domingo, 11 de outubro de 2026

POEMA: NA ILHA POR VEZES HABITADA - JOSÉ SARAMAGO - COM GABARITO

 Poema: Na Ilha Por Vezes Habitada

           José Saramago

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites, manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer.

Então sabemos tudo do que foi e será.

O mundo aparece explicado definitivamente e entra em nós uma grande serenidade, e dizem-se as palavras que a significam.

Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg2DYT5o3PHNnN75FGpBGcdxXXKLV1tuU2x3nuCJuMrbnmaBSh13CRJC9ONk62hiwMRGHlPjnWYn8czi4QUpU-Q8aV_zKf_w2tOutNFflYZHT12oGhJBRPe5IjSCW1mESpfgCM0nabV9_ZD6CXx6A6afvb-GrTKRKkNUECI15mGrKegr2aUzjJrkhf2rqI/s320/images.jpg


Com doçura.

Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a vontade e os limites.

Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos ossos dela.

Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres como a água, a pedra e a raiz.

Cada um de nós é por enquanto a vida.

Isso nos baste.

José Saramago. In: Provavelmente alegria. 3. ed. Editorial Caminho, Lisboa, 1985.

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 123.

Entendendo o poema:

01 – O que simboliza a metáfora da "ilha por vezes habitada do que somos" no poema de Saramago?

      A "ilha" representa a interioridade humana, a alma ou a própria existência individual, marcada pelo isolamento e pela introspecção. Ao dizer que essa ilha é "por vezes habitada", o eu lírico sugere que nem sempre estamos plenamente conscientes ou presentes em nós mesmos; há momentos de alheamento e desconexão. Contudo, existem instantes de iluminação em que nos habitamos por inteiro, alcançando uma profunda compreensão da própria existência.

02 – Como o eu lírico caracteriza os momentos em que "não precisamos de morrer" e qual é o impacto desse estado na percepção do mundo?

      Esses momentos representam estados de plenitude, clareza e paz absoluta, nos quais o medo da finitude e a angústia da morte desaparecem temporariamente. Nesses instantes, o mundo parece "explicado definitivamente", trazendo uma sensação de transcendência e serenidade em que o indivíduo sente ter compreendido o sentido do passado e do futuro sem a necessidade de buscar respostas fora da vida presente.

03 – Qual é o significado poético e filosófico do gesto de levantar um "punhado de terra" e apertá-lo nas mãos "com doçura"?

      O gesto de segurar a terra simboliza a reconexão com a matéria, com a natureza e com a brevidade da condição humana. Ao apertá-la com doçura, o eu lírico aceita a vida como ela é, contida na simplicidade da matéria. A terra representa a "verdade suportável" — os contornos, as vontades e os limites da existência —, mostrando que a verdadeira sabedoria não está em alcançar o infinito, mas em reconhecer e acolher as próprias limitações humanas.

04 – De que modo o ato de ter "mordido a alma até aos ossos dela" conduz o indivíduo à verdadeira liberdade e à paz?

      A expressão "morder a alma até aos ossos" sugere uma vivência radical, profunda e sem subterfúgios do próprio ser, enfrentando as dores, contradições e verdades mais íntimas. A liberdade e a paz descritas por Saramago não surgem da ilusão ou da fuga, mas sim do autoconhecimento doloroso e corajoso. Quem mergulhou tão fundo em si mesmo ("viajou à roda do mundo infatigável") alcança o sorriso de quem se reconhece e aceita integralmente.

05 – Qual é a reflexão final trazida pelos versos "Cada um de nós é por enquanto a vida. / Isso nos baste"?

      A estrofe final traz uma mensagem de aceitação da finitude e de valorização do presente. A expressão "por enquanto" lembra a transitoriedade da existência, ressaltando que somos portadores temporários da vida. Ao concluir que "isso nos baste", o eu lírico propõe o desapego de pretensões grandiosas e a celebração do simples fato de existir. Viver o agora e ser a própria vida, mesmo que por um breve período, é o suficiente para dar sentido à experiência humana.

 

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