quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

CRÔNICA: "CHATEAR" E "ENCHER" - PAULO MENDES CAMPOS - COM GABARITO

Crônica: Chatear” e “encher”
             Paulo Mendes Campos

        Um amigo meu me ensina a diferença entre “chatear” e “encher”. Chatear é assim: você telefona para um escritório de  qualquer na cidade.
        — Alô, quer me chamar por favor o Valdemar?
        — Aqui não tem nenhum Valdemar.
        Daí a alguns minutos você liga de novo.
        — O Valdemar, por obséquio. 
        — Cavalheiro, aqui não trabalha nenhum Valdemar.
        — Mas não é do número tal?
        — É, mas aqui nunca teve nenhum Valdemar.
        Mais cinco minutos, você liga o mesmo número:
        — Por favor, o Valdemar já chegou?
        — Vê se te manca palhaço. Já não lhe disse que o diabo desse Valdemar nunca trabalhou aqui?
        — Mas ele mesmo me disse que trabalhava aí.
        — Não chateia.
        Daí a dez minutos, ligue de novo.
        — Escute uma coisa: o Valdemar não deixou pelo menos um recado?
        O outro dessa vez esquece a presença da datilógrafa e diz coisas impublicáveis.
        Até aqui é chatear. Para encher, espere passar mais dez minutos, faça nova ligação:
        — Alô! Quem fala? Quem fala aqui é o Valdemar! Alguém telefonou para mim?

                   Paulo Mendes Campos, in Para gostar de ler – Crônicas

Entendendo a crônica:

01 – Na crônica são construídas relações envolvendo narrador e personagens. Sobre o assunto, assinale a afirmativa correta:

a)   A fala – É, mas aqui nunca teve nenhum Valdemar, sinaliza o início da perda de paciência da pessoa que atende ao telefone.
b)   Desde o início do texto, a pessoa que telefona mostra-se irritada com quem fala.
c)   O uso do artigo o antes de Valdemar revela o distanciamento entre Valdemar e a pessoa que o procura.
d)   O autor cria uma relação lúdica entre Valdemar e os funcionários do escritório.
e)   A presença da datilógrafa é motivo para que o funcionário que atende ao telefone mantenha, durante a conversa, comportamento polido.
02 – Quais são as dicas dadas no texto para chatear quem atende o telefone?
      Ligar várias vezes, dizendo a mesma coisa.

03 – Quando a situação descrita deixa de chatear e passa a encher quem atende, segundo o narrador?
      Quando o atendente percebe que está sendo passado por idiota, bobo.

04 – A situação descreve um trote por telefone. Explique com suas palavras o que é um trote.
      Resposta pessoal do aluno. Sugestão: É uma tentativa de ridicularizar, zombaria.

05 – Releia este trecho.
        “O outro desta vez esquece a presença da datilógrafa e diz coisas impublicáveis.”
a)   Por que as coisas ditas por quem recebe o trote são impublicáveis?
Porque são palavrões, besteiras.
b)   Onde não poderiam ser publicadas?
Na crônica.
c)   O que a pessoa que recebia o trote estava sentindo naquele momento.
Estava com muita raiva, por estar atrapalhando o seu serviço.

06 – No início da conversa pelo telefone as repostas de quem atende são educadas. No decorrer das ligações essa relação se mantém ou se modifica? Por quê?
      Se modifica. Porque a pessoa começou a chatear com aquela brincadeira.

07 – Você já recebeu um trote ou conhece alguém que recebeu? Você acha essa história possível de acontecer no dia a dia?
      Resposta pessoal do aluno.

08 – Assinale as alternativas que melhor explicam as características de uma crônica.

(X) O cenário onde os acontecimentos se desenvolvem são espaços familiares aos personagens.

(  ) O humor é uma característica marcante.


(  ) Os acontecimentos não se referem a fatos comuns ao dia a dia das pessoas.

(X) Os personagens são seres humanos normais como qualquer um de nós.

(X) As crônicas narram fatos comuns ao dia a dia.


POEMA: CASO PLUVIOSO - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - COM GABARITO

Poema: Caso pluvioso
                Carlos Drummond de Andrade

A chuva me irritava.
Até que um dia descobri que Maria é que chovia.
A chuva era Maria.
E cada pingo de Maria ensopava o meu domingo.
E meus ossos molhando, me deixava
Como terra que a chuva lavra e lava.
Eu era todo barro, sem verdura…
Maria, chuvosíssima criatura!
Ela chovia em mim, em cada gesto,
Pensamento, desejo, sono, e o resto.
Era chuva fininha e chuva grossa,
Matinal e noturna, ativa…Nossa!
Não me chovas, Maria, mais que o justo
Chuvisco de um momento, apenas susto.
Não me inundes de teu líquido plasma,
Não sejas tão aquático fantasma!
Eu lhe dizia em vão – pois que Maria
Quanto mais eu rogava, mais chovia.
E chuveirando atroz em meu caminho,
O deixava banhado em triste vinho,
Que não aquece, pois água de chuva
Mosto é de cinza, não de boa uva.
Chuvadeira Maria, chuvadonha,
Chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha!
Eu lhe gritava: Para! e ela chovendo,
Poças d’água gelada ia tecendo.
Choveu tanto Maria em minha casa
Que a correnteza forte criou asa
E um rio se formou, ou mar, não sei,
Sei apenas que nele me afundei.
E quanto mais as ondas me levavam,
As fontes de Maria mais chuvavam,
De sorte que com pouco, e sem recurso,
As coisas se lançaram no seu curso,
E eis o mundo molhado e sovertido
Sob aquele sinistro e atroz chuvisco.
Os seres mais estranhos se juntando
Na mesma aquosa pasta iam clamando
Contra essa chuva estúpida e mortal
Catarata (jamais houve outra igual).
Anti-petendam cânticos se ouviram.
Que nada! As cordas d’água mais deliram,
E Maria, torneira desatada,
Mais se dilata em sua chuvarada.
Os navios soçobram. Continentes
Já submergem com todos os viventes,
E Maria chovendo. Eis que a essa altura,
Delida e fluida a humana enfibratura,
E a terra não sofrendo tal chuvência,
Comoveu-se a Divina Providência,
E Deus, piedoso e enérgico, bradou:
Não chove mais, Maria! – e ela parou.

                           Carlos Drummond de Andrade. Viola de bolso. São Paulo: Companhia das Letras.
Entendendo o poema:

01 – O verbo chover normalmente é utilizado para designar um fenômeno da natureza; por isso, é classificado como impessoal e é utilizado em orações sem sujeito. No entanto, no poema ele é empregado com um papel diferente. Identifique em cada um dos versos a seguir o sujeito a que o verbo chover se refere.
a)   “Até que um dia descobri que Maria é que chovia.” Maria.
b)   “Ela chovia em mim, em cada gesto,” ela.
c)   “Não me chovas, Maria, mais que o justo” tu (desinencial).
d)   “Quanto mais eu rogava, mais chovia.” Maria.

02 – Interprete: Por que o eu lírico transfere a Maria os atributos da chuva?
      Porque ele sente a presença de Maria na vida dele como uma chuva ininterrupta, permanente, que o inunda e tira sua tranquilidade.

03 – Crie uma frase em que o verbo chover seja impessoal.
      Resposta pessoal do aluno.

04 – Para realçar a expressividade no texto, o autor emprega palavras como “chuvadeira”, “chuvadonha”, “chuvinhenta”, “chuvil” e “pluvimedonha” na intenção de:
     a) ressaltar termos em desuso na língua.
     b) reforçar a recorrência de termos com sentidos semelhantes.
     c) suprir a necessidade de um sentido ideal para termos existentes.
     d) especificar novos conceitos por meio da renovação vocabular.
     e) incorporar novos termos ao léxico da língua.

05 – Você já deve ter ouvido frases como estas:
A gente brigamos muito.
A gente saímos na frente.

Agora responda:
a)   Qual é o sujeito dessas orações?
A gente.

b)   Qual é o núcleo desse sujeito?
Gente.

c)   Na norma-padrão da língua, construções como essas são consideradas inadequadas. Explique por quê?
Porque o verbo não concorda com o sujeito em número e pessoa.

d)   Levante hipóteses: Por que popularmente se usa o verbo no plural, mesmo o sujeito estando no singular?
Resposta pessoal do aluno. Sugestão: Porque “a gente” dá ideia de mais de uma pessoa.

e)   Reescreva as frases de acordo com a norma-padrão.
A gente briga muito – Nós brigamos muito.
A gente saiu na frente – Nós saímos na frente.


CRÔNICA: LANTERNA MÁGICA - IVAN ÂNGELO - COM GABARITO

CRÔNICA: Lanterna Mágica
                                         Ivan Ângelo


        Vi na televisão um menininho pobre de uma creche uivando de alegria ao escarafunchar um engradado com os presentes do Dia da Criança. Eram pequenas tralhas de plástico e caixas de ovos coloridas, vazias. O pouquíssimo era motivo para incontida e ruidosa alegria. A privação é a medida do desejo de cada um, na vida.
        Houve um tempo em que as oportunidades de presente resumiam-se a duas: aniversário e Natal. Hoje, na classe média, o presente é um evento mensal; em algumas famílias, semanal. Cada voltinha num shopping resulta num pequeno agrado. Não se deseja mais com aquela gana, porque sabe-se que alguma coisa virá. O desejo dos meninos, da classe média para cima, é impreciso, vago, incapaz de provocar uivos de alegria quando satisfeito.
        Já vivi minhas privações. Nunca pude ter bicicleta, por exemplo, nem bola de futebol, nem espingarda de rolha. Tivemos, eu e meus irmãos mais velhos, simulacros: revolverzinho de espoleta, bola de borracha, triciclo comunitário. Bolas de borracha, sabe-se, não formam craques. Triciclos não permitem ousadias ou temeridades. Talvez por isso, sem traquejo, eu tenha sido um perna de pau e um tímido. Quem sabe.
        Espingarda de rolha pude usar, por empréstimo, a de um primo, quando passava férias na casa de meu avô. Fiquei bom de tiro. Comecei acertando caixinhas de fósforos, acabei acertando moscas. A rolha era leve demais, desviava-se, então aprendi o truque de enfiar nela um prego curto, para dar peso e rumo. Bola de couro só mais tarde, no caminho da fazenda de seu Juca, hoje Cidade Nova, em Belo Horizonte.
        Entretanto, o que se tornou para mim algo mais perto de maravilha foi uma lanterna de pilhas. Nunca tinha visto uma, a não ser no cinema e nas histórias em quadrinhos. Não sei, talvez considerasse aquele objeto coisa de ficção científica, não da realidade. Quando vi uma, manipulada por meu primo mais velho, já homem, o Zezé, na mesma casa de meu avô, foi um deslumbramento. Brilhava, niquelada, era uma daquelas de quatro pilhas. Deixar que eu a tomasse nas mãos, e acendesse, e dirigisse a luz para onde quisesse foi mágico. A partir desse momento nada superou, nos meus sete anos, a beleza daquele fecho de luz. E o poder. Mesmo quando meu primo não estava eu me apoderava da lanterna e quixotava, cavaleiro andante.
        Deitado, à noite, com a lanterna dissipava fantasmas. Nos cantos, sombras revelam-se objetos ou cavidades. Uma súbita lagartixa era imobilizada no teto de taquaras e meditava talvez sobre qual seria a seguir a sua ação mais prudente. O pernilongo era localizado na parede, motores parados de repente.
        Uma coisa era outra coisa na luz que a si mesma se desenhava em cone.
        A neblina perdia sua amplidão impalpável, aquele nada que não se podia não ver. Aquela coisa comedora de contornos. A lanterna cortava uma talhada de neblina, via-se claramente do que ela não era feita. A luz não ia além, mas até onde ia desnudava a coisa, e via-se que era móvel.
        A chuva noturna não era só, não era mais, barulho nas telhas, nas folhas. No facho de luz da lanterna as gotas de chuva eram cintilações, estrelas cadentes, vaga-lumes.
        A coruja não se atrevia a piar: emudecia e olhava de perfil.
        Bichinhos de asa – se o canudo de luz se demorava – vinham dançar, perdiam aquela chatice deles, aquela mania de pousar na gente.
        O sapo esbarrava seu passeio noturno, como se dissesse epa, que sol é esse?
        O poço, mesmo de dia, perdia o mistério. A luz furava a água cristalina e mostrava o fundo, alguma folha, paz. Uma pedrinha resvalava e a paz lá embaixo se multipartia em tremulações luminosas, vibrações.
        Partes do corpo, no escuro, atravessadas pela luz, mostravam um vermelho de abóbora. Nos dedos era possível pressentir o esqueleto. Na bochecha, frente ao espelho, viam-se veiazinhas.
        O céu negro da noite engolia a luz, era o único a vencê-la.

Ivan Ângelo. O comprador de aventuras e outras crônicas. São Paulo:
Ática, 2000.v. 8. p. 36-8. (Col. Para Gostar de Ler).
Entendendo o texto:
01 – O texto Lanterna mágica pode ser considerado um relato pessoal. Justifique essa afirmação.
      O texto pode ser considerado um relato pessoal pois nele o narrador conta, de maneira bastante expressiva, suas experiências com alguns objetos ou presentes recebidos na infância e, sobretudo, com uma lanterna que tomou emprestada de seu primo.

02 – O ponto de partida de texto é uma cena à qual o narrador assistiu na TV.
a)   Que cena foi essa?
Uma criança pobre recebendo, com intensa alegria, “tralhas de plástico e caixas de ovos coloridas, vazias.”

b)   Depois de assistir a essa cena, o narrador faz algumas reflexões a respeito da relação das crianças de diferentes classes sociais com os presentes que ganham. Resuma, em poucas palavras, o conteúdo dessas reflexões.
O narrador diz que “a privação é a medida do desejo de cada um”: que as crianças “da classe média para cima”, por ganhar muitos presentes, não dão valor a eles como as crianças mais pobres.

c)   Você concorda com o narrador? Explique.
Resposta pessoal do aluno. Sugestão: Os malefícios do consumismo.

03 – No terceiro e no quarto parágrafos, o narrador conta suas experiências com brinquedos na infância. Assinale a(s) alternativa (s) que se adéquam ao texto:
(   ) O narrador era um menino mimado, que ganhava todos os presentes que desejava.
(X) Provavelmente o narrador não menciona jogos eletrônicos porque, na época em que ele era criança, eles praticamente não existiam.
(   ) O narrador era filho único.
(   ) O narrador tornou-se um bom jogador de futebol praticando com uma bola de borracha.
(X) Na época em que o narrador era criança, revolverzinhos de espoleta ainda não eram proibidos por lei, apesar de perigosos.
(   ) Todas as lembranças do narrador se passam em sua casa.

04 – A partir do quinto parágrafo, o narrador passa a contar suas lembranças e impressões a respeito de um objeto em particular: uma lanterna.
a)   Transcreva um trecho em que o narrador revela que a lanterna foi o “brinquedo” que mais o fascinou na infância.
“[...] O que se tornou par mim algo mais perto de uma maravilha foi uma lanterna de pilhas.”
“A partir desse momento nada superou, nos meus sete anos, a beleza do meu facho de luz.”

b)   O narrador diz que, até pegar na mãos a lanterna, “talvez considerasse aquele objeto coisa de ficção cientifica, não da realidade”. O que você acha que ele quis dizer com isso? Explique nas linhas abaixo.
A lanterna devia parecer, aos olhos de um menino de 7 anos, uma “máquina” possante e misteriosa, embora fosse, na verdade, um objeto bastante simples.

05 – Em certa passagem do texto, o narrador diz que a lanterna “dissipava fantasmas”. Levando isso em conta, responda:
a)   Segundo o texto, o que acontecia com as sombras, nos cantos, à noite?
“Revelavam-se objetos ou cavidades.”

b)   E o “mistério” do poço, o que mostrava, ao ser iluminado pela lanterna?
A “água cristalina”, “o fundo, alguma folha, paz”.

c)   E quanto às partes do corpo do narrador, como elas “se transformavam” devido ao facho de luz?
Quando “atravessadas pela luz, mostravam um vermelho de abóbora”; “nos dedos era possível pressentir o esqueleto”; a bochecha revelava suas “veiazinhas”.

06 – Complete indicando como cada animal reagia ao ser iluminado pela luz da lanterna:
·        Lagartixa: ficava imóvel.
·        Pernilongo: parava os “motores”.
·        Coruja: emudecia e olhava de perfil.
·        Bichinhos de asa: dançavam; perdiam a mania de pousar nas pessoas.
·        Sapo: parava seu passeio noturno.

07 – A luz da lanterna só era vencida por um elemento da natureza. Que elemento era esse?
      O céu negro da noite, que “engolia” a luz da lanterna.

CONTO: O BARCO - MARIA DINORAH - COM GABARITO

CONTO: O barco
                             Maria Dinorah

        Na verdade, o barco era meu mistério.
        Que coisa linda, aquele barco flutuando balançando nas águas, tendo o céu infinito por lençol!
        Desde que entrei nele pela primeira vez – era ainda pequena, e o pai nos levou para um passeio – que me apaixonei pelo seu aconchego.
        Era ninho e cometa.
        O sulco marcando as águas formava sua cauda; as espumas, seu halo.
        Nele eu virava anjo, pássaro.
        As paisagens se transformavam em novos e fantásticos mundos, onde a vegetação densa e as montanhas me intrigavam.
        Que haveria por trás delas?
        Dentro delas...?
        O céu era o palácio das cores.
        Cada dia uma.
        Ou várias, a um só tempo.
        À noite as sombras o invadiam, e o transformavam em susto.
        Mas quando as lanternas das estrelas acendiam seu pisca-pisca mágico, e a lua, mãe da poesia e do mistério, transbordava das trevas, era o delírio.
        E o barco seguia sendo meu herói, por que era dele que emanavam todos esses encantos.
        Às vezes, nos fins de semana, o pai me levava pra pescar.
        De caniço em punho eu ficava ali, adernando o barco no silêncio, mergulhando linha, anzol e isca na água.
        Marulho manso.
        Silêncio infinito.
        Lá pelas tantas, a água tremia.
        A linha tremia.
        Tremia meu coração.
        A isca fisgara o bichinho.
        Que coisa fantástica!
        Eu erguia o caniço devagarinho e o peixe surgia, a debater-se no ar, como ave desesperada...
        Sentia-me herói e bandido.
        Matar os bichinhos, judiaria!
        Mas o pai falava que era a lei da vida.
        E quando no dia seguinte a gente saboreava, à mesa, a delícia das postas de peixe assadas, com o sagrado tempero da mãe, confesso que esquecia o crime e vivia a glória da conquista.
        O barco...
        Berço e rima.
        Silêncio e música.
        Sim, quando beirávamos os barrancos, o sopro do vento balançando as árvores era poema, e os pios das aves, a mais ela melodia.
        Ah, como a vida era linda e transfigurada, através desse barco, rolando sobre a imensa serpente do rio!
        Eu era apaixonada por ele, sim.
        E meu grande sonho era dirigi-lo um dia, águas afora, sozinha com meu silêncio...
        Demorei a conseguir que o pai me ensinasse a mecânica do motor e, mais ainda, que me permitisse realizar esse sonho.
        Não foram poucas as travessias que fiz sob sua orientação, levando as mercadorias para o outro lado do rio.
        Com a calça de brim e o boné para me proteger do sol, eu me sentia, empunhando o leme, uma verdadeira barqueira.
        Mesmo sobre as águas, era como se flutuasse!
        Que deliciosa façanha a vida me dera a chance de cometer!
        E, quando isso ocorria, a situação mudava: eu era o herói, e o barco, meu comandado.
        Pois foi esse maravilhoso barco que me levou até a escola pela primeira vez.
        Ah, aprender a ler!
        Descobrir a magia da palavra!
        Minha cabeça era um remoinho de curiosidades a se iluminar de espanto.
        A professora era gordinha, baixinha e doce.
        Doce foi também a aprendizagem.
        E com que ternura eu ia decifrando o enigma das letras.
        Seu poder.
        Seu som.
        Falando comigo, nas frases e períodos.
        E o mais fantástico: me contado histórias.

          DINORAH, Maria. Um pai para Vinícius. São Paulo: FTD, 1995. p. 3-40. (Título nosso).

Entendendo o texto:
01 – Tente explicar o significado das palavras destacadas. Se precisar, consulte um dicionário:
a)   “O sulco marcando as águas formava sua cauda; as espumas, seu halo.”
·        Sulco: quebra da superfície da água produzida pela passagem de embarcações.
·        Halo: círculo luminoso em torno de um objeto; brilho.

b)   “Mas quando as lanternas das estrelas acendiam seu pisca-pisca mágico, e a lua, mãe da poesia e do mistério, transbordava das trevas, era o delírio.”
·        Transbordar: sair fora das bordas.
·        Trevas: escuridão completa.
·        Delírio: grande entusiasmo (sentido figurado).

c)   “De caniço em punho eu ficava ali, adernando o barco no silêncio [...]”
·        Adernar: inclinar.

d)   “E com que ternura eu ia decifrando o enigma das letras.”
·        Decifrar: compreender ou interpretar o sentido de algo.
·        Enigma: mistério.

e)   “E o barco seguia sendo meu herói, porque era dele que emanavam todos esses encantos.”
·        Emanar: originar-se.

f)    “As paisagens se transformavam em novos e fantásticos mundos, onde a vegetação densa e as montanhas me intrigavam.”
·        Densa: espessa.
·        Intrigar: encher de curiosidade.

g)   “Desde que entrei nele pela primeira vez [...] que me apaixonei pelo seu aconchego.”
·        Aconchego: abrigo que gera bem-estar, amparo, proteção.

02 – Assinale a alternativa mais adequada ao texto lido:
(   ) Trata-se de um texto em que o narrador conta o que aconteceu em um dia específico de sua vida.
(   ) Trata-se de um texto em que o narrador descreve detalhadamente todos os locais importantes da vida dele.
(X) Trata-se de um texto em que o narrador apresenta suas reflexões, sobre uma experiência vivida por ele.
(   ) Trata-se de um texto em que o narrador ensina a arte de navegar.

03 – Assinale a(s) alternativa(s) correta(s). Pode-se dizer que a personagem:
(   ) Não se mostra interessada em pilotar o barco.
(X) Sentia-se emocionada ao observar os elementos da natureza quando estava em seu barco.
(X) Sentia-se herói e bandido quando pescava.
(   ) Quando comia o peixe, ficava triste por tê-lo pescado.

04 – Releia este trecho do texto prestando atenção à expressão destacada:
        “Ah, como a vida era linda e transfigurada, através desse barco, rolando sobre a imensa serpente do rio!” Com essa expressão, o narrador do texto quis dizer que:
(X) O rio era muito grande e, além disso, fazia curvas como o corpo se uma serpente.
(   ) Havia uma serpente muito grande que vivia no rio.

05 – Além da personagem-narrador, outras personagens são mencionadas no texto.
a)   Quem são elas?
O pai, a mãe e a professora da menina. Além disso, no trecho “Desde que entrei nele pela primeira vez – era ainda pequena, e o pai nos levou para um passeio [...]”, o pronome nos convida a supor que, talvez, outras pessoas da família da menina, como irmãos, tios, primos, etc., também estão mencionados no texto.

b)   Sublinhe os trechos do texto em que essas personagens aparecem.
Resposta pessoal do aluno.

c)   Releia a resposta que você deu ao item (a) e verifique se pretende alterá-la ou mantê-la, depois de ter sublinhado os trechos pedidos no item (b).
Resposta pessoal do aluno. Sugestão: Com isso é possível perceber aspectos que passam despercebidos numa leitura superficial.

06 – Pode-se dizer que, em certos trechos, o barco é referido como se fosse uma pessoa, isto é, como se tivesse características humanas. Copie do texto um trecho que comprove essa afirmação.
      “E o barco seguia sendo meu herói”; “Eu era apaixonada por ele, sim”; “E, quando isso ocorria, a situação mudava: eu era o herói, e o barco, meu comandado”.

07 – Pode-se dizer também que, no texto, o barco adquire características mágicas aos olhos da menina. Copie um trecho que comprove essa afirmação.
        É possível transcrever muitas passagens do texto em que isso ocorre. Eis algumas: “o barco era meu mistério”; “Era ninho e cometa”; “Nele eu virava anjo, pássaro”; “Berço e rima”; “Silêncio e música”; “Como a vida era linda e transfigurada, através desse barco”.

08 – A personagem não menciona a passagem do tempo, mas podemos perceber que ela cresceu do início para o fim do texto. Qual fato citado no texto comprova que ela cresceu?
       Foi o barco que a levou à escola pela primeira vez. Esse fato deixa claro que a convivência com o barco começara antes de ela entrar na idade escolar.