quarta-feira, 14 de outubro de 2026

CRÔNICA: É UMA PENA! FLÁVIO DE SOUZA - COM GABARITO

 Crônica: É uma pena!

           Flavio de Souza

        Meu pai, que se chama Claudio de Souza, adora livros. Não foi à toa que ele trabalhou com livros, revistas e jornais a vida toda, começando antes mesmo de se formar em Advocacia. Na verdade, ele ainda trabalha com letras, palavras, parágrafos, capítulos, etecétera.

         Minha mãe, que se chama Therezinha Oliveira de Souza, foi professora de 1º grau e pré-escola. Ela também adora livros. Eu não preciso pensar muito no que dar de presente no dia das mães e dos pais, aniversários e Natal.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjLyoaDIDQ-1wNgPVhwSb2M7PlEAChJDrXbP5VzdGQqAhv7TV7dJF4hkYBWyCwhvKt2NqMlaI4l-3JAyWiWe-qG419Bvv92mfgQwWw-oL2C1QExEMVp607kqKN4ICefhGooYJkejkC3bKLc_ZSaJvbsfjtIJQfTgfhQFq_CruCz9nhROpjSps4cR9GVKn0/s320/images.jpg


        Minha mãe adora livros. Mas meu pai é fanático. Sempre foi. As casas e o apartamento onde passei minha infância e adolescência sempre foram cheios de livros e revistas. E o seu Claudio usou um método bem maluco para despertar o gosto por livros em seus quatro filhos. Ele colocava livros infantis, alguns importados, todos muito bonitos, em nossos berços. Antes mesmo de aprender a andar, eu já tina páginas com letras e ilustrações ao alcance das minhas mãozinhas. E, antes mesmo de aprender a falar, eu já picava e mastigava livros. A dona Therezinha ficava com os cabelos em pé ao ver livros lindos, que deviam não ter sido comprados a preço de banana, sendo destruídos. Mas o seu Claudio ria. Ele sabia o que estava fazendo.

        Muita gente tem o costume, para não dizer a mania, de ir ao banheiro com uma “leitura”. Eu sou uma dessas pessoas. eu não consigo me “concentrar” se não estiver lendo alguma coisa. Esse deve ser um costume da minha família, porque desde muito pequeno eu me sentava no “troninho” com um livro ilustrado ou um gibi, que era como as pessoas chamavam as revistas de histórias em quadrinhos.

        Um dia desses, eu já estava sentado no troninho e me dei conta de que estava sem leitura. Berrei para minha mãe ou uma das minhas irmãs ouvirem:

        -- Alguém traz um livro pra eu ler?

        Eu não sabia ler, eu era bem pequeno. Ler, para mim, nessa época, era olhar as figuras. Alguém muito paciente me levou um livro sem figuras e saiu do banheiro. Não demorou muito para eu berrar de novo, reclamando:

        -- Mas esse livro é em inglês!

Flavio de Souza. É uma pena!: aventuras de um roteirista versátil. São Paulo, Atual, 1996. p. 6.

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 165.

Entendendo a crônica:

01 – Qual foi o método singular adotado por Claudio de Souza para despertar o interesse de seus filhos pela leitura e como seus pais reagem de formas opostas a essa atitude?

      O pai colocava livros infantis ilustrados (alguns inclusive importados) diretamente nos berços dos filhos antes mesmo de eles aprenderem a andar ou falar. Enquanto a mãe, dona Therezinha, ficava desesperada ao ver livros bonitos e caros sendo picados e mastigados, o pai encarava a situação com risos e tranquilidade, pois confiava que esse contato físico e sensorial estimularia o gosto pela leitura no futuro.

02 – Como as profissões dos pais do narrador influenciaram o ambiente de formação cultural da família durante a infância de Flavio de Souza?

      O pai sempre trabalhou com publicações (letras, palavras, jornais e livros), e a mãe foi professora de pré-escola e do 1º grau. Essa forte ligação profissional com o universo educacional e editorial fez com que as residências da família fossem repletas de livros e revistas, criando um ambiente altamente propício ao hábito de ler e simplificando até a escolha de presentes em datas comemorativas.

03 – No contexto da crônica, o que o ato de "ler" significava para o narrador quando ele era muito pequeno?

      Como ainda não sabia decodificar as palavras escritas, para o narrador na primeira infância "ler" significava observar as ilustrações e figuras presentes nos gibis e nos livros infantis.

04 – Qual é o elemento cômico (humorístico) presente no encerramento do fragmento da crônica?

      O humor reside na contradição da queixa do garoto: embora não soubesse ler nem em português — utilizando apenas as imagens para interpretar o livro —, ele reclama aos berros de ter recebido um livro sem figuras afirmando que o texto estava "em inglês", usando o idioma estrangeiro como pretexto para a sua incapacidade de entender o livro sem ilustrações.

05 – O autor menciona o hábito de levar materiais de leitura para o banheiro. De que forma esse costume se relaciona com as tradições de sua família?

      O hábito de levar livros ou gibis ao banheiro (ou "troninho") desde a infância reflete o uso constante da leitura no cotidiano familiar. Para o narrador, a leitura tornou-se uma condição necessária até para a concentração em momentos banais do dia a dia, evidenciando a presença ostensiva dos livros em todos os espaços da casa.

 

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