terça-feira, 2 de junho de 2026

CORDEL: A MULHER QUE MAIS AMEI - FRAGMENTO - PATATIVA DO ASSARÉ - COM GABARITO

 Cordel: A Mulher Que Mais Amei – Fragmento

           Patativa do Assaré

Era um modelo perfeito 
A mulher que mais amei, 
Linda e simpática de um jeito 
Que eu mesmo dizer não sei. 
Era bela, muito bela; 
Para comparar com ela, 
Outra coisa eu não arranjo 
E por isso tenho dito 
Que se anjo é mesmo bonito, 
Era o retrato dum anjo.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhGU6ezcijxL5acd4s2uGVQysE_kIkpOXxBGBplDyjdEFJ498tmhiGrBfa398m_gBreBZZ988mk8R__k3i3R20VFN2dJtUNtLZVBIUAEPHhx9aBhbaWXXEGQGNMEjxUyRI0_APsDKqrfq-aedLl0dRakOMuOZH5FD1wRtnIn1YCXxDkVECeTwtOgTkTCX8/s1600/PATATIVA.jpg


Sei que alguém não me acredita, 
Mas eu digo com razão, 
Foi a mulher mais bonita 
De cima de nosso chão; 
Era mesmo de encomenda 
E do amor daquela prenda 
Eu fui o merecedor, 
Eu era mesmo sozinho 
Dono de todo carinho 

Daquele anjo encantador.

Era bem firme a donzela, 

Só em mim vivia pensando. 
Quando eu olhava ela, 
Ela já estava me olhando. 
Para a gente conversar 
Quando eu não ia, ela vinha, 
Um do outro sempre bem perto 
Nosso amor dava tão certo 
Quem nem faca na bainha.

E por sorte ou por capricho, 

Eu tinha prata, ouro e cobre. 
Dinheiro em mim era lixo 
Em casa de gente pobre. 
Nós nunca perdíamos ato 
De cinema e de teatro 
De drama e mais diversão, 
Não faltava coisa alguma, 
As notas eu tinha de ruma 
Para nós andar de avião.

Meu grande contentamento, 
Não havia mais maior 
E nossos dois pensamentos 
Pensava uma coisa só. 
Para desfrutar a minha vida 
Perto de minha queria 
Eu não poupava dinheiro. 
Tanta sorte nós tivemos 
Que muitas viagens fizemos 
Nas terras do estrangeiro.

[...]

Era boa a nossa sorte 
E n]ao mudava um segundo 
Ninguém pensava na morte 
E o céu era aqui no mundo. 
Na refeição nós comia 
Das melhores iguarias 
Sem falar de carne e arroz 
E por isso muita gente 
Ficava rangendo os dentes 
Com ciúmes de nós dois.

Foi uma coisa badeja 
A vida que eu desfrutei, 
Mas para quem tiver inveja 
Dessa vida que levei 
Com tanta felicidade, 
Eu vou dizer a verdade, 
Pois não engano ninguém. 
Aquele anjinho risonho 
Eu vi foi durante um sonho; 
Mulher nunca me quis bem!

A história não foi verdade, 
Todo sonho é mentiroso 
Aquela felicidade 
De tanto luxo e de gozo 
Sem o menor sacrifício, 
Foi negócio fictício, 
Não foi coisa verdadeira. 
Eu fiquei dando o cavaco: 
“Este alimento fraco 
Só dá para sonhar besteira.”

De noite eu tinha jantado 
Um mucunzá sem tempero 
E acordei alvoroçado 
Sem mulher e sem dinheiro; 
Ainda reparei bem 
Para vê se via alguém 
De junto de minha rede 
Mas, em vez de tudo aquilo 
Só ouvi cantando o grilo 
Nos buracos da parede.

Quando acordei estava só 
Sem ter ninguém do meu lado, 
Era muito mais melhor 
Que eu não tivesse sonhado. 
Quem já vai no fim da estrada 
Levando a carga pesada 
De sofrimento sem fim, 
Doente, cansado e fraco 
Vem um sonho enchendo o saco 
Piorar quem já está ruim.”

Patativa do Assaré. In: Hélder Pinheiro e Ana Cristina M. Lúcio. Cordel na sala de aula. São Paulo, Duas Cidades, 2001.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 185-187.

Entendendo o cordel:

01 – Nos dois primeiros estrofes, o eu lírico faz uma descrição detalhada da aparência da mulher amada. Que recurso comparativo ele utiliza para expressar essa beleza e como ele define a reciprocidade desse amor?

      O eu lírico compara a mulher a um anjo, afirmando que ela era o "retrato dum anjo" e a criatura mais bonita "de cima de nosso chão". Quanto à reciprocidade, ele deixa claro que o sentimento era mútuo e exclusivo, pois afirma ter sido o único merecedor e "dono de todo carinho daquele anjo encantador".

02 – No terceiro estrofe, o poeta recorre a uma metáfora popular e a descrições cotidianas para explicar a sintonia do casal. Explique a metáfora utilizada e como era a dinâmica de comunicação entre eles.

      A sintonia do casal é coroada com a metáfora "Nem faca na bainha", que expressa um encaixe perfeito, ou seja, que eles combinavam perfeitamente. A dinâmica de comunicação era marcada pela busca mútua e atenção constante: quando se olhavam, já havia reciprocidade no olhar e, se um não podia ir conversar, o outro tomava a iniciativa de ir ao seu encontro.

03 – O eu lírico descreve uma vida de extrema riqueza e ostentação. Quais são os luxos e prazeres mencionados por ele que contrastam drasticamente com a realidade da maioria das pessoas?

      Ele menciona possuir "prata, ouro e cobre" em abundância, afirmando que o dinheiro em suas mãos era tanto que parecia "lixo em casa de gente pobre" e que tinha notas "de ruma". Entre os luxos usufruídos pelo casal, destacam-se as idas frequentes ao cinema, teatro e dramas, viagens de avião e viagens internacionais para "terras do estrangeiro", além do consumo de refeições com as "melhores iguarias".

04 – Qual é a grande reviravolta (clímax) que ocorre no poema e como ela altera o sentido de tudo o que foi narrado até então?

      A reviravolta ocorre quando o eu lírico revela que toda aquela vida de riqueza, viagens e felicidade ao lado da mulher perfeita não passou de um sonho. Ele confessa que "mulher nunca me quis bem" e que a história era mentira, transformando o tom do poema de um relato romântico e triunfante para uma realidade de solidão e desilusão.

05 – O que o eu lírico aponta, no plano real, como a causa física e biológica para ter tido um sonho tão fantasioso e cheio de luxos?

      O poeta atribui o sonho fantasioso à sua alimentação precária daquela noite. Ele revela ter jantado apenas "um mucunzá sem tempero" e conclui, de forma bem-humorada e irônica, que aquele "alimento fraco só dá para sonhar besteira".

06 – Ao acordar do sonho, qual é o cenário real que o eu lírico encontra ao seu redor e como esse ambiente é descrito?

      Ao acordar alvoroçado, ele se depara com a mais completa solidão e pobreza. Ele percebe que está deitado em uma rede, sem mulher e sem dinheiro. Em vez do luxo sonhado, o ambiente é silencioso e precário, restando-lhe apenas ouvir o canto de um grilo saindo "nos buracos da parede".

07 – No último estrofe, o eu lírico reflete sobre o impacto de sonhar acordado para quem já vive uma realidade difícil. Qual é a conclusão dele sobre os efeitos desse sonho em sua vida atual?

      O eu lírico conclui que o sonho, em vez de trazer alento, acabou por piorar o seu estado. Para quem já está no "fim da estrada" carregando uma "carga pesada de sofrimento sem fim", estar doente, cansado e fraco e ter um vislumbre de falsa felicidade só serve para "encher o saco" e trazer mais frustração ao acordar e encarar a dura realidade.

 

 

CORDEL: INFÂNCIA - UM LUGAR DE FLORESCER - COM GABARITO

 Cordel: Infância – Um lugar de florescer

18 de maio é lembrança
Pra memória não morrer.
É lembrar de um passado
Que não se pode esquecer.
Toda criança violentada,
Toda história silenciada
Precisa reaparecer.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjby_hXPagDFWAQL7vv9HcLk2dbE0pZiET6k9MYuYZX7Jp2KEYwemRY8xKfWRtjv87EAEUFboHZEo6p1qqXWk0kg91Zf278DebvxoD9SOtd45D67RbHA-O57BLhEFyiErdN3btow1RscOh5Xb1n6_TvtpR5uDvOeeVRwIr99NkMORIvxXMwfl-huiZ-Cb4/s1600/CORDEL.jpg

Entendendo o cordel:

 

01 – Qual é o principal objetivo desse cordel?

      O objetivo principal do cordel é conscientizar as pessoas sobre a importância de proteger as crianças e adolescentes contra a violência, reforçando o dever de denunciar abusos e acolher as vítimas.

 

02 – No poema, o que a cor laranja e a flor simbolizam?

      A cor laranja representa a campanha de combate ao abuso infantil (Maio Laranja) e a flor simboliza a infância como uma "vida delicada" que precisa de cuidados, afeto e espaço seguro para crescer e florescer.

 

03 – De acordo com a terceira estrofe, como devemos agir quando uma criança pede ajuda?

      Devemos acolher o pedido com respeito e empatia. O texto destaca que a "escuta é um abrigo", ou seja, é preciso ouvir a criança com atenção e seriedade, indo além de leis ou burocracias ("papelada").

 

04 – Quem, segundo os versos, tem a responsabilidade de perceber e denunciar situações suspeitas?

      A responsabilidade é de toda a sociedade. O cordel deixa isso claro ao citar que "seja pai, vizinho ou tia", todos devem ficar atentos e agir.

 

05 – Qual é o canal de denúncia indicado no cordel e como ele deve ser usado?

      O canal indicado é o Disque 100. Ele deve ser usado sem medo ("sem se esconder") sempre que houver qualquer suspeita de violência ou abuso contra crianças e adolescentes.

06 – Explique o significado do último verso: "A infância é um lugar de florescer".

      Significa que a infância deve ser um período de vida seguro, saudável e feliz, onde a criança receba amor, proteção e estímulos para se desenvolver plenamente, livre de traumas e violências.

 

CONTO: A HISTÓRIA DE IAÇÁ - SUELY MENDES BRAZÃO - COM GABARITO

 Conto: A HISTÓRIA DE IAÇÁ

           Suely Mendes Brazão

        A bela índia Iaçá, da tribo dos caxinauás, apaixonou-se por Tupá, filho do deus supremo, Tupã.

 
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi7OPvuvXwHZWbhrtWdCk3wcXeWn_eseWxnPboJr2BIcjbKmi788tLOfI8FL7hF3Ryhhyphenhyphenx2NZO7L1Kgw7gUVVLiUH9vm7QZdIqi1u3uRj0w1kyxZ_Xrf88xZJ4QjBW4-lci93zWMAf5Y_yobCp-CSRRjVQdNOil6YGk9WGUcBYeas7uoP2yzsiBm6MivDA/s1600/IA%C3%87A.jpg

        Com muita inveja de Tupá, o demônio Anhangá resolveu tomar sua noiva. Para isso, propôs à mãe de Iaçá que impedisse o casamento da filha, dando-lhe em troca caça e pesca abundantes para o resto da vida.

        Interesseira, a mãe de Iaçá proibiu-a de ver Tupá e marcou logo o casamento da filha com Anhangá.

        Triste e desesperada, a jovem não tinha outra saída, mas pediu a Anhangá que a deixasse ver Tupá pela última vez, nem que fosse de longe. Ela sabia que, depois de casada, teria de ir para o interior da terra, para o inferno, onde morava Anhangá, e nunca mais poderia chegar perto de Tupá, que vivia no céu, junto com seu pai, Tupã.

        Anhangá resolveu atender ao pedido da moça, mas com uma condição: ela teria de fazer um corte em seu braço, para que o sangue pingado fosse formando um rastro em sua subida ao céu; desse modo, o demônio poderia acompanhar sua caminhada.

        No dia do casamento, pouco antes da cerimônia, Iaçá partiu para sua última visita a Tupá. E o sangue de seu braço foi formando um arco vermelho no céu.

        Tupá, que era muito poderoso, mandou que o sol, o céu e o mar fizessem companhia à jovem em sua viagem, descrevendo outros três rastros, ao lado do risco vermelho, para confundir Anhangá. O sol, Guaraci, traçou um arco amarelo; o céu, Iuaca, um arco azul-claro; e o mar, Pará, um arco azul-escuro.

        Iaçá, porém, não conseguiu chegar ao céu, nem ver Tupá: muito enfraquecida, foi caindo lentamente em direção à terra. Seu sangue misturou-se primeiro com o traçado amarelo de Guaraci, formando um rastro laranja, e depois com o arco azul de Iuaca, descrevendo outro rastro, cor de violeta.

        Quando chegou à terra, Iaçá não foi para o inferno, nem se casou com Anhangá. Morreu numa praia, banhada pelo mar e pelos raios de sol. De seu corpo, subiu ao céu um arco verde, formado pela mistura do azul de Pará com o amarelo de Guaraci. Era o sétimo arco, que acompanhava a trajetória dos seis anteriores. É por isso que o arco-íris tem sete cores e sempre aparece no céu em forma de arco...

BRAZÃO, Suely Mendes. Como surgiram os seres e as coisas. Co-edição Latino-americana. São Paulo, Ática, 1997. p. 13-6.

Fonte: Linguagem Nova. Faraco & Moura. 6ª série. 17ª edição, 2ª impressão. Editora Ática. São Paulo. 2003. p. 24-25.

Entendendo o conto:

01 – Qual foi o conflito principal que desencadeou a separação de Iaçá e Tupá, e qual foi a motivação do personagem que causou esse impedimento?

      O conflito principal surge quando o demônio Anhangá, motivado pela inveja de Tupá, decide tomar Iaçá como sua noiva. Para conseguir o que queria, ele propõe um pacto de interesse com a mãe da jovem índia, oferecendo caça e pesca abundantes para o resto da vida em troca do cancelamento do casamento de Iaçá com Tupá. A mãe aceita a proposta por puro interesse material, proibindo a filha de ver seu amado e marcando o casamento dela com o demônio.

02 – Para se despedir de Tupá, Iaçá precisou aceitar uma condição imposta por Anhangá. Explique que condição foi essa e qual era o objetivo real do demônio ao exigi-la.

      Anhangá permitiu que Iaçá visse Tupá pela última vez, desde que ela fizesse um corte em seu próprio braço. O objetivo do demônio era que o sangue pingado da jovem formasse um rastro vermelho no céu durante a subida, permitindo que ele monitorasse, seguisse e controlasse os passos de Iaçá em sua caminhada em direção ao céu.

03 – Como Tupá reagiu para proteger Iaçá da perseguição de Anhangá durante a viagem dela, e quais elementos da natureza o ajudaram nessa estratégia?

      Sendo muito poderoso, Tupá ordenou que três elementos da natureza fizessem companhia a Iaçá e criassem rastros coloridos no céu ao lado do risco vermelho de sangue, com o intuito de confundir Anhangá. Os ajudantes foram: o Sol (Guaraci), que traçou um arco amarelo; o céu (Iuaca), que traçou um arco azul-claro; e o mar (Pará), que descreveu um arco azul-escuro.

04 – De acordo com o texto, o enfraquecimento e a queda de Iaçá resultaram na mistura de cores no céu. Explique como surgiram os rastros laranja e violeta na narrativa.

      Devido ao sangramento no braço, Iaçá ficou muito enfraquecida e começou a cair lentamente em direção à Terra. Durante essa queda, o seu rastro de sangue (vermelho) misturou-se primeiro com o traçado amarelo do sol (Guaraci), gerando a cor laranja. Em seguida, o sangue misturou-se com o arco azul do céu (Iuaca), descrevendo o rastro cor de violeta.

05 – O conto de Suely Mendes Brazão funciona como um mito de criação (uma narrativa que explica a origem de um fenômeno natural). Qual é o desfecho de Iaçá e como ele explica a origem do arco-íris e suas sete cores?

      Iaçá não chega ao céu e nem vai para o inferno com Anhangá; ela morre em uma praia, banhada pelo mar e pelo sol. No momento de sua morte, um sétimo arco, de cor verde, sobe de seu corpo ao céu, gerado pela mistura do azul do mar (Pará) com o amarelo do sol (Guaraci). A união desse último arco aos seis traçados anteriores (vermelho, amarelo, azul-claro, azul-escuro, laranja e violeta) explica, de forma lendária, por que o arco-íris possui sete cores e tem o formato de um arco.

 

MÚSICA (ATIVIDADES): MÁSCARA NEGRA - ZÉ KETI E PEREIRA MATOS - COM GABARITO

 Música (Atividades): Máscara Negra

            Zé Keti e Pereira Matos

Tanto riso, oh quanta alegria
Mais de mil palhaços no salão
Arlequim está chorando pelo amor da Colombina
No meio da multidão.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEghSXDwrs65qWv8HK-W4r_9pEZRuzhkkU2aLKObSu4r6Hq02aioa8DNYasrOGqo07GDUCN4uRAvEeNd-7xuw-7wozvSOn4r-Fb7IFx-TFurhW2W9XA4cBNca_GSZjTMnih86aixYzxAdL7nXSe6-JAGlgwZ2Wy3pf2AwHwa8n_EdmVMsiFLi57lMUPTbyI/s320/MASCARA.jpg


Foi bom te ver outra vez
Tá fazendo um ano
Foi no carnaval que passou
Eu sou aquele pierrô
Que te abraçou
Que te beijou, meu amor
Na mesma máscara negra
Que esconde o teu rosto
Eu quero matar a saudade.

Vou beijar-te agora
Não me leve a mal
Hoje é carnaval.

Composição: Zé Kéti, Pereira Matos. Saudade seresteira. Belo Horizonte, Leme. v.2, p. 218. [Marcha-rancho gravada por Dalva de Oliveira para o carnaval de 1967.

Fonte: Linguagem Nova. Faraco & Moura. 6ª série. 17ª edição, 2ª impressão. Editora Ática. São Paulo. 2003. p. 57.

Entendendo a música:

01 – A primeira estrofe da música estabelece um forte contraste de sentimentos no ambiente do salão. Explique que oposição é essa e quais personagens a protagonizam.

      O contraste ocorre entre a euforia coletiva do Carnaval e a tristeza individual de um dos personagens. Enquanto o salão está repleto de "tanto riso", "quanta alegria" e "mais de mil palhaços", o Arlequim aparece chorando "no meio da multidão" pelo amor perdido da Colombina.

02 – O eu lírico da canção se identifica explicitamente na segunda estrofe. Quem é ele, com quem ele está falando e qual é o contexto temporal desse reencontro?

      O eu lírico se identifica como o Pierrô ("Eu sou aquele pierrô"). Ele está falando com uma mulher que reencontrou no salão de festas. Esse reencontro acontece exatamente um ano após o primeiro envolvimento deles, que também ocorreu no Carnaval passado.

03 – Qual é a importância do objeto que dá título à música ("máscara negra") para o desenrolar da narrativa e o que ela simboliza no contexto da festa?

      A máscara negra serve para esconder o rosto da mulher amada, mantendo o mistério de sua identidade. No contexto da marchinha e do próprio Carnaval, ela simboliza o disfarce, a fantasia e a liberdade de agir sob o anonimato, permitindo que os afetos do passado sejam revividos no salão.

04 – Na segunda estrofe, o Pierrô relembra as ações que marcaram o envolvimento do casal no ano anterior. Quais foram essas ações e qual é o desejo dele no presente?

      O Pierrô relembra que, no Carnaval passado, ele a abraçou e a beijou. No presente, motivado pela lembrança e ao ver que ela usa a mesma máscara negra, o desejo dele é "matar a saudade" daquele momento.

05 – Na última estrofe, o eu lírico faz um pedido para a sua amada ("Não me leve a mal"). Como ele justifica a sua ousadia e o seu comportamento impetuoso de querer beijá-la imediatamente?

      Ele justifica sua ousadia com o argumento de que "hoje é carnaval". Essa expressão resume a ideia tradicional de que o Carnaval é uma época de permissividade, em que as regras sociais rígidas são temporariamente suspensas e os impulsos de amor e prazer são perdoados e aceitos.

 

 

CONTO: A PRESENÇA INDÍGENA NO IMAGINÁRIO POPULAR - FRAGMENTO - LEONARDO BOFF - COM GABARITO

 Conto: A presença indígena no imaginário popular – Fragmento

           Leonardo Boff

        Muitas figuras do imaginário popular e do folclore nacional derivam da tradição indígena.

        No Norte são muito conhecidas as histórias ligadas ao boto, o golfinho amazônico. Há o vermelho, perigoso, e o preto, amigo dos seres humano, empurrando os náufragos para as areias. No fabulário amazônico ele aparece sob a forma de um rapaz elegantemente vestido de branco, que frequenta festas, dança, bebe e seduz as moças. Comumente os filhos naturais são denominados “filhos do boto”.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg_TjPz0bcL5sja8nX_1mEXFqVHrRZVd9cBLQPxXTdiny5mZgr4djhD_Rf5ZedItB_JwqzVdo8p8mWIO2SCUk-qwu161ZMNSLgHds-16T7MoW-cWQP_YSIFlDChzdHPDUbUyG0YkGQFHvZgd40x9I7pxyJvfv-PupKtf5TW-a0J5GiNYtxIR7GGC1kb35U/s320/junior-tapirape-asiva-acervo-fundo-brasil.jpeg


        Outra lenda está ligada à cobra-grande, a sucuriju preta que habita o fundo dos rios. Se há um animal temido pelos amazônicos é a cobra-grande. Diz-se que em noites de tempestades, frequentes na região, ela emerge com os olhos em forma de faróis luminosos ou como um enorme barco, navegando ao léu para perseguir navegantes. Ela é também chamada de Cobra Norato. [...]

        Importante no imaginário popular é o caapora ou curupira. Trata-se de uma entidade benfazeja que protege a natureza e as caças e pune severamente quem mata sem necessidade.

        É do tamanho de um menino e anda com os pés para trás para confundir as pessoas, pois estas, vendo os rastos, não sabem se ele foi ou se veio. Gosta de aguardente e fumo. Para não ser incomodado pelo caapora é sempre bom deixar aqui e acola na mata um pouco de cachaça e fumo para ele. no Nordeste, quando não se sente satisfeito, mata as peoas fazendo cócegas. No vale do São Francisco é apresentado como um caboclinho com rosto redondo e um olho no meio da testa, habitando as florestas.

        Com função semelhante ao caapora/curupira há o anhangá, espécie de duende, protetor dos animais ameaçados. Persegue os caçadores irresponsáveis que matam indiscriminadamente ou que abatem animais em fase de nidificação ou de amamentação e as fêmeas que estão prenhes. Ele lhes transmite uma febre terrível, levando-os à loucura.

        Para muitos é temida a panema. É uma energia negativa que produz má sorte e azar. Pode sobrevir a caçadores e a pescadores, ou a mulheres menstruadas ao tocarem implementos de caça e pesca, ou ainda a pessoas especialmente invejosas. Elas atraem muito azar. Para se livrar, importa tomar banhos de ervas especiais, com perfume especialmente forte e sabor amargo. [...]

BOFF, Leonardo. O casamento entre o céu e a terra – Contos dos povos indígenas do Brasil. São Paulo, Salamandra, 2001. p. 152.

Fonte: Linguagem Nova. Faraco & Moura. 6ª série. 17ª edição, 2ª impressão. Editora Ática. São Paulo. 2003. p. 28-29.

Entendendo o conto:

01 – De acordo com o texto, como a lenda do boto se manifesta no fabulário amazônico e de que maneira ela é utilizada pela população local para explicar um fenômeno social?

      No fabulário amazônico, o boto (especificamente o vermelho) se transforma em um rapaz elegante, vestido de branco, que frequenta festas, dança, bebe e seduz as moças. Na sociedade local, essa lenda é utilizada de forma popular para justificar a paternidade desconhecida, fazendo com que os filhos de mães solteiras ou de pais ausentes sejam comumente chamados de “filhos do boto”.

02 – O texto menciona a "cobra-grande" (ou Cobra Norato) como um dos animais mais temidos pelos habitantes da Amazônia. Como esse ser mítico é descrito durante as tempestades e qual é o seu comportamento em relação aos navegantes?

      Segundo o fragmento, a cobra-grande é uma sucuriju preta que habita o fundo dos rios. Em noites de tempestade, ela emerge das águas assumindo uma aparência assustadora: seus olhos brilham como faróis luminosos ou ela se assemelha a um enorme barco que navega sem rumo (ao léu) com o objetivo específico de perseguir os navegantes.

03 – Embora o caapora (ou curupira) seja descrito como uma entidade benfazeja que protege a natureza, ele também adota estratégias para confundir as pessoas e punir quem o desagrada. Quais são essas características físicas e comportamentais mencionadas no texto?

      Fisicamente, ele é do tamanho de um menino e possui os pés voltados para trás, o que confunde as pessoas que tentam seguir seus rastros, pois não sabem se ele está indo ou vindo. Além disso, no Nordeste, se ele não se sentir satisfeito (já que gosta de cachaça e fumo), ele pune as pessoas matando-as de cócegas. Já no Vale do São Francisco, sua aparência muda, sendo descrito como um caboclinho de rosto redondo e com um único olho no meio da testa.

04 – O anhangá possui uma função muito semelhante à do caapora/curupira. Explique qual é o papel do anhangá na floresta e de que forma ele pune os caçadores que agem de maneira irresponsável.

      O anhangá atua como um protetor dos animais ameaçados, perseguindo caçadores que matam indiscriminadamente ou que abatem fêmeas grávidas, animais no período de amamentação ou em fase de ninho (nidificação). A punição aplicada por esse duende aos caçadores irresponsáveis consiste em transmitir-lhes uma febre terrível que os leva à loucura.

05 – Explique o conceito de "panema" segundo o texto de Leonardo Boff. Quem pode ser afetado por ela e qual é a solução tradicional apontada para se livrar desse mal?

      A panema é definida como uma energia negativa que atrai má sorte e azar. Ela pode afetar caçadores e pescadores, pessoas excessivamente invejosas ou mulheres menstruadas que tocam em ferramentas de caça e pesca. Para se livrar desse azar, a tradição indica que a pessoa deve tomar banhos preparados com ervas especiais, que possuam um perfume bastante forte e um sabor amargo.

 

  

CRÔNICA: AMORES GRISALHOS - FRAGMENTO - WALCYR CARRASCO - COM GABARITO

 Crônica: Amores grisalhos – Fragmento

            Walcyr Carrasco

        Quando cheguei em casa, minha mãe colocou o tricô de lado, ajeitou os óculos e disse, com voz trêmula:

        -- Preciso falar com você.

 

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiMBQYR_Oexk27pQWeEQRl4p5h4f8Gi3H41Tb_0HwmmxYGRv1Qe0tfVKFxKCEsuuKe3wBLXSlMgWNF7DBL7Q5kqasVqfUpaAPGm7JJwkLev6dt4YpTS9htwpV7Mc23jze9XE-AyzP_nlD6j2TFh3Dev8RLyQ78IKhl9_nJtE2qXh3ikgUnuh66YslLRk44/s320/46518006-costas-visao-velho-casado-casal-romantico-momento-homem-abracando-mulher-em-banco-dentro-parque-feliz-familia-grisalho-inteligente-masculino-femea-amor-abracando-abraco-relaxar-juntos-feriados-ao-ar-livr.jpg

        “Lá vem problema”, refleti, com a lógica dos filhos. Quando alguém com 65 anos, vem visitar o rebento [filho] e pede conversa séria, já se imagina algum achaque [doença sem gravidade/queixa] da velhice. Porém, quem quase teve um enfarte [ataque do coração] fui eu, ao ouvir a verdade dos fatos.

        -- Estou namorando.

        -- O quê, mamãe?

        -- Por que esse espanto, sou viúva, não tenho o direito?

        Suspirei, surpreso com as voltas que o mundo dá. Tivemos a mesma conversa, com os papéis trocados, quando eu tinha uns 12 anos. Na época, ela se revoltou com a minha escolha:

        -- Justo aquela? Uma menina sem sal e sem açúcar!

        Agora cabia a mim opinar. Quis saber quem era.

        -- Um senhor do prédio vizinho. Foi ferroviário, como seu pai. Ele me tata bem: todo dia me traz um agrado. Ontem me deu três mamões papaia.

        “Pelo menos, esperto ele é”, pensei intimamente. “Ela sempre foi prática. Nunca gostou de flores”. Resolvi.

        -- Você gosta dele, mãe?

        -- Adoro.

        -- Então vá em frente. Muitas amigas minhas de 30 têm menos sorte.

        Ela retomou o tricô com um sorriso no rosto enrugado. Mais tarde, encontrei com uma amiga. Narrei o episódio. Ela espantou-se.

        -- Você não ficou preocupado?

        -- Se fosse um surfista de 25, talvez eu estivesse, e muito. Mas ele tem 63.

        Nos dias que se seguiram, surpreendi-me com o choque das pessoas.

        -- Mas como, namorando com 65 anos? Não faz mal? – gritou uma conhecida.

        Um amigo cortara relações com a mãe viúva quando ela se casou de novo.

        -- Não piso mais na casa dela. Não suporto aquele homem.

        -- Quem tem de suportar é ela, não você – retruquei.

        Outro me confessou que, quando a mãe quis casar-se, há dez anos, foi tal o escândalo provocado por ele e pelos irmãos que a pobre senhora desistiu. Atualmente, ela não se aguenta de solidão, porque os filhos jamais podem visita-la. O rapaz gemeu:

        -- A gente devia ter permitido. Teria sido melhor.

        Também ouvi falar de vários casais que se apaixonam depois dos 70. [...]. É algo que ocorre apenas nas grandes cidades, como São Paulo, onde ninguém tem tempo para ninguém, e os velhos acabam sozinhos. Não é à toa que gente de cabelo branco anda em busca de novas emoções.

        O grande problema são os filhos. Gente séria que, na adolescência, andou queimando sutiã e ouvindo rock and roll, agora reclama quando os pais entram num grupo da terceira idade e renascem. [...]

        Revolta pelas repressões do passado ou inveja porque a vida dos pais está ficando muito mais interessante do que a própria? Por que não, afinal?

        O melhor de tudo é que as histórias de amor provectas [avançadas (no tempo)] tendem a ser mais duradouras. Nessa fase, ninguém tem disposição para ficar namorando e separando, e um tende a relevar [não dar importância às] as manias do outro. Quem criou filhos como eu e meus amigos deve ter mesmo uma paciência inesgotável.

        Por falar nisso, e minha mãe?

        A história que contei tem cinco anos.

        Tirou a roupa escura, pintou as unhas e continua apaixonada.

        Sempre, muito feliz.

Walcyr Carrasco. O golpe do aniversariante e outras crônicas. São Paulo, Ática, 2000.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 43-44. Unidade 9. Orientações específicas.

Entendendo a crônica:

01 – No início da crônica, o narrador relata que esperava ouvir de sua mãe de 65 anos um desabafo sobre algum "achaque da velhice", mas é surpreendido pela notícia de que ela está namorando. Explique qual preconceito social em relação à terceira idade essa reação inicial do filho (e da sociedade) revela.

      A reação revela o preconceito de que pessoas idosas devem se limitar a papéis passivos, doenças e solidão, como se o desejo afetuoso, o romance e a busca pela felicidade cessassem com o envelhecimento. Ao associar a conversa séria automaticamente a uma doença, o narrador demonstra que a sociedade tende a enxergar o idoso através da fragilidade, ignorando sua vida emocional, afetiva e o direito de recomeçar.

02 – O narrador menciona que teve a mesma conversa sobre namoro com a mãe quando ele tinha 12 anos, mas com os "papéis trocados". Como o texto constrói essa ironia da inversão de papéis e como o filho reage de forma diferente da mãe no passado?

      A ironia reside no fato de que, na infância do narrador, era a mãe quem julgava e opinava sobre as namoradas dele (reclamando que a menina era "sem sal e sem açúcar"). Agora, adulto, o filho se vê na posição de "autorizar" ou avaliar o relacionamento da mãe. No entanto, ele reage com maturidade e apoio, deixando o preconceito de lado ao perguntar se ela gosta do senhor e incentivando-a a ir em frente, mostrando-se mais compreensivo do que ela fora no passado.

03 – Ao descobrir quem era o namorado de sua mãe, o narrador descobre que ele a conquistou oferecendo "três mamões papaia", e conclui: "Pelo menos, esperto ele é. Ela sempre foi prática. Nunca gostou de flores". O que esse detalhe revela sobre a natureza do amor na maturidade em comparação aos romances da juventude?

      Esse detalhe revela que o amor na maturidade tende a ser mais pragmático, maduro e focado nas pequenas atenções do cotidiano, em vez de idealizações românticas tradicionais (como dar flores). O pretendente demonstrou conhecer a personalidade prática da namorada e agradou-a com algo útil e concreto, mostrando que o afeto nessa fase se manifesta no cuidado mútuo, na cumplicidade e na simplicidade das ações diárias.

04 – O cronista aponta uma forte contradição no comportamento dos filhos que hoje criticam os pais idosos, escrevendo: "Gente séria que, na adolescência, andou queimando sutiã e ouvindo rock and roll, agora reclama quando os pais entram num grupo da terceira idade e renascem". Explique que contradição é essa apontada pelo autor.

      A contradição está no fato de que os filhos pertencem a uma geração que, na juventude, lutou por liberdade, quebrou tabus sociais e contestou regras rígidas (simbolizado pelo "queimar sutiã" e "ouvir rock"). Contudo, ao se tornarem adultos e lidarem com seus próprios pais idosos, essas mesmas pessoas adotam uma postura conservadora, moralista e controladora, reprimindo o desejo de liberdade e o renascimento afetivo de seus pais.

05 – Perto do final, o narrador levanta duas hipóteses para explicar a resistência dos filhos em aceitar os namoros dos pais: "Revolta pelas repressões do passado ou inveja porque a vida dos pais está ficando muito mais interessante do que a própria?". Com base no texto, explique como o egoísmo dos filhos pode prejudicar a velhice dos pais.

      O egoísmo dos filhos se manifesta no desejo de controlar a vida dos pais ou de mantê-los disponíveis apenas para os interesses familiares. O texto exemplifica isso de forma trágica ao contar a história da mãe de um amigo que desistiu de casar devido ao escândalo provocado pelos filhos e, anos depois, vivia em profunda solidão porque os próprios filhos não a visitavam. Assim, a interferência egoísta dos filhos sabota a felicidade dos pais, condenando-os ao isolamento.

06 – De acordo com o texto, por que as histórias de amor na terceira idade (chamadas pelo autor de "provectas") tendem a ser mais duradouras e estáveis do que os relacionamentos de pessoas mais jovens?

      O autor explica que, nessa fase da vida, as pessoas não têm mais paciência ou disposição para o ciclo instável de "namorar e separar". Além disso, os idosos possuem maior maturidade para relevar as manias e imperfeições do outro. O narrador acrescenta, de forma bem-humorada, que quem já passou pela experiência exaustiva de criar filhos desenvolveu uma "paciência inesgotável", o que ajuda a manter a harmonia e a estabilidade na relação.

07 – No último parágrafo, o cronista revela que a conversa inicial aconteceu há cinco anos e descreve o estado atual de sua mãe: "Tirou a roupa escura, pintou as unhas e continua apaixonada. Sempre, muito feliz". Interprete o significado simbólico das ações de tirar a "roupa escura" e "pintar as unhas" dentro do contexto da crônica.

      As ações têm um forte valor simbólico de renascimento e resgate da autoestima. A "roupa escura" representa o luto, o recolhimento e a resignação associados à viuvez e à velhice tradicional, que dita que o idoso deve ser invisível. Ao tirar o vestuário sombrio e pintar as unhas (um ato de vaidade e autocuidado), ela reconecta-se com sua feminilidade, com a cor e com a vivacidade. O desfecho mostra que o amor e o namoro devolveram a ela o entusiasmo e a alegria de viver.

 

CRÔNICA: IMAGENS DA ESCRAVIDÃO URBANA - FRAGMENTO - BORIS KOSSOY E MARIA LUIZ TUCCI CARNEIRO - COM GABARITO

 Crônica: Imagens da escravidão urbana – Fragmento

           Boris Kossoy e Maria Luiza Tucci Carneiro

        O vaivém dos negros, no Rio de Janeiro – capital do Império –, foi captado em diferentes tempos, locais e situações pelos artistas e cronistas. Na condição de escravos ou libertos, contribuíram para o burburinho das cenas urbanas, tomando conta do cais do porto, das ruas, chafarizes, feiras, vendas e mercados. [...]

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEihAKd5xK6EXVDWb6qCgx7UMsYpmok5xab4wlW4xJXEih6FYCbl4qmGJgSpOnax4U-u_Ome9gyBcd9UbwmXThRGg5sum8kW-XFYytjiwG2PZ-_6-_JdMs447rZFqwKS1Sdv0rtIQR6jh-5-iItkOXlKvAou3tfj1abK44C28Lp_Me8ZOmUSPVrdWxdMbC0/s1600/COTIDIANO.jpg


        Já a vida cotidiana do branco desenrola-se no isolamento, para dentro das casas. Isso é notório, principalmente com relação às mulheres, que levavam uma vida social limitada, contida pelos valores morais e tradições herdadas da Península Ibérica. Vez ou outra foram flagradas à janela ou sacada pelo olhar aguçado do viajante.

        Seus raros passeios se restringiam às idas à missa, às visitas de cerimônia e às eventuais festas, sempre, é claro, acompanhadas do chefe da família. mulher honrada se resguardava dos olhares curiosos, escondendo-se por trás das cortinas das cadeirinhas, hábito que serviu de tema para as imagens e crônicas dos visitantes estrangeiros.

        O uso da cadeirinha persistiu ao longo do século; e, nesta sua trajetória, era comum a mulher ser carregada por negros uniformizados de libré e casaca enfeitada com galões dourados. Mas sempre descalços, como manda a tradição para os escravos. [...]

        Referindo-se à cidade de Salvador, Avé-Lallemant comenta: “[...] tudo parece negro: negros na praia, negros na cidade, negros na parte baixa, negros nos bairros altos. Tudo que corre, grita, trabalha, tudo que transporta e carrega é negro”.

Kossoy, Boris & Carneiro, Maria L. Tucci. O olhar europeu – O negro na iconografia brasileira do século XIX. São Paulo, Edusp, 1994. p. 109-110. (Adaptado).

Fonte: Linguagem Nova. Faraco & Moura. 6ª série. 17ª edição, 2ª impressão. Editora Ática. São Paulo. 2003. p. 38-39.

Entendendo a crônica:

01 – Como os autores descrevem a presença e o papel da população negra (escravizada ou liberta) no espaço público do Rio de Janeiro durante o Império?

      A população negra é descrita como o elemento central que movimentava e dava vida ao cenário urbano. Eles protagonizavam o "vaivém" e o "burburinho" das cenas da capital, ocupando intensamente os espaços públicos e de trabalho, tais como o cais do porto, as ruas, os chafarizes, as feiras, as vendas e os mercados.

02 – Em contrapartida à intensa circulação dos negros nas ruas, como funcionava a rotina social da população branca, especialmente a das mulheres?

      A vida cotidiana da população branca desenrolava-se no isolamento, voltada para o interior das casas. Isso era ainda mais rígido para as mulheres, que tinham uma vida social altamente limitada e contida pelos valores morais e pelas tradições herdadas da Península Ibérica.

03 – Quais eram as raras ocasiões em que as mulheres brancas saíam de casa e que condição era obrigatória para que esses passeios acontecessem?

      Os raros passeios das mulheres brancas restringiam-se a idas à missa, visitas de cerimônia e eventuais festas. Para que pudessem sair, era obrigatório que estivessem sempre acompanhadas pelo chefe da família.

04 – O uso da cadeirinha de arruar é citado como um hábito marcante da época. De que maneira esse transporte reforçava, ao mesmo tempo, o isolamento da mulher rica e a condição de submissão do escravizado?

      O uso da cadeirinha reforçava o isolamento da mulher porque ela se resguardava dos olhares curiosos escondendo-se atrás das cortinas do transporte. Por outro lado, evidenciava a submissão dos escravizados que a carregavam: embora vestissem uniformes de libré e casacas enfeitadas com galões dourados para demonstrar o status de seus senhores, eles eram rigidamente mantidos descalços, símbolo máximo da condição de escravidão.

05 – O fragmento termina com uma citação do viajante Avé-Lallemant sobre a cidade de Salvador. Qual é a principal impressão que ele relata e que termo ele repete para enfatizar a realidade demográfica e laboral daquela cidade?

      Avé-Lallemant relata a impressão de que "tudo parece negro" em Salvador. Ele repete exaustivamente a palavra "negros" para enfatizar que a população negra estava em todos os lugares (praia, cidade, parte baixa, bairros altos) e que eles eram os únicos responsáveis por toda a força de trabalho e movimentação da cidade ("tudo que corre, grita, trabalha, tudo que transporta e carrega é negro").

 

CONTO: O HOMEM QUE TEVE QUE CUIDAR DA CASA - COM GABARITO

 Conto: O Homem que teve que cuidar da casa

        Era uma vez um homem muito rabugento e mal-humorado, que nunca achava certo nada que a mulher fizesse em casa. Uma tarde, na época de secar o feno, ele chegou em casa reclamando que o jantar não estava pronto, o bebê estava chorando e a vaca não tinha sido recolhida ao estábulo.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhzFwP_POqRJ_pIAgo74yOMMmOLhu-WpBNazIz02pg0MXe2VZf3nRM9Ftq2U02b4cAS7vnoyobcpn5ZuXzxUxBiDrtwas87L24uO6AlY8CZD5wwGypbur2h_VKgzCoOHuUtH2jlfUcG2pS0eFT6MjGpDNrpd7VJctKchFZEyrTW6c3jhFeeNZ5k6RrEq20/s1600/HOMEM.jpg


        -- "Eu trabalho o dia inteiro", ele resmungou. "Você fica só aqui cuidando da casa. Bem que eu queria essa moleza para mim. Eu ia aprontar o jantar na hora, palavra."

        -- "Amorzinho querido, não fique zangado", disse a mulher. "Amanhã vamos trocar nossos trabalhos. Eu saio com os ceifeiros, corto feno, e você fica aqui, cuidado da casa".

        O marido achou que daria certíssimo.

        -- "É, eu ganho um dia livre", ele disse, "faço todos os seus afazeres em uma hora ou duas e durmo o resto da tarde inteira".

        Assim, na manhã seguinte, bem cedo, a mulher pendurou a foice no ombro e partiu com os ceifeiros. O marido ficou incumbido de fazer todo o trabalho doméstico.

        Em primeiro lugar, lavou umas roupas e começou a bater a manteiga. Mas depois de bater um pouquinho, lembrou que tinha que pendurar as roupas para secar. Saiu para o quintal e mal tinha acabado de estender suas camisas quando viu o porco correndo para dentro da cozinha.

        Voou para a cozinha para tratar do porco, temendo que estragasse a manteiga. Mas logo que entrou, viu o porco derrubando a batedeira. Lá estava ele, grunhindo e chafurdando o creme, que escorria pelo chão da cozinha inteira. O homem ficou tão louco da vida que esqueceu das camisas no varal e partiu para cima do porco.

        Conseguiu agarra-lo, mas o porco estava tão lambuzado de manteiga, que lhe escapuliu dos braços e saiu porta afora. O homem correu para o quintal, decidido a pegar o porco de qualquer jeito, mas estacou apavorado quando viu o bode, parado bem debaixo do varal e mascando as camisas. Então o homem espantou o bode, trancou o porco e tirou do varal o que sobrara das camisas.

        Em seguida foi à leiteira, pegou creme bastante para encher de novo a batedeira e recomeçou a bater, pois tinham que ter manteiga para o jantar. Quando já tinha batido um pouco, lembrou que a vaca ainda estava fechada no estábulo sem ter comido nem bebido nada a manhã toda; e o sol já estava alto.

        Matutando que o pasto ficava muito longe para levar a vaca até lá, decidiu coloca-la em cima da casa, pois o telhado, como se sabe, era coberto de capim. A casa ficava perto de um morro íngreme e ele achou que, estendendo uma tábua larga da lateral do morro até o telhado, levaria facilmente a vaca para cima.

        Mas não podia abandonar a batedeira, pois lá vinha o bebê engatinhando pela casa. – "Se eu deixar a batedeira", ele pensou, "a criança com certeza vai estragar tudo".

        Assim, ajeitou a batedeira às costas e saiu carregando-a. Aí, pensou que era melhor dar água à vaca antes de leva-la para o telhado e pegou um balde para tirar água do poço. Porém, quando se debruçou na borda do poço, o creme escorreu para fora da batedeira, por cima dos ombros, pelas costas e caiu todo no poço.

        Agora já estava quase na hora do jantar e ele nem ao menos tinha feito a manteiga! Então, logo que colocou a vaca no telhado, achou melhor ferver o mingau. Encheu o caldeirão de água e pendurou-o sobre o fogo.

        Quando acabou, imaginou que a vaca pudesse cair do telhado e quebrar o pescoço. Então subiu na casa para prende-la. Amarrou uma ponta da corda no pescoço da vaca e a outra ele passou pelo buraco da chaminé. Voltou para dentro da casa e amarrou a ponta da corda na cintura. Tinha que se apressar, pois a água começava a ferver no caldeirão e ele ainda tinha que moer a aveia.

        Começou a moer bem rápido! Mas quando estava bem empenhado., a vaca acabou caindo do telhado e na queda arrastou o homem pela chaminé, suspenso pela corda! Ele ficou entalado, bem apertado. E a vaca ficou balançando ao lado da casa, entre o céu e a terra, sem conseguir nem subir nem descer.

        Enquanto isso a mulher lá no campo, estava esperando o marido chamá-la para jantar. Por fim, achou que já tinha esperado demais e foi para casa.

        Quando chegou e viu a vaca pendurada tão insolitamente, correu para cima e cortou a corda com a foice. Mas logo que cortou, o marido despencou da chaminé! Quando ela entrou na cozinha, encontrou-o de cabeça para baixo, enterrado no caldeirão de mingau.

        -- "Que bom que você voltou", ele disse, depois que ela o pescou. "Preciso lhe dizer uma coisa".

        Então ele pediu desculpas, beijou-a e nunca mais reclamou de nada. 

BENNETT, William J. (Org.). O Livro das Virtudes. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1995. p. 245-247.

Fonte: Linguagem Nova. Faraco & Moura. 6ª série. 17ª edição, 2ª impressão. Editora Ática. São Paulo. 2003. p. 80-82.

Entendendo o conto:

01 – No início do conto, qual é a principal reclamação do marido em relação ao trabalho de sua esposa e que proposta ela faz para resolver o desentendimento?

      O marido, que era muito rabugento e mal-humorado, reclamava que o trabalho doméstico da esposa era uma "moleza" e que ela passava o dia "só cuidando da casa", enquanto ele trabalhava duro no campo. Para acabar com as reclamações, a esposa propõe, de forma gentil, que eles troquem de papéis no dia seguinte: ela iria para o campo cortar o feno com os ceifeiros e ele assumiria os afazeres domésticos.

02 – O que o marido imaginava que aconteceria no seu dia cuidando da casa e qual foi a primeira sequência de acidentes que desmistificou essa ideia?

      O marido acreditava piamente que terminaria todo o serviço doméstico em apenas uma ou duas horas e que passaria o restante da tarde inteira dormindo. No entanto, a realidade foi bem diferente: enquanto tentava lavar as roupas e bater a manteiga, um porco invadiu a cozinha e derrubou o creme no chão; ao tentar perseguir o porco, ele acabou deixando o bode mastigar as camisas que estavam no varal.

03 – Por que o homem decidiu colocar a vaca em cima do telhado da casa e qual foi a solução arquitetônica que ele idealizou para fazer isso?

      O sol já estava alto e o homem percebeu que a vaca continuava trancada no estábulo sem comer nem beber. Como ele achava que o pasto ficava longe demais para levá-la, decidiu colocá-la no telhado porque, na época, as casas tinham o teto coberto de capim. Para subir o animal, ele aproveitou que a casa ficava perto de um morro íngreme e estendeu uma tábua larga ligando a lateral desse morro diretamente ao telhado.

04 – A batedeira de manteiga causou dois grandes prejuízos ao homem. Explique o que aconteceu com o creme de manteiga na cozinha e, posteriormente, no poço.

      O primeiro prejuízo ocorreu quando o porco entrou na cozinha e derrubou a batedeira, chafurdando e espalhando o creme por todo o chão. Depois de limpar a sujeira e pegar mais creme na leiteira, o homem amarrou a batedeira nas costas para protegê-la do bebê que engatinhava. Porém, ao se debruçar na borda do poço para tirar água para a vaca, a batedeira virou e todo o creme novo escorreu por seus ombros diretamente para dentro do poço.

05 – Para evitar que a vaca caísse do telhado, o marido elaborou um sistema de segurança peculiar utilizando uma corda. Como funcionava esse sistema e o que aconteceu quando a vaca de fato caiu?

      O homem amarrou uma ponta da corda no pescoço da vaca, passou a outra ponta pelo buraco da chaminé para o lado de dentro da casa e amarrou essa extremidade na sua própria cintura. Quando a vaca escorregou e caiu do telhado, o peso do animal arrastou o homem para cima através da chaminé. Ele ficou rigidamente entalado na estrutura, enquanto a vaca ficou balançando do lado de fora da casa, suspensa entre o céu e a terra.

06 – Como a esposa resolveu a situação caótica do lado de fora da casa ao retornar do campo e qual foi a consequência imediata dessa ação para o marido que estava no interior da residência?

      Ao chegar do campo e ver a vaca pendurada de forma tão bizarra, a esposa correu instantaneamente e cortou a corda usando a sua foice de ceifeira para salvar o animal. A consequência imediata para o marido foi desastrosa: sem o contrapeso da vaca, ele despencou chaminé abaixo e caiu direto, de cabeça para baixo, enterrado dentro do caldeirão de mingau que estava fervendo no fogo.

07 – Apesar de todas as trapalhadas e acidentes, o desfecho da história traz uma mudança profunda no comportamento do marido. Qual foi a lição que ele aprendeu com essa experiência?

      O marido aprendeu, da pior maneira possível, a valorizar o trabalho doméstico e a dedicação de sua esposa. Ele percebeu que cuidar de uma casa e de uma criança exige muito esforço, atenção mútua e agilidade, não tendo nada de "moleza". Após ser "pescado" do caldeirão, ele reconheceu seus erros, pediu desculpas, beijou a esposa e nunca mais reclamou das tarefas dela.