Fábula: RAP DA CIGARRA E A FORMIGA
Jô Soares
Saca essa fábula, bicho,
que vai te deixar cabreiro.
Num depósito de lixo
tinha um bruta formigueiro.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhlf4ySUKMDhESOhJwTvO7MDbKcEYyp38OPBl1lK9_8dOkoVP3xzCkPNQZ921shv9a2l7LPnpNWFiM6L29Si0O6yQmg5KpGrXRvlEA42Nt9GIo3-SlGAAwU9l0MlKOe8riGbYazKWCJUTnwYFEuZO5T4U5hE-3LVRul_5YT1G5SyGLhK-CxYIx4GJqywVI/s320/images.jpgO formigueiro falado,
na verdade não era mixo.
Foi só pra ficar rimado
que eu falei que era no lixo.
As formigas, ligadonas,
trabalhavam noite e dia.
Ficavam muito doidonas
plugadas nessa mania.
Podes crer, não é mentira.
Um dia uma punk louca
que se chamava cigarra
e achava que era touca
trabalhar tanto, na marra,
se meteu com a formigada
e falou, pontificando:
-- Trabalhar é uma jogada
devagar, quase parando.
Coisa careta, uma fria,
bobeira que eu não assumo.
E avisou que não curtia
formigueiro de consumo.
As formigas, sem ligar,
responderam na maior:
-- Se você não trabalhar,
vai acabar na pior.
A cigarra se mandou
dizendo que era besteira.
Das formigas se afastou
cantando um rock pauleira.
Só voltou quando era inverno.
As formigas, pra esnobar,
em vez de um papo fraterno,
foram se bacanear.
Disseram logo as formigas:
-- Olha, se quiser guarida
vai pedir pras tuas amigas.
Nós não damos boa vida.
E a cigarra: – Eu tô na minha...
Não vim aqui pedir nada.
Só vim dizer que eu, sozinha,
fiz a Sena acumulada.
Moral: Para alguém ganhar sozinho a Sena acumulada, tem
que ser leão. Ou então cigarra, bicho. Enfim, bicho: bicho.
Jô Soares. Revista Veja. São Paulo: Editora Abril, 31 out. 1990, p. 17.
Fonte: Língua
Portuguesa. Trabalhando com a linguagem. Givan Ferreira/Isabel C.
Cordeiro/Maria Ap. Almeida Kaster/Mary Marques. 6ª série – 7º ano. 1ª edição –
São Paulo – 2004. Quinteto Editorial. p. 89-90.
Entendendo a fábula:
01
– O texto de Jô Soares é uma reescrita da famosa fábula de Esopo/La Fontaine.
Quais são as principais diferenças de tom e de linguagem que modernizam essa
narrativa?
A principal
diferença é a utilização do gênero textual rap combinado com uma linguagem
urbana, jovem e repleta de gírias da cultura pop/underground (como "saca
essa", "cabreiro", "bacanear", "punk louca",
"careta", "na maior"). Em vez do tom moralizante e solene
da fábula tradicional, o autor adota um tom humorístico, descontraído e
satírico.
02
– Na segunda estrofe, o narrador faz um comentário sobre o local onde ficava o
formigueiro ("Foi só pra ficar rimado / que eu falei que era no
lixo"). O que essa metalinguagem revela sobre a estrutura do texto?
Essa intervenção revela o
uso da metalinguagem, na qual o poeta expõe a própria construção do poema ao
leitor. Ele admite de forma cômica que a escolha da palavra "lixo"
para determinar o cenário foi feita apenas pela necessidade de criar uma rima
com "mixo", sem compromisso com a verossimilhança da história,
humanizando a figura do narrador.
03
– Como a Cigana é caracterizada no texto e qual é a sua visão em relação ao
trabalho contínuo exercido pelas formigas?
A Cigarra é
caracterizada como uma figura rebelde e contra-cultural ("punk
louca"), que rejeita o modelo de vida tradicional. Para ela, trabalhar
"na marra" e sem parar é uma atitude "careta", "uma
fria" e "uma jogada devagar". Além disso, ela critica o estilo
de vida das formigas ao afirmar que não curte um "formigueiro de
consumo".
04
– Qual é a reação das formigas ao reencontrarem a Cigarra no inverno e o que
essa atitude representa?
Ao reencontrarem
a Cigarra no inverno, as formigas agem com soberba e individualismo ("pra
esnobar", "foram se bacanear"). Em vez de oferecerem ajuda,
mandam a Cigarra procurar as amigas e afirmam que não dão "boa vida"
a ninguém. Essa atitude representa a falta de solidariedade e o orgulho das
formigas por cumprirem a rotina de trabalho.
05
– Como ocorre o "quebra de expectativa" (clímax cômico) no final do
poema em relação ao desfecho da fábula tradicional?
Na fábula
tradicional, a Cigarra volta no inverno humilhada, faminta e dependente do
auxílio das formigas. No texto de Jô Soares, a expectativa é subvertida: a
Cigarra não volta para pedir abrigo ou comida, mas sim para ostentar que ganhou
sozinha na "Sena acumulada", tornando-se rica sem precisar do
trabalho duro do formigueiro.
06
– Como a "moral da história" apresentada ao final ironiza tanto o
conceito tradicional de fábula quanto a própria realidade social?
A moral da
história ironiza o ensinamento clássico de que "somente o trabalho duro
garante a prosperidade". Ao mostrar que a Cigarra enriqueceu por ter
ganhado na loteria (Sena acumulada), o texto ironiza a sorte aleatória e as
facilidades financeiras que fogem à regra do esforço pessoal. O trocadilho
final com "leão" e "bicho" reforça o tom de piada e deboche
sobre a aleatoriedade da riqueza.
07
– Quais elementos do texto exemplificam a crítica ao modelo de sociedade focado
no trabalho excessivo e no consumo?
A crítica aparece
na descrição das formigas, que trabalhavam "noite e dia" e ficavam
"doidonas / plugadas nessa mania" de produzir, caracterizando um
vício pelo trabalho atrelado ao "formigueiro de consumo". O texto põe
em cheque se a obsessão pelo trabalho sem espaço para a arte ou o lazer é
realmente o único caminho válido para a vida.
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