Crônica: A CASA ÚNICA
Lima Barreto
–
Como foi então, a história?
–
Ouve.
–
Estou ouvindo.
– Eu me formei muito cedo, antes dos vinte e dois anos, como tu sabes. Logo que me formei, graças ao meu Lugar de praticante dos Correios e o rendimento de algumas apólices, pude alugar um escritório, comprar um anel simbólico, um guarda-chuva de castão de ouro, uma pasta de couro, enfim todo o arreamento de um grande advogado.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg7X5pJjQl07RGJqRDdU3FAyR63ud6LTaUOrOu5jHj41ehrUIui3wxpJ3H4dK_Un8Tvw1iazcoEZOPXHJZXAtNPNJxpk9fEL0GdRtYy_eeHm2Pm7RgJhwdnxn5nJoOE-mqYi1w-1chzyhGhsqotOwiSNi1qYtPE6VPPyo4z16-Bj6uwfG68_WYAMDLyTEI/s320/images.jpgTive a imagem disso, antes da sensação... Passei a
trabalhar nos Correios à noite; e, durante o dia, logo pelas primeiras horas
vinha para a cidade, ia ao escritório, onde tinha um empregado de sociedade
com o vizinho. Sentava-me então solenemente à secretária e esperava os
clientes. Não vinham. Eu ficava uma, ou duas horas a folhear uns manuais,
aborrecia-me e saía, tendo antes o cuidado de dizer ao pequeno, com muita
ênfase: “Se vier alguém procurar-me, diga que fui almoçar e já volto.”
–
Ias almoçar mesmo?
–
Ia mesmo. Ainda havia dinheiro, não tinha torrado as apólices. Saía com pasta,
fraque, guarda-chuva, etc., e ia ao Pascoal tomar um aperitivo e...
–
Foi pena eu não te conhecer nesse tempo!
–
Porque?
Todos os dias te esperava, para pagares-me um
também.
– Não fizeste falta.
– Como!
–
Pois eu mesmo me encarreguei de travar relações com poetas, jornalistas e
literatos e não havia dia em que não levasse um de reboque. Precisava da
imprensa, para os meus planos...
–
Que não soubeste executar.
–
Vou te dizer porque.
–
Estou ansioso pelo desfecho.
–
Ia ao Pascoal com o Guedes, por exemplo, que hoje tem ou vai ter, cem mil-réis
por mês que o Alves lhe dá, lá da sepultura. Começávamos a conversar eu, pasta,
anel e guarda-chuva de cabo de ouro e outros apetrechos forenses e desandávamos
a discorrer sobre negócios de versos, jornais e outras histórias correlativas.
–
Foste sempre dado a estas coisas?
–
Como todo mundo... Escrevi nas revistas de estudantes, fiz o discurso da turma;
mas sempre tive medo dessas coisas de literatura.
–
Porque?
–
Porque? Por causa dos gramáticos que nunca se entendem.
–
Mas os advogados?
–
A coisa é mais escondida; não é tão...
–
E quando vão para os apedidos?
–
A crítica literária não intervém... Deixa-me contar a história com os diabos!
–
Conta.
–
Onde eu estava mesmo?
–
Ias almoçar e encontravas o Guedes
– Bem. Muitas vezes, o Guedes seguia-me até o hotel e
almoçávamos juntos. Em geral, porém, eu ia só. Almoçava, vinha tomar café fora,
adquiria um charuto e lá ia eu, pasta, guarda-chuva de ouro, fraque, anel,
etc., pela Rua do Ouvidor abaixo até a Rua do Carmo, onde tinha o escritório.
Antes de entrar, perguntava precavidamente ao rapazote: José, veio alguém? Ao
que ele respondia desconsoladamente: Ninguém, seu doutor. Entrava, descansava a
pasta, etc., e esperava, mas...
–
Como é que querias que viesse alguém, se não anunciavas?
–
Não. Anunciei nos grandes jornais, durante muito tempo; e foi mesmo essa
história de anúncios uma das causas de eu deixar a advocacia, porque...
–
Como?
–
Eu te conto. Tinha um camarada do colégio que fora sempre dado a esse negócio
de revistas e jornais ... Era o Fontes... Um belo dia, apareceu-me ele no
escritório e disse-me! – Castro, estou publicando uma revista – Os Sucessos...
– Não sei se tu conheces? “Não”, disse-lhe eu. Ele, o Fontes, abriu uma
pasta igual à minha, e tirou de lá três números da tal revista. Folheei-os,
achei-os bonitos, bem impressos, e enquanto isso o Fontes gabava os méritos de
sua publicação. Perguntei-lhe com franqueza o que queria. “Primeiro, disse-me
ele, a tua colaboração”...
–
Colaboraste?
–
Ouve. “Primeiro, disse-me Fontes, a tua colaboração; e, em seguida, que tu me
dês um anúncio aqui, para esta seção – Momentos dos Advogados”. Pensei um
instante e perguntei-lhe quanto era. “Pouco; cinco mil-réis por número”, respondeu-me
ele. Autorizei e logo que o tal anúncio no Momento do Fontes,
apareceu, nunca mais o meu escritório ficou às moscas. A toda hora e a todo
instante, lá aparecia um diretor, um secretário, ou um gerente de revista a
pedir o meu anúncio. Fui autorizando, na persuasão de que atraíssem clientes;
mas não me surgiu nenhum.
–
Não devias ter sido tão pródigo ... Quanto te custou essa maluquice?
–
Em um ano, cerca de dois contos de réis. A minha pequena fortuna ia-se e eu não
conseguia obter nem uma causa; entretanto, teimava em ser um grande advogado.
Todos os dias eu, pasta, guarda-chuva de ouro, anel, fraque, etc. íamos ao
fórum e nada obtínhamos. Travei no fórum conhecimento com um
escrevente juramentado, o Carvalhais. Era um rapaz adamado, abrilhantado, com
uns ares importantes, uma pasta igual à minha, variando de roupas todos os dias
e fazendo a noce com a maior distinção. Quase sempre bebíamos juntos
e ele me dizia sempre: “Doutor, hei de lhe arranjar uma coisa boa”. “Pois bem,
Carvalhais”, respondia-lhe eu. Um dia,
ao chegar ao fórum, logo topei com o Carvalhais, acompanhado de um
sujeito rústico, branco, musculoso, curto, a quem me apresentou, como
precisando dos meus serviços. “Pois não”, fiz eu muito contente. “Então”,
respondeu o Carvalhais, “vamos todos ao tabelião”. Fomos. Lá, Carvalhais falou
a um colega, que abriu um grande livro, e eu mais o cliente ficamos sentados à
espera. Daí a pouco, fui chamado por Carvalhais. Assinei o tal livro, o cliente
também, Carvalhais também. “Agora”, disse-me Carvalhais, “vamos até ao
escritório do doutor, pois temos ainda o que fazer”. Assim fizemos. Em lá
chegando, ele me deu três ou quatro papéis a assinar – o que fiz sem os ler.
–
Homessa!
–
Paciência filho; espera! Acabado o que, ele, o Carvalhais, me disse: “Doutor,
não há serviço que não mereça paga”. Tirou do bolso seis notas de quinhentos
mil-réis e me deu. Despediu-se amavelmente e foi-se com o meu cliente.
–
Qual era a causa?
–
Tu sabes?
–
Não.
– Nem eu... No dia seguinte, fechei o
escritório.
O Malho, Rio, 28-6-1919.
Entendendo a crônica:
01 – Como o advogado Castro se preparou para
exercer a advocacia e qual era a contradição entre a sua imagem e a realidade
da sua rotina?
Castro formou-se jovem e, utilizando economias de apólices e
seu salário nos Correios, comprou todo o "arreamento" simbólico da
profissão: anel de grau, guarda-chuva com castão de ouro, pasta de couro,
fraque e um escritório com funcionário. A contradição residia no fato de que,
apesar da indumentária refinada e da postura solene, ele não tinha cliente
algum e passava os dias folheando manuais, esperando em vão e saindo para
almoçar e tomar aperitivos com literatos.
02 – O que levou o protagonista a abandonar os
estudos e a prática literária, preferindo focar na advocacia?
Castro revela ter frequentado o meio literário na época de
estudante, escrevendo em revistas e fazendo discursos, mas confessa ter
abandonado a literatura por medo dos gramáticos, cujas disputas e divergências
eram constantes e públicas. Ele considerava a advocacia uma área mais reservada
e menos exposta à crítica direta.
03 – Qual foi o impacto da publicação do
anúncio na revista "Os Sucessos" e que prejuízo isso trouxe a Castro?
Ao aceitar publicar um anúncio na seção "Momentos dos
Advogados" da revista do colega Fontes, o escritório de Castro foi
invadido por diretores, gerentes e secretários de diversas outras publicações
pedindo anúncios semelhantes. Acreditando que isso atrairia clientela, Castro
autorizou múltiplos anúncios, o que não lhe trouxe nenhum cliente real e
resultou num prejuízo de cerca de dois contos de réis em apenas um ano.
04 – Como se deu a aproximação de Castro com o
escrevente Carvalhais e qual promessa este lhe fazia?
Castro conheceu Carvalhais no fórum. O escrevente era um
jovem elegante, vaidoso e articulado que ostentava boa vida. Durante os
encontros e bebidas que tomavam juntos, Carvalhais prometia constantemente ao
advogado que iria arranjar-lhe "uma coisa boa", ou seja, um serviço
ou cliente rentável.
05 – Como ocorreu o atendimento ao primeiro e
único cliente arranjado por Carvalhais?
Carvalhais apresentou a Castro um homem rústico no fórum e
levou todos ao tabelião. Lá, o advogado assinou um grande livro cartorário sem
saber do que se tratava. Em seguida, foram ao escritório de Castro, onde o
advogado assinou diversos papéis em branco trazidos por Carvalhais, sem ao
menos lê-los.
06 – Quanto Castro recebeu por esse trabalho e
qual foi a sua reação no dia seguinte a esse evento?
Após as assinaturas, Carvalhais entregou a Castro a quantia
de três contos de réis (seis notas de quinhentos mil-réis) como pagamento pelo
serviço prestado. No dia seguinte, percebendo o perigo ético e jurídico de ter
assinado documentos desconhecidos em uma causa cujo teor nem sequer sabia qual
era, Castro encerrou definitivamente suas atividades e fechou o escritório.
07 – De que forma a crônica satiriza a formação
bacharelesca e as aparências da elite profissional na Primeira República?
Lima Barreto expõe como o prestígio social da advocacia na
época era sustentado por aparências externas (fraque, anel de grau,
suntuosidade dos acessórios) em detrimento da competência técnica e da ética
profissional. A narrativa ironiza um sistema onde o bacharel ostenta status sem
ter trabalho e acaba sendo instrumentalizado por esquemas cartorários obscuros,
preferindo enriquecer involuntariamente na ilegalidade a construir uma carreira
legítima.
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