quinta-feira, 13 de agosto de 2026

CONTO: O CAÇADOR DE BORBOLETAS - JOSÉ EDUARDO AGUALUSA - COM GABARITO

 Conto: O caçador de borboletas

          José Eduardo Agualusa

        Vladimir recebeu muitas prendas no Natal, entre livros, discos, legos, jogos de computador, mas gostou sobretudo do equipamento para caçar borboletas. O equipamento incluía uma rede, um frasco de vidro, algodão, éter, uma caixa de madeira com o fundo de cortiça, e alfinetes coloridos. O pai explicou-lhe que a caixa servia para guardar as borboletas. Matam-se as borboletas com o éter, espetam-se na cortiça, de asas estacadas, e dessa forma, mesmo mortas, elas duram muito tempo. É assim que fazem os coleccionadores.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh5RXcPlRMCMxJ2FpEwaaaCsK3AIDMgL_G7KykipMDVhwED1kRrUDnQaAHTLpnQRw0zjqrw1HJgR3WMcDJkvByM83AB1aJQ8k6ts2jU0XrP8oJXJgyusJK2pO09haYEJZ-0XJNr8OC1nPKR0oJ5rTCpVJUKypV8GLPfqprSNzov_pOmgu6YvJW0KECMQqU/s320/images.jpg


        Aquilo deixou-o entusiasmado. Ele gostava de insectos mas não sabia que era possível coleccioná-los, como quem colecciona selos, conchas ou postais, talvez até trocar exemplares repetidos com os amigos. 

        Nessa mesma tarde saiu para caçar borboletas. 

        Foi para o matagal junto ao rio, atrás de casa, um lugar onde se juntavam insectos de todo o tipo. Já tinha apanhado cinco borboletas que guardara dentro do frasco de vidro, quando ouviu alguém cantar com uma voz de algodão doce – uma voz tão doce e tão macia que ele julgou que sonhava. Espreitou e viu uma linda borboleta, linda como um arco-íris, mas ainda mais colorida e luminosa. 

        Sentiu o que deve sentir em momentos assim todo o caçador: sentiu que o ar lhe faltava, sentiu que as mãos lhe tremiam, sentiu uma espécie de alegria muito grande. Lançou a rede e viu a borboleta soltar-se num voo curto e depois debater-se, já presa, nas malhas de nylon. Passou-a para o frasco e ficou um longo momento a olhar para ela.

        — Agora és minha — disse-lhe. — Toda a tua beleza me pertence.

        A borboleta agitou as asas muito levemente e ele ouviu a mesma voz que há instantes o encantara:

        — Isso não é possível — era a borboleta que falava. — Sabes como surgiram as borboletas? Foi há muito, muito tempo, na Índia. Vivia ali um homem sábio e bom, chamado Buda…

        Vladimir esfregou os olhos:

        — Meu Deus! Estou a sonhar?

        A borboleta riu-se:

        — Isso não tem importância. Ouve a minha história. Buda, o tal homem sábio e bom, achou que faltava alegria ao ar. Então colheu uma mão cheia de flores e lançou-as ao vento e disse: “Voem!”. E foi assim que surgiram as primeiras borboletas. A beleza das borboletas é para ser vista no ar, entendes? É uma beleza para ser voada.

        — Não! — disse Vladimir abanando a cabeça. — Eu sou um caçador de borboletas. As borboletas nascem, voam e morrem e se não forem coleccionadores como eu, desaparecem para sempre.

        A borboleta riu-se de novo (um riso calmo, como um regato correndo, não era um riso de troça):

        — Estás enganado. Há certas coisas que não se podem guardar. Por exemplo, não podes guardar a luz do luar, ou a brisa perfumada de um pomar de macieiras. Não podes guardar as estrelas dentro de uma caixa. No entanto podes coleccionar estrelas. Escolhe uma quando a noite chegar. Será tua. Mas deixa-a guardada na noite. É ali o lugar dela.

        Vladimir começava a achar que ela tinha razão.

        — Se eu te libertar agora — perguntou — tu serás minha?

        A borboleta fechou e abriu as asas iluminando o frasco com uma luz de todas as cores.

        — Já sou tua — disse — e tu já és meu. Sabes? Eu colecciono caçadores de borboletas.

        Vladimir regressou a casa alegre como um pássaro. O pai quis saber se ele tinha feito uma boa caçada. O menino mostrou-lhe com orgulho o frasco vazio:

        — Muito boa — disse. — Estás a ver? Deixei fugir a borboleta mais bela do mundo.

José Eduardo Agualusa. Era uma vez Revista Pais e Filhos, s/d.

 

Entendendo o conto:

01 – O que motivou Vladimir a sair para caçar borboletas e qual era a sua visão inicial sobre o ato de colecionar esses insetos?

      Vladimir ficou entusiasmado ao receber de presente de Natal um kit de caça às borboletas, composto por rede, frasco, éter, alfinetes e uma caixa de cortiça. Inicialmente, ele encarava o ato de colecionar borboletas da mesma forma que se coleccionam objetos inanimados (como selos ou moedas): uma oportunidade de juntar exemplares, preservar suas formas e até trocar itens repetidos com os amigos, sem refletir sobre o impacto da morte do animal para obter essa posse.

02 – Como o autor descreve o momento em que Vladimir avista a borboleta especial no matagal e quais foram as reações físicas e emocionais do menino?

      Ao chegar ao matagal, Vladimir escutou uma voz "de algodão doce" (doce e macia) e avistou uma borboleta colorida e luminosa como um arco-íris. A reação do menino foi a de um verdadeiro caçador diante de sua presa mais cobiçada: sentiu o ar faltar, as mãos tremerem e uma imensa alegria pela conquista iminente.

03 – Qual é o argumento da borboleta ao contar a história de Buda e como essa narrativa se relaciona com a verdadeira natureza das borboletas?

      A borboleta conta que Buda criou as borboletas lançando flores ao vento para dar alegria ao ar. Com essa metáfora, ela explica a Vladimir que a beleza das borboletas foi feita para o movimento e a liberdade ("é uma beleza para ser voada"). Prende-las e matá-las em uma caixa destrói a própria essência daquilo que as torna belas e vivas.

04 – Qual ensinamento a borboleta transmite a Vladimir sobre a posse de coisas intangíveis e belas da natureza?

      A borboleta ensina que existem coisas no mundo que não podem ser aprisionadas para serem possuídas, como o luar, a brisa de um pomar ou as estrelas. Ela propõe uma nova forma de "colecionar": admirar e contemplar os elementos em seu habitat natural (como escolher uma estrela e deixá-la no céu), compreendendo que a verdadeira posse nasce do respeito e do vínculo afetivo, e não do aprisionamento.

05 – Analise o desfecho do conto: Por que Vladimir diz ao pai que fez uma "muito boa" caçada ao mostrar o frasco vazio? O que isso revela sobre a transformação do personagem?

      Vladimir considera a caçada bem-sucedida porque compreendeu o verdadeiro valor da liberdade e da beleza da natureza. Ao mostrar o frasco vazio com orgulho e dizer que deixou fugir a borboleta mais bela do mundo, o menino demonstra ter passado por um amadurecimento moral: ele abandonou a postura possessiva de caçador/colecionador para se tornar um protetor e admirador da vida. O frasco vazio representa sua libertação da ignorância e sua conexão com o mundo vivo.

TEXTO: CONVERSA COM O MAR - FRAGMENTO - ANÍBAL M. MACHADO - COM GABARITO

 Texto: Conversa com o mar – Fragmento

         Aníbal M. Machado

        “Hoje vim mais cedo continuar a nossa conversa. Trouxe banana e sanduíche, posso ficar mais tempo”.

        Abriu o embrulho de comestíveis: “Vim como ontem, tal como me vês.” Estranho que outros não estejam aqui a te contemplar. Nem me lembro bem como foi a nossa conversa de ontem, pois a noite veio tão depressa e o sono, que até pensei que a mamãe estava perto. Eu deixei meus pais, um avô e três tias no planalto e ainda não sei dizer se fico por aqui. Sonhei com um peixe que me chamava. Foi quando escureceu que eu senti tua noite mais profunda que as noites da montanha. Agora vejo por que os namorados abusam tanto de teu luar. Mas não sei o teu mistério... 

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgpRQYwOEdQz1xEiym1weB-icBxyFyOKqk-r6yfWk3YbHfBaG4d8yNwkv2Kf0Aywpi-f6fnwSFqV8hTQCGm5T7P0-QYnkeWOsZ0ZZZm5xAaDyZ9OGPu3TtkqgJPzlTN-pL2IHCPThV_oA-fTqBrHXc9O1C5azCwwqEDxON8NKZVFxv1a0NRlvnNiK4kGYM/s320/images.jpg 


Será que vais guardar esse jeito assim tão novo? Lá em casa, quando se ouvia a palavra mar, meu avô se levantava agitado e perguntava se não estávamos sentindo cheiro de maresia. E quando vinha o temporal, a casa boiava entre os vagalhões da Mantiqueira. Ah, meu avô nunca disse por que se afastou de tuas águas!... Tu, agora, tão perto, tão perto!... Os astros passam alto, as nuvens correm longe, o vento a gente nem vê... Tu, não... tu chegas pertinho, e ficas. Agachar e brincas nas tuas águas assusta. Custo acreditar que esteja tocando a tua pele. Pensar que terminas nos meus dedos!... Outro dia me assustei também quando levantei os olhos da pedra de uma igreja enorme. Mar, o que eu queria te dizer é que pertenço a uma espécie aborrecida que não escolhi. Posso um dia optar pelas tuas águas? Mergulha-se e fica... Ninguém vai notar a ausência...

        As ondas mudando de cor. Ou seria perturbação da vista. Começou a mastigar outra banana.

        “Acho que aí no fundo, nas raízes do rochedo, não há dor nem alegria. Se o rochedo falasse!...”.

Anibal M. Machado. João Ternura. 3. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976.

Fonte: Língua Portuguesa Palavras. 5ª série. Hermínio Geraldo Sargentim. IBEP. 1ª edição. São Paulo, 2002. p. 143.

Entendendo o texto:

01 – O texto é construído a partir da fala direta de uma personagem com o oceano ("Hoje vim mais cedo continuar a nossa conversa..."). Qual recurso estilístico fundamenta esse tipo de interlocução e de que maneira ele revela o estado emocional e o isolamento da personagem?

      O recurso estilístico fundamental é a prosopopeia (ou personificação), em que o mar é dotado de capacidade de escuta e presença quase humana ("Custo acreditar que esteja tocando a tua pele"). Essa conversa unidirecional evidencia um profundo isolamento e solidão: distante da família que ficou no planalto, a personagem não encontra interlocutores humanos e busca no mar um ouvinte para suas angústias, incertezas e desejos de evasão.

02 – Analise como o texto estabelece uma oposição entre o espaço de origem da personagem (o planalto e a Mantiqueira) e o novo espaço em que ela se encontra (a beira-mar). Qual é o significado simbólico do mar nessa transição?

      O espaço de origem (a montanha/Mantiqueira) representa a memória familiar, as raízes e a proteção do lar ("Lá em casa..."). Em contrapartida, o mar representa o desconhecido, o fascínio e o mistério ("não sei o teu mistério..."). A transição do interior para o litoral simboliza uma ruptura com o passado familiar e a atração por um elemento dinâmico e tátil ("tu chegas pertinho, e ficas"), que contrasta com a distância imutável dos astros e das nuvens.

03 – No trecho final do diálogo, a personagem faz uma reflexão profunda sobre a sua condição humana e o fundo do mar ("Posso um dia optar pelas tuas águas? Mergulha-se e fica... Ninguém vai notar a ausência..."). Como essa fala pode ser interpretada sob a perspectiva da evasão da realidade?

      A fala expressa um desejo de evasão radical e anulação do sofrimento. A personagem declara pertencer a uma "espécie aborrecida" e vislumbra o fundo do mar como um lugar neutro, pacífico e livre de angústias ("não há dor nem alegria"). O ato de mergulhar e "ficar" surge como uma ideia de refúgio definitivo ou dissolução da existência, no qual o esquecimento social ("Ninguém vai notar a ausência") funcionaria como libertação do peso de viver.

04 – Qual é a importância da figura do avô nas lembranças trazidas pela personagem e como essa memória se conecta com a presença do mar no presente?

      O avô surge como uma figura de conexão ancestral e misteriosa com o mar. Mesmo vivendo no interior, a palavra "mar" o deixava agitado e à procura do "cheiro de maresia", fazendo com que a própria casa parecesse boiar nos "vagalhões da Mantiqueira". A lembrança do avô, que nunca explicou por que se afastou das águas, lança uma aura de herança psicológica sobre a personagem: ela parece dar continuidade à mesma atração enigmática que o avô sentia, vivendo agora fisicamente a proximidade que ele apenas evocava na memória.

05 – Identifique no fragmento dois recursos de linguagem que reforçam a dimensão sensorial da experiência da personagem ao lado do mar.

      A Sensopercepção Tátil: O uso de metáforas que atribuem ao mar características físicas e biológicas, como em "tocando a tua pele" e "terminas nos meus dedos", tornando concreta e íntima a relação do corpo com a água.

      A Percepção Visual e Cromática: A observação do dinamismo das ondas e da luz ("As ondas mudando de cor", "abusam tanto de teu luar"), aliada a atos cotidianos simples como "mastigar outra banana", que contrapõem a grandiosidade da natureza ao gesto humano comum.

 

 

ROMANCE: OS SERTÕES TRECHO II - EUCLIDES DA CUNHA - COM GABARITO

Romance: Os Sertões Trecho II – Fragmento

               Euclides da Cunha

        Os sintomas do flagelo despontam, lhe [para o sertanejo], então, encadeados em série, sucedendo-se inflexíveis, como sinais comemorativos de uma moléstia cíclica, da sezão assombradora da Terra. Passam as "chuvas do caju" em outubro, rápidas, em chuvisqueiros prestes delidos nos ares ardentes, sem deixarem traços; e pintam as caatingas, aqui, ali, por toda a parte, moqueadas de tufos pardos de árvores marcescentes, cada vez mais numerosos e maiores, lembrando cinzeiros de uma combustão abafada, sem chamas; e greta-se o chão; e abaixa-se vagarosamente o nível das cacimbas... [...] 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjh4N5rtgXvyCFu8Qjxw5HAJTDLiBHYJnoGoCmavTm8Lq8eEQSVkeoxx2gLYTrTtFPUDeyIaph_Krb5WUVykh43jvzk2Pb9ssxyiIxatzoqLVuJc3JsMEHTrEnjIUx5hEuWBTFSNNokeIXgcAxyHktQPmeBbjRjT-eAXrXlfDtbwXzL4UFErIR-JxMCL5U/s320/images.jpg


        Por fim tudo se esgota e a situação não muda. Não há probabilidade sequer de chuvas. A casca dos marizeiros não transuda, prenunciando-as. O nordeste persiste intenso, rolante, pelas chapadas, zunindo em prolongações uivadas na galhada estrepitante das caatingas e o Sol alastra, reverberando no firmamento claro, os incêndios inextinguíveis da canícula. O sertanejo, assoberbado de reveses, dobra-se afinal. [...] 

        Insulado deste modo no país que o não conhece, em luta aberta com o meio, que lhe parece haver estampado na organização e no temperamento a sua rudeza extraordinária, nômade ou mal fixo à terra, o sertanejo não tem, por bem dizer, ainda capacidade orgânica para se afeiçoar à situação mais alta.[...] 

Euclides da Cunha. Os sertões: campanha de Canudos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995. p. 148, 153-154.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 20.

Entendendo o romance:

01 – De acordo com o texto, qual o significado das palavras abaixo:

-- Transuda: transpira

-- Sezão: febre cíclica 

-- Delido: aniquilado, destruído

-- Moqueadas: queimadas, tostadas

-- Marcescentes: que murcham, secam

-- Greta-se: racha-se 

-- Marizeiros: árvores nativas do Nordeste do Brasil, de ramos espinhosos 

-- Reverberando: repercutindo 

-- Canícula: calor muito forte

-- Assoberbado: dominado, humilhado

-- Reveses: Desgraças, infortúnios

-- Situação mais alta: situação mais favorável.

02 – Como Euclides da Cunha descreve a chegada da seca no primeiro parágrafo e qual metáfora principal ele utiliza para retratar esse fenômeno natural?

      O autor descreve a seca como um processo inevitável, gradativo e encadeado, que se manifesta por meio de sinais progressivos na paisagem (chuvas rápidas que evaporam, o chão que se greta e as cacimbas que secam). Para retratar esse fenômeno, Euclides da Cunha utiliza a metáfora de uma "moléstia cíclica" (uma doença da própria Terra), comparando os sinais da seca aos sintomas de uma enfermidade assustadora que se repete periodicamente, consumindo o meio ambiente.

03 – De que forma o meio ambiente (a caatinga) reflete o estado de escassez e o calor extremo no trecho analisado? Destaque elementos do texto que comprovam essa transformação.

      A caatinga reflete a aridez extrema ao se desidratar e mudar de aparência. O autor comprova isso através de imagens visuais e sensoriais marcantes:

      Vegetação: A mata ganha tufos pardos de árvores murchas ("marcescentes"), que parecem "cinzeiros de uma combustão abafada, sem chamas";

      Sol e Vento: O Sol espalha "os incêndios inextinguíveis da canícula" (calor extremo) no céu claro, enquanto o vento "nordeste" sopra forte e contínuo, zunindo e uivando entre os galhos secos da vegetação;

      Ausência de água: O chão se fenda ("greta-se"), o nível das águas subterrâneas cai e até a própria flora para de sinalizar umidade (a casca dos marizeiros já não transuda).

04 – Qual é o impacto psicológico e físico de todo esse cenário de privação sobre o sertanejo, segundo o segundo parágrafo?

      Diante do esgotamento total dos recursos naturais e da completa falta de perspectivas de chuva, o sertanejo chega ao seu limite de resistência. Sobrecarregado por sucessivas adversidades ("assoberbado de reveses"), ele acaba se curvando ("dobra-se afinal") perante a força implacável da natureza. O texto evidencia que, apesar de sua força e rusticidade, o sertanejo é momentaneamente vencido pelo rigor extremo do clima e pela impossibilidade de sobrevivência naquelas condições.

05 – Explique a tese determinista do autor expressa no trecho: "...em luta aberta com o meio, que lhe parece haver estampado na organização e no temperamento a sua rudeza extraordinária...".

      Nesse trecho, Euclides da Cunha aplica o determinismo meio-ambiental (conceito muito influente no final do século XIX), segundo o qual o ambiente físico molda as características biológicas e psicológicas do ser humano. O autor argumenta que a convivência diária e a luta constante contra uma natureza hostil e agressiva (a caatinga árida) forjaram no sertanejo um temperamento e um corpo igualmente rústicos, severos e resistentes, "estampando" nele a própria dureza do sertão.

06 – Aponte a denúncia social e política presente no início do último parágrafo ("Insulado deste modo no país que o não conhece...") e contextualize sua importância.

      A denúncia consiste no isolamento e no desconhecimento do sertanejo por parte do restante do Brasil (especialmente pelas elites e pelo poder público do Litoral). Euclides da Cunha evidencia a existência de "dois Brasões": um litoral urbanizado e voltado para a Europa, que ignora completamente a realidade, as necessidades e a existência do povo do interior sertanejo. Essa crítica é central em Os Sertões, pois mostra que o conflito de Canudos foi alimentado pelo preconceito e pela incompreensão do Estado em relação àquela população marginalizada.

  

CONTO: CLARISSA - FRAGMENTO - ÉRICO VERÍSSIMO - COM GABARITO

 Conto: CLARISSA – Fragmento

          Érico Veríssimo

        [...] 

        -- PRRRR-PI-PI!

       Clarissa vai dar de comer às galinhas. Com a mão esquerda segura a ponta do avental, que forma um bojo fofo onde o farelo e os grãos de milho se aninham.

        Tardinha. A sombra da casa vai aos poucos avançando sobre o pátio. O céu empalidece.

        Com a mão direita Clarissa lança no ar punhados de milho e farelo, no gesto de quem semeia.

        Num cacarejar miúdo as galinhas vêm correndo, sacudindo as asas, e começam a dar bicadas a esmo, sôfregas; arranham o chão, comprimem-se, amontoam-se, disputando os grãos. No meio delas os pintinhos arrepiados e encolhidos piam desconsoladamente, perdidos no aglomerado de penas, bicos e patas.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEihXWppuEm6zghmH85mvKyinQrwh3bEuQ-c38K3_1AffP2IHU0X04mbCHeKYsRaHdT_Ezqg1jm2d58kU7OZ1c5iDkzi3d39EKb3UcD59uksZ0l-fv3Fx8Fcyb0QJxvhI6CDq2uNaIMaZ-4mRulqlqp0k_Vy0e-Po1iYK7XQKufn3GfaVQrhp9K_qDBo7hw/s320/images.jpg


        -- Não se apressem! – grita Clarissa – Tem pra todos!

        E cobre o chão de grãos dourados. Ri, com a impressão de que está jogando fora ouro, muito ouro.

        No fundo do pátio um peru preto passeia dum lado para o outro, lento, indiferente ao espetáculo tumultuoso. Por que será que não vem? Falta de apetite? Ou orgulho?

        Clarissa cantarola:

        -- P’ru! P’ru! P’ru!

        Solene como um rei, o peru continua imperturbável, enquanto as galinhas disputam o milho a bicadas violentas. Agora um galo de crista escarlate entra no grupo como um tufão, abrindo caminho à força de empurrões.

        -- Bruto – pensa Clarissa. – Um homem deve ser delicado com as mulheres.

        Oh! Mas o galo não entende a língua dos homens. E no mundo do galinheiro decerto não há etiqueta.

        Clarissa acocora-se. “Acabou-se o que era doce, quem comeu arregalou-se”. Agora, ela pode olhar tranquilamente toda a bicharia do quintal: já cumpriu sua obrigação.

        Que cara engraçada têm as galinhas! Dois olhinhos miúdos como contas, o bico, as penas, os pés. E por que será que chamam pé-de-galinha às rugas que as pessoas que estão envelhecendo têm nos cantos dos olhos? Por que será também que quando o céu está cheio de nuvens finas, tremidas e compridas, transparentes como um véu, dizem que o céu está cheio de rabos-de-galo? Tudo na vida é tão engraçado ...

                              Érico Veríssimo.

Fonte: Língua Portuguesa Palavras. 5ª série. Hermínio Geraldo Sargentim. IBEP. 1ª edição. São Paulo, 2002. p. 124.

Entendendo o conto:

01 – Como as atitudes e os pensamentos de Clarissa ao longo do fragmento revelam a transição entre a infância e a juventude, destacando a sua inocência e imaginação?

      A inocência e a imaginação de Clarissa transparecem na forma poética e lúdica como ela realiza uma tarefa simples do cotidiano. Ela fantasia que o milho jogado é "ouro, muito ouro", compara o peru a um "rei" e projeta sentimentos humanos nos animais (questiona se o peru não come por "orgulho" e julga o galo por não ser "delicado com as mulheres"). Essas reflexões mostram a mente de uma jovem imaginativa que observa o mundo ao seu redor com fascínio, curiosidade e um olhar puro, ainda muito ligado ao universo infantil.

02 – No trecho em que o galo intervém no grupo de galinhas ("-- Bruto – pensa Clarissa. – Um homem deve ser delicado com as mulheres."), ocorre o recurso estilístico da antropomorfização. Explique como esse recurso é utilizado e qual é a reflexão que a personagem faz logo em seguida.

      A antropomorfização ocorre quando Clarissa atribui comportamentos e normas morais humanas ao galo, julgando a violência de suas atitudes na disputa pelo milho como se ele fosse um homem que deveria ser "delicado com as mulheres". Logo em seguida, ela quebra essa projeção ao tomar consciência da realidade: percebe que "o galo não entende a língua dos homens" e que no "mundo do galinheiro decerto não há etiqueta", reconhecendo a diferença entre as convenções sociais humanas e o instinto animal.

03 – O texto de Erico Verissimo destaca-se pela riqueza de imagens sensoriais e onomatopeias. Identifique dois exemplos do fragmento — um auditivo e um visual — e explique como eles contribuem para a construção da cena.

      Exemplo Auditivo: A onomatopeia do início ("-- PRRRR-PI-PI!" e "P’ru! P’ru! P’ru!") e os verbos de som ("cacarejar miúdo", "piam desconsoladamente"). Esse recurso reproduz os ruídos do quintal e o dinamismo da comunicação de Clarissa com as aves.

      Exemplo Visual: A descrição das cores e do ambiente ("sombras da casa", "grãos dourados", "galo de crista escarlate").

      Esses elementos enriquecem o texto ao criar uma atmosfera realista e vibrante, permitindo que o leitor "ouça" o tumulto do galinheiro e "veja" o contraste de cores ao entardecer no pátio.

04 – No final do texto, Clarissa reflete sobre o uso de expressões populares como "pé-de-galinha" e "rabos-de-galo". O que essas reflexões revelam sobre a relação da personagem com a linguagem e a observação da vida?

      Essas reflexões revelam a postura investigativa e poética de Clarissa perante o mundo. Em vez de aceitar as metáforas populares de forma automática, ela para, para analisar a origem e a estranheza das associações entre elementos da natureza (as aves) e a vida humana/fenômenos naturais (as rugas dos olhos e o formato das nuvens no céu). A conclusão de que "tudo na vida é tão engraçado" demonstra sua capacidade de se encantar com a linguagem e com as peculiaridades do cotidiano.

05 – Como o tempo cronológico e a ambientação espacial são apresentados no início do fragmento e de que maneira eles influenciam o ritmo da narrativa?

      O tempo cronológico é marcado pelo final da tarde ("Tardinha", "O céu empalidece", "A sombra da casa vai aos poucos avançando"), e o espaço é o pátio/quintal de uma casa rural ou interiorana. Essa ambientação cria um ritmo inicial calmo e contemplativo que é momentaneamente interrompido pelo "espetáculo tumultuoso" das galinhas buscando o alimento. À medida que a tarefa termina, o ritmo volta a desacelerar, permitindo que a narrativa acompanhe o estado de tranquilidade e reflexão de Clarissa ("Clarissa acocora-se [...] já cumpriu sua obrigação").

 

 

CONTO: PITU CONVERSA COM OS PEIXES - ELIAS JOSÉ - COM GABARITO

 Conto: PITU conversa com os peixes

          Elias José

        Vocês quatro são meus amigos. Gosto de trocar a água, colocar um pouco de comida, pôr a planta aquática para dar mais beleza pra vocês e pro aquário. A água está limpinha, agora, não é mesmo? Daqui de fora parece até que não existe vidro, o aquário está limpinho. Eu gosto muito de vocês quatro, muito mesmo. Minha mãe fica implicando, diz que eu, com esta minha mania de ficar muito tempo olhando vocês, acabo pondo mau-olho. Já meu pai acha que vou pôr é quebranto, pois olho com muito amor. Se eu pudesse, entrava dentro do aquário e ficava nadando com vocês. Mas olhem o meu tamanho, não dá pé. eu também gosto de nadar, mas quando vou aprender a virar estas piruetas todas como vocês? Acho que nunca. Gente não sabe nadar como os peixes, o que é uma pena! Nem tem graça o corpo de gente nas águas. Peixe, sim, é que nada bonito. 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgp7PlZ57pwzLr7aZq3nE3rc6cxzyAmALGVXj3dyY8EDJWosi7NutjfiqpORTFr4NOGSRIgeQ1hKFY-TYGxQMEXJTdgfSJRp-179nj9xe4K_72WjW-xTepivbYGwhitzfvj3sQmjl0KWUy23o4GbIEAk2RgofusI33ZsXGtOWBvwRYEE5fiz2WJhfgjR5Q/s1600/images.jpg


Fico tempo observando os lambaris do Corguinho e eles são muito ágeis, vão pra lá e pra cá, mexem na terra, se escondem nos ramos, mergulham. Mas não fiquem tristes porque falo deles, vocês são bem mais bonitos. A cor dos lambaris é meio prateada, bate o sol e mistura com a água, fica muito bonito. Mas vocês dois vermelhinhos e vocês outros dois, pretinhos, são muito mais bonitinhos. Quando os quatro estão se mexendo na aquário e as cores se misturando, fica mais bonito que arco-íris. E arco-íris é uma coisa maravilhosa! Mais bonito mesmo, só vocês quatro aí. Engraçado, tem um menino novo no Grupo, que veio da escola da roça, que não fala arco-íris e, sim, arco-da-velha. Fica parecendo coisa triste, vocês não acham? Se fosse arco-da-menina ainda passava. O arco-íris, como tudo que é colorido, é tão bonito. Não é mesmo bonito? Engraçado, peixe devia falar, responder às perguntas da gente. então, eu ficaria sabendo se vocês gostam mesmo de ficar presos aí dentro. Dona Cláudia diz que tem dó de peixes e pássaros presos. Que os peixes foram feitos para o tamanho do mar, que até os peixes de rio ela acha triste, quanto mais os de aquário. Passarinho, então, a maldade é maior, porque o mundo todo está aberto para eles. Papai, quando ouviu dona Cláudia falar isto, disse que ela estava querendo fazer os animais sentirem como gente e isto era besteira. Engraçado ele falar assim, porque também ele não gosta que a gente prende passarinho. O louro ele não importou, mas nunca deixou a gente prender em gaiola. Com peixe ele não deve se importar, pois não fala nada de mal ou de bem de vocês. Minha mãe disse que eu podia ficar com vocês, mas ela não tinha tempo de cuidar, trocar água, dar comida e tudo. Até que quando esqueço, ela faz, até sem reclamar. Acho que é porque ela também gosta muito de vocês. Sempre ela também para e fica olhando muito tempo ou fica batendo de fora quando algum parece dormir. Ela até ficou triste quando os dois amiguinhos de vocês morreram. Ela vive me falando para não dar muita comida porque a barriguinha de vocês é pequena e explode e, então, adeus peixinhos queridos.

Elias José. As curtições de Pitu. São Paulo: Melhoramentos, em convênio com o Instituto Nacional do Livro, 1976.

Fonte: Língua Portuguesa Palavras. 5ª série. Hermínio Geraldo Sargentim. IBEP. 1ª edição. São Paulo, 2002. p. 140.

Entendendo o conto:

01 – O conto é estruturado predominantemente como um monólogo dirigido aos peixes do aquário. Explique de que forma o foco narrativo em 1ª pessoa e a ausência de resposta dos interlocutores contribuem para caracterizar a intimidade e a imaginação do personagem Pitu.

      O foco narrativo em 1ª pessoa coloca o leitor diretamente em contato com o fluxo de pensamentos e sentimentos de Pitu. Como seus interlocutores (os peixes) são seres inanimados à linguagem humana e não respondem, a conversa se torna um monólogo subjetivo. Esse recurso explicita a afetuosidade, a sensibilidade e a rica imaginação do garoto, que projeta em seus animais de estimação sentimentos, cúmplices de dúvidas existenciais e reflexões cotidianas sobre sua família e o mundo.

02 – No trecho, Pitu menciona a opinião de Dona Cláudia e a reação de seu pai sobre a criação de peixes e pássaros presos. Compare a visão de Dona Cláudia e a do pai de Pitu a respeito da relação entre seres humanos e animais.

      Dona Cláudia adota uma postura empática e de antropomorfização dos animais, acreditando que mantê-los presos os priva de sua natureza e liberdade ("os peixes foram feitos para o tamanho do mar"). Já o pai de Pitu assume uma postura mais pragmática e racional, alegando que é "besteira" querer fazer com que os animais sintam e raciocinem como gente. Contudo, o texto sugere uma contradição no pai, pois, embora critique a ideia de Dona Cláudia, ele próprio proíbe a prisão de pássaros em gaiolas.

03 – O texto do conto utiliza uma linguagem bastante informal e espontânea. Identifique dois exemplos de expressões coloquiais ou construções típicas da linguagem oral presentes no texto e explique qual efeito elas produzem na narrativa.

      Dois exemplos de marcas de oralidade são:

      Expressões e construções populares: "não dá pé" (indicando limitação física/tamanho), "pôr mau-olho" ou "quebranto", e "Gente não sabe nadar..." (omissão do artigo definido antes do substantivo);

      Repetição da conjunção e advérbio interrogativo: O uso frequente de "Engraçado..." e de perguntas retóricas para conduzir o próprio raciocínio ("vocês não acham?", "Não é mesmo bonito?").

      Esses recursos conferem verossimilhança ao texto, aproximando o registro do narrador-personagem da fala natural de uma criança brasileira.

04 – Pitu reflete sobre a expressão usada por um novo colega da escola ao se referir ao arco-íris: "Engraçado, tem um menino novo no Grupo, que veio da escola da roça, que não fala arco-íris e, sim, arco-da-velha." O que esse trecho revela sobre a variação linguística e sobre a percepção poética do garoto?

      O trecho evidencia o fenômeno da variação linguística regional e cultural (o termo "arco-da-velha", trazido pelo menino que veio da roça). Ao mesmo tempo, revela a sensibilidade poética de Pitu, que analisa a carga semântica e emocional das palavras: para ele, a palavra "velha" traz uma conotação triste para algo tão bonito e colorido quanto o fenômeno do arco-íris, sugerindo que "arco-da-menina" seria um nome mais adequado.

05 – Embora a mãe de Pitu afirme inicialmente que não tem tempo para cuidar dos peixes, suas atitudes ao longo do conto demonstram o contrário. Como a conduta da mãe revela seu afeto indireto pelos animais?

      A mãe demonstra afeto pelos peixes de forma indireta por meio de ações de cuidado e preocupação: ela assume a limpeza do aquário e a alimentação quando o filho se esquece; para diante do aquário para observá-los; bate no vidro para checar se estão bem quando parecem dormir; demonstra tristeza genuína quando dois peixes morreram e orienta carinhosamente Pitu a não exagerar na ração para não machucar os animais ("a barriguinha de vocês é pequena e explode").

 

domingo, 9 de agosto de 2026

TEXTOS: DISSERTATIVOS ARGUMENTATIVOS - COM GABARITO

 Textos: Dissertativos Argumentativos

 

        Os textos dissertativos argumentativos procuram emitir uma visão pessoal de questões relevantes nos mais diversos campos: economia, política, comportamento, cultura, psicologia, educação, saúde, ecologia etc. Pode-se dizer que esses textos querem convencer os leitores, muitas vezes contrapondo-se ao senso comum, isto é, àquilo que todo mundo repete sem necessariamente analisar.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhbS9ZSzlB0HD9_Tit1Kx2CnTVWgtuvw1Z85lf3wCjxf-cqG39Q0solPU4t_g1v9LlqspRFSfiXrrEHKXwD0LITu3UXXXmWbhHM5Ke2zE7zNb-kt09xDjnB0gtZHmWr9XSowDjZVTwXWJOzxbat9GPxgoF55SdWjkQtbzM98i1myZSc1N44usYbfNhpAbw/s320/images.jpg 


        O texto dissertativo deve ser bem estruturado e é por isso que se recomenda que a redação siga, em linhas gerais, o esquema abaixo, dividido em três partes.

        Introdução – 1º parágrafo: Apresentação do tema e da tese.

        Desenvolvimento (argumentação) – 2º ou 3º parágrafos centrais: comprovação da tese por meio de comentários e análises sustentados por dados estatísticos, exemplos, informações históricas, geográficas e científicas.

        Conclusão – último parágrafo: Finalização da discussão, de modo a sintetizar os aspectos discutidos e reafirmar a tese. Dependendo do tema, é possível que na conclusão se anunciem propostas de ação convenientes.

 

Entendendo o texto:

01 – É aconselhável empregar a 1ª pessoa do singular?

      Não. A dissertação procura convencer o leitor. Para isso, as opiniões só valem se forem comprovadas, de modo que pareçam “universalmente” válidas. Assim, não interessa tanto quem emite as opiniões, mas os argumentos que é capaz de apresentar. Daí ser preferível não utilizar o eu, mas uma linguagem mais impessoal.

 

02 – Pode-se empregar a 1ª pessoa do plural?

      Sim. O emprego de nós se justifica quando se refere a um conjunto adequado ao tema e suficientemente compreensível no contexto: nós, pode se referir aos brasileiros, a toda a humanidade, aos jovens. Não cai bem usar o nós para se referir a um grupo muito restrito, específico, como “nós, que moramos na Zona Oeste da cidade”, a não ser que esse grupo seja central para o tema da dissertação.

 

03 – A linguagem precisa ser formal?

      Em termos. A linguagem da dissertação deve estar de acordo com as normas mais importantes da gramática (grafia, acentuação, pontuação, concordância, regência), de modo a não comprometer o entendimento do leitor nem depor contra o texto (quem confia em um autor que erra constantemente a grafia das palavras?). por outro lado, não é preciso exagerar: é péssimo hábito usar palavras desconhecidas apenas porque soam difíceis, empregar termos técnicos sem necessidade, adotar uma linguagem “barroca”, com frases longas e cheias de inversões e intercalações. Tudo o que dificulta inutilmente o entendimento do texto e parece simples enfeite deve ser evitado.

 

04 – Posso inventar dados e exemplos?

      Não. Em hipótese nenhuma devem ser incluídos dados e exemplos que não correspondam à realidade. A dissertação, como qualquer outro texto opinativo argumentativo, não pode, sob pena de perder a credibilidade, falsificar informações para comprovar um ponto de vista.

 

05 – É aceitável usar frases de terceiros?

      Sim. A citação de filósofos, cientistas sociais, artistas, psicólogos, médicos é uma ótima estratégia de convencimento, desde que inclua no texto a voz de personalidades reconhecidamente autorizadas a opinar sobre o assunto. Mas não exagere: não faça de sua dissertação uma simples colagem de frases de outro, deixando de emitir sua opinião.

 

06 – Posso propor perguntas no texto?

      Sim. Fazer perguntas pode ser uma boa estratégia tanto na introdução quanto no desenvolvimento ou na conclusão. A resposta nem precisa vir imediatamente na sequência, mas o texto deve dar pistas para que o leitor consiga, ao final, chegar a uma resposta.

 

07 – É aceitável empregar linguagem metafórica?

      Sim. Desde que o leitor consiga entender as metáforas e outras figuras de linguagem empregadas na dissertação, é possível dar sabor à linguagem dissertativa por meio da conotação. A ironia é igualmente uma arma poderosa na crítica.

 

08 – Pode-se defender mais de uma opinião simultaneamente?

      Em termos. O texto dissertativo não pode ser incoerente. Não se deve afirmar que existe um problema e depois chegar a uma conclusão contrária. Mas é possível mostrar que, em certas circunstâncias, uma ideia é verdadeira, enquanto em outras circunstâncias, ela deixa de o ser. Um fato pode ser vantajoso num certo aspecto, mas representa uma desvantagem em outros. Nesses casos, o importante é discutir quais são essas circunstâncias e quais são esses aspectos.

 

09 – É aconselhável analisar o tema sob mais de um ângulo?

      Sim. É muito importante perceber que a maioria dos temas permite análises distintas, dependendo da perspectiva que se adote. É enriquecedor que a dissertação consiga — sem cair na contradição nem no simples impasse — revelar a perspectiva dos diferentes envolvidos (médicos/pacientes; governo/povo; jovens/pais; economistas/sindicalistas etc.) em relação ao tema discutido.

 

 

CHARGE: O CONSTANTE DIÁLOGO - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - COM GABARITO

 O constante diálogo

 


Há tantos diálogos

Diálogo com o ser amado
                     o semelhante
                     o diferente
                     o indiferente
                     o oposto
                     o adversário
                     o surdo-mudo
                     o possesso
                     o irracional
                     o vegetal
                     o mineral
                     o inominado

Diálogo consigo mesmo
             com a noite
             com os astros
             com os mortos
             com as ideias
             com o sonho
             com o passado
             com o mais que futuro

Escolhe teu diálogo
             e
tua melhor palavra
             ou
teu melhor silêncio
Mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos.




 

    Carlos Drummond de Andrade.

Entendendo o diálogo:

01 – De acordo com a primeira estrofe, qual é a característica fundamental do diálogo na experiência humana?

a) Sua natureza puramente afetiva.

b) Sua limitação aos seres vivos.

c) Sua multiplicidade e abrangência.

d) Sua dependência da fala oral.

 

02 – Na segunda seção do poema, o 'Diálogo consigo mesmo' é expandido para incluir elementos como a noite e os astros. O que essa associação sugere?

a) A fusão entre o eu e o cosmos.

b) O desprezo pelas relações sociais.

c) O medo do desconhecido e da morte.

d) A solidão absoluta do indivíduo.

 

03 – O que o eu lírico propõe ao leitor na estrofe que começa com 'Escolhe teu diálogo'?

a) O exercício da autonomia e consciência.

b) A priorização da fala sobre o silêncio.

c) A busca por respostas definitivas.

d) A rejeição de conversas com adversários.

 

04 – Qual é a função do termo 'melhor' aplicado tanto à palavra quanto ao silêncio?

a) Indicar a importância da qualidade ética.

b) Sugerir que a palavra supera o silêncio.

c) Expressar a dificuldade de se comunicar.

d) Apontar para um julgamento alheio.

 

05 – Como os dois últimos versos — 'Mesmo no silêncio e com o silêncio / dialogamos' — encerram a tese do poema?

a) Criticando a falta de comunicação verbal.

b) Afirmando a impossibilidade do não-diálogo.

c) Sugerindo que o diálogo é um fardo pesado.

d) Definindo o silêncio como um fim em si.