terça-feira, 16 de janeiro de 2024

CRÔNICA: APRISIONANDO PASSARINHOS - VIRIATO CORRÊA - COM GABARITO

 Crônica: Aprisionando passarinhos

              Viriato Corrêa

        Foi Ninico da Totonha quem me ensinou a armar as primeiras arapucas.

        Não havia menino mais hábil para apanhar passarinhos. Vivia armando laços e alçapões por todas as árvores e por todas as moitas. Raro o dia em que não nos maravilhava com uma rola, um corrupião, uma graúna ou um xexéu, apanhados vivos nas armadilhas.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgMjLBBnvq9SSxolNdfL-WegoFFWLqtSSiuW8VllZca1JDKaqp0Wh-03aeO2tLLV94mIPMAjWaUlSRiO-gi9_y8UXNTbLnxfoHZ4xmcfmQxDQP-IxuIpoVucZlvuPX-M9NcGjFrcIlq18_K2tpXN3FpEWBxQsXgToFwatBbZ9N6mjbgaTfjj9JowqpQfzU/s1600/ARAPUCA.jpg


        A primeira vez que apareci em casa com uma pombinha implume, tirada do ninho, minha mãe me ralhou:

        — Isso não se faz, meu filho, disse-me com a sua voz de veludo. Essa pombinha tem mãe, e a esta hora a pobre mãe está inquieta, à procura dela. Tu gostarias de me ver sofrer?

        — Não, não mamãe, respondi prontamente.

        — Pois a dor que eu sentiria se alguém te levasse para sempre de perto de mim, está sentindo a mãe desta pombinha. Os bichos também têm coração. Amam-se, querem-se bem como nós.

        Passaram-se os dias e eu me esqueci das palavras de mamãe. Um corrupião andava a cantar, todas as manhãs, na cerca da casa de moer cana. Armei o alçapão e apanhei-o. Minha mãe contrariou-se.

        — Cazuza, eu já te disse que isso não se faz! falou-me severamente.

        — Mas este não foi tirado do ninho, expliquei-lhe. Já é grande, não tem mãe.

        — Mas tinha liberdade e tu lhe roubaste a liberdade. Deus fez as aves para viverem livremente no espaço e tu queres encerrá-las nas grades de uma gaiola.

        — Mas eu lhe dou comida, água, tudo, acrescentei. Ela me pegou pelo braço.

        — Onde mamãe me vai levar? indaguei assustado.

        — Vou prender-te no quarto, uma semana, duas semanas, um mês.

        — Não, não! bradei.

        — Mas eu te dou água, comida, tudo. Por que não queres?

        — Porque é ruim, respondi. Assim não brinco, não corro, não vejo nada.

        — Ah! exclamou mamãe. Então a comida, a água, não bastam. É preciso a liberdade. Pois essa liberdade que tu não podes dispensar, é a liberdade que queres tirar ao corrupião. A prisão que te assusta é a prisão que queres dar ao pássaro.

        Fiquei silencioso. Eu não tinha mesmo nada para responder. Mamãe aproveitou o meu silêncio.

        — Solta o bichinho, ordenou-me com a voz macia. Soltei-o.

        O pássaro, que estava medroso e trêmulo nas minhas mãos, saiu radiantemente, janela afora, batendo as asas pelo infinito azul, em largos voos de alegria.

        Mas, dias depois, de novo me esqueci dos conselhos de minha mãe.

        O Ninico da Totonha era, na verdade, uma tentação. Contou-me, uma tarde, das arapucas que estava armando para os lados do igarapé. Em breve teria gaiolas cheias de juritis, sururinas, pecoapás e jaçanãs. Deu-me vontade de também armar arapucas.

        O Ninico foi comigo, no mato, escolher o lugar em que eu deveria armá-las.

        Era um cantinho quieto, ao fundo de um cerrado de cipós, debaixo do toldo de um grande pé de maracujá.

        Durante uma semana nada me caiu nas armadilhas.

        Mas, uma tarde, ao aproximar-me do toldo de maracujá, ouvi de longe um pio angustiado. E, ao entrar debaixo da coberta de folhas, senti um áspero rumor de asas por entre os cipós e distingui o vulto negro de uma ave fugindo.

        O coração bateu-me fortemente. Na maior das arapucas estava um filho de jacamim.

        Tive pressa em tirá-lo lá de dentro.

        Acocorei-me, suspendi levemente a arapuca e segurei a avezinha pelas pernas.

        Mas, nesse momento, senti inesperadamente, nas costas, uma verdadeira descarga de bicadas.

        Voltei-me espantado. Era um jacamim, maior que uma galinha, com certeza a ave que fugira quando cheguei.

        Deveria ser a mãe do jacaminzinho.

        Ao ver-me com o filho na mão, investiu contra mim, às bicadas, numa fúria que me desarmou.

        Percebi que me visava os olhos: um golpe alcançou-me em cheio o nariz.

        De cócoras, não me era possível lutar com a ave. Eu conhecia a coragem e a bravura dos jacamins. Tinha-os visto brigar com perus, gaios e até mesmo cães.

        Ergui-me. A ave não se intimidou. Arremessou-se contra mim mais violentamente, bicando-me os pés e as pernas.

        Só com a mão esquerda eu não me podia defender. Com a direita segurava o jacaminzinho pelas canelas.

        Fui recuando, recuando, a ver se conseguia encontrar a saída.

        Mas os meus pés embaraçaram-me num cipó. Caí.

        A ave atirou-se loucamente em cima de mim. Um berro horrível saiu-me da boca. Uma bicada me havia alcançado o olho esquerdo. O jacaminzinho escapou-me da mão.

        Cego, gritando de dor, o rosto molhado de sangue, pus-me a tatear por entre a folhagem sem encontrar o caminho para sair.

        De novo, tropecei num cipó. De novo, rolei no chão.

        E foi numa casa de maribondos que eu tive a desgraça de cair. Na cabeça, no rosto, em todo o corpo senti uma verdadeira chuva de ferroadas.

        Botei a boca no mundo, a berrar desesperadamente.

        O Lourenço Sapateiro, que na ocasião passava na estrada, foi quem me levou para casa.

        O meu estado era miserável. A bicada do jacamim ferira-me o canto do olho esquerdo. Faltou um nada para me furar o globo ocular.

        Os maribondos transformaram-me numa cadeia de montanhas — calombos de alto a baixo do corpo. Os lábios, ferroados, cresceram, incharam, dando-me ao rosto o aspecto estranho de um bicho.

        Durante duas semanas fiquei no quarto gemendo.

        — Foste castigado, disse minha mãe, ao ver-me entrar gritando de dor. Foste castigado por duas faltas. Uma, a maldade de querer tolher a liberdade alheia; outra, a desobediência aos meus conselhos. Deus não gosta dos meninos maus e desobedientes.

Viriato Corrêa. Cazuza. 27. ed. São Paulo: Nacional, 1997. p. 16-7.

Entendendo a crônica:

01 – Qual foi a primeira lição sobre armar armadilhas que o narrador recebeu?

      Foi Ninico da Totonha quem ensinou o narrador a armar as primeiras arapucas.

02 – Por que a mãe do narrador repreendeu-o quando ele trouxe uma pombinha implume pela primeira vez?

      Porque a mãe explicou que os animais também têm sentimentos, amor e que roubar a liberdade deles não é correto.

03 – Qual foi a reação da mãe do narrador quando ele capturou um corrupião, alegando que não foi tirado do ninho?

      A mãe contrariou-se e explicou que mesmo que não tenha sido tirado do ninho, o pássaro tinha liberdade, e prendê-lo era errado.

04 – Como o narrador reagiu ao ser ameaçado de ser preso no quarto pela mãe?

      O narrador bradou e protestou, mas acabou soltando o pássaro ao comando da mãe.

05 – O que aconteceu quando o narrador decidiu armar arapucas após ser influenciado por Ninico da Totonha?

      O narrador acabou capturando um filhote de jacamim, e a mãe da ave o atacou furiosamente, causando-lhe sérios ferimentos.

06 – Como a mãe do narrador interpretou o acontecido com o jacamim e o ferimento do narrador?

      A mãe interpretou como um castigo divino, relacionando os ferimentos do narrador à maldade de querer tolher a liberdade alheia e à desobediência aos seus conselhos.

07 – Por que a mãe do narrador afirmou que ele foi castigado por duas faltas?

      A mãe disse que o narrador foi castigado por querer tolher a liberdade dos passarinhos e por desobedecer aos conselhos maternos.

 

 

CRÔNICA: CANTADORES DE VIOLA - VIRIATO CORRÊA - COM GABARITO

 Crônica: Cantadores de viola

              Viriato Corrêa

        No povoado, a festa mais bonita do Natal era no sítio do João Raimundo, o lavrador que fazia anualmente a maior colheita de algodão.

        Festa de papouco. Brincava-se, cantava-se e dançava-se dois dias e duas noites.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjkUC26nEV9FEnJrORa2Pr_-YsfKdNxcyOLD1QC2OdiSBN6O1lW_Ji9Dh5DTYbTJaaknaE-XcLdTnzw2Po5xe2heT9W19EdTSyQl0OI0ZIEhYzQQwP9owzeiWQ1yg6eddSYpO3UwDXm1E7wo0ZXMa7zggcsgkWwkMDY_wLAF-94J2bBwACIi0tSvUg_dhw/s1600/FESTA.jpg


        Nos lugarejos da roça, o Natal é a grande quadra dos "sambas". Em toda palhoça uma festa. Violas, sanfonas e cavaquinhos enchem de música todos os terreiros.

        O "samba" do João Raimundo começava ao amanhecer de 24 de dezembro. Mal o sol ia apontando no céu quando as ronqueiras estrondeavam nos ares.

        Quando a manhã nascia, o terreiro estava todo plantado de arírís, enfeitado de arcos de píndoba e bandeirolas de papel. No centro, um grande mastro com a figura do menino Deus pregada na bandeira que tremulava no alto.

        Junto à casa — a latada coberta de murta e palmas verdes. Era debaixo da latada que se dançava.

        A festa do João Raimundo tinha fama por aquelas redondezas.

        Convidavam-se os melhores tocadores de viola. Apareciam dois ou quatro cantadores para o "desafio". As mais queridas dançadeiras de chorado não deixavam de vir dançar. Havia comida para se botar fora.

        Os convidados iam chegando pela manhã. E, logo que entrava o primeiro tocador de sanfona ou de viola, começavam as danças.

        Nós, as crianças, íamos para a sombra das jaqueiras brincar o dia inteiro.

        À noite é que a festa crescia e ficava bonita. Nada menos de seis, oito violas, três ou quatro cavaquinhos, rabecas, flautas e pandeiros.

        Na latada e na varanda, dançava um mundo de gente. No terreiro, lavado de luar, estrondeavam de quando em quando as ronqueiras.

        Devia ser meia-noite e eu já cochilava no regaço de minha mãe, quando o Manduca me veio prevenir que o "desafio" não tardaria a começar.

        Corri à latada. Dançava-se vivamente.

        Para a gente matuta, não há nada mais importante numa festa do que o "desafio" entre dois famosos cantadores de viola. Suspendem-se as danças para que todo mundo os ouça em silêncio.

        Os cantadores que se iam medir aquela noite, eram o José Firmino e o Pedro Jeju, os mais festejados daquela beirada de rio. Ninguém queria perder uma palavra da luta que eles iam travar em versos.

        O João Raimundo bateu palmas no meio da latada impondo silêncio:

        — Minha gente, vamos ouvir estes dois "turunas".

        Zoou no ar um quente repinicado de primas e bordões de violas. Os dois cantadores sentaram-se frente a frente.

        Versos de cá, versos de lá, a cruzarem-se. Um improvisava uma quadra ou uma sextilha ou uma oitava e o outro imediatamente respondia com uma oitava ou uma quadra ou uma sextilha.

        No começo, cada um deles disse, em versos, quem era, como nascera, de onde tinha vindo. Cinco minutos depois, começaram a gabar-se de feitos maravilhosos.

        O Pedro Jeju, dedilhando assanhadamente as cordas da viola, soltou a primeira gabolice:

— José Firmino acredite,

                                  Não gosto de me gabar,

Mas quando pego a viola,

Quando começo a cantar,

  Saem da cova os defuntos,

                                  Os peixes saem do mar,

Os anjos descem do céu,

                                   E tudo vem me escutar.

        O José Firmino quase não deixou que o companheiro acabasse o último verso, e cantou de viola estendida no peito:

— Eu não tenho inveja disso,

                               Sou valente, valentão,

                               Canguçu é meu cavalo,

                               Cascavel meu cinturão,

                               Eu engulo brasa viva,

                               Pego corisco com a mão,

                               Um empurrão do meu dedo

                               Bota dez morros no chão.

        O Pedro Jeju respondeu:

— Você pode ser valente,

                                  Habilidoso não é.

                                  Eu calço chinelo em cobra,

                                  Boto guizo em jacaré,

                                  Asso manteiga no espeto,

                                  Faço o tempo andar à ré,

                                  Carrego água em peneira,

                                  Dou beijos em busca-pé.

        O povo aplaudia com palmas e gritos. José Firmino olhou o cantador de alto a baixo e improvisou:

— Isso tudo não é nada,

                                   Não me pode amedrontar:

                                   Paro o vento quando quero,

                                   Já fiz o sol esfriar,

                                   Bebo chumbo derretido,

                                   Sem o chumbo me queimar,

                                   Seguro as onças no mato,

                                    Para meu filho mamar.

        O outro acelerou os dedos nas cordas da viola e respondeu:

              — Se eu for contar minhas artes

                                   Não acabo nunca mais;

                                   Para apagar os incêndios

                                   Uso breu e aguarrás,

                                   Eu ponho luneta em pulga,

                                   E gravata em Satanás,

                                   Eu faço gelo com brasa,

                                   Coisa que você não faz,

                                   Faço o carro andar na frente,

                                   Faço o boi andar atrás.

        E ergueu-se. José Firmino ergueu-se também. Eram ambos fortes no desafio. Não haveria vencido nem vencedor. Não valia a pena teimar.

Viriato Corrêa. Cazuza. 27. ed. São Paulo: Nacional, 1997. p. 16-7.

Entendendo a crônica:

01 – Qual é o cenário principal da festa de Natal descrita na crônica?

      A festa de Natal acontece no sítio do lavrador João Raimundo, onde ocorre a maior colheita de algodão.

02 – Como se caracteriza a festa de Natal no povoado descrito na crônica?

      A festa é animada, com brincadeiras, danças e música, principalmente com a presença de violas, sanfonas e cavaquinhos.

03 – Quem eram os cantadores famosos convidados para o "desafio" na festa?

      José Firmino e Pedro Jeju eram os cantadores famosos convidados para o desafio na festa.

04 – O que caracteriza a importância do "desafio" entre os cantadores na festa?

      O "desafio" entre os cantadores é considerado muito importante, a ponto de suspenderem as danças para que todos possam ouvi-los em silêncio.

05 – Quais são algumas das habilidades mencionadas pelos cantadores durante o "desafio"?

      Os cantadores mencionam habilidades como parar o vento, fazer o sol esfriar, beber chumbo derretido, entre outras.

06 – Como o povo reage ao "desafio" entre José Firmino e Pedro Jeju?

      O povo aplaude com palmas e gritos durante o "desafio" entre José Firmino e Pedro Jeju.

07 – Qual é o desfecho do "desafio" entre José Firmino e Pedro Jeju?

      Não houve vencedor no "desafio". Ambos os cantadores mostraram-se fortes, e a crônica sugere que não valia a pena insistir na busca de um vencedor.

 

 

CRÔNICA: O PATA-CHOCA - VIRIATO CORRÊA - COM GABARITO

 Crônica: O Pata-choca

              Viriato Corrêa

        O Hilário bradou em pleno silêncio do exercício de escrita: — Professor, o Pata- choca está comendo terra! João Ricardo pousou nas pernas o jornal que estava lendo, ergueu os óculos para a testa e chamou: — Evaristo, venha cá!

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiBd5_sPAz5fOPRb91tSd__ay2Xq8OK7bQY2a0AhdXP59YEe7Zqm_0JeeSVwZnyNP7FYwVBHGU655EumsyniJYbSjwo4cSzrSSipZJxXw6ZDio2T5WNDPNRhpfDtvJlEf_NvAQijy7xSWavKJfITp-NZD62MJwxT1K-yKTc-Ujhl3dq32B0-9p02lIOpGI/s1600/PATA.jpg


        Vagaroso, mole, pesadão, o Pata-choca arrastou-se até a grande mesa próxima à parede.

        — Abre essa boca!

        Ele não fez um movimento. O professor segurou a régua.

        — Abre essa boca, estou mandando. O pequeno obedeceu. Era verdade: a língua, as gengivas, os dentes estavam cheios de terra.

        Os "bolos" começaram a ressoar. De repente, João Ricardo parou, atirando à palmatória para cima da mesa.

        — Não lhe dou mais, disse. É a décima ou vigésima vez que o castigo porque come terra. Se eu for castigá-lo como merece, rebento-lhe as mãos. O melhor é entregar você a seu pai.

        E para o Caetano, que se sentava no banco atrás do meu:

        — Dê um pulo, ali, à casa do Chico Lopes e peça que ele venha aqui.

        O Pata-choca era o aluno mais atrasado da escola. Havia bastante tempo que lá estava e não conhecia, sequer, as letras do alfabeto.

        Talvez já tivesse dez anos, mas, pela inteligência, não parecia ter mais de cinco.

        O povoado inteiro o considerava o modelo do menino que não dá para nada.

        — Se não abrires os olhos, diziam as mães aos filhos que não sabiam as lições, se não abrires os olhos, tu acabas como o Pata-choca.

        Era um pequeno amarelo, feio, desmazelado, carne balofa, olhos mortos, barriga muito grande e pernas muito finas. Vivia silencioso, boca aberta, cochilando nos bancos, com um eterno ar de cansaço, como se a vida lhe fosse um grande sacrifício.

        Começou a comer terra quando ainda engatinhava.

        O pai (ele não tinha mãe) dava-lhe surras tremendas, de lhe deixar o corpo moído e de levá-lo à cama.

        Mas nada o corrigia. Ao apanhar distraídas as pessoas de casa, atirava-se aos torrões de terra, comendo-os gulosamente.

        Vivia machucado de pancadas, doentinho, o ar de fadiga, o ar estúpido, malquerido da gente grande e desprezado pelas próprias crianças.

        Não havia nada que o acordasse daquela moleza. Se ralhavam com ele, parecia que o ralho lhe entrava por um ouvido e lhe saía pelo outro. Se lhe davam bordoada, chorava um instante, enquanto as pancadas doíam, mas voltava imediatamente à expressão de indiferença e de embrutecimento.

        Ao ver o pai entrar na sala, não se mexeu. Estava encostado à parede e encostado ficou, como se lhe não interessasse nada daquilo.

        O Chico Lopes veio até à mesa do professor, pálido, chapéu na mão, ar constrangido.

        — Já sei, disse depois de encarar o filho, foi ele que fez alguma. É a minha vergonha, professor, este menino é a minha vergonha!

        — É mesmo! afirmou João Ricardo. Não é mais possível aturá-lo. Leve-o, leve-o de uma vez. O senhor é pai, pode fazer o que quiser. Eu é que não posso mais fazer nada. São três anos. Durante três anos castiguei-o, dei-lhe bordoada, fiz tudo que estava nas minhas forças e nada, absolutamente nada consegui. Leve-o, leve-o, que eu perdi completamente a paciência!

        O Chico Lopes machucou nervosamente o chapéu nos dedos e rebateu energicamente:

        — Não, professor! O senhor vai ficar com ele! O senhor vai dar-lhe ensino! Por que não? Porque tem medo de esbofeteá-lo demais? Não tenha medo nenhum! Dê-lhe a bordoada que quiser! Está autorizado por mim.

        E com a voz tocada de emoção:

        — Eu, como pai, lhe peço: fique, fique com o menino! O que eu não quero é que, amanhã, ele seja um animal como eu!

        O mestre-escola abrandou. Cedeu.

        — Está bem! Está bem! Vou tentar, vou fazer o possível. No dia seguinte o Pata-choca entrou na escola cheio de machucões nos braços e no rosto. Havia apanhado brutalmente em casa.

        João Ricardo preveniu-lhe:

        — Hoje, ou você dá a lição certinha ou eu lhe ponho a orelha de burro".

        À tarde, o pequeno deu a lição pior do que nos outros dias. O professor terminou as aulas mais cedo que de costume.

        — Podem ir embora, disse-nos. Quero que vejam o "burro" passar.

        Eu estava em casa, mudando a roupa, quando ouvi uma gritaria na rua. Corri ao peitoril da varanda.

        O Pata-choca vinha caminhando pesadamente. No lugar das orelhas trazia duas grandes, duas enormes orelhas de asno talhadas em papelão. Atrás, um bando de garotos, vaiando-o:

        — Olhe o burro! Olhe o burro!

        Achei uma infinita graça em tudo aquilo e tive a tentação de ir para o meio dos que gritavam, gritar também.

        Passei a perna por cima do peitoril para pular na rua. Minha mãe segurou-me fortemente pelo braço, dizendo-me com energia:

        — Não faças isso! Não vês que ele é um infeliz?

Viriato Corrêa. Cazuza. 27. ed. São Paulo: Nacional, 1997. p. 16-7.

Entendendo a crônica:

01 – Qual é o comportamento peculiar do Pata-choca que chama a atenção do Hilário durante o exercício de escrita?

      O Pata-choca está comendo terra.

02 – Como o professor João Ricardo reage ao saber que o Pata-choca está comendo terra?

      João Ricardo chama o Pata-choca e exige que ele abra a boca para verificar que sua língua, gengivas e dentes estão cheios de terra.

03 – Como o Pata-choca é descrito fisicamente e emocionalmente pelos habitantes do povoado?

      O Pata-choca é descrito como pequeno, amarelo, feio, desmazelado, com carne balofa, olhos mortos, barriga grande e pernas finas. Ele vive silencioso, com um ar de cansaço constante, como se a vida fosse um grande sacrifício.

04 – Por que o Pata-choca é considerado o modelo do menino que "não dá para nada" pelo povoado?

      O Pata-choca é considerado incapaz e inútil devido ao seu atraso escolar, falta de inteligência aparente e ao hábito de comer terra.

05 – Qual é a reação do professor João Ricardo ao comportamento repetitivo do Pata-choca de comer terra?

      João Ricardo expressa frustração e decide não castigar mais o Pata-choca, afirmando que o melhor é entregá-lo ao seu pai.

06 – Como o pai do Pata-choca, Chico Lopes, reage ao ser chamado à escola pelo professor?

      Chico Lopes pede desculpas pelo comportamento do filho e sugere que o professor continue educando o Pata-choca, mesmo que isso envolva castigos físicos, para evitar que ele se torne um "animal" como o pai.

07 – Como a crônica termina e qual é a reação do narrador ao ver o Pata-choca com orelhas de burro?

      O professor João Ricardo concorda em ficar com o Pata-choca, que entra na escola no dia seguinte com machucados. Ao final, o Pata-choca é visto com grandes orelhas de burro de papelão, e o narrador sente a tentação de rir, mas sua mãe o impede, lembrando-o de que o Pata-choca é um infeliz.

CRÔNICA: A SABATINA DE TABUADA - VIRIATO CORRÊA - COM GABARITO

 Crônica: A sabatina de tabuada

              Viriato Corrêa

        Nos dois anos e meio em que alisei os bancos da escola da povoação, não houve para mim dia pior do que aquele da sabatina de tabuada.

        Saía de casa com o coração deste tamanhinho, a pressentir coisas ruins.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjoIBoVdwyzbSpGWaYNf2E71zcYsU1GPy9jVW102ewilqRp9oTBBSATHaobIHHaKxl3M5Vg9PdN-bDju6YLPxBk9DaYvHVCTtFvsQsO3wnc8EqI0nKc4ta1boZFY4s6XN8REyLds-axgamPk22ItGeuAbRM8nziM6z6MU6J0uugJTtc3f1cPZtKHTtlRAY/s1600/TABUADA.jpg


        Eu havia assistido a vários argumentos de tabuada das classes mais adiantadas e aquilo me causara estranha confusão na cabeça.

        A sabatina de tabuada era, realmente, o grande pavor dos meninos do meu tempo.

        O professor chamava quinze, vinte, trinta alunos, colocava-os de pé, em fila, conforme a ordem de chamada, e fazia-lhes perguntas.

        A resposta devia ser dada imediatamente, em quatro ou cinco segundos. Se o aluno da ponta da fila não respondia acertadamente, o professor, com rapidez, passava ao segundo, ao terceiro, ao quarto, ao quinto, aos outros.

        Adiante, adiante, adiante, e ia ele dizendo, apressadamente, de indicador esticado, apontando menino a menino.

        Quem acertava, ia buscar a palmatória em cima da grande mesa e dava um "bolo" em cada companheiro.

        Se, de ponta a ponta, todos erravam, o professor é quem dava os "bolos" de ponta a ponta.

        As perguntas como se organizavam de propósito para embaraçar: três vezes sete, multiplicado por doze, menos cinquenta e dois, dividido por cinco.

        Em poucos segundos o aluno devia calcular mentalmente: 3 x 7 = 21, 21 x 12 = 252, 252 - 52 = 200, 200 : 5 = 40.

        Quem ficava no começo da fila não tinha tempo nenhum para isso. Os cálculos só podiam ser feitos pelos que a sorte colocava na extremidade oposta.

        Quando a pergunta chegava ao meio do caminho, já os últimos meninos agitavam o indicador da mão direita, a dizer nervosamente:

        — Eu sei, professor, eu sei.

        Não tive sorte: o professor chamou-me em terceiro lugar.

        As perguntas passavam por mim sem que eu tivesse tempo de concluir os cálculos.

        Não dei uma resposta acertada. Os "bolos" estalaram cruelmente nas minhas mãos.

        Dez minutos depois de começada a prova, eu já não suportava as palmatoadas e abria num berreiro.

        O velho João Ricardo ralhava-me sem piedade.

        — Cale essa boca! Quem não quer apanhar, estuda! Por que não estudou?

        O argumento durou hora e meia, sem uma pausa.

        Minhas mãos encheram-se de bolhas de sangue e duas delas rebentaram aos últimos "bolos".

        Quando entrei em casa, minha família estava quase toda reunida no avarandado da rua.

        Atirei-me, soluçando, aos braços de minha mãe. E quando ela me viu de mãozinhas inchadas e sangrando, voltou-se dolorosamente para meu pai.

        — Veja! Isto é coisa que se faça?

        Meu pai examinou devagar as minhas mãos.

        — Que foi isto? perguntou.

        Contei.

        Pôs-se a andar silenciosamente ao comprido da varanda, as mãos para trás e uma ruga na testa. Minutos depois exclamou com a voz abafada:

        — Eu sempre achei bárbaro o argumento da tabuada, sempre. Tio Olavo, de cigarro de palha ao canto da boca, atalhou:

        — Qual bárbaro, qual nada! No meu tempo era mais rigoroso do que hoje e ninguém morreu por apanhar. Sem palmatória é que não pode haver ensino.

        — Mas não há necessidade de arrebentar as mãos das crianças, retrucou minha mãe, com duas lágrimas brilhando nos olhos.

        Tio Olavo era um homem áspero, teimoso e que, apesar de maduro, se arrebatava facilmente como um rapaz.

        — Criança merece sempre bordoada, disse com o seu vozeirão. O professor nunca é injusto. Às vezes pensamos que ele castigou demais. É engano. Quando o castigo é demais nesta falta, serve para suprir o que foi insuficiente ou nenhum naquela outra. Bordoada nunca faz mal à criança.

        — Isso é muito fácil de dizer quando o filho é alheio, replicou minha mãe.

        E, depois de uns instantes de silêncio, afirmou com a inabalável decisão das criaturas calmas e suaves:

        — O Cazuza não vai mais à escola. Aprende aqui mesmo em casa. Depois ele aprenderá na vila.

        À noite, quando me deitei, dormi imediatamente.

        E sonhei. Um sonho muito leve, muito doce e muito bonito.

        Eu ia andando por um caminho liso quando, de repente, me surgiu uma escola diante dos olhos. Era uma escola diferente da que eu conhecia — grande, numa grande casa que parecia um palácio.

        Para chegar à porta, atravessava-se um largo jardim florido. Tinha-se a impressão de que o jardim continuava lá dentro, tantas flores lá dentro havia nos jarros, nas mesas e nos outros móveis. Pelas janelas abertas, o sol entrava luminosamente. As paredes, cobertas de mapas, quadros e desenhos, davam aos olhos um efeito deslumbrante. Havia um mundo de crianças nas salas. E tudo alegre, risonho, em liberdade. Uns escreviam, outros desenhavam, outros organizavam coleções de insetos, ou liam, ou traçavam figuras no quadro-negro.

        Estavam sentados apenas os que precisavam estar sentados; moviam-se os que tinham necessidade de se mover. E todos trabalhavam. Sentia-se que aquela gente cuidava gostosamente dos seus deveres, sem receio de castigo, sem medo de ninguém.

        E o professor que eu não via? Não era um só, eram muitos professores.

        Se não me dissessem eu não acreditava. Tinham tanta bondade no rosto, tanta brandura, delicadeza e carinho para a meninada, que eu pensei que fossem apenas companheiros mais velhos dos alunos.

        Fiquei à porta, silenciosamente, a olhar maravilhado para tudo aquilo. Um menino veio ao meu encontro.

        — Entra, disse, pegando-me a mão. Aqui não existe rigor de cadeia, nem palmatória, nem sabatinas de tabuada.

        Acordei.

Viriato Corrêa. Cazuza. 27. ed. São Paulo: Nacional, 1997. p. 16-7.

Entendendo a crônica:

01 – Por que o narrador considera a sabatina de tabuada o pior dia de sua vida na escola?

      O narrador considera a sabatina de tabuada o pior dia de sua vida na escola porque era um momento de grande pressão, com perguntas complexas e a possibilidade de receber palmatórias se não respondesse corretamente.

02 – Como o professor organizava a sabatina de tabuada?

      O professor chamava os alunos em fila, fazia perguntas de tabuada e, se o aluno não respondesse corretamente, passava para o próximo. Quem acertava ia buscar a palmatória e dava um "bolo" nos colegas.

03 – Quais eram as características das perguntas de tabuada que tornavam a tarefa mais difícil?

      As perguntas eram complexas, envolvendo operações como multiplicação, subtração e divisão em uma única pergunta, dificultando o cálculo mental em poucos segundos.

04 – Como o narrador descreve a reação dos alunos quando a pergunta chegava ao meio do caminho durante a sabatina?

      O narrador descreve que os últimos alunos na fila agitavam nervosamente os indicadores da mão direita, demonstrando ansiedade e vontade de responder à pergunta.

05 – Qual foi o resultado da participação do narrador na sabatina de tabuada?

      O narrador não teve tempo para concluir os cálculos e não deu uma resposta correta. Como resultado, recebeu palmatórias nas mãos.

06 – Como a família do narrador reagiu ao ver suas mãos machucadas após a sabatina?

      A família do narrador ficou indignada ao ver suas mãos machucadas e sangrando. A mãe questionou se era correto castigar uma criança dessa maneira.

07 – Qual foi o sonho do narrador após a experiência da sabatina de tabuada?

      O narrador sonhou com uma escola diferente, onde não havia rigidez, palmatória ou sabatinas de tabuada. Era um lugar alegre, luminoso e livre, com professores bondosos e alunos cuidando de suas tarefas sem medo de castigo.

 

CRÔNICA: O MÉDICO DO "GAIOLA" - VIRIATO CORREA - COM GABARITO

 Crônica: O médico do “gaiola”

              Viriato Corrêa

        Era um domingo. Ao amanhecer, um “gaiola” chegou ao porto, para tomar lenha.

        Logo que o vaporzinho encostou, soube-se, na povoação, que havia um médico a bordo.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgSL-1iuprykTKIQ0OMFHrRQz1uLQgOFlIaOPFfJJJzHsg9EdNylad6_jDqtIsBLgJVeIf43C7b37CH_aMsTvPuN7OnAUQw9GpniWmkmcinsiIM48KnQrMySUdJxqe9ZMrtTaDT6iw5yiDkfIX_GDQLJ2gT9efOwYNH1q6SMp2l3dJ0IWQOrNSY4ylXczw/s320/barco.jpeg 


        Meu pai correu para pedir-lhe que fosse ver minha irmãzinha Zizi, que andava doente. Foi.

        Era um homem já grisalho, de suíças, olhos doces e um ar que inspirava confiança desde o primeiro momento.

        Sentou-se no avarandado que o sol da manhã banhava, tomou café, examinou minha irmãzinha e receitou a duas ou três pessoas da família.

        A notícia de que estava em minha casa um médico, espalhou-se pelo povoado. Começou a chegar gente. Quem tinha o seu doente, trazia-o para ser examinado.

        O Pedro Alexandrino trouxe a filha paralítica. Vovó Candinha mostrou-lhe a erisipela que lhe estava tolhendo a perna. A Zabelinha Novais pediu um alívio para as suas dores de ouvido. A Teresa Pecoapá veio com o filhinho mudo. O velho Mirigido contou a história do ataque que o fez passar por defunto.

        O médico atendia a um por um, bondosamente, animando-os, consolando-os.

        E já se havia levantado para sair, quando pousou os olhos no Pata-choca, encostado tristemente à parede. Imediatamente tornou a sentar-se e chamou:

        — Venha cá, menino.

        O pequeno aproximou-se. O médico examinou-lhe o interior das pálpebras, bateu-lhe na barriga enorme e lançou os olhos pela varanda, perguntando:

        — Quem é o pai deste pequeno? O Chico Lopes adiantou-se:

        — Sou eu, doutor, para servir vossa senhoria. O médico fixou-lhe o olhar, severamente:

        — Como deixou este menino ficar neste estado? É preciso curá-lo e curá-lo com presteza.

        O Chico Lopes avançou um passo.

        — Ele não está doente, doutor. O que ele é, é sem-vergonha. Está assim porque come terra.

        — O senhor está enganado, replicou o médico. Ele não está assim porque come terra. Ele come terra é porque está assim!

        — Como diz, doutor? interrogou o matuto.

        — Ele come terra é porque está assim. O que esta criança tem são bichas. As bichas é que o fazem comer terra.

        — Mas, doutor, então...

        — Não tenha dúvida. São os vermes, no estômago e no intestino, que obrigam essa pobre criança a ter desejos esquisitos de comer coisas extravagantes. O senhor, com certeza, dá-lhe bordoada.

        — Sim, doutor, para lhe tirar o vício.

        — Não adianta nada. Bordoada não adianta. O que adianta é remédio. O que é preciso é curá-lo. No dia em que deixar de ter vermes, deixará de comer terra.

        E, depois de passar carinhosamente a mão pela cabeça do pequeno:

        — É bem possível que neste menino mole e triste esteja uma criatura alegre e inteligente. Dê-lhe remédio para lombrigas.

        O Chico Lopes rompeu num pranto desabalado.

        — Que é isto? perguntou o médico surpreendido.

        — A dor que eu estou sentindo aqui dentro! respondeu o pobre pai, com a mão no peito. O doutor não imagina as pancadas que tenho dado no meu filho. Eu não sabia que ele era doente.

        E atirando-se ao Pata-choca, a soluçar:

        — Perdoa, Evaristo, perdoa!

Viriato Corrêa. Cazuza. 27. ed. São Paulo: Nacional, 1997. p. 16-7.

Entendendo a crônica:

01 – Quem é o protagonista que busca ajuda médica na crônica, e qual o motivo da consulta?

      O protagonista é o pai da narradora, que busca ajuda médica para sua irmãzinha Zizi, que estava doente.

02 – Como o médico é descrito fisicamente na crônica?

      O médico é descrito como um homem já grisalho, com suíças, olhos doces e um ar que inspira confiança desde o primeiro momento.

03 – O que acontece após a notícia de que há um médico na cidade se espalhar?

      As pessoas começam a chegar para serem examinadas pelo médico, trazendo seus doentes para consulta.

04 – Quais são alguns dos casos que o médico atende durante sua visita à povoação?

      O médico atende casos como a filha paralítica de Pedro Alexandrino, a erisipela de Vovó Candinha, as dores de ouvido de Zabelinha Novais, e até mesmo um filhinho mudo trazido por Teresa Pecoapá.

05 – Como o médico reage ao observar Pata-choca e por que decide examiná-lo?

      O médico observa Pata-choca tristemente encostado à parede e decide examiná-lo ao notar algo preocupante em seu estado físico.

06 – Qual é a condição de saúde diagnosticada pelo médico em Pata-choca, e qual a explicação dada para o comportamento estranho do menino?

      O médico diagnostica que Pata-choca está com vermes, especificamente lombrigas, e explica que é a presença desses vermes que faz o menino ter desejos estranhos de comer terra.

07 – Como o pai de Pata-choca reage ao diagnóstico do médico?

      O pai, Chico Lopes, reage inicialmente de forma surpresa e nega a condição de saúde do filho. No entanto, ao ser informado sobre a necessidade de tratamento, ele rompe em pranto, expressando arrependimento por ter punido o filho sem saber de sua condição de saúde.