quarta-feira, 10 de junho de 2026

CONTO: UM CRIME QUASE PERFEITO - 1ª PARTE - FRAGMENTO - ROBERT ARLT

Conto: UM CRIME QUASE PERFEITO 1ªparte – Fragmento

           Robert Arlt

        As alegações dos três irmãos da suicida foram checadas. Não tinham mentido. O mais velho, Juan, permanecera das cinco da tarde até a meia-noite (a senhora Stevens se suicidou entre sete e dez da noite) detido numa delegacia, por sua imprudente participação num acidente de trânsito. O segundo irmão, Esteban, estivera no povoado de Lister desde as seis da tarde daquele dia até as nove do seguinte. Quanto ao terceiro, doutor Pablo, ele não se afastara em nenhum momento do laboratório de análise de leite da Cia. Erpa, mais exatamente do setor de doseamento da gordura.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj-ac9jQ2XO-AN4FSaG5K8ORoQpZXcz6WknEMArb1L6-6KeN_RA91ygu5m-DNzAepjgGrZFowgOUro95YpcFW3ZfIQAVrsEwnamzrsU1oNX5fl8I55BtXHb17PEQKdnImWFCTS7iLmiBZdQnMKdUhhD-T8ftCbzUhdHE_Ea-vM2-f2YWNRprOF1kVhsXe4/s1600/CRIME.jpg


        O curioso é que, naquele dia, os três irmãos tinham almoçado com a suicida, comemorando seu aniversário, e ela, por sua vez, em nenhum momento deixara entrever uma intenção funesta. Todos comeram alegremente e, às duas da tarde, os homens se retiraram.

        Suas declarações coincidiram em tudo com as da criada que, desde muitos anos trabalhava para a senhora Stevens. Essa mulher, que não dormia no emprego, às sete da noite foi para casa. A última ordem que recebeu foi a de dizer ao porteiro que trouxesse o jornal da tarde. Às sete e dez o porteiro entregou o jornal à senhora Stevens, e o que fez esta antes de matar-se pode ser presumido logicamente. Revisou os últimos lançamentos da contabilidade doméstica, pois a livreta estava na mesa da copa, com os gastos do dia sublinhados. Serviu-se de uísque com água e nessa mistura deixou cair, aproximadamente, meio grama de cianureto de potássio. Pôs-se a ler o jornal, depois bebeu o veneno e, ao sentir que ia morrer, levantou-se, para logo tombar no chão atapetado. O jornal foi achado entre seus dedos contraídos.

        Tal foi a primeira hipótese, construída a partir de um conjunto de coisas pacificamente ordenadas no interior da residência, mas esse suicídio estava carregado de absurdos psicológicos e não queríamos aceitá-lo. No entanto, só a senhora Stevens podia ter posto o veneno no copo. O uísque da garrafa não continha veneno. A água misturada também era pura. O veneno, claro, podia estar no fundo ou nas paredes do copo, mas esse copo tinha sido retirado de uma prateleira onde havia uma dúzia de outros iguais: o eventual assassino não havia de saber qual copo a senhora Stevens escolheria. De resto, o laboratório da polícia nos informou que nenhum copo tinha veneno em suas paredes.

        A investigação não era fácil. As primeiras provas – provas mecânicas, como eu as chamava – sugeriam que a viúva morrera por suas próprias mãos, mas a evidência de que, ao ser surpreendida pela morte, estava distraída na leitura do jornal, tornava disparatada a ideia de suicídio.

        Essa era a situação quando fui desligado por meus superiores para continuar a investigação. A informação de nosso laboratório era categórica: havia veneno no copo que a senhora Stevens usara, mas a água e o uísque da garrafa eram inofensivos. O depoimento do porteiro era igualmente seguro: ninguém visitara a senhora Stevens depois que lhe entregara o jornal. Se após as diligências iniciais eu tivesse concluído o inquérito optando pelo suicídio, meus superiores nada teriam objetado. Porém, concluir o inquérito nesses termos era  a confissão de um fracasso. A senhora Stevens tinha sido assassinada e havia certo indício: onde estava o envoltório do veneno? Por mais que revistássemos a casa, não encontramos a caixa, o envelope ou o frasco do tóxico. Aquilo era eloquente.

 ARLT, Roberto. Um crime quase perfeito. Parte 1. Trad. Sérgio Faraco. In: Flávio Moreira Costa (org.) Os 100 melhores contos de crime e mistério da literatura universal. 2.ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. P. 607 – 609.

 Entendendo o conto:

01 – De acordo com o texto, qual o significado das palavras abaixo:

Funesta: que causa a morte; fatal; mortal.

Cianureto de potássio: poderoso veneno.

Hipótese: suposição, conjetura, pela qual a imaginação antecipa conhecimento, com o fim de explicar ou prever a possível realização de um fato.

Evidência: indicação; indício; sinal; traço.

Eloquente: aquele ou aquilo que é convincente; persuasivo.

 

02 – Reflita sobre o título do conto: Um crime quase perfeito. O que seria um crime quase perfeito?

      Um crime quase perfeito é aquele cuja autoria não se consegue provar.

 

03 – Qual é o nome da vítima?

      Senhora Stevens.

 

04 – De acordo com o que o narrador nos conta sobre o depoimento das testemunhas e sobre os vestígios encontrados na residência da vítima, reconstitua suas ações nos momentos anteriores à sua morte.

      Era dia de seu aniversário. Ela almoçou com seus três irmãos. A empregada foi embora às 19h. Às 19h10, o porteiro entregou-lhe o jornal. Ela revisou alguns itens da contabilidade doméstica. Depois começou a ler o jornal. Tomou uísque com água e veneno e pôs-se a ler até começar a sentir-se mal.

 

05 – Quais foram as últimas pessoas que viram a vítima antes do crime?

      A criada e porteiro.

 

06 – Quem nos narra todo o caso? Reescreva um trecho que comprove sua resposta. Se o trecho selecionado deixar dúvidas, complemente sua resposta com uma explicação.

      Quem nos conta um caso é um policial, detetive ou inspetor da polícia. “Essa era a situação quando fui designado por meus superiores para continuar a investigação. A informação de nosso laboratório era categórica”.

 

07 – Qual é a primeira hipótese apresentada para a morte da senhora Stevens? Por que o narrador crê que ela é disparatada?

      Hipótese de suicídio. O narrador crê que essa hipótese é disparatada porque a Sra. Stevens não parecia ter provocado a própria morte e o envoltório do veneno não foi encontrado.

 

08 – “Envoltório” é tudo aquilo que serve de recipiente para guardar, conservar ou proteger alguma coisa. Quais são as outras três palavras presentes no texto que poderiam substituir o termo “envoltório”?

      Caixa, envelope e frasco.

 

09 – A ausência de veneno nos outros copos do armário reforça a ideia de assassinato ou de suicídio?

      De suicídio.

 

10 – Por que encontrar o envoltório original do veneno seria uma peça fundamental da investigação policial?

      O envoltório do veneno poderia indicar quem foi a última pessoa a manuseá-lo, pelas impressões digitais, por exemplo.

 

11 – Na sua opinião, o que aconteceu com a vítima? Por quê?  

      Resposta pessoal do aluno.

 

 

CONTO: UM CRIME QUASE PERFEITO - PARTE FINAL - ROBERTO ARLT - COM GABARITO

Conto: UM CRIME QUASE PERFEITO – Parte Final

 

        Chamei o garçom, paguei a bebida que não tomara, embarquei num táxi e fui à casa da criada. No quarto, me sentei à frente dela.

        — Olhe-me nos olhos – disse-lhe – e veja bem o que vai responder: a senhora Stevens tomava uísque com gelo ou sem gelo?

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgiodpkbtZDoGkHI_To4Ri4tUIJEOa0BfPgSdnOG42xEKXcoq3D3Je6z8ksKL9YRPN7fONKgfx_93tkSqfer4XQxeDa5GrK0K4KSeXUaYaSywzS5SlBpied1gsrfRT1AAfN4jaJV5io9420ltbhvj7HYy18ErPswOaM8gjKE9bClqbCIOZfaKUTJ_5_s_k/s1600/CRIME.jpg


        —   Com gelo, senhor.

        —  Onde comprava o gelo?

        — Não comprava, senhor. Em casa há uma geladeira pequena que faz gelo em cubinhos – e a criada, como acordando, prosseguiu:      — Agora me lembro, a geladeira estava estragada. Ontem, o senhor Pablo a consertou num instante.

        Uma hora depois nos encontrávamos na residência da senhora Stevens: o químico de nosso laboratório, o técnico da fábrica que vendera a geladeira, o juiz de instrução e eu. O técnico retirou a água do depósito do congelador e vários cubinhos de gelo. O químico iniciou seu trabalho e, minutos depois, disse:

        — A água está envenenada, os cubos também.

        Olhamo-nos, contentes. O mistério tinha terminado.

        Agora era um mero jogo a reconstituição do crime. O doutor Pablo, ao trocar o fusível da geladeira (era este o defeito, segundo o técnico), lançara no congelador certa quantidade de veneno dissolvido em água. Sem suspeitar, a senhora Stevens preparava seu uísque. Retirara um cubinho do congelador (o que explicava o prato com gelo derretido, encontrado na mesa) e o colocara no copo.  Sem imaginar que a morte a esperava em seu vício, passara a ler o jornal, até que, julgando o uísque suficientemente gelado, tomara um gole. Os efeitos não tardaram.

        Faltava prender o veterinário. Em vão o esperamos em sua casa. Ignoravam onde estava. No laboratório da indústria leiteira nos informaram que lá chegaria só às dez da noite.          

        Às onze, o juiz, meu superior e eu nos apresentamos no laboratório da Erpa. O doutor Pablo, quando nos viu em grupo, levantou o braço, como se quisesse anatematizar nossas conclusões. Abriu a boca e despencou ao lado de uma mesa de mármore. Um infarto o matara. Em seu armário estava o frasco do veneno. Foi o assassino mais engenhoso que conheci.

 

ARLT, Roberto. Um crime quase perfeito. Trad. Sérgio Faraco. In: Flávio Moreira Costa (org.) Os 100 melhores contos de crime e mistério da literatura universal. 2.ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. P. 607 – 609.

 

Entendendo o conto:

01 – Qual é afinal, a terceira hipótese para o crime?

      A terceira hipótese é a de que o veneno não havia sido colocado diretamente na bebida, na comida ou no copo, mas sim dentro da água do congelador da geladeira, misturando-se aos cubos de gelo que a vítima usaria mais tarde.

 

02 – Qual a primeira atitude do narrador ao imaginar essa última hipótese para o crime? Por quê?

      A primeira atitude do narrador foi chamar o garçom, pagar a bebida que nem chegou a tomar, pegar um táxi e ir direto à casa da criada da senhora Stevens. Ele fez isso porque precisava confirmar urgentemente se a vítima tomava uísque com gelo e de onde vinha esse gelo.

 

03 – Quem se tornou o suspeito número um? Explique por que razão.

      O doutor Pablo tornou-se o suspeito número um. A razão é que a criada revelou que a geladeira estava estragada e que ele a havia "consertado" no dia anterior. Isso deu a ele a oportunidade perfeita para colocar o veneno na água do congelador sem que ninguém desconfiasse.

 

04 – A reconstituição é a história do crime contada de acordo com uma hipótese baseada em fortes evidências. Explique com suas palavras como o crime foi cometido.

      O doutor Pablo foi até a casa da vítima com o pretexto de consertar a geladeira (que era apenas um fusível queimado). Enquanto fazia o conserto, ele jogou veneno dissolvido na água do depósito do congelador. Mais tarde, sem saber de nada, a senhora Stevens preparou seu uísque e colocou um cubo daquele gelo envenenado no copo. Enquanto ela lia o jornal, o gelo derreteu, liberando o veneno na bebida. Ao dar o primeiro gole, ela morreu.

 

05 – Em que lugares o assassino foi procurado?

      Ele foi procurado primeiro em sua própria casa e, como não estava lá, foi procurado e encontrado no laboratório da indústria leiteira (Erpa), onde trabalhava.

 

06 – O assassino foi preso? O que aconteceu?

      Não, ele não chegou a ser preso pelas autoridades. Ao ver o narrador, o juiz e o superior entrando juntos no laboratório, o doutor Pablo percebeu que havia sido descoberto, teve um infarto fulminante e caiu morto ali mesmo.

 

07 – Onde foi encontrado o envoltório do veneno?

      O frasco contendo o veneno foi encontrado dentro do armário do doutor Pablo, no laboratório.

 

08 – Podemos dizer que o final foi surpreendente? Por quê?

      Sim, por dois motivos principais: primeiro, pela engenhosidade do crime (o veneno estava escondido no gelo, algo difícil de rastrear antes de derreter); e segundo, pelo destino do assassino, que morreu de causas naturais (um ataque cardíaco provocado pelo susto/pressão de ser pego) segundos antes de receber a voz de prisão, frustrando o desfecho tradicional de um julgamento.

 

CONTO: UM CRIME QUASE PERFEITO - 2ª PARTE - ROBERTO ARLT - COM GABARITO

 Conto: Um crime quase perfeito – 2ª parte

 

      E havia outra questão: os irmãos da morta eram três malandros.  Os três, em menos de dez anos, tinham posto fora os bens herdados dos pais, e seus atuais rendimentos não eram satisfatórios: Juan trabalhava como ajudante de um advogado especializado em divórcios. Mais de uma vez sua conduta anterior se mostrara suspeita, dando margem à presunção de chantagem. Esteban era corretor de seguros e havia feito um seguro para sua irmã, sendo ele mesmo o beneficiário. Quanto a Pablo: era veterinário, mas tivera seu registro profissional cancelado pela justiça após ser condenado por dopar cavalos. Para não morrer de fome empregara-se na indústria leiteira, no setor de análises.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhgAwwyVdrnDcmqWgn2H7oDID9yLE6FJHtAVHXkE0ICxp2ZfR_pW2c_3tqRt89oUYo1ZUaYBOPAbuBDuIARjFzPlwDmGYa_5L9W8K9mtBYLYAuIpYMCSC8dp80reR9kRAaqY_AALX3YiIQqi_FrIb_rU_0wC3A0DZEzOWaq5DN5vg5RehLCxi8hpvJR7MA/s1600/CRIME.jpg


        Assim eram os irmãos.

        Já a senhora Stevens tinha enviuvado três vezes. No dia de seu “suicídio” estava completando 68 anos, mas era uma mulher extraordinariamente conservada, corpulenta, forte, enérgica, de cabelos viçosos, e tinha condições de pretender novo casamento. Dirigia a casa com alegria e pulso firme. Adepta dos prazeres da mesa, sua despensa estava magnificamente provida de vinhos e comestíveis, e não há dúvida de que, sem aquele “acidente”, teria vivido cem anos. Supor que uma mulher como ela seria capaz de suicidar-se era desconhecer a natureza humana. Sua morte beneficiaria cada um dos três irmãos com duzentos e trinta mil pesos.

        O cadáver foi descoberto pelo porteiro e pela criada às sete da manhã, quando esta, não conseguindo abrir a porta, que estava trancada por dentro, chamou o homem para ajudá-la. Às onze da manhã, como creio ter dito anteriormente, estava em nosso poder a informação do laboratório. Às três da tarde, eu deixava o quarto em que estava detida a empregada, em sua própria casa, com uma ideia na cabeça: o assassino arrancara um vidro da janela para entrar na casa e após deitar veneno ao copo recolocara o vidro no lugar. Era uma fantasia de romance policial, mas convinha verificar a hipótese.

      Saí da residência da senhora Stevens decepcionado. Minha especulação era falsa. A massa dos vidros não tinha sido removida.

      Decidi caminhar e pensar um pouco, o “suicídio” da senhora Stevens me preocupava bastante. Não policialmente, mas, diria, esportivamente. Estava diante de um sagaz, possivelmente um dos três irmãos, que se valera de um expediente simples e ao mesmo tempo misterioso, impossível de ser detectado na nitidez daquele vazio.

      Absorvido em minhas conjeturas, entrei num café, tão ausente do mundo que, embora detestasse bebidas alcoólicas, pedi um uísque. Quanto tempo esteve a bebida, sem ser tocada, diante dos meus olhos? Não sei. De repente, vi o copo de uísque, a garrafa d'água, o pratinho com gelo. Atônito, fiquei olhando aquilo. Uma hipótese dava grandes saltos no meu cérebro.

 

ARLT, Roberto. Um crime quase perfeito. Parte 1. Trad. Sérgio Faraco. In: Flávio Moreira Costa (org.) Os 100 melhores contos de crime e mistério da literatura universal. 2.ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. P. 607 – 609.

Entendendo o conto:


01 – Como a vítima é descrita física e psicologicamente?

      Fisicamente: A senhora Stevens, apesar de ter 68 anos, era uma mulher "extraordinariamente conservada, corpulenta, forte, enérgica, de cabelos viçosos".

      Psicologicamente: Era alegre, dirigia sua casa com "pulso firme" e era uma apreciadora dos prazeres da mesa (gostava de comer e beber bem). O texto ressalta que ela tinha tanta vitalidade que poderia viver até os cem anos.


02 – Qual era a situação dos irmãos da vítima? Essa situação fez deles suspeitos em potencial. Por quê?

      A situação financeira e moral dos irmãos era péssima: os três eram chamados de "malandros", tinham gastado toda a herança dos pais em menos de dez anos e possuíam históricos duvidosos. Eles se tornaram suspeitos em potencial por dois grandes motivos:

      O ganho financeiro: Cada um receberia uma fortuna de 230 mil pesos com a morte dela.

      Os históricos e profissões: Juan trabalhava com divórcios e já era suspeito de chantagem; Esteban era corretor e tinha feito um seguro de vida para a irmã, sendo ele mesmo o beneficiário; e Pablo era um veterinário cassado por dopar cavalos, que agora trabalhava analisando leite (ou seja, tinha acesso a substâncias químicas / venenos).

 

03 – No terceiro parágrafo desse trecho, o narrador apresenta evidências que enfraquecem a hipótese de suicídio. Quais são elas?

      As evidências são o próprio perfil e o comportamento da vítima: ela era uma mulher cheia de vida, alegre, enérgica, saudável, que comandava a casa com firmeza e tinha planos inclusive de se casar novamente. O narrador afirma que "supor que uma mulher como ela seria capaz de suicidar-se era desconhecer a natureza humana".


04 – Onde a criada ficou detida?

      A criada ficou detida em sua própria casa, no quarto onde o narrador a estava interrogando.


05 – Quem descobriu o cadáver da vítima? Onde ele foi encontrado?  

      O cadáver foi descoberto pelo porteiro e pela criada às sete horas da manhã. Ele foi encontrado dentro da casa da senhora Stevens, em um quarto cuja porta estava trancada por dentro.     

                                                  

06 – Nesse ponto da narrativa, o policial cogita uma segunda hipótese. Qual é essa hipótese? Ela se confirma? Por quê?

      A segunda hipótese do policial (que ele mesmo chama de "fantasia de romance policial") era a de que o assassino teria retirado um vidro da janela para entrar na casa, colocado o veneno no copo e depois recolocado o vidro perfeitamente no lugar usando massa de vidraceiro. Ela não se confirma, pois ao examinar o local, o detetive percebeu que a massa dos vidros da janela estava intacta e não tinha sido removida.


07 – O narrador utiliza a palavra suicídio entre aspas. Por quê?

      Ele usa aspas porque a polícia e as primeiras aparências tratavam o caso formalmente como "suicídio" (já que a porta estava trancada por dentro), mas o detetive, no fundo, já sabia ou desconfiava fortemente de que se tratava de um assassinato disfarçado. As aspas servem para ironizar ou questionar essa versão oficial.


08 – Vamos pensar nos suspeitos? Releia as duas partes do conto para completar os espaços que estão em branco. Tenha em mente duas hipóteses: a de suicídio e a de assassinato. Seja fiel ao texto. 

      Vítima: Senhora Stevens (68 anos, viúva três vezes, rica, cheia de vida).

      Hipótese de Suicídio (Falsa): Parecia real porque o quarto estava trancada por dentro, e foi encontrado um copo com veneno e um prato com gelo derretido na mesa.

      Hipótese de Assassinato (Verdadeira): Cometido por envenenamento por meio do gelo da geladeira.

      Suspeito 1 (Juan): Ajudante de advogado, suspeito de chantagem. Motivo: Ganhar 230 mil pesos.

      Suspeito 2 (Esteban): Corretor de seguros, fez uma apólice para a irmã sendo ele o beneficiário. Motivo: Ganhar os 230 mil pesos da herança + o seguro.

      Suspeito 3 (Pablo – Culpado): Veterinário cassado por dopar cavalos, trabalhava com análises na indústria leiteira. Motivo: Dinheiro. Oportunidade: "Consertou" a geladeira da irmã no dia anterior, jogando veneno na água do congelador.

terça-feira, 9 de junho de 2026

CRÔNICA: UMA PÁGINA DO DIÁRIO-DO- PAPAI-NOEL - JÔ SOARES - COM GABARITO

 Crônica: Uma página do Diário-do-Papai-Noel

               Jô Soares

 Querido diário, ando meio deprimido. Acho que esqueceram de mim. O Natal chegou e eu não recebi nem um cartão de boas-festas. As renas já estão atreladas no meu trenó, os anõezinhos já prepararam todos os presentes, mas não me sinto com ânimo pra sair. Foi um ano difícil. Quando eu penso que mudei aqui pro Polo Norte só por causa do aluguel que era mais barato. Agora o proprietário ameaçou cortar a calefação se eu não pagar o dobro. A crise está pegando todo mundo. Em novembro, os anõezinhos ameaçaram parar com os brinquedos se não tivessem 30% de aumento.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEigal9cpmJCQyM5SPMIdTOWz77tmTjlbADgrPhyphenhyphen_ykB-nNsIVnbxYH6qvQN3UrrFwkZoc410XaGbq0wKtcIPnUeNvuy0j23sz7G_ZQ2nwel15UAPVlmAgBCX2ZUeBSAJKr3uFydokEHPeE7f9nvLtQYRXjc0ch2bMkiOOGudPVDZ5hbWFq6peq2NsQNego/s1600/images.jpg


            Está fazendo um frio de rachar. Já pensou o choque térmico que vai ser quando eu chegar no Brasil? Depois, enjoei de só me vestir de vermelho. Hoje em dia, com essa cor, só mesmo eu e o Chapeuzinho. O vermelho está fora de moda até na Rússia. Também me irrita muito ter de ficar o tempo todo rindo: “Ho! Ho! Ho!”. No ano passado uma criancinha de 8 anos me perguntou: “Está rindo de quê, velho bobo?” e deu um puxão na minha barba.

            Não existe mais respeito. Um outro menino brasileiro que estava aprendendo inglês descobriu que o meu nome lá nos Estados Unidos é “Santa Claus”, e quando eu passava ficava gritando: “Tá boa, Santa?” Pra piorar as coisas, nesta época, o trânsito fica um inferno. No ano passado peguei cinco multas por estacionar o trenó em lugar proibido. Além disso, devo confessar que engordei um pouco. Estou com medo de ficar entalado em alguma chaminé.

           Depois, o espírito do Natal está muito diferente. Em tudo que é canto tem pessoas brigando. Juro que se eu aparecer no céu gritando “Paz no mundo! Paz no mundo!” vou ouvir alguém lá de baixo perguntando: “Onde, Onde?”

            O Natal já não é o mesmo. Nem as crianças. Um menino me escreveu dizendo que só queria brinquedinhos movidos a bateria. Sabe pra quê? Pra ficar brincando com as pilhas.

             E as árvores? Está todo mundo reclamando do preço dos pinheiros. Realmente é um absurdo. Aliás, como foi Deus quem fez as árvores, era até melhor que Ele distribuísse diretamente da fábrica ao consumidor.

             Pois é, querido diário, eu fico aqui reclamando, mas daqui a pouco, como todo ano, parto pro trabalho. Afinal de contas, sou profissional. Seria tão bom passar um Natal em casa, com a família!

              A verdade é que eu não tenho mais jeito pra ser Papai Noel.

                                                                                                 (fragmentado)

 

Entendendo o texto

 

01. O texto traz o Papai Noel do reino da fantasia para os dias atuais.

Sobre esse Papai Noel, só não se pode afirmar que:

a.   Vivencia conflitos como dos homens comuns.

b.   Como a maioria das pessoas, não se preocupa com o desaparecimento do espírito do Natal.

c.   É criticado por sua aparência risonha num mundo que nem sempre oferece motivos para risadas.

d.   Como todos, também gosta de ser lembrado por ocasião das festas de fim de ano.

e.   Também sofre desrespeito por parte de alguns homens.

 

02. “Depois, o espírito do Natal está muito diferente.”

“O Natal já não é mais o mesmo.”

Em que aspectos, segundo o Papai Noel, o Natal mudou?

 Resposta: Pessoal de acordo com o texto.

Sugestão:  O comportamento das pessoas: O espírito natalino se perdeu, pois há pessoas brigando em todos os cantos em vez de haver paz.

 As crianças: Elas perderam a inocência e o respeito; agora são interesseiras (um menino só queria o brinquedo para brincar com as pilhas) e desrespeitosas com o Papai Noel.

 O comércio/consumismo: O preço dos pinheiros (árvores de Natal) tornou-se um absurdo.

 03. “O Natal chegou, (...) mas não me sinto com ânimo para sair.”

De acordo com o texto, o desânimo de Papai Noel tem como causa tudo isto, EXCETO:

 a.   O intenso congestionamento da época de Natal.

b.   As atitudes desrespeitosas das crianças.

c.   A insatisfação com a cor da roupa que o caracteriza.

d.   A melancolia que o atinge sempre nessa época do ano.

e.   A irritação sentida por ficar fazendo o que não deseja.

04. “Juro que se eu aparecer no céu gritando ‘paz no mundo! Paz no mundo!’, vou ouvir alguém lá de baixo perguntando: ‘Onde? Onde?’”

Por essa fala do Papai Noel, só não se pode interpretar que a paz:

a.   Já não é comum na vida dos homens.

b.   É importante para alguns.

c.   Desperta ainda algum interesse.

d.   É motivo de sofrimento para determinadas pessoas.

e.   Ainda é uma busca dos homens.

Observe o fragmento de Carlos Drummond de Andrade:

“O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças.

E será Natal para sempre.”

                                                    Organizar o Natal

 

05. O poeta idealiza a criança como símbolo de um autêntico Natal.

Comparando a ideia acima com o texto lido, pode-se dizer que a relação entre eles é de:

a.   Contradição

b.   Confirmação

c.   Consequência

d.   Causa

e.   Coincidência

 

06. “A crise está pegando todo mundo.”

São sintomas dessa crise a que se refere Papai Noel, EXCETO:

a.   Valor elevado dos novos brinquedos eletrônicos.

b.   Ameaça de greve dos anões.

c.   O alto preço dos produtos natalinos.

d.   Valor do aluguel sujeito a reajustes.

e.   A mudança de Papai Noel para o Polo Norte.

 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

CRÔNICA: ADOLESCÊNCIA- ALCIONE ARAÚJO - COM GABARITO

 Crônica: Adolescência

                   Alcione Araujo

           Já era outono e nós tínhamos o espírito suave da primavera. Aos 15, 16 anos, podíamos ser o que a nossa imaginação alcançasse. A realidade era intangível e desnecessária. Era uma imposição contra a qual nos rebelávamos. Era uma interdição ao nosso sonho. Mais do que interdição, era o fim do nosso sonho. Na realidade, não há grandes paixões, não somos gênios, não somos heróis, nem mártires, nem santos. Na realidade, somos reduzidos a adolescentes espinhentos, a quem ninguém dá ouvidos. A realidade é o princípio da morte.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiUvEDBGqC1QzZP0KfpX_dipCbD_vjSBHMBeZzJOTI5t4UWLKLuqs0EWzOHgYpKnedbGY1DMXo4udhBN3B79kkpJLlDyTBelbaJXKlL0QxRqhAtQeOZMHjBf-i4_Oy6n2zqx-0k7e0TroPVEGdLQs2q1UlI6su6SNXSDK788_MyEW-HwtR2NNPtOqorgvU/s1600/adolescente.jpg


             Nós, adolescentes, morríamos a todo momento, sufocados pela realidade. E éramos sepultados no chão duro da realidade. Mas tínhamos mais vidas que o gato. Sete vezes sete vidas. E logo ressuscitávamos, fugíamos das grades da realidade, rasgávamos a camisa-de-força da realidade, e mergulhávamos outra vez no sonho. E com as nossas sete vezes sete vidas, nos tornávamos James Dean, Pelé, Napoleão, Bethoven, Jesus Cristo, Dostoievski, e tantos outros, que surgiam e se apagavam tão depressa, que não deixavam nenhuma luz no mundo.

             E fui tantos e quantos, que perdi a conta. Qualquer romance eu era dois três. Qualquer filme, mais dois ou três. Em qualquer festa, eu era um ou dois. Fui tantos! E fui me construindo com esses cacos que a minha adolescência juntava, com esses retalhos de alma, dessa poeira que se acumula com o tempo. E fui me fazendo com o que sobrava dos outros (…). Não é que eu viva no passado, é que o passado está em mim.

             Mesmo sendo fruto desta colagem, ela foi se misturando de uma maneira singular. Havia mais resignação no lado direito, mais revolta no esquerdo, mais firmeza no caráter, mais incertezas quanto ao certo. Mais convicção quanto à arte, menos quanto ao amor. Que alegria, se eu conseguisse ser eu!

             Certamente, seria outro, outra síntese de outros. E mesmo entre nós, adolescentes, uns eram ídolos de outros. Por pouco tempo, é verdade. Mas em rodízio. Algum, capaz de um ato de coragem, atraía os olhares de admiração dos mais medrosos. O que arranjava namorada, era invejado, copiava-se até o penteado do seu cabelo. Andava-se com pente no bolso de trás e, no bolsinho de moedas, espelhinho oval, com foto de mulher nua, ou escudo do time preferido. Servia para pentear cabelo, espremer cravo e pôr sobre o sapato enquanto as meninas passavam de saia – embora nunca tenha visto esse uso. Eu não me encontrava em lugar algum. Parecia o fantasma de um cão adestrado. Ia para um lado e outro, sempre seguindo a decisão de alguém, na solidão dos que vão atrás.

             As garotas não sabem o que é adolescência. Elas saltam de uma etapa para outra, sem ninguém perceber. De repente, pronto: eis a mulher! Nariz empinado, muda a maneira de vestir e de conversar. E isso inclui ignorar até os irmãos. Quando se é um adolescente, nenhuma garota tem a sua idade. Ou melhor, ninguém tem a sua idade. Você é a única criatura no mundo que (…) ninguém confia, ninguém dá dinheiro e, à primeira coisa errada que aconteça, você é suspeito de ser o autor.

             Que fase maravilhosa, a adolescência! Você próprio está se construindo. Um ser em obras, com andaimes, latas de tinta e pincéis. Tudo é um vir-a-ser. Vida, profissão, amor, família, tudo é futuro. Por isso, pode voar em sonhos e mergulhar em delírios. Em sonhos e delírios, você é o que quiser. Se ninguém entende e reclama de você fica na sua. Mas bem na sua mesmo. Esconda-se naquele lugar onde ninguém vai lhe achar, nem mesmo você sabe onde é direito. Vai para lá no automático. E fica lá em silêncio consigo mesmo. Afinal, nem você mesmo se entende. Mas os que se queixam de você, não se entendem entre si também.

             Sempre se diz que a adolescência é a fase mais difícil, porque deixou-se de ser uma coisa e ainda não se é outra. Não se deu assim comigo. Se me fosse dado voltar no tempo, eu voltaria para a adolescência. Foi o período mais alegre da minha vida. Eu tinha tão pouco e precisava de tão menos, que do nada havia sobra. Era a aventura e a alegria, a curiosidade e as descobertas, a gratuidade de uma vida que ainda não era. Vivi mais perto de mim, com mais paz, e mais perto de ser feliz. Para quem não tem nada, menos que pouco pode ser o bastante. Ou até demais.

Entendendo o texto

01. No primeiro parágrafo, o autor afirma que a "realidade" era uma inimiga dos adolescentes. Por que ele pensava assim?

a) Porque na realidade eles eram obrigados a trabalhar e ganhar o próprio dinheiro.

b) Porque a realidade reduzia os jovens a "adolescentes espinhentos" e destruía a grandiosidade de seus sonhos.

c) Porque a realidade exigia que eles fossem heróis, santos e gênios o tempo todo.

d) Porque os pais controlavam tudo o que eles faziam no mundo real.

02. Para explicar a capacidade do adolescente de se recuperar dos problemas e voltar a sonhar, o autor faz uma comparação com:

a) Um fantasma de um cão adestrado.

b) Um edifício cheio de andaimes e latas de tinta.

c) Um escudo do seu time preferido de futebol.

d) As sete vidas de um gato.

03. O autor utiliza uma metáfora marcante para descrever o processo de crescimento e autoconhecimento na adolescência. Ele diz que o jovem é:

a) Um ser em obras, cheio de andaimes, latas de tinta e pincéis.

b) Um livro antigo com páginas rasgadas.

c) Uma camisa-de-força difícil de desamarrar.

d) Um ator de cinema que esqueceu o roteiro do filme.

04. De acordo com a visão do narrador sobre as garotas da mesma idade, elas:

a) Passavam pela adolescência de forma muito mais lenta e dolorosa que os meninos.

b) Sempre confiavam nos garotos e os ajudavam a espremer cravos.

c) Não sabiam o que era a adolescência, pois se transformavam em mulheres de repente.

d) Gostavam de usar roupas infantis para parecerem mais novas.

05. Ao contrário do que muitas pessoas dizem, qual é a opinião final do autor sobre a adolescência quando ele olha para o passado?

a) Foi a fase mais difícil e triste de sua vida, pois ele nunca se entendia.

b) Foi um período violento do qual ele prefere esquecer e não voltar no tempo.

c) Foi o período mais alegre de sua vida, onde ele precisava de muito pouco para ser feliz.

d) Foi uma época sem importância, já que ele vivia imitando os outros garotos.

 

 

CRÔNICA: PEGA LADRÃO, PAPAI NOEL! COM GABARITO

 Crônica: Pega ladrão, Papai Noel!

Ele não era bem um Papai Noel, pois trabalhava numa grande loja, a Emperor, aquela grande, da Avenida Consta, inclusive, que fez um curso de seis semanas para testar e aperfeiçoar sua tendência vocacional, obtendo boa nota. Mas seu visual, mesmo sem uniforma, impressionou favoravelmente a banca examinadora: era gordo, como convém a um Papai Noel; tinha olhos da cor do céu e a capacidade de sorrir durante horas inteiras sem nenhum motivo aparente. Aliás, um Papai Noel é isto: uma mancha vermelha que sabe rir e às vezes fala.

 
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhVujHWHm8gNKxCHXZdsOzSl55JjIysANwDqpz9ooGaDclJmn4mLhMBVYyeduX3Zic8ZSAtb6HYlL6JxoHh2PB3LdPu2pD-UpM_bIdKK7QCiL1es1xvdqD4QqK9IrOpRfXPCQkIDqP3ZmiGWIJpq6drXuWiYmQuhUYWO15cfm6nXEHDRVMfyYtD8g078Pg/s320/papai.png

-          Você está ótimo! – disse-lhe o chefe da seção de brinquedos. – As crianças vão adorá-lo!

Era véspera de Natal e a loja andava preocupadíssima com as vendas, inferiores ao ano anterior. E preocupada com outra coisa, ainda: o incrível número de furtos, razão por que o Papai Noel além de sorrir e estimular as vendas teria que ser também um olheiro, um insuspeito fiscal de seção.

Ele passeava pelo atraente departamento de brinquedos eletrônicos, juntamente com seu sorriso, e acabara de passar a mão nos cabelos louros de um garotinho, quando viu. Viu o quê? Um homem, e mais que ele, sua mão surrupiando um trenzinho de pilha, imediatamente metido nua bolsa. Interrompendo em meio seu sorriso, Papai Noel deu um passo firme, fez voz de vigia:

-          Por favor, me deixe ver essa bolsa!

Nem todo susto é paralisante: o homem, sem largar a bolsa, saiu em disparada pela seção de brinquedos, empurrando pessoas, chutando coisas, derrubando e pisando em brinquedos. Atrás desse furacão, seguia outro furacão, este encarnado, o Papai Noel, que repetia em cores mais vivas os desastres provocados pelo primeiro. A cena prosseguiu com mais dramaticidade e ruídos na escadaria da loja, pois a seção de brinquedos era no sexto andar. No quarto pavimento, Papai Noel chegou a grampear o ladrão pelo braço, mas este conseguiu escapar, livrando oito degraus entre o quarto e o segundo andares, Aí, novamente, Papai Noel pôs a mão enluvada no fugitivo, mas um grupo de pessoas que saía do elevador poluiu a imagem e ele tornou a ganhar distância.

Na avenida a perseguição teve novos aspectos e emoções. A pista era melhor para corridas, mas ainda maior o número de pessoas e obstáculos. O ladrão, logo à saída da loja, chocou-se com uma mulher que carregava mil pacotes, pacotinhos e pacotões. Foram todos para o chão. Um propagandista de longas pernas de pau fez uma aterrissagem forçada, que o Aeroporto de Congonhas teria desaconselhado devido ao mau tempo. O Papai Noel também empurrava, esbarrava e derrubava, aduzindo ao seu esforço o clássico “pega ladrão!”, um refrão tão comum na cidade que não entendo como ainda não musicaram. Na primeira esquina, quase... Um carro bloqueou a fuga do homem, que ficou hesitante enquanto seu colorido perseguidor se aproxima em alta velocidade.

Consta que Papai Noel perseguiu o ladrão inclusive no Minhocão, de ponta a ponta, onde é proibida a circulação de pedestres. Também sem resultado.

A história, que nem história é, podia acabar aqui, mas prefiro que acabe lá.

Lá, onde?

Naquele quarto de subúrbio.

Aquela noite, o ladrão, à meia-noite em ponto, deu para o filho o belo presente das lojas Emperor, o trenzinho de pilha, que tinha luzes diversas e até apitava, excessivamente incrementado para qualquer garoto pobre.

O menino, que sabia dos apuros do pai, não recebeu alegremente a maravilha eletrônica.

-Papai, o senhor não devia ter comprado.

- Mas não comprei.

- Ahn?

- Ganhei.

- De quem?

- De Papai Noel, ora. Bom cara. Nem precisei pedir, Ele correu atrás de mim e me deu o presente. Disse que a pilha dura três meses. Legal, não?

 
Entendendo o texto

 

01. Além de sorrir e ajudar nas vendas de Natal, qual era a outra função que a loja Emperor esperava que o Papai Noel exercesse? 

a) Limpar a seção de brinquedos eletrônicos.

b) Vigiar o local de forma disfarçada para evitar furtos.

c) Distribuir doces e trenzinhos de pilha de graça.

d) Cuidar das crianças enquanto os pais faziam compras.

02. Durante a correria dentro e fora da loja, o Papai Noel e o ladrão acabaram causando:

a) Um grande silêncio na avenida por causa do susto das pessoas. 

b) Muita confusão, derrubando brinquedos, pacotes e até um homem em pernas de pau.

c) Um grave acidente de trânsito que parou o Aeroporto de Congonhas.

d) Uma festa na rua onde as pessoas começaram a cantar músicas de Natal.

03. O narrador afirma que a perseguição passou pelo "Minhocão". Esse detalhe indica que a história se passa em qual ambiente?

a) Em uma floresta encantada cheia de animais.

b) No interior de um shopping center muito antigo.

c) Em uma grande cidade urbana (como São Paulo).

d) Em uma praia deserta durante o feriado.

04. No final do texto, como o menino reage ao receber o trenzinho eletrônico de presente?

a) Ele fica muito feliz e vai correndo brincar na rua com os amigos. 

b) Ele fica desconfiado e preocupado, pois sabia das dificuldades financeiras do pai.

c) Ele rejeita o presente porque queria ganhar um brinquedo que não usasse pilhas.

d) Ele chora de tristeza porque o brinquedo veio quebrado e não acendia as luzes.

05. Qual é a grande mentira (ou justificativa) que o pai conta ao filho para explicar como conseguiu o brinquedo?

a) Diz que achou o trenzinho jogado no lixo perto do Minhocão.

b) Diz que trabalhou na loja Emperor e recebeu o brinquedo como pagamento.

c) Diz que o próprio Papai Noel correu atrás dele para lhe entregar o presente.

d) Diz que juntou moedas durante o ano inteiro para poder comprar o trem.