sexta-feira, 15 de maio de 2026

NOTÍCIA: ROBÔ BOLEIRO - FRAGMENTO - FOLHA DE SÃO PAULO - COM GABARITO

 Notícia: Robô boleiro – Fragmento

        Projeto criado por estudantes de escola de Porto Alegre vence competição nos EUA

        O mais novo embaixador do Brasil nos Estados Unidos não é de carne e osso. Criado por alunos e professores de Colégio Província de São Pedro, de Porto Alegre, o robô Brazilian Buddy conquistou os americanos ao vencer a etapa regional da First Robotics Competition, [...] em Seattle.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiSaEot5bOnVfBpVNuyVrMJu2UiA6HfJSIrje93b61OHBqqgwyELxge0DlCNC358V6gRsYGDTll0z3eVZy-pcS6gDU1_Z7rf4mGAIJ9Sgf4uK4999Q8hSiYLpDq842slGtLEBIk5S33VPNWEOK2ZGHKMjSeN6Cyr2SlnwrNl85hQGEj-mo61MS2N6yLR4/s1600/ROBO.jpg


        O robô criado pelos brasileiros era o único competidor da América Latina nesse campeonato criado pela First – fundação do cientista americano Dean Kamen – com o objetivo de inspirar jovens estudantes de ensino médio a trabalharem com ciência e tecnologia.

        Além dos brasileiros, competiram alunos de escolas dos Estados Unidos, do Canadá e do Reino Unido, distribuídos em 17 etapas regionais. [...]

        Este já é o terceiro ano em que o Colégio Província de São Pedro participa da competição e o segundo em que os brasileiros conseguiram se classificar para as finais.

        No jogo vencido pelo Brazilian Buddy, o robô formava uma dupla com um de outro colégio e tinha a tarefa de recolher bolas do chão e coloca-las num grande cesto.

        A competição, contudo, começou exatamente seis semanas antes, quando os participantes receberam um kit com peças para montar o robô e os planos das tarefas que ele teria de cumprir.

        Recebido em janeiro, o kit deste ano vinha com os componentes mais variados, que iam de fios e baterias a peças mais complexas para montar o motor e o controle remoto.

        Para montá-lo, o colégio contou com uma equipe de vinte alunos voluntários e dez professores de diferentes áreas, como inglês, física e informática. Ex-alunos que haviam participado do projeto em outros anos e engenheiros também auxiliaram na construção.

        Para o professor de informática Ronal Mondadori, 53, o interessante desse projeto é que ele permite aos alunos simularem situações da vida real. “O projeto é bem específico. Você tem de tentar ganhar de outros que têm os mesmos objetivos. É preciso criar um produto num prazo apertado. Isso simula uma empresa competindo com a outra”, diz. Outro aspecto que ele ressalta é a vivência em grupo. “[...] todo mundo trabalhava das 9h00 às 23h00 e surgiam atritos que o grupo tinha de administrar”.

        Para os alunos, o projeto ajuda a melhorar seus conhecimentos e também a aprender a fazer projetos como um time.

Folha de São Paulo – Folhateen, 22/4/2002.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 58-59.

Entendendo a notícia:

01 – O que é o "Brazilian Buddy" e qual foi o seu feito de destaque nos Estados Unidos?

      O Brazilian Buddy é um robô criado por alunos e professores do Colégio Província de São Pedro, de Porto Alegre. Ele se destacou ao vencer a etapa regional da First Robotics Competition em Seattle, sendo o único competidor da América Latina no campeonato.

02 – Qual é o principal objetivo da fundação First ao organizar essa competição de robótica?

      O objetivo da fundação, criada pelo cientista Dean Kamen, é inspirar jovens estudantes do ensino médio a trabalharem e se interessarem pelas áreas de ciência e tecnologia.

03 – Em que consistia o desafio ou "jogo" que o robô brasileiro precisou vencer?

      No jogo, o robô formava uma dupla com o robô de outro colégio e tinha a tarefa específica de recolher bolas do chão e depositá-las dentro de um grande cesto.

04 – Como era composto o kit recebido pelos participantes e qual era o prazo para a montagem?

      O kit era composto por componentes variados, desde itens simples como fios e baterias até peças complexas para motor e controle remoto. Os participantes tinham exatamente seis semanas para montar o robô após o recebimento do material e das tarefas.

05 – Segundo o professor Ronal Mondadori, por que esse projeto é importante para a formação dos alunos além da tecnologia?

      Segundo o professor, o projeto simula situações da vida real e do mercado de trabalho, como a necessidade de criar um produto em um prazo apertado sob competição. Além disso, promove a vivência em grupo, ensinando os alunos a administrar atritos e a trabalhar em equipe.

  

CONTO: QUEM TEM MEDO DE ONÇA? - JOSÉ CÂNDIDO DE CARVALHO - COM GABARITO

 Conto: QUEM TEM MEDO DE ONÇA?

         José Cândido de Carvalho    

        Apareceu na cidadezinha de Pedras Altas numa chuva antiga. Em boa sela e melhor estribo veio ele. Falava pelo canto da boca ─ do outro lado a brasa do charuto ameaçava incendiar o mundo. No Hotel da Estação, depois de sacar de uma devastadora garrucha, deu nome e patente:          

        ─ Capitão Quirino Dias.      

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgEe9Jno9rXT8GhjU2D57gvRpvWhsm2j2bG9MMsH0s4EqwTTlLm0-_epqoq8j9SsWKo807zjn-k7pPU4RxkxbVZjWIa7QBANAnchyphenhyphenVcfRzqpwpByD40nL5shAX-flbxl-kDrlfQfMF0eOlAD4sGs8BJ4zGawMkj4Kbzk7L0LzVtbExy95YOYfW-A3-Gap4/s320/ON%C3%87A.png

     

        Mandou que arrumassem o seu baú dentro do maior cuidado. E espadanando fumaça até no teto da sala:          

        ─ É tudo munição! Coisa de muita responsabilidade.            

        A cidadezinha de Pedras Altas viu logo que estava diante de um pistoleiro de marca maior. E isso ganhou raiz quando um tropeiro, parando no Hotel da Estação para deixar encomenda de boca, espalhou que o sujeitão do charuto era perseguido da Justiça. Que matava só pelo gosto de ver que lado o cristão caía. E de mula picada:            

        ─ Vou ligeirinho que esse capitão é pior que cobra em brasa.

        Foi. Atrás da poeira do tropeiro a fama de Quirino Dias cresceu de não caber em sala e saleta, de jorrar pelos telhados de Pedras Altas. No Hotel da Estação o melhor pedaço era para seu dente, o melhor doce, para sua língua. E no dia em que bebeu cachaça com pólvora, na vista de todo o Hotel da Estação, sua fama não teve mais freio. Bebeu e disse:   

         ─ Tenho trabalho longe. Só volto na semana entrante.           

        No quarto, remexeu o baú e sumiu nas patas do seu brasino. Pedras Altas, por trás de portas e janelas assustadas, comentou:

        ─ É viagem de tocaia.            

        A bem dizer, a cidade era dele. Seus pedidos de dinheiro corriam nos pés dos moleques de leva-e-traz. E era quem mais queria municiar o capitão, no medo que ele fosse ao baú. Quirino mesmo apregoava pelo canto da boca que o charuto deixava livre:

        ─ Não abro aquela peça sem proveito.         

        Foi quando aconteceu o caso da onça. A notícia veio ligeira e ligeira entrou no 29 Hotel da Estação. A pintada era um capeta de olho em brasa. Um portador, chegado fresquinho do mato, derramou no ouvido do povo a última artimanha da onça:

        ─ Limpou o curral de Nonô Pestana de não ficar nem bicho de pele nem bicho de pena.

        Uma embaixada de coronéis, com todos os seus pertences, correu para pedir a Quirino Dias providências contra a onça. E Quirino, espantado:

        ─ Onça? Deu onça em Pedras Altas? Socorro! Quero lá saber disso! Vou embora neste justo momento.

        Não teve tempo de levar o baú, uma peça de folha-de-flandres onde guardava suas bugigangas ─ pentes, rendinhas, frascos de cheiro, alfinetes e águas de moça. Quirino Dias era caixeiro-viajante.

José Cândido de Carvalho. © by herdeiros de José Cândido de Carvalho. Por que Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon. Rio de Janeiro, José Olympio, 1971.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 63-65.

Entendendo o conto:

01 – Como o Capitão Quirino Dias é descrito fisicamente e qual impressão ele desejava causar ao chegar em Pedras Altas?

      Ele é descrito como alguém que falava pelo canto da boca, sempre com um charuto aceso, usando boa sela e estribo. Ao sacar uma "devastadora garrucha" e dar seu nome e patente, ele desejava causar uma impressão de autoridade, valentia e perigo.

02 – O que o Capitão Quirino afirmava haver dentro de seu baú e por que ele pedia tanto cuidado com o objeto?

      Ele afirmava que o baú estava cheio de munição e que era uma "coisa de muita responsabilidade". O objetivo era reforçar a farsa de que ele era um homem de armas e perigoso, intimidando os moradores.

03 – Como a fama de "pistoleiro de marca maior" de Quirino se espalhou pela cidade?

      A fama cresceu a partir dos boatos espalhados por um tropeiro, que disse que o capitão era perseguido pela justiça e que matava pessoas por puro prazer. Atitudes do próprio Quirino, como beber cachaça com pólvora em público, alimentaram ainda mais esse mito.

04 – Como a cidade de Pedras Altas tratava o Capitão Quirino devido ao medo que ele inspirava?

      A cidade o tratava com extrema regalia e servilismo. No hotel, ele recebia a melhor comida e os melhores doces; além disso, os moradores lhe davam dinheiro prontamente para evitar que ele precisasse recorrer ao seu "baú de munições".

05 – Qual foi o evento que colocou à prova a suposta valentia do Capitão Quirino?

      O surgimento de uma onça pintada na região, que estava atacando as fazendas locais (como o curral de Nonô Pestana). Os coronéis da cidade recorreram a ele como a única pessoa capaz de enfrentar e eliminar a fera.

06 – Qual foi a reação real de Quirino Dias ao ser solicitado para caçar a onça?

      Ele demonstrou pavor imediato. Gritou por socorro, disse que não queria saber de onça e decidiu fugir da cidade naquele exato momento, abandonando inclusive seu precioso baú.

07 – Qual é a grande revelação final do conto sobre a verdadeira identidade de Quirino e o conteúdo de seu baú?

      Revela-se que Quirino Dias não era capitão nem pistoleiro, mas sim um caixeiro-viajante. Seu baú, em vez de munição, continha apenas "artigos femininos" e bugigangas, como pentes, rendinhas, alfinetes e frascos de perfume.

 

NOTÍCIA: MAIS DE 15 TRIBOS CORREM RISCO DE EXTINÇÃO NO BRASIL - FRAGMENTO - FOLHA DE SÃO PAULO - COM GABARITO

 Notícia: Mais de 15 tribos correm risco de extinção no Brasil – Fragmento

        No último século, uma tribo brasileira foi extinta por ano em confrontos pela ocupação do país. O número é estimado -segundo antropólogos, provavelmente é maior. Hoje, existe um risco real de extinção de mais de 15 tribos, incluindo grupos de índios isolados.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj3IKzoehBUnLiM-6CDZ1ghBpLAt2tZgCBYFvx2898q_GUtc7Y62foqJUmhbOHL0YZ-bypxSawS2MENlSYFHfInaDSXhyZbQu7eX2GlbH16juNnrstQ7sP6amX3VlQIGBxdmpphBQARGBxR4WWfax8F-N9PT7eJkI9-QjjjDgwPFhX8515ZROn-Syqgo0s/s320/SUMAUAMA.jpeg


        Nos anos 70, o antropólogo Darcy Ribeiro estimou que mais de 80 etnias desapareceram apenas na primeira metade do século 20, resultado do avanço da fronteira agrícola para o interior de São Paulo, Paraná e a região Centro-Oeste, a corrida da borracha na Amazônia e a migração da população para o interior.

        Em 50 anos, segundo o estudo de Darcy Ribeiro, a população indígena brasileira caiu de 1 milhão para 200 mil pessoas.

        Os conflitos só aumentaram nos anos 70 e 80, período de grandes projetos de colonização e investimento de infraestrutura na Amazônia. Em Rondônia, o Estado que mais cresceu a partir dos anos 80, mais de dez tribos sumiram no século passado. Há registros policiais de que até os anos 90 fazendeiros organizavam expedições para massacrar índios e evitar que suas propriedades fossem desapropriadas pelo governo.

        Uma das tribos com data marcada para extinção é a dos jumas, no Amazonas. Há relatos sobre seus conflitos com ribeirinhos do rio Purus desde o século 19. O último, em 1964, terminou no massacre da tribo. Hoje restam apenas cinco jumas - um pai, suas três filhas e uma neta. Forçados pela Funai a mudar, estão se incorporando por casamento à tribo dos uru-eu-vau-vaus. [...]

        Calcula-se que nas reservas indígenas vivam entre 345 mil e 350 mil índios – 0,2% da população brasileira. O ritmo de crescimento começou a subir a partir do final dos anos 80 e hoje a média é de 3,5% ao ano – mais do que a média nacional de 1,6%.

        São 216 tribos, 12 delas com menos de 38 indivíduos. Para efeito de comparação: em 1500, segundo estudos, viviam no território brasileiro entre 2 milhões e 4 milhões de índios de quase mil tribos diferentes. [...]

Folha de São Paulo, 27/5/2001.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 88-89.

Entendendo a notícia:

01 – Qual foi a estimativa de extinção de tribos indígenas no Brasil durante o último século e qual a situação atual relatada no texto?

      A estimativa é de que uma tribo brasileira foi extinta por ano no último século devido a confrontos por ocupação de terras. Atualmente, o texto alerta que há um risco real de extinção para mais de 15 tribos, incluindo grupos isolados.

02 – Segundo o antropólogo Darcy Ribeiro, quais fatores contribuíram para o desaparecimento de mais de 80 etnias na primeira metade do século 20?

      O desaparecimento foi resultado do avanço da fronteira agrícola (em direção a São Paulo, Paraná e Centro-Oeste), da corrida da borracha na Amazônia e da migração populacional para o interior do país.

03 – O que o texto relata sobre os conflitos ocorridos no estado de Rondônia a partir dos anos 80?

      O texto menciona que mais de dez tribos sumiram em Rondônia no século passado. Há registros de que, até os anos 90, fazendeiros organizavam expedições para massacrar indígenas, com o objetivo de evitar que suas terras fossem desapropriadas pelo governo.

04 – Qual é a situação específica da tribo dos Jumas, no Amazonas, mencionada no fragmento?

      A tribo está em processo iminente de extinção, restando apenas cinco sobreviventes (um pai, três filhas e uma neta). Após massacres históricos e conflitos, eles foram forçados pela Funai a se mudar e estão se integrando à tribo dos Uru-Eu-Wau-Waus por meio de casamentos.

05 – Como evoluiu a população indígena brasileira em termos numéricos desde o ano de 1500 até os dados recentes apresentados?

      Em 1500, estima-se que havia entre 2 e 4 milhões de indígenas de quase mil tribos. Esse número caiu drasticamente, chegando a 200 mil pessoas em meados do século 20. Recentemente, a população nas reservas estabilizou-se entre 345 mil e 350 mil, apresentando um ritmo de crescimento de 3,5% ao ano, superior à média nacional.

 

 

 

CRÔNICA: SANTOS NOMES EM VÃO - FRAGMENTO - RAUL DREWNICK - COM GABARITO

 Crônica: Santos nomes em vão – Fragmento

        Drama verídico e gerado por virgulazinhas mal postas, cúmplices de tantas reticências

        Praxedes é gramático. Aristarco também. Com esses nomes não poderiam ser cantores de rock. Os dois trabalham num jornal. Praxedes despacha as questiúnculas à tarde. Aristarco, à noite. Um jamais concordou com uma vírgula sequer do outro, e é lógico que seja assim. Seguem correntes diversas. A gramática tem isso: é democrática. Permitindo mil versões, dá a quem sustenta uma delas o prazer de vencer 999.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg_Q13seDwXNAYNIJYDlPONsa0pHfkNpBJZkzoOFrWAt4yZfvzn5G-tcpTv4yUtHCepaUHhV71lUBFBNzXiERz9hDIdA3_KzUEZz5-9yBTdQhujxeSCJ49UOu_man7hhQOg3SPXBGYdKJhHaxpTfgblAAxFAOXrni-5Q_YhUCZOp1sTir3AMiidvJyiKoA/s320/NOMES.jpg


        Praxedes é um santo homem. Aristarco também. Assinam listas, compram rifas, ajudam quem precisa. E são educados. A voz dos dois é mansa, quase um sussurro. Mas que ninguém se atreva a discordar de um pronome colocado por Praxedes. Ou de uma crase posta por Aristarco. Se a conversa ameaça escorregar para os verbos defectivos ou para as partículas apassivadoras, melhor escapar enquanto dá. Porque aí cada um deles desanda a bramir como um leão.

        Adversários inconciliáveis, têm um ponto em comum, além da obsessão pela gramática: não são nada populares. Na frente deles, as pessoas ficam inibidas, quase não conversam. Porque nunca sabem se dizem bom-dia ou bons-dias, se meio quilo são quinhentos gramas ou é quinhentas gramas, se é meio-dia e meio ou meio-dia e meia, se nasceram em Santa Rita do Passa Quatro ou dos Passam Quatro.

        Para que os dois não se matem, o chefe pôs cada um num horário. Praxedes, mais liberal (vendilhão, segundo Aristarco), trabalha nos suplementos do jornal, que admitem uma linguagem mais solta. Aristarco, ortodoxo (quadradão, segundo Praxedes) assume as vírgulas dos editoriais e das páginas de política e economia. [...]

        Sempre estiveram a um passo do quebra-pau. Hoje, para festa dos ignorantes e dos mutiladores do idioma, parece que finalmente vão dar esse passo. É dia de pagamento e eles se encontram na fila do banco. Um intrigante vem pondo fogo nos dois há já um mês e agora ninguém duvida: nunca saberemos quem é o melhor gramático, mas hoje vamos descobrir quem é o mais eficiente no braço.

        Aristarco toma a iniciativa. Avança e despeja:

        -- Seu patife, biltre, poltrão, pusilânime.

        Praxedes responde à altura:

        -- Seu panaca, almofadinha, calhorda, caguincha.

        Aristarco mete o dedo no nariz de Praxedes:

        -- É a vossa progenitora!

        Praxedes toca o dedo no nariz de Aristarco:

        -- É a sua mãe!

        Engalfinham-se, rolam pelo chão, esmurram-se.

        Quando o segurança do banco chega para apartar, é tarde, Praxedes e Aristarco estão desmaiados um sobre o outro, abraçados, como amigos depois de uma bebedeira.

        O guarda pergunta à torcida o que aconteceu. Um boy que viu tudo desde o início explica:

        -- Pra mim, esses caras não é bom de bola. Eles começaram a falá em estrangeiro, um estranhô o outro, os dois foram se esquentando, se esquentando, e aí aquele ali, ó, que também fala brasileiro, pôs a mãe no meio. Levô uma bolacha e ficô doido: enfiô o braço no focinho do outro. Aí os dois rolô no chão.

        Para a sorte do boy, Aristarco e Praxedes continuavam desacordados.

Raul Drewnick. O Estado de São Paulo, Caderno 2, 6/3/1988.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 108-109.

Entendendo a crônica:

01 – Por que o narrador afirma que Praxedes e Aristarco não poderiam ser cantores de rock?

      Por causa de seus nomes. O narrador utiliza o humor para sugerir que nomes como "Praxedes" e "Aristarco" soam antigos, solenes e eruditos, o que contrasta com a imagem moderna e rebelde associada aos cantores de rock.

02 – Como a gramática é descrita no texto e qual a consequência disso para a relação entre os dois personagens?

      A gramática é descrita como "democrática", pois permite diversas interpretações e versões. No entanto, para os personagens, isso é motivo de conflito, pois cada um segue uma corrente diferente e jamais concorda com a pontuação ou as escolhas gramaticais do outro.

03 – Apesar de serem descritos como "santos homens" e educados, em que momento Praxedes e Aristarco perdem a calma?

      Eles perdem a calma quando alguém ousa discordar de suas escolhas gramaticais (como a posição de um pronome ou o uso da crase) ou quando a discussão envolve temas técnicos, como verbos defectivos. Nessas horas, eles deixam a voz mansa de lado e passam a "bramir como leões".

04 – Qual é o efeito da presença dos dois gramáticos sobre as pessoas ao redor?

      As pessoas ficam inibidas e evitam conversar. Isso ocorre pelo medo de cometer erros linguísticos comuns (como concordância de peso, hora ou nomes de cidades) e serem julgados ou corrigidos pelos dois especialistas obsessivos.

05 – Como o chefe do jornal resolveu o conflito de horários e estilos entre os dois?

      O chefe os separou por horários e seções: Praxedes, visto como mais "liberal", trabalha nos suplementos onde a linguagem é mais solta. Já Aristarco, considerado "ortodoxo", cuida dos editoriais e das páginas de política e economia, que exigem maior rigor formal.

06 – No momento da briga, qual é a principal diferença entre os xingamentos usados por Aristarco e por Praxedes?

      Aristarco utiliza xingamentos eruditos e pouco comuns no dia a dia (biltre, poltrão, pusilânime). Já Praxedes, embora também gramático, utiliza termos mais coloquiais e populares (panaca, calhorda, caguincha), o que reforça a visão de Aristarco de que ele é um "vendilhão" da língua.

07 – Como a explicação do "boy" no final do texto acentua o humor da crônica?

      O humor reside no contraste linguístico. Enquanto os gramáticos brigam por detalhes ínfimos da norma culta, o boy narra a cena usando gírias e desvios de concordância ("esses caras não é bom", "os dois rolô"). Além disso, ele interpreta o vocabulário rebuscado deles como se fosse "estrangeiro", demonstrando o abismo entre a norma gramatical rigorosa e a realidade da fala popular.

 

 

CRÔNICA: SABEDORIA INDÍGENA - FRAGMENTO - JEAN DE LÉRY - COM GABARITO

 Crônica: Sabedoria indígena – Fragmento

          Jean de Léry

        Jean de Léry, missionário [...] que viveu entre os Tupinambá do Rio de Janeiro no século XVI, deixou-nos um interessante relato de tudo o que viu e ouviu, mostrando que aquele povo, longe de ser selvagem, tinha uma grande sabedoria, moldada através do tempo.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjLvZ4sPj7vT-8JbSAZc2Y2UNlXwCake9QPvOzKfnVF5jlbdAGEOs4vDQqPkpG0M1T99o6RH0dbFKAC3W71lxGXAB8viJSCwpJ2PMt8SFsiEYjPgWKuwOz0_Oujmf8UreG1U_9YjL3o5QD-CZvop9j7ENZLcXLCaDWZSfFvqsLnKPBsMYEoaNC4LcGcg20/s1600/Jean-de-Lery.jpg


        Uma vez, um velho me perguntou:

        -- Por que vocês, mair e peró, vêm buscar lenha de tão longe para se aquecer? Vocês não têm madeira em sua terra? 

        Respondi que tínhamos muitas, mas não daquela qualidade, e que não a queimávamos, como ele pensava, mas dela tirávamos tinta para tingir. 

        -- E vocês precisam de muita? perguntou o velho imediatamente. 

        -- Sim [...] pois em nosso país existem negociantes que possuem panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias que vocês nem imaginam e um só deles compra todo o pau-brasil que vocês têm, voltando com muitos navios carregados. 

        -- Ah! retrucou o selvagem, mas esse homem tão rico, de que me fala, não morre?

        -- Sim, disse eu, como os outros. 

        -- E quando morre, para quem fica o que deixa?

        -- Para seus filhos, se ele tem, ou para seus irmãos ou parentes próximos, respondi.

        -- Na verdade, continuou o velho – que como se vê não era nenhum ignorante –, vejo que vocês, mair, são uns grandes loucos, pois atravessam o mar e sofrem grandes problemas, como dizem quando aqui chegam. E no fim trabalham tanto para amontoar riquezas para seus filhos e parentes. A terra que os alimentou não será capaz de alimentá-los também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos. Mas estamos certos de que, depois de nossa morte, a terra que nos sustentou os sustentará também, e por isso descansamos sem maiores preocupações. 

Jean de Léry. Viagem à Terra do Brasil. In: Benedito Prezia e Eduardo Hoornaert. Esta terra tinha dono. São Paulo, FTD, 1995.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 94.

Entendendo a crônica:

01 – Qual é o principal motivo de estranhamento do velho indígena em relação aos europeus?

      O ancião não entende por que os europeus (mair e peró) viajam de tão longe para buscar madeira (pau-brasil), questionando se eles não possuem lenha em suas próprias terras para se aquecerem.

02 – Qual explicação Jean de Léry dá para a necessidade de levar tanto pau-brasil para a Europa?

      Ele explica que a madeira não serve para queimar, mas para extrair tinta para tingir tecidos. Além disso, menciona a existência de grandes negociantes que acumulam mercadorias e riqueza, precisando de navios carregados para sustentar seus negócios.

03 – O que a pergunta do indígena sobre a morte do "homem rico" revela sobre sua visão de mundo?

      Revela uma perspectiva voltada para a finitude da vida e a inutilidade do acúmulo material excessivo. Para o indígena, não faz sentido trabalhar exaustivamente para juntar riquezas que não poderão ser levadas após a morte.

04 – Segundo o texto, para quem os europeus deixam suas riquezas quando morrem e qual é a crítica do ancião sobre isso?

      As riquezas são deixadas para filhos ou parentes próximos. O ancião critica isso chamando os europeus de "loucos", pois sofrem grandes perigos no mar para amontoar bens, ignorando que a mesma terra que os alimentou será capaz de sustentar seus descendentes.

05 – Como o indígena justifica a sua falta de preocupação com o futuro material de seus filhos?

      Ele afirma que os indígenas amam seus familiares, mas descansam sem preocupações porque têm a certeza de que a terra que os sustenta hoje continuará sustentando seus filhos após sua morte, sem a necessidade de acúmulo de bens.

06 – Por que o narrador afirma que o velho "como se vê não era nenhum ignorante"?

      Porque o raciocínio do ancião demonstra uma sabedoria lógica e filosófica profunda sobre a existência humana, a natureza e a sustentabilidade, desafiando a lógica mercantilista europeia que o narrador representava.

07 – Qual é o conflito central de valores apresentado no fragmento?

      O conflito entre o mercantilismo europeu (focado no acúmulo de capital, lucro e exploração da natureza) e a filosofia indígena (focada na subsistência, no usufruto presente da natureza e na confiança no ciclo da vida).

 

 

CRÔNICA: ONDE TUDO TEM SENTIDO - FRAGMENTO - BENEDITO PREZIA E EDUARDO HOOMAERT - COM GABARITO

 Crônica: Onde tudo tem sentido – Fragmento

         Benedito Prezia e Eduardo Hoornaert

        Cada sociedade tem suas normas, cada povo tem seus costumes. Assim, entre nós, de maneira geral os homens têm cabelos curtos e as mulheres, cabelos compridos. No dia do casamento, a mulher usa vestido branco e no dia do seu aniversário a pessoa ganha presente.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhn7Mba0EY3l8-YUpOS77nYFDB13E2lw7An7IEgiWIztDl_wa0hsq1TDUBVRlBfwOnfXS43qq6vyabfcYR1kb-qgrQa5FijbJ8Z_t46fzaNE-e7_Ofl0dUvC-9UcAhZ59Z9W1KnOCs9peAG5wbX0rWqnSnxx17iSBRVVM_k83m2iRDZRjndk6xss03ryRE/s1600/CULTURA.jpg


        Os povos indígenas têm também suas regras e suas tradições. Muitas delas possuem um sentido religioso, pois o espiritual está muito presente em sua vida. Assim, existem os ritos, isto é, as normas religiosas que acompanham as várias fases da vida, como a gestação, o nascimento das crianças, sua passagem para a vida adulta, o casamento e a morte. Outros ritos estão ligados à plantação e à colheita dos alimentos. Outros ainda estão ligados à caça e à guerra.

        [...]

        Ritos do nascimento

        Entre os Tupinambá, quando nascia uma criança era uma festa! Se fosse menino, o pai cortava seu cordão umbilical com os dentes. Se fosse menina, era a mãe quem o fazia. Levavam a criança ao rio para ser banhada, quando o pai achatava o nariz do guri com o polegar. Nariz chato era sinal de beleza entre eles.

        Depois voltavam a casa, onde a criança era colocada numa rede. O menino logo recebia um arco-e-flecha, tendo sua rede enfeitada com unhas de gavião ou garras de onça, para ser um valente guerreiro. No caso de ser menina, recebia uma cabaça, as jarreteiras para as pernas – que eram braceletes de algodão que iriam deixar as pernas fortes – e dentes de capivara, para crescer com bons dentes para bem mastigar a mandioca na preparação do cauim – uma bebida fermentada, à base de mandioca ou de milho.

        Durante três dias o pai só podia comer uma espécie de farinha, sendo-lhe proibido qualquer outro alimento. Não fazia nenhum trabalho, até o umbigo da criança cair, pois senão ela e a mãe iam ter cólicas. Caindo o umbigo, este era cortado em pedacinhos, que ficavam dependurados nas vigas da casa a fim de que o menino se tornasse um bom chefe de família.

        Ao final de todos estes procedimentos, a comunidade realizava uma grande festa com cauinagem, isto é, com muita bebida de cauim. Neste dia era escolhido o nome da criança.

        Ritos para se tornar adulto

        Entre os povos indígenas em geral, a pessoa começa a participar muito cedo da vida adulta da comunidade. A mulher se torna mãe aos 13 ou 14 anos e o homem, com 15 ou 16, já pode estar assumindo uma família. Mas isto não acontece sem uma preparação devida.

        Entre os Apinajé, nação que vive ao norte de Goiás [...], a passagem do menino à vida de adulto acontece aos 15 anos. O ritual para essa transposição tem duas etapas.

        A primeira começa com uma festa em que os adolescentes recebem o nome de pembkaag, que quer dizer semelhantes a guerreiros. Durante vários meses, embora continuem dormindo na casa dos pais, vão ter uma vida separada: ficam num acampamento à parte, tomam banho em outro local, reúnem-se num lugar separado no pátio quando chegam para as danças, e passam por um caminho diferente quando vão buscar comida na casa dos pais.

        Todos os dias recebem orientação de duas pessoas experientes, que acompanham o grupo e que poderíamos chamar de padrinhos. Nesse período, os jovens furam as orelhas e os lábios. Passando o tempo previsto, há uma nova festa, quando são acolhidos na comunidade já como pemb, isto é, como guerreiros.

        Começa então outra fase mais dura, sendo obrigados a ficar trancados num quarto, especialmente construído para eles, pois não devem ser vistos. Quando saem, vão para fora da aldeia juntamente com os padrinhos, que sempre os orientam sobre a vida de casado, sobre as tradições do grupo, as caçadas, as festas e as cerimônias.

        Terminado esse período, já não são mais crianças. São adultos e começam a ser tratados como tal. Podem casar e assumir família. nova festa acontece para marcar este grande passo de suas vidas.

Benedito Prezia e Eduardo Hoornaert. Esta terra tinha dono. São Paulo, FTD, 1995.

Fonte: Língua portuguesa. Entre Palavras, edição renovada. Mauro Ferreira – 6ª série – FTD. São Paulo – 1ª edição. 2002. p. 104-106.

Entendendo a crônica:

01 – Como o texto define o conceito de "ritos" dentro das comunidades indígenas?

      O texto define ritos como normas religiosas que acompanham as várias fases da vida (gestação, nascimento, passagem para a vida adulta, casamento e morte), além de estarem ligados a atividades essenciais como a plantação, a colheita, a caça e a guerra.

02 – No rito de nascimento dos Tupinambá, qual era o procedimento simbólico realizado para meninos e meninas logo após o banho no rio?

      O pai achatava o nariz do recém-nascido com o polegar. Esse ato tinha um sentido estético e cultural, pois o nariz chato era considerado um sinal de beleza entre aquele povo.

03 – Quais objetos eram colocados na rede dos bebês e qual era o significado por trás de cada um deles?

      Meninos: Recebiam arco-e-flecha e a rede era enfeitada com unhas de gavião ou onça para que se tornassem valentes guerreiros.

      Meninas: Recebiam uma cabaça, jarreteiras de algodão (para fortalecer as pernas) e dentes de capivara, para que tivessem bons dentes para mastigar a mandioca na preparação do cauim.

04 – Quais eram as restrições e responsabilidades do pai Tupinambá até que o umbigo da criança caísse?

      O pai não podia realizar nenhum trabalho e sua alimentação era restrita apenas a uma espécie de farinha. O descumprimento dessas regras, segundo a tradição, faria com que a mãe e a criança tivessem cólicas.

05 – De que forma o nascimento de uma criança era celebrado pela comunidade após o cumprimento de todos os ritos iniciais?

      A comunidade realizava uma grande festa com "cauinagem" (muita bebida de cauim), e era nesse dia festivo que se escolhia o nome da criança.

06 – Como funciona a primeira etapa da passagem para a vida adulta entre os meninos Apinajé?

      Aos 15 anos, eles recebem o nome de pembkaag (semelhantes a guerreiros). Durante meses, eles vivem de forma separada da comunidade: têm acampamento próprio, banham-se em locais distintos e utilizam caminhos diferentes para buscar comida, sempre sob a orientação de dois "padrinhos" experientes.

07 – O que caracteriza a segunda fase do ritual de transposição para a vida adulta dos Apinajé?

      É uma fase considerada mais dura, na qual os jovens ficam trancados em um quarto especial para não serem vistos. Sob orientação dos padrinhos, eles aprendem sobre as tradições do grupo, a vida de casado, caçadas e cerimônias. Ao fim desse isolamento, são tratados como adultos e podem se casar.

POEMA: PROFISSÕES - JOSÉ PAULO PAES - COM GABARITO

 Poema: Profissões

            José Paulo Paes

O marujo

Marinheiro pequenino

bebeu água ao se deitar.

Acordou de madrugada:

a sua cama era um mar.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgbllrZrGVIBFE3HKL7uc_vWAZK9YzOQKhMiGJd8viGGXogF4X7okn0KtuQMI7gAVrX_DQk8VW-j5fKhaqUBAs-Cshb9Cxedi4EYljUUAWDnXQYrtpKKJ6qmRWdrpK5i88mFYj3so2anpb-AKBze6EUg1-6vnhA2HHlbBqyV-ikhOzsQEQ-44zj0_fUhSU/s1600/MARUJO.jpg


O carpinteiro

Bate bate martelinho

mas não bata feito cego.

cuidado com o meu dedo q

ue o meu dedo não é prego.

O bombeiro

Blen blen blen blen

Quem vem? Quem vem?

É o bombeiro e vem ligeiro.

Alguém o chama para apagar a chama.

ele vem que vem blen blen blen blen.

PAES, José Paulo. Poemas para brincar. São Paulo: Ática, 1991.

Fonte: Rumo a novos Letramentos e Alfabetização. Ângela M. Chanoski-Gusso / Rossana A. Finau. 3º ano. 1ª edição, Curitiba, 2011. p. 100-101.

Entendendo o poema:

01 – No trecho "O marujo", o que aconteceu com a cama do personagem quando ele acordou?

      A cama dele se transformou em um mar. Isso aconteceu porque o "marinheiro pequenino" bebeu muita água antes de se deitar.

02 – Qual é o conselho ou alerta dado ao carpinteiro durante o seu trabalho?

      O alerta é para que ele bata o martelo com cuidado e não "feito cego", para não acertar o dedo de quem fala, já que o dedo não é um prego.

03 – No trecho "O bombeiro", como o autor utiliza as palavras para representar o som da sirene?

      O autor utiliza a onomatopeia "Blen blen blen blen" para imitar o som do sino ou da sirene do caminhão de bombeiros.

04 – O poema brinca com dois sentidos da palavra "chama" no trecho sobre o bombeiro. Quais são eles?

      O primeiro sentido é o do verbo chamar (alguém pede ajuda), e o segundo sentido é o de fogo (o incêndio que o bombeiro precisa apagar).

05 – O poema de José Paulo Paes utiliza o humor e a imaginação para falar sobre o trabalho. Dê um exemplo dessa característica no texto.

      Um exemplo é no trecho "O marujo", onde o autor usa a imaginação infantil ao transformar uma cama molhada (provavelmente por um "acidente" noturno após beber água) em um mar para um pequeno marinheiro.

 

 

terça-feira, 12 de maio de 2026

CRÔNICA: ANALFABETISMO - MACHADO DE ASSIS - COM GABARITO

 Crônica: Analfabetismo

            Machado de Assis

        Gosto dos algarismos, porque não são de meias medidas nem de metáforas. Eles dizem as coisas pelo seu nome, às vezes um nome feio, mas não havendo outro, não o escolhem. São sinceros, francos, ingênuos. As letras fizeram-se para frases: o algarismo não tem frases, nem retórica.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjKM3pNp0uYyECWqdaJOwebxKIGzYPM_QnpGDqmiwIO3UqTmvqkXeo7bU_Nh3l5SC5I12LbqqOkhsX9u-h13ikmL__dKzb24V2af1e9taDBz7glimNl55pE5qnKWQuQPH9ihwWpGVNfJGIYJyklFC739wQKLgCMRMRXQFvPrd54gOO4lBEm-anRoRFQfzg/s1600/aNAL.jpg


        Assim, por exemplo, um homem, o leitor ou eu, querendo falar do nosso país dirá:

        — Quando uma Constituição livre pôs nas mãos de um povo o seu destino, força é que este povo caminhe para o futuro com as bandeiras do progresso desfraldadas. A soberania nacional reside nas Câmaras; as Câmaras são a representação nacional. A opinião pública deste país é o magistrado último, o supremo tribunal dos homens e das coisas. Peço à nação que decida entre mim e o Sr. Fidélis Teles de Meireles Queles; ela possui nas mãos o direito a todos superior a todos os direitos.

        A isto responderá o algarismo com a maior simplicidade:

        — A nação não sabe ler. Há só 30% dos indivíduos residentes neste país que podem ler; desses uns 9% não leem letra de mão. 70% jazem em profunda ignorância. Não saber ler é ignorar o Sr. Meireles Queles: é não saber o que ele vale, o que ele pensa, o que ele quer; nem se realmente pode querer ou pensar. 70% dos cidadãos votam do mesmo modo que respiram: sem saber por que nem o quê. Votam como vão à festa da Penha, — por divertimento. A Constituição é para eles uma coisa inteiramente desconhecida. Estão prontos para tudo: uma revolução ou um golpe de Estado.

        Replico eu:

        — Mas, Sr. Algarismo, creio que as instituições…

        — As instituições existem, mas por e para 30% dos cidadãos. Proponho uma reforma no estilo político. Não se deve dizer: “consultar a nação, representantes da nação, os poderes da nação”; mas — “consultar os 30%, representantes dos 30%, poderes dos 30%”. A opinião pública é uma metáfora sem base: há só a opinião dos 30%. Um deputado que disser na Câmara: “Sr. Presidente, falo deste modo porque os 30% nos ouvem…” dirá uma coisa extremamente sensata.

        E eu não sei que se possa dizer ao algarismo, se ele falar desse modo, porque nós não temos base segura para os nossos discursos, e ele tem o recenseamento.

Machado de Assis. 15 de agosto de 1876. In: Obra completa, vol. III. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. Disponível em: http://www.cronicas.uerj.br/home/cronicas/machado/rio-de-janeiro/ano1876/15ago76.htm. Acesso em: 1º mar. 2021.

Fonte: linguagens. EJA. Ensino médio. Caderno 3 – 1ª edição. SEDUC – FGV – SESI – p. 34-35.

Entendendo a crônica:

01 – Por que o narrador afirma que gosta dos algarismos em comparação às letras?

      O narrador prefere os algarismos porque eles são diretos, sinceros e francos. Diferente das letras, que são usadas para criar frases e retórica (muitas vezes para disfarçar a realidade), os algarismos dizem as coisas pelo nome, sem "meias medidas" ou metáforas.

02 – Qual é a crítica central que o "Sr. Algarismo" faz em relação à democracia brasileira daquela época?

      A crítica central é que a democracia é fictícia, pois a grande maioria da população (70%) é analfabeta. Para o algarismo, não se pode falar em "vontade da nação" quando a maior parte dela não sabe ler, não conhece a Constituição e não entende as propostas dos políticos.

03 – Segundo o texto, como os 70% de cidadãos que não sabem ler exercem o direito ao voto?

      Eles votam de forma inconsciente, "do mesmo modo que respiram: sem saber por que nem o quê". O texto compara o ato de votar dessas pessoas a ir a uma festa popular (Festa da Penha), ou seja, por mero divertimento ou impulso, sem compreensão política.

04 – Qual é a "reforma no estilo político" proposta pelo algarismo?

      Ele propõe que se pare de usar a palavra "nação" e se use "os 30%". Como apenas essa minoria sabe ler e participa efetivamente da vida política, o correto seria dizer "representantes dos 30%" ou "poderes dos 30%", para ser condizente com a realidade estatística.

05 – O que o narrador conclui ao final do diálogo com o algarismo?

      O narrador conclui que não há como argumentar contra o algarismo. Enquanto os discursos políticos são feitos sobre bases frágeis e retóricas, o algarismo tem o apoio de dados concretos e reais, como o recenseamento (o censo populacional).