domingo, 27 de junho de 2021

ENTREVISTA: "O JOVEM É ESPECIALMENTE SUSCETÍVEL AOS APELOS DO CONSUMISMO" - THAIS PAIVA - COM GABARITO

 Entrevista: O jovem é especialmente suscetível aos apelos do consumismo

                    Especialista fala sobre as relações entre juventude e consumo desenfreado

Thais Paiva

24 de janeiro de 2017

        Prazer, sucesso, felicidade, alívio. Todas essas sensações costumam surgir como consequência da realização de um objetivo ou meta. No entanto, são também esses sentimentos que costumam respaldar o ato de comprar compulsivamente e, portanto, explorados pelo consumismo, modo de vida orientado para uma crescente propensão ao consumo de bens e serviços, em geral, supérfluos.

        Autora do livro O prazer das compras – o consumismo no mundo contemporâneo (Ed. Moderna), Maria Helena Pires Martins fala sobre a importância de debater esse tema com os jovens em fase escolar, se valendo de diferentes elementos do cotidiano deles, tais como o acesso a smartphones, moda e funk ostentação.

        Na entrevista abaixo, a especialista falou sobre a diferença entre necessidades reais e supérfluas, os reflexos do consumo desenfreado e a relevância de formar cidadãos que sejam consumidores responsáveis.

        Carta Educação: Em que contexto histórico a sociedade começou a ganhar ares consumistas?

        Maria Helena Martins: O consumo sempre existiu: consumimos alimentos, oxigênio, água, etc. Isso é essencial para a manutenção da vida. O consumismo é um fenômeno econômico e social que apareceu com maior ênfase após os anos 1960. É definido como sendo uma ideologia que encoraja a compra de produtos e serviços em quantidade sempre maior. Para manter esse nível de consumo, a indústria instituiu o que chamamos de “obsolescência programada”, ou seja, a introdução planejada de aperfeiçoamentos nos produtos para que sejam substituídos pelos modelos mais novos. Com isso, o consumidor descarta o produto que já tem, e que ainda funciona para os fins para os quais foi criado, e deseja o produto mais aperfeiçoado. O ciclo do desejo e a vontade de comprar são mantidos ativos dessa forma.

        CE: Como a juventude se relaciona com esse contexto? Quais são os principais fatores que levam o jovem a querer comprar cada vez mais?

        MHM: O jovem é especialmente suscetível aos apelos do consumismo. As mídias, tanto as mais antigas, como revistas, jornais, televisão, quanto as novas, difundidas pela internet, incluindo as mídias sociais, mostram propagandas de todos os tipos de produtos. Além disso, os blogs apresentam modos de vida considerados “desejáveis” pelos seus desenvolvedores, que ganham para mostrar certos produtos. O aval desses formadores de opinião tornou-se extremamente importante para os jovens que querem projetar uma determinada imagem. Por isso, tanto a moda adotada pelo grupo ao qual deseja pertencer, quanto o grupo em si, são importantes na formação desses valores consumistas.

        CE: Também podemos dizer que, hoje, os pais – mais ausentes – tentam recompensar essa falta de tempo compartilhado com itens de consumo?

        MHM: Sim, a família deveria ser o primeiro lugar de aprendizado do consumo consciente. É evidente que crianças e mesmo os adolescentes mais jovens não têm o autocontrole suficiente para frustrar seus desejos de consumo. Caberia aos adultos responsáveis da família discutir o que são as necessidades de sobrevivência e o que é supérfluo; propor o reaproveitamento de vários itens e a reciclagem de outros; apontar as consequências do consumismo para a sobrevivência humana no planeta; conversar sobre outros modos de se ter satisfação que não seja o consumo desenfreado. Mas os pais teriam, também, de ser educados dentro dessa perspectiva.

        CE: Muitas manifestações culturais como o funk fazem ode à ostentação. Isso é reflexo de uma sociedade que valoriza a posse?

        MHM: Não podemos nos esquecer das origens do funk carioca: as favelas do Rio de Janeiro. O funk ostentação, criado em São Paulo por volta de 2008, enfatiza, em suas letras, o consumismo, a conquista de bens materiais e a ambição de sair das favelas e conquistar seus objetivos de riqueza. Para essa parcela da população, em geral invisível, a única maneira de ser é por meio dos bens materiais. As ideias difundidas pelo funk ostentação foram abraçadas pela “nova classe média”, que ascendeu economicamente a partir de 2005 e mudou significativamente seu padrão de consumo.

        CE: Em contrapartida, temos uma série de serviços que já apostam em um consumo colaborativo, desde aluguel de roupas até serviços de caronas. Estamos começando a repensar nossa relação com o consumo e o desperdício?

        MHM: Sim, estamos começando a pensar nossa relação com o consumo e desperdício, por isso a educação é tão importante: antes de satisfazer todas as nossas vontades, precisamos pensar nas consequências de nossas ações para o futuro do planeta e para as gerações futuras. Hoje, já temos o uso compartilhado de bicicletas. Não tardará a chegar o uso compartilhado de carros, principalmente os elétricos. Precisamos de políticas públicas que enfatizem a necessidade do consumo consciente, do reuso, da transformação de objetos em matéria-prima para outros objetos, do descarte apropriado de pilhas, baterias, aparelhos eletrônicos, lâmpadas fluorescentes, tintas, pneus, óleo, além de políticas que incentivassem o uso de energia solar e eólica não só em indústrias, mas também nas residências, com um desconto do IPTU, por exemplo.

        CE: Como o professor pode trabalhar o tema do consumismo em sala de aula? Como educar para termos consumidores responsáveis?

        MHM: O trabalho da escola é extremamente importante para a conscientização dos alunos e de suas famílias. Devemos lembrar que as questões éticas envolvem sempre a ação. Por isso, é necessário que toda a escola esteja envolvida no programa de consumo consciente: a economia da água com torneiras que fecham automaticamente; o reuso de água de chuva para a limpeza da escola; o uso de luz de presença que acendem e apagam a partir do movimento; o uso e reuso adequado de papel, de livros e de cadernos; a conservação das salas de aula; o descarte adequado do lixo orgânico e do lixo reciclável; sistema de devolução de uniformes que não servem mais e podem ser reaproveitados por outros alunos menores. Cada escola e professor precisa agir dentro da realidade de sua comunidade e sala de aula. A discussão com os alunos pode levantar muitas maneiras de reaproveitamento de materiais que sejam significativos para eles.

        A mudança de hábitos exige a prática cotidiana das ações para que elas se transformem em novos hábitos mais adequados à sociedade contemporânea. Só o conhecimento teórico do que deve ser feito não é eficiente para que a ação se torne realidade. No caso do consumo, principalmente, em que precisamos dizer não para a satisfação de algumas de nossas vontades, temos de estar inspirados por princípios mais altos, como a nossa responsabilidade pelas gerações futuras. Temos de nos perguntar continuamente de que realmente precisamos para ter uma vida boa e digna, e lembrar que nenhum objeto exterior a nós vai nos trazer felicidade e um sentido de autorrealização.

PAIVA, Thais. “O jovem é especialmente suscetível aos apelos do consumismo”. Carta Educação, São Paulo, 24 jan. 2017. Disponível em: https://bit.ly/2koNMQc. Acesso em: 29 set. 2018.

Fonte: Livro – Tecendo Linguagens – Língua Portuguesa – 8º ano – Ensino Fundamental – IBEP 5ª edição – São Paulo, 2018, p. 237-240.

Fonte da imagem - https://www.google.com/url?sa=i&url=https%3A%2F%2Fwww.sbie.com.br%2Fblog%2Fentenda-ligacao-entre-as-emocoes-e-o-consumismo-exagerado-dos-jovens%2F&psig=AOvVaw0KZv23eAKn83zoi08ce71W&ust=1624927464227000&source=images&cd=vfe&ved=0CAoQjRxqFwoTCMDqueeMufECFQAAAAAdAAAAABAD


Entendendo a entrevista:

01 – Releia o título e o subtítulo:

        “O jovem é especialmente suscetível aos apelos do consumismo”

        Especialista fala sobre as relações entre juventude e consumo desenfreado

a)   Por que o título da entrevista aparece entre aspas? Como foi elaborado?

Aparece entre aspas porque é parte da fala da entrevista. Ele foi elaborado usando o recurso de citação, embora não haja referência direta a entrevista, como o verbo de elocução e seu nome.

b)   O que o subtítulo antecipa em relação à entrevista?

Antecipa o tema abordado na entrevista com a especialista.

02 – Releia o primeiro parágrafo da entrevista e responda:

a)   Quais situações da sua vida promovem “prazer, sucesso, felicidade e alívio”?

Resposta pessoal do aluno.

b)   Você já sentiu essas sensações ao comprar algo? Explique.

Resposta pessoal do aluno.

03 – No segundo parágrafo é feita a apresentação e a contextualização da entrevistada. Responda:

a)   Quem é a entrevistada?

A pesquisadora Maria Helena Pires Martins.

b)   Por que ela foi convidada pela Carta Educação para tratar de consumismo?

Porque é autora do livro O prazer das compras – o consumismo no mundo contemporâneo (Ed. Moderna).

c)   Do que seu livro trata?

Trata da importância do debate sobre consumismo com os jovens em fase escolar com base nos diferentes elementos do cotidiano deles, como o acesso a smartphones, moda e funk ostentação.

d)   De quais temas e assuntos a entrevistada abordou?

Na entrevista, a especialista falou sobre a diferença entre necessidades reais e supérfluas, os reflexos do consumo desenfreado e a relevância de formar cidadãos que sejam consumidores responsáveis.

04 – Durante a entrevista, a autora conceituou alguns termos. Responda:

a)   Qual é a diferença entre consumo e consumismo, segundo a autora?

O consumo sempre existiu em decorrência da necessidade de subsistir, sendo parte essencial para a manutenção da vida. O consumismo é um fenômeno econômico e social, uma ideologia que encoraja a compra de produtos e serviços em quantidade sempre maior do que a necessidade.

b)   Como surgiu a ideologia do consumismo? Qual mecanismo foi criado pela indústria que desencadeou esse fenômeno social?

Surgiu em meados de 1960, quando as empresas, para aumentar a produção e seus lucros, criou o mecanismo de “obsolescência programada”, introdução planejada de aperfeiçoamentos nos produtos para que sejam substituídos pelos modelos mais novos.

c)   Qual foi a consequência desse mecanismo das empresas vigente ainda no século XXI?

O consumidor descarta o produto que já tem por outro mais aperfeiçoado; dessa forma, alimenta o ciclo de vontade e desejo daquilo que, realmente, não tem necessidade.

d)   Você já tinha percebido esse mecanismo em relação aos eletroeletrônicos pessoais e de sua casa? Explique.

Resposta pessoal do aluno.

05 – O principal aspecto tratado na entrevista é a relação dos jovens com o consumismo. Responda:

a)   Segundo a autora, o que leva os jovens ao consumismo?

Os jovens são muitos suscetíveis aos apelos de consumo das mídias, tanto as mais tradicionais, quanto as difundidas pela internet que mostram propagandas de todos os tipos de produto.

b)   Como é a influência dos blogueiros/vloggers em relação ao consumo dos jovens, segundo a entrevista? Explique.

Os blogs/vlogs apresentam modos de vida considerados “desejáveis” e têm patrocínio para anunciar certos produtos. A consequência disso é que o aval desses influenciadores digitais tem se tornado essencial para os jovens projetarem uma determinada imagem e adotarem a moda desse grupo do qual se identificam.

c)   Você costuma seguir esses influenciadores digitais? Eles influenciam ou já influenciaram suas escolhas de consumo? Comente.

Resposta pessoal do aluno.

06 – De acordo com a autora, qual deve ser o papel da família na educação para o consumo?

      Segundo a autora, os adultos responsáveis da família precisariam também educar-se para o consumo consciente.

07 – Que relação a autora faz entre a ascensão do “funk ostentação” e os padrões de consumo atuais? Você concorda ou discorda dela? Explique.

      Segundo a autora, o funk ostentação enfatiza, em suas letras, o consumismo, a conquista de bens materiais e a ambição em conquistar seus objetivos de riqueza. Esses valores culturais disseminados nas músicas têm como consequência a ideia de que a pessoa só se torna “alguém” se consumir determinados produtos e marcas. A segunda resposta pessoal do aluno.

08 – No que consiste o consumo colaborativo? Você já tinha ouvido falar nessa forma de consumo? O que achou dessa ideia?

      O consumo colaborativo consiste em compartilhar carros, bicicletas, espaços de trabalho e aparelhos eletrônicos. A segunda resposta pessoal do aluno.

09 – Reproduza a tabela abaixo e preencha-a com as propostas apresentadas pela autora em relação ao consumo consciente nas escolas:

·        Água: Troca de torneiras por aquelas que fecham automaticamente; reuso de água de chuva para a limpeza da escola.

·        Energia elétrica: Instalar luz de presença, que acende e apaga a partir do movimento.

·        Papel: Uso e reuso adequado de papel, livros e cadernos.

·        Descarte de lixo orgânico: Descarte adequado do lixo orgânico, separado do reciclável.

·        Descarte de lixo reciclável: Separação do lixo reciclável e encaminhamento da coleta seletiva.

·        Uniformes: Sistema de devolução de uniformes que não servem mais e podem ser reaproveitados por outros alunos menores.

 

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