terça-feira, 25 de agosto de 2020

CRÔNICA: DIMINUTIVOS - LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO - COM GABARITO

 Crônica: Diminutivos       

                  Luís Fernando Veríssimo

     Sempre pensei que ninguém batia o brasileiro no uso do diminutivo, essa nossa mania de reduzir tudo à mínima dimensão, seja um cafezinho, um cineminha ou uma vidinha. Só o que varia é a inflexão da voz. Se alguém diz, por exemplo, "Ô vidinha", você sabe que ele está se referindo a uma vida com todas as mordomias. Nem é uma vida, é um comercial de cigarro com longa metragem. Um vidão. Mas se disser "Ah vidinha..." o coitado está se queixando dela, e com toda a razão. Há anos que o seu único divertimento é tirar sapatos e fazer xixi. Mas nos dois casos o diminutivo é usado com o mesmo carinho.

        O francês tem o seu "tout petit peu", que não é um diminutivo, é um exagero. Um "pouco todo pequeno" é muita explicação para tão pouco. Os mexicanos usam o "poco", o "poquito" e -- menos ainda que o "poquito" -- o "poquetín". Mas ninguém bate o brasileiro.
 Era o que eu pensava até o dia, na Itália, em que ouvi alguém dizer que alguma coisa duraria um "mezzoretto". Não sei se a grafia é essa mesma, mas um povo que consegue, numa palavra, reduzir uma meia hora de tamanho -- e você não tem nenhuma dúvida de que um "mezzoretto" dura os mesmos trinta minutos de uma meia hora convencional, mas passa muito mais depressa -- é invencível em matéria de diminutivo.

        O diminutivo é uma maneira ao mesmo tempo afetuosa e precavida de usar a linguagem. Afetuosa porque geralmente o usamos para designar o que é agradável, aquelas coisas tão afáveis que se deixam diminuir sem perder o sentido. E precavida porque também o usamos para desarmar certas palavras que, na sua forma original, são ameaçadoras demais.

        "Operação", por exemplo. É uma palavra assustadora. Pior do que "intervenção cirúrgica", porque promete uma intervenção muito mais radical nos intestinos. Uma operação certamente durará horas e os resultados são incertos. Suas chances de sobreviver a uma operação... sei não. Melhor se preparar para o pior.

        Já uma operaçãozinha é uma mera formalidade. Anestesia local e duas aspirinas depois. Uma coisa tão banal que quase dispensa a presença do paciente.

        [...]

        No Brasil, usa-se o diminutivo principalmente em relação à comida. Nada nos desperta sentimentos tão carinhosos quanto uma boa comidinha.

        -- Mais um feijãozinho?

        O feijãozinho passou dois dias borbulhando num daqueles caldeirões de antropófagos com capacidade para três missionários. Leva porcos inteiros, todos os miúdos e temperos conhecidos e, parece, um missionário. Mas a dona de casa o trata como um mingau de todos os dias.

        -- Mais um feijãozinho?

        -- Um pouquinho.

        -- E uma farofinha?

        -- Ao lado do arrozinho?

        -- Isso.

        -- E quem sabe mais uma cervejinha?

        -- Obrigadinho.

        O diminutivo é também uma forma de disfarçar o nosso entusiasmo pelas grandes porções. E tem um efeito psicológico inegável. Você pode passar horas tomando "cervejinha" em cima de "cervejinha" sem nenhum dos efeitos que sofreria depois de apenas duas cervejas.

        -- E agora, um docinho.

        E surge um tacho de ambrosia que é um porta-aviões.

Luís Fernando Veríssimo.

Entendendo a crônica:

01 – A ideia central do texto é mostrar que os diminutivos são usados como:

a)   Indicadores de aspectos negativos.

b)   Recursos expressivos de linguagem.

c)   Indicadores de aspectos pejorativos.

d)   Recurso para camuflar o que realmente quer dizer.

e)   Indicadores de pequenez.

02 – Segundo o texto, o autor usa uma conversinha no lugar de uma conversa para indicar:

a)   Pouca duração.

b)   Repulsa ao assunto.

c)   Banalização do tema.

d)   Desinteresse do emissor.

e)   Afetividade ao assunto.

03 – A palavra sublinhada foi usada em sentido figurado em:

a)   “Há anos que o seu único divertimento é tirar os sapatos...”.

b)   “Olha, aquele quisto no braço direito...”.

c)   “A hora para uma conversinha é sempre qualquer hora dessas”.

d)   “Num joguinho aceita-se até o cheque frio”.

e)   “Você pode passar horas tomando uma cervejinha”.

04 – No trecho: “No Brasil usa-se o diminutivo principalmente com relação à comida”, esse uso sugere que a comida seja:

a)   Em pouca quantidade.

b)   De quantidade duvidosa.

c)   Sofisticada.

d)   Trivial.

e)   De fácil preparo.

05 – “E surge um tacho de ambrosia que é um porta-aviões”. O trecho indica doce:

a)   De qualidade ruim.

b)   Em grande quantidade.

c)   Rapidamente consumido.

d)   De ótima qualidade.

e)   Com baixas calorias.

06 – A linguagem empregada no texto foi usada com a finalidade de:

a)   Mostrar que os diminutivos não são usados apenas no Brasil.

b)   Expressar os sentimentos do autor por coisas e pessoas.

c)   Verificar se a comunicação foi ou não estabelecida.

d)   Discorrer sobre a realidade da língua português no Brasil.

e)   Falar sobre a própria linguagem.

07 – No trecho: “Sempre pensei que ninguém batia o brasileiro no uso do diminutivo...”, o autor revela sentimento de:

a)   Surpresa.

b)   Revolta profunda.

c)   Indignação.

d)   Resignação.

e)   Indiferença.

08 – Segundo o autor, operação é uma palavra assustadora; já “uma operaçãozinha é uma mera formalidade”. Nesse caso o diminutivo foi usado para:

a)   Banalizar o tema.

b)   Suavizar a gravidade do fato.

c)   Satirizar o fato.

d)   Ironizar o fato.

e)   Esconder o medo do fato.

09 – Os períodos abaixo apresentam, respectivamente, relações de:

I – “Uma coisa tão banal que quase dispensa a presença do paciente”.

II – “Nada nos desperta sentimentos tão carinhosos quanto uma boa comidinha”.

a)   I. causa; II. Finalidade.

b)   I. causa; II. Conformidade.

c)   I. conformidade; II. consequência.

d)   I. consequência; II. Comparação.

e)   I. finalidade; II. Causa.

 

 

 

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