quarta-feira, 14 de outubro de 2026

ENTREVISTA: SOU PERFECCIONISTA - FRAGMENTO - MOACYR SCLIAR - COM GABARITO

 Entrevista: Sou perfeccionista – Fragmento

           Moacyr Scliar

        [...]

        -- Como foi a sua infância?

        -- Passei minha infância num bairro de emigrantes pobres, em Porto Alegre, ouvindo as histórias que meus pais e nossos vizinhos contavam, sobre a Europa e sobre suas primeiras experiências no Brasil.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjX6QpCkLip2zBTHodQv9BTkGHzqEvH1QARRP3b-0qO1S8XgJIiG3EghK2x_aRXsy3x92Q3OhbOIGFhbfFWFh2W2e0A10LmIVPQnVwAdw1G_qjl9dPXNpKJzv-kRx2jpJGhHR2A_I25hqUyLOUl_Cq8jYIFEm9q9hKXW5V9MX3ShY23dnbC-tIQHBAC9jE/s320/images.jpg


        -- Como começou a escrever?

        -- Desde pequeno (fui alfabetizado muito cedo por minha mãe, que era professora primária), eu rabiscava historinhas, que mostrava com muito orgulho aos adultos. Meu primeiro texto, aliás, foi uma autobiografia – muito curta, pois o autor não teria então mais de sete anos, e escrita em papel de pão, o único disponível. Depois comecei a publicar nos jornaizinhos do colégio, de clubes, e, bem mais tarde, na imprensa de Porto Alegre.

        -- Você segue algum método para escrever?

        -- Trabalho muito. Tenho de conciliar minha atividade de escritor com a de médico de saúde pública, e, além disso, meu método de trabalho é complicado. Parto de uma ideia qualquer – originária de uma figura real ou imaginada, de um incidente, de um fato histórico, de uma notícia de jornal – e sobre ela começo a escrever, ao acaso, trechos que podem ser o começo de uma história, ou o meio, ou o fim. Quando estas anotações chegam a um certo volume, redijo a primeira versão da narrativa. Sempre a mão. Acredito ser a mão um instrumento mais sensível para a palavra escrita. Depois é que datilografo, uma, duas, três ou mais vezes, até que o texto me pareça razoavelmente bom. Sou um perfeccionista que busca a palavra certa e o ritmo exato.

        -- E o que você sente quando escreve?

        -- Na narrativa propriamente dita, deixo voar minha imaginação, mas tenho bem presente que literatura deve se referir, sempre, ao ser humano em sua dimensão social, histórica, política. Não recuso o humor, porque nada me parece mais desagradável que uma narrativa carrancuda.

        [...]

In: Clarice Lispector e outros. Para gostar de ler. 3. ed. São Paulo, Ática, 1988. v. 9, p. 9.

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 112.

Entendendo a entrevista:

01 – De que maneira o ambiente da infância e a figura materna de Moacyr Scliar influenciaram o seu surgimento como escritor, segundo o texto?

      A infância de Scliar em um bairro de imigrantes pobres em Porto Alegre o expôs desde cedo à tradição oral, ouvindo histórias sobre a Europa e a adaptação ao Brasil. Além disso, a presença de sua mãe, que era professora primária, foi determinante para sua alfabetização precoce, permitindo que ele começasse a escrever pequenas histórias e autobiografias desde os sete anos de idade.

02 – Explique como Moacyr Scliar organiza seu processo de escrita inicial, desde a ideia motivadora até a elaboração do primeiro rascunho.

      Scliar inicia seu processo criativo a partir de um estímulo variado (fato histórico, notícia de jornal, figura real ou imaginada). A partir da ideia inicial, ele escreve trechos de forma fragmentada e não linear (podendo ser o início, o meio ou o fim da história). Apenas quando acumula um volume razoável dessas anotações é que redige a primeira versão completa da narrativa, que é feita sempre à mão.

03 – Por que Moacyr Scliar prefere escrever a primeira versão de seus textos à mão antes de datilografá-los? Como essa prática se relaciona com a sua autoavaliação como "perfeccionista"?

      Scliar prefere a escrita manual por considerar a mão um "instrumento mais sensível para a palavra escrita". O processo de reescrita e datilografia (que ele repete várias vezes) reflete seu perfeccionismo, pois ele reescreve até encontrar "a palavra certa e o ritmo exato" para o texto, demonstrando rigor estético com a linguagem.

04 – Qual o principal desafio de rotina mencionado por Scliar em relação ao seu trabalho literário e como ele o descreve?

      O principal desafio é conciliar a carreira literária com sua profissão de médico de saúde pública. Isso exige muito trabalho e torna o seu método de produção ainda mais complexo e laborioso.

05 – De acordo com a entrevista, quais são os compromissos fundamentais que a literatura deve ter com o leitor e a sociedade, e qual recurso estilístico o autor utiliza para evitar um tom pesado?

      Para Scliar, a literatura deve sempre se referir ao ser humano em suas dimensões social, histórica e política. Para evitar que a narrativa se torne "carrancuda" ou excessivamente pesada ao tratar desses temas, ele recorre ao uso do humor como recurso estético e narrativo.

 

 

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