domingo, 13 de janeiro de 2019

CRÔNICA: MAIS OPINIÕES - VILMA ARÊAS - COM QUESTÕES GABARITADAS

Crônica: Mais opiniões
            
       -- Verônica, minha filha, quero falar com você.
        A mãe entrava, sentava-se a meu lado na cama. O jeito era fechar o livro.
        -- Acho que não está certo, afinal você já está grandinha, uma moça, anda toda desgrenhada, cabelo parece que nunca viu pente. Depois, tem de parar com a mania de só usar uma roupa até ela ficar em frangalhos, aquela malha já foi até remendada pela Clô, e essa boina, que foi de sua avó, imagina, já está arrepiada e azulada como um... sei lá o quê, como um ninho... O cabelo...
        -- Quero deixar ele crescer.
        -- Tá bom, mas como está não pode nem trançar, nem enrolar, tem de dar um jeito, fia batendo no olho, pode até fazer mal. E ainda tem os modos. Você se lembra o que disse do M do monograma da Candinha. Ora, você está cansada de saber que o nome dela é Maria Cândida, nada mais natural que escolher o M. Não era para você fazer aquela cara de inocente ou desligada, mas eu te conheço muito bem, e dizer: “Gente, o nome é Candinha e a inicial é M, só se for M de meleca”, isso lá é coisa que se diga! Não tinha ninguém por perto, mas eu ouvi e não gostei, onde já se viu? Isso não são modos. Depois ainda tem essa mania de ficar horas embaixo da cama, às vezes falando sozinha, parece louca! Como se não bastasse conversar com o cachorro, com o papagaio, até com o pé de boldo...
        Quando a mãe começa assim pode levar horas. O melhor é ficar quieta e deixar o barco correr...
            ARÊAS, Vilma. Aos trancos e relâmpagos.
São Paulo, Scipione, 1988. p. 105-6 (Série Diálogo).
Entendendo a crônica:
01 – Qual o significado das palavras abaixo:
·        Desgrenhada: despenteada, emaranhada, desordenada.

·        Frangalhos: farrapos, trapos.

·        Monograma: entrelaçamento das letras iniciais ou principais de um nome.

02 – O texto é um pequeno diálogo, mas quem fala mais?
      A mãe de Verônica.

03 – O narrador é também personagem? Identifique e comente suas intervenções.
      Sim. Intervém três vezes na narrativa:
      1ª, narrando em primeira pessoa: “A mãe entrava... fechar o livro”.
      2ª, em discurso direto em primeira pessoa: “— Quero deixar ele crescer”.
      3ª, novamente narrando em primeira pessoa: “Quando a mãe... o barco correr...”.

04 – O que Verônica estava fazendo e teve de parar?
      Verônica teve de parar de ler o livro.

05 – A mãe começou a conversa como? Por quê?
      Dizendo que não achava certas as atitudes de Verônica por serem, a seu ver, infantis.

06 – O que Verônica queria?
      Deixar o cabelo crescer.

07 – Existe algum motivo especial para mãe estar zangada?
      Não. Tudo em Verônica a desagrada.

08 – Cite três coisas que Verônica faz e que desagradam profundamente a mãe.
      Não pentear o cabelo, usar uma só roupa, ficar horas embaixo da cama.

09 – Que atitude Verônica toma em relação à mãe? Por quê?
      Fica quieta e deixa a mãe falar, porque senão ela é capaz de ficar horas falando.

10 – Você é capaz de imaginar alguém como Verônica? Quem? Conte algo sobre essa pessoa.
      Resposta pessoal do aluno.


POEMA: MATINAL - MÁRIO QUINTANA - COM QUESTÕES GABARITADAS

Poema: Matinal
         
           Mário Quintana


Entra o sol, gato amarelo, e fica
à minha espreita, no tapete claro.
Antes de abrir os olhos, sei que o dia
virá olhar-me por detrás das árvores.
Ah! sentir-me ainda vivo sobre a face da Terra
enquanto a vida me devora…
Me espreguiço, entredurmo… O anjo da luz espera-me


Como alguém que vigiasse uma crisálida.
Pé ante pé, do leito, aproxima-se um verso
para a canção de despertar:
os ritmos do tráfego vibram como uma cigarra,
A tua voz nas minhas veias corre,
e alguns pedaços coloridos do meu sonho
devem andar por esse ar, perdidos…
                        Mário Quintana. A cor do invisível. Rio de Janeiro: Objetiva.

Entendendo o poema:
01 – O texto descreve o amanhecer. Porém, como se trata de um texto poético, a descrição não é feita de modo objetivo, mas de modo ambíguo, isto é, com duplicidade de sentidos, criada por meio de comparações. A que é comparado o amanhecer?
      Inicialmente a um gato, depois a uma cigarra.

02 – Para tornar o poema rico de sentidos, o poeta utiliza comparações, criando uma área semântica relacionada com gato e cigarra. Daí o emprego de expressões como espreita, detrás das árvores, vibram. No plano da realidade, a que corresponde:
a)   Gato amarelo?
Corresponde ao Sol.

b)   Espreitar no tapete claro?
Aos raios do sol refletidos no tapete do quarto.

c)   Olhar-me por detrás das árvores?
Ao sol subindo lentamente por entre as árvores.

d)   Anjo da luz?
Refere-se ao Sol.

e)   Ritmos do tráfego vibram como uma cigarra?
Aos barulhos e vibrações sonoras ouvidos de manhã.



ARTIGO DE OPINIÃO: ERRO DE PORTUGUÊS NÃO EXISTE! FLÁVIO LOBO - COM GABARITO

Texto: Erro de português não existe!
      

      Escritor e linguista denuncia o preconceito linguístico e considera absurdo dizer que os brasileiros não sabem português
                                                                                        Flávio Lobo

    “O brasileiro são o seu português, o português do Brasil, enquanto os portugueses sabem o português deles. Nenhum dos dois é mais certo ou mais errado, mais feio ou mais bonito: são apenas diferentes um do outro.”
        Nesse trecho de seu livro Preconceito linguístico: o que é, como se faz, Marcos Bagno ataca a crença segundo a qual “brasileiro não sabe português e só em Portugal se fala bem português”. Esse “mito” seria um dos pilares do que ele chama de “mitologia do preconceito linguístico” – um conjunto de crenças equivocadas, responsável pela má qualidade e ineficiência do ensino do português nas escolas e pela dificuldade que muitos brasileiros têm no trato com a língua materna.
        Para Bagno, o “erro de português” que amedronta, intimida e humilha tanta gente, simplesmente não existe. Haveria, na verdade, diferentes gramáticas para diferentes variedades do português. Cada uma delas perfeitamente válida em seu contexto. Todas merecedoras de respeito.
        Autor de livros para crianças, jovens e adultos, incluindo ficção e obras sobre língua e literatura, Bagno, que tem 37 anos, também é tradutor. Formado em Letras, com mestrado em Linguística, hoje faz doutorado em língua portuguesa na USP. Desde a graduação, ele se interessou pela sociolinguística – disciplina que estuda as relações entre língua e sociedade – e pela revisão dos conceitos de “norma culta”, “norma padrão”, do que é certo e errado na língua. Estudos e revisões que, segundo ele, não têm sido acompanhados por muitos dos que se apresentam como especialistas no debate sobre o ensino e a situação da língua portuguesa no Brasil.
        De acordo com Bagno, existe uma “briga” entre dois grupos no campo das questões linguísticas e gramaticais. Um é composto por linguistas, verdadeiros especialistas no assunto. O outro seria o dos “puristas”, defensores de uma tradição gramatical dogmática e anticientífica.
        Mídia – O surpreendente, diz ele, é que, ao mesmo tempo em que o MEC estaria ouvindo os linguistas e acompanhando as pesquisas acadêmicas – num processo de modernização evidenciado nos novos Parâmetros Curriculares Nacionais –, os meios de comunicação estariam desempenhando um papel mais conservador. Quase todos os programas de rádio e TV, colunas de jornais e revistas, manuais de redação, CD-ROMs e até sites na Internet dedicados a questões da língua estariam tentando preservar normas ultrapassadas por meio do que ele denomina “comandos paragramaticais”.
        “As pessoas que falam e escrevem sobre a língua na mídia em geral são jornalistas, advogados ou professores de português que não estão ligados à pesquisa, não participam do debate acadêmico, não estão em dia com as novas tendências da Linguística – são os que eu chamo de gramatiqueiros”, critica Bagno. Para ele, esses “pseudo-especialistas”, ao tentar fazer as pessoas decorarem regras que ninguém mais usa, estariam vendendo “fósseis gramaticais”, fazendo da suposta dificuldade da língua portuguesa um produto de boa saída comercial.
        Outro “mito” tratado no livro Preconceito linguístico: o que é, como se faz é a ideia, bastante difundida, de que a língua portuguesa é difícil. Bagno afirma que a dificuldade de se lidar com a língua é resultado de um ensino marcado pela obsessão normativa, terminológica, classificatória, excessivamente apegado à nomenclatura. Um ensino que parece ter como objetivo a formação de professores de português e não a de usuários competentes da língua. E que ainda por cima só poderia formar maus professores, já que estaria baseado numa gramática ultrapassada, que não daria conta da realidade atual da língua portuguesa no Brasil.
        Ele acredita que se, em vez disso, os professores se concentrassem no que é realmente importante e interessante na língua, se ajudassem os alunos a desenvolver sua capacidade de expressão e reflexão, não haveria tanta gente – depois de anos e anos de estudo – em pânico diante do desafio de escrever uma pequena redação no vestibular.
        As críticas que faz à gramática tradicional não devem ser confundidas com um “vale tudo” linguístico, explica Bagno. “No campo da língua, na verdade, tudo vale alguma coisa”, assegura o escritor. Mas esse valor dependeria do contexto, de “quem diz o quê, a quem, como, quando, onde, por que e visando que efeito”.
        Quanto ao ensino nas escolas, diz ele, a norma culta deve mesmo ser o principal objeto de estudo. O problema estaria na definição da norma culta a ser ensinada. A “norma culta idealizada”, que só existiria nas gramáticas, deveria ser deixada de lado para dar lugar à norma culta real – identificável na fala e na escrita atual da população culta do país.
        As diferenças entre a norma culta das gramáticas tradicionais e a norma culta real, de acordo com Bagno, não são tão grandes. Elas parecem mais frequentes e profundas, segundo ele, por causa do esforço feito pelos “gramatiqueiros” para preservar seus “dinossauros linguísticos”. “Bastaria eles tirarem as teias de aranha da cabeça para verem que a língua portuguesa não se desintegraria caso eles a deixassem livre para seguir seu curso”, ironiza.
        Interpretação – Falando das regras que vão contra a evolução natural da língua portuguesa no Brasil, Bagno cita casos como o do verbo assistir: “O professor pode repetir mil vezes que assistir é transitivo indireto, que o aluno sai da aula e diz que vai assistir o filme em vez de assistir ao filme. Muitos jornalistas, por exemplo, que se esforçam para escrever e falar ‘certo’ dizem que um milhão de pessoas assistiram ao filme, mas logo se traem ao dizer que o filme foi assistido por um milhão de pessoas – sendo que um verbo transitivo indireto não admitiria essa forma passiva.”
        Outro exemplo seria o famoso se de vendem-se casas. Para Bagno, os brasileiros interpretam esse se não como uma partícula apassivadora, mas como índice de indeterminação do sujeito. Uma interpretação, assegura ele, perfeitamente razoável e legítima. “Eu mesmo, em meus livros, só escrevo vende-se casas, ensina-se matérias e não deixo os revisores ‘corrigirem’”.
        Desuso – Ele também não vê como erro, mesmo para quem pretende se expressar na norma culta, formas como vi ele em vez de o vi e a substituição dos pronomes seu e sua por dele e dela sempre que se referem a ele ou ela.  “O brasileiro só usa seu e sua, com naturalidade, para dizer que algo pertence a você.”
        Outras formas, há muito em desuso, como o pronome vós, na visão de Bagno deveriam entrar na sala de aula apenas como uma curiosidade da história da língua, mencionadas como algo que os estudantes vão encontrar em textos antigos. “Não deveriam mais ser cobrados como parte do conhecimento ativo, prático, dinâmico da língua.”
        Para que a língua seja ensinada de forma dinâmica, prazerosa e eficaz, precisaria ser entendida pelos professores como algo vivo em constante processo de evolução – e não de corrupção. Os professores de português precisariam ter uma postura similar à de um professor de biologia ou física, “que sabe perfeitamente que muito do que ele está ensinando hoje pode ser reformulado ou mesmo negado amanhã”, defende Bagno.
        Também é necessário, segundo ele, que o trabalho de identificação e descrição da norma culta brasileira atual, que está sendo feito por meio das pesquisas universitárias, sirva como base para a elaboração de gramáticas dirigidas ao ensino escolar e aos falantes da língua em geral. “É um trabalho que eu mesmo quero começar a fazer quando terminar o doutorado”, planeja.
        Bagno considera indispensável o incentivo ao uso da norma culta, especialmente nas manifestações linguísticas de maior importância e alcance sociocultural e nas que visem a comunicação entre as diferentes regiões do país. Mas, como escreveu no livro Preconceito linguístico, “esse incentivo não precisa vir acompanhado do desdém, do menosprezo, da ridicularização das outras inúmeras normas linguísticas que existem dentro do universo brasileiro da língua portuguesa.”

Flávio Lobo. Erro de português não existe. Revista EDUCAÇÃO, segmento,
São Paulo, p. 26 – 28, julho de 1999.
Entendendo o texto:
01 – Observe que esse texto, apesar de constituir um artigo, também poderia ter sido escrito em forma de perguntas e respostas, já que foi todo construído a partir das ideias de uma personalidade: Marcos Bagno. Em qual dos parágrafos o entrevistado foi apresentado? Qual é a importância das declarações dele para o tema que se está abordando?
      No terceiro parágrafo. Ele é autor de livros, tem formação em letras, mestrado em linguística e faz doutorado em língua portuguesa, por tudo isso, é possível afirmar que suas declarações são de uma “autoridade” no assunto.

02 – No quarto parágrafo, comenta-se sobre divergências que existem entre dois grupos distintos: o dos “linguistas” e o dos “puristas”. É possível “encaixar” o entrevistado Pasquale no último grupo? Por quê?
      Sim. Os puristas, explica-se depois, tem amplo espaço na mídia, defendem uma tradição gramatical e a ideia do “erro de português”.

03 – Por que a tradição gramatical foi chamada de dogmática e anticientífica?
      Dogmática, porque é autoritária, determina o que é “certo” e o que é “errado” na língua. Anticientífica, porque não acompanha as pesquisas acadêmicas, não se renova, não entende a língua como algo vivo em constante processo de transformação.

04 – Por que, segundo Bagno, as pessoas que estão discorrendo sobre “erros de português” em revistas, jornais, no rádio e na televisão, não possuem autoridade para falar sobre a língua?
      Porque, segundo ele, essas pessoas são pseudo-especialistas, ou seja, falsos especialistas. Essas pessoas não estão ligadas à pesquisa e não participam de debates acadêmicos sobre o assunto. Em geral, são advogados, jornalistas e até professores de português desatualizados.

05 – “A língua portuguesa é difícil”. Essa é uma ideia do senso comum bastante arraigada no meio escolar. Segundo Bagno, qual é a procedência desse “mito”, ou seja, dessa crença sem fundamento?
      Essa ideia está diretamente ligada ao ensino de língua portuguesa no Brasil, marcado pela “obsessão normativa, terminológica, classificatória, excessivamente apegado à nomenclatura”.

06 – O ensino de língua portuguesa, centrado nas normas gramaticais, é considerado ultrapassado. O que deve, então, ser ensinado nas aulas de Língua Portuguesa?
      O que realmente é importante e interessante na língua, aquilo que ajudasse os alunos a desenvolver sua capacidade de reflexão e expressão. A norma culta a ser ensinada, segundo ele, deve ser aquela “identificável na fala e na escrita atual da população culta do país”.

07 – Releia o comentário feito por Marcos Bagno: “Bastaria eles tirarem as teias de aranha da cabeça para verem que a língua portuguesa não se desintegraria caso eles a deixassem livre para seguir seu curso”:
a)   A quem se refere a palavra “eles”?
Aos “gramatiqueiros”, puristas da língua.

b)   O que significa “tirar as teias de aranha da cabeça”?
Renovar-se, estar atento às novas tendências da linguística.

08 – Bagno também comenta o esforço que fazem alguns “gramatiqueiros” para preservar seus “dinossauros linguísticos”. Que “dinossauros” seriam esses?
      Normas ultrapassadas de gramática que não dão conta da atual língua portuguesa no Brasil.


sábado, 12 de janeiro de 2019

MÚSICA(ATIVIDADES): SAMBA DE UMA NOTA SÓ - TOM JOBIM - COM GABARITO

Música(Atividades): Samba de Uma Nota Só

                                                            Tom Jobim

Eis aqui este sambinha feito numa nota só
Outras notas vão entrar, mas a base é uma só
Esta outra é consequência do que acabo de dizer
Como eu sou a consequência inevitável de você
Quanta gente existe por aí que fala tanto e não diz nada
Ou quase nada
Já me utilizei de toda a escala e no final não sobrou nada
Não deu em nada
E voltei pra minha nota como eu volto pra você
Vou contar com uma nota como eu gosto de você
E quem quer todas as notas: ré, mi, fá, sol, lá, si, dó
Fica sempre sem nenhuma, fica numa nota só

                                     Composição: Newton Mendonça / Tom Jobim
Entendendo a canção:

01 – Quando e por quem foi composta essa canção? 
      É uma música de 1960 composta por Tom Jobim e Newton Mendonça. É um dos maiores sucessos do disco Chega de saudade do músico João Gilberto.

02 – O que diz e pra quem diz a letra da canção? 
      Prega a simplicidade no ato de se passar uma mensagem, como se o ato de rebuscar, inclusive musicalmente falando, causasse algum tipo de interferência. “Quanta gente existe, por aí, que fala tanto e não diz nada ou quase nada. Já me utilizei de toda a escala, no final, não sobrou nada”.

03 – Que características lembram mais sua época? 
      Muitos pesquisadores dizem que é uma canção emblemática do início da Bossa Nova. Juntamente a Desafinado, Chega de Saudade e Garota de Ipanema, dentro da estrutura de arranjos inovadores e romperam com o tradicionalismo da época, formou a base da carreira de Tom Jobim.

04 – O que o Brasil estava vivendo quando foi composta? 
      Foi o ano de fundação da Fundação Nacional do Índio (Funai) e do Museu de Arte de São Paulo (Masp). Em 1960, o movimento hippie começou a ganhar força, também, e Jânio Quadros foi eleito presidente.

05 – O que é capaz de despertar a canção? 
      É uma música alegre, inspira a brincadeira, a leveza, a forma simples de dizer o quanto se gosta de alguém.

06 – A letra desta música tem predominância de que função da linguagem?
a) Metáfora
b) Metalinguagem
c) Emotiva
d) Poética
e) Eufemismo.


CONTO: MARIA ANGULA - JORGE RENAN DE LA TORRE (EQUADOR) - COM GABARITO

Conto: Maria Angula
Jorge Renan de la Torre (Equador)  
  

        Maria Angula era uma menina alegre e viva, filha de um fazendeiro de Cayambe. Era louca por uma fofoca e vivia fazendo intrigas com os amigos para jogá-los uns contra os outros. Por isso tinha fama de leva-e-traz, linguaruda, e era chamada de moleca fofoqueira.
        Assim viveu Maria Angula até os dezesseis anos, dedicada a armar confusão entre os vizinhos, sem ter tempo para aprender a cuidar da casa e a preparar pratos saborosos.
        Quando  Maria Angula se casou começaram seus problemas. No primeiro dia, o marido pediu-lhe que fizesse uma sopa de pão com miúdos, mas ela não tinha a menor ideia de como prepará-la.
        Queimando as mãos com uma mecha embebida em gordura, ascendeu o carvão e levou ao fogo um caldeirão com água, sal e colorau, mas não conseguiu sair disso: não fazia ideia de como continuar.
        Maria lembrou-se então de que na casa vizinha morava dona Mercedes, cozinheira de mão-cheia, e, sem pensar duas vezes, correu até lá.
        -- Minha cara vizinha, por acaso a senhora sabe fazer sopa de pão com miúdos?
        -- Claro, dona Maria. É assim: primeiro coloca-se o pão de molho em uma xícara de leite, depois despeja-se este pão no cavalo e, antes que ferva, acrescentam-se os miúdos.
        -- Só isso?
        -- Só, vizinha.
        -- Ah – disse Maria Angula – mas isso eu já sabia!
        -- E voou para sua cozinha a fim de não esquecer a receita.
        No dia seguinte, como o marido lhe pediu que fizesse um ensopado de batatas com toicinho, a história se repetiu:
        -- Dona Mercedes, a senhora sabe como se faz o ensopado de batatas com toicinho?
        E como da outra vez, tão logo a sua boa amiga lhe deu todas as explicações, Maria Angula exclamou:
        -- Ah! É só? Mas isso eu já sabia! – E correu imediatamente para a casa a fim de prepará-lo.
        Como isso acontecia todas as manhãs, dona Mercedes acabou se enfezando. Maria Angula vinha sempre com a mesma história: "Ah é assim que se faz o arroz com carneiro? Mas isso eu já sabia! Ah, é assim que se prepara a dobradinha? Mas isso eu já sabia!" Por isso a mulher decidiu dar-lhe uma lição e, no dia seguinte...
        -- Dona Mercedinha!
        -- O que deseja, Dona Maria?
        -- Nada, querida. Só que o meu marido quer comer no jantar caldo de tripas e bucho e eu...
        -- Ah! Mas isso é fácil demais! – Disse dona Mercedes. E antes que Maria Angula a interrompesse, continuou:
        -- Veja: vá ao cemitério levando um facão bem afiado. Depois espere chegar o último defunto do dia, e sem que ninguém a veja, retire as tripas e o estômago dele. Ao chegar em casa, lave-os muito bem e cozinhe-os com água, sal e cebolas. Depois que ferver uns dez minutos, acrescente alguns grãos de amendoim e está pronto. É o prato mais saboroso que existe.
        -- Ah! – disse como Maria Angula – É só? Mas isso eu já sabia!
        E, num piscar de olhos, estava ela no cemitério, esperando pela chegada do defunto mais fresquinho. Quando já não havia mais ninguém por perto, dirigiu-se em silêncio à tumba escolhida. Tirou a terra que cobria o caixão, levantou a tampa e... Ali estava o pavoroso semblante do defunto! Teve ímpetos de fugir, mas o próprio medo a deteve ali. Tremendo dos pés à cabeça, pegou o facão e cravou-o uma, duas, três vezes na barriga do finado e, com desespero, arrancou-lhe as tripas e o estômago. Então voltou correndo para casa. Logo que conseguiu recuperar a calma, preparou a janta macabra que, sem saber, o marido comeu lambendo os beiços.
        Nessa mesma noite, enquanto Maria Angula e o marido dormiam, escutaram-se uns gemidos nas redondezas.
        Ela acordou sobressaltada. O vento zumbia misteriosamente nas janelas, sacudindo-as, e de fora vinham uns ruídos muito estranhos, de meter medo a qualquer um.
        De súbito, Maria Angula começou a ouvir um rangido nas escadas. Eram os passos de alguém que subia em direção ao seu quarto, com um andar dificultoso e retumbante, e que se deteve diante da porta. Fez-se um minuto eterno de silêncio e logo depois Maria Angula viu o resplendor fosforescente de um fantasma. Um grito surdo e prolongado paralisou-a.
        -- Maria Angula, devolva minhas tripas e o meu estômago, que você roubou da santa sepultura!
        Maria Angula sentou-se na cama, horrorizada, e, com os olhos esbugalhados de tanto medo, viu a porta se abrir, empurrada lentamente por essa figura luminosa e descarnada.
        A mulher perdeu a fala. Ali, diante dela, estava o defunto, que avançava mostrando-lhe o seu semblante rígido e o seu ventre esvaziado.
        -- Maria Angula, devolva as minhas tripas e o meu estômago, que você roubou da minha santa sepultura!
        Aterrorizada, escondeu-se debaixo das cobertas para não vê-lo, mas imediatamente sentiu umas mãos frias e ossudas puxarem-na pelas pernas e arrastarem-na gritando:
        -- Maria Angula, devolva as minhas tripas e o meu estômago, que você roubou da minha santa sepultura!
        Quando Manuel acordou, não encontrou mais a esposa e, muito embora tenha procurado por ela em toda parte, jamais soube do seu paradeiro.
               TORRE, Jorge Renán de la. Trad. Maria Angula.
In: Contos de assombração. São Paulo, Ática, 1987. p. 33-40.
Entendendo o conto:
01 – Quem é o personagem principal da história? Como ele é apresentado no início do texto?
      Maria Angula. É uma garota fofoqueira, que gosta de provocar as pessoas e de arrumar confusão.

02 – Durante a narrativa, Maria Angula enfrenta um problema. Qual é ele? Como ela o resolve?
      Ela não sabe preparar os pratos pedidos pelo marido. Ela pede ajuda para vizinha, dona Mercedes.

03 – De que forma Maria Angula reage após a ajuda que recebe da vizinha?
      Ela não se mostra agradecida pelas receitas recebidas, chegando mesmo a ser antipática com a vizinha.

04 – Qual o significado das palavras abaixo, se necessário utilize-se de um dicionário.
·        Intriga: mexerico, traição.
·        Miúdos: entranhas de animais (coração, fígado, etc.).
·        Tumba: túmulo.
·        Ímpetos: impulsos instantâneos.
·        Deteve: segurou.
·        Macabra: fúnebre, tétrica.
·        Sobressaltada: assustada.
·        Retumbante: barulhento.
·        Resplendor: brilho intenso.

05 – Que atitude dona Mercedes toma diante do pouco-caso de Maria Angula? Por que age assim?
      Ela resolve dar uma receita macabra para Maria Angula. Seu objetivo era vingar-se da vizinha, fazendo com que ela passasse por boba.

06 – O que Maria Angula devia fazer para preparar o caldo de tripas e bucho?
      Ela devia ir ao cemitério e retirar do defunto mais fresco suas tripas e seu estômago. Depois cozinhar tudo com água, sal e cebola e acrescentar amendoins.

07 – O que ocorreu na noite em que Maria Angula preparou o macabro jantar para seu marido?
      O defunto foi até a casa de Maria Angula em busca de suas tripas e de seu estômago e ela desapareceu para sempre.

08 – Selecione uma passagem do texto que demonstre ser esta uma narrativa fantástica.
      Resposta pessoal do aluno. Sugestão: “Fez-se um minuto eterno de silêncio e logo depois Maria Angula viu o resplendor fosforescente de um fantasma.”

TEXTO: BADEN, QUE JÁ FOI RAIMUNDO - MARCOS REY - COM QUESTÕES GABARITADAS

Texto: BADEN, que já foi Raimundo
      
                                  Marcos Rey

        Baden pegou uma vela e levou-a para o depósito. Precisava escrever uma carta; há meses que não mandava uma linha para Salvador. Nos dois anos de Rio, só três cartas. Sua mãe nem ficou sabendo que ele estivera no instituto e que dissera lá que era sozinho no mundo. Mentira: tinha mãe, tia e até uma avó já sem memória de nada. Viver com três mulheres, sempre lhe cobrando trabalho e seriedade, fora demais. Um dia pegou o violão, colou um recado no espelho e fugiu para o Rio, querendo ser artista. Chegando, participou de programas de calouros, ficou semanas nas salas de espera de emissoras de televisão, pediu oportunidades em gravadoras de discos, mas não conseguiu nem promessa. Sem um cruzeiro no bolso, não querendo e não podendo voltar par a Bahia, começou a roubar. Preso algumas vezes, como era menor de idade foi para o reformatório. Lá conheceu rapazes muito mais espertos, que lhe ensinaram certo jogo de cintura para sobreviver. Um deles, o Nariz, tornou-se o companheiro das fugas e dos roubos. Achava que o amigo ia longe, um dia seria alguém, e grudou-se nele.
        Com uma esferográfica, escreveu:
        Mãe.
        Sou eu, o Raimundo. Como está a senhora, a tia e a avó? Eu vou bem, de saúde e do resto. Andei penando, sem dinheiro, mas aprendi a me virar. Moro um dia aqui, outro ali, comendo sempre. Ganho os meus com o violão, em festinhas, nas churrascarias e nos bailes de subúrbio. Me chamam de Baden, um cara muito conhecido que toca violão, grava e viaja. Acho que um dia chego lá. Ainda não deu pra mandar grana pra vocês, mas está perto. Me prometeram uma montanha de dinheiro por uns espetáculos. Reze, mãe, fale com quem manda aí nos terreiros, porque se a coisa colar, se tudo sair certinho, irei visitar vocês. Acho que até vai dar pra comprar uma casa. A senhora sempre quis uma, não? É só isso, por hoje, e me puxe que já estou indo.
                                                                           Seu filho Raimundo.

         REY, Marcos. Bem-vindos ao Rio. São Paulo, Ática, 1986. p. 62-3.
Entendendo o texto:
01 – Quais as palavras e expressões usadas por Baden que pertencem à gíria?
      “Grana”; “se a coisa colar”; “me puxe que já estou indo”.

02 – Substitua as palavras e expressões da gíria que você encontrou no texto por termos da linguagem culta.
      Dinheiro; se der certo; até logo.

03 – O que significa “certo jogo de cintura para sobreviver”?
      Significa uma resposta rápida ao desafio de sobrevivência que a vida impõe.

04 – Observe como, na primeira parte do texto, em que o autor fala da vida de Baden, a linguagem é mais cuidada, não havendo necessidade de recorrer às gírias ou expressões coloquiais, porque não é o personagem que fala. As regras de pontuação, de concordância e de colocação pronominal são respeitadas. Dizemos, então, que, nessa parte, o autor utilizou uma linguagem formal.
Procure, na primeira parte do texto, exemplos de como o autor utiliza formalmente:

a)   A pontuação: “Um deles, o Nariz, tornou-se o companheiro das fugas e dos roubos”.

b)   Os tempos verbais: “Sua mãe nem ficou sabendo que ele estivera no instituto e que dissera...” (O mais-que-perfeito simples não é usado na linguagem coloquial).

c)   A colocação dos pronomes: “... levou-a para o depósito”.

POEMA: MARTIM CERERÊ - JOGADOR DE FUTEBOL - CASSIANO RICARDO - COM GABARITO

POEMA: MARTIM CERERÊ – JOGADOR DE FUTEBOL           

        Cassiano Ricardo

O pequenino vagabundo joga bola
e sai correndo atrás da bola que salta e rola.
Já quebrou quase todas as vidraças,
Inclusive a vidraça azul daquela casa
onde o sol parecia um arco-íris em brasa.

Os postes estão hirtos de tanto medo.
(O pequenino vagabundo não é brinquedo...)
E, quando o pequenino vagabundo,
cheio de sol, passa correndo entre os garotos,
de blusa verde-amarela e sapatos rotos,
aparece de pronto um guarda policial,
o homem mais barrigudo deste mundo,
com os seus botões feitos de ouro convencional,
e zás! carrega-lhe a bola!
“Estes marotos
precisam de escola...”

O pequenino vagabundo guarda nos olhos,
durante a noite toda, a figura hedionda
do guarda metido na enorme farda
com aquele casaco comprido todo chovido
de botões amarelos.

E na sua inocência improvisa os mais lindos castelos:
e vê, pela vidraça,
a lua redonda que passa, imensa,
como uma bola jogada no céu.
“É aquele Deus, com certeza,
de que a vovó tanto fala.
Aquele Deus, amigo das crianças,
que tem uma bola branca cor de opala
e tem outra bola vermelha cor do sol:
que está jogando noite e dia futebol
e que chutou a lua agora mesmo
por trás do muro e, de manhã, por trás do morro,
chuta o sol...
               Cassiano Ricardo. Martim Cererê. 11. ed. São Paulo, Saraiva, 1962.

Entendendo o texto:
01 – O que o garoto faz quando joga bola?
      Quando joga bola, o garoto quebra quase todas as vidraças.

02 – Pela descrição do menino no poema, como ele se veste?
      O menino veste uma blusa verde-amarela e usa sapatos rotos.

03 – Quem aprece par acabar com a brincadeira do menino?
      Aparece um guarda policial.

04 – Pela descrição que há no texto, como o guarda é fisicamente?
      O guarda é o homem mais barrigudo do mundo.

05 – Qual a atitude do guarda que desagrada ao menino?
      O guarda carrega sua bola.

06 – Qual o comentário que o guarda faz dos meninos?
      O guarda comenta: “Estes marotos precisam de escola...”

07 – Como o guarda se veste?
      Ele veste uma enorme farda com um casaco comprido, cheio de botões amarelos.

08 – Como é caracterizado o guarda do texto (uma figura compreensiva, brava, carinhosa, etc.)?
      Como uma figura hedionda.

09 – O garoto compara a lua redonda a que objeto?
      A uma bola.

10 – O que o menino pensa de Deus?
      Pensa que ele é amigo das crianças.

11 – O que ele pensa que Deus tem?
      Ele pensa que Deus tem uma bola branca cor de opala e uma outra vermelha cor do sol.

12 – O que ele pensa que Deus faz?
      Ele pensa que Deus joga futebol noite e dia.

13 – Com quantas bolas o garoto acredita que Deus joga futebol? E quais são elas?
      Duas bolas: a lua e o sol.

14 – O menino pensa que Deus joga bola. Isso acontece mesmo? Explique.
      O menino pensa que ele joga, mas isso na verdade não acontece: não passa de ideias de um menino.

15 – Compare a atitude do guarda com a que o menino imagina como atitude de Deus.
      O guarda é apresentado como uma figura hedionda e toma a bola do menino. Deus é mostrado como amigo das crianças e jogador de futebol.