terça-feira, 15 de setembro de 2026

REFORMA ORTOGRÁFICA: SAIBA QUAIS SÃO AS PRINCIPAIS MUDANÇAS

 Reforma ortográfica: saiba quais são as principais mudanças

 

        Confira as alterações da língua portuguesa após a reforma ortográfica:
        Alfabeto: O alfabeto ganha três letras (k, y e w).

Antes: 23 letras.

Depois: 26 letras.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEimXYD-CD725BQmCg1tZcplfk9am-awcW2Kq7jaIOPr0XTqSGQx82lt9ohJvQhnOvWUst5AKxPY7GCsQcte5i8FpBY6ypgcqPlSI7M8Yt3qPFrdFwWFOT2PzMCRsqHtFCE2Y6rfEY_lTzEQSJGFadqKzTUjpNlSVH9HplJr1VPHrf5wdw_mBq05RVzH4JM/s320/images.jpg 


        Trema: O trema cai, de vez, em desuso, exceto em nomes próprios e seus derivados. Grafado nos casos em que o “u” é átono e pronunciado (que, qui, gue, gui), o sinal não será mais utilizado nas palavras da língua portuguesa.

Antes: lingüiça, conseqüência, freqüência.

Depois: linguiça, consequência e frequência.


        Hífen: O sinal não poderá ser mais usado quando a primeira palavra terminar com vogal e a segunda começar com consoante.

Antes: anti-rugas, auto-retrato, ultra-som.

Depois: antirrugas, autorretrato, ultrassom.

        O hífen também não deve ser grafado quando a primeira palavra terminar com letra diferente da que começar a segunda.

Antes: auto-estrada, infra-estrutura.

Depois: autoestrada, infraestrutura.

        O sinal deverá ser usado quando a palavra seguinte começa com b, h, r, m, n ou com vogal igual à ultima do prefixo.

Antes: anti-imperialista, super-homem, inter-regional, sub-base.

Depois: anti-imperialista, super-homem, inter-regional, sub-base.

        Outro caso que se faz necessário o uso do hífen é quando a primeira palavra terminar com vogal ou consoante igual à letra que começar a segunda.

Antes: microônibus, contraataque, microondas.

Depois: micro-ônibus, contra-ataque, micro-ondas.


        Acento agudo: Os ditongos abertos “éi” e “ói” das palavras paroxítonas não serão mais acentuados.

Antes: jibóia, apóio, platéia, européia.

Depois: jiboia, apoio, plateia, europeia.

        * As palavras herói, papéis e troféu continuam sendo acentuadas porque têm a ultima sílaba mais forte.

        O acento some também no “i” e no “u” tônicos quando vierem depois de ditongo em palavras paroxítonas.

Antes: feiúra, bocaiúva.

Depois: feiura, bocaiuva.

        * O acento permanece se o “i” ou o “u” estiverem na ultima sílaba, a exemplo de Piauí e tuiuiú.

        Na letra “u” dos grupos que, qui, gue e gui o acento também deixa de existir.

Antes: apazigúe, averigúe.

Depois: apazigue, averigue.

        O acento diferencial também some em alguns casos.

Antes: pára, péla, pêlo, pólo, pêra.

Depois: para, pela, pelo, polo, pera.

        * O acento diferencial não deixa de ser usado em pôr (verbo) / por (preposição) e pôde (pretérito) / pode (presente). Fôrma também continua sendo acentuada para ser diferenciada de forma.

 

 

 

 

MÚSICA (ATIVIDADES): ANO NOVO - GUILHERME ARANTES - COM GABARITO

 Música (Atividades): Ano Novo

            Guilherme Arantes

E o milênio vai virar
Seja lá em que direção
Muitas pedras vão rolar
Não se vive só de esperteza e diversão
Ideais vão despertar
Utopias vão renascer
Os valores vão mudar
Não há ordem perfeita imune à erosão
E na contra-mão da festa dessa multidão
Uma tribo estranha ainda resta
Mesmo dispersa na ilusão dos poetas
A vida se projeta em cada olhar ...

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjsjPTw3bHPgpJFVGOGiLOyea5sPqIxZD7wc217yLVwj7VkMEoxXs6pbpzK6Qr0gLOASpjibUIxO9GTFgylTu9uwcWdA4DzrfXfQaCiq5hhsgK4cSKhGMatC0XieEEZdT6Sph-Tk6s23p0G8CKQnMFXT8PFwqPik8ATi-v6j1Sn41BzLR6PJ0HiL9itdHA/s320/images.jpg


Onde você vai estar
Com quem vai dividir as lágrimas
Da esperança
E não basta chorar
O que você vai fazer
Pro ano novo ir muito além
Dos fogos que se lança

Mais que um corpo pra cuidar
Mais cabeça que um visual
Para o jovem se engajar
Pelo meio ambiente ou causa social

Na contra-mão...

Composição: Guilherme Arantes.

Entendendo a música:

01 – O verso inicial "E o milênio vai virar / Seja lá em que direção / Muitas pedras vão rolar" sugere mudanças inevitáveis com o passar do tempo. Considerando o contexto da canção, como o autor interpreta essas transformações na sociedade e na vida humana?

      O autor interpreta as transformações temporais como um processo dinâmico e inevitável de transição, onde velhos paradigmas dão lugar a novas realidades ("Ideais vão despertar / Utopias vão renascer / Os valores vão mudar"). A expressão "muitas pedras vão rolar" simboliza os sobressaltos, as reviravoltas e os desafios inerentes a essa mudança de era. Guilherme Arantes pontua que a vida e a sociedade não são estáticas — "Não há ordem perfeita imune à erosão" —, sugerindo que a evolução é constante e exige resiliência diante das inevitáveis turbulências do futuro.

02 – Na estrofe "Não se vive só de esperteza e diversão", o compositor faz uma crítica aos comportamentos superficiais. Qual é a contraposição apresentada na letra em relação a essa busca vazia por entretenimento?

      A contraposição reside no convite ao engajamento profundo, à reflexão e à busca por propósito. Enquanto a "esperteza e a diversão" representam uma postura imediatista, individualista e efêmera voltada apenas para o consumo de momentos festivos ("a festa dessa multidão"), a música aponta para valores mais sólidos. O autor valoriza o despertar de ideais, o renascer de utopias, a sensibilidade artística ("ilusão dos poetas") e a conexão humana real, mostrando que a vida ganha sentido quando direcionada por causas maiores e pela projeção de um olhar mais atento à realidade.

03 – O que o trecho "E na contra-mão da festa dessa multidão / Uma tribo estranha ainda resta" revela sobre a postura de determinados indivíduos ou grupos perante as comemorações tradicionais de fim de ano?

      Esse trecho revela uma postura de resistência e introspecção frente à superficialidade com que muitas vezes o "Ano Novo" é celebrado coletivamente. Enquanto a "multidão" está imersa na festa automatizada e na euforia passageira, essa "tribo estranha" (simbolizando os poetas, pensadores ou aqueles que se mantêm conscientes) opta pela contra-mão: o caminho da reflexão profunda. Em vez de apenas celebrar de forma mecânica, esses indivíduos valorizam o sentimento genuíno, a partilha de emoções e a busca por um significado real para a passagem do tempo, distanciando-se do consumo vazio da alegria festiva.

04 – Analise os versos: "E não basta chorar / O que você vai fazer / Pro ano novo ir muito além / Dos fogos que se lança". Qual é a mensagem principal contida nessa cobrança por atitude?

      A mensagem principal é um apelo à responsabilidade e à ação concreta. O autor argumenta que lamentar-se pelas dificuldades ("chorar") ou depositar falsas esperanças em rituais passageiros (representados metaforicamente pelos "fogos que se lança", que brilham intensamente por um instante e depois se apagam) não é suficiente para transformar a realidade. O texto exige protagonismo: o ano novo só será genuinamente diferente se houver uma mudança de postura por parte do indivíduo, que precisa agir de forma propositiva para que o futuro supere o efêmero e traga mudanças reais.

05 – Nos versos finais, o autor menciona a necessidade de "Mais cabeça que um visual / Para o jovem se engajar / Pelo meio ambiente ou causa social". Como essa estrofe dialoga com a construção de uma cidadania mais consciente?

      Essa estrofe dialoga diretamente com a construção de uma cidadania ativa ao desvalorizar o culto à aparência ("mais cabeça que um visual") e exaltar a importância do pensamento crítico e da responsabilidade coletiva. O autor defende que a juventude e os cidadãos em geral precisam direcionar suas energias para pautas fundamentais e estruturais, como a preservação do meio ambiente e o engajamento em causas sociais. Dessa forma, o "Ano Novo" deixa de ser apenas uma data no calendário e passa a representar um compromisso ético e político com o planeta e com a sociedade.

 

 

RELATO DE MEMÓRIAS: TEMPO DE INFÂNCIA - FRAGMENTO - COM GABARITO

 Relato de memória: Tempo de Infância – Fragmento

 

        Quando se é criança, o mundo é apenas um grande parque de diversões. E são essas as primeiras lembranças que trago em mim.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhWaioTmsRJ-Mfh4GUvuENLVbPyT_ig2X7U8LULAZridVlDR0I-D_vd5MH6lrraVz9DY6YW6PLTktnKue9tYf-x2PBSCNdoqQwotXuftRztdQLiPBSkfZG-Phm7LfAIolPSYGlLUnvuIGkB69QcGBAAwaBGgk-ZN_w37C_K-J2KDcH1_07LwHI-T3BJQN4/s320/images%20(1).jpg

        Lembro que, ainda bem pequeno, gostava de sair correndo atrás de meus irmãos e primos maiores. Era uma corrida sem finalidade. Corria-se por correr ou, apenas, para repetir os gestos dos calangos que dividiam com a gente o espaço da aldeia. Meus irmãos e eu andávamos sem paradeiro e sem destino. Íamos a todos os cantos que nos eram permitidos pelos adultos. O igarapé era nosso principal objetivo, mas também tínhamos as árvores, enormes mangueiras que cresciam por toda a aldeia. As maiores subiam com destreza e depois me ajudavam a subir também.

        Passávamos horas ali, brincando de navegar nos galhos da velha árvore, comendo mangas com farinha de mandioca

        (...).

Daniel Munduruku.

Entendendo o relato:

01 – Que pistas nos dá o texto de que a criança era indígena?

      O texto apresenta pistas culturais e geográficas típicas do contexto indígena, especificamente a menção aos calangos (lagartos comuns na região), a convivência em uma aldeia, a referência ao igarapé (curso d'água amazônico) e o consumo de mangas com farinha de mandioca, um hábito alimentar tradicional da região Norte.

 02 – Qual era o principal objetivo das crianças na brincadeira?

      O principal objetivo das crianças na brincadeira era o igarapé, embora elas também aproveitassem as enormes mangueiras para brincar, correr sem destino e imitar os gestos dos calangos.

 03 – Este texto tem uma estrutura diferente. É um texto de memórias.

a) Quais são as memórias apresentadas?

      As memórias apresentadas referem-se à infância do autor na aldeia, destacando a liberdade para correr sem destino com os irmãos e primos maiores, as brincadeiras de navegar nos galhos das mangueiras e o hábito de comer mangas com farinha de mandioca.

 b) Retire do texto o trecho que exemplifica esta narrativa de memória.

      O trecho que exemplifica essa narrativa de memória é: "Lembro que, ainda bem pequeno, gostava de sair correndo atrás de meus irmãos e primos maiores." (ou qualquer outro parágrafo que inicie com o resgate de lembranças do passado, como "Passávamos horas ali, brincando...").

DIÁLOGO: ESTOU NO BRASIL - BEGINNER LEVEL - COM GABARITO

 Diálogo: Estou no Brasil

        Beginner level

 

        John telefona para a casa de sua amiga Maria para contar que está no Brasil.

        John – Alô! A Maria está, por favor?

        Maria – É ela. Que fala?

        John – Sou eu, Maria, o John!

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgakeMVK4ws1Ekt6ftURR6qT73plUnbQxQMrwLuYcYDBsJBWbwUQDbSUSXNF35T5Ti32HoBolmSUcCvZTiQNHFAIRmhm_qTP8L6YQN1XK8a3fL8PwXzF1Bj2TAyQH7JCxq3FG_HUwtrmsMb9TqUmCFcUiIYhbKCL_WAz76KhvL_PSXbq3W3dl_8PLH-wG4/s320/images.jpg


        Maria – Que surpresa boa você me telefonar! Eu estou bem, obrigada. E você?

        John – Eu estou muito bem e pertinho de você, estou no Rio de Janeiro.

        Maria – Não acredito, que legal! Quando você chegou?

        John – Eu cheguei ontem, sexta-feira, no Rio e já visitei um monte de lugares. Eu também comprei umas lembranças.

        Maria – Nossa! Como você se virou bem!

        Eu quero muito ver você. Que tal a gente se encontrar amanhã? Eu e meu irmão combinamos de jantar e você pode vir com a gente.

        John – Adorei a ideia. É um restaurante brasileiro, né?

        Maria – E acho que a sua comida favorita é comida brasileira, não é mesmo?

        John – Eu não conheço muito bem, mas quero conhecer melhor.

        Maria – Tá. Então podemos ir ao restaurante Sabor Brasileiro/

        John – Onde fica esse restaurante?

        Maria – Fica atrás do Pão de Açúcar. O restaurante é pequeno, mas a comida é deliciosa.

        John – Então tá combinado. Até amanhã. Um beijo.

        Maria – Outro.


Entendendo o diálogo:


01 – Qual a surpresa que o John contou para Maria?

      O John contou que está no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro.

 02 – Quando John chegou ao Brasil?

      Ele chegou ontem, sexta-feira.

03 – O que ele contou que fez?

      Ele disse que já visitou um monte de lugares e comprou umas lembranças.

04 – O que John e Maria combinaram de fazer?

      Eles combinaram de se encontrar no dia seguinte para jantar junto com o irmão da Maria.

05 – Onde fica o restaurante?

      Fica atrás do Pão de Açúcar.

CRÔNICA: COMO BUDISTAS - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: COMO BUDISTAS...

             Lima Barreto

        Tenho tanto que escrever, sobre coisas tão interessantes, que, agora, o tratar dessa notícia de polícia de São Paulo, eu me arrependo. Tinha de falar do Sol de Portugal. do José Vieira; tinha de falar desse extraordinário discurso do senhor doutor Ildefonso Albano, deputado federal.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhT6M2J0XpLbNg85PoNjfuOwYnit5NTU42nzcT4UHyk9PMaKZf6c_1OrbcBcb31qNEs-KlygzhAgegaQzkM_Q0UIQYCcNVOcH3RglewnIdSLRxhuODhn_DuIn_qu84gcH4VGj-tyUEXGcT38a8D5vI5AQKHFXaYIvyRR_g1QIZx21y9KJRLBfoQSgLzqBk/s320/images.jpg


        Há tanta coisa tão interessante, num e noutro livro, que eu me reservo para dizer tudo o que de bom encontrei neles, mais tarde.

        O que me absorve agora o pensamento é este caso dessa pobre moça que matou o marido em São Paulo. É essa moça que, como todas as moças, não tem experiência da vida e são levadas a julgá-la da maneira mais infame que os charlatães a receitam.

        Ela pensou que seu marido fosse um homem; ele, quando ela o conheceu direito, não passava de um caçador de dotes.

        Todos nós, inclusive eu, malgré tout, estamos arriscados a casar com “moça rica”; mas de que nós não estamos ameaçados é de sermos maus para essas moças.

        O que há nisto tudo é a combinação do nosso espírito muito brasileiro de acreditar que o “doutor” é tudo e a crença universal do dinheiro.

        Essa moça não se casaria com esse moço, se não o visse armado de um “anel”; ela não daria seu corpo se a ambiência social não dissesse que, com a tal carta, ele valia muitas coisas.

        E ele não iria procurá-la, se não estivesse armado do que a bobagem dos jornais chama “pergaminho”.

        Houve um mútuo engano. Ele procurou enganar a mulher com o título que o Belisário Pena diz ser científico; ela procurou enganá-lo com aquilo com que os homens enrique­cem.

        Mas, todos os dois se esqueceram que entre mulher e marido não há furtos. Está no Código Penal.

        Entre os dois só deve haver a máxima lealdade. Todos os dois devem entrar na sociedade conjugal com a máxima boa vontade e admiração um pelo outro. O que não pode continuar, é que se faça da mulher, escada para subir.

        Nós temos direito de ter ambições. Eu mesmo quero morrer em Veneza, para ver se ainda lá encontro a minha grande paixão – Desdêmona. O que eu não posso compreender, é que um homem ambicioso, transforme a sua mulher, o seu maior amigo, a sua própria filha, em instrumento da sua am­bição.

        Todos esses entes são sagrados; para todos eles, o nosso amor e a nossa piedade devem ser coisa muito pouca.

        Quando a gente se quer bater, tem muitos homens por diante; e não precisa procurá-los em sua própria casa.

        A vida, apesar de não poder ser uma felicidade, deve ser uma coisa heroica.

        E não há homem que tenha esse sentimento de heroísmo que não o deseje encontrar nas mulheres escolhidas.

        A mulher não é instrumento de ambição; a mulher é um consolo e um conforto para os nossos vícios e as nossas des­graças.

        Já fui muitas vezes jurado; já sofri muito por causa disso; mas, se eu fosse escolhido, para o júri de dona Julieta Melilo, eu a absolveria.

        Absolvia, minha senhora, porque não gosto desses seres cheios de títulos, que não amam a mulher a quem eles de­viam amor.

        Como eu sou budista, o que eu quero é o esquecimento da vida; e não mais tratarei de semelhante caso.

José Vieira (1880-1948), jornalista, poeta, cronista e romancista paraibano. A.B.C., Rio, 31-8-1918.

Entendendo a crônica:

01 – Como o cronista inicia o texto, justificando seu arrependimento por ter escolhido comentar o caso policial de São Paulo?

      O cronista inicia afirmando que tinha muitos assuntos interessantes para tratar, como o livro Sol de Portugal, de José Vieira, e um extraordinário discurso do deputado federal Ildefonso Albano. Ele confessa que se arrependeu de ter desviado sua atenção para uma notícia policial, pois preferiria estar comentando as leituras enriquecedoras que guardava para o futuro.

02 – Qual foi o fator motivador central que levou a jovem mencionada na notícia a se envolver e se casar com o homem que acabou matando?

      O fator motivador foi a ilusão social em torno de títulos acadêmicos e status financeiro. O cronista aponta que a moça, carente de experiência de vida, foi seduzida pela falsa ideia de valor associada ao "anel" de doutor e aos "pergaminhos" alardeados pelos jornais, acreditando erroneamente que o marido possuía o valor moral correspondente à sua suposta posição social.

03 – Como Lima Barreto descreve a dinâmica do relacionamento e o "mútuo engano" que ocorreu entre o marido e a esposa antes do desfecho trágico?

      Lima Barreto define a relação como um acordo pautado pela ambição e pela falsidade de expectativas. O marido buscou enganar a mulher utilizando um título acadêmico como fachada (um "caçador de dotes"), enquanto a esposa e sua família tentaram usá-lo com base na riqueza material que ele supostamente representava, esquecendo-se de que o matrimônio deveria ser fundado na lealdade e na boa-fé mútua.

04 – Qual é a crítica central que o autor faz em relação à forma como algumas pessoas utilizam os entes queridos, especialmente as mulheres?

      A crítica central repousa na rejeição veemente à instrumentalização dos afetos. O autor argumenta que um homem ambicioso não pode transformar sua mulher, sua filha ou seus amigos mais íntimos em "escada para subir" ou em instrumentos para saciar suas ambições pessoais, ressaltando que esses entes são sagrados e merecem amor e proteção incondicionais, e não exploração egoísta.

05 – Qual é a visão de Lima Barreto sobre o papel que a mulher deve ocupar na vida de um homem?

      Para o cronista, a mulher jamais deve ser tratada como um meio para atingir fins utilitaristas. Ele defende que a mulher constitui um "consolo e um conforto" diante das adversidades, dos vícios e das desgraças humanas. O autor espera encontrar na mulher uma parceira dotada de heroísmo e dignidade, enxergando o relacionamento como um refúgio de paz, e não como um campo de batalha doméstico.

06 – Qual seria a decisão de Lima Barreto caso fizesse parte do tribunal do júri responsável pelo julgamento de dona Julieta Melilo, e qual justificativa ele apresenta?

      O autor declara categoricamente que, se fosse escolhido para compor o júri de dona Julieta Melilo (a ré do caso policial), votaria por sua absolvição. Ele justifica essa posição afirmando que não nutre simpatia por indivíduos prepotentes e repletos de títulos falsos que não demonstram amor e respeito genuínos pelas esposas a quem deviam zelar.

07 – O que o autor expressa por meio da frase final "Como eu sou budista, o que eu quero é o esquecimento da vida" em relação ao caso narrado?

      Ao se autodenominar "budista" e evocar o "esquecimento da vida", o cronista expressa um profundo cansaço e desencanto diante das mesquinharias, ambições cegas e tragédias cotidianas da sociedade humana. Essa frase funciona como um fecho irônico e melancólico, indicando que ele prefere afastar-se mentalmente de tanta sordidez e encerrar imediatamente suas reflexões sobre aquele episódio doloroso.

 

 

 

CRÔNICA: SOBRE O FOOTBALL - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: SOBRE O FOOTBALL

            Lima Barreto

 

        Nunca foi do meu gosto o que chamam Sport, esporte ou desporto; mas quando passo longos dias em casa, dá-me na cisma, devido, certamente à reclusão a que me imponho volun­tariamente, ler as notícias esportivas, pois leio os jornais de cabo a rabo.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi2z_ttI27QHZ4Gk9RgOjANdXl6fns3Awj7rJF5ZbGM2-Tl4xmnykr_-8DBNoxxe_wE83OHkWnEklEVhJruwPDHcU5Ed19RT9Yy_xG86pExMCp_OWt856z0GVfgbTO3Dwl39079fxY-fT0d1LSFYFSk6NbBSuJtDGldG8dPtbOu6wHVQhGm07wdKGvx0jU/s320/images.jpg 


        Nestes últimos dias, todas as notícias sobre um encontro entre jogadores de football daqui e de São Paulo, não me escaparam. Em começo, quando toparam meus olhos com os títulos espalhafatosos, sorri de mim para mim, pensando: estes meninos fazem tanto barulho por tão pouca coisa? Much ado about nothing... Mas, logo ao começo da leitura tive o espanto de dar com este solene período:

        “As acusações levantadas, então, por certa parte da imprensa paulista – manifestações que estamos já agora dispostos a esquecer, mas que não podemos deixar de rememorar – contra a competência e a honestidade do árbitro que ser­viu naquela partida, atribuindo à obra sua a vitória alcançada por nós, preparou o espírito popular na ânsia de uma prova provada de que, com este ou aquele juiz, os jogadores cariocas estão à altura dos seus valorosos êmulos paulistas e são capazes de vencê-los.”

        Diabo! A coisa é assim tão séria? Pois um puro divertimento é capaz de inspirar um período tão gravemente apai­xonado a um escritor?

        Eu sabia, entretanto, pela leitura de Jules Huret, que o famoso match anual entre as universidades de Harvard e Yale, nos Estados Unidos, é uma verdadeira batalha, em que não faltam, no séquito das duas equipes, médicos e ambulâncias, tendo havido, por vezes, mortos, e, sempre, feridos. Sabia, porém, por sua vez, o que é o ginásio da primeira, verdadeiro sanatório de torturas físicas; que o jogo de lá é dife­rente do usado aqui, mais brutal, por exigir o temperamento já de si brutal do americano em divertimentos ainda mais brutais do que eles são. Mas nós?...

        Reatei a leitura, dizendo cá com os meus botões: isto é exceção, pois não acredito que um jogo de bola e, sobretudo jogado com os pés, seja capaz de inspirar paixões e ódios. Mas, não senhor! A coisa era a sério e o narrador da partida, mais adiante, já falava em armas. Puro front! Vejam só este período:

        “As nossas armas, neste momento, são, pois, as da defesa, e da defesa mais legítima, respeitável, mais nobre possível porque ela assenta numa demonstração pública, esperada com cerca de trinta dias de paciência.”

        Não conheço os antecedentes da questão; não quero mesmo conhece-lo; mas não vá acontecer que simples disputas de um inocente divertimento causem tamanhas desinteligên­cias entre as partes que venham a envolver os neutros ou mesmo os indiferentes, como eu, que sou carioca, mas não entendo de football. Acabei a leitura da cabeça e fiquei mais satisfeito. Tinha ela um tom menos apaixonado; tinha o ar dos finais das clássicas discussões jornalísticas sobre arrendamentos ou concessões de estradas de ferro e outras medidas da mais pura honestidade administrativa. Falava na “dura e bem merecida lição para certos jornalistas que não compreendem o espírito que deve mover as suas penas que malbaratam a honra alheia”, etc., etc.

        Continuei a ler a descrição do jogo, mas não entendi nada. Parecia-me todo aquilo escrito em inglês e não estava disposto a ir à estante, tirar o Valdez e voltar aos meus doces tempos dos “significados”. Eram só backs, forwards, kicks, corners; mas havia uma “chutada”, que eu achei engraçado. Está aí uma palavra anglo-lusa. Não é de admirar, pois, desde muito, Portugal anda amarrado à sorte da Inglaterra; e até já lhe deu muitas palavras, sobretudo termos de marinha: revolver vem de “revolver”, português, e commodoro de “comandante”.

        Passei o dia, pensando que a coisa ficasse nisso; mas, no dia seguinte, ao abrir o mesmo jornal e ler as notícias esportivas, vi que não. A disputa continuava, não no ground; mas nas colunas jornalísticas.

        O órgão de São Paulo, se bem me lembro, dizia que os cariocas não eram “cariocas”, eram hebreus, curdos, anamitas; enquanto os paulistas eram “paulistas”. Deus do céu! exclamei eu. Posso ser rebolo (minha bisavó era), cabinda, congo, moçambique, mas judeu – nunca! Nem com dois milhões de contos!

        Esta minha mania de seguir coisas de football estava a fornecer-me tão estranhas sensações que resolvi abandoná-la. Deixei de ler as seções esportivas e passei para as mundanas e para as notícias de aniversário. Mas, parece, que havia algum gênio mau que queria, com as histórias de football, dar-me tenebrosas apreensões.

        Há dias, graças à obsequiosidade de Benedito de Andrade, o valente redator do Parafuso e não menos valente diretor da A Rolha, mandou-me uma coleção deste último semanário, pelo que já lhe agradeci do fundo d’alma.

        Todos os dois magazines são de São Paulo, como sabem. Uma noite destas, relendo o número de 14 de julho, da Rolha, fui dar com a sua seção “esportiva”.

        Tinha jurado não ler mais nada que tratasse de tais assuntos; mas a isso fui obrigado naquele número da Rolha porque vi o título da crônica – “Rio versus São Paulo”. Admirei-me! Pois se o encontro de que já tratei, foi nos pri­meiros dias deste mês, como é que o Baby já o noticia quase um mês antes? Li e vi tratar-se de outro de que nem ti­vera notícias, e isso é tanto assim de notar que o autor da crônica deixa entender que todos nós tínhamos os olhos vol­tados para ele. Leiam isto:

        “Rio versus São Paulo – A Capital Federal está em festas. De vinte em vinte e quatro horas as fortalezas salvam, as bandas de música executam hinos festivos e nas diferentes sedes esportivas o champagne corre a rodo como se estivésse­mos festejando o último dia de guerra. Nas avenidas, praças, ruas e becos, homens já na casa dos cinquenta, matronas escondendo a primavera dos sessenta e crianças ainda mal de­sabituadas dos cueiros, só falam no grande acontecimento que encheu de júbilo um milhão e pouco de almas nascidas e domiciliadas na encantadora Sebastianópolis: a vitória do scratch carioca... Nas redações, os cronistas esportivos já não dormem há uma semana: são os cumprimentos, as telefonadas, os telegramas, os convites, para almoços e para jantares. Tudo isso... porque depois de dezoito anos de lutas o famoso scratch da Metropolitana conseguiu a sua terceira vitória.”

        Meu caro Baby: isto deve ser Bizâncio, no tempo de Justiniano, em que uma partida de circo, com os seus azuis e verdes”, punha em perigo o império; mas não o Rio de Janeiro. Se assim fosse, se as partidas de football entre vocês de lá e nós daqui, apaixonassem tanto um lado como o outro, o que podia haver era uma guerra civil; mas, se vier, felizmente, será só nos jornais e, nos jornais, nas seções esportivas, que só são lidas pelos próprios jogadores de bola adeptos de outros divertimentos brutais, mas quase infantis e sem al­cance, graças a Deus; dessa maneira, estamos livres de uma formidável guerra de secessão, por causa do football!

Brás Cubas, Rio, 15-8-1918.

Entendendo a crônica:

01 – O que leva o narrador, que afirma nunca ter sido partidário de esportes, a ler com atenção as notícias esportivas na imprensa?

      O narrador explica que lê sobre esportes apenas quando passa longos dias em casa devido a uma reclusão a qual se impõe voluntariamente. Nessas ocasiões de isolamento, seu hábito de ler os jornais "de cabo a rabo" faz com que acabe cruzando com essas editorias, gerando uma curiosidade momentânea sobre a repercussão pública dessas disputas.

 

02 – Qual foi a primeira reação do autor ao deparar-se com os títulos espalhafatosos e com a seriedade dos textos sobre a partida entre cariocas e paulistas?

      Inicialmente, o autor reagiu com um sorriso irônico, pensando que aqueles rapazes estavam fazendo "muito barulho por pouca coisa" (Much ado about nothing). No entanto, ao avançar na leitura e deparar-se com trechos que tratavam o jogo de forma excessivamente grave e passional, ele demonstrou grande espanto por ver um mero divertimento tratado com tanta hostilidade e combatividade.

 

03 – Que contraste o cronista estabelece entre o futebol praticado no Brasil e o esporte praticado nos Estados Unidos, conforme sua leitura de Jules Huret?

      O cronista reconhece que nos Estados Unidos, a partida anual entre Harvard e Yale é uma verdadeira batalha violenta — que envolve ambulâncias, feridos e até mortos —, reflexo do temperamento e do ambiente brutal do país e de seus ginásios. Em contrapartida, ele se espanta ao ver que, no Brasil, um esporte teoricamente lúdico e pacífico ("um jogo de bola jogado com os pés") também gerasse tanta paixão, ódios e termos bélicos na imprensa.

 

04 – O que o narrador pensa sobre o uso de termos estrangeiros na crônica esportiva e que curiosidade histórica ele aponta sobre isso?

      O narrador confessa não entender nada da terminologia técnica do esporte, achando que o texto parecia escrito em inglês devido ao uso excessivo de vocábulos como backs, forwards, kicks e corners. Ele diverte-se apenas com a palavra abrasileirada "chutada". Como reflexão histórica, ele observa que a adoção de termos estrangeiros não é de estranhar, lembrando que Portugal sempre esteve ligado à Inglaterra e incorporou termos marítimos britânicos ao seu vocabulário ao longo dos séculos.

 

05 – Qual foi a ofensa velada publicada por um jornal de São Paulo que provocou a indignação bem-humorada do autor?

      O jornal paulista publicou que os jogadores cariocas não eram propriamente "cariocas", mas sim "hebreus, curdos, anamitas", numa tentativa pejorativa de desqualificá-los. O autor reagiu com humor e espanto, afirmando que podia aceitar diversas origens ancestrais de sua árvore genealógica, mas recusava veementemente ser chamado de judeu ("Nem com dois milhões de contos!"), o que o levou a abandonar momentaneamente a leitura daquela seção.

 

06 – O que o semanário paulista A Rolha afirmava de forma exagerada sobre o clima na capital federal após a vitória do scratch carioca?

      O semanário ironizava o clima do Rio de Janeiro exagerando que a cidade estaria em festa máxima — com salvas de fortificações, bandas de música e champanhe correndo a rodo nas ruas —, como se a vitória do time carioca após dezoito anos de derrotas fosse o maior acontecimento histórico do mundo, envolvendo o júbilo de mais de um milhão de habitantes de todas as idades.

 

07 – A qual episódio histórico o autor faz referência ao comparar o fanatismo clubístico e qual conclusão final ele chega sobre os perigos reais dessas rivalidades?

      O autor faz referência ao Império Bizantino no tempo de Justiniano, época em que as disputas entre as facções de circo ("azuis e verdes") eram capazes de colocar o império em perigo. Contudo, concluindo sua crônica de forma irônica e aliviada, ele avalia que, no Rio de Janeiro, o fanatismo pelo futebol não passa de um divertimento infantil e restrito aos jornais, garantindo que a sociedade está livre de uma guerra civil ou de secessão por causa de uma partida de bola.

 

 

CRÔNICA: AS FORMIGAS E O PREFEITO - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: AS FORMIGAS E O PREFEITO

             Lima Barreto

 

        Esse negócio de saúvas preocupa-me desde menino, quando o meu velho amigo Policarpo Quaresma narrou à minha infância curiosa os suplícios que elas o fizeram sofrer, ao         tempo em que se improvisou agricultor.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjTxDmIfMQrL4Rpki6jmvup9vh4p3fe3-nfOkO6KRDQCfKIz0eGFrkcIxg2YQDwX9_gLfelwEx5kZ_HJ8XAafTpeY8XJvDaz3cywW_366DcOdSW4_ygjUMNAshanx70dRvoiPmXWDi5oZDQZKsoFfqeO3rMpkrfbI6chdf7jOD3IBgvlw4arAJRtLFebPw/s320/images.jpg
 

        Já narrei alguns dos episódios da sua luta com elas, em um modesto livro onde expus grande parte de sua vida e descrevi o seu triste fim.

        De uns tempos a esta parte, toda gente, especialmente os agricultores da administração, deu em se preocupar com tão daninhos e inteligentes insetos; e, se Policarpo vivesse, ficaria exuberantemente satisfeito com isso.

        O senhor prefeito, em boa hora, deitou um regulamento, que cogita desse assunto, sobremodo importante para todas espécies de cultura.

        Não li todo o regulamento, mas os jornais deram extratos e, por eles soube que sua excelência por artigo do mesmo, manda o proprietário, o arrendatário ou o locatário extinguir os formigueiros que houver nas respectivas propriedades.

        Sem ser versado em leis, julgo que já existia uma velha postura municipal nos mesmos termos. Creio que foi Policarpo Quaresma quem me informou isso.

        Essa velha postura nunca produziu efeito, como o artigo do regulamento do senhor Amaro nada adiantará, e isto pelo simples fato de não determinar precisamente quem deve ma­tar as formigas.

        A lei cita três espécies de tenentes do terreno, mas não diz claramente qual deles é o responsável, de modo a estar sempre disposto o locatário a empurrar a bucha para o proprietário, e este para aquele; e, durante esse jogo de empurra, as formigas vão ficando em paz e devastando hortas, jardins, pomares e outras plantações.

        Nada entendo de leis, nem quero entender. Sou radicalmente contra elas, pois me julgo de algum jeito maximalista; mas estou disposto a transigir a esse respeito, algumas vezes. Vou ceder agora, neste caso...

        O senhor Amaro, que entende delas e foi o alto juiz, pode bem dar mais precisão ao artigo, indicando precisamente quem tem o dever de matar as saúvas que ocupam tal ou qual terreno.

        Podia o senhor doutor prefeito fazer ainda mais. Organizar uma brigada – não precisava brigadas: bastava um re­gimento de homens afeitos ao mister de extinguir formiguei­ros, acantoná-los em determinadas zonas e oferecer os servi­ços deles mediante módico pagamento, aos que tivessem a obrigação legal de exterminar dos seus terrenos os depredadores himenópteros.

        Não se faz e se fez isso com os mosquitos?

        Poder-se-ia, penso eu realizar modestamente o mesmo para guerrear as formigas.

        Então, desde que o regimento ou a brigada estivesse organizada e cantonada nas zonas que necessitam dos seus serviços, o governo municipal devia perseguir os refratários com todo o rigor da lei.

        Julgo tudo isso prático, porque, morando em pequena chácara, em Todos os Santos e tendo o porão da casa cheio de formigueiros, não os extermino por dois motivos: 1º) não as sei matar e não conheço quem saiba; 2ª) mesmo que soubesse matar saúvas muito humanamente, em face da lei dúbia, es­tava disposto a empurrar a bucha para o proprietário que pode mais do que eu. Eis aí.

Lanterna, Rio, 4-5-1918.

Entendendo a crônica:

01 – Como o narrador introduz a sua preocupação com as saúvas e qual é a figura literária do próprio autor que ressurge nessa lembrança?

      O narrador revela que a preocupação com as formigas saúvas vem desde a infância, período em que ouviu o seu velho amigo Policarpo Quaresma narrar os suplícios sofridos por elas ao tentar se tornar agricultor. Essa menção resgata diretamente o protagonista do romance mais famoso de Lima Barreto (Triste Fim de Policarpo Quaresma), servindo de gancho nostálgico e afetivo para introduzir a discussão sobre o combate a esses insetos.

 02 – Qual é a avaliação que o cronista faz sobre a nova medida adotada pelo senhor prefeito a respeito dos formigueiros?

      O cronista reconhece a importância do tema para a agricultura, mas aponta que a nova medida — um regulamento baixado pelo prefeito que obriga o proprietário, o arrendatário ou o locatário a extinguir os formigueiros — é ineficaz. Para ele, o texto legal repete o erro de velhas posturas municipais ao não definir com precisão de quem é a responsabilidade direta pela execução da tarefa.

 03 – Por que, segundo o texto, a indefinição da lei favorece a proliferação contínua das saúvas?

      A indefinição da lei gera o famoso "jogo de empurra". Como o regulamento cita três figuras diferentes ligadas ao terreno (o proprietário, o arrendatário e o locatário) sem apontar um culpado exclusivo, cada um transfere a obrigação para o outro. Enquanto os envolvidos discutem e evitam assumir o encargo, as formigas permanecem em paz, destruindo hortas, pomares e jardins sem qualquer interferência.

 04 – Como o narrador define sua própria relação ideológica com as leis e de que maneira ele ironiza essa posição no contexto da crônica?

      O narrador afirma de forma bem-humorada que nada entende de leis e que é radicalmente contra elas, considerando-se de algum modo um "maximalista". Contudo, ele ironiza sua própria postura ao dizer que está disposto a transigir e ceder exceções naquele momento específico, demonstrando que, apesar de sua repulsa teórica às normas, reconhece a necessidade de regras claras para solucionar problemas práticos da sociedade.

 05 – Qual é a solução prática e inovadora sugerida pelo cronista para que o poder público realmente ajude a combater as formigas na cidade?

      O cronista sugere que o governo municipal vá além da exigência legal e organize uma brigada ou um regimento de trabalhadores especializados na extinção de formigueiros. Esses profissionais deveriam ser acantonados em zonas críticas e oferecer seus serviços mediante um pagamento módico aos cidadãos que têm a obrigação legal de limpar seus terrenos, facilitando o extermínio prático dos insetos.

 06 – Qual analogia o autor utiliza para defender a viabilidade de sua proposta de combate às saúvas pela prefeitura?

      Para fundamentar sua ideia, o autor faz uma analogia direta com as medidas de saúde pública adotadas contra os mosquitos. Ele questiona se o mesmo esforço prático e organizado que já se fazia (e se faz) no combate aos vetores de doenças não poderia ser modestamente replicado para guerrear as formigas nas zonas urbanas e suburbanas.

 07 – Que motivos pessoais o próprio narrador utiliza para justificar o fato de não eliminar os formigueiros localizados em sua própria residência?

      Morando em uma pequena chácara no bairro de Todos os Santos com o porão cheio de formigueiros, o narrador justifica sua inércia com dois argumentos principais: primeiro, porque não sabe como matar formigas e desconhece quem saiba fazê-lo; segundo, porque mesmo que soubesse eliminá-las de forma humanitária, a ambiguidade da lei o faria preferir "empurrar a bucha" para o proprietário do imóvel, já que este detém maior poder financeiro ou jurídico.

 

 

 

 

CRÔNICA: O QUE É ENTÃO? - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: O que é Então?

             Lima Barreto

 

        Conheço de nome, o senhor Múcio da Paixão, há muitos anos. Não há revista de teatro, daqui e dos Estados, onde não se encontre sempre alguma coisa dele...

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj7d4VC8tiKbNG2_W1vAkEmvesfMM97vrfJ0UAZyH27bwTnQlRkCeYJ7HoPITgBDRM_bY8mAPDvkX-OFPgfPgwQr1DpPzT6GuI2p1jRsRJCQzvEZJH4pNcJeiNdOOxeFouQHoCR4UvE6BYMLhVB6Cpy2y_30DFUoMIZJyAgwVddF02vwd0EzviUtCXciCw/s320/images.jpg 


        Habituei-me a estimá-lo por esse profundo e constante amor as coisas da ribalta. Gosto dos homens de uma única paixão. Não é pois, de estranhar que tivesse lido, há dias na Gazeta do Povo, de Campos, com todo o interesse um artigo seu sobre uma troupe sertaneja que andou por aqui, estando na ocasião naquela cidade. Li-o com tanto interesse quanto a leitura de um outro jornal da rainha da Paraíba me havia deixado uma desagradável impressão. É o caso que A Notícia de lá anunciava o furto de 1:500$000 feito a uma quitandeira espanhola, com o título – “Um grande roubo”. Imaginei logo a bela cidade do açúcar dos ministeriais Meireles Zamiths & Cia, muito pobre a ponto de classificar tão pomposamente um modestíssimo ataque a propriedade alheia. Abandonando a “A Notícia”, e encontrando no então jornal cam­pista, o artigo do senhor Múcio, apressei-me em lê-lo para esquecer o julgamento desfavorável que fizera antes.

        O senhor Múcio gabara muito a troupe, tinha palavras carinhosas para os sertanejos de todas as partes do Brasil, mesmo para aqueles da turma em espetáculos na cidade, que tocavam nas violas a Cavalaria Rusticana e a Carmen. Só ao tratar da cidade do Rio de Janeiro, é que o senhor Múcio foi áspero. Classificou-a de – a menos brasileira das nossas cidades. Eu quisera bem que o escritor campista me dissesse as razões de tal julgamento. Será pela população? Creio que não...

        O último recenseamento desta cidade, feita pelo Prefeito Passos, em 1890, acusava para ela a população total de 811.443 habitantes, dos quais 600.928 eram brasileiros e os restantes 210.515, estrangeiros. Não se pode, creio eu, dizer que uma cidade não é brasileira quando mais de dois terços de sua população o são. Convém ainda reparar que, no número dos estrangeiros, estão incluídos 133.393 portugueses, mais da metade do total de forasteiros, fato de notar, pois os lusitanos muito pouco influem para a modificação dos costumes e da língua.

        Se não é na população que o senhor Múcio foi buscar base para a sua asserção, onde foi então? Nos costumes? Mas que costumes queria o senhor Múcio que o Rio de Ja­neiro tivesse? Os de Campos? Os da Bahia? Os de São Ga­briel?

        Julgo que o confrade das margens do Paraíba tem bastante bom senso para ver que o Rio de Janeiro só pode ter os costumes do Rio de Janeiro.

        E sou levado a pensar assim porque, nesse mesmo artigo seu, o ilustre colega afirma que cada terra cria a sua poesia popular, etc., etc.

        O meu Rio a tem também e, se o estimado publicista lembrar-se dos trabalhos dos estudiosos dessas coisas de folclore, como os senhores João Ribeiro e Sílvio Romero, por exemplo, verão que eles têm registrado muitos cantos, muitas quadras populares próprias ao Rio de Janeiro.

        Poucas informações tenho do esforçado escritor campista, mas imagino que ele conhece muito mal o Rio de Janeiro. Quando vem por aqui adivinho, anda pela Rua do Ouvidor, Avenida, Praia de Botafogo, por todos esses lugares que as grandes cidades possuem para gáudio dos seus visitantes; mas o que constitui a alma, a substância da cidade, o senhor Múcio não conhece e dá provas disso em sua afirmação.

        O Rio de Janeiro é brasileiro a seu modo, como Campos é, como São Paulo é, como Manaus é, etc. Nesta região, preponderaram tais elementos; naquela, houve uma influência predominante, naquela outra, apagaram-se certas tradições e avivaram-se outras; e assim por diante. Mas, um brasileiro de condição média quando vai daqui para ali, compreende perfeitamente tais usanças locais, sejam as do Rio Grande do Sul para as do Pará ou vice-versa. O nosso fundo comum é milagrosamente inalterável e basta para nos entendermos uns aos outros.

        Se o Brasil não é o Rio de Janeiro, meu caro Senhor Múcio da Paixão, o Rio de Janeiro também não é a Rua do Ouvidor. Não se deve, portanto, julgá-lo pela sua tradicional via pública.

        E, se quiser ver, como isto é verdade, venha no mês que vem, assistir o carnaval. Não só o senhor verá que o Rio tem muita coisa de seu, má ou boa como também espontaneamente soube resumir as tradições e cantares plebeus do Brasil todo – o que se vê durante os dias consagrados a Momo.

        Um observador como o senhor é, não há de admitir que só sejam brasileiros a sua “mana-chica”, e o seu “carabas” de Campos e não seja o “cateretê” de São Paulo, se é esse o nome que ali é dado aos saraus de sua gente pobre e rús­tica.

        O Rio de Janeiro é cidade bem brasileira, senão, o que é então? Diga-me, o senhor Múcio da Paixão.

Lanterna, Rio, 22-1-1918.

Entendendo a crônica:

01 – Como o narrador demonstra conhecer o escritor Múcio da Paixão e qual é o sentimento que ele nutre por esse colega de profissão?

      O narrador afirma conhecer Múcio da Paixão de nome há muitos anos, acompanhando sua presença constante em revistas de teatro de diversas regiões do país. Ele revela que adquiriu o hábito de estimá-lo devido ao seu "profundo e constante amor às coisas da ribalta", declarando uma admiração sincera por homens movidos por uma única paixão.

 

02 – O que motivou o narrador a ler o artigo de Múcio da Paixão publicado na Gazeta do Povo e qual contraste o levou a buscar essa leitura?

      O narrador foi motivado pelo interesse em acompanhar o trabalho de Múcio sobre uma troupe sertaneja. Esse interesse surgiu como um alívio e um contraste após ter tido uma impressão desagradável com uma notícia de um jornal da Paraíba (A Notícia), que classificou pomposamente o furto modesto de uma quitandeira espanhola como um "grande roubo", demonstrando o empobrecimento editorial local.

 

03 – Qual foi a crítica específica feita por Múcio da Paixão ao Rio de Janeiro que causou o inconformismo do narrador da crônica?

      A crítica que desagradou o narrador foi a afirmação de Múcio de que o Rio de Janeiro seria "a menos brasileira das nossas cidades". Lima Barreto se incomodou com esse julgamento pejorativo e passou a questionar as bases em que o escritor campista se sustentou para fazer tal afirmação, decidindo refutá-la com dados e argumentos socioculturais.

 

04 – De acordo com os dados apresentados por Lima Barreto com base no recenseamento, como ele desqualifica o argumento demográfico contra a brasilidade do Rio de Janeiro?

      Lima Barreto utiliza o censo de 1890 (atribuído ao Prefeito Passos) que indicava uma população total de mais de 811 mil habitantes, sendo mais de 600 mil brasileiros — ou seja, mais de dois terços da população. Ele argumenta que uma cidade com essa proporção não pode ser considerada "não brasileira", destacando ainda que, entre os estrangeiros, a maioria absoluta era de portugueses, cuja influência sobre a língua e os costumes locais era mínima.

 

05 – O que o narrador quer dizer ao afirmar que "Se o Brasil não é o Rio de Janeiro... o Rio de Janeiro também não é a Rua do Ouvidor"?

      Com essa frase, Lima Barreto aponta um erro comum de perspectiva cometido por visitantes e observadores superficiais. Ele explica que Múcio da Paixão mal conhece o Rio de Janeiro real, pois restringe sua vivência aos cartões-postais e locais de agito burguês (como a Rua do Ouvidor, a Avenida e a Praia de Botafogo). Para o cronista, a verdadeira alma e a substância da cidade residem longe dessas vias tradicionais de exibição turística.

 

06 – Como o carnaval carioca é utilizado por Lima Barreto como prova da autenticidade e da brasilidade do Rio de Janeiro?

      O narrador convida Múcio a assistir ao carnaval do mês seguinte para comprovar que a cidade possui uma identidade própria marcante. Segundo o cronista, durante os dias de Momo, o Rio de Janeiro não apenas exibe suas próprias manifestações, mas também consegue resumir espontaneamente as tradições e os cantares populares de todo o Brasil, integrando a cultura plebeia nacional.

 

07 – Qual é o significado e o propósito da pergunta que dá título à crônica ("O que é Então?") no encerramento do texto?

        O título e a pergunta final funcionam como um desafio retórico e provocativo direcionado diretamente a Múcio da Paixão. Após desconstruir os argumentos infundados sobre a suposta falta de brasilidade da capital, Lima Barreto conclui a crônica exigindo que o colega apresente uma justificativa coerente. Se o Rio de Janeiro — com sua população majoritariamente nacional, sua folclorística própria e sua capacidade de sintetizar a cultura do país — não for considerado uma cidade genuinamente brasileira, o cronista ironicamente pergunta o que ele seria, afinal.