Texto: Dinossauros em tempos difíceis – Fragmento
A sobrevivência da espécie (dos
escritores) e da cultura é uma boa causa
Minha vocação nasceu com a ideia de que
o trabalho literário é uma responsabilidade que não se limita ao lado artístico:
ela está ligada à preocupação moral e à ação cívica. Até o presente, esses
fatores animaram tudo o que escrevi e, por isso, vão fazendo de mim, nesta
época da realidade virtual, um dinossauro que usa calças e gravata, rodeado de computadores.
[...]
Em nossa época se escrevem e publicam muitos livros, mas ninguém à minha volta –
ou quase ninguém, para não discriminar os pobres dinossauros – acredita mais que
a literatura sirva de grande coisa, a não ser para evitar que as pessoas se aborreçam
muito no ônibus ou no metrô, e para que, adaptada para o cinema e a televisão, a ficção literária – se for sobre marcianos, horror, vampirismo ou
crimes sadomasoquistas, melhor – se torne televisiva ou cinematográfica.
Para sobreviver a literatura tornou-se
light – é um erro traduzir essa noção por “leve”, porque, na verdade, ela
significa "irresponsável" e, muitas vezes, idiota.
[...] Se o objetivo é apenas o de
entreter e fazer com que os seres humanos passem momentos agradáveis, perdidos
na irrealidade, emancipados da sordidez cotidiana, do inferno doméstico ou da
angústia econômica, em descontraída indolência intelectual, as ficções da literatura não podem competir com as oferecidas pelas telas, seja
de cinema ou de TV. As ilusões forjadas com a palavra exigem a participação
ativa do leitor, um esforço de imaginação, e, às vezes – quando se trata de
literatura moderna –, complicadas operações de memória, associação e criação,
algo de que as imagens do cinema e da televisão dispensam os espectadores. E,
por isso, os espectadores se tornam cada vez mais preguiçosos, mais alérgicos a
um entretenimento que requeira esforço intelectual.
[...]
As ficções apresentadas nas telas são
intensas por seu imediatismo e efêmeras por seus resultados. Prendem-nos e
nos desencarceram quase de imediato – das ficções literárias nos tornamos
prisioneiros pela vida toda. Dizer que os livros daqueles escritores entretêm seria injuriá-los, porque, embora seja impossível não ler tais
livros em estado de transe, o importante de sua boa literatura é sempre
posterior à leitura – um efeito deflagrado na memória e no tempo. Ao menos é o
que acontece comigo, porque, sem elas, para o bem ou para o mal, eu não seria como sou, não acreditaria
no que acredito nem teria as dúvidas e as certezas que me fazem viver.
Mario Vargas Llosa, in: O Estado de S. Paulo, 1996.
Fonte: Português – José
De Nicola – Ensino médio – Volume 1 – 1ª edição, São Paulo, 2009. Editora
Scipione. p. 267.
Entendendo o texto:
01
– Qual a principal crítica do autor à literatura contemporânea?
O autor critica a
superficialidade e a falta de compromisso da literatura contemporânea, que se
preocupa mais em entreter do que em provocar reflexões e questionamentos. Ele
argumenta que a literatura se tornou um produto de consumo rápido, perdendo sua
capacidade de transformar a vida das pessoas.
02
– O que significa ser um "dinossauro" no contexto do texto?
Ser um
"dinossauro" significa ser um escritor que ainda acredita no poder
transformador da literatura e que resiste às tendências da literatura
contemporânea. É alguém que valoriza a profundidade, a complexidade e o
compromisso social da escrita.
03
– Qual a diferença entre a literatura e as mídias visuais, segundo o autor?
O autor argumenta
que a literatura exige um maior esforço do leitor, como a imaginação e a
interpretação. As mídias visuais, por outro lado, oferecem uma experiência mais
passiva, onde as imagens são prontas e não exigem a participação ativa do
espectador.
04
– Qual a importância da literatura para a formação do indivíduo?
A literatura,
segundo o autor, tem o poder de moldar a visão de mundo do indivíduo,
influenciando seus valores, crenças e comportamentos. Ela pode despertar a
consciência crítica, estimular a imaginação e promover a empatia.
05
– Qual a relação entre a literatura e a realidade?
O autor defende
que a literatura não deve se limitar a apresentar uma realidade escapista, mas
sim a confrontar o leitor com as questões complexas e contraditórias da vida. A
literatura pode ser um instrumento para compreender o mundo e a si mesmo.
06
– Qual o papel do escritor na sociedade?
O escritor,
segundo o autor, tem um papel fundamental na sociedade. Ele é responsável por
questionar o status quo, denunciar as injustiças e oferecer novas perspectivas
sobre o mundo. A escrita literária é uma forma de intervenção na realidade.
07
– Qual a esperança do autor em relação ao futuro da literatura?
Embora o autor expresse
preocupação com a situação atual da literatura, ele não perde a esperança de
que a literatura continue a desempenhar um papel importante na sociedade. Ele
acredita que sempre haverá leitores que buscam algo mais profundo e
significativo do que a mera distração.
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