sábado, 21 de março de 2026

ENSAIO HUMANÍSTICO: O DIREITO À LITERATURA - ANTÔNIO CANDIDO - COM GABARITO

 ENSAIO HUMANÍSTICO:  O DIREITO À LITERATURA

                                     Antônio Candido

               Chamarei de literatura, da maneira mais ampla possível, todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de uma sociedade, em todos os tipos de cultura, desde o que chamamos folclore, lenda, até as formas mais complexas e difíceis da produção escrita das grandes civilizações.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh2jM5NM_c5sACfOIZw9h_GB4xD7M8FQQyLKnslbUyozRo5wbSmI2raEqy8IB0wjv0dvgQLWL9QwLg9OFqiG8odkWQS7mVjqHQxv5IC-XeERLMP2g7fyiNFjgoobVYez9eVWX6gJ6pQDVNecCRmc17Jr2TZGQ4ukFtAaGfQokNBFhAbyKkXBT6uTc0FgUY/s1600/LITERATURA.jpg


            Vista deste modo a literatura aparece claramente como manifestação universal de todos os homens em todos os tempos. Não há povo e não há homem que possa viver sem ela, isto é, sem a possibilidade de entrar em contato com alguma espécie de fabulação. Assim como todos sonham todas as noites, ninguém é capaz de passar as vinte e quatro horas do dia sem alguns momentos de entrega ao universo fabulado. O sonho assegura durante o sono a presença indispensável deste universo, independentemente da nossa vontade. E durante a vigília a criação ficcional está presente em cada um de nós, como anedota, história em quadrinhos, noticiário policial, canção popular. Ela se manifesta desde o devaneio no ônibus até a atenção fixada na novela de televisão ou na leitura seguida de um romance.

            Ora, se ninguém pode passar vinte e quatro horas sem mergulhar no universo da ficção e da poesia, a literatura concebida no sentido amplo a que me referi parece corresponder a uma necessidade universal, que precisa ser satisfeita e cuja satisfação constitui um direito.

            Podemos dizer que a literatura é o sonho acordado das civilizações. Portanto, assim como não é possível haver equilíbrio psíquico sem o sonho durante o sono, talvez não haja equilíbrio social sem a literatura. Deste modo, ela é fator indispensável de humanização e, sendo assim, confirma o homem na sua humanidade, inclusive porque atua em grande parte no subconsciente e no inconsciente.

            Cada sociedade cria as suas manifestações ficcionais, poéticas e dramáticas de acordo com os seus impulsos, as suas crenças, os seus sentimentos, as suas normas, a fim de fortalecer em cada um a presença e atuação deles. Por isso é que nas nossas sociedades a literatura tem sido um instrumento poderoso de instrução e educação, entrando nos currículos, sendo proposta a cada um como equipamento intelectual e afetivo.

                                                                                                          Antonio Candido

Adaptado de Vários escritos. São Paulo: Duas Cidades, 1995.

 

ENTENDENDO O TEXTO

01. Qual é a definição de "literatura" adotada pelo autor no início do texto?

a. Apenas as obras escritas clássicas e difíceis das grandes civilizações.

b. Todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático, desde o folclore até o romance complexo.

c. Somente as notícias de jornal e os fatos reais do cotidiano.

d. Apenas os livros que são ensinados obrigatoriamente nas escolas.

02. Antônio Candido compara a literatura ao ato de "sonhar". Qual é o objetivo dessa comparação?

a. Dizer que a literatura serve para fazer as pessoas dormirem mais rápido.

b. Mostrar que, assim como o sonho é uma necessidade biológica para o equilíbrio psíquico, a ficção é uma necessidade universal para o equilíbrio social.

c. Afirmar que a literatura não tem valor real, sendo apenas uma fantasia sem importância.

d. Provar que as pessoas que leem muito sofrem de insônia.

03. O autor afirma que a literatura é um "fator indispensável de humanização". Segundo o texto, por que ela exerce esse papel?

a. Porque ela ensina as pessoas a lerem mais rápido e a escreverem sem erros.

b. Porque ela confirma o homem na sua humanidade, atuando inclusive no seu subconsciente e nas suas crenças e sentimentos. c. Porque ela obriga as pessoas a serem boazinhas umas com as outras o tempo todo.

d. Porque ela é o único instrumento que permite ao homem ganhar dinheiro e status social.

04. Na frase "a literatura é o sonho acordado das civilizações", o que o autor sugere sobre a função social da arte ficcional?

a. Que a sociedade vive em um estado de sono profundo e não percebe a realidade.

b. Que a literatura permite que a sociedade processe seus impulsos, crenças e normas de forma criativa, mantendo seu equilíbrio.

c. Que as civilizações antigas eram melhores porque sonhavam mais que as modernas.

d. Que o direito à literatura deveria ser exercido apenas durante a noite.

05. Por que a literatura é incluída nos currículos escolares e proposta como "equipamento intelectual e afetivo"?

a. Para punir os alunos que não gostam de ler histórias em quadrinhos.

b. Porque ela é um instrumento poderoso de instrução e educação, ajudando a fortalecer os sentimentos e normas de uma sociedade. c. Porque o governo precisa vender mais livros para as bibliotecas públicas.

d. Porque ler romances é a única forma de aprender sobre a história das guerras.

POEMA DOS OLHOS DA AMADA - VINICIUS DE MORAES - COM GABARITO

 POEMA DOS OLHOS DA AMADA

              Vinícius de Moraes


Ó minha amada
Que olhos os teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe dos breus...

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEglQ-DO-Db-lT09KyU3yoOF5i1rbMF1eM5Skt4to2JCxNoeUaRhkHeX0PV4nfAFXagbUgcEcrkdF3OVEewUKRaKTXNAYm_xk0YT_1xEoVtgbzMq8tDJ8PZPXWgbbfZk-XiV7yeQIRuThplYPjsnSOEg3po_Qkwta_1Um4Qqc3IQgpcSX9y0Shmy-E3krd8/s320/AMADA.jpg



Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus...

Ó minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas era
Nos olhos teus.

Ah, minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.

(Vinícius de Moraes.In: Poesia completada e prosa.)

 Entendendo o texto

 01. Na primeira estrofe, o eu lírico compara os olhos da amada a "cais noturnos cheios de adeus". Essa metáfora sugere que o olhar dela transmite uma sensação de:

a. Alegria e reencontro festivo.

b. Despedida, melancolia e certa distância.

c. Raiva e revolta contra o mar.

d. Medo de escuro e de lugares desertos.

02. O uso constante de palavras relacionadas ao universo marítimo (cais, docas, saveiros, navios, naufrágios) serve para:

a. Mostrar que a amada trabalha como marinheira em um porto.

b. Enfatizar a profundidade, os perigos e os mistérios que o eu lírico encontra no olhar da amada.

c. Ensinar ao leitor os nomes das diferentes embarcações brasileiras.

d. Indicar que o poema foi escrito durante uma tempestade no oceano.

03. Na terceira estrofe, o eu lírico afirma que "Se Deus houvera / Fizera-os Deus". O que ele pretende expressar com esses versos? a. Uma dúvida religiosa sobre a existência de Deus.

b. A ideia de que os olhos da amada são tão perfeitos e divinos que só poderiam ter sido criados por uma força superior.

c. Uma reclamação por Deus não ter feito olhos mais bonitos para a amada.

d. Que ele prefere os olhos da amada aos olhos de qualquer divindade.

04. Na última estrofe, o eu lírico chama a amada de "olhos ateus" e pede que ela crie esperança nos olhos dele. O que ele espera ver nos olhos dela um dia?

a. O reflexo de um navio chegando ao porto.

b. O "olhar mendigo da poesia", indicando o desejo de que ela retribua o sentimento poético e amoroso.

c. Uma prova científica de que o amor não existe.

d. O brilho do sol refletido nas águas de um rio.

05. Qual é a principal característica do "eu lírico" (a voz que fala no poema) em relação à mulher amada?

a. Ele é indiferente e não se importa com o que ela pensa.

b. Ele é um observador atento e apaixonado, que busca decifrar os segredos e a beleza do olhar dela.

c. Ele é um marinheiro que está fugindo da mulher amada por causa dos naufrágios.

d. Ele é um crítico de arte que não gosta da cor dos olhos da amada.

 

POEMA: SOU NEGRO - SOLANO TRINDADE - COM GABARITO

 POEMA: SOU NEGRO

               Solano Trindade

 Sou Negro.

Meus avós foram queimados

pelo sol da África,

minh`alma recebeu o batismo dos tambores,

atabaques, gonguês e agogôs.

 

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiQnhk_tEawJnLAvNiHMGAqzOiuXTp4Ed-25HEgmXZk7aMtqqZRoWd8z8yb8lxHK-NTX552nJbP3o0R1ejIm3NstwjghtMn2dr_OwBGcaF4qJtjkleCmrwGA6BFGkjhE1Qh5IBXkBYa7GMt-TDq2Lvntpcop28ygiOUl3HLxHg4MmsXAjK7IM_P4PM0-YU/s1600/NEGRO.jpg

Contaram-me que meus avós

vieram de Loanda,

como mercadoria de baixo preço,

plantaram cana pro senhor do engenho novo

e fundaram o primeiro Maracatu.

 

Depois, meu avô brigou como um danado

nas terras de Zumbi.

 

Era valente como quê!

Na capoeira ou na faca,

escreveu não leu,

o pau comeu.

Não foi um pai João

humilde e manso.

 

Mesmo vovó

não foi de brincadeira,

Na guerra dos Malês,

ela se destacou.

 

Na minh´alma, ficou

o samba,

o batuque,

o bamboleio

e o desejo de libertação...

Entendendo o texto

01. Na primeira estrofe, o eu lírico utiliza a metáfora do "batismo" para descrever sua alma. O que esse batismo representa?

a. A imposição de uma religião europeia sobre os seus antepassados.

b. A formação de sua identidade através dos ritmos e instrumentos de origem africana.

c. O medo que ele sente ao ouvir o som dos tambores na madrugada.

d. A necessidade de esquecer o passado para viver no "engenho novo".

02. Ao dizer que seus avós vieram de Loanda como "mercadoria de baixo preço", qual crítica o autor está fazendo?

a. Uma crítica ao valor dos produtos importados da África.

b. Uma denúncia sobre a desumanização causada pela escravidão, que tratava pessoas como objetos de venda.

c. Uma reclamação sobre os baixos salários pagos aos trabalhadores nos portos.

d. Um elogio à economia do período colonial brasileiro.

03. O eu lírico afirma que seu avô "não foi um pai João humilde e manso". O que essa expressão revela sobre a personalidade do antepassado?

a. Que ele era um homem preguiçoso que não gostava de trabalhar no canavial.

b. Que ele recusava o estereótipo do escravizado submisso, preferindo a luta e a valentia ("na capoeira ou na faca").

c. Que ele era um homem muito religioso que passava o dia rezando.

d. Que ele não gostava de crianças e por isso não era um bom pai.

04. O poema cita "Zumbi" e a "Guerra dos Malês". Qual é a importância dessas referências históricas no texto?

a. Servem para mostrar que a família do autor viajava muito pelo Brasil.

b. Servem para destacar o histórico de luta, revolta e resistência negra contra a opressão.

c. Servem para indicar os lugares onde o Maracatu foi inventado originalmente.

d. Servem para explicar como os avós do autor ficaram ricos no engenho.

05. Na última estrofe, o eu lírico lista o que ficou em sua alma (samba, batuque, bamboleio). Qual é o sentimento final que une todos esses elementos culturais?

a. O cansaço profundo causado pelo trabalho excessivo.

b. O desejo de libertação, mostrando que a cultura é também uma forma de resistência.

c. A vontade de voltar a morar em Loanda imediatamente.

d. A tristeza por não conhecer a história de seus avós.

 

POEMA: O CÂNTICO DA TERRA - CORA CORALINA - COM GABARITO

 POEMA:  O CÂNTICO DA TERRA

                Cora Coralina

 Eu sou a terra, eu sou a vida.

Do meu barro primeiro veio o homem.

De mim veio a mulher e veio o amor.

Veio a árvore, veio a fonte.

Vem o fruto e vem a flor.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEicOSOdJKHTRVqtvhvkI4b_1gOjljtVM-X_lyGuKVYzlg5PaPd72jURwFZiGyWXZs6fW8vzct3vUYHB1U8XQE6D9Ux6KUPbl6-GWvFhNzGRWOesazu12aPn4AIgTej-8oPRtrLsZoHVW6dN7-BLXJTt3D57Ax05FenL5XVcTo0VLAQCNgw_C4NMG0Qbf34/s1600/CORA.jpg


Eu sou a fonte original de toda vida.

Sou o chão que se prende à tua casa.

Sou a telha da coberta de teu lar.

A mina constante de teu poço.

Sou a espiga generosa de teu gado

e certeza tranquila ao teu esforço.

Sou a razão de tua vida.

De mim vieste pela mão do Criador,

e a mim tu voltarás no fim da lida.  

 

Só em mim acharás descanso e

Eu sou a grande Mãe Universal.

Tua filha, tua noiva e desposada.

A mulher e o ventre que fecundas.

Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

 

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.

Teu arado, tua foice, teu machado

O berço pequenino de te

O algodão de tua veste

e o pão de tua casa.

 

E um dia bem distante

a mim tu voltarás.

E no canteiro materno do teu seio

tranquilo dormirás.

 

Plantemos a roça.

Lavremos a gleba.

Cuidemos do ninho,

do gado e da tulha

Fartura teremos

e donos de sítio

felizes seremos.

Cora Coralina  

Entendendo o texto

01. No poema, a Terra fala em primeira pessoa ("Eu sou a terra"). Essa figura de linguagem, que atribui características humanas a seres inanimados ou à natureza, é chamada de:

a. Metáfora, pois compara a terra com um objeto sólido.

b. Personificação (ou Prosopopeia), pois a terra ganha voz e sentimentos humanos.

c. Hipérbole, pois há um exagero sobre o tamanho do planeta.

d. Onomatopeia, pois o texto imita o som do arado na terra.

02. De acordo com a primeira e a segunda estrofes, qual é a relação entre a Terra e a origem do ser humano?

a. A Terra é apenas um lugar onde o homem decidiu morar por vontade própria.

b. A Terra afirma ser a fonte original de toda a vida, de onde vieram o homem, a mulher e o amor pela mão do Criador.

c. O homem veio do espaço e encontrou na Terra um lugar para plantar.

d. A Terra e o homem não possuem nenhuma ligação biológica ou espiritual.

03. O eu lírico afirma: "A mim tu voltarás no fim da lida". O que essa expressão sugere sobre o ciclo da vida humana?

a. Que o homem deve viajar pelo mundo, mas sempre voltar para sua casa nas férias.

b. Que, após a morte ("fim da lida"), o corpo do homem retorna à terra, fechando o ciclo natural.

c. Que o lavrador deve voltar para a roça todos os dias depois que o sol se põe.

d. Que o homem nunca morre, pois a terra o protege para sempre.

04. Na quarta estrofe, a Terra se dirige diretamente ao "lavrador". Quais benefícios ela diz oferecer a ele em troca de seu trabalho?

a. Apenas ferramentas de metal como o arado e o machado.

b. Tudo o que é necessário para a vida: o algodão da veste, o pão da casa e o berço dos filhos.

c. Apenas a certeza de que ele ficará rico vendendo a colheita.

d. O direito de destruir a natureza para construir grandes cidades.

05. Qual é o convite feito pelo eu lírico nos versos finais do poema ("Plantemos a roça / Lavremos a gleba")?

a. Um convite ao descanso absoluto, pois a terra dará tudo sozinha. 

b. Um chamado ao trabalho dedicado e ao cuidado com a terra, prometendo fartura e felicidade como recompensa.

c. Um pedido para que o homem pare de caçar os animais do gado.

d. Uma ordem para que o homem abandone o campo e vá morar na cidade.

 

 

CORDEL: CAUSOS E PERSONAGENS DO INTERIOR - ABDIAS CAMPOS - COM GABARITO

 CAUSOS E PERSONAGENS DO INTERIOR (Poema de Cordel)

                      Autor: Abdias Campos


Foi numa briga em família
Por causa de uma partilha
De terra á beira de um rio
Que Afrísio, o maioral
Foi parar no tribunal
E em volta do corrupio

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhnqgeAaYfiUdaPUPu7o58vwZuhhMbv6UBstEtY48vDsbr-2r0faADrkyCXfV_0Wa2GGeXmHLRtX8VUlqUkGrd_3ZXWuaRXwzO6qhf0HdS7mSm7VZd89bJ3b5OInsGklwGPBdwtq4LJqtzerwQ9zp-jr6doEvYsbgvTXGEOHxNMdZeTbwjFkmGDySylKBE/s1600/JUIZ.jpg



O juiz se atrapalhou
E disse: você botou
No rio seu próprio teto?
E ele lhe respostou
Eu vou dizer ao senhor:
Pergunta de analfabeto

“Eu lhe meto na cadeia
Sujeito cabra da peia
Você está sob escolta”
E de cabeça erguida
Com uma voz espremida
Disse pro juiz: Mas solta

Tem um outro no Sertão
Que mesmo com precisão
Não dá o braço a torcer
Gosta é de contar vantagem
Modificando a imagem
Do que aparenta ter

Outro dia em sua casa
Com o fogo ainda em brasa
Após ter feito o almoço
Chegaram de supetão
Três amigos no oitão
E foi aquele alvoroço

Mandou os cabra apear
E pela cozinha entrar
Se sentar e se servir
Foi comida a vontade
Mesmo assim pela metade
Ele começou pedir:
Maria traz mais feijão!
De lá de dentro: “tem não!
Uma carninha? Acabou!
Um arrozinho? Não tem
Suspirou e disse: amém
Eu comi feito um doutor!

São histórias de valor
Desse almanaque folclórico
Dia a dia de um povo

Que deixa o legado histórico

A natureza matuta.

 

De um jeito categórico.

Chico de Dedez, eufórico

Recém-casado, pegou

Uma toalha limpinha

Tomou banho, se enxugou

Ao invés de estendê-la

Num canto qualquer jogou.

 

A esposa perguntou

Com aquele jeitinho manso

Por que num botou no sol?

Ele disse: Não alcanço!

Perguntas e respostas ditas

Sem existência de ranço.

 

Entendendo o texto

01. No início do poema, por qual motivo o personagem Afrísio foi parar no tribunal?

a. Por causa de uma briga em família devido à divisão (partilha) de terras.

b. Porque ele foi acusado de roubar um "berço pequenino".

c. Por ter desobedecido às ordens do juiz durante uma pescaria no rio.

d. Por não querer pagar os impostos do seu teto à beira do rio.

02. Na interação entre Afrísio e o Juiz, o personagem demonstra qual traço de personalidade?

a. Submissão, pois ele pede desculpas ao juiz imediatamente.

b. Ironia e altivez, pois ele responde com audácia ao juiz, chegando a chamá-lo de "analfabeto".

c. Medo, pois ele começa a chorar ao ouvir que será preso.

d. Silêncio, pois ele se recusa a responder qualquer pergunta no tribunal.

03. O segundo causo narra a história de um sertanejo que "gosta é de contar vantagem". O que aconteceu quando três amigos chegaram de surpresa para o almoço?

a. Ele expulsou os amigos por não ter comida suficiente na cozinha. b. Ele fingiu que ainda havia muita comida (pedindo feijão e carne), mesmo sabendo que os alimentos já tinham acabado.

c. Ele dividiu o pouco que tinha e confessou que estava passando necessidade.

d. Ele saiu para caçar um veado na quaresma para servir aos convidados.

04. No trecho "Maria traz mais feijão! / De lá de dentro: 'tem não!'", o que a resposta da esposa revela sobre a situação real da casa?

a. Que Maria estava com preguiça de servir os convidados no oitão. b. Que, apesar das aparências e da "vantagem" contada pelo marido, a comida era escassa e já havia terminado.

c.  Que Maria não gostava dos amigos que chegaram de supetão. d. Que o fogão de brasa havia apagado antes de cozinhar o feijão.

05. No terceiro causo, o personagem Chico de Dedez dá uma resposta inusitada à esposa sobre a toalha de banho. O que ele quis dizer com "Não alcanço!"?

a. Que ele era muito baixo e não conseguia atingir o varal de roupas.

b. Foi uma resposta literal (e possivelmente irônica ou preguiçosa) para justificar por que não colocou a toalha no sol.

c. Que o sol estava muito longe no céu e, por isso, ele não conseguia chegar até ele.

d. Que ele não tinha braços compridos o suficiente para estender a toalha.

06. O autor afirma que essas histórias fazem parte de um "almanaque folclórico". Qual é o principal objetivo desse tipo de literatura de cordel?

a. Ensinar leis jurídicas complexas para o povo do sertão.

b. Preservar e celebrar o legado histórico, a natureza matuta e o jeito de ser do povo do interior.

c. Convencer as pessoas a não se casarem, como aconteceu com Chico de Dedez.

d. Criticar o uso de toalhas limpas em regiões onde o sol é muito forte.

07. Uma característica marcante da linguagem deste poema, típica do Cordel, é:

a. O uso de termos científicos e palavras em outras línguas.

b. A presença de rimas e expressões da fala popular regional (como "apear", "oitão", "cabra da peia").

c. A ausência total de diálogos entre os personagens.

d. Uma estrutura em prosa, sem divisão de estrofes ou versos.

 

 

CONTO(FRAGMENTO): ASA CURTA - GILBERTO MANSUR - COM GABARITO

 CONTO(FRAGMENTO): ASA CURTA

   Asa Curta era um passarinho já muito velho, mas que ainda não sabia voar. Ele tinha aprendido, em seus oito anos de vida, muita coisa que passarinho nenhum desse mundo nunca haveria de saber.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiiM9zO5BguBlmMgW9phamzRJm9EJLOfeDWYOPNTU29Z2sHj2Bwp4OfwAFEpTJcfBPj5I6JtWZEQfr_pUUK96L0pGKg_MHVwcy6lAQgjUDJcDXfIZRSd_ykjed7BszqTPnMGYM7gsgXKnXnu2T-Qa2JZ9yMCFrRoJ6VewA4fY53c_6HQk49WMG-h2WqOl8/s320/ASA.jpg


 Quem já viu passarinho nadar? – e esse nadava; quem já viu passarinho ler um livro? – e esse lia; quem já viu passarinho dançar? – e esse dançava tudo que é dança que gente sabe dançar: samba que nem o brasileiro, tango que nem o argentino, polca como os russos, valsa como os austríacos, baião e xaxado que nem os nordestinos, rock, tuíste, iê-iê-iê e essas danças todas que os americanos já inventaram. Até mesmo algumas que ninguém nunca dançou, que ele mesmo tinha inventado e até batizado: o saracoteio, o vira-e-mexe, o passo-do-passarinho, a dança-do-bico-pro-ar...

  E havia ainda muita coisa mais que o Asa Curta fazia, diferente de tudo quanto os outros passarinhos sabiam fazer. Ele era mesmo um artista, desses de ganhar prêmio em programa de televisão: dava cambalhota como gente de circo, levantava galho de árvore com uma pata só, imitava voz de homem e voz de mulher, assoviava comendo alpiste...

Mas de que adiantava fazer tudo isso – e muito mais, que ele só não fazia porque senão os outros iam pensar que ele era um passarinho louco – , de que adiantava tudo isso, se ele não sabia fazer o que o mais novo e o mais analfabeto passarinho de qualquer floresta ou de qualquer cidade era capaz de fazer? De que adiantava ser o passarinho mais famoso que já houve na terra dos passarinhos, se ele não sabia voar?

  – Não adianta nada! – queixava-se o velho Asa Curta, em conversas com Andorinha Veloz, sua maior amiga e a única criatura que conhecia esse seu segredo de não saber voar. – Mas você é o passarinho mais perfeito que todo o mundo já viu, Asa Curta! Sabe fazer casa como o João de Barro, canta que nem um Curió. E, depois, é artista de dar inveja a toda a gente.

  É, a Andorinha Veloz tinha razão: ele podia fazer tudo isso, mas não se sentia nem um pouco feliz porque não era capaz de voar. E por isso ele tinha poucos amigos: como ia ter coragem de dizer para eles que não sabia voar? Por isso ele nunca tinha pensado em se casar: depois, como ia fazer para ensinar seus filhotes a voar, e para arranjar comida pra eles e pra sua mulher? (...)

 Mas tristeza mesmo ele tinha era quando seus amigos chegavam de viagem. Um dia era o Pardal Ambulante, que tinha visitado a Argentina e corria logo pra contar ao Asa Curta:

 – Mas é impressionante, companheiro, como que o povo lá dança tango igualzinho você sabe dançar.

  No outro dia, era o Pica-Pau Leva-e-Traz, que tinha ido até a Rússia vender pau-brasil e comprar madeira russa para os pica-paus brasileiros.

 – Nossa, Asa Curta, eu vi o pessoal dançando na rua uns troços do mesmo jeito que você dança aqui.

 Era a polca, que Asa Curta tinha aprendido a dançar lendo uns livros russos. Ele morria de vontade de ver como é que cada povo dançava a sua dança, mas não podia chegar a lugar nenhum só andando. E então, quando os outros passarinhos lhe perguntavam por que ele não viajava também, Asa Curta saía sempre com desculpas:

 Eu já estou velho, não aguento mais essas viagens. 

Ou, então, era obrigado a dizer uma mentira qualquer: 

– Eu já viajei muito quando era moço, aprendi muita coisa. Agora prefiro ficar por aqui mesmo.

 Mas fazia uma cara tão triste nesses momentos, que todos percebiam a mentira e que ele estava é com muita vontade de viajar também. Então, por que motivo não viajava? Só a Andorinha Veloz sabia, mas não contava a ninguém; ficava só consolando o amigo. E quando voltava de uma viagem, não trazia só notícias para o Asa Curta, traz também presentes, livros, revistas e fotografias. E assim Asa Curta ficava sabendo mais ainda das coisas.

 Mas isso era pouco: ele já estava cansado desse conhecimento só de livros, de revistas e de fotografias. Queria ir também aos lugares, conhecer os passarinhos de lá conversar com eles, ver as coisas com seus próprios olhos sentir o mundo com seu próprio bico.

 (MANSUR, Gilberto. Um outro jeito de voar. Belo Horizonte: Formato, 1989.)

 

Entendendo o texto

01. Qual é o grande segredo e a principal causa da tristeza de Asa Curta?

a. Ele não conseguia aprender a dançar o tango argentino.

b. Apesar de ser um artista talentoso e saber fazer muitas coisas, ele não sabia voar.

c. Ele tinha medo de altura e por isso preferia nadar no rio.

d. Ele era um passarinho muito jovem que ainda não tinha idade para sair do ninho

02. O texto lista diversas habilidades extraordinárias de Asa Curta. Qual dessas ações é algo que "passarinho nenhum desse mundo" costuma fazer?

a. Cantar de manhã cedo para acordar a floresta.

b. Construir ninhos em árvores altas usando gravetos.

c. Ler livros, nadar e dançar ritmos como samba, polca e rock.

d. Comer alpiste e voar para longe quando sente perigo.

03. Quem é a única personagem que conhece o segredo de Asa Curta e tenta consolá-lo?

a. O Pica-Pau Leva-e-Traz, que viaja para a Rússia.

b. O Pardal Ambulante, que conhece a Argentina.

c. A Andorinha Veloz, sua maior amiga.

d. O João de Barro, que o ensinou a construir casas.

04. Por que Asa Curta evitava se casar e ter poucos amigos, segundo a narrativa?

a. Porque ele era muito orgulhoso e se achava melhor que os outros.

b. Por medo e vergonha de que descobrissem que ele não sabia voar e não poderia ensinar seus filhotes.

c. Porque ele passava o dia todo viajando pelo mundo para fazer shows.

d. Porque ele preferia morar sozinho em sua biblioteca lendo livros russos.

05. Como Asa Curta aprendeu a dançar ritmos de países distantes, como a polca russa, se ele não podia viajar para fora?

a. Assistindo a programas de dança na televisão dos homens.

b. Através da leitura de livros sobre a cultura desses povos.

c. Ouvindo o rádio de um lavrador que morava perto da floresta.

d. Tendo aulas particulares com a Andorinha Veloz.

06. Qual é a reação de Asa Curta quando os outros passarinhos contam sobre as viagens que fizeram?

a. Ele fica feliz e pede para eles o levarem na próxima viagem.

b. Ele sente uma tristeza profunda ("morria de vontade de ver"), mas inventa desculpas para não revelar sua limitação.

c. Ele finge que já conhece todos esses lugares e conta mentiras.    d. Ele começa a dançar para mostrar que é mais talentoso que os estrangeiros.

07. A frase "De que adiantava ser o passarinho mais famoso [...] se ele não sabia voar?" sugere que:

a. Voar é a habilidade mais inútil para um pássaro artista.

b. Para o personagem, o talento e a fama não substituíam a necessidade de exercer sua natureza essencial (voar).

c. Asa Curta preferia ser um homem em vez de ser um passarinho.    d. A fama traz muita infelicidade para quem vive na floresta.

 

08. Após leitura atenta do texto, é CORRETO afirmar que Asa Curta

a. vive um dilema muito grande por ser diferente, mas não deixa de fazer absolutamente nada do que os outros pássaros fazem.

b. acostumou-se com sua diferença, não vendo mais necessidade de ser igual ou parecido com os outros pássaros.

c. dedica-se a levar uma vida plena de realizações, embora deseje, também, realizar os feitos que sua diferença o impedem de fazer.

d. acostumou-se a ser diferente e, mesmo não podendo fazer tudo, sente-se realizado e feliz.

e. vive um dilema grande, uma vez que sua diferença o isolou do convívio com os demais pássaros.

 

09. Quanto à conduta de Asa Curta, conclui-se que ele é um pássaro

a. vivaz, sem conflitos e que não se importa com a opinião alheia.

b. autêntico, feliz e plenamente realizado.

c. confiante, alegre e, apesar de suas limitações, satisfeito com a vida.

d. ativo, inteligente e preocupado com a opinião dos outros em relação a suas atitudes.

e. criativo, autêntico e acomodado em sua realidade.

 

10. A palavra “queixava-se” não poderia ser substituída, no contexto, por

a. orgulhava-se.

b. lamentava-se.

c. desgostava-se.

d. lastimava-se.

e. lamuriava-se.

 

11. Com base na leitura do texto, a proposição INCORRETA é que

a. “mas” introduz uma ideia de oposição.

b. o termo “tudo isso” se refere ao fato de Asa Curta poder voar.

c. a palavra “quando” expressa a mesma circunstância da expressão “um dia”.

d. a palavra “se” estabelece, no contexto, uma ideia de condição.

e. o vocábulo “amiga” refere-se a Andorinha Veloz.