quarta-feira, 14 de outubro de 2026

CRÔNICA: A REVOLTA DO MAR - LIMA BARRETO - COM GABARITO

 Crônica: A revolta do mar

           Lima Barreto

 

        A última e formidável ressaca que devastou e destruiu grande parte da Avenida Beira-Mar merece considerações especiais que não posso deixar de fazer. O Mar tinham os antigos como sendo um dos cinco elementos da Natureza; do Mar, afirmam os sábios modernos, veio toda a vida. É assim o Mar um deus tutelar da nossa espécie. Nós lhe devemos tudo ou quase tudo. Não fora o Mar, ainda a Terra estaria muito por conhecer; ele é o meio mais eficaz de comunicação entre os povos.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhZajE3lm6QTvUxY50sMaPFILxBV9WzBjl-jNxVj1HY_DWjxV1KyI_j2TaAREOZlDFl7I8g3C-FW1InUXARAIknTy1KXECRFZg2hbl6KGxE8rEvyAQjUYiwLc4bATOYSkkNAsCGkOy6HMcot-MUhFedbGmxenuN4jZuhJsfvPRrNkymaJT81Uri6TUfomA/s1600/images.jpg


        Vence-se mais facilmente a mesma distância por mar do que por terra. Desde tempos imemoriais, é o campo das grandes audácias e dos grandes audaciosos.

        O Mar é um deus ou um semideus.

        Como tal, tem merecido desde os tempos homéricos o louvor dos grandes poetas. Ele é a maravilha da Terra, a maior delas. Ainda agora recebo um livro de poesias – Asas no azul – de Mário José de Almeida – que abre com este lindo soneto sobre o monstro:

 

ÂNSIA DO MAR

Vibra, escachoa o oceano, brame, investe
para o amplo azul – noite e dia – não cansa
a onda que na praia se destrança
e da alvura da espuma se reveste.

 

Dentro do sonho, envolto na esperança
de inda atingir a placidez celeste,
o mar se arroja, torvo se abalança
nas asas colossais do sudoeste…

 

E parece que o mar se espraia
de praia a praia, ovante ramifica
o mesmo anelo – anseio de Himalaia.

 

À noite, à luz da lua que desponta
a onda em sua fala comunica
todo o queixume que a outra prata conta.

 

        Mas, os grosseiros homens do nosso tempo, homens educados nos cafundós escusos da City londrina ou nos gabinetes dos banqueiros de Wall Street, onde se fomenta a miséria dos povos, não lhe quiseram ver a grandeza, o mistério e a divindade, a sua palpitação íntima. O Mar, como a vida humana, não podia deixar de ser também um bom campo às suas “cavações” ou “escavações” e trataram de explorá-lo.

        De há muito que ele havia marcado os seus limites com a terra; de há muito que ele dissera a esta: o teu domínio para aí e daí não passarás.

        Tais homens, porém, embotados pela sede de riquezas não perceberam bem isto; e, a pretexto de melhoramentos e embelezamentos, mas, na verdade, no intuito de auferirem gordas gratificações de banqueiros, trataram de estrangulá-lo, de aterrá-lo com lama. Diziam eles que tal faziam, para tornear belos passeios, como se o Mar por si só não fosse Beleza.

        No começo, entraram por ele adentro com timidez; ele deu uns pequenos avisos de que não deveriam continuar. Os homens de negócios não viram tais avisos; não pressentiram o que eles continham, porque não entraram no mistério das Cousas. Tomaram-se de audácia e foram levando além o propósito de comprimir o mar, a fim de ganharem boas gorjetas.

        O mar nada disse e deixou-os, por alguns meses, encherem-no de lama. Um belo dia, ele não se conteve. Enche-se de fúria e, em ondas formidáveis, atira para a terra a lama com que o haviam injuriado.

Publicado originalmente na revista Careta, 23 de julho de 1921.

 

Entendendo a crônica:

01 – Qual é o evento que motiva a reflexão de Lima Barreto na crônica "A revolta do mar"?

      O ponto de partida da crônica é uma forte ressaca marítima que atingiu e destruiu trechos da Avenida Beira-Mar, no Rio de Janeiro. A partir desse desastre natural, o autor desenvolve uma reflexão crítica sobre a relação entre o progresso urbano, a exploração financeira e o desrespeito às forças da natureza.

 

02 – De que maneira o autor personifica e diviniza o mar no início do texto?

      Lima Barreto retrata o mar como um "deus ou semideus tutelar da nossa espécie", atribuindo-lhe papel fundamental na origem da vida e na integração entre as civilizações. O cronista ressalta sua grandeza, mistério e beleza, lembrando que o oceano é celebrado por poetas desde a Antiguidade homérica como a maior maravilha da Terra.

 

03 – Qual é a função da inclusão do soneto "Ânsia do Mar", de Mário José de Almeida, na estrutura da crônica?

      A citação do soneto serve para contrastar a dimensão poética, sublime e respeitosa com que a arte enxerga o mar em oposição à visão utilitarista e insensível dos "homens de negócios". A poesia reforça a ideia do mar como uma força viva e cheia de sentimentos ("queixume", "ânsia", "esperança"), preparando o terreno para a crítica aos que o veem apenas como objeto de exploração.

 

04 – Como Lima Barreto caracteriza os responsáveis pelas obras de aterro e expansão urbana na Beira-Mar?

      O cronista caracteriza esses indivíduos de forma pejorativa como "grosseiros homens do nosso tempo", formados nos bastidores do capital financeiro ("City londrina" e "Wall Street"). Ele os descreve como gananciosos, insensíveis à beleza natural e movidos unicamente pelo desejo de lucro, "cavações" e gratificações concedidas pelos grandes banqueiros.

 

05 – Qual é o verdadeiro motivo, segundo o cronista, por trás das obras apresentadas como "melhoramentos e embelezamentos" urbanos?

      Segundo o autor, a justificativa oficial de criar "belos passeios" e promover o embelezamento da cidade era apenas um pretexto superficial. A real motivação do empreendimento era financeira: enriquecer especuladores, empreiteiros e banqueiros por meio do aterro e do estrangulamento do espaço marítimo.

 

06 – Como o autor explica a reação violenta do mar contra as intervenções humanas?

      O mar é apresentado como uma entidade que estabelece limites claros à terra. Diante da insistência dos homens em ignorar seus avisos iniciais e cobri-lo de lama para fins comerciais, o oceano reage com fúria. A ressaca que devasta a Avenida Beira-Mar é retratada como um ato de resposta e "revolta", no qual a natureza devolve à terra a lama com que foi agredida.

 

07 – Qual é a crítica central da crônica em relação à postura da sociedade moderna frente à natureza?

      A crítica central reside na denúncia da arrogância e do materialismo da civilização moderna, que tenta subjugar as forças naturais em nome do lucro imediato e da especulação imobiliária. Lima Barreto alerta que a falta de sensibilidade para compreender o "mistério das coisas" e o desrespeito aos limites do meio ambiente resultam inevitavelmente em tragédias e na reação destrutiva da própria natureza.

 

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