Crônica: SOBRE O FOOTBALL
Lima Barreto
Nunca
foi do meu gosto o que chamam Sport, esporte ou desporto; mas quando
passo longos dias em casa, dá-me na cisma, devido, certamente à reclusão a que
me imponho voluntariamente, ler as notícias esportivas, pois leio os jornais
de cabo a rabo.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi2z_ttI27QHZ4Gk9RgOjANdXl6fns3Awj7rJF5ZbGM2-Tl4xmnykr_-8DBNoxxe_wE83OHkWnEklEVhJruwPDHcU5Ed19RT9Yy_xG86pExMCp_OWt856z0GVfgbTO3Dwl39079fxY-fT0d1LSFYFSk6NbBSuJtDGldG8dPtbOu6wHVQhGm07wdKGvx0jU/s320/images.jpg
Nestes
últimos dias, todas as notícias sobre um encontro entre jogadores
de football daqui e de São Paulo, não me escaparam. Em começo, quando
toparam meus olhos com os títulos espalhafatosos, sorri de mim para mim,
pensando: estes meninos fazem tanto barulho por tão pouca coisa? Much ado
about nothing... Mas, logo ao começo da leitura tive o espanto de dar com este
solene período:
“As
acusações levantadas, então, por certa parte da imprensa paulista –
manifestações que estamos já agora dispostos a esquecer, mas que não podemos
deixar de rememorar – contra a competência e a honestidade do árbitro que serviu
naquela partida, atribuindo à obra sua a vitória alcançada por nós, preparou o
espírito popular na ânsia de uma prova provada de que, com este ou aquele juiz,
os jogadores cariocas estão à altura dos seus valorosos êmulos paulistas e são
capazes de vencê-los.”
Diabo!
A coisa é assim tão séria? Pois um puro divertimento é capaz de inspirar um
período tão gravemente apaixonado a um escritor?
Eu
sabia, entretanto, pela leitura de Jules Huret, que o
famoso match anual entre as universidades de Harvard e Yale, nos
Estados Unidos, é uma verdadeira batalha, em que não faltam, no séquito das
duas equipes, médicos e ambulâncias, tendo havido, por vezes, mortos, e,
sempre, feridos. Sabia, porém, por sua vez, o que é o ginásio da primeira,
verdadeiro sanatório de torturas físicas; que o jogo de lá é diferente do
usado aqui, mais brutal, por exigir o temperamento já de si brutal do americano
em divertimentos ainda mais brutais do que eles são. Mas nós?...
Reatei
a leitura, dizendo cá com os meus botões: isto é exceção, pois não acredito que
um jogo de bola e, sobretudo jogado com os pés, seja capaz de inspirar paixões
e ódios. Mas, não senhor! A coisa era a sério e o narrador da partida, mais
adiante, já falava em armas. Puro front! Vejam só este período:
“As
nossas armas, neste momento, são, pois, as da defesa, e da defesa mais
legítima, respeitável, mais nobre possível porque ela assenta numa demonstração
pública, esperada com cerca de trinta dias de paciência.”
Não
conheço os antecedentes da questão; não quero mesmo conhece-lo; mas não vá
acontecer que simples disputas de um inocente divertimento causem tamanhas
desinteligências entre as partes que venham a envolver os neutros ou mesmo os
indiferentes, como eu, que sou carioca, mas não entendo
de football. Acabei a leitura da cabeça e fiquei mais satisfeito.
Tinha ela um tom menos apaixonado; tinha o ar dos finais das clássicas
discussões jornalísticas sobre arrendamentos ou concessões de estradas de ferro
e outras medidas da mais pura honestidade administrativa. Falava na “dura e bem
merecida lição para certos jornalistas que não compreendem o espírito que deve
mover as suas penas que malbaratam a honra alheia”, etc., etc.
Continuei
a ler a descrição do jogo, mas não entendi nada. Parecia-me todo aquilo escrito
em inglês e não estava disposto a ir à estante, tirar o Valdez e voltar aos
meus doces tempos dos “significados”. Eram só backs, forwards, kicks,
corners; mas havia uma “chutada”, que eu achei engraçado. Está aí uma
palavra anglo-lusa. Não é de admirar, pois, desde muito, Portugal anda amarrado
à sorte da Inglaterra; e até já lhe deu muitas palavras, sobretudo termos de
marinha: revolver vem de “revolver”, português,
e commodoro de “comandante”.
Passei
o dia, pensando que a coisa ficasse nisso; mas, no dia seguinte, ao abrir o
mesmo jornal e ler as notícias esportivas, vi que não. A disputa continuava,
não no ground; mas nas colunas jornalísticas.
O
órgão de São Paulo, se bem me lembro, dizia que os cariocas não eram
“cariocas”, eram hebreus, curdos, anamitas; enquanto os paulistas eram
“paulistas”. Deus do céu! exclamei eu. Posso ser rebolo (minha bisavó era),
cabinda, congo, moçambique, mas judeu – nunca! Nem com dois milhões de contos!
Esta
minha mania de seguir coisas de football estava a fornecer-me tão
estranhas sensações que resolvi abandoná-la. Deixei de ler as seções esportivas
e passei para as mundanas e para as notícias de aniversário. Mas, parece, que
havia algum gênio mau que queria, com as histórias
de football, dar-me tenebrosas apreensões.
Há
dias, graças à obsequiosidade de Benedito de Andrade, o valente redator
do Parafuso e não menos valente diretor da A
Rolha, mandou-me uma coleção deste último semanário, pelo que já lhe
agradeci do fundo d’alma.
Todos
os dois magazines são de São Paulo, como sabem. Uma noite destas,
relendo o número de 14 de julho, da Rolha, fui dar com a sua seção
“esportiva”.
Tinha
jurado não ler mais nada que tratasse de tais assuntos; mas a isso fui obrigado
naquele número da Rolha porque vi o título da crônica –
“Rio versus São Paulo”. Admirei-me! Pois se o encontro de que já
tratei, foi nos primeiros dias deste mês, como é que o Baby já o noticia quase
um mês antes? Li e vi tratar-se de outro de que nem tivera notícias, e isso é
tanto assim de notar que o autor da crônica deixa entender que todos nós
tínhamos os olhos voltados para ele. Leiam isto:
“Rio versus São
Paulo – A Capital Federal está em festas. De vinte em vinte e quatro horas as
fortalezas salvam, as bandas de música executam hinos festivos e nas diferentes
sedes esportivas o champagne corre a rodo como se estivéssemos
festejando o último dia de guerra. Nas avenidas, praças, ruas e becos, homens
já na casa dos cinquenta, matronas escondendo a primavera dos sessenta e crianças
ainda mal desabituadas dos cueiros, só falam no grande acontecimento que
encheu de júbilo um milhão e pouco de almas nascidas e domiciliadas na
encantadora Sebastianópolis: a vitória do scratch carioca... Nas
redações, os cronistas esportivos já não dormem há uma semana: são os
cumprimentos, as telefonadas, os telegramas, os convites, para almoços e para
jantares. Tudo isso... porque depois de dezoito anos de lutas o
famoso scratch da Metropolitana conseguiu a sua terceira vitória.”
Meu
caro Baby: isto deve ser Bizâncio, no tempo de Justiniano, em que uma partida
de circo, com os seus azuis e verdes”, punha em perigo o império; mas não o Rio
de Janeiro. Se assim fosse, se as partidas de football entre vocês de
lá e nós daqui, apaixonassem tanto um lado como o outro, o que podia haver era
uma guerra civil; mas, se vier, felizmente, será só nos jornais e, nos jornais,
nas seções esportivas, que só são lidas pelos próprios jogadores de bola
adeptos de outros divertimentos brutais, mas quase infantis e sem alcance,
graças a Deus; dessa maneira, estamos livres de uma formidável guerra de
secessão, por causa do football!
Brás Cubas, Rio, 15-8-1918.
Entendendo a crônica:
01 – O que leva o narrador, que afirma nunca
ter sido partidário de esportes, a ler com atenção as notícias esportivas na
imprensa?
O narrador explica que lê sobre esportes apenas quando passa
longos dias em casa devido a uma reclusão a qual se impõe voluntariamente.
Nessas ocasiões de isolamento, seu hábito de ler os jornais "de cabo a
rabo" faz com que acabe cruzando com essas editorias, gerando uma
curiosidade momentânea sobre a repercussão pública dessas disputas.
02 – Qual foi a primeira reação do autor ao
deparar-se com os títulos espalhafatosos e com a seriedade dos textos sobre a
partida entre cariocas e paulistas?
Inicialmente, o autor reagiu com um sorriso irônico, pensando
que aqueles rapazes estavam fazendo "muito barulho por pouca coisa"
(Much ado about nothing). No entanto, ao avançar na leitura e deparar-se com
trechos que tratavam o jogo de forma excessivamente grave e passional, ele
demonstrou grande espanto por ver um mero divertimento tratado com tanta
hostilidade e combatividade.
03 – Que contraste o cronista estabelece entre
o futebol praticado no Brasil e o esporte praticado nos Estados Unidos,
conforme sua leitura de Jules Huret?
O cronista reconhece que nos Estados Unidos, a partida anual
entre Harvard e Yale é uma verdadeira batalha violenta — que envolve
ambulâncias, feridos e até mortos —, reflexo do temperamento e do ambiente
brutal do país e de seus ginásios. Em contrapartida, ele se espanta ao ver que,
no Brasil, um esporte teoricamente lúdico e pacífico ("um jogo de bola
jogado com os pés") também gerasse tanta paixão, ódios e termos bélicos na
imprensa.
04 – O que o narrador pensa sobre o uso de
termos estrangeiros na crônica esportiva e que curiosidade histórica ele aponta
sobre isso?
O narrador confessa não entender nada da terminologia técnica
do esporte, achando que o texto parecia escrito em inglês devido ao uso
excessivo de vocábulos como backs, forwards, kicks e corners. Ele diverte-se
apenas com a palavra abrasileirada "chutada". Como reflexão
histórica, ele observa que a adoção de termos estrangeiros não é de estranhar,
lembrando que Portugal sempre esteve ligado à Inglaterra e incorporou termos
marítimos britânicos ao seu vocabulário ao longo dos séculos.
05 – Qual foi a ofensa velada publicada por um
jornal de São Paulo que provocou a indignação bem-humorada do autor?
O jornal paulista publicou que os jogadores cariocas não eram
propriamente "cariocas", mas sim "hebreus, curdos,
anamitas", numa tentativa pejorativa de desqualificá-los. O autor reagiu
com humor e espanto, afirmando que podia aceitar diversas origens ancestrais de
sua árvore genealógica, mas recusava veementemente ser chamado de judeu
("Nem com dois milhões de contos!"), o que o levou a abandonar
momentaneamente a leitura daquela seção.
06 – O que o semanário paulista A Rolha
afirmava de forma exagerada sobre o clima na capital federal após a vitória do
scratch carioca?
O semanário ironizava o clima do Rio de Janeiro exagerando
que a cidade estaria em festa máxima — com salvas de fortificações, bandas de
música e champanhe correndo a rodo nas ruas —, como se a vitória do time
carioca após dezoito anos de derrotas fosse o maior acontecimento histórico do
mundo, envolvendo o júbilo de mais de um milhão de habitantes de todas as
idades.
07 – A qual episódio histórico o autor faz
referência ao comparar o fanatismo clubístico e qual conclusão final ele chega
sobre os perigos reais dessas rivalidades?
O autor faz referência ao Império Bizantino no tempo de
Justiniano, época em que as disputas entre as facções de circo ("azuis e
verdes") eram capazes de colocar o império em perigo. Contudo, concluindo
sua crônica de forma irônica e aliviada, ele avalia que, no Rio de Janeiro, o
fanatismo pelo futebol não passa de um divertimento infantil e restrito aos
jornais, garantindo que a sociedade está livre de uma guerra civil ou de
secessão por causa de uma partida de bola.