domingo, 22 de março de 2026

POEMA: ODE PARA O FUTURO - JORGE DE SENA - COM GABARITO

 POEMA: Ode para o futuro

                     JORGE DE SENA

 

Falareis de nós como de um sonho.

Crepúsculo dourado. Frases calmas.

Gestos vagarosos. Música suave.

Pensamento arguto. Sutis sorrisos.

Paisagens deslizando na distância.

Éramos livres. Falávamos, sabíamos,

e amávamos serena e docemente.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhQpvp517m2ayXTXbj4Ne6_h0H3lEesHaBhS62-Tm1rCdNiAjZ2gygaMlCDS_V-wx6oTc3Na0mkchyphenhyphenkHvTrtkZZ14P0A93yk2whKK-3wpElMB8MR-oE0T7vp8JFb7m3XlbNeeudr041YX0L_UrMFgHojrmu4V57UistDo0rH2ezgdu33WEcPiHBxsrkrKA/s320/3452172-dourado-crepusculo-amanhecer-ceu-antes-do-sol-ceu-fundo-foto.jpg
 

Uma angústia delida, melancólica,

sobre ela sonhareis.

 

E as tempestades, as desordens, gritos,

violência, escárnio, confusão odienta,

primaveras morrendo ignoradas

nas encostas vizinhas, as prisões,

as mortes, o amor vendido,

as lágrimas e as lutas,

o desespero da vida que nos roubam

- apenas uma angústia melancólica,

sobre a qual sonhareis a idade de ouro.

 

E, em segredo, saudosos, enlevados6,

falareis de nós - de nós! - como de um sonho.

JORGE DE SENA

www.letras.ufrj.br

 

Entendendo o texto

01. Qual é a principal atitude do eu lírico em relação à forma como as gerações futuras perceberão o presente?

a.   O eu lírico espera que o futuro aprenda com os erros do presente para não repeti-los.

b.   O eu lírico expressa indiferença sobre como a história será contada nos séculos vindouros.

c.   O eu lírico acredita que o futuro entenderá perfeitamente todas as dores e lutas da época atual.

d.   O eu lírico prevê que o futuro verá o presente de forma idealizada e distorcida, como uma 'idade de ouro'.

02. No trecho 'Frases calmas. / Gestos vagarosos. Música suave.', qual figura de linguagem é predominante para construir a imagem que o futuro terá do presente?

a.   Onomatopeia, para reproduzir os sons da natureza descrita no poema.

b.   Assíndeto, através da omissão de conjunções para criar uma enumeração de imagens estáticas.

c.   Personificação, atribuindo sentimentos humanos à música e aos gestos.

d.   Hipérbole, para exagerar o barulho e a agitação da vida moderna.

03. A antítese é uma figura central no poema. Qual das oposições abaixo melhor representa o conflito entre a 'aparência' e a 'realidade' descrita por Jorge de Sena?

a.   A diferença entre o 'amor vendido' e as 'lágrimas' de quem sofre.

     b.   O contraste entre o 'crepúsculo dourado' (visão do futuro) e as 'prisões/mortes' (realidade vivida).

    c.   O embate entre as 'primaveras morrendo' e as 'encostas vizinhas'.

    d.   A oposição entre o 'segredo' e o ato de 'falar' mencionado na última estrofe.

04. Ao utilizar a expressão 'idade de ouro' para se referir ao modo como o futuro verá o presente, o eu lírico utiliza qual recurso expressivo?

a.   Eufemismo, para suavizar a dor das prisões citadas anteriormente.

b.   Ironia, pois o presente é marcado por violência e falta de liberdade, o oposto de uma era dourada.

c.   Metonímia, substituindo a parte (o ouro) pelo todo (a riqueza do presente).

d.   Pleonasmo, reforçando que o futuro será necessariamente melhor que o agora.

05. Qual é o efeito de sentido da repetição da expressão 'de nós' com pontos de exclamação na última estrofe?

a.   Indicar que o eu lírico está chamando as pessoas do futuro para um diálogo direto.

b.   Sugerir que o eu lírico tem dúvidas sobre quem são os verdadeiros responsáveis pelas 'tempestades'.

c.   Demonstrar a alegria do eu lírico por saber que será lembrado com carinho.

d.   Enfatizar a indignação ou o espanto do eu lírico diante da incompreensão futura sobre sua existência real.

 

ARTIGO DE OPINIÃO: DO BOM USO DO RELATIVISMO - LEONARDO BOFF - COM GABARITO

 Artigo de Opinião: Do bom uso do relativismo

                              Leonardo Boff

Hoje pela multimídia, imagens e gentes do mundo inteiro nos entram pelos telhados, portas e janelas e convivem conosco. É o efeito das redes globalizadas de comunicação. A primeira reação é de perplexidade que pode provocar duas atitudes: ou de interesse para melhor conhecer que implica abertura e dialogo ou de distanciamento que pressupõe fechar o espírito e excluir. De todas as formas, surge uma percepção incontornável: nosso modo de ser não é o único. Há gente que, sem deixar de ser gente, é diferente. Quer dizer, nosso modo de ser, de habitar o mundo, de pensar, de valorar e de comer não é absoluto. Há mil outras formas diferentes de sermos humanos, desde a forma dos esquimós siberianos, passando pelos yanomamis do Brasil até chegarmos aos sofisticados moradores de Alfavilles onde se resguardam as elites opulentas e amedrontadas. 

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhH4l5oHnotC088QVUBOsP15HUcRur8H109xHQc16J9vm0-X5KaJyYXNd2cUPNGR3Sr6l0tulah2aTLz4qsOaCHGFKVGTw7Qc3T8wSkl9ReGt6lNdzjEe_wJAisS5WWjS4ezImNtGTaW60Pau5a49uUDuw7ZIbFba90zmF3x-n0kVDqupAQmNyyJQKWB7g/s1600/relativismo1-6d330290.jpg


O mesmo vale para com as diferenças de cultura, de língua, de religião, de ética e de lazer. Deste fato surge, de imediato, o relativismo em dois sentidos: primeiro, importa relativizar todos os modos de ser; nenhum deles é absoluto a ponto de invalidar os demais; impõe-se também a atitude de respeito e de acolhida da diferença porque, pelo simples fato de estar-ai, goza de direito de existir e de co-existir; segundo, o relativo quer expressar o fato de que todos estão de alguma forma relacionados. Eles não podem ser pensados independentemente uns dos outros porque todos são portadores da mesma humanidade. Devemos alargar, pois, a compreensão do humano para além de nossa concretização. Somos uma geosociedade una, múltipla e diferente. Todas estas manifestações humanas são portadoras de valor e de verdade. Mas é um valor e uma verdade relativos, vale dizer, relacionados uns aos outros, auto-implicados, sendo que nenhum deles, tomado em si, é absoluto. Então não há verdade absoluta? Vale o every thing goes de alguns pós modernos? Quer dizer, o “vale tudo”? Não é o vale tudo. Tudo vale na medida em que mantém relação com os outros, respeitando-os em sua diferença. Cada um é portador de verdade, mas ninguém pode ter o monopólio dela. Todos, de alguma forma, participam da verdade. Mas podem crescer para uma verdade mais plena, na medida em que mais e mais se abrem uns aos outros. Bem dizia o poeta espanhol António Machado: ”Não a tua verdade. A verdade. Vem comigo buscá-la. A tua, guarde-a”. Se a buscarmos juntos, no diálogo e na cordialidade, então mais e mais desaparece a minha verdade para dar lugar a Verdade comungada por todos. A ilusão do Ocidente é de imaginar que a única janela que dá acesso à verdade, à religião verdadeira, à autêntica cultura e ao saber crítico é o seu modo ver e de viver. As demais janelas apenas mostram paisagens distorcidas. Ele se condena a um fundamentalismo visceral que o fez, outrora, organizar massacres ao impor a sua religião e, hoje, guerras para forçar a democracia no Iraque e no Afeganistão. Devemos fazer o bom uso do relativismo, inspirados na culinária. Há uma só culinária, a que prepara os alimentos humanos. Mas ela se concretiza em muitas formas, as várias cozinhas: a mineira, a nordestina, a japonesa, a chinesa, a mexicana e outras. Ninguém pode dizer que só uma é a verdadeira e gostosa e as outras não. Todas são gostosas do seu jeito e todas mostram a extraordinária versatilidade da arte culinária. Por que com a verdade deveria ser diferente?

Entendendo o texto

01.Segundo o primeiro parágrafo, qual é a principal causa da nossa convivência atual com imagens e pessoas do mundo inteiro?

a. O efeito das redes globalizadas de comunicação e da multimídia.

b. A vontade das pessoas de morarem em outros países.

c. O aumento do turismo em massa para o Brasil.

d. A leitura de livros antigos sobre diferentes culturas.

02. O autor afirma que a percepção de que nosso modo de ser não é o único é "incontornável". O que isso significa no contexto do texto?

a. Que podemos facilmente ignorar as outras culturas.

b. Que é impossível não perceber que existem outras formas de viver além da nossa.

c. Que as outras culturas são menos importantes que a nossa.

d. Que todos os seres humanos pensam e comem da mesma maneira.

03. Qual é o primeiro sentido de "relativismo" apresentado pelo autor?

a. Que cada um deve viver isolado em seu próprio mundo.

b. Que as elites devem ser protegidas em condomínios fechados.

c. Que nenhum modo de ser é absoluto e todos merecem respeito e acolhida.

d. Que a nossa cultura é a única que possui a verdade total.

04. O autor utiliza a expressão "vale tudo" para explicar o relativismo?

a. Sim, ele defende que qualquer comportamento é aceitável, mesmo sem respeito.

b. Sim, ele acredita que não existem regras na sociedade moderna. c. Não, ele afirma que apenas a cultura ocidental tem as regras corretas.

d. Não, ele diz que "tudo vale" apenas na medida em que se mantém a relação e o respeito pela diferença do outro.

05. Qual é a crítica que Leonardo Boff faz ao "Ocidente" no texto?

a. A ilusão de achar que o seu modo de ver e viver é a única janela para a verdade.

b. Que o Ocidente não tem tecnologia suficiente para a comunicação.

c. O fato de o Ocidente gostar muito de culinária estrangeira.

d. A falta de interesse do Ocidente em organizar guerras e massacres.

06. Para explicar o bom uso do relativismo, o autor faz uma comparação com qual área do conhecimento humano?

a. A Engenharia, comparando os povos a grandes construções.

b. A Culinária, mostrando que existem várias cozinhas gostosas e verdadeiras.

c. A Medicina, comparando a verdade a um remédio para a alma.  d. O Esporte, dizendo que a vida é uma competição entre as nações.

07. No final do texto, ao citar o poeta António Machado, qual é a mensagem transmitida sobre a "Verdade"?

a. Que cada pessoa deve guardar sua verdade e nunca compartilhá-la.

b. Que a verdade não existe e ninguém deve procurá-la.

c. Que a verdade pertence apenas aos poetas e escritores famosos.

d. Que a verdade é algo que se busca junto, no diálogo e na convivência.

 

 

 

CAUSO: O CONTADOR DE CAUSO - GLOBO.COM/CAIPIRA/ - COM GABARITO

 CAUSO:  O contador de causo

 Se depender de Seu Ico, saci existe, ara

  Era um matuto dos bons e vivia num rancho do Rio Pardo, perto de Cajuru. Seu Ico era o apelido dele. Acreditava em tudo que via e ouvia. E tinha opiniões muito firmes sobre coisas misteriosas. Adorava contar casos de assombração e outros bichos:

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiLJK7nSfYUq_5vCdkZhmqFzqBZ605xftBfBAw4Zp92hdqCBEI4L3Il_R7p7vqYjb1rg3urLsoCaZHhOb9P79iUX5gS2XftIRfXcwlYkbL0uV_U0I6BiyZ_PUoaIBpF5m4fpjTzSiyB1sgjuekznZI97E0lG-KFezpiwFsUHLG3ug5lerCTLGRtYE6HYSg/s1600/SACI.jpg


  - Fui numa caçada de veado no primeiro dia da quaresma! Ai ! ai! Ai! Num pode caçá na quaresma, mas eu num sabia. Aí apareceu a assombração! Arma penada do outro mundo. E os cachorro disparo. Foro tudo pro corgo pra modi fugi da bicha... Veado que é bão nem nu pensamento, pruque eis tamem pressintiru a penúria passanu ali tertu!

  - Mas era assombração mês Esse mundo é surtido!

  - Pois no mundo sortido do seu Ico também tinha saci!

  - Quando é o que o senhor viu saci, seu Ico?

  - Ara! Vi a famia toda, num foi um saci só... Tinha o saci, a sacia gravi, e os sacizim em riba da mãe, tudo,pulano numa perna

  - E o que eles fizeram ou disseram pro senhor?

  - Nada... O Saci cachaço inda ofereceu brasa pro meu paero. Gardicido! Eu disse... e entrei pra dentro modi num vê mais as tranquera...

  - E mula-sem-cabeça? Ah, seu Ico garante que existe:

  - Essa eu nu nca vi, mas ouvi o rinchando dela umas par de veis... E otro que eu tamem vi foi o tar de lobisome! Ê bicho fei! Mais num feis nada...desvirô num cachorro preto e sumiu presse mundão de meu Deus. Agora, em um dia de prescaria, aparece muito é caboclo d'água. Um caboquim pretim e jeitado que mora dentro do rio...Ah, e tem que vê tamém o caapora. Bichu fei! E o curupira! Vichi Maria, é fei dimais, tem pé virado pa trais...

  - E com tudo isso o senhor ainda se arrisca a ir pro meio do mato, seu Ico?

  - Pois vô sem medo! Qué sabe? – Dá uma gargalhada rouca e faz um ar maroto. – Qual! Tenho muito, mais muito mais medo é de gente vivo!

                                                                                                                                                                                                                                                   Globo.com/caipira/

Entendendo o texto

 01. A linguagem utilizada por Seu Ico no texto ("pruque", "num pode caçá", "pa trais") é um exemplo de:

a. Linguagem culta, utilizada em documentos oficiais e livros técnicos.

b. Linguagem coloquial regional, que reproduz a fala característica do interior ou do "matuto".

c. Gíria moderna utilizada por jovens em grandes cidades.

d. Linguagem estrangeira traduzida incorretamente para o português.

02. Segundo o relato de Seu Ico, por que a "assombração" apareceu durante a sua caçada de veado?

a. Porque ele estava caçando em uma propriedade que não era dele.

b. Porque os cachorros dele começaram a latir muito alto e acordaram os bichos.

c. Porque ele esqueceu de oferecer brasa para o pito do saci.

d. Porque ele saiu para caçar no primeiro dia da Quaresma, período em que, segundo a crença popular, não se deve caçar.

03. Sobre o encontro com o Saci, Seu Ico afirma algo incomum para as lendas tradicionais. O que ele viu de diferente?

a. Ele viu o saci voando em cima de um pássaro gigante.

b. Ele viu uma família inteira de sacis, incluindo uma "sacia" grávida e filhotes.

c. Ele viu um saci que tinha duas pernas em vez de uma.

d. Ele viu o saci se transformando em um lobisomem preto.

04. O personagem descreve vários seres do folclore brasileiro. Qual das características abaixo ele atribui ao Curupira?

a. Um bichinho preto e jeitado que mora dentro do rio.

b. Uma mula que solta fogo pelo pescoço e rincha alto.

c. Um bicho muito feio que possui os pés virados para trás.

d. Um cachorro preto que some no mundão de Deus.

05. Ao final do texto, Seu Ico revela qual é o seu verdadeiro medo. Qual é esse medo?

a. Ele tem pavor de encontrar o Curupira sozinho na mata fechada. b. Ele tem medo de que os sacis voltem para pedir mais brasa.

c. Ele confessa que tem muito mais medo de "gente viva" do que das assombrações.

d. Ele tem medo de pescar e encontrar o caboclo d'água no rio.

 

 

 

CONTO: O ENCANTAMENTO - BARROS FERREIRA - COM GABARITO

CONTO: O ENCANTAMENTO

                Barros Ferreira

    Júlio olhou. Ali estava a cena de que muito ouvira falar e lhe contestava a veracidade. No alto da copa retorcida de uma goiabeira, estava um bem-te-vi aflito, condenado à morte. Um fio invisível prendia-o e puxava-o inexoravelmente. Ele piava numa extrema aflição. Sabia que ia morrer, mas não conseguia libertar-se.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiNcOXqgSs4mMprP8H5aPHumiTnTK4p6yYLWlktUv0EfAKIOa8vpTD23FfQCdiPmAiTJJKmLY9UHsMKkDuuV_C02L03dFxFNj9yfumPU-fm1gElbiFOaKtUovRyUzqvOsUDuqnVxWM-znsQCFnB-T3zj2VRxKaaI6B5hGc4kmEGYAUIR_op-aQlanGUasA/s320/BEM%20TE%20VI.jpg
 

   Embaixo, de cabeça erguida e coleante, estava uma jararaca. Seu olhar fixo prendia o pobre bem-te-vi, que não conseguia livrar-se daquele encantamento. O réptil forçava o pássaro a descer. Hipnotizara-o. Mantinha-o preso desde o momento em que a ave, curiosa, baixara o olhar para verificar a origem do farfalhar, que se levantava do chão. Os dois olhares cruzaram-se. O réptil prendeu o pássaro. Fulminara-lhe a vontade. Não podia mais voar. E piando plangentemente pulou para o ramo que estava logo abaixo do seu pequeno corpo.

     Júlio teve ímpetos de matar a cobra. Mas um desejo cruel de assistir ao desfecho o manteve imóvel.

     O bem-te-vi deu novo pio e novo salto. Não era mais o seu canto vibrante, agudo, que traspassava a mata. Tinha algo de um grito plangente, de um apelo de socorro que quebrasse o mortal encantamento. Júlio teve pena do pássaro. Sabia que bastaria uma pedrada ou apenas um grito pra libertar o bem-te-vi, pois a serpente procuraria ver de onde partia o perigo. Também o réptil estava sujeito ao medo. E desde que voltasse a cabeça interromperia a sujeição hipnótica. A ave poderia fugir. Mas a sua curiosidade era maior. Queria ver o fim.

    E esse não tardou. O bem-te-vi soltou um pio ainda mais plangente e com as asas abertas pousou no chão.

    A jararaca moveu-se lentamente, num avanço cauteloso. Estava agora a pouco mais de um metro da ave aterrorizada.

   Mentalmente, Júlio torceu para que o pássaro reagisse e levantasse voo. Supunha, ainda, que a ave não percebera o réptil, confundido com o chão devido ao desenho da pele e cor de massapé. Mas não havia possibilidade de engano. A jararaca conseguira hipnotizar a ave, quando acertara o seu frio olhar, mortal, no olhar do pássaro, que imprudentemente espiara do alto para verificar o que era aquela mancha amarela a mover-se. E fora como se uma flecha lhe penetrasse no cérebro, matando- lhe a vontade. A fome do réptil mantinha-o preso, com firmeza. O bem-te-vi soltou mais um pio triste. A cobra avançou mais um palmo.

    No íntimo de Júlio, travou-se dura batalha entre a misericórdia e a curiosidade. O coração pulsava-lhe doidamente. Parecia ouvir-lhe as pancadas como se fosse na pele de um tambor. O pássaro desengonçado, o bico aberto, as asas distendidas, deu um passo em direção à jararaca, soltando o pio estrídulo, que traduzia o desespero do condenado à perda da vida.

   Foi então que no coração de Júlio reboou urna pancada mais forte. Venceu o sentimento de solidariedade com os mais fracos. Deitou a mão frenética a um galho seco. O estalido forte do lenho que parte foi acompanhada de um berro!        — Desgraçada!

 Ao mesmo tempo, o galho partido caía pesadamente no tronco da jararaca, que ficou aturdida.

  Quebrara-se o encanto malévolo.

  O bem-te-vi, liberto do olhar, que o mantinha cativo, ruflou as asas e disparou num voo fulminante, como flecha saída do arco. Surpreendida e contundida, a cobra desfez as suas roscas e coleou com rapidez a refugiar-se em um lugar de capim alto, onde ficaria mais segura.

   Erguendo o olhar para o céu, onde grossas nuvens eram tangidas pelo vento, Júlio exclamou, satisfeito consigo mesmo:

 — Puxa! Foi mesmo na horinha!

                                                                         (Barros Ferreira)

Entendendo o texto 

01. No início do texto, o bem-te-vi é descrito como "condenado à morte". Por que ele não conseguia voar para longe?

a. Porque ele estava com uma das asas quebradas por causa de um galho.

b. Porque ele estava sob um "encantamento" ou hipnose causado pelo olhar fixo da jararaca.

c. Porque ele decidiu que queria enfrentar a cobra para proteger seu ninho.

d. Porque ele estava preso em um visgo invisível colocado por caçadores

02. Qual foi o conflito interno vivido pelo personagem Júlio ao observar a cena?

a. Ele estava em dúvida se matava a cobra para comê-la ou se a deixava fugir.

b. Ele sentia medo de que a cobra o atacasse caso ele se aproximasse.

c. Ele travou uma batalha entre a misericórdia (pena do pássaro) e a curiosidade cruel de ver o final da cena.

d. Ele não sabia se o bem-te-vi era um pássaro verdadeiro ou apenas uma ilusão da mata.

03. O texto afirma que a jararaca também estava "sujeita ao medo". O que seria necessário para quebrar o encanto hipnótico sobre o pássaro?

a. Que o pássaro fechasse os olhos por alguns segundos.

b. Que algo fizesse a serpente voltar a cabeça, interrompendo o contato visual.

c. Que o sol se escondesse atrás das nuvens, escurecendo a mata. d. Que Júlio desse comida para a cobra para que ela perdesse a fome.

04. Como o comportamento do pássaro mudou à medida que ele descia da goiabeira?

a. Seu canto tornou-se um pio plangente, um grito de socorro de quem perdeu a vontade própria.

b. Ele começou a cantar mais alto e vibrante para assustar a jararaca.

c. Ele ficou em silêncio absoluto para tentar se esconder entre as folhas.

d. Ele começou a bicar os próprios pés para tentar acordar do sono.

05. O que finalmente motivou Júlio a agir e interromper a cena?

a. O medo de que a cobra ficasse ainda maior depois de comer o pássaro.

b. O barulho de outras pessoas chegando na mata.

c. O fato de a cobra ter tentado atacar o próprio Júlio.

d. A vitória do sentimento de solidariedade com os mais fracos sobre a sua curiosidade.

06. De que forma Júlio conseguiu libertar o bem-te-vi?

a. Ele deu um tiro de espingarda na cabeça da jararaca.

b. Ele jogou um galho seco no tronco da cobra e soltou um berro, quebrando a concentração dela.

c. Ele subiu na goiabeira e pegou o pássaro com as mãos.

d. Ele assobiou tão alto que a cobra ficou atordoada com o som.

07. Qual foi o desfecho da história para os dois animais envolvidos?

a. O bem-te-vi fugiu em um voo veloz e a cobra se refugiou, ferida e surpresa, no capim alto.

b. O bem-te-vi atacou a cobra depois de liberto e a jararaca morreu. 

c. A cobra conseguiu picar o pássaro antes de Júlio intervir, mas Júlio a matou depois.

d. Júlio levou o bem-te-vi para casa para cuidar dele e a cobra fugiu para a floresta.

 

  

POEMA: AI, PALAVRAS, AI, PALAVRAS - CECÍLIA MEIRELES - COM GABARITO

 POEMA:  Ai, palavras, ai, palavras

Que estranha potência a vossa!

 

Todo o sentido da vida

Principia a vossa porta:

O mel do amor cristaliza

Seu perfume em vossa rosa;

Sois o sonho e sois a audácia,

Calúnia, fúria, derrota...

 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgG7dawaA1IAin602_HpAV4G_kkQDWXcU__vfEop_cwEZvZOuYR4Z8PkAMa1puGSQI-NBnc54TSWvaz8TmOVIc86c7UB158OpbrmrpUZbSeTOhkLAhBtgmmkyLV7q36L1M9xtWaIzYBgwJyl0YSvOtrgTM6FiyvbEZU2eUn1_dgYdVztmEyI8l_gZyeGeA/s1600/PALAVRAS.jpg

A liberdade das almas,

ai! Com letras se elabora...

e dos venenos humanos

sois a mais fina retorta:

frágil, frágil, como o vidro

e mais que o aço poderosa!

Reis, impérios, povos, tempos,

pelo vosso impulso rodam...

 

MEIRELES, C. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1985 (fragmento).

 

Entendendo o texto

01. Logo no início do poema, o eu lírico utiliza uma interjeição ("Ai") e se dirige diretamente às palavras. Qual é o sentimento principal expresso em relação a elas?

a. Indiferença, pois as palavras não têm poder sobre a vida real.

b. Raiva, porque o autor esqueceu as palavras que desejava escrever.

c. Tédio, por considerar que falar é uma perda de tempo.

d. Admiração e espanto diante da "estranha potência" que as palavras possuem.

02. O poema afirma que as palavras são "o mel do amor", mas também "calúnia, fúria, derrota". O que essa oposição de ideias revela?

a. Que o autor está confuso e não sabe o que as palavras significam.

b. A natureza dual das palavras: elas podem ser usadas tanto para o bem quanto para o mal.

c. Que as palavras só servem para contar mentiras e ofensas.

d. Que o amor é a única coisa que as palavras conseguem explicar.

03. No verso "frágil, frágil, como o vidro / e mais que o aço poderosa!", encontramos uma figura de linguagem chamada Antítese (ideias opostas). O que essa comparação quer dizer?

a. Que as palavras quebram fisicamente quando são ditas com força.

b. Que o aço é o único material que pode resistir ao poder de um livro.

c. Que, embora as palavras pareçam simples e delicadas (frágeis), elas têm uma força capaz de mudar destinos e derrubar impérios.

d. Que o vidro é mais caro que o aço, assim como as palavras bonitas.

04. De acordo com a estrofe que menciona "Reis, impérios, povos, tempos", qual é o papel das palavras na história do mundo?

a. Elas são o impulso que faz as sociedades e a história se movimentarem e mudarem.

b. Elas são apenas barulhos que desaparecem com o tempo.

c. Elas servem apenas para os reis darem ordens aos seus soldados.

d. Elas impedem que os povos conheçam a verdade sobre o passado.

05. O verso "A liberdade das almas, ai! Com letras se elabora..." sugere que:

a. A liberdade só existe para as pessoas que sabem desenhar letras bonitas.

b. O pensamento, a escrita e a comunicação são ferramentas fundamentais para a conquista da liberdade humana.

c. A alma não precisa de palavras para ser livre, apenas de silêncio.

d. As letras são correntes que prendem as almas em livros antigos

ARTIGO DE OPINIÃO: JUVENTUDE E PARTICIPAÇÃO - LUÍS DE LA MORA - COM GABARITO

 ARTIGO DE OPINIÃO: Juventude e Participação

                                       LUÍS DE LA MORA

 Inicialmente, gostaria de destacar que toda avaliação é feita a partir de uma comparação. Neste caso, essa comparação poderia ser feita em duas direções. Uma delas em relação a outras faixas etárias e a outra em relação à juventude de épocas passadas. Em relação à primeira dimensão, me parece que o comportamento político da juventude não seja diferente do de outras faixas etárias. Os que avaliam como baixa a participação política da juventude atual não podem afirmar que seja diferente da participação política das outras faixas. Existem parcelas da população passivas (e entre elas há jovens e também adultos), assim como existem parcelas da população com alta taxa de participação política, e entre elas podemos igualmente identificar jovens e adultos.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj_0-JVLKgRvUN5R7oIXbU6TNhXygRI7rGJWc0IqnYTnHcBZciRsPVah2HoiVSVTx-EHlRPFL19msGKtU4ML2T1jvIgp9MPl83HO5rfXWfHN_mO8Ro9D8EDw4at4sYHADs-1I3FM6GviU1pylfsZS4eJhk4pnja6yhhvZrRim4bSxEuGZjLZ91m_PMkbfI/s320/JOVEM.jpg


Logo, uma comparação entre faixas etárias não nos leva a concluir que seja baixa a participação política da juventude. Agora, em relação à outra dimensão, a comparação entre juventudes de épocas diferentes, podemos constatar diferenças que aparentemente levem algumas pessoas a afirmações do tipo “a juventude atual não está com nada”, “antigamente os jovens tinham maior consciência e atuação política”. E aqui, novamente, devemos analisar a questão por partes. Jovens alienados e passivos sempre existiram ao lado de jovens conscientizados e ativos politicamente.

Deve-se reconhecer que a proporção entre essas duas categorias muda com o tempo, tem épocas em que a proporção de jovens ativos se amplia e em outras épocas diminui. Mas esse aumento ou diminuição é uma expressão da sociedade como um todo e não de uma determinada faixa etária. Se numa época a parcela de jovens cresce e se torna mais intensa, é porque esse mesmo fenômeno se manifesta na sociedade como um todo.  comportamento juvenil expressa as tendências gerais da sociedade como um todo. A grande diferença está nos meios de que dispõem os jovens para desenvolver sua consciência crítica ou para manifestar sua postura política. Aí, sim, registramos mudanças radicais em relação a outras épocas.

Atualmente, os jovens têm acesso aos meios de comunicação que permitem ampliar a velocidade e a abrangência da transmissão de ideias, o que oferece facilidades nunca antes disponíveis para a expressão política da juventude.

A minha resposta pode parecer otimista e tenho plena consciência de que ela é. Os jovens da atualidade não são diferentes dos jovens de outras épocas, aceitam ou rechaçam valores, assumem ou não atitudes políticas com a mesma postura dos jovens do passado, a diferença não está no grau e sim na forma. Não muda o caminho, muda a forma de caminhar.

 LUÍS DE LA MORA

Adaptado de www.cipo.org.br

 Entendendo o texto

01. Qual é o argumento do autor ao comparar a participação política dos jovens com a de outras faixas etárias (adultos)?

a. Ele afirma que os jovens participam muito mais do que os adultos.

b. Ele defende que o comportamento político da juventude não é diferente do de outras idades, havendo pessoas ativas e passivas em ambos os grupos.

c. Ele acredita que os adultos são os únicos que possuem consciência política real.

d. Ele sugere que os jovens deveriam parar de se comparar com os adultos.

02. O que o autor pensa sobre frases como "a juventude atual não está com nada" ou "antigamente os jovens eram mais ativos"?

a. Ele analisa que jovens ativos e passivos sempre existiram em todas as épocas.

b. Ele concorda totalmente, pois acha que os jovens de hoje são alienados.

c. Ele acredita que antigamente não existiam jovens alienados.

d. Ele afirma que a juventude de hoje é a primeira a ter consciência política.

03. Segundo o texto, quando a parcela de jovens ativos cresce em uma determinada época, isso é sinal de que:

a. Os jovens decidiram mudar sozinhos, sem influência de ninguém.

b. As escolas passaram a obrigar os alunos a protestar.

c. Os adultos deixaram de participar para dar lugar aos mais novos.

d. Esse fenômeno de maior participação está acontecendo na sociedade como um todo.

04. Qual é a "grande diferença" apontada pelo autor entre a juventude de hoje e a de épocas passadas?

a. O grau de inteligência dos jovens, que aumentou muito.

b. Os meios disponíveis (como a comunicação e tecnologia) para desenvolver a consciência e manifestar opiniões.

c. O fato de que hoje os jovens não gostam mais de política.

d. A coragem, que era muito maior nos jovens do passado.

05. Como o acesso aos meios de comunicação modernos influencia a expressão política da juventude atual?

a. Atrapalha a transmissão de ideias, pois causa muita confusão.

b. Faz com que os jovens prefiram apenas diversão em vez de política.

c. Permite ampliar a velocidade e a abrangência da transmissão de pensamentos e críticas.

d. Garante que todas as ideias transmitidas sejam verdadeiras.

06. O que o autor quer dizer com a frase final: "Não muda o caminho, muda a forma de caminhar"?

a. Que os jovens estão perdidos e não sabem qual caminho seguir.

b. Que as estradas antigamente eram mais difíceis de percorrer do que as de hoje.

c. Que a política mudou tanto que o caminho antigo foi destruído.

d. Que os objetivos e a postura política continuam os mesmos, o que mudou foi o jeito (os meios) de agir.

07. O autor se define como alguém "otimista" em relação ao tema. Por que ele tem essa visão?

a. Porque ele acha que os jovens de hoje são perfeitos e nunca erram.

b. Porque ele acredita que os jovens mantêm a mesma essência de busca por valores do passado, apenas usando novas ferramentas. c. Porque ele não conhece os problemas da juventude atual.

d. Porque ele acredita que a política vai deixar de existir no futuro.