreu numa praia, banhada pelo mar e pelos raios de sol. De seu corpo, subiu ao céu um arco verde, formado pela mistura do azul de Pará com o amarelo de Guaraci. Era o sétimo arco, que acompanhava a trajetória dos seis anteriores. É por isso que o arco-íris tem sete cores e sempre aparece no céu em forma de arco...

BRAZÃO, Suely Mendes. Como surgiram os seres e as coisas. Co-edição Latino-americana. São Paulo, Ática, 1997. p. 13-6.

Fonte: Linguagem Nova. Faraco & Moura. 6ª série. 17ª edição, 2ª impressão. Editora Ática. São Paulo. 2003. p. 24-25.

Entendendo o conto:

01 – Qual foi o conflito principal que desencadeou a separação de Iaçá e Tupá, e qual foi a motivação do personagem que causou esse impedimento?

      O conflito principal surge quando o demônio Anhangá, motivado pela inveja de Tupá, decide tomar Iaçá como sua noiva. Para conseguir o que queria, ele propõe um pacto de interesse com a mãe da jovem índia, oferecendo caça e pesca abundantes para o resto da vida em troca do cancelamento do casamento de Iaçá com Tupá. A mãe aceita a proposta por puro interesse material, proibindo a filha de ver seu amado e marcando o casamento dela com o demônio.

02 – Para se despedir de Tupá, Iaçá precisou aceitar uma condição imposta por Anhangá. Explique que condição foi essa e qual era o objetivo real do demônio ao exigi-la.

      Anhangá permitiu que Iaçá visse Tupá pela última vez, desde que ela fizesse um corte em seu próprio braço. O objetivo do demônio era que o sangue pingado da jovem formasse um rastro vermelho no céu durante a subida, permitindo que ele monitorasse, seguisse e controlasse os passos de Iaçá em sua caminhada em direção ao céu.

03 – Como Tupá reagiu para proteger Iaçá da perseguição de Anhangá durante a viagem dela, e quais elementos da natureza o ajudaram nessa estratégia?

      Sendo muito poderoso, Tupá ordenou que três elementos da natureza fizessem companhia a Iaçá e criassem rastros coloridos no céu ao lado do risco vermelho de sangue, com o intuito de confundir Anhangá. Os ajudantes foram: o Sol (Guaraci), que traçou um arco amarelo; o céu (Iuaca), que traçou um arco azul-claro; e o mar (Pará), que descreveu um arco azul-escuro.

04 – De acordo com o texto, o enfraquecimento e a queda de Iaçá resultaram na mistura de cores no céu. Explique como surgiram os rastros laranja e violeta na narrativa.

      Devido ao sangramento no braço, Iaçá ficou muito enfraquecida e começou a cair lentamente em direção à Terra. Durante essa queda, o seu rastro de sangue (vermelho) misturou-se primeiro com o traçado amarelo do sol (Guaraci), gerando a cor laranja. Em seguida, o sangue misturou-se com o arco azul do céu (Iuaca), descrevendo o rastro cor de violeta.

05 – O conto de Suely Mendes Brazão funciona como um mito de criação (uma narrativa que explica a origem de um fenômeno natural). Qual é o desfecho de Iaçá e como ele explica a origem do arco-íris e suas sete cores?

      Iaçá não chega ao céu e nem vai para o inferno com Anhangá; ela morre em uma praia, banhada pelo mar e pelo sol. No momento de sua morte, um sétimo arco, de cor verde, sobe de seu corpo ao céu, gerado pela mistura do azul do mar (Pará) com o amarelo do sol (Guaraci). A união desse último arco aos seis traçados anteriores (vermelho, amarelo, azul-claro, azul-escuro, laranja e violeta) explica, de forma lendária, por que o arco-íris possui sete cores e tem o formato de um arco.

 

MÚSICA (ATIVIDADES): MÁSCARA NEGRA - ZÉ KETI E PEREIRA MATOS - COM GABARITO

 Música (Atividades): Máscara Negra

            Zé Keti e Pereira Matos

Tanto riso, oh quanta alegria
Mais de mil palhaços no salão
Arlequim está chorando pelo amor da Colombina
No meio da multidão.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEghSXDwrs65qWv8HK-W4r_9pEZRuzhkkU2aLKObSu4r6Hq02aioa8DNYasrOGqo07GDUCN4uRAvEeNd-7xuw-7wozvSOn4r-Fb7IFx-TFurhW2W9XA4cBNca_GSZjTMnih86aixYzxAdL7nXSe6-JAGlgwZ2Wy3pf2AwHwa8n_EdmVMsiFLi57lMUPTbyI/s320/MASCARA.jpg


Foi bom te ver outra vez
Tá fazendo um ano
Foi no carnaval que passou
Eu sou aquele pierrô
Que te abraçou
Que te beijou, meu amor
Na mesma máscara negra
Que esconde o teu rosto
Eu quero matar a saudade.

Vou beijar-te agora
Não me leve a mal
Hoje é carnaval.

Composição: Zé Kéti, Pereira Matos. Saudade seresteira. Belo Horizonte, Leme. v.2, p. 218. [Marcha-rancho gravada por Dalva de Oliveira para o carnaval de 1967.

Fonte: Linguagem Nova. Faraco & Moura. 6ª série. 17ª edição, 2ª impressão. Editora Ática. São Paulo. 2003. p. 57.

Entendendo a música:

01 – A primeira estrofe da música estabelece um forte contraste de sentimentos no ambiente do salão. Explique que oposição é essa e quais personagens a protagonizam.

      O contraste ocorre entre a euforia coletiva do Carnaval e a tristeza individual de um dos personagens. Enquanto o salão está repleto de "tanto riso", "quanta alegria" e "mais de mil palhaços", o Arlequim aparece chorando "no meio da multidão" pelo amor perdido da Colombina.

02 – O eu lírico da canção se identifica explicitamente na segunda estrofe. Quem é ele, com quem ele está falando e qual é o contexto temporal desse reencontro?

      O eu lírico se identifica como o Pierrô ("Eu sou aquele pierrô"). Ele está falando com uma mulher que reencontrou no salão de festas. Esse reencontro acontece exatamente um ano após o primeiro envolvimento deles, que também ocorreu no Carnaval passado.

03 – Qual é a importância do objeto que dá título à música ("máscara negra") para o desenrolar da narrativa e o que ela simboliza no contexto da festa?

      A máscara negra serve para esconder o rosto da mulher amada, mantendo o mistério de sua identidade. No contexto da marchinha e do próprio Carnaval, ela simboliza o disfarce, a fantasia e a liberdade de agir sob o anonimato, permitindo que os afetos do passado sejam revividos no salão.

04 – Na segunda estrofe, o Pierrô relembra as ações que marcaram o envolvimento do casal no ano anterior. Quais foram essas ações e qual é o desejo dele no presente?

      O Pierrô relembra que, no Carnaval passado, ele a abraçou e a beijou. No presente, motivado pela lembrança e ao ver que ela usa a mesma máscara negra, o desejo dele é "matar a saudade" daquele momento.

05 – Na última estrofe, o eu lírico faz um pedido para a sua amada ("Não me leve a mal"). Como ele justifica a sua ousadia e o seu comportamento impetuoso de querer beijá-la imediatamente?

      Ele justifica sua ousadia com o argumento de que "hoje é carnaval". Essa expressão resume a ideia tradicional de que o Carnaval é uma época de permissividade, em que as regras sociais rígidas são temporariamente suspensas e os impulsos de amor e prazer são perdoados e aceitos.