quinta-feira, 10 de setembro de 2026

EXERCÍCIOS DE CONCORDÂNCIA - COM GABARITO

 Exercícios de concordância

 

1 – Analise cada trecho abaixo. Todos os casos possuem desvios na variedade padrão da língua portuguesa. Corrija-os e aplique a regra de concordância adequada:

a) Poxa, meu Deus...já são uma hora e sua irmão ainda não chegou da escola!

      Já é uma hora – o verbo ser concorda com o número de horas... Já são três horas.

b) Embora eu não quisesse ver um futuro promissor para nós dois, já fazem dois anos que nos conhecemos.

      Faz dois anos – verbo fazer fica na 3ª pessoa do singular quando se refere a tempo decorrido.

c) Os noivos acham que quatro anos são suficientes para celebrarem o casamento.

      Quatro anos é suficiente – quando o verbo SER aparece nas expressões: é bom, é pouco, é suficiente, indicando distância, quantidade, peso, etc. ele ficará no singular.

d) A noite foi maravilhosa, mas haviam pontos que deveriam discutir antes de seguirem adiante.

      Havia pontos – verbo haver indicando existir é impessoal, portanto fica na 3ª pessoa do singular.

e) Aluga-se muitas salas para consultórios no centro da cidade.
      Alugam-se salas... – sujeito paciente no plural (salas) o verbo deve concordar no plural.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhtIeC3mUwCe4rq0mpOmiRz9sdJzXe9uHL8pPqxe4ETHogn5DtSbzBSGZFbgRExpflLGwrYnizLKoojbptemGuYFGbdqZXRHMe6q7YLzkTtml6HL80hu1eCB2tsO8Ae6io5zHNvZ0ZpMrPNot11mQVJAvRnyO9V4lZcuyWUztS-_LQr7ADETXjeaaEfOQE/s320/images.jpg  


f) Naquela tarde chuvosa, houveram discussões acirradas na assembleia de moradores.

      ...houve discussões... – verbo haver indicando existir é impessoal, portanto fica na 3ª pessoa do singular.

g) Muitos de nós reclamou da decisão radical da escola.

      Muitos de nós reclamamos / reclamaram... – o verbo pode concordar com a expressão Muitos (3ª pessoa do plural) ou pode concordar com o elemento mais próximo (nós - 1ª pessoa do plural) reclamamos.
h) A multidão invadiram o estádio.

      A multidão invadiu... sujeito coletivo (multidão), verbo na 3ª pessoa do singular.

i) Fui eu que anunciou a mudança da avaliação.

      ...eu que anunciei – com o pronome relativo que, o verbo concorda com o antecedente desse pronome.

j) Vossa Eminência visitastes vários países neste ano?

      Quando o sujeito for um pronome de tratamento, o verbo deve concordar na 3ª pessoa do singular.

k) Ana com sua mãe compareceu à reunião da escola.

        Ana com sua mãe compareceram... sujeito constituído da preposição COM, o verbo concorda no plural.

l) Cerca de dois aviões continua no pátio.

      Cerca de dois aviões continuam... – verbo no plural, concordando com o numeral (dois).

m) Nenhum de nós participaremos do concurso.

      Nenhum de nós participará... com a expressão NENHUM o verbo deve ficar no singular.

n) Carlos ou Pedro serão o presidente do grupo executivo da empresa de metais.

      ...será... sujeito composto pela conjunção OU (exclusão) verbo fica no singular.

o) Marco, tu e eu ireis ao prédio em chamas.

      ...iremos... na presença da 1ª pessoa do singular (eu), o verbo deve ficar na 1ª pessoa do plural (Nós).

p) Tu, Marcos e ele iremos aos festejos da padroeira.

      ...ireis/irão – na ausência da 1ª pessoa (eu), o verbo pode ficar na 2ª do plural ou 3ª do plural.

q) Maçã ou pera é imprescindível à saúde do indivíduo.

      ...são... imprescindíveis quando o sujeito composto pela conjunção OU (adição) o verbo fica no plural.

r) Cinema e teatro me agrada.

      ...agradam. sujeito composto pela conjunção OU (adição) – verbo no plural.

s) Confiam-se em pessoas capacitadas para a função de administrador.

      Confia-se... verbo na 3ª pessoa do singular – sujeito indeterminado.
t) Joga-se búzios.

      Jogam-se... – sujeito paciente no plural (búzios) – verbo no plural.

u) Trança-se cabelos.

      Trançam-se... sujeito paciente no plural (cabelos) – verbo no plural.
v) Deram cinco horas o relógio do quarto.

      Deu... sujeito no singular (relógio) – verbo no singular.

x) Já faziam três horas que o sino tocara.

      ...fazia... verbo impessoal na 3ª pessoa do singular determinando tempo decorrido.

z) O menino eram as esperanças do pai.

      ...era... verbo ser no singular concordando com o sujeito quando for nome de pessoa.


02 – Substitua o verbo haver pelo verbo existir nas frases abaixo:

a) Há muitas evidências de que o caso envolve pessoas da cúpula da polícia.

      Existem.
b) Pode haver pessoas conhecidas no prédio onde ocorreu o crime.

      Podem existir.

c) Haverá ainda dúvidas quanto ao assunto de hoje?

      Existirão.
d) Poderia haver sérias consequências à saúde daqueles jovens delinquentes.
      Poderiam existir.


03 – Faça a correspondência:

(1) SE - índice de indeterminação do sujeito

(2) SE - partícula apassivadora

(3) SE - conjunção condicional


(3) Se ele vier cedo, avise-me imediatamente.

(1) Necessita-se de bons médicos no novo hospital.

(2) Reformam-se sofás e cadeiras.

(1) Depende-se de muitas verbas e vontade política para terminar a obra.

(1) Trata-se de projetos mirabolantes.

(3) A mãe dizia que, se você fosse uma boa pessoa, teria mais amigos.

(2) Resolviam-se os problemas mais evidentes na prefeitura.

(1) Fala-se bastante em enchentes no país inteiro.

(2) Não se viam muitos funcionários dedicados na empresa.

(3) Naquele dia de sol, durante a prova, se ele tivesse estudado mais, acertaria a maioria das questões.


04 – Leia cada frase e corrija o que estiver errado em cada afirmação:

a) O verbo haver só é usado na 3ª pessoa do singular.

      O verbo haver só é usado no singular quando for impessoal e significar existir. Nos outros casos a concordância é feita normalmente. Ex.: Eles haviam de terminar a tarefa.

b) Quando se tratar de oração na voz passiva, o verbo fica sempre no plural acompanhado de partícula apassivadora.

      O verbo nem sempre fica no plural, se a oração estiver na voz passiva. Se o sujeito estiver no singular, o verbo ficará no singular. Ex.: Aluga-se uma casa.

c) O verbo fazer fica sempre na 3ª pessoa do singular pois é impessoal.

      O verbo só ficará impessoal quando se tratar de tempo decorrido. Nos outros casos, o verbo faz a concordância adequada. Ex.: Eles faziam tudo no prazo certo.

d) Se o sujeito composto estiver posposto, a concordância verbal deve ser feita apenas no plural.

      Quando o sujeito estiver composto e posposto, o verbo pode concordar com os núcleos do sujeito, ficando no plural ou no singular, concordando com o núcleo mais próximo. Ex.: Foram/Foi à praia Paula e Suzana.

 

POESIA: LUA ADVERSA - CECÍLIA MEIRELES - COM GABARITO

 Poesia: Lua adversa

         Cecília Meireles

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjGfGGlYgil9mYTOEqhpA47AQBdy6aZeJa5dzm3cCrVLh9uMM3c5pYQsHk96Isf2AwjT9nOq1c92f5zZGJIyLMR4OTaPeoYE0RqQinZrj8yzOrjZOK4JEPjtAekoJSPZq_X0D7UDnBbBn-GHLv-xCZLzmnjG5RAypaLF5IFYxXDETnrrn0wQvLD7J_dAUA/s320/images.jpg 



Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

Entendendo a poesia:

01 – Qual é a principal metáfora utilizada pela eu lírico para descrever seu comportamento e estado emocional?

      A principal metáfora é a comparação com a lua ("Tenho fases, como a lua"). Assim como o satélite passa por fases cíclicas de mudança, o eu lírico descreve seus próprios momentos de recolhimento, extroversão, solitude e busca por convivência.

02 – Como o poema aborda o conflito entre a busca por solitude e a necessidade de convivência?

      O conflito é representado pelas alternâncias de atitude da eu lírico, que ora tem "fases de andar escondida", ora tem "fases de vir para a rua", assim como momentos em que deseja se entregar a alguém ("fases de ser tua") e outros em que prefere o isolamento ("outras de ser sozinha").

03 – O que significa a expressão "secreto calendário / que um astrólogo arbitrário / inventou para meu uso"?

      A expressão simboliza a imprevisibilidade e a falta de controle que o eu lírico tem sobre as próprias emoções e mudanças de humor. As fases do seu sentimento parecem regidas por uma força externa e misteriosa (o "astrólogo arbitrário"), sem seguir uma lógica racional.

04 – Qual é o sentido do verso "E roda a melancolia / seu interminável fuso!" no contexto do poema?

      O verso utiliza a imagem do fuso de fiar (que gira continuamente) para expressar o caráter repetitivo, dinâmico e contínuo do sentimento de melancolia. A melancolia é tecida e alimentada sem parar pelas constantes mudanças emocionais pelas quais o eu lírico passa.

05 – Por que o poema se intitula "Lua adversa"? Como os últimos versos justificam esse título?

      O título refere-se ao descompasso e ao desencontro amoroso provocados por essas oscilações. Os últimos versos explicam essa adversidade: quando a outra pessoa está disposta a estar com a eu lírico, não é a fase desta de se entregar; e quando o eu lírico finalmente está disposta, a outra pessoa já não está mais presente.

 

 

CONTO: O SEGREDO - FRAGMENTO - LUIZ RUFFATO - COM GABARITO

Conto: O segredo – Fragmento

          Luiz Ruffato

VIII
        O Professor acordou, ajoelhou-se junto ao pequeno nicho iluminado por uma luzinha azul, recitou o Credo e o Pai-Nosso, dirigiu-se ao quintal para lavar o rosto e escovar os dentes no tanque de roupas, voltou, vestiu o terno, caminhou em direção à cozinha, parou em frente à chapeleira, mirou-se no espelho, arrumou o nó da gravata, compôs melhor o paletó, passou os dedos longos e secos pelo cabelo e espantou-se com o silêncio. Entrou na cozinha e Quede dona Conceição? Atônito, sentou-se à mesa vazia. Em quinze anos, aquela era a primeira vez que a empregada não chegava no horário.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgPfjPkBz6fSlC3alSBnfwKvQqp524XlnNME9i2_JN4H-U0O9yqQoZBrexcy8QWbut2Vcp1OH788jccI7CZwGWnhBTa8S3Y-ri7oNCbaqY-7o_PhVPQcnqDUiNZDfXD0x1UQh97RgL-3fYVskgDfguwwa7WlHew4DP9Zju4A_TI9IHvLvCpchyIigTrA04/s320/images.jpg


        Refeito, deu de ombros, O que fazer?, encostou a porta e foi tomar o café da manhã na cantina do Colégio. Às cinco para as seis, entrou em casa e, decepcionado, constatou que a mulher não fora trabalhar naquele dia. Se quisesse jantar, teria que se deslocar até o Bar Elite, Que amolação! Será que aconteceu alguma coisa? Que nada, Ah, esse povo!, sempre tentando E agora o quê que vou comer? Vamos ver E se.

        Dia seguinte, acordou, ajoelhou-se junto ao pequeno nicho iluminado por uma luzinha azul, recitou o Credo e o Pai-Nosso, dirigiu-se ao quintal para lavar o rosto e escovar os dentes no tanque de roupas, voltou, vestiu o terno, caminhou em direção à cozinha, parou em frente à chapeleira, mirou-se no espelho, E a dona Conceição? "Dona Conceição! Ô dona Conceição!" Silêncio. Mas não é possível! "Dona Conceição!" A cozinha vazia irritou-o profundamente. Ê gente sem compromisso! Pegou a sovada pasta de couro, Depois mando embora vai lamentar Cheio de gente aí fora Dá pena Mulher honesta Mas se não for assim como, saiu pisando duro. Na calçada, um homem apeou da bicicleta e veio ao seu encontro, "Professor?" Assustou-se, apertou o passo. "Professor? O senhor é o Professor, não é? Sou vizinho da dona Conceição..." "Ah!" Parou. "O senhor é o Professor, não é? Pois então! Tinha certeza!, homem assim, que nem o senhor, só podia ser... O caso é que a dona Conceição, ela mora lá no Beco do Zé Pinto, o senhor sabe..." "Sei, sei". "Coitada, teve um troço lá, não veio trabalhar ontem, nem vai poder trabalhar hoje não..." "Ô meu deus! Mas o quê que ela tem?" "Uma macacoa besta lá... Preocupa não... Diz ela que segunda-feira está de volta, se deus quiser..." "Então, não é nada muito sério, não?" "Nada... Acho que não... Ela até mandou perguntar pro senhor se tem roupa pra lavar. Se tiver, é só falar, eu levo, a comadre dela cuida... Direitinho..." "Não, não... Segunda-feira ela volta, então?" "Segunda-feira, se deus quiser..." "Qual é mesmo a sua graça?" "Vanim. Vanim às suas ordens" "Pois bem, seu Vanim, eu já estou meio atrasado... Vamos fazer o seguinte... Diga pra dona Conceição que eu... estimo suas melhoras... E... quem sabe... Bom... E que eu espero ela na segunda-feira..." Vanim sentou no selim da Monark laranja. "De qualquer maneira, muito obrigado, senhor..." "Vanim. Vanim às suas ordens!" O Professor mudou de calçada. Vanim pedalou alguns metros, parou. "O senhor quer uma carona?, pode montar aí na garupeira, levo o senhor..." "Não, meu rapaz, muito obrigado." "O senhor é quem sabe... Precisando da gente..." E desapareceu no meio da cerração.

 Entendendo o conto:

01 – Qual é a rotina matinal descrita do Professor antes de ele ir à cozinha?

      O Professor acorda, ajoelha-se junto a um pequeno nicho iluminado por uma luz azul para rezar o Credo e o Pai-Nosso, vai ao quintal lavar o rosto e escovar os dentes no tanque de roupas, veste o terno e arruma a gravata, o paletó e o cabelo em frente ao espelho da chapeleira.

 02 – O que causa o espanto e a estranheza do Professor logo no primeiro dia narrado?

      O silêncio na casa e a ausência de dona Conceição, a empregada doméstica. Essa situação o surpreende porque, em quinze anos de trabalho, foi a primeira vez que ela não chegou no horário.

 03 – Como o Professor reage inicialmente à ausência da empregada no segundo dia?

      Ele fica profundamente irritado com a cozinha vazia, chama por ela e faz julgamentos sobre os trabalhadores ("gente sem compromisso"), pensando inclusive em demiti-la, embora reconheça internamente que ela é uma mulher honesta.

 04 – Quem aborda o Professor na rua e qual é o motivo da abordagem?

      Ele é abordado por Vanim, um vizinho de dona Conceição. Vanim veio avisar que a empregada não pôde ir trabalhar porque teve uma "macacoa" (estava doente), mas que pretendia retornar na segunda-feira.

05 – Que atitude do Professor ao longo do texto evidencia seu distanciamento social em relação a Vanim e dona Conceição?

      O Professor demonstra um comportamento distante e preconceituoso: assusta-se ao ser abordado na rua, muda de calçada durante a conversa, recusa a oferta de carona na bicicleta de Vanim e demonstra preocupação excessiva apenas com os próprios incômodos (onde comer, suas roupas e o atraso), mantendo uma postura de superioridade em relação às pessoas mais simples.

 

 

 

 


DIFERENÇA ENTRE COMPLEMENTO NOMINAL E OBJETO INDIRETO

 DIFERENÇA ENTRE COMPLEMENTO NOMINAL E OBJETO INDIRETO

 

        Tenho recebido muitas dúvidas de meus alunos a respeito da diferença entre Complemento Nominal e Objeto Indireto. A diferença é simples, por isso quem conseguir entender um, conseguirá também compreender o outro. Esses elementos quase sempre são objetos de concursos, exames e vestibulares.

        Trata-se de complementos distintos, mas muito semelhantes, pelo uso da preposição. Quando o verbo é transitivo indireto, apresenta preposição; nomes que regem (exigem) complemento também apresentam preposição.

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        Lembro que substantivo, adjetivo e advérbio classificam-se como nomes.

      Sempre que o termo complementar verbos que exijam preposição (gostar de, confiar em, obedecer a), será objeto indireto; sempre que complementar nome (certeza, necessidade, favoravelmente, propenso), será complemento nominal. Então, vamos aos exemplos:


1. Eu ACREDITO nas pessoas que falam a verdade.

        Acredito: V.T.I (Acredito em quem? / em quê?)

        Nas pessoas que falam a verdade: Objeto Indireto (Complementa verbo Acredito).


2. A CRENÇA nas pessoas que falam a verdade é algo sensato.

        Crença: Nome (substantivo abstrato, exigindo complemento: crença em quem? / em quê?)

        Nas pessoas que falam a verdade: Complemento Nominal (Complementa nome Crença)


        Desse modo, é só verificar se o termo regente é verbo ou nome. É preciso atentar para o fato de que complemento é qualquer termo que não pode ser dispensado para que o anterior tenha sentido completo.

 

ARTIGO DE OPINIÃO: O NÍVEL DE NOSSOS ALUNOS SERÁ O NÍVEL DE NOSSA SOCIEDADE - CASSILDO SOUZA - COM GABARITO

 Artigo de Opinião: O nível de nossos alunos será o nível de nossa sociedade

               Cassildo Souza


        Fico a refletir a respeito dos alunos que estão sendo moldados na entrada do século XXI. Para tanto, lembro alguns fatores que poderiam servir de parâmetros a esta análise: hoje, o número de escolas existentes é infinitamente superior ao de há algumas décadas, a quantidade de profissionais com nível superior cresceu consideravelmente e cursos de capacitação foram criados para qualificar os professores. Além disso (com muitas dificuldades), houve avanços significativos na remuneração docente. Mas, honestamente, será que essas melhorias refletem-se na prática educativa? Nossos estudantes estão preparados a enfrentar o mundo? Acredito que, infelizmente, não.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhQgA7iBmZsHKyUTO_K1aW7K0ahXhQlAZLLU58QfC1zDg8ac6zCbOBn7QDXWq3mpTOQaDyGogU-mRDiSwfcSjBe5qR8orBKO31cJ3oTpBYZks9aJ5EQX_lZ6BdKr8i26aBuuvIJVBFCgUf9uKT6ictiTyZRLBq7CwKjTZ8Fr1ntwVeRd5QhWXUpK3uswxI/s320/images.jpg


        Quem atua em sala de aula pode atestar com toda a autoridade que a base desses indivíduos, no geral, ainda é muito precária, especialmente no que tece à matemática e à língua, aspectos preponderantes para conhecimento. O nível de leitura e de escrita não tem sido um motivo de orgulho para as crianças do Brasil, que corriqueiramente ficam abaixo da média, se comparados aos outros países da América do Sul. A disciplina matemática não é bem-vinda por um inestimável número de estudantes que não veem a importância de certos conteúdos para o seu dia-a-dia. E se não percebem a relevância, provavelmente se interessam menos, aprendem menos.

        Não me atreveria, aqui, a ensaiar que motivos levam a essa incoerência. Adiante falarei sobre apenas um que considero fundamental. Mas, se acontecem esses fatos, o que podemos esperar desses alunos quando eles chegarem à universidade e, depois, quando saírem para o mercado de trabalho? Muitos são os casos em que o nível superior não corresponde à atuação profissional. E tudo por uma questão de base, pois aquilo que não se aprendeu nas instâncias inferiores do ensino não será milagrosamente absorvido em apenas 4 anos. O fato é que por essa má formação, temos professores que não sabem ler, advogados que não conhecem a lei, médicos que não descobrem doenças simples, jornalistas que não apuram os fatos e engenheiros cujas obras não se sustentam por muito tempo.

        Faço agora a referência que prometi no parágrafo anterior, acerca das razões que levam a um ensino precário. Vejo a falta de compromisso de certos profissionais da educação como a pior mazela que pode existir no processo educacional. Alguns deles se apoiam no fato de estarem no serviço público, não cumprindo suas obrigações e, por consequência, não atendendo às necessidades de seu público-alvo. Sem falar naqueles que concorrem ao cargo de professor e com pouquíssimo tempo recorrem a “padrinhos”, no intuito de não atuarem em sala de aula. Como não há uma cobrança rígida (nem interesse para que isso aconteça), ocorre uma reprodução perpétua como uma doença epidêmica e o resultado é catastrófico.

        Se queremos desenvolvimento, progresso, bem-estar para nós mesmos, precisamos, enquanto educadores, realizar um trabalho sério, não simplesmente para mostrarmos que somos “bonzinhos” e aparecermos como as referências da prática pedagógica ideal; mas para que amanhã não sejamos prejudicados em decorrência de uma sociedade mal instruída e sem conhecimento científico. Nossos descendentes dependerão daqueles que estamos ajudando a formar hoje. E se não o fizermos da maneira adequada seremos as próprias vítimas desse processo.

 

Entendendo o artigo:

01 – Quais avanços na área educacional o autor reconhece ter ocorrido nas últimas décadas?

      O autor destaca que o número de escolas aumentou significativamente, a quantidade de profissionais com ensino superior cresceu, foram criados cursos de capacitação docente e houve avanços (ainda que com dificuldades) na remuneração dos professores.

 02 – Qual é o diagnóstico do autor quanto ao preparo dos estudantes diante dos avanços citados?

      Apesar das melhorias estruturais, o autor avalia que o ensino não avançou na prática. Para ele, os alunos continuam despreparados e apresentam uma base muito precária, principalmente em Língua Portuguesa (leitura e escrita) e em Matemática.

03 – De acordo com o texto, por que muitos alunos demonstram falta de interesse pela disciplina de Matemática?

      Porque eles não conseguem perceber a relevância e a aplicação prática de certos conteúdos matemáticos em seu dia a dia. Sem enxergar essa importância, os estudantes se interessam menos e, consequentemente, aprendem menos.

04 – Que consequências a má formação na educação básica gera na atuação de profissionais formados no ensino superior?

      O autor aponta que deficiências da base não são corrigidas em quatro anos de faculdade, resultando em profissionais despreparados: professores que não sabem ler, advogados que desconhecem a lei, médicos incapazes de diagnosticar doenças simples, jornalistas que não apuram fatos e engenheiros que constroem obras sem sustentação.

 05 – Qual é a principal razão apontada pelo autor para a precariedade do ensino?

      A falta de compromisso de certos profissionais da educação. O autor critica aqueles que se apoiam na estabilidade do serviço público para não cumprir suas obrigações ou usam "padrinhos" políticos para se afastar da sala de aula, sem que haja uma cobrança rígida por parte do sistema.

06 – Por que o autor usa a metáfora de uma "doença epidêmica" para descrever a conduta de determinados educadores?

      Porque a falta de fiscalização e de rigor faz com que a irresponsabilidade e a negligência profissional se reproduzam perpetuamente entre os educadores, espalhando-se pelo sistema de ensino e gerando um resultado catastrófico para toda a formação escolar.

07 – Qual é o alerta final que o autor faz aos educadores sobre o impacto do seu trabalho no futuro?

      O autor adverte que um trabalho pedagógico sério não deve ser feito por vaidade, mas por necessidade. Se os educadores não formarem cidadãos bem instruídos e com conhecimento científico hoje, eles e seus descendentes serão as próprias vítimas de uma sociedade mal formada e sem progresso no futuro.

 

 

 

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

ROMANCE: A HORA DA ESTRELA - FRAGMENTO - CLARICE LISPECTOR - COM GABARITO

 Romance: A hora da estrela – Fragmento

                Clarice Lispector

Trecho I

        Escrevo neste instante com algum prévio pudor por vos estar invadindo com tal narrativa tão exterior e explícita. De onde no entanto até sangue arfante de tão vivo de vida poderá quem sabe escorrer. [...]

        Como é que sei tudo o que vai seguir e que ainda o desconheço, já que nunca o vivi? É que numa rua do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina. Sem falar que eu em menino me criei no Nordeste. Também sei das coisas por estar vivendo. Quem vive sabe, mesmo sem saber que sabe. [...]

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhk5eE4nVXM9SVD2xwnEOVXKJsZeBPsS6-zUMyIZV_wyszsW8YJmJLAUZn3hXr2ilgLjhtM2V1KODQK2OYc8nxIYrGifSxiTBmrH8rv52ZcRJ1lnz2ANq23yJOl0eVp0ecDq9TR0sNVutqjVZuXlL2HgcOUXfGIMH08BgLGJr4zrnW5mcCkKjTp6JSzQH4/s320/images.jpg


        Proponho-me a que não seja complexo o que escreverei. [...].

        O que escrevo é mais do que invenção, é minha obrigação contar sobre essa moça entre milhares delas. É dever meu, nem que seja de pouca arte, o de revelar-lhe a vida. [...]

        Quero antes afiançar que essa moça não se conhece senão através de ir vivendo à toa. Se tivesse a tolice de perguntar “que sou eu?” cairia estatelada e em cheio no chão. É que “que sou eu?” provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto.

Clarice Lispector. A hora da estrela. Rio de Janeiro: José Olympio, 1981, pp. 16-20.

Trecho II

        Quanto à moça, ela vive num limbo impessoal, sem alcançar o pior nem o melhor. Ela somente vive, inspirando e expirando, inspirando e expirando. Na verdade – para que mais que isso? O seu viver é ralo. Sim. [...]

        Ela nascera com maus antecedentes e agora parecia uma filha de um não-sei-o-quê com o ar de se desculpar por ocupar espaço. [...] Ninguém olhava para ela na rua, ela era café frio. [...]

        Essa moça não sabia que ela era o que era, assim como um cachorro não sabe que é cachorro. Daí não se sentir infeliz. A única coisa que queria era viver. Não sabia para que, não se indagava. [...]

        Talvez a nordestina já tivesse chagado à conclusão de que vida incomoda bastante, alma que não cabe bem no corpo, mesmo alma rala como a sua.

Clarice Lispector. Idem, pp. 30-40.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 234.

Entendendo o romance:

01 – No Trecho I, o narrador expressa um sentimento de dever em relação à história da moça nordestina. Qual é a principal motivação apresentada por ele para escrever essa narrativa?

a) A necessidade de resgatar memórias autobiográficas de sua infância no Nordeste.

b) A intenção de criar uma obra de ficção complexa e repleta de mistérios insolúveis.

c) O desejo de demonstrar sua alta habilidade e virtuosismo técnico na arte literária.

d) O compromisso ético e a obrigação de dar visibilidade à vida da moça.

02 – De acordo com as reflexões do narrador no Trecho I, por que a pergunta 'que sou eu?' seria perigosa para a protagonista?

a) Porque a questionamento gera uma necessidade de sentido que a personagem não saberia como satisfazer.

b) Porque essa pergunta a faria perceber que era mais inteligente do que as pessoas ao seu redor.

c) Porque o autoconhecimento a levaria a abandonar imediatamente sua vida no Rio de Janeiro.

d) Porque o ato de se questionar exigiria dela o aprendizado de teorias filosóficas complexas.

03 – No Trecho II, a expressão metafórica 'ela era café frio' é utilizada para descrever a moça. O que essa metáfora sugere sobre a percepção social da personagem?

a) A sua total insignificância e invisibilidade aos olhos das pessoas que passavam por ela.

b) O seu temperamento calmo e controlado diante das adversidades do cotidiano.

c) O seu ressentimento silencioso contra as injustiças da grande cidade.

d) A sua constante busca por momentos de descanso e pausa durante o trabalho.

04 – A analogia entre a moça e um cachorro ('assim como um cachorro não sabe que é cachorro'), apresentada no Trecho II, tem como finalidade explicitar:

a) O desprezo e a agressividade com que ela costumava tratar as pessoas ao seu redor.

b) A ausência de autoconsciência da personagem, o que a preservava de se sentir infeliz.

c) A incapacidade biológica da moça de se comunicar com outros seres humanos.

d) A fidelidade incondicional da personagem em relação aos seus patrões e colegas.

05 – Qual opção sintetiza adequadamente o modo de existência da moça descrito ao longo do Trecho II?

a) Uma trajetória marcada pela busca constante de ascensão social e realizações pessoais.

b) Uma postura de confronto aberto e revolta permanente diante da exclusão social.

c) Uma vida dominada por angústias filosóficas profundas e dor existencial diária.

d) Uma vivência puramente biológica e alienada, pautada no simples ato de vegetar ou respirar.

 

TEXTO: COMO ATINGIR UM BOM NÍVEL DE REDAÇÃO

 Texto: COMO ATINGIR UM BOM NÍVEL DE REDAÇÃO

 

        Dicas para fazer da redação uma tarefa mais natural e menos temerosa:

        -- Ler sobre todos os assuntos é o primeiro passo. Ninguém consegue transmitir qualquer coisa, sem que obtenha informações sobre ela. Há vários temas que podem ser cobrados, e não existe uma tendência ou previsão. A preparação deve ser completa;

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiJRA-GKAf0LWJxWycQbVvhU7dImCjNBGdxgYKD-7-g-ey3keFeLFIKYOZejHoCWth1Iq1Ry9hrSC8CZdPbhReRODRd0he4TSDrBYfKX7CoGckxQqD0Lrl8tr3uIwVkgHxZFtrkUkwvtKm5yOZCJXB_23pO8sZufNgIuKaQMuMLkEPBZLkGJkZbl-4U23w/s320/images.jpg 


        -- Escrever corriqueiramente. Se você ler e não praticar, não vai adiantar muita coisa. É preciso converter as informações recebidas em construções textuais. E isso deve ser feito com um prazo de, no máximo, uma semana de descanso. Se passar disso, a acomodação começa a ganhar espaço;

        -- Ser objetivo, claro, conciso. Não se admitem mais textos truncados, que se apoiam única e exclusivamente em demonstrar conhecimento vocabular. De nada serve utilizar as palavras mais hilárias sem que estejam contextualizadas com a situação;

        -- Definir uma linha de raciocínio e não fugir dela. Misturar temas ou desviar-se do foco pode, inclusive, eliminar o candidato;

        -- Escrever de forma legível. Isso não significa dizer que seja preciso "desenhar" a letra. O aluno deve, simplesmente, tornar claros os períodos que compõem o texto, para possibilitar uma avaliação fiel daquilo que está sendo analisado;

        -- Não se posicionar de forma exageradamente subjetiva. O texto, qualquer que seja seu gênero, deve trazer uma carga de impessoalidade, que significa não tomar partido de um assunto por questões pessoais. É preciso equilíbrio, até para poder encontrar argumentos convincentes;

        -- Evitar expressões coloquiais, quando o texto for de natureza DISSERTATIVO-ARGUMENTATIVA. Isso não se adequa à situação;

        -- Saber diferenciar a estrutura conforme os gêneros: Carta exige um modelo, Artigo exige uma outra esquematização, Notícia tem suas particularidades. E assim por diante;

        -- Reescrever sempre o texto que não foi bem avaliado. Essa atitude talvez seja a mais importante e, infelizmente, a menos praticada.

        Espero que essas dicas possam contribuir àqueles que estão conscientes da importância da redação na nota final do vestibular.

 

 

 

BIOGRAFIA: SE A MEMÓRIA NÃO ME FALHA - A HERANÇA - FRAGMENTO - CLAUDIA ORTHOF PEREIRA LIMA - COM GABARITO

 Biografia: Se a memória não me falha – A herança – Fragmento

        Mamãe nasceu no Rio, no Hospital dos Estrangeiros, em 03 de setembro de 1932, filha de um casal de judeus austríacos, que tinham deixado Viena entre as duas guerras, em busca de paz e trabalho. Seu pai, Vovô Geraldo (Gerhard Orthof), era de uma família de artistas, ele próprio pintor. Seu tio materno foi o músico Arnold Schoenberg, e a mãe, Malvine, era casada com um letrista de operetas vienenses. Esta avó, Vovó Malva, como mamãe dizia, influenciou muito a adolescente Sylvia, com sua irreverência e liberdade. A mãe de Mamãe, Vovó Trude (Gertrud Alice Goldberg, depois Orthof), foi pintora e ceramista. Era de uma família burguesa e rica de Viena, que perdeu tudo na guerra e veio para o Brasil, fugindo do nazismo. Sua mãe, a Vovó Clara de Mamãe, tocava piano e cantava... e chorava a perda de sua terra natal.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhQb5iLvf8FuRlmwc0kxi1f8xahggJU9FfXpfjlc86lYGuW1ZGIq73W2YqNPRF9VMvGv6_JUWf97XztHQ7BXCs6SN9egLAJ7QqG6Lf4aR0UifgpO7cDW32fAhQZvMnwQackPhSe-EXwRQ-RY7ceZ7HqX7N079o2e1N61jY8cpizQA1KOoslUQduJM7CBZA/s320/images.jpg


        Mamãe teve uma infância difícil. Aprendeu a falar primeiro alemão e falava português com sotaque e errado até a idade escolar. Filha única, numa família de imigrantes pobres, que recebia seus avós e tios, chegados da Áustria em guerra. Além de tudo, quando tinha sete anos, seus pais se separaram, numa época em que isto era muito incomum. Meu avô se casou e a sua segunda esposa tinha uma filha da idade de Mamãe. Ela ficou vivendo com Vovó Trude. Não falavam para a menina Sylvia que ela era judia, por temer o preconceito, não falavam alemão na rua para não serem confundidos com nazistas, num Brasil então em guerra, lutando com os aliados. Na escola, as meninas faziam Primeira Comunhão e Mamãe também quis... e fez, sendo batizada por uma família não religiosa.

        Adolescente, conheceu o Teatro do Estudante, de Paschoal Carlos Magno, e aos quinze anos foi a “Julieta” de Shakespeare. Tio Paschoal, como nós o chamávamos, foi uma figura paterna para Mamãe, e para nós um avô louco e divertido, que telefonava sempre com um apelido diferente, geralmente impublicável. Quando crianças, saíamos do Planalto Central, em Brasília, onde moramos, para fazer as visitas montanhosas aos avós: Vovô Geraldo, pai de Mamãe, em Petrópolis, Vovó Trude, mãe de Mamãe, em Teresópolis, Vovó Adalgisa, mãe de Papai, em Petrópolis, e Paschoal em Santa Tereza.

        Aos 18 anos foi estudar teatro em Paris, onde estreitou os laços com a única irmã de Vovó Trude, a famosa Tia Hedy, que havia fugido para a França durante a guerra. Tia Hedy, depois da morte de vovó, ficou sendo a mãe de Mamãe, e hoje ainda vive em Paris, aos 95 anos, e me falou ontem, por telefone, que estaria agora reunida a nós, em pensamento. Seu filho, Harry, hoje vivendo em Milão, foi o irmão que a Mamãe não teve. Um primo que a ajudou muito pela vida afora, inclusive nos últimos tempos da doença.

        Um ano depois voltou ao Brasil e trabalhou como atriz no Teatro Brasileiro de Comédia, em São Paulo (o TBC), e no Rio com os grandes nomes do teatro e da TV, como Cacilda Becker, Walmor Chagas, Ziembinsky, Sérgio Britto, Cleyde Yáconis, Sérgio Cardoso e muito mais.

        Aos 25 anos, falava com Cacilda, no camarim, que estava cansada daquela vida de teatro de noite, ensaio de madrugada, dormir de manhã, televisão (ao vivo – sem videoteipe) à tarde. Queria casar e ter filhos. Papai, Sávio Pereira Lima, estava na plateia. Era um médico amigo de artistas, e Cacilda os apesentou. Pouco depois, Mamãe deixou o teatro e, apaixonada, acompanhou meu pai para uma aldeia de pescadores, Marobá, hoje Nova Viçosa, no sul da Bahia, onde viveu seus primeiros anos de casada, e eu meu primeiro ano de vida. Papai tinha 40 anos, tinha ficado viúvo muito jovem, com um filho pequeno, tinha se casado, tido outro filho e se separado. Com esta vida atribulada, desgostoso com seu destino, se refugiou em Nova Viçosa, onde trabalhava como médico de uma empresa madeireira, único médico da região. [...]

        Dois anos depois fomos morar em Petrópolis, onde nasceu meu irmão Geraldo, e onde conheceu os amigos Pola e Tato Gostkorzewicz e Zilah e Luís Tranin, amigos da vida inteira.

        Em 1959, Juscelino anunciava a construção de Brasília e a mudança da capital. O espírito aventureiro de Papai fez com que nos mudássemos para lá, o início de 60, onde vivemos a vida dos candangos pioneiros de Brasília. Lá nasceu meu irmão Pedro. Papai era médico pediatra da Câmara dos Deputados, foi secretário de Saúde do Distrito Federal, e nossa vida se estabilizou, dentro do que era possível para aquela família ser estável. Mamãe tinha 32 anos, três filhos, dois enteados, um marido respeitado profissionalmente e uma enorme insatisfação profissional.

        Começou a usar sua criatividade na TV Brasília com um programa infantil de fantoches, o Teatro do Candanguinho. Contava histórias infantis na Rádio MEC, era júri do concurso de Miss Brasília e desenhava fantasias para o cabeleireiro Augusto, nos bailes carnavalescos, onde ele ganhava todos os prêmios da categoria “originalidade”. Foi professora na UnB, sem nunca ter sido universitária, e criou um grupo de teatro amador com operários, no SESI, onde encenou “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, numa montagem com atores operários que entusiasmou Paulo Autran, que viajava com a mesma peça numa turnê nacional. [...].

        Nas férias, íamos para o Festival de Inverno de Ouro Preto, onde Mamãe dava cursos de teatro, ou para Festival de Arcozêlo, com Paschoal Carlos Magno e suas inacreditáveis irmãs italianas, tia Aurora, tia Orlanda e a terceira? “Se a memória não me falha...” Era divertido, mas não era fácil. Conciliar o inconciliável... Ser filho de Sylvia Orthof era mais divertido para quem via de fora. De dentro, tivemos tempos difíceis. A liberdade cerceada, a censura dificultava o trabalho de Mamãe. A pressão aumentava e em 1966, aos 34 anos, ela fugiu para Paris, com Vovó Trude, Geraldo e eu, para os braços da Tia Hedy. Mamãe “deu um tempo”, como se diz hoje em dia. Pedro, com 2 anos, e Papai ficaram em Brasília. [...]

        Depois de 4 meses, Papai foi nos buscar. Voltamos à vida familiar em Brasília. Prosperamos junto com a “corrente pra frente, Brasil”, mudamos para uma casa no Lago, mas o cerceamento da liberdade, o cerco militar, a censura e a tortura não deixavam nossa família ser feliz. [...]

        Mais tempos duros vieram. Papai descobriu que estava com câncer e resolveu devolver Mamãe e os filhos ao velho Orthof. Mudamos em 1971 para Petrópolis. Nossa casa em Brasília foi vendida e o dinheiro aplicado na Bolsa, que ruiu naquele ano. Retomamos o convívio familiar com as famílias Orthof e Pereira Lima, e os velhos amigos de Petrópolis. Por pouco tempo, pois alguns meses depois Tato perdia sua mulher e as duas noras num trágico acidente de automóvel. Mais alguns meses e nós voltávamos à Brasília para tentar atender às necessidades da doença de Papai. Mamãe ficou viúva aos 40 anos. Voltamos à Petrópolis, e então os dois amigos viúvos, Mamãe e Tato, se encontraram e se casaram.

        Começou aí a segunda etapa da vida de Mamãe. Recém-casada com Tato, voltou ao Rio e retornou sua vida profissional. Escreveu e dirigiu no MAM (Museu de Arte Moderna), do Rio, a premiada peça infantil “A Viagem do Barquinho”, em que toda a família trabalhava. Do teatro passou à literatura infantil e começou a sua carreira de sucesso como escritora. O casamento fez com que Tato, aposentado como arquiteto, e também ele um artista, retomasse a pintura e o desenho, passando a ilustrador da maioria dos livros de Mamãe. Alguns foram ilustrados por ela própria, outros por meu irmão Gê, e outros por vários desenhistas. [...]

        Mamãe tinha a vida cada vez mais voltada para a literatura, sendo reconhecida como escritora. Pedro cresceu, Mamãe e Tato mudaram para Petrópolis e produziram mais de cem livros. [...]

        Mamãe teve uma vida plena e rica, e neste inevitável inventário, é bom ver que ela fez a sua parte, o seu melhor possível. Foi casada por 15 anos com Papai, e por 24 com Tato. Fez o melhor que pôde o papel de madrasta dos dois filhos de cada marido. Foi sincera e tentou superar as dificuldades. Teve nós três, seus filhos, seus quatro netos e mais todos os outros emprestados, filhos dos enteados, do genro, da nora. Foi generosa. Criou, trabalhou, usou seu potencial, não desperdiçou seu talento, foi coerente com sua ideologia de liberdade e de paz.

        Agora, no início do ano passado, quando descobrimos o câncer que a levou, imaginávamos que teria poucos meses de vida. Ainda viveu um ano e meio e nesse tempo escreveu vários livros, enfrentando a quimioterapia, os exames, duas cirurgias e três internações hospitalares. Foi pena ter ido agora, com tanto ainda por fazer. [...]

Trechos da biografia lida por Claudia Orthof Pereira Lima, filha de Sylvia Orthof, na  Missa de 7º dia da mãe, realizada na igreja de São Conrado, no Rio de Janeiro, em 31 de julho de 1997. Fonte: www.docedeletra.com.br

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 11-15.

Entendendo a biografia:

01 – Justifique o título da biografia de Claudia Orthof.

      A autora é filha de Sylvia Orthof e está narrando fatos que lhe foram contados pela mãe e outros que ela mesma vivenciou. “Se a memória não me falha” porque foram muitos os momentos importantes e marcantes vividos pela família e talvez ela pudesse se esquecer de citar algum fato, algum nome de pessoa... “A herança” porque para ela todas as experiências vividas ao lado da mãe e o modelo positivo deixado por ela foram o melhor legado que Claudia, como filha, pode receber.

02 – Por que Claudia Orthof usa as iniciais maiúsculas nos nomes Mamãe, Papai, Vovô, Vovó e Tia?

      Porque estão no lugar dos nomes próprios e foram pessoas importantes na vida de Claudia.

03 – Aos 25 anos Sylvia Orthof conheceu Sávio Pereira Lima no Rio de Janeiro. Os dois se uniram e foram morar em Nova Viçosa. Sobre esse fato responda:

a) Em que ano isso aconteceu?

      Em 1957.

b) A partir dessa data, quantas mudanças de cidade aconteceram na vida de Sylvia? Faça um pequeno esquema das mudanças para comprovar sua resposta. Comece assim: Nova Viçosa – 

      Foram 10 mudanças: Nova Viçosa – Petrópolis – Brasília – Paris – Brasília – Petrópolis – Brasília- Petrópolis – Rio – Petrópolis.

04 – Quais figuras importantes do meio artístico e cultural foram fundamentais na formação de Sylvia Orthof durante a sua adolescência?

      Sylvia foi muito influenciada por Paschoal Carlos Magno, criador do Teatro do Estudante, que funcionou como uma figura paterna para ela (aos 15 anos, ela atuou como "Julieta"). Além disso, aos 18 anos, ao estudar teatro em Paris, estreitou laços com sua Tia Hedy, outra referência marcante em sua vida.

05 – Quais fatores tornavam o ambiente familiar de Sylvia bastante atípico e desafiador durante a sua infância?

      Ela era filha única de imigrantes austríacos pobres fugidos do nazismo, que não falavam alemão na rua por medo de preconceito e escondiam a origem judaica. Além disso, enfrentava barreira idiomática (falava português errado até entrar na escola) e lidava com a separação dos pais aos sete anos, algo muito incomum para a época.

06 – Como Sylvia Orthof conseguiu canalizar a sua criatividade e insatisfação profissional no período em que viveu como pioneira em Brasília?

      Sylvia criou o programa infantil de fantoches "Teatro do Candanguinho" na TV Brasília, contava histórias infantis na Rádio MEC, desenhava fantasias carnavalescas premiadas, foi professora na UnB sem curso superior e dirigiu um grupo de teatro amador com operários no SESI.

07 – O que motivou a fuga de Sylvia Orthof com seus dois filhos e sua mãe para Paris no ano de 1966?

      A fuga ocorreu devido à forte pressão do regime militar instaurado no Brasil, que resultou na perda de liberdade, no cerceamento de suas atividades e na censura que dificultava seu trabalho artístico.

08 – De que maneira se deu o surgimento da carreira de Sylvia Orthof como escritora de literatura infantil?

      Após ficar viúva aos 40 anos e se casar com Tato Gostkorzewicz, Sylvia voltou ao Rio de Janeiro e escreveu/dirigiu a premiada peça infantil "A Viagem do Barquinho" no MAM. O sucesso nos palcos serviu de transição para que ela começasse a escrever e publicar literatura infantil.

09 – Qual foi o papel de Tato, segundo marido de Sylvia, na produção literária da autora?

      Tato, que era arquiteto aposentado e artista, passou a ilustrar a grande maioria dos livros infantis escritos por Sylvia durante a fase em que moravam em Petrópolis.

10 – Como a autora do texto descreve a postura de sua mãe durante o último ano e meio de vida, após o diagnóstico do câncer?

      A autora destaca que Sylvia viveu de forma plena e produtiva até o fim. Mesmo enfrentando o tratamento do câncer — incluindo quimioterapia, cirurgias e internações —, Sylvia manteve o ritmo e escreveu vários livros nesse período.