quarta-feira, 14 de outubro de 2026

FÁBULA: RAP DA CIGARRA E A FORMIGA - JÔ SOARES - COM GABARITO

 Fábula: RAP DA CIGARRA E A FORMIGA

           Jô Soares

Saca essa fábula, bicho,

que vai te deixar cabreiro.

Num depósito de lixo

tinha um bruta formigueiro.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhlf4ySUKMDhESOhJwTvO7MDbKcEYyp38OPBl1lK9_8dOkoVP3xzCkPNQZ921shv9a2l7LPnpNWFiM6L29Si0O6yQmg5KpGrXRvlEA42Nt9GIo3-SlGAAwU9l0MlKOe8riGbYazKWCJUTnwYFEuZO5T4U5hE-3LVRul_5YT1G5SyGLhK-CxYIx4GJqywVI/s320/images.jpg
 

O formigueiro falado,

na verdade não era mixo.

Foi só pra ficar rimado

que eu falei que era no lixo.

As formigas, ligadonas,

trabalhavam noite e dia.

Ficavam muito doidonas

plugadas nessa mania.

Podes crer, não é mentira.

Um dia uma punk louca

que se chamava cigarra

e achava que era touca

trabalhar tanto, na marra,

se meteu com a formigada

e falou, pontificando:

-- Trabalhar é uma jogada

devagar, quase parando.

Coisa careta, uma fria,

bobeira que eu não assumo.

E avisou que não curtia

formigueiro de consumo.

 

As formigas, sem ligar,

responderam na maior:

-- Se você não trabalhar,

vai acabar na pior.

A cigarra se mandou

dizendo que era besteira.

Das formigas se afastou

cantando um rock pauleira.

Só voltou quando era inverno.

As formigas, pra esnobar,

em vez de um papo fraterno,

foram se bacanear.

Disseram logo as formigas:

-- Olha, se quiser guarida

vai pedir pras tuas amigas.

Nós não damos boa vida.

E a cigarra: – Eu tô na minha...

Não vim aqui pedir nada.

Só vim dizer que eu, sozinha,

fiz a Sena acumulada.

        Moral: Para alguém ganhar sozinho a Sena acumulada, tem que ser leão. Ou então cigarra, bicho. Enfim, bicho: bicho.

Jô Soares. Revista Veja. São Paulo: Editora Abril, 31 out. 1990, p. 17.

Fonte: Língua Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C. Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição – São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 89-90.

Entendendo a fábula:

01 – O texto de Jô Soares é uma reescrita da famosa fábula de Esopo/La Fontaine. Quais são as principais diferenças de tom e de linguagem que modernizam essa narrativa?

      A principal diferença é a utilização do gênero textual rap combinado com uma linguagem urbana, jovem e repleta de gírias da cultura pop/underground (como "saca essa", "cabreiro", "bacanear", "punk louca", "careta", "na maior"). Em vez do tom moralizante e solene da fábula tradicional, o autor adota um tom humorístico, descontraído e satírico.

02 – Na segunda estrofe, o narrador faz um comentário sobre o local onde ficava o formigueiro ("Foi só pra ficar rimado / que eu falei que era no lixo"). O que essa metalinguagem revela sobre a estrutura do texto?

      Essa intervenção revela o uso da metalinguagem, na qual o poeta expõe a própria construção do poema ao leitor. Ele admite de forma cômica que a escolha da palavra "lixo" para determinar o cenário foi feita apenas pela necessidade de criar uma rima com "mixo", sem compromisso com a verossimilhança da história, humanizando a figura do narrador.

03 – Como a Cigana é caracterizada no texto e qual é a sua visão em relação ao trabalho contínuo exercido pelas formigas?

      A Cigarra é caracterizada como uma figura rebelde e contra-cultural ("punk louca"), que rejeita o modelo de vida tradicional. Para ela, trabalhar "na marra" e sem parar é uma atitude "careta", "uma fria" e "uma jogada devagar". Além disso, ela critica o estilo de vida das formigas ao afirmar que não curte um "formigueiro de consumo".

04 – Qual é a reação das formigas ao reencontrarem a Cigarra no inverno e o que essa atitude representa?

      Ao reencontrarem a Cigarra no inverno, as formigas agem com soberba e individualismo ("pra esnobar", "foram se bacanear"). Em vez de oferecerem ajuda, mandam a Cigarra procurar as amigas e afirmam que não dão "boa vida" a ninguém. Essa atitude representa a falta de solidariedade e o orgulho das formigas por cumprirem a rotina de trabalho.

05 – Como ocorre o "quebra de expectativa" (clímax cômico) no final do poema em relação ao desfecho da fábula tradicional?

      Na fábula tradicional, a Cigarra volta no inverno humilhada, faminta e dependente do auxílio das formigas. No texto de Jô Soares, a expectativa é subvertida: a Cigarra não volta para pedir abrigo ou comida, mas sim para ostentar que ganhou sozinha na "Sena acumulada", tornando-se rica sem precisar do trabalho duro do formigueiro.

06 – Como a "moral da história" apresentada ao final ironiza tanto o conceito tradicional de fábula quanto a própria realidade social?

      A moral da história ironiza o ensinamento clássico de que "somente o trabalho duro garante a prosperidade". Ao mostrar que a Cigarra enriqueceu por ter ganhado na loteria (Sena acumulada), o texto ironiza a sorte aleatória e as facilidades financeiras que fogem à regra do esforço pessoal. O trocadilho final com "leão" e "bicho" reforça o tom de piada e deboche sobre a aleatoriedade da riqueza.

07 – Quais elementos do texto exemplificam a crítica ao modelo de sociedade focado no trabalho excessivo e no consumo?

      A crítica aparece na descrição das formigas, que trabalhavam "noite e dia" e ficavam "doidonas / plugadas nessa mania" de produzir, caracterizando um vício pelo trabalho atrelado ao "formigueiro de consumo". O texto põe em cheque se a obsessão pelo trabalho sem espaço para a arte ou o lazer é realmente o único caminho válido para a vida.

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário