quinta-feira, 13 de agosto de 2026

TEXTO: CONVERSA COM O MAR - FRAGMENTO - ANÍBAL M. MACHADO - COM GABARITO

 Texto: Conversa com o mar – Fragmento

         Aníbal M. Machado

        “Hoje vim mais cedo continuar a nossa conversa. Trouxe banana e sanduíche, posso ficar mais tempo”.

        Abriu o embrulho de comestíveis: “Vim como ontem, tal como me vês.” Estranho que outros não estejam aqui a te contemplar. Nem me lembro bem como foi a nossa conversa de ontem, pois a noite veio tão depressa e o sono, que até pensei que a mamãe estava perto. Eu deixei meus pais, um avô e três tias no planalto e ainda não sei dizer se fico por aqui. Sonhei com um peixe que me chamava. Foi quando escureceu que eu senti tua noite mais profunda que as noites da montanha. Agora vejo por que os namorados abusam tanto de teu luar. Mas não sei o teu mistério... 

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgpRQYwOEdQz1xEiym1weB-icBxyFyOKqk-r6yfWk3YbHfBaG4d8yNwkv2Kf0Aywpi-f6fnwSFqV8hTQCGm5T7P0-QYnkeWOsZ0ZZZm5xAaDyZ9OGPu3TtkqgJPzlTN-pL2IHCPThV_oA-fTqBrHXc9O1C5azCwwqEDxON8NKZVFxv1a0NRlvnNiK4kGYM/s320/images.jpg 


Será que vais guardar esse jeito assim tão novo? Lá em casa, quando se ouvia a palavra mar, meu avô se levantava agitado e perguntava se não estávamos sentindo cheiro de maresia. E quando vinha o temporal, a casa boiava entre os vagalhões da Mantiqueira. Ah, meu avô nunca disse por que se afastou de tuas águas!... Tu, agora, tão perto, tão perto!... Os astros passam alto, as nuvens correm longe, o vento a gente nem vê... Tu, não... tu chegas pertinho, e ficas. Agachar e brincas nas tuas águas assusta. Custo acreditar que esteja tocando a tua pele. Pensar que terminas nos meus dedos!... Outro dia me assustei também quando levantei os olhos da pedra de uma igreja enorme. Mar, o que eu queria te dizer é que pertenço a uma espécie aborrecida que não escolhi. Posso um dia optar pelas tuas águas? Mergulha-se e fica... Ninguém vai notar a ausência...

        As ondas mudando de cor. Ou seria perturbação da vista. Começou a mastigar outra banana.

        “Acho que aí no fundo, nas raízes do rochedo, não há dor nem alegria. Se o rochedo falasse!...”.

Anibal M. Machado. João Ternura. 3. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976.

Fonte: Língua Portuguesa Palavras. 5ª série. Hermínio Geraldo Sargentim. IBEP. 1ª edição. São Paulo, 2002. p. 143.

Entendendo o texto:

01 – O texto é construído a partir da fala direta de uma personagem com o oceano ("Hoje vim mais cedo continuar a nossa conversa..."). Qual recurso estilístico fundamenta esse tipo de interlocução e de que maneira ele revela o estado emocional e o isolamento da personagem?

      O recurso estilístico fundamental é a prosopopeia (ou personificação), em que o mar é dotado de capacidade de escuta e presença quase humana ("Custo acreditar que esteja tocando a tua pele"). Essa conversa unidirecional evidencia um profundo isolamento e solidão: distante da família que ficou no planalto, a personagem não encontra interlocutores humanos e busca no mar um ouvinte para suas angústias, incertezas e desejos de evasão.

02 – Analise como o texto estabelece uma oposição entre o espaço de origem da personagem (o planalto e a Mantiqueira) e o novo espaço em que ela se encontra (a beira-mar). Qual é o significado simbólico do mar nessa transição?

      O espaço de origem (a montanha/Mantiqueira) representa a memória familiar, as raízes e a proteção do lar ("Lá em casa..."). Em contrapartida, o mar representa o desconhecido, o fascínio e o mistério ("não sei o teu mistério..."). A transição do interior para o litoral simboliza uma ruptura com o passado familiar e a atração por um elemento dinâmico e tátil ("tu chegas pertinho, e ficas"), que contrasta com a distância imutável dos astros e das nuvens.

03 – No trecho final do diálogo, a personagem faz uma reflexão profunda sobre a sua condição humana e o fundo do mar ("Posso um dia optar pelas tuas águas? Mergulha-se e fica... Ninguém vai notar a ausência..."). Como essa fala pode ser interpretada sob a perspectiva da evasão da realidade?

      A fala expressa um desejo de evasão radical e anulação do sofrimento. A personagem declara pertencer a uma "espécie aborrecida" e vislumbra o fundo do mar como um lugar neutro, pacífico e livre de angústias ("não há dor nem alegria"). O ato de mergulhar e "ficar" surge como uma ideia de refúgio definitivo ou dissolução da existência, no qual o esquecimento social ("Ninguém vai notar a ausência") funcionaria como libertação do peso de viver.

04 – Qual é a importância da figura do avô nas lembranças trazidas pela personagem e como essa memória se conecta com a presença do mar no presente?

      O avô surge como uma figura de conexão ancestral e misteriosa com o mar. Mesmo vivendo no interior, a palavra "mar" o deixava agitado e à procura do "cheiro de maresia", fazendo com que a própria casa parecesse boiar nos "vagalhões da Mantiqueira". A lembrança do avô, que nunca explicou por que se afastou das águas, lança uma aura de herança psicológica sobre a personagem: ela parece dar continuidade à mesma atração enigmática que o avô sentia, vivendo agora fisicamente a proximidade que ele apenas evocava na memória.

05 – Identifique no fragmento dois recursos de linguagem que reforçam a dimensão sensorial da experiência da personagem ao lado do mar.

      A Sensopercepção Tátil: O uso de metáforas que atribuem ao mar características físicas e biológicas, como em "tocando a tua pele" e "terminas nos meus dedos", tornando concreta e íntima a relação do corpo com a água.

      A Percepção Visual e Cromática: A observação do dinamismo das ondas e da luz ("As ondas mudando de cor", "abusam tanto de teu luar"), aliada a atos cotidianos simples como "mastigar outra banana", que contrapõem a grandiosidade da natureza ao gesto humano comum.

 

 

ROMANCE: OS SERTÕES TRECHO II - EUCLIDES DA CUNHA - COM GABARITO

Romance: Os Sertões Trecho II – Fragmento

               Euclides da Cunha

        Os sintomas do flagelo despontam, lhe [para o sertanejo], então, encadeados em série, sucedendo-se inflexíveis, como sinais comemorativos de uma moléstia cíclica, da sezão assombradora da Terra. Passam as "chuvas do caju" em outubro, rápidas, em chuvisqueiros prestes delidos nos ares ardentes, sem deixarem traços; e pintam as caatingas, aqui, ali, por toda a parte, moqueadas de tufos pardos de árvores marcescentes, cada vez mais numerosos e maiores, lembrando cinzeiros de uma combustão abafada, sem chamas; e greta-se o chão; e abaixa-se vagarosamente o nível das cacimbas... [...] 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjh4N5rtgXvyCFu8Qjxw5HAJTDLiBHYJnoGoCmavTm8Lq8eEQSVkeoxx2gLYTrTtFPUDeyIaph_Krb5WUVykh43jvzk2Pb9ssxyiIxatzoqLVuJc3JsMEHTrEnjIUx5hEuWBTFSNNokeIXgcAxyHktQPmeBbjRjT-eAXrXlfDtbwXzL4UFErIR-JxMCL5U/s320/images.jpg


        Por fim tudo se esgota e a situação não muda. Não há probabilidade sequer de chuvas. A casca dos marizeiros não transuda, prenunciando-as. O nordeste persiste intenso, rolante, pelas chapadas, zunindo em prolongações uivadas na galhada estrepitante das caatingas e o Sol alastra, reverberando no firmamento claro, os incêndios inextinguíveis da canícula. O sertanejo, assoberbado de reveses, dobra-se afinal. [...] 

        Insulado deste modo no país que o não conhece, em luta aberta com o meio, que lhe parece haver estampado na organização e no temperamento a sua rudeza extraordinária, nômade ou mal fixo à terra, o sertanejo não tem, por bem dizer, ainda capacidade orgânica para se afeiçoar à situação mais alta.[...] 

Euclides da Cunha. Os sertões: campanha de Canudos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995. p. 148, 153-154.

Fonte: Língua Portuguesa Ensino Médio. Linguagem em Movimento. Izeti F. Torralvo & Carlos C. Minchillo. Volume 3. 1ª edição. FTD – São Paulo – 2010. p. 20.

Entendendo o romance:

01 – De acordo com o texto, qual o significado das palavras abaixo:

-- Transuda: transpira

-- Sezão: febre cíclica 

-- Delido: aniquilado, destruído

-- Moqueadas: queimadas, tostadas

-- Marcescentes: que murcham, secam

-- Greta-se: racha-se 

-- Marizeiros: árvores nativas do Nordeste do Brasil, de ramos espinhosos 

-- Reverberando: repercutindo 

-- Canícula: calor muito forte

-- Assoberbado: dominado, humilhado

-- Reveses: Desgraças, infortúnios

-- Situação mais alta: situação mais favorável.

02 – Como Euclides da Cunha descreve a chegada da seca no primeiro parágrafo e qual metáfora principal ele utiliza para retratar esse fenômeno natural?

      O autor descreve a seca como um processo inevitável, gradativo e encadeado, que se manifesta por meio de sinais progressivos na paisagem (chuvas rápidas que evaporam, o chão que se greta e as cacimbas que secam). Para retratar esse fenômeno, Euclides da Cunha utiliza a metáfora de uma "moléstia cíclica" (uma doença da própria Terra), comparando os sinais da seca aos sintomas de uma enfermidade assustadora que se repete periodicamente, consumindo o meio ambiente.

03 – De que forma o meio ambiente (a caatinga) reflete o estado de escassez e o calor extremo no trecho analisado? Destaque elementos do texto que comprovam essa transformação.

      A caatinga reflete a aridez extrema ao se desidratar e mudar de aparência. O autor comprova isso através de imagens visuais e sensoriais marcantes:

      Vegetação: A mata ganha tufos pardos de árvores murchas ("marcescentes"), que parecem "cinzeiros de uma combustão abafada, sem chamas";

      Sol e Vento: O Sol espalha "os incêndios inextinguíveis da canícula" (calor extremo) no céu claro, enquanto o vento "nordeste" sopra forte e contínuo, zunindo e uivando entre os galhos secos da vegetação;

      Ausência de água: O chão se fenda ("greta-se"), o nível das águas subterrâneas cai e até a própria flora para de sinalizar umidade (a casca dos marizeiros já não transuda).

04 – Qual é o impacto psicológico e físico de todo esse cenário de privação sobre o sertanejo, segundo o segundo parágrafo?

      Diante do esgotamento total dos recursos naturais e da completa falta de perspectivas de chuva, o sertanejo chega ao seu limite de resistência. Sobrecarregado por sucessivas adversidades ("assoberbado de reveses"), ele acaba se curvando ("dobra-se afinal") perante a força implacável da natureza. O texto evidencia que, apesar de sua força e rusticidade, o sertanejo é momentaneamente vencido pelo rigor extremo do clima e pela impossibilidade de sobrevivência naquelas condições.

05 – Explique a tese determinista do autor expressa no trecho: "...em luta aberta com o meio, que lhe parece haver estampado na organização e no temperamento a sua rudeza extraordinária...".

      Nesse trecho, Euclides da Cunha aplica o determinismo meio-ambiental (conceito muito influente no final do século XIX), segundo o qual o ambiente físico molda as características biológicas e psicológicas do ser humano. O autor argumenta que a convivência diária e a luta constante contra uma natureza hostil e agressiva (a caatinga árida) forjaram no sertanejo um temperamento e um corpo igualmente rústicos, severos e resistentes, "estampando" nele a própria dureza do sertão.

06 – Aponte a denúncia social e política presente no início do último parágrafo ("Insulado deste modo no país que o não conhece...") e contextualize sua importância.

      A denúncia consiste no isolamento e no desconhecimento do sertanejo por parte do restante do Brasil (especialmente pelas elites e pelo poder público do Litoral). Euclides da Cunha evidencia a existência de "dois Brasões": um litoral urbanizado e voltado para a Europa, que ignora completamente a realidade, as necessidades e a existência do povo do interior sertanejo. Essa crítica é central em Os Sertões, pois mostra que o conflito de Canudos foi alimentado pelo preconceito e pela incompreensão do Estado em relação àquela população marginalizada.

  

CONTO: CLARISSA - FRAGMENTO - ÉRICO VERÍSSIMO - COM GABARITO

 Conto: CLARISSA – Fragmento

          Érico Veríssimo

        [...] 

        -- PRRRR-PI-PI!

       Clarissa vai dar de comer às galinhas. Com a mão esquerda segura a ponta do avental, que forma um bojo fofo onde o farelo e os grãos de milho se aninham.

        Tardinha. A sombra da casa vai aos poucos avançando sobre o pátio. O céu empalidece.

        Com a mão direita Clarissa lança no ar punhados de milho e farelo, no gesto de quem semeia.

        Num cacarejar miúdo as galinhas vêm correndo, sacudindo as asas, e começam a dar bicadas a esmo, sôfregas; arranham o chão, comprimem-se, amontoam-se, disputando os grãos. No meio delas os pintinhos arrepiados e encolhidos piam desconsoladamente, perdidos no aglomerado de penas, bicos e patas.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEihXWppuEm6zghmH85mvKyinQrwh3bEuQ-c38K3_1AffP2IHU0X04mbCHeKYsRaHdT_Ezqg1jm2d58kU7OZ1c5iDkzi3d39EKb3UcD59uksZ0l-fv3Fx8Fcyb0QJxvhI6CDq2uNaIMaZ-4mRulqlqp0k_Vy0e-Po1iYK7XQKufn3GfaVQrhp9K_qDBo7hw/s320/images.jpg


        -- Não se apressem! – grita Clarissa – Tem pra todos!

        E cobre o chão de grãos dourados. Ri, com a impressão de que está jogando fora ouro, muito ouro.

        No fundo do pátio um peru preto passeia dum lado para o outro, lento, indiferente ao espetáculo tumultuoso. Por que será que não vem? Falta de apetite? Ou orgulho?

        Clarissa cantarola:

        -- P’ru! P’ru! P’ru!

        Solene como um rei, o peru continua imperturbável, enquanto as galinhas disputam o milho a bicadas violentas. Agora um galo de crista escarlate entra no grupo como um tufão, abrindo caminho à força de empurrões.

        -- Bruto – pensa Clarissa. – Um homem deve ser delicado com as mulheres.

        Oh! Mas o galo não entende a língua dos homens. E no mundo do galinheiro decerto não há etiqueta.

        Clarissa acocora-se. “Acabou-se o que era doce, quem comeu arregalou-se”. Agora, ela pode olhar tranquilamente toda a bicharia do quintal: já cumpriu sua obrigação.

        Que cara engraçada têm as galinhas! Dois olhinhos miúdos como contas, o bico, as penas, os pés. E por que será que chamam pé-de-galinha às rugas que as pessoas que estão envelhecendo têm nos cantos dos olhos? Por que será também que quando o céu está cheio de nuvens finas, tremidas e compridas, transparentes como um véu, dizem que o céu está cheio de rabos-de-galo? Tudo na vida é tão engraçado ...

                              Érico Veríssimo.

Fonte: Língua Portuguesa Palavras. 5ª série. Hermínio Geraldo Sargentim. IBEP. 1ª edição. São Paulo, 2002. p. 124.

Entendendo o conto:

01 – Como as atitudes e os pensamentos de Clarissa ao longo do fragmento revelam a transição entre a infância e a juventude, destacando a sua inocência e imaginação?

      A inocência e a imaginação de Clarissa transparecem na forma poética e lúdica como ela realiza uma tarefa simples do cotidiano. Ela fantasia que o milho jogado é "ouro, muito ouro", compara o peru a um "rei" e projeta sentimentos humanos nos animais (questiona se o peru não come por "orgulho" e julga o galo por não ser "delicado com as mulheres"). Essas reflexões mostram a mente de uma jovem imaginativa que observa o mundo ao seu redor com fascínio, curiosidade e um olhar puro, ainda muito ligado ao universo infantil.

02 – No trecho em que o galo intervém no grupo de galinhas ("-- Bruto – pensa Clarissa. – Um homem deve ser delicado com as mulheres."), ocorre o recurso estilístico da antropomorfização. Explique como esse recurso é utilizado e qual é a reflexão que a personagem faz logo em seguida.

      A antropomorfização ocorre quando Clarissa atribui comportamentos e normas morais humanas ao galo, julgando a violência de suas atitudes na disputa pelo milho como se ele fosse um homem que deveria ser "delicado com as mulheres". Logo em seguida, ela quebra essa projeção ao tomar consciência da realidade: percebe que "o galo não entende a língua dos homens" e que no "mundo do galinheiro decerto não há etiqueta", reconhecendo a diferença entre as convenções sociais humanas e o instinto animal.

03 – O texto de Erico Verissimo destaca-se pela riqueza de imagens sensoriais e onomatopeias. Identifique dois exemplos do fragmento — um auditivo e um visual — e explique como eles contribuem para a construção da cena.

      Exemplo Auditivo: A onomatopeia do início ("-- PRRRR-PI-PI!" e "P’ru! P’ru! P’ru!") e os verbos de som ("cacarejar miúdo", "piam desconsoladamente"). Esse recurso reproduz os ruídos do quintal e o dinamismo da comunicação de Clarissa com as aves.

      Exemplo Visual: A descrição das cores e do ambiente ("sombras da casa", "grãos dourados", "galo de crista escarlate").

      Esses elementos enriquecem o texto ao criar uma atmosfera realista e vibrante, permitindo que o leitor "ouça" o tumulto do galinheiro e "veja" o contraste de cores ao entardecer no pátio.

04 – No final do texto, Clarissa reflete sobre o uso de expressões populares como "pé-de-galinha" e "rabos-de-galo". O que essas reflexões revelam sobre a relação da personagem com a linguagem e a observação da vida?

      Essas reflexões revelam a postura investigativa e poética de Clarissa perante o mundo. Em vez de aceitar as metáforas populares de forma automática, ela para, para analisar a origem e a estranheza das associações entre elementos da natureza (as aves) e a vida humana/fenômenos naturais (as rugas dos olhos e o formato das nuvens no céu). A conclusão de que "tudo na vida é tão engraçado" demonstra sua capacidade de se encantar com a linguagem e com as peculiaridades do cotidiano.

05 – Como o tempo cronológico e a ambientação espacial são apresentados no início do fragmento e de que maneira eles influenciam o ritmo da narrativa?

      O tempo cronológico é marcado pelo final da tarde ("Tardinha", "O céu empalidece", "A sombra da casa vai aos poucos avançando"), e o espaço é o pátio/quintal de uma casa rural ou interiorana. Essa ambientação cria um ritmo inicial calmo e contemplativo que é momentaneamente interrompido pelo "espetáculo tumultuoso" das galinhas buscando o alimento. À medida que a tarefa termina, o ritmo volta a desacelerar, permitindo que a narrativa acompanhe o estado de tranquilidade e reflexão de Clarissa ("Clarissa acocora-se [...] já cumpriu sua obrigação").

 

 

CONTO: PITU CONVERSA COM OS PEIXES - ELIAS JOSÉ - COM GABARITO

 Conto: PITU conversa com os peixes

          Elias José

        Vocês quatro são meus amigos. Gosto de trocar a água, colocar um pouco de comida, pôr a planta aquática para dar mais beleza pra vocês e pro aquário. A água está limpinha, agora, não é mesmo? Daqui de fora parece até que não existe vidro, o aquário está limpinho. Eu gosto muito de vocês quatro, muito mesmo. Minha mãe fica implicando, diz que eu, com esta minha mania de ficar muito tempo olhando vocês, acabo pondo mau-olho. Já meu pai acha que vou pôr é quebranto, pois olho com muito amor. Se eu pudesse, entrava dentro do aquário e ficava nadando com vocês. Mas olhem o meu tamanho, não dá pé. eu também gosto de nadar, mas quando vou aprender a virar estas piruetas todas como vocês? Acho que nunca. Gente não sabe nadar como os peixes, o que é uma pena! Nem tem graça o corpo de gente nas águas. Peixe, sim, é que nada bonito. 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgp7PlZ57pwzLr7aZq3nE3rc6cxzyAmALGVXj3dyY8EDJWosi7NutjfiqpORTFr4NOGSRIgeQ1hKFY-TYGxQMEXJTdgfSJRp-179nj9xe4K_72WjW-xTepivbYGwhitzfvj3sQmjl0KWUy23o4GbIEAk2RgofusI33ZsXGtOWBvwRYEE5fiz2WJhfgjR5Q/s1600/images.jpg


Fico tempo observando os lambaris do Corguinho e eles são muito ágeis, vão pra lá e pra cá, mexem na terra, se escondem nos ramos, mergulham. Mas não fiquem tristes porque falo deles, vocês são bem mais bonitos. A cor dos lambaris é meio prateada, bate o sol e mistura com a água, fica muito bonito. Mas vocês dois vermelhinhos e vocês outros dois, pretinhos, são muito mais bonitinhos. Quando os quatro estão se mexendo na aquário e as cores se misturando, fica mais bonito que arco-íris. E arco-íris é uma coisa maravilhosa! Mais bonito mesmo, só vocês quatro aí. Engraçado, tem um menino novo no Grupo, que veio da escola da roça, que não fala arco-íris e, sim, arco-da-velha. Fica parecendo coisa triste, vocês não acham? Se fosse arco-da-menina ainda passava. O arco-íris, como tudo que é colorido, é tão bonito. Não é mesmo bonito? Engraçado, peixe devia falar, responder às perguntas da gente. então, eu ficaria sabendo se vocês gostam mesmo de ficar presos aí dentro. Dona Cláudia diz que tem dó de peixes e pássaros presos. Que os peixes foram feitos para o tamanho do mar, que até os peixes de rio ela acha triste, quanto mais os de aquário. Passarinho, então, a maldade é maior, porque o mundo todo está aberto para eles. Papai, quando ouviu dona Cláudia falar isto, disse que ela estava querendo fazer os animais sentirem como gente e isto era besteira. Engraçado ele falar assim, porque também ele não gosta que a gente prende passarinho. O louro ele não importou, mas nunca deixou a gente prender em gaiola. Com peixe ele não deve se importar, pois não fala nada de mal ou de bem de vocês. Minha mãe disse que eu podia ficar com vocês, mas ela não tinha tempo de cuidar, trocar água, dar comida e tudo. Até que quando esqueço, ela faz, até sem reclamar. Acho que é porque ela também gosta muito de vocês. Sempre ela também para e fica olhando muito tempo ou fica batendo de fora quando algum parece dormir. Ela até ficou triste quando os dois amiguinhos de vocês morreram. Ela vive me falando para não dar muita comida porque a barriguinha de vocês é pequena e explode e, então, adeus peixinhos queridos.

Elias José. As curtições de Pitu. São Paulo: Melhoramentos, em convênio com o Instituto Nacional do Livro, 1976.

Fonte: Língua Portuguesa Palavras. 5ª série. Hermínio Geraldo Sargentim. IBEP. 1ª edição. São Paulo, 2002. p. 140.

Entendendo o conto:

01 – O conto é estruturado predominantemente como um monólogo dirigido aos peixes do aquário. Explique de que forma o foco narrativo em 1ª pessoa e a ausência de resposta dos interlocutores contribuem para caracterizar a intimidade e a imaginação do personagem Pitu.

      O foco narrativo em 1ª pessoa coloca o leitor diretamente em contato com o fluxo de pensamentos e sentimentos de Pitu. Como seus interlocutores (os peixes) são seres inanimados à linguagem humana e não respondem, a conversa se torna um monólogo subjetivo. Esse recurso explicita a afetuosidade, a sensibilidade e a rica imaginação do garoto, que projeta em seus animais de estimação sentimentos, cúmplices de dúvidas existenciais e reflexões cotidianas sobre sua família e o mundo.

02 – No trecho, Pitu menciona a opinião de Dona Cláudia e a reação de seu pai sobre a criação de peixes e pássaros presos. Compare a visão de Dona Cláudia e a do pai de Pitu a respeito da relação entre seres humanos e animais.

      Dona Cláudia adota uma postura empática e de antropomorfização dos animais, acreditando que mantê-los presos os priva de sua natureza e liberdade ("os peixes foram feitos para o tamanho do mar"). Já o pai de Pitu assume uma postura mais pragmática e racional, alegando que é "besteira" querer fazer com que os animais sintam e raciocinem como gente. Contudo, o texto sugere uma contradição no pai, pois, embora critique a ideia de Dona Cláudia, ele próprio proíbe a prisão de pássaros em gaiolas.

03 – O texto do conto utiliza uma linguagem bastante informal e espontânea. Identifique dois exemplos de expressões coloquiais ou construções típicas da linguagem oral presentes no texto e explique qual efeito elas produzem na narrativa.

      Dois exemplos de marcas de oralidade são:

      Expressões e construções populares: "não dá pé" (indicando limitação física/tamanho), "pôr mau-olho" ou "quebranto", e "Gente não sabe nadar..." (omissão do artigo definido antes do substantivo);

      Repetição da conjunção e advérbio interrogativo: O uso frequente de "Engraçado..." e de perguntas retóricas para conduzir o próprio raciocínio ("vocês não acham?", "Não é mesmo bonito?").

      Esses recursos conferem verossimilhança ao texto, aproximando o registro do narrador-personagem da fala natural de uma criança brasileira.

04 – Pitu reflete sobre a expressão usada por um novo colega da escola ao se referir ao arco-íris: "Engraçado, tem um menino novo no Grupo, que veio da escola da roça, que não fala arco-íris e, sim, arco-da-velha." O que esse trecho revela sobre a variação linguística e sobre a percepção poética do garoto?

      O trecho evidencia o fenômeno da variação linguística regional e cultural (o termo "arco-da-velha", trazido pelo menino que veio da roça). Ao mesmo tempo, revela a sensibilidade poética de Pitu, que analisa a carga semântica e emocional das palavras: para ele, a palavra "velha" traz uma conotação triste para algo tão bonito e colorido quanto o fenômeno do arco-íris, sugerindo que "arco-da-menina" seria um nome mais adequado.

05 – Embora a mãe de Pitu afirme inicialmente que não tem tempo para cuidar dos peixes, suas atitudes ao longo do conto demonstram o contrário. Como a conduta da mãe revela seu afeto indireto pelos animais?

      A mãe demonstra afeto pelos peixes de forma indireta por meio de ações de cuidado e preocupação: ela assume a limpeza do aquário e a alimentação quando o filho se esquece; para diante do aquário para observá-los; bate no vidro para checar se estão bem quando parecem dormir; demonstra tristeza genuína quando dois peixes morreram e orienta carinhosamente Pitu a não exagerar na ração para não machucar os animais ("a barriguinha de vocês é pequena e explode").

 

domingo, 9 de agosto de 2026

TEXTOS: DISSERTATIVOS ARGUMENTATIVOS - COM GABARITO

 Textos: Dissertativos Argumentativos

 

        Os textos dissertativos argumentativos procuram emitir uma visão pessoal de questões relevantes nos mais diversos campos: economia, política, comportamento, cultura, psicologia, educação, saúde, ecologia etc. Pode-se dizer que esses textos querem convencer os leitores, muitas vezes contrapondo-se ao senso comum, isto é, àquilo que todo mundo repete sem necessariamente analisar.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhbS9ZSzlB0HD9_Tit1Kx2CnTVWgtuvw1Z85lf3wCjxf-cqG39Q0solPU4t_g1v9LlqspRFSfiXrrEHKXwD0LITu3UXXXmWbhHM5Ke2zE7zNb-kt09xDjnB0gtZHmWr9XSowDjZVTwXWJOzxbat9GPxgoF55SdWjkQtbzM98i1myZSc1N44usYbfNhpAbw/s320/images.jpg 


        O texto dissertativo deve ser bem estruturado e é por isso que se recomenda que a redação siga, em linhas gerais, o esquema abaixo, dividido em três partes.

        Introdução – 1º parágrafo: Apresentação do tema e da tese.

        Desenvolvimento (argumentação) – 2º ou 3º parágrafos centrais: comprovação da tese por meio de comentários e análises sustentados por dados estatísticos, exemplos, informações históricas, geográficas e científicas.

        Conclusão – último parágrafo: Finalização da discussão, de modo a sintetizar os aspectos discutidos e reafirmar a tese. Dependendo do tema, é possível que na conclusão se anunciem propostas de ação convenientes.

 

Entendendo o texto:

01 – É aconselhável empregar a 1ª pessoa do singular?

      Não. A dissertação procura convencer o leitor. Para isso, as opiniões só valem se forem comprovadas, de modo que pareçam “universalmente” válidas. Assim, não interessa tanto quem emite as opiniões, mas os argumentos que é capaz de apresentar. Daí ser preferível não utilizar o eu, mas uma linguagem mais impessoal.

 

02 – Pode-se empregar a 1ª pessoa do plural?

      Sim. O emprego de nós se justifica quando se refere a um conjunto adequado ao tema e suficientemente compreensível no contexto: nós, pode se referir aos brasileiros, a toda a humanidade, aos jovens. Não cai bem usar o nós para se referir a um grupo muito restrito, específico, como “nós, que moramos na Zona Oeste da cidade”, a não ser que esse grupo seja central para o tema da dissertação.

 

03 – A linguagem precisa ser formal?

      Em termos. A linguagem da dissertação deve estar de acordo com as normas mais importantes da gramática (grafia, acentuação, pontuação, concordância, regência), de modo a não comprometer o entendimento do leitor nem depor contra o texto (quem confia em um autor que erra constantemente a grafia das palavras?). por outro lado, não é preciso exagerar: é péssimo hábito usar palavras desconhecidas apenas porque soam difíceis, empregar termos técnicos sem necessidade, adotar uma linguagem “barroca”, com frases longas e cheias de inversões e intercalações. Tudo o que dificulta inutilmente o entendimento do texto e parece simples enfeite deve ser evitado.

 

04 – Posso inventar dados e exemplos?

      Não. Em hipótese nenhuma devem ser incluídos dados e exemplos que não correspondam à realidade. A dissertação, como qualquer outro texto opinativo argumentativo, não pode, sob pena de perder a credibilidade, falsificar informações para comprovar um ponto de vista.

 

05 – É aceitável usar frases de terceiros?

      Sim. A citação de filósofos, cientistas sociais, artistas, psicólogos, médicos é uma ótima estratégia de convencimento, desde que inclua no texto a voz de personalidades reconhecidamente autorizadas a opinar sobre o assunto. Mas não exagere: não faça de sua dissertação uma simples colagem de frases de outro, deixando de emitir sua opinião.

 

06 – Posso propor perguntas no texto?

      Sim. Fazer perguntas pode ser uma boa estratégia tanto na introdução quanto no desenvolvimento ou na conclusão. A resposta nem precisa vir imediatamente na sequência, mas o texto deve dar pistas para que o leitor consiga, ao final, chegar a uma resposta.

 

07 – É aceitável empregar linguagem metafórica?

      Sim. Desde que o leitor consiga entender as metáforas e outras figuras de linguagem empregadas na dissertação, é possível dar sabor à linguagem dissertativa por meio da conotação. A ironia é igualmente uma arma poderosa na crítica.

 

08 – Pode-se defender mais de uma opinião simultaneamente?

      Em termos. O texto dissertativo não pode ser incoerente. Não se deve afirmar que existe um problema e depois chegar a uma conclusão contrária. Mas é possível mostrar que, em certas circunstâncias, uma ideia é verdadeira, enquanto em outras circunstâncias, ela deixa de o ser. Um fato pode ser vantajoso num certo aspecto, mas representa uma desvantagem em outros. Nesses casos, o importante é discutir quais são essas circunstâncias e quais são esses aspectos.

 

09 – É aconselhável analisar o tema sob mais de um ângulo?

      Sim. É muito importante perceber que a maioria dos temas permite análises distintas, dependendo da perspectiva que se adote. É enriquecedor que a dissertação consiga — sem cair na contradição nem no simples impasse — revelar a perspectiva dos diferentes envolvidos (médicos/pacientes; governo/povo; jovens/pais; economistas/sindicalistas etc.) em relação ao tema discutido.

 

 

CHARGE: O CONSTANTE DIÁLOGO - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - COM GABARITO

 O constante diálogo

 


Há tantos diálogos

Diálogo com o ser amado
                     o semelhante
                     o diferente
                     o indiferente
                     o oposto
                     o adversário
                     o surdo-mudo
                     o possesso
                     o irracional
                     o vegetal
                     o mineral
                     o inominado

Diálogo consigo mesmo
             com a noite
             com os astros
             com os mortos
             com as ideias
             com o sonho
             com o passado
             com o mais que futuro

Escolhe teu diálogo
             e
tua melhor palavra
             ou
teu melhor silêncio
Mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos.




 

    Carlos Drummond de Andrade.

Entendendo o diálogo:

01 – De acordo com a primeira estrofe, qual é a característica fundamental do diálogo na experiência humana?

a) Sua natureza puramente afetiva.

b) Sua limitação aos seres vivos.

c) Sua multiplicidade e abrangência.

d) Sua dependência da fala oral.

 

02 – Na segunda seção do poema, o 'Diálogo consigo mesmo' é expandido para incluir elementos como a noite e os astros. O que essa associação sugere?

a) A fusão entre o eu e o cosmos.

b) O desprezo pelas relações sociais.

c) O medo do desconhecido e da morte.

d) A solidão absoluta do indivíduo.

 

03 – O que o eu lírico propõe ao leitor na estrofe que começa com 'Escolhe teu diálogo'?

a) O exercício da autonomia e consciência.

b) A priorização da fala sobre o silêncio.

c) A busca por respostas definitivas.

d) A rejeição de conversas com adversários.

 

04 – Qual é a função do termo 'melhor' aplicado tanto à palavra quanto ao silêncio?

a) Indicar a importância da qualidade ética.

b) Sugerir que a palavra supera o silêncio.

c) Expressar a dificuldade de se comunicar.

d) Apontar para um julgamento alheio.

 

05 – Como os dois últimos versos — 'Mesmo no silêncio e com o silêncio / dialogamos' — encerram a tese do poema?

a) Criticando a falta de comunicação verbal.

b) Afirmando a impossibilidade do não-diálogo.

c) Sugerindo que o diálogo é um fardo pesado.

d) Definindo o silêncio como um fim em si.

 

 

 

 

 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

CONTO: LI NA E O IMPERADOR - ANDREA LEIBERS - COM GABARITO

 Conto: Li Na e o Imperador

          Andrea Liebers

        Há muito, muito tempo, na China longínqua, vivia uma mulher idosa num pequeno barco ancorado no Rio Amarelo. Chamava-se Li Na e era calígrafa.

        Li Na tinha trabalhado toda a vida para alcançar a perfeição na sua arte. Muitas pessoas sabem escrever, mas só um artista consegue exprimir a verdade através de alguns traços desenhados numa folha.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjsglTBp4XkS2hhXoHi6qQ7lVHxvNk5lWu8FLpBO7e7srY6ftThr3GW21kECgQyrlYsZ0iBIAOLg9JmGkZwLY3qPFecRee8bi5ABzl_PSu2Bi2j6FVTxP8dJn3bQX9-yS3uFv2S9bsPqyFMhw1TvkhAIpEYKuUCkgJhqlG8wQ2iLc2KmXEIRl93twCNVr8/s1600/images.jpg


        Por essa altura vivia na capital da China um imperador. Habitava um imenso palácio, cuja entrada estava proibida às pessoas comuns. Era muito rico, muito poderoso e cruel. Até mesmo a mulher e os filhos tinham medo dele.

        Em contrapartida, toda a gente gostava da velha calígrafa. Vinham de toda a parte admirar as suas obras de arte. — Desenha o signo do amor! — pediam-lhe. Ou então: — Queríamos oferecer à nossa mãe um ideograma que lhe devolva a alegria.

        Li Na molhava o seu pincel na tinta preta e, com gestos elegantes, traçava sobre o papel o ideograma do amor ou o da felicidade. E todos regressavam a casa, felizes e com uma sensação de plenitude.

        Felicidade, alegria, amor, amizade, perdão: Li Na experimentara todos estes sentimentos e podia, assim, exprimi-los através de um ideograma. Mas, às vezes, eram precisos dias ou semanas para que a velha calígrafa pudesse alcançar o sentido profundo de um signo.

        Para traduzir a verdade de uma flor, fora preciso que Li Na se transformasse numa flor. Tinha tido de sentir o que sente uma flor quando o orvalho vem pousar sobre as suas folhas, ou quando a corola se abre lentamente. E também precisara de sentir o que a flor sente quando murcha e perde as pétalas. Pois Li Na exercia a sua arte com mestria. A velha calígrafa tinha uma aluna, San Li, que vivia com ela no barco. San Li já conhecia a folha de papel adequada a cada ideograma. Também sabia preparar a tinta e tinha tido as primeiras aulas de caligrafia.

        Certa manhã, uma grande agitação veio perturbar as margens do Rio Amarelo. O Imperador aproximava-se do barco da velha calígrafa. Cem guerreiros precediam o seu palanque incrustado de ouro, cem guerreiros seguiam-no e cem guerreiros protegiam os seus flancos. O Imperador ordenou que parassem diante do barco de Li Na. Um criado chamou-a:

        — O Imperador ordena que lhe traces um ideograma. Nele deves exprimir a grandeza do seu império, a sua riqueza infinita e o seu poder inabalável!

        Li Na empurrou a porta vacilante do seu barco e saiu. San Li, escondida atrás da porta, tentava avistar o Imperador. Mas as cortinas do palanque, tecidas em fio de prata, protegiam-no dos olhares. A sua voz era forte e sonora.

        — De quanto tempo vais precisar? — perguntou num tom imperioso que fez tremer San Li.

        — O tempo necessário para compreender a natureza do vosso poder! — respondeu, num tom firme, a velha calígrafa.

        San Li admirou o sangue frio da sua professora.

        — Um criado virá buscar a caligrafia dentro de uma semana.

        O Imperador bateu três vezes com o bastão da sua bengala na parede do palanque e partiu.

        Cheios de medo, os habitantes da aldeia tinham-se escondido nas suas casas ou nos seus barcos. O Imperador raramente saía do palácio, e raros eram os que o tinham visto com os seus próprios olhos. Como resplandecia o palanque! Como pareciam invencíveis os guerreiros! Seguros do seu poder, ostentavam as armas, e o chão tremia devido ao peso dos seus passos.

        Depois da visita do Imperador, a velha calígrafa tinha mergulhado num profundo silêncio. A ninguém dirigia a palavra, nem mesmo a San Li. Refletia, sentada na ponte do barco. Como poderia ela medir a grandeza do império, se nunca tinha entrado no palácio imperial? Como poderia imaginar a imensidão das riquezas, se nada possuía? Como poderia compreender o poder, se nunca tinha mandado em ninguém?

        Quando o sol se pôs sobre o Rio Amarelo, Li Na continuava sentada no mesmo sítio. Perdida nos seus pensamentos, fixava o rio. Não reagiu quando San Li lhe trouxe uma taça de arroz e um pouco de chá perfumado. Tinha adormecido e a lua fazia brilhar reflexos de prata nos seus cabelos.

        Passou-se uma semana. Um criado do palácio veio buscar a caligrafia. Desolada, a velha abanou a cabeça:

        — Lamento, mas não posso corresponder ao pedido do Imperador. Nunca entrei no palácio imperial, nada sei das cerimónias da corte. Império e poder são palavras que me são estranhas. Será que me podes trazer um objeto do palácio? Qualquer coisa em que o Imperador toque todos os dias.

        O criado prometeu fazê-lo. Uma semana mais tarde, trouxe-lhe um tapete sumptuoso e uma taça em ouro. Como Li Na não estava visível, entregou-os à aluna. San Li recebeu os objetos, a tremer.

        — Entrega-os à tua professora! — ordenou o criado do Imperador. — Mas ai de ti se os sujares ou estragares. O Imperador mandava-vos às duas para a prisão!

        Incapaz de proferir palavra, San Li abanou a cabeça.

        — Volto dentro de uma semana! A caligrafia tem de estar pronta!

        Passou-se uma semana e o criado voltou.

        — Não consigo traduzir para o papel o poder do Imperador — disse a velha numa voz trémula. — Traz-me uma espada ou outra arma qualquer com a qual o Imperador exerce o poder sobre os seus inimigos.

        — Verei o que posso fazer! — respondeu o criado e afastou-se a cavalo.

        Alguns dias mais tarde, trouxe uma espada pesada. Li Na estava sentada, imóvel e silenciosa. San Li cortava folhas de papel. Não havia vestígios de qualquer caligrafia, nem sequer de um esboço.

        — De quanto tempo precisas ainda? — perguntou o criado.

        Uma vez que a velha não respondia, dirigiu-se à aluna:

        — Quando estará pronta a caligrafia? O Imperador está impaciente.

        San Li encolheu os ombros.

        — Não sei — disse timidamente.

        O criado deixou passar três meses até voltar de novo à margem do Rio Amarelo. Desta vez a calígrafa entregaria o trabalho, pensava ele. Mas estava enganado.

        — Li Na deu ordens para que não a perturbassem, sob pretexto algum — anunciou-lhe a aluna. — Volta dentro de um mês e levarás a caligrafia do Imperador.

        O homem ficou apavorado. Quando o Imperador ouvisse dizer que a caligrafia não estava pronta, culpá-lo-ia, decerto.

        — Porque demora tanto tempo? — perguntou à rapariga.

        — Li Na tem de compreender primeiro o poder do Imperador antes de pegar no pincel.

        San Li baixou os olhos.

        — A encomenda do Imperador exige algo de completamente diferente daquilo que a minha professora pintou até agora — disse em voz baixa.

        O criado abanou a cabeça, mostrando que compreendia. Mas será que o Imperador compreenderia? Mas o Imperador não compreendeu. Quando viu o criado voltar de mãos vazias, meteu-o na prisão. Como ousavam desafiar as suas ordens? Iria ele mesmo falar com a calígrafa e buscar o que lhe pertencia.

        Vestido de forma magnífica, pôs-se a caminho com a sua comitiva. Quando viram os soldados aproximarem-se do rio, os habitantes da aldeia meteram-se nas suas embarcações. San Li enfiou-se, aterrorizada, na cozinha, quando o palanque do Imperador parou diante do barco de Li Na.

        Acompanhado por quatro guardas, o Imperador entrou no quarto da calígrafa.

        — Onde está a caligrafia que te mandei pintar?

        Li Na aproximou-se. Tinha na mão um grande pincel, do qual ainda escorria tinta. Diante dela estava um rolo de papel. Sem proferir palavra, sem olhar para o Imperador, inclinou-se e, com alguns gestos precisos, traçou no papel o signo do poder.

        Aterrado, o Imperador recuou. Os guardas desembainharam as espadas para o proteger. O signo do poder era violento e cruel, ameaçador e hostil, duro e gelado. Dir-se-ia que dominava o quarto todo. Os guardas recuaram, a tremer. O Imperador empalideceu, mas esforçou-se por mostrar que não estava impressionado.

        — Por que me fizeste esperar tantos meses se conseguiste fazer a caligrafia em tão pouco tempo? — perguntou, enfurecido, a Li Na.

        — Precisei deste tempo para compreender o vosso poder — respondeu a velha calígrafa, numa voz doce, mas firme.

        Arrumou o pincel e olhou o Imperador nos olhos. Depois pegou no seu selo e imprimiu‑o no papel de arroz, ao lado do trabalho.

        Passaram-se vários minutos num silêncio absoluto. A tinta secou. Li Na fez sinal a dois guardas para pegarem no rolo de papel. Sem sequer esperarem pela autorização do Imperador, fizeram o que a calígrafa lhes ordenara. O Imperador compreendeu, então, que ela tinha captado a natureza do seu poder.

        Apressou-se a enrolar o papel e levou-o para o palácio. Uma vez lá chegado, retirou-se para os seus aposentos privados e deu ordens para que ninguém o perturbasse. Nem mesmo a sua família ou os seus ministros.

        Desenrolou no chão a caligrafia de Li Na e pôs-se a contemplá-la. Sentiu um frio imenso percorrer-lhe o corpo. A sua garganta parecia ter sido estrangulada. Era isso o frio glacial do medo. O punho de aço do pavor. O gosto amargo da crueldade. O poder da cupidez e da violência.

        Reinava no palácio um silêncio de morte. Após uma longa espera, o primeiro guarda do Imperador aproximou-se, hesitante, da porta do quarto do seu senhor.

        — Vossa Majestade não se sente bem? — perguntou, timidamente. Como não ouvisse resposta, abriu a porta, com prudência. O Imperador tinha os olhos cravados no chão, onde a caligrafia de Li Na se encontrava desenrolada. E chorava. O Imperador da China chorava! Sem soluços, sem gemidos. Nenhum som saía dos seus lábios. As lágrimas corriam silenciosas pelo seu rosto.

        — É isto o poder do Imperador? Angústia e medo? Serei assim tão cruel? — murmurava.

        Apercebeu-se da presença do guarda. Este, com um movimento lento da cabeça, assentiu:

        — Sim, Vossa Majestade é cruel.

        Falara num tom firme, com os olhos postos no Imperador. Este desviou os olhos da caligrafia e fixou o criado, estupefato. Abanou o punho, ameaçador. A tremer de cólera, abriu a boca. Contudo, baixou o braço e, sem proferir palavra, começou a chorar.

        No barco ancorado no Rio Amarelo, a velha calígrafa arrumava o seu material. Papel e pincel, pedra de tinta e selo tinham voltado ao seu lugar. Para terminar, Li Na estendeu o tapete do Imperador no chão e colocou a taça de ouro numa prateleira. Num canto pôs a espada incrustada de pedras preciosas. Sorria. Nessa manhã, o criado do palácio tinha voltado.

        — O Imperador dá-te estes objetos como paga pelo teu trabalho — explicou-lhe.

        — Foste preso? — perguntou San Li, curiosa.

        O homem abanou a cabeça:

        — Sua Majestade libertou todos os que tinham sido injustamente presos. Desde que pendurou a caligrafia de Li Na, tornou-se um homem diferente.

        Quando o criado se foi, Li Na chamou a sua aluna.

        — San Li, queres aprender o signo da verdade?

        — Sim, quero! — respondeu a menina, com entusiasmo.

       Excitada, olhou para a mão de Li Na que, calmamente, pegava no grande pincel.

Andrea Liebers. Li Na et l’empereur. Toulouse, Milan, 2002. (Tradução e adaptação).

Entendendo o conto:

01 – O que diferenciava a arte da velha calígrafa Li Na da escrita das outras pessoas e como ela conseguia alcançar a verdade de cada ideograma?

      Diferente das pessoas comuns que apenas sabiam escrever, Li Na conseguia exprimir a verdade através dos seus traços. Para alcançar a essência profunda de um signo, ela precisava mergulhar e vivenciar o sentimento ou o elemento que iria desenhar. Por exemplo, para traduzir a verdade de uma flor, precisou sentir-se como uma flor abrindo as pétalas, recebendo o orvalho e murchando.

02 – Qual foi a ordem dada pelo Imperador à calígrafa Li Na e qual foi a resposta dela quanto ao tempo necessário para realizar o trabalho?

      O Imperador ordenou que Li Na traçasse um ideograma que expressasse a grandeza do seu império, a sua riqueza infinita e o seu poder inabalável. Corajosa e firme, Li Na respondeu que precisaria do tempo necessário para compreender a verdadeira natureza do poder do Imperador.

03 – Diante da dificuldade inicial em retratar o poder e o império, quais objetos Li Na solicitou ao criado do palácio e com qual finalidade?

      Por nunca ter entrado no palácio, mandado em ninguém ou possuído riquezas, Li Na pediu primeiro um objeto em que o Imperador tocasse todos os dias (recebendo um tapete suntuoso e uma taça de ouro) e, depois, uma arma com a qual ele exercesse o poder sobre os inimigos (uma espada pesada). Ela solicitou esses itens para conseguir sentir, conectar-se e compreender a essência do poder e da rotina imperial.

04 – Como era visualmente a caligrafia do "signo do poder" traçada por Li Na e qual foi a reação imediata do Imperador e de seus guardas ao contemplá-la?

      O signo traçado era violento, cruel, ameaçador, hostil, duro e gelado, parecendo dominar todo o ambiente. Ao olharem para a obra, o Imperador e seus guardas ficaram aterrados; os guardas desembainharam as espadas para proteção, mas logo recuaram a tremer, enquanto o Imperador empalideceu diante da força assustadora do retrato de seu próprio poder.

05 – Ao examinar a caligrafia a sós em seus aposentos, o que o Imperador sentiu e qual revelação dolorosa ele teve sobre si mesmo?

      A sós no quarto, o Imperador sentiu um frio glacial de medo, um sufocamento na garganta e o gosto amargo da violência e da cupidez. Ele caiu em prantos ao compreender que o seu poder gerava apenas angústia e pavor, confrontando-se com a dura realidade de sua própria crueldade.

06 – Quais transformações ocorreram no comportamento do Imperador e na administração do reino após a entrega da caligrafia?

      Impactado pelo choque de realidade trazido pela arte de Li Na, o Imperador tornou-se um homem completamente diferente. Ele libertou todos aqueles que haviam sido injustamente presos (como o próprio criado), deixou de agir de forma tirânica e presenteou Li Na com o tapete, a taça de ouro e a espada em gratidão pelo ensinamento.

07 – No desfecho do conto, qual ensinamento a mestre Li Na se dispõe a transmitir à sua aluna San Li e qual é o significado desse momento para a narrativa?

      Li Na convida San Li a aprender o "signo da verdade". Esse momento simboliza a transmissão da verdadeira essência da arte caligráfica, mostrando que a verdadeira maestria não reside na adulação aos poderosos, mas na capacidade da arte de refletir a realidade com coragem, sensibilidade e sabedoria transformadora.