quarta-feira, 17 de junho de 2026

CAUSO: PAPO MALUCO - NORMA FERREIRA DA SILVA - COM GABARITO

 Causo: Papo maluco

 

        O sujeito entra num bar, senta-se à mesa e logo um garçom aparece.

        — Boa noite, o que o senhor toma?

        — Tomo vitamina C pela manhã, o ônibus para ir ao serviço e uma aspirina quando tenho dor de cabeça.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiYOeDcjbicd9EVHaRh1JRff66e0mPTCIbG3vbhf_sbugTcfpxfxyDp58tRF7bqCRTDCbuXcT0tIqpScDEHJ_-hwr8xl1ux52fk_IqdzErtRuexO1ZhLFlhSpNXMWLGdfOK670VnmAMyMFZVRH29SlAuRKnznuIMUrsnVwOrHnB-148AF8JvGrJpQp4xbM/s1600/images.jpg


        — Desculpe, mas acho que não fui claro.  Eu quis dizer do que é que o senhor gostaria?

        — Ah! Tudo bem! Gostaria de ter um Ferrari, de casar com a Gisele Bündchen e mandar a minha sogra para o inferno.

        — Não é nada disso, meu senhor! — Continua o garçom, ainda calmo. — Eu só gostaria de saber o que o senhor deseja de beber.

        — Ah! É isso? Bem... o que é que você tem?

E o garçom:

        — Eu? Nada, não! Só tô um pouco chateado porque o meu time perdeu pro São Caetano.

 

Norma Ferreira da Silva (por e-mail) Uberlândia – MG Almanaque Drogasil, ano 1, nº 1, maio de 2004, p.22.

 

Entendendo o causo:

01 – Por que o texto recebeu o título Papo maluco?

      Porque quando o leitor pensa que é só o freguês que não entende o que o garçom quer dizer, este passa a agir da mesma forma que o freguês.

 

02 – Como o garçom poderia ter abordado o freguês para ser entendido logo na primeira fala?

      No próprio texto, temos: “Eu só gostaria de saber o que o senhor quer beber”.

 

03 – E a fala do freguês, como poderia ter sido mais clara?

      Sugestão: O que é que você tem pra beber?

 

04 – Na segunda fala do freguês, que expressão nos leva a pensar que ele passou a entender o garçom?

      “Ah! Tudo bem”!

 

05 – Como o garçom age em relação ao freguês? Por quê?

      Age com calma, educadamente. Afinal, na condição de servir o freguês, o garçom tem de ser atencioso, paciente e respeitar pequenos deslizes, provocações ou mesmo algumas atitudes estranhas para que o cliente tenha boa impressão sobre os serviços prestados no local.

 

 

 

DICIONÁRIO MINEIRÊS-PORTUGUÊS - COM GABARITO

 Dicionário mineirês-português


Ispía só qui trem engraçadimais! Prestenção...

PRESTENÇÃO – É quano eu tô falano iocê num tá ovino.

CADIQUÊ? – Assim, tentanu intendê o motivo.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgT48TCflZisxuhtNxtjkIVrTJHwWwW2CjAeJFtzDnrSE71OscIQJ9p7sT_BG74Y87nQoP8-ECA2FTU_BF3Gbi-XDA-fnzynE5kmDaWe9uE1qYy2WcQI548XXTsfpnEbWi7MDJcXIjHVrzTlrPo4crdbVos6SvxY_HxBEBr25EVWVPGnrhqpUSwW0axQkk/s320/hq720.jpg


CADIM – É quano eu num quero muito, só um poquim. 

DEU – O mez qui “di mim”. Ex.: Larga deu, sô!

SÔ – Fim de quarqué frase. Qué exêmpro tamém? Óia: Cuidádaí, sô!

DÓ – O mez qui “pena”, “cumpaxão”: “Ai qui dó, gentch”.

NIMIM – O mez qui in eu. Exempro: Nóóó, cê vivi garrado nimim, trem! Larga deu, sô!

NÓÓÓ – Num tem nada qui vê cum laço pertado, não! O mez qui “nossa!”. Vem de Nóóó-sinhora!

PELEJANU – O mez qui tentanu: Tô pelejanu cuêsse diacho né di hoje!

MINERIM – Nativo duistadiminnss.

UAI – Uai é uai, sô! Uai!

ÉMÊZZZ?! – Minerim querêno cunfirmá.

NÉMÊZZZ?! – Minerim querêno sabê si ocê concorda.

OIAQUI – Minerim tentano chamá atenção prarguma coizz.

PÃO DI QUEJU – Iosscêis sabe! Cumida fundamentar qui disputa cum tutu a preferença dus minêro.

TUTU – Mistura de farinha di mandioca (ô di mio) cum fejão massadim. Bom dimais da conta, gentch!!...

TREIM – Qué dizê quarqué coizz qui um minerim quizé! Ex: “Já lavei us trem!”; “Qui trem bão!”.

NNN – Gerúndio du minerêis. Ex: “Eles tão brincannn”; “Cê tá innn, eu tô vinnn”.

PÓ PÔ – O mez qui pó colocá.

POQUIM – Só um poquim, pra num gastá muito.

JISGIFORA – Cidadi pertin du Ridijanero. Cunfunde a cabeça do minerim que pensa qui é carioca.

DEUSDE – Desde. Ex: “Eu sô magrelin deusde rapazin!”.

ISPÍA – Nome popular da revista VEJA.

ARREDA – Verbu na form imperativ (danu órdi), paricido cum sai. “Arredaí, sô!”.

IM – Diminutivo. Ex: lugarzim, piquininim, vistidim, etc.

DENDAPIA – Dentro da pia.

TRADAPORTA – Atrás da porta.

BADACAMA – Debaixo da cama.

PINCOMÉ – Pinga com mel.

ISCODIDENTE – Escova de dente.

PONDIÔNS – Ponto de ônibus.

SAPASSADO – Sábado passado.

VIDIPERFUME – Vidru de perfume.

ÓIPROCÊVÊ (ou OPCV) – Óia pra você vê.

TISSDAÍ – Tira ISS daí.

CAZOPÔ – Caixa de isopor.

ISTURDIA – Otru dia.

PRONOSTAÍNO? – Pra onde nós tamo indo?

CÊ SÁ SÊSSE ONS PASS NASSAVASS? – Você sabe se esse ônibus passa na Savassi?

Entendendo o dicionário:

01 – Como funciona o fenômeno da aglutinação (junção de várias palavras) no dialeto mineiro, segundo o texto? Dê exemplos.

      O "mineirês" tem uma forte tendência de juntar várias palavras de uma frase em um único bloco fonético, eliminando sílabas e espaços. O texto exemplifica isso perfeitamente com expressões como "Dendapia" (Dentro da pia), "Badacama" (Debaiço da cama), "Pondiôns" (Ponto de ônibus) e a famosa pergunta de trânsito: "Cê sá sêsse ons pass nassavass?" (Você sabe se esse ônibus passa na Savassi?).

02 – De acordo com o dicionário, qual é a origem da interjeição "NÓÓÓ" e o que ela significa?

      A expressão "NÓÓÓ" não tem nenhuma relação com um nó apertado (laço). Ela significa o mesmo que "Nossa!" e funciona como uma expressão de espanto ou surpresa. O dicionário explica que ela é, na verdade, uma abreviação da exclamação religiosa "Nossa Senhora!" ("Nóóó-sinhora!").

03 – Por que a palavra "TREIM" (trem) é considerada o termo mais versátil do vocabulário mineiro?

      Porque ela funciona como um "coringa" linguístico. Segundo o texto, "trem" pode significar qualquer coisa que o mineiro quiser. Pode se referir a objetos físicos ("Já lavei us trem!"), a situações, sentimentos ou qualidades ("Qui trem bão!"), ou até a pessoas ("cê vivi garrado nimim, trem!").

04 – Como o dicionário define as regras gramaticais do gerúndio e do diminutivo no "mineirês"?

      No gerúndio, o mineiro elimina as letras "d" e "o" do final das palavras, prolongando o som do "n" ("NNN"), como em "brincannn" ou "innn". Já para o diminutivo, utiliza-se apenas o sufixo "IM" (em vez de "inho"), resultando em palavras encurtadas como "lugarzim", "piquininim" e "cadim" (um bocado pequeno).

05 – Qual é a piada geográfica e cultural que o texto faz em relação à cidade de "Jisgifora" (Juiz de Fora)?

      O texto brinca que Juiz de Fora é uma "cidadi pertin du Ridijanero" (perto do Rio de Janeiro) e que isso acaba confundindo a cabeça dos seus habitantes nativos (os "minerins"), que, devido à proximidade geográfica e ao sotaque influenciado, às vezes pensam que são cariocas.

06 – Qual é a diferença de intenção entre as expressões "ÉMÊZZZ?!" e "NÉMÊZZZ?!" na comunicação do mineiro?

      Embora parecidas, elas têm objetivos diferentes: "ÉMÊZZZ?!" (É mesmo?!) é usada quando o mineiro está surpreso e querendo confirmar uma informação que acabou de ouvir. Já "NÉMÊZZZ?!" (Não é mesmo?!) é usada quando ele quer saber se a outra pessoa concorda com o que ele está dizendo.

07 – Com base no texto, como a culinária mineira é representada e quais são os pratos considerados fundamentais?

      A culinária é tratada como algo sagrado e culturalmente central. O texto destaca o "Pão di queju" como uma comida fundamental e o "Tutu" (mistura de farinha com feijão amassado), mencionando que ambos disputam a preferência absoluta dos mineiros por serem descritos como "bom dimais da conta".

 



CONTO: OS MORTOS III - PARTE 3 - JAMES JOYCE - COM GABARITO

 Conto: OS MORTOS III – PARTE 3

          JAMES JOYCE


        -- Galochas! – exclamou Gretta – É a última moda. Sempre que o chão estiver úmido tenho de calçar galochas. Queria que eu as pusesse esta noite! Mas isso ele não conseguiria. Logo vai me comprar um escafandro...

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgOu-yrJpb_POZV3MMEp5EzeEaViMDEW7TEhnAunMy4YAMaje9QtDA5xKK1W9eymt5VhW4zHld-jUWbZaGdCZ9DyXY0JQIIV-lfLYaqMRNu_XqBpl7ODLi3eDQjEaja23jSHlsMz2xkWSVbMt6VYIwSU6918I6JYb0CMWMI8Wca2fsHCF3zi7Zt4MyOG-U/s320/MORTOS.jpg


        Gabriel sorriu contrafeito e alisou a gravata para reassegurar-se, enquanto tia Kate quase se dobrava ao meio de tanto rir. Mas tia Júlia logo ficou séria e seus olhos tristonhos voltaram-se para o rosto do sobrinho.

        -- Que são galochas, Gabriel? – perguntou ela.

        -- Galochas! – exclamou a irmã. – Meu Deus, não sabe o que são galochas? É para calçar sobre... sobre os sapatos, não é, Gretta?

        -- Isso mesmo, tia Kate. Uma espécie de guta-percha. Por enquanto temos dois pares. Gabriel diz que todo mundo está usando no Continente.

        -- Oh, no Continente - murmurou tia Júlia, meneando a cabeça.

        Gabriel enrugou a testa e disse, como se estivesse um pouco agastado:

        -- Não é nada de extraordinário. 

        Gretta acha engraçado porque a palavra a faz lembrar-se dos bufões.

        -- Diga-me, Gabriel – interveio tia Kate com muito tato. – Por certo já arranjou acomodação. Gretta estava dizendo...

        -- Tudo está arrumado – respondeu Gabriel. – Reservei um quarto no Gresham.

        -- Ótimo. É o melhor que podia fazer. E as crianças? Gretta não fica preocupada?

        -- Ora, tia Kate – disse Gretta –, só por uma noite!

        Além disso Bessie cuidará delas.

        -- Ótimo – repetia tia Kate. – É um sossego a gente ter uma moça como ela em quem se pode confiar! Lily, por exemplo, não sei o que está acontecendo com ela. Não é a mesma menina de antes.

        Gabriel ia arriscar algumas perguntas a esse respeito, mas tia Kate calara-se repentinamente para olhar a irmã que descera alguns degraus na escada e curvava-se na balaustrada.

        -- Mas onde é que Júlia vai? Exclamou, em tom quase irritado. – Júlia! Júlia! Onde é que você vai?

        Júlia que descera quase um lance de escada, retornou e anunciou calmamente:

        -- Freddy chegou. 

        Nesse momento, o rumor de aplausos e o floreio final do pianista anunciaram que a valsa terminara. A porta do salão abriu-se e alguns pares saíram.

        Tia Kate puxou apressadamente Gabriel para o lado e murmurou-lhe ao ouvido:

        -- Por favor, corra lá embaixo e veja se Freddy está bem. Não o deixe subir se estiver embriagado. Tenho certeza de que está bêbado, tenho certeza.

        Gabriel aproximou-se da escada e ficou escutando. Duas conversavam na saleta. Reconheceu então a risada de Freddy Malins. Desceu a escada ruidosamente.

        -- É um alívio tê-lo conosco – disse tia Kate à senhora Conroy. – Sinto-me sempre mais tranquila quando Gabriel está aqui... Júlia, a senhorita Daly e a senhorita Power gostariam de tomar um refresco. Obrigada pela linda valsa, senhorita Daly. A execução foi maravilhosa.

        Um homem alto e moreno, de rosto enrugado, bigode rijo e grisalho, que passava por ali com seu par, perguntou:

        -- E nós, senhorita Morkan, podemos também nos refrescar?

        -- Júlia – disse Kate prontamente –, leve também o senhor Browne e a senhorita Furlong.

        -- Sou o servo dessas damas – disse Browne, sorrindo com todas as rugas, até eriçar os pelos do bigode. – Sabe por que elas gostam tanto de mim, senhorita Morkan...

        Não terminou a frase. Vendo que tia Kate estava longe demais para ouvi-lo, conduziu as três jovens para a sala dos fundos. O meio da sala estava ocupado por duas mesas unidas, sobre as quais tia Júlia e o zelador estendiam uma larga toalha. No guarda-louças empilhavam-se pratos, travessas, copos e talheres. O piano quadrado servia de prateleira para os doces e salgados. No canto, em pé junto a um pequeno bufê, dois rapazes tomavam refrescos.

        Browne dirigiu para lá o seu séquito e convidou-as a beberem um ponche, especial para senhoras, quente, forte e açucarado. Como responderam que não tomavam nada forte, abriu três garrafas de limonada. Pediu então a um dos rapazes que se afastasse e, apanhando a garrafa de uísque, despejou uma dose reforçada. Os rapazes olhavam-no com respeito, enquanto ele provava a bebida.

        -- Que Deus me proteja – comentou sorrindo. – São ordens do médico.

        Seu rosto encarquilhado abriu-se num sorriso mais amplo e as três jovens responderam ao gracejo com um riso musical, sacudindo nervosamente os ombros e balançando o corpo para a frente e para trás. A mais arrojada disse-lhe:

        -- Ora, senhor Browne, estou certa de que o médico nunca lhe receitou tal coisa.

        Browne tomou outro gole e respondeu com desajeitada mímica:

        -- Bem, você sabe. Sou como a famosa Madame Cassidy, que afirmam ter dito o seguinte: Por favor, Mary Grimes, se eu não tomar, faça-me tomar, pois sinto que quero tomar.

Tradução de Hamilton Trevisan. OS MORTOS – JAMES JOYCE – PARTE 3 / DA LISTA DOS CEM MELHORES CONTOS DO MUNDO / REVISTA BRAVO – 2009.

Entendendo o conto:

 

01 – O que são as "galochas" mencionadas no texto e por que Gretta brinca sobre o assunto?

      Galochas são uma espécie de calçado de guta-percha para se usar sobre os sapatos em dias úmidos. Gretta brinca dizendo que Gabriel a obriga a usá-las sempre que o chão está úmido e ironiza que, logo, ele acabará comprando um “escafandro” para ela.

02 – Onde Gabriel e Gretta reservaram um quarto para passar a noite e quem ficou responsável por cuidar dos filhos do casal?

      Gabriel reservou um quarto no hotel Gresham. As crianças ficaram sob os cuidados de Bessie.

03 – Qual é a queixa de tia Kate em relação à funcionária Lily?

      Tia Kate reclama que não sabe o que está acontecendo com Lily, afirmando que ela “não é a mesma menina de antes” e que perdeu a confiança nela (ao contrário de Bessie, em quem se pode confiar).

04 – Que notícia tia Júlia traz ao descer a escada e qual é a reação imediata de tia Kate?

      Tia Júlia anuncia que Freddy chegou. Ao ouvir isso, tia Kate puxa Gabriel de lado e pede, em tom de certeza de que ele está bêbado, que ele vá até lá embaixo para checar se Freddy está bem e não o deixe subir se estiver embriagado.

05 – Como o espaço da sala dos fundos estava organizado para a recepção dos convidados?

      O meio da sala tinha duas mesas unidas cobertas por uma grande toalha; no guarda-louças acumulavam-se pratos, travessas, copos e talheres; e um piano quadrado estava sendo utilizado como prateleira para os doces e salgados.

06 – O que o Senhor Browne oferece para as três jovens na sala dos fundos e o que ele acaba servindo?

      Ele oferece um ponche especial para senhoras (quente, forte e açucarado). Como elas recusam alegando que não tomam nada forte, Browne acaba abrindo três garrafas de limonada para elas 

07 – Que justificativa bem-humorada o Senhor Browne usa para tomar uma dose reforçada de uísque?

      Ele afirma sorrindo que são "ordens do médico" e, depois, faz uma mímica citando a famosa Madame Cassidy: "Por favor, Mary Grimes, se eu não tomar, faça-me tomar, pois sinto que quero tomar".

 

 

CONTO: OS MORTOS I - PARTE 1 - JAMES JOYCE - COM GABARITO

 Conto: Os Mortos I – Parte 1

            James Joyce


        Lily, a filha do zelador, estava literalmente esgotada. Mal acabava de conduzir um convidado à saleta atrás do escritório, ajudando-o a tirar o casaco, e a impaciente sineta da entrada tornava a soar, obrigando-a a precipitar-se pelo corredor vazio para receber um novo hóspede. Ainda bem que não precisava atender as mulheres. Senhorita Kate e senhorita Júlia tinham pensado nisso e convertido em vestiário o banheiro de cima. As duas, em grande agitação, riam e tagarelavam sem parar, revezando-se a todo momento no topo da escada, de onde perscrutavam a entrada e perguntavam a Lily quem havia chegado.

 
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhkebPeYojo0weqC2lqqe1pm9h3yRQbNDAwV44oaV4FM0kTJm97zehwG7dVI1zpNA20iAYTS8v6FZsYyotjpxfUl1czlY5KNFkY5-cc3FLeUAoECFYDBVJir73URaVd5MuZm2KTxym_akzw8sEmAQNwITwFqr4ExTS24gQSQumVg6l9SWmlYove1XG9vrM/s320/MORTOS.jpg

        O baile anual organizado pelas Morkans era sempre um grande acontecimento. Todos os seus conhecidos compareciam: parentes, velhos amigos da família, membros do coro dirigido por Júlia, os alunos de Kate com idade suficiente e mesmo alguns alunos de Mary Jane. O baile nunca fracassara. Ano após ano, o mais remotamente que se pudesse recordar, realizava-se de forma esplêndida: a época em que Kate e Júlia, após a morte do irmão Pat, haviam deixado a casa de Stoney Batter e levado Mary Jane, sua única sobrinha, para morar com elas no enorme e lúgubre sobrado na ilha de Usher, cujo andar superior alugaram do senhor Fulham, dono da casa de cereais do andar térreo.       Isto se dera há mais de trinta anos. Mary Jane, naquele tempo uma garotinha, sustenta agora a casa como organista em Haddington Road. Estudara no Conservatório e, todos os anos, apresentava um concerto de seus alunos no Ancient Concert Rooms.

A maioria deles provinha das melhores famílias que viviam em Kingstown e Dalkey. Apesar de idosas, as tias contribuíam com seu quinhão. Júlia, embora com os cabelos quase brancos, ainda era primeiro soprano da Igreja Adam and Eve e Kate, fraca demais para sair todo dia de casa, dava lições de música a principiantes, no velho piano quadrado da sala dos fundos. Lily cuidava da casa. Não obstante levassem vida modesta, gostavam de comer bem, de ter na mesa o que havia de melhor: lombo, chá de três xelins o pacote, e cerveja engarrafada de primeira qualidade. Lily raramente cometia erros e por isso vivia bem com as três patroas. Elas eram um pouco rabugentas, apenas isso. Contudo, uma coisa não admitiam: serem contestadas.

        Tinham realmente muitas razões para estar agitadas naquela noite. Passava das nove e nem sinal de Gabriel com a esposa. Por outro lado, sentiam um medo terrível de que Freddy Malins aparecesse embriagado. Não queriam, por nada neste mundo, que as alunas de Mary Jane o vissem nesse estado, pois às vezes era difícil controlá-lo. Freddy sempre chegava tarde, mas não compreendiam por que Gabriel se atrasava. E era isso que as trazia à escada de dois em dois minutos para perguntar a Lily se Gabriel ou Freddy haviam chegado.

        -- Ó, senhor Conroy, boa-noite – disse Lily a Gabriel, ao abrir-lhe a porta. – A senhorita Kate e a senhorita Júlia pensavam que o senhor não viria mais. Boa-noite, senhora Conroy.

        -- Compreendo que tenham se preocupado – disse Gabriel. – Mas elas esquecem que minha esposa leva três longas horas para se arrumar.

        Demorou-se sobre o capacho, limpando a neve das galochas, enquanto Lily acompanhava sua esposa até a escada, de onde gritou:

        -- Senhorita Kate, o senhor Conroy chegou.

        -- Kate e Júlia desceram, hesitando nos degraus. Ambas beijaram a esposa de Gabriel, disseram que ela não morreria mais e perguntaram se Gabriel também viera.

        -- Estou aqui, tia Kate, pontual como o Correio – gritou este no escuro vestíbulo. – Podem subir, eu irei depois.

        Continuou a rascar vigorosamente os pés, enquanto as três mulheres subiam a escada em direção ao quarto de vestir. A neve estendera delgado manto nos ombros de seu sobretudo e cobrira com brancas biqueiras a ponta de suas galochas. Ao abrir o casaco, os botões rangeram no pano endurecido pelo frio e o sopro gélido das ruas escapou das dobras e fendas de suas vestes.

        -- Está nevando outra vez, senhor Conroy? – perguntou Lily.

        Ela precedeu-o a caminho da saleta, a fim de ajudá-lo a tirar o sobretudo. Gabriel sorriu ao ouvi-la pronunciar errado o seu nome e olhou para ela. Era uma jovem esbelta, em pleno amadurecimento, de rosto claro e cabelos cor de feno. A luz de gás tornava-a ainda mais pálida. Gabriel conhecera-a quando era apenas uma criança e costumava sentar-se no primeiro degrau da escada, embalando uma boneca de pano.

        -- Sim, Lily. E creio que vamos ter neve a noite inteira.

 

Tradução de Hamilton Trevisan. OS MORTOS – JAMES JOYCE – PARTE 1 / DA LISTA DOS CEM MELHORES CONTOS DO MUNDO / REVISTA BRAVO – 2009.

 

Entendendo o conto:

01 – De que maneira a descrição inicial de Lily e de suas atividades contribui para estabelecer a atmosfera da festa e a dinâmica da casa das irmãs Morkan?

      Lily é apresentada como a "filha do zelador", imersa em um estado de agitação frenética ("estava com os pés por um fio"). Suas tarefas — atender a porta, ajudar os convidados com os casacos e gerenciar a entrada — estabelecem imediatamente o clima de hospitalidade tradicional, mas também de uma desorganização controlada que caracteriza o evento anual das irmãs Morkan. A figura de Lily serve como o primeiro ponto de contato do leitor com a estratificação social da casa: ela é o motor funcional que permite que a elite convidada desfrute da música e da comida, situando a narrativa em um ambiente de classe média que se esforça para manter as aparências e o rigor das tradições festivas.

02 – Como o texto descreve o estado emocional das tias Kate e Julia e quais são os principais receios que as afligem antes da chegada de Gabriel?

      As tias Kate e Julia são retratadas como anfitriãs zelosas, mas profundamente ansiosas. O texto sugere um medo constante de que algo dê errado, especificamente em relação à pontualidade e ao comportamento dos convidados. Elas estão em um estado de "nervosismo terrível", temendo que Gabriel não chegue a tempo ou que Freddy Malins apareça embriagado, o que poderia arruinar o decoro da noite. Essa ansiedade revela o quanto o sucesso dessa festa anual é vital para a identidade social e o senso de propósito dessas mulheres idosas, que vivem para preservar esses rituais de convivência.

03 – Analise a entrada de Gabriel Conroy no fragmento. Como sua caracterização inicial o diferencia dos demais personagens apresentados?

      Gabriel é introduzido como o sobrinho favorito e uma figura de autoridade intelectual e social. Sua chegada é aguardada com uma expectativa que beira a dependência por parte das tias. Ele é caracterizado por um ar de superioridade sutil, visível em suas roupas (as galochas, o cachecol) e em sua preocupação interna com o discurso que deve proferir. Ao contrário de Lily, que representa o trabalho manual e a pressa, ou das tias, que representam a tradição emocional, Gabriel representa o homem moderno, educado e ligeiramente distanciado da provincialidade de Dublin, sentindo-se muitas vezes acima do nível intelectual dos demais convidados.

04 – Qual é a função de Mary Jane na organização da festa e como ela serve de ponte entre as gerações da família Morkan?

      Mary Jane, sobrinha das irmãs Morkan e professora de música, atua como o braço direito das tias e a figura que moderniza levemente o ambiente. Ela é responsável por organizar a parte musical (tendo estudado na Academia) e ajuda a gerenciar as anfitriãs idosas. Mary Jane representa a continuidade da tradição (o ensino da música e a recepção), mas com uma competência mais prática e menos neurótica que a de suas tias. Ela é a ponte geracional que garante que o legado cultural da família — simbolizado pela música — seja transmitido e mantido com dignidade.

05 – No fragmento, há uma interação breve, mas significativa, entre Gabriel e Lily. Como esse momento sugere um conflito ou contraste de classes e gerações?

      O momento em que Gabriel tenta brincar com Lily sobre seu futuro casamento e ela responde de forma amarga e ríspida ("os homens de hoje em dia só querem saber de aproveitar") marca um choque de realidade. Gabriel tenta manter uma conversa educada e condescendente, típica de sua classe, mas Lily rompe o protocolo social com sua sinceridade brusca. O desconforto de Gabriel, que termina por oferecer uma moeda de ouro a ela para encerrar a situação, demonstra sua incapacidade de lidar com a humanidade crua das classes trabalhadoras, preferindo usar o dinheiro para restabelecer a barreira social que sua gafe havia momentaneamente enfraquecido.

06 – De que forma o ambiente físico descrito — a escadaria, o corredor, a sala de música — contribui para a sensação de isolamento ou proteção contra o mundo exterior?

      Joyce utiliza o espaço da casa na Ilha de Usher como um refúgio claustrofóbico e acolhedor ao mesmo tempo. A escadaria e o corredor funcionam como zonas de transição onde as tensões se manifestam (a espera por Gabriel, o frio que entra quando a porta se abre). O ambiente é saturado de sons, cheiros de comida e o eco da música, criando um microcosmo que parece proteger os personagens do inverno rigoroso de Dublin. No entanto, essa proteção é frágil, pois as preocupações sociais e os conflitos internos dos personagens permeiam constantemente o espaço, sugerindo que o isolamento da festa não apaga as frustrações da vida cotidiana.

07 – Explique como a "tradição" é apresentada não apenas como um evento festivo, mas como um fardo emocional para as anfitriãs.

      A tradição da festa de Epifania é apresentada como o evento central da vida das irmãs Morkan, mas Joyce deixa claro que ela exige um esforço exaustivo. A manutenção do status de "as melhores anfitriãs" é um fardo que gera uma vigilância constante sobre cada detalhe. O medo de que a música não seja perfeita, de que a comida não seja suficiente ou de que algum convidado cause escândalo reflete uma insegurança profunda sobre seu lugar em uma sociedade que está mudando. A tradição, portanto, é tanto um pilar de sustentação quanto uma fonte de ansiedade paralisante, evidenciando o tema da "paralisia" que atravessa toda a obra Dublinenses.

 

CONTO: OS MORTOS IV - PARTE 4 - JAMES JOYCE - COM GABARITO

 Conto: OS MORTOS IV – parte 4

          JAMES JOYCE

 

        Seu rosto vermelho aproximara-se com excessiva intimidade e a voz descambara para o rude sotaque de Dublin, de forma que as moças, instintivamente, receberam em silêncio suas palavras. Senhorita Furlong, aluna de Mary Jane, perguntou à senhorita Daly qual o nome da linda valsa que ela tocara e Browne, vendo-se ignorado, voltou-se para os rapazes que se mostravam mais atenciosos.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiBRthbHmn9nMhHoNaFSpCaxgHUsv4YdvLusgBMpG5ezLq79CfVCW41EwPJDgQeo89UGGa_7-LSQ6I0_BFjXKzaQ2NOG8AAMLxb2ic2i1R4oXjyc7qqZgCsZOZ2cDglogRJEnTFoD0VzPf08ASd5JQI5mQJ0VerrI2On84GUp0209TQVFMWufKOqcGc5ms/s320/MORTOS.jpg


        Uma jovem muito corada, de vestido lilás, entrou na sala batendo freneticamente as mãos e gritando:

        -- Quadrilha! Quadrilha!

        Logo atrás, apareceu tia Kate:

        -- Dois cavalheiros e três damas, Mary Jane!

        -- Oh! Aqui estão o senhor Bergin e o senhor Kerrigan – disse Mary Jane. – Senhor Kerrigan, quer acompanhar a senhorita Power? Senhorita Furlong, posso arranjar-lhe um par? Senhor Bergin. Pronto, agora está completo.

        -- Três damas, Mary Jane - insistiu tia Kate.

        Os dois rapazes perguntaram às moças se podiam ter a honra e Mary Jane voltou-se para a senhorita Daly.

        -- Senhorita Daly! Você está sendo muito gentil. Depois de tocar duas valsas! Mas há tão poucas mulheres esta noite.

        -- Não estou cansada, senhorita Morkan. Não se preocupe.

        -- Mas tenho um par encantador para você. Senhor Bartell D'Arcy, o tenor. Mais tarde, eu o farei cantar para nós. Toda Dublin está delirando por ele.

        -- Uma voz maravilhosa, maravilhosa – disse tia Kate.

        O piano começara duas vezes o prelúdio para a primeira figura e Mary Jane apressou-se em levar os pares. Mal haviam saído e tia Júlia entrou preocupada na sala, olhando para trás.

        -- Que aconteceu? – perguntou tia Kate preocupada – Quem está aí?

        Júlia, que carregava uma pilha de guardanapos, voltou-se para a irmã e disse, como se a pergunta a tivesse surpreendido:

        -- É Freddy Gabriel está com ele.

        Com efeito, logo atrás dela vinha Gabriel dirigindo Freddy Malins. Este último, um jovem de quase quarenta anos, da mesma altura e tamanho de Gabriel, tinha ombros bastante largos. Seu rosto era gordo e pálido, corado apenas nos lobos carnudos da orelha e nas largas narinas. Tinha feições grosseiras: nariz chato, testa curva e luzidia lábios grossos e úmidos. Seu olhar pesado e os cabelos em desordem davam-lhe um ar sonolento. Ria alto e francamente da história que acabara de contar na escada a Gabriel, esfregando o olho esquerdo com o punho.

        -- Boa noite, Freddy – disse tia Kate.

        Freddy respondeu ao cumprimento de um modo que pareceu pouco cerimonioso devido sua crônica rouquidão e, vendo que Browne lhe arreganhava os dentes lá no canto, atravessou a sala com passos incertos e começou a repetir em voz baixa a história que contara a Gabriel.

        -- Ele não está muito ruim, está? – perguntou tia Kate.

        Gabriel tinha o semblante carregado, mas recompôs-se imediatamente e respondeu:

        -- Oh, não! Quase nem se nota.

        -- Ele não é mesmo terrível? – disse ela. – Pensar que a mãe o fez jurar que não iria beber na passagem de ano. Venha, Gabriel. Vamos para o salão.

        Antes de deixar a sala em companhia de Gabriel, fez um sinal com o dedo para Browne, que balançou a cabeça em resposta e disse para Freddy, quando a viu sair:

        -- Agora, Freddy, vou preparar-lhe um bom copo de limonada, para reanimá-lo.

        Freddy, que chegava ao clímax da história, recusou o oferecimento com certa irritação. Browne, porém, distraindo-lhe a atenção para um desarranjo na roupa, encheu o copo de limonada e entregou-o a Freddy. Sua mão esquerda aceitou-o mecanicamente, enquanto a direita, também mecanicamente, ocupava-se em ajustar a roupa. Browne, cujo rosto mais uma vez se contraíra numa expressão divertida, preparou para si um copo de uísque, enquanto Freddy, antes mesmo de atingir o desfecho da história, explodia num acesso de riso e, colocando o copo de limonada, intacto e transbordante, sobre o bufê, começou a esfregar o olho esquerdo, repetindo a última frase, tanto quanto a tosse e o riso lhe permitiam.

        Gabriel não conseguia prestar atenção à peça clássica que Mary Jane executava, cheia de escalas e passagens difíceis para a sala silenciosa. Gostava de música, mas a peça não tinha melodia para ele e duvidava que tivesse para os outros, embora todos houvessem implorado a Mary Jane que tocasse alguma coisa. Quatro rapazes, que ao som do piano tinham vindo do bufê até a porta, afastaram-se silenciosamente, dois de cada vez, após alguns minutos. As únicas que pareciam interessadas eram a própria Mary Jane, cujas mãos corriam pelo teclado ou erguiam-se dele num gesto de sacerdotisa em súbita imprecação, e tia Kate, sentada a seu lado para virar as páginas.

        Os olhos de Gabriel, feridos pelo reflexo do lustre no assoalho encerado, desviaram-se para a parede atrás do piano. Havia ali uma gravura da cena do balcão de Romeu e Julieta e, ao lado dela, um quadro com os dois principezinhos assassinados na Torre, que tia Júlia bordara com lã vermelha, azul e marrom, em seu tempo de menina. Elas certamente haviam aprendido esse gênero de trabalho durante um ano inteiro, na escola que frequentaram. Sua mãe também bordara, como presente de aniversário pequenas cabeças de raposa, num colete de moire púrpura, forrado de cetim marrom e com botões em forma de amor. Era estranho que ela não tivesse talento para música, embora tia Kate costumasse chamá-la o cérebro da família Morkan. 

        Tanto Kate quanto Júlia haviam sempre deixado transparecer certo orgulho pela irmã grave e imponente. Havia um retrato dela diante do espelho do aparador. Estava com um livro aberto sobre os joelhos e mostrava alguma coisa a Constantine que, vestido à marinheira, sentara-se aos seus pés. Ela mesma escolhera os nomes dos filhos, pois era muito ciosa do decoro da vida familiar. Graças a ela, Constantine era hoje pároco de Balbriggan e Gabriel diplomara-se na Universidade Real. Uma sombra percorreu-lhe o rosto ao lembra-se da obstinada oposição que a mãe fizera ao seu casamento. Certas frases ferinas machucavam-no ainda na memória. Ela afirmara, certa vez, ser Gretta uma provinciana interesseira e isso não era verdade. Gretta é quem cuidara dela durante a longa e fatal enfermidade, em Monkstown.

 

Tradução de Hamilton Trevisan. OS MORTOS – JAMES JOYCE – PARTE 4 / DA LISTA DOS CEM MELHORES CONTOS DO MUNDO / REVISTA BRAVO – 2009.

Entendendo o conto:

01 – Por que as moças receberam as palavras do Senhor Browne em silêncio no início do texto?

      Porque o rosto vermelho dele havia se aproximado com excessiva intimidade e sua voz tinha descambado para um rude sotaque de Dublin.

02 – Quem é Bartell D'Arcy e o que Mary Jane e tia Kate dizem sobre ele?

      Bartell D’Arcy é um tenor por quem toda Dublin está delirando. Mary Jane e tia Kate elogiam sua voz, chamando-a de “maravilhosa”.

03 – Qual era a preocupação de tia Kate em relação a Freddy Malins e o que a mãe dele o fizera prometer?

      A preocupação era se Freddy estava muito bêbado ("muito ruim"). Tia Kate lembra que a mãe dele o fizera jurar que não iria beber na passagem de ano.

04 – Como o Senhor Browne tenta intervir no comportamento de Freddy Malins em relação à bebida e qual é o resultado?

      Browne prepara e entrega a Freddy um copo de limonada para reanima-lo. Freddy aceita o copo mecanicamente, mas acaba deixando-o intacto e transbordante sobre o bufê enquanto ri e tosse. 

05 – Qual é a opinião de Gabriel sobre a peça clássica que Mary Jane executa ao piano?

      Gabriel não conseguia prestar atenção e achava que a peça não tinha melodia para ele, duvidando que tivesse melodia para qualquer outra pessoa ali presente.

06 – Quais são as imagens/quadros que Gabriel observa na parede atrás do piano enquanto Mary Jane toca?

      Ele observa uma gravura da cena do balcão de Romeu e Julieta e, ao lado dela, um quadro com os dois principezinhos assassinados na Torre (que tia Júlia havia bordado com lã na infância).

07 – Que lembrança amarga e sombra percorrem o rosto de Gabriel ao pensar em sua falecida mãe?

      Gabriel lembra-se da obstinada oposição que sua mãe fizera ao seu casamento, recordando-se de frases ferinas em que ela acusava Gretta (sua esposa) de ser uma "provinciana interesseira" — o que ele ressalta ser mentira, pois foi Gretta quem cuidou da mãe dele durante sua longa e fatal enfermidade.

 

terça-feira, 16 de junho de 2026

POEMA: ETA NÓIS - ULISSES TAVARES - COM GABARITO

 Poema: Eta Nóis

 

Ela fala sem parar

Às vezes esquece de se depilar

Eu tenho um pouco de chulé,

Minha barba é dura e espeta,

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj7k6vWSxuGaM32fp_X74vhbD2THiUJV12S4kdFP2xjBBzjY9mF1w3siuSYVB3OR_T5AdxpnufI0v4G0wlxJMpW2_NGaUBfzLK-seVaqctYYNnNLmdlQ33HZ-4g2vW5dHz4874UklSywQOD1HeanIG6JDyVV9G1W4wkRJnVgc8m4hhgAv-Nwx2cepsVZA8/s320/images.jpg


Vamos descobrindo aos poucos

O que estava por baixo dos panos:

Dois seres bem humanos.

Ulisses Tavares. Diário de uma paixão! São Paulo: Geração, 2003.

 

Entendendo o poema:

01 – Que tipo de sujeito aparece no segundo verso?

      No segundo verso ("Às vezes esquece de se depilar"), o sujeito é oculto (também chamado de elíptico ou desinencial).

      Embora ele não esteja explicitamente escrito nesse verso, nós conseguimos identificá-lo pela desinência do verbo "esquece" e pelo contexto do primeiro verso ("Ela fala sem parar"). Trata-se da terceira pessoa do singular: Ela.

 

02 – Reescreva o segundo verso incluindo o sujeito que falta.

      “Às vezes ela esquece de se depilar”.

 

03 – Reescreva o quinto verso acrescentando o sujeito que está oculto. Como você o identificou?

      Reescrita: "Nós vamos descobrindo aos poucos"

      Como foi identificado: O sujeito foi identificado através da desinência número-pessoal do verbo "vamos" (-mos), que indica a 1ª pessoa do plural (Nós).

 

04 – De acordo com o sentido do poema e com os sujeitos que você identificou, quais são as personagens desse diário poético e o que ele conta?

      As personagens são um casal (composto pelo eu lírico, que é um homem, já que menciona "Minha barba é dura", e por sua parceira, a quem ele se refere como "Ela").

      O poema conta o processo de convivência íntima desse casal. Ele mostra que, conforme o tempo passa e a intimidade aumenta, as idealizações românticas vão sumindo e eles começam a descobrir os pequenos defeitos e imperfeições físicas um do outro (chulé, pelos, barba espetando). No fim, o texto celebra o fato de que, por trás das aparências ("por baixo dos panos"), eles descobriram que são apenas "dois seres bem humanos", que se aceitam como realmente são.

 

 

CRÔNICA: MEIO AMIGO - JOSÉ FERNANDES - COM GABARITO

 Crônica: MEIO AMIGO

              José Fernandes 


        A conversa estava animada. Cada um defendia as virtudes de seu candidato com argumentos aparentemente irrefutáveis. Até aqueles candidatos que foram garis, engraxates, catadores de papel, e, hoje, são donos de mansões, castelos, bezerros de ouro, poderiam ser postos no altar, sem que o processo de canonização passasse pelos órgãos competentes. Os mais eloquentes diziam-se amigos desse ou daquele que, segundo seus valores, parecia ser o mais virtuoso. De repente, Empédocles se acorda de seu torpor schopenhaureano e vaticina:

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgt_4aTRqZIpOlmvPrShwexUEYnsjO0c1OCstCEXrHQWM8qvY7k63tQtpvs6Gn4dii8DDTM6fIDJMd7r3qW1Ocwu1hcCA46yKeym7jp9_TWA0gY2MJJ9pqneGrmbJQ76KIit4eappNkwvQhO92ue6gKkHrlrC9p7l7ZJHdlv3KL-Cl0ggEmoFNUTZcvsFc/s320/images.jpg


        — Em política, não há amigos. O que há são pessoas interessadas em cargos e benesses do poder. Aliás, não conheço quem realmente tem amigos. Existem necessidades que, para serem satisfeitas, requerem certos fingimentos sociais que se assemelham à amizade. Uma vez satisfeitas, o amigo fingidor se afasta, e a amizade se desfaz. 

        — Desculpe-me, Empédocles, mas, como você mesmo o disse, isso não é amizade. Para mim, ela é um sentimento profundo que leva as pessoas a se admirarem e a se respeitarem em um nível tal que ultrapassa o meramente humano. Ela é uma concórdia que não repousa, obrigatoriamente, na identidade de opiniões, mas na harmonia do semelhante e, muitas vezes, do contrário. Acima da amizade, só há o amor, que implica uma complementação que se opera em nível metafísico. O amor verdadeiro aproxima o homem dos deuses, à medida que, no ato supremo, ocorre a ultrapassagem do físico, chamado pequeno êxtase, que, na realidade, se configura como transubstanciação, mistério e enigma do bem-querer. 

        — Ora, Filófilo, você está filosofando demais! A humanidade está tão podre que não merece esta ontologia da amizade e, muito menos, do amor, que é apenas uma forma de duas pessoas se fingirem humanas! 

        — Acredito que a humanidade está como está, porque não tem sido pensada, e pensada no amor. Os indivíduos têm agido como se fossem eternos, voltados para si mesmos. Quando se é egoísta, não há lugar para a amizade e, muito menos, para o amor. O egoísta é incapaz de enxergar o outro. Enxerga apenas e unicamente o próprio umbigo. O seu mundo termina na ponta do nariz ou nos números de sua conta bancária. Por isso, ele não pode ter amigos. O egoísta é amigo de si mesmo! É um narciso que ama a própria imagem! 

        Creio que se não houver pessoas em quem pudermos confiar, a quem pudermos amar, a vida perde o sentido, porque todos os bens que a perfazem, são conservados mediante a participação do outro. Queiramos ou não, o outro, a despeito de Sartre havê-lo dito o inferno, é a razão da existência. Empédocles, você já se imaginou sozinho no universo, sem alguém que o ame, em quaisquer dos sentidos que os gregos atribuíam às relações humanas, ao ponto de haver cinco ou seis palavras para designar as diversas acepções do amor e da amizade? 

        — Eu não disse que os homens não necessitam uns dos outros! Disse que tudo não passa de jogos de interesses. Uma vez satisfeitos, não há mais razão para a amizade, uma vez que ela é inteira dependente da sinceridade, e homem, hipócrita como é, não calha com lealdade, com lhaneza. Caro Filófilo, Machado de Assis é que estava certo quando, em Memórias póstumas de Brás Cubas, no capítulo Das negativas, disse: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria, e um filósofo, de quem não me lembro o nome, disse que a humanidade é um mal incurável. Ora, se a humanidade não presta, essa história de amizade e amor, de fidelidade e gratidão, passa a ser história para boi dormir.

        — Empédocles, apesar de você ser inflexível, de meus argumentos lhe parecerem obsoletos, ou absurdos, para mim, o pior ato praticado por um ser humano é a ingratidão. Se alguém me tiver feito algum bem, seja ele qual for, serei sempre reconhecido. A amizade que se acaba, como já dissera Aristóteles, é aquela fundada na utilidade e no prazer. Aquela que tem por sustentáculo o bem, a gratidão e a fidelidade, dura sempre, porque traz em si um outro bem que manifesta a humanidade do homem: a verdade. 

        — Ora, Filófilo, você não tem de ser fiel a vida toda, só porque seu amigo lhe fez um favor! Você é ingênuo demais! Acredita em coisas que existem apenas em sua imaginação. Onde já se viu acreditar na humanidade?! Entre humanos só existem meias amizades! 

        — Caro Empédocles, na minha concepção, existe meio mamão, meio abacate, meio da rua, meio de campo, meio da ponte; mas meio amigo, não. Como não há meio gol, meio grávida, meio seguro, também não existe meio amigo. Ou se é amigo, ou não se é! Adjuva nos, Domine!

José Fernandes.

Entendendo a crônica:

01 – Qual é o estopim da discussão entre os personagens e como o cenário inicial se conecta com a tese de Empédocles?

      O debate começa com uma conversa animada sobre política, onde as pessoas defendiam fervorosamente as "virtudes" de seus candidatos (inclusive criticando o enriquecimento rápido de alguns deles). Esse cenário de exaltação política serve de gancho perfeito para Empédocles intervir, pois, para ele, a política é o maior exemplo de que as relações humanas não são movidas por afeto, mas sim por interesses egoístas, cargos e benefícios.

02 – Como Filófilo conceitua a verdadeira amizade e o amor, diferenciando-os das relações utilitaristas?

      Para Filófilo, a verdadeira amizade é um sentimento profundo de admiração e respeito mútuo que supera o nível puramente humano, operando na harmonia entre semelhantes ou contrários. O amor estaria ainda acima, funcionando em um nível metafísico de complementação ("transubstanciação"). Para ele, essas relações só existem quando se supera o egoísmo e se é capaz de enxergar o outro de forma genuína.

03 – Empédocles utiliza referências literárias e filosóficas para sustentar seu pessimismo. Quais são elas e o que defendem?

      Ele é descrito inicialmente em um "torpor schopenhaureano" (referência ao pessimismo do filósofo Arthur Schopenhauer). Mais adiante, ele cita explicitamente Machado de Assis na obra Memórias Póstumas de Brás Cubas, relembrando a célebre frase sobre não transmitir a nenhuma criatura "o legado da nossa miséria". Ele usa essas bases para defender que a humanidade é hipócrita, incurável e que sentimentos como fidelidade e gratidão são apenas ilusões ou "histórias para boi dormir".

04 – De acordo com Filófilo, por que a humanidade chegou ao estado de "podridão" mencionado por seu colega?

      Filófilo argumenta que a humanidade está degradada porque "não tem sido pensada no amor". Segundo sua visão, as pessoas têm agido de forma puramente egoísta, como se fossem eternas e voltadas apenas para si mesmas (olhando apenas para o próprio umbigo ou conta bancária). Para ele, o egoísmo cega o homem, impedindo-o de vivenciar a amizade verdadeira.

05 – Qual contraponto Filófilo faz à famosa frase de Jean-Paul Sartre de que "o inferno são os outros"?

      Embora reconheça a perspectiva existencialista de Sartre, Filófilo defende que, queiramos ou não, "o outro é a razão da existência". Ele argumenta que a vida perde totalmente o sentido no isolamento completo, pois todos os bens e experiências que tornam a vida plena dependem obrigatoriamente da participação e do compartilhamento com o outro.

06 – Como a visão de Aristóteles sobre a amizade é utilizada no texto para mediar o conflito entre os dois debatedores?

      Filófilo cita Aristóteles para dar razão parcial a Empédocles, explicando que as amizades que realmente acabam e se desfazem são aquelas fundadas exclusivamente na "utilidade" e no "prazer" (o jogo de interesses que Empédocles tanto critica). No entanto, Filófilo usa o filósofo grego para provar que existe outro tipo de amizade: aquela baseada no bem, na gratidão e na verdade, que é eterna.

07 – Qual é o argumento final de Filófilo que justifica o título da crônica "Meio Amigo"?

      Filófilo encerra o debate rejeitando categoricamente a expressão "meia amizade" usada por Empédocles. Ele argumenta através da lógica dos absolutos: assim como existem coisas que admitem metade (meio mamão, meio de campo), existem conceitos que são binários — ou existem plenamente ou não existem. Para ele, "amigo" entra na mesma regra de "grávida" ou "gol": não existe meio termo. Ou se é amigo por inteiro, ou não se é amigo de forma alguma.