Entrevista: Sou perfeccionista – Fragmento
Moacyr Scliar
[...]
-- Como foi a sua infância?
-- Passei minha infância num bairro de
emigrantes pobres, em Porto Alegre, ouvindo as histórias que meus pais e nossos
vizinhos contavam, sobre a Europa e sobre suas primeiras experiências no
Brasil.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjX6QpCkLip2zBTHodQv9BTkGHzqEvH1QARRP3b-0qO1S8XgJIiG3EghK2x_aRXsy3x92Q3OhbOIGFhbfFWFh2W2e0A10LmIVPQnVwAdw1G_qjl9dPXNpKJzv-kRx2jpJGhHR2A_I25hqUyLOUl_Cq8jYIFEm9q9hKXW5V9MX3ShY23dnbC-tIQHBAC9jE/s320/images.jpg -- Como começou a escrever?
-- Desde pequeno (fui alfabetizado
muito cedo por minha mãe, que era professora primária), eu rabiscava
historinhas, que mostrava com muito orgulho aos adultos. Meu primeiro texto,
aliás, foi uma autobiografia – muito curta, pois o autor não teria então mais de
sete anos, e escrita em papel de pão, o único disponível. Depois comecei a
publicar nos jornaizinhos do colégio, de clubes, e, bem mais tarde, na imprensa
de Porto Alegre.
-- Você segue algum método para
escrever?
-- Trabalho muito. Tenho de conciliar minha
atividade de escritor com a de médico de saúde pública, e, além disso, meu
método de trabalho é complicado. Parto de uma ideia qualquer – originária de
uma figura real ou imaginada, de um incidente, de um fato histórico, de uma
notícia de jornal – e sobre ela começo a escrever, ao acaso, trechos que podem
ser o começo de uma história, ou o meio, ou o fim. Quando estas anotações
chegam a um certo volume, redijo a primeira versão da narrativa. Sempre a mão. Acredito
ser a mão um instrumento mais sensível para a palavra escrita. Depois é que
datilografo, uma, duas, três ou mais vezes, até que o texto me pareça
razoavelmente bom. Sou um perfeccionista que busca a palavra certa e o ritmo
exato.
-- E o que você sente quando
escreve?
-- Na narrativa propriamente dita,
deixo voar minha imaginação, mas tenho bem presente que literatura deve se
referir, sempre, ao ser humano em sua dimensão social, histórica, política. Não
recuso o humor, porque nada me parece mais desagradável que uma narrativa
carrancuda.
[...]
In: Clarice Lispector e
outros. Para gostar de ler. 3. ed. São Paulo, Ática, 1988. v. 9, p. 9.
Fonte: Língua
Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria
Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo –
2004. Quinteto Editorial. p. 112.
Entendendo a entrevista:
01
– De que maneira o ambiente da infância e a figura materna de Moacyr Scliar
influenciaram o seu surgimento como escritor, segundo o texto?
A infância de
Scliar em um bairro de imigrantes pobres em Porto Alegre o expôs desde cedo à
tradição oral, ouvindo histórias sobre a Europa e a adaptação ao Brasil. Além
disso, a presença de sua mãe, que era professora primária, foi determinante
para sua alfabetização precoce, permitindo que ele começasse a escrever
pequenas histórias e autobiografias desde os sete anos de idade.
02
– Explique como Moacyr Scliar organiza seu processo de escrita inicial, desde a
ideia motivadora até a elaboração do primeiro rascunho.
Scliar inicia seu
processo criativo a partir de um estímulo variado (fato histórico, notícia de
jornal, figura real ou imaginada). A partir da ideia inicial, ele escreve
trechos de forma fragmentada e não linear (podendo ser o início, o meio ou o
fim da história). Apenas quando acumula um volume razoável dessas anotações é
que redige a primeira versão completa da narrativa, que é feita sempre à mão.
03
– Por que Moacyr Scliar prefere escrever a primeira versão de seus textos à mão
antes de datilografá-los? Como essa prática se relaciona com a sua
autoavaliação como "perfeccionista"?
Scliar prefere a
escrita manual por considerar a mão um "instrumento mais sensível para a
palavra escrita". O processo de reescrita e datilografia (que ele repete
várias vezes) reflete seu perfeccionismo, pois ele reescreve até encontrar
"a palavra certa e o ritmo exato" para o texto, demonstrando rigor
estético com a linguagem.
04
– Qual o principal desafio de rotina mencionado por Scliar em relação ao seu
trabalho literário e como ele o descreve?
O principal
desafio é conciliar a carreira literária com sua profissão de médico de saúde
pública. Isso exige muito trabalho e torna o seu método de produção ainda mais complexo
e laborioso.
05
– De acordo com a entrevista, quais são os compromissos fundamentais que a
literatura deve ter com o leitor e a sociedade, e qual recurso estilístico o
autor utiliza para evitar um tom pesado?
Para Scliar, a
literatura deve sempre se referir ao ser humano em suas dimensões social,
histórica e política. Para evitar que a narrativa se torne
"carrancuda" ou excessivamente pesada ao tratar desses temas, ele
recorre ao uso do humor como recurso estético e narrativo.
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