domingo, 28 de junho de 2026

CONTO: A PRINCESA E O ANJO NEGRO - DAVID GONÇALVES - COM GABARITO

 Conto: A PRINCESA E O ANJO NEGRO

           David Gonçalves

 

        Eram sete irmãs. Seis se casaram. Menos uma. E a mais bonita. Filhas de um pequeno comerciante, que a todas reservou boa educação e dote considerável. Pouco comum, naquele tempo, as mulheres frequentarem escolas. Mas elas frequentaram ensino pago. O pai não poupou esforços. Trabalhava no velho armazém como escravo. Ele sabia que não era fácil casar uma filha que não tivesse boa educação e uma quantia razoável de moedas. Até à sua morte, durante mais de quarenta anos, quem passasse pela rua, podia vê-lo trabalhando até altas horas. Costumava-se dizer, que ele tinha calos na barriga de tanto esfregá-la no balcão.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgHQ8DOq6JLT5l3kRUSa5VTuLzzWD5YZLvd0Vb5MShqUAH9j8_RfKFtxPBWm4B4VKMGas6GxRdZFBujHbg4zNhMZljr19Zzz1asBL1In84v0M1HXwshG36vf05UDZopSB7rSZ77X4VjWvORRchNDTRKPaUq6ome7u-hOURzv8M5kN2pqKUv1okQ_nYBRbA/s320/DESTAQUE.jpg


        A todas elas, choveram pretendentes. Afinal, que moço de nossa região não desejava uma oportunidade desta?  Todas belas, nenhuma com defeitos graves, a não ser umas pintas aqui e acolá, que ajudavam a deixá-las mais bonitas. Maria, Judite, Lindalva, Rosa, Elisa, Joana e Francisca. Dos dezoito anos aos vinte, uma a uma foi-se casando, deixando o ninho. Mas Lindalva, talvez a mais bela, não deixou.

        Todos se perguntavam: o que havia de estranho? Por mais que indagassem, nada era visível. E isto atiçava a curiosidade de nossa gente. Somos uma espécie de seres aguçados pela magia que o desconhecido proporciona.

        Desde pequena, Lindalva destacava-se das outras. Conforme crescia, tornava-se mais exigente. Enquanto as irmãs contentavam-se com a vida simples da pequena cidade, ela criava ares de importância. Para ir à escola, vestia-se com esmero. Penteava-se lentamente, colocava flores nos cabelos negros, como se fosse já moça.

        As outras meninas brincavam no pátio da escola, sujavam-se, algumas até brigavam e voltavam para casa com rasgões no uniforme. Lindalva não se misturava com as meninas, muito menos com os meninos. As professoras a tratavam com mimos. Era o exemplo na higiene, no comportamento e nas avaliações. Seus cadernos eram diferentes, cheios de florzinhas e cores do arco-íris. Enquanto as meninas tagarelavam, ela postava-se numa velada educação.

        -- Por que não fazem como Lindalva? – esbravejava a professora de Arte. – Olhem para ela: está sempre limpa, traz as tarefas em dia!

        Por isso era odiada. Qual criança gosta de ser comparada com outra? Em pouco tempo, andava só. Ninguém queria fazer-lhe companhia. Sinceramente, andar com ela seria como ficar no meio de fogo cruzado.

        Mesmo ainda uma criança – nem completara treze anos –, começou a encher-se de perfumes, que ela sorrateiramente pegava das prateleiras do armazém. Tomava longos banhos, como se fossem rituais. Desde esta idade, entregou-se a uma verdadeira loucura por roupas. Todas as meninas apreciam roupas bonitas, mas com ela era diferente. Procurava destacar-se pelo charme e a novidade. Devorava as revistas de moda e procurava colocar-se na vanguarda. A moda nem tinha chegado ao Rio de Janeiro ou São Paulo, ela já estava atormentando as costureiras para copiar os modelos. Isto, sem dúvida, espantava a cidade.

        Em grupo, falavam coisas e coisas dela, mas, no íntimo, tinham certa inveja. Chegava a ser até mesmo ridículo. Mas logo outras mocinhas começavam a imitá-la. Todas as suas conversas giravam em torno das novidades da moda e de seus caprichos. Tornava-se chata. Era amada escondidamente e também odiada.

        Aquilo, entretanto, logo se revelou uma verdadeira paixão. Seus olhos brilhavam. A mesada que recebia dos pais era consumida nestas extravagâncias. De noite, por diversas vezes, foi pilhada cortando metros de fazenda do armazém do pai, como ladra. Até mesmo caçar borboletas, como se deu com o velho alemão Fritz Walden, pode tomar conta do coração e se transformar numa paixão. Já não se trata de algo domável, mas de uma obsessão, uma espécie de doença.

        Dizia às irmãs:

        -- Vocês são bobas! Se agarram, desesperadas, ao primeiro homem que aparece. Até parece que o homem é uma tábua de salvação! Tolinhas...

        As irmãs riam. O fato é que elas, apesar de bobinhas e desesperadas, como Lindalva apregoava, estavam casando. Não aguardavam o príncipe encantado. Queriam homens trabalhadores e que as tratassem bem. Mas Lindalva, a cada dia, tornava-se mais exigente.

        As mulheres, então, usavam as roupas por muitos anos. Não era só para uma estação. O comerciante vendia peças inteiras, fechadas. Lindalva usava no máximo três vezes, depois abandonava as peças e ia atrás de outras novidades. Para cada ocasião, um traje. Batizados, casamentos, missas, visitas – tudo exigia um traje diferente.

        Conselhos da mãe não lhe faltavam. Os pretendentes apareciam, logo sumiam. Desprezava-os, tratava-os como chinelos gastos.

        -- O que você quer, afinal? – perguntava a mãe, aborrecida. – Um príncipe encantado? Isto só acontece nas histórias de fada, sua bobinha! Pelo que sei você não é nenhuma fada, com a varinha mágica...

        Ela rebatia:

        -- Não me casarei com um pé-rapado! Eu me valorizo. Não devo ter pressa, posso esperar.

        -- Beleza não se põe em mesa, filha! Olha suas irmãs: nenhuma está aflita, estão bem casadas e muito contentes.

        -- Elas não são finas. Sequer sabem usar roupas. Estão gordas e deformadas. Eis o que o casamento com esses brutamontes lhes rendeu. Eu não quero ficar assim, como tamborete.

        -- Menina, olha o que diz! Elas trabalham com seus maridos. Estão indo muito bem. Querem fazer o pé de meias. Nada mais justo.

        -- Ora, mamãe, de que adianta bom pé de meia, cofre cheio, se o corpo se parece com um sapo, uma mulher doente? Se é para envelhecer antes do tempo, a pretexto de servir maridos e angariar fundos, prefiro continuar sozinha.

        -- A juventude, filha, é uma flor delicada, logo se desfaz. Dela, só nos restam as lembranças... Olhe para mim: pensa que sempre tive essas rugas, esses cabelos brancos, essa barriga forrada de gordura? Sem falar das varizes que me torturam... A juventude é uma ilusão...

        -- Ah, mamãe, você ficou assim porque trabalhou demais, quase se matou para nos criar. É justamente isto que eu não quero! A velhice é um fantasma que me assusta, me persegue!

        -- Crie juízo, menina: a beleza é uma espécie de promessa da felicidade. De que adianta a alguém tanta formosura se não tem cérebro? Ela é passageira, filha, e é um bem frágil.

        -- Oh, mamãe, só não quero envelhecer antes do tempo, como acontece com as minhas irmãs.

        Desesperada, a mãe desistia dos conselhos. Dava de ombros e pensava: “Com o rolar dos dias, ela mudará de opinião. Não tem juízo. O amor ainda não tocou o seu coração.”

        Mas não foi isto que aconteceu.

        Mulheres precisam de maridos. Quem escolhe muito acaba sozinha. Os dias passavam e Lindalva dedicava-se a certas extravagâncias. Sua beleza resplandecia e deixava os moços apaixonados, e as moças com inveja.

        Choviam pretendentes. Muitos eram atraídos pelo dote. Nem todas as jovens tinham esta vantagem. As pobres casavam-se ou se amancebavam por circunstâncias: nada tinham que ofertar a não ser noites quentes de amor e trabalho escravo. Precisavam ajudar os seus homens no sustento da casa. Podres de cansaço, elas tinham por obrigação oferecer a mesa posta e bons momentos de cama. Com Lindalva, o dote funcionava como visgo aos homens que vinham de longe, sempre bem arrumados. Mas ela os refutava.

        -- Parece um moço tão distinto! – observava a mãe.

        Ela dava de ombros.

        -- Não gostei.

        -- Do que não gostou? O que espera encontrar nos homens? São todos iguais. São brutos e ignorantes. De noite, não querem saber de beleza alguma. Querem ser satisfeitos!

        -- Ele tem tufos de pelo no nariz. Isto, sinceramente, me dá nojo. Se tem pelos no nariz, também tem nas costas. Não quero me casar com um lobisomem! Deus me livre!

        Para outro pretendente observou:

        -- Cheira igual a um bode.

        -- Ora, qual homem que não exala suor? Só se for um maricão... E as mulheres também fedem.

        -- As vulgares, talvez. Eu não me incluo nesta gentinha.

        -- Do que pensa que é feita? Por acaso, nas suas veias corre água de colônia? Somos barro.

        -- Seja o que for, não quero um bode velho na minha vida.

        Quanto mais desprezava, mais eles se apaixonavam. Os homens gostam das flores que não conseguem colher. Muitos, sofrendo, desapareciam chapadão afora, tresloucados, e nunca mais pisavam o chão da cidade.  Havia o que cobiçava o dote e aquele que se deixava dominar pela força daqueles olhos negros.

        Por esta ocasião, os habitantes começaram a chamá-la de Princesa. Não era elogio, mas destrato. Talvez inveja, talvez despeito. Ou chacota. As más línguas não cochilam.

        -- O que a Princesa procura?

        Respondiam maldosamente:

        -- A geada do ano passado.

        Ora, como se as geadas pudessem ser guardadas de um ano para outro! Quem sabe, ela queria o impossível.

        Choviam ironias:

        -- Está esperando um anjo cair do céu.

        Mas anjos não habitam o terreno dos mortais.

        As casadas, rodeadas de filhos, frequentadoras da igreja, já envelhecidas pelos descuidos e intempéries, invejosas, destilavam veneno puro, cobras peçonhentas.

        -- Toda princesa se transforma em bruxa. Deus nos livre!

        Benziam-se.

        -- Quem sabe, à noite, o seu rosto fica salpicado de verrugas...

        Mas não ficava. O problema é que os anos passavam e a Princesa não percebia. Quando uma mulher não se casa, ela passa a criar horror pelos espelhos. Aparecem os primeiros cabelos brancos e normalmente sobrevém o desespero. Com Lindalva, nada disso acontecia. A cada dia, surpreendia a cidade com novas roupas e novos perfumes, e parecia mais bonita. Por onde andava, um cheiro de colônia pairava sobre as pessoas e as deixava inebriadas.

        Suas amigas estavam casadas e ela se sentia só. As moçoilas não gostam de passear com alguém mais velha. A conversa não flui e também há o medo de que a companhia de uma solteirona dê azar... E tinha o ar esnobe: ninguém a acompanhava nas roupas, nos perfumes, nas peças de teatro que se apresentavam nas grandes cidades. Ela estava muito acima das moças que desejavam arrumar um bom marido.

        Completara trinta anos. Estava pouco ligando para a idade. Embora fosse objeto de baixo falatório, ela continuava bela. Quando todos pensavam que o seu destino era a terrível solidão de solteirona, deu-se o inesperado: apareceu um raro pretendente. Vestia-se de preto. Sua cabeça sustentava um chapéu preto de abas largas. Veio do nada. Dava passadas altivas, como se desfilasse numa passarela, com todas as pompas. Suas calças eram bem vincadas e as botas de tacos fortes rebatiam no calçamento e produziam um barulho de aço.

        -- Pelo sim, pelo não, aqui estou e só levarei o que vim buscar! – disse numa fala empolada, cheio de altivez.

        Era um domingo à tarde e fazia muito calor. Os jovens tinham como hábito passear pela rua central. Lá estava a princesa, sozinha, indo de um lado a outro, com sua beleza insólita, como se esperasse por alguém, quando o cavalheiro negro se aproximou e, fazendo esquisitas mesuras, com um sorriso largo e desproporcional sob o bigode negro, foi dizendo:

        -- Sou o teu anjo. Vim buscar-te.

        Todos esperavam o desprezo usual de Lindalva. Afinal, ela tinha repudiado centenas de jovens. Algo estava para acontecer e todos previam o pior. Aquele pobre coitado sairia do encontro com o rabo entre as pernas. Os cochichos e risos abafados já soavam nos pequenos grupos de moças.

        Perplexa, a população domingueira viu a Princesa dar-lhe o braço e, sorridente, acompanhar o estranho cavalheiro rua acima.

        -- Ora, pois, finalmente o pé esquecido achou o seu chinelo – alguém balbuciou no meio da rua.

        -- Antes tarde do que nunca. Para nós, homens, há sempre uma armadilha preparada – comentou outro, sem explicar o que havia dito.

        Os comentários correram soltos na rua central. Algumas moças diziam que ela o apanhara por desespero. Que tipo de homem era aquele cavalheiro vestido de preto? Ninguém sabia dizer de onde vinha e muito menos se tinha alguma posse. Os moços que haviam sido desprezados por ela soltaram a língua de trapo; as mulheres, casadas ou não, teceram fuxicos apimentados.

        -- Será que ela, enfim, desceu do pedestal?

        -- Por que desceria? Ela nunca teve necessidade alguma de se mostrar humana. Deve ser fria como uma pedra.

        -- Provavelmente, ela conheceu a verdade.

        -- Que verdade?

        -- De que é muito difícil uma mulher bonita se achar realmente bonita quando a juventude declina.

        Brotavam hipóteses.

        -- Quem é o jovem cavalheiro?

        Ninguém sabia.

        Será que ela tinha este caso há tempo, por isso, não mostrava interesse por ninguém? Bem, ela sempre viajava para as cidades grandes. Com certeza, conhecera-o numa dessas viagens. Por que não? Mas por que ela manteve aquele segredo durante tanto tempo? Isso ninguém sabia.

        -- Caprichos de mulher...

        Todos estavam boquiabertos. Alguns seguiram o casal rua afora. Mas, de repente, como o vento, as silhuetas desapareceram, sob a leve poeira esparzida no ar abafado daquela tarde de domingo. Esconderam-se num fundo de quintal, num beco despovoado – foi a conclusão dos curiosos. Ninguém desaparece de um momento para outro, assim-assado!

        Fomos à casa dela. Os pais, já envelhecidos, de nada sabiam. Disseram que ela saíra para o passeio de domingo.

        Ela não apareceu naquela noite, muito menos nos dias seguintes. Uma intensa busca se desenrolou pela região, mas ninguém a tinha visto. Foi um grande alvoroço. Todos tinham as suas opiniões sobre o fato, mas não passavam de especulações. Nunca a cidade presenciara algo parecido.

        -- Pobre coitada! – diziam as mulheres. – Ela percebeu que só havia um jeito de sair do buraco: cavando outro buraco...

        Depois daquele domingo, uma década se passou e ninguém ouviu notícias da Princesa. Muito se falou dela e do estranho cavalheiro negro, que a raptou. Sim, é o que se divulgava: ela fora raptada.

        Outros acontecimentos foram possuindo nossas cabeças e a vida seguia o seu curso. O que há de se fazer? A vida segue em frente. Até sobre a família dela os comentários cessaram. Pais e irmãs sabiam o seu paradeiro? Provavelmente, não. Eles se fecharam em conchas. Sofriam, encolhiam-se resignados ao completo silêncio. E todos compreenderam que a ferida sangrava, por isso evitavam fazer comentários. Seis filhas viviam nas redondezas, casadas, um rol de filhos, ajuizadas e benquistas na comunidade. Uma, talvez a mais bela, encabeçara diverso rumo. O que fazer?

        -- Os dedos da mão são iguais?

        O velho comerciante, após a partida dela, fechou as portas do armazém. Não tinha mais vigor para tocar o negócio. Trabalhara tanto para dar boa educação às filhas e, na velhice, o mundo ruíra aos seus pés. Sentia-se fraco, com dores nas pernas e tropeçava facilmente, como se elas, sem comando, bambeassem. A última vez que o, vi estava numa cadeira de rodas, babava, e dizia palavras desconexas. Numa manhã de inverno, morreu. O enterro se deu sem alvoroço.

        A cidade também se transformara. Havia uma revolução de conhecimentos no campo. Os costumes milenares no trato da terra foram substituídos de forma inesperada. Já não se cortava o trigo com ancinhos. Mas com colheitadeiras potentes. Abandonou-se a enxada. Os tratores reviravam a terra e, ao mesmo tempo, semeavam, distribuindo o adubo na quantidade certa. Os pequenos agricultores – proprietários e meeiros – foram expulsos de seus sítios. Nas cidades, aglomerou-se um bando de gente que, antes, era dedicada ao trabalho, mas que, diante das circunstâncias, não sabia fazer mais nada. Por isso, esse bando de gente andava de um lado para outro, vagabundeando, muitos bebiam pelos botecos e seus filhos iniciavam-se nas drogas.

        -- O ócio destrói – afirmou um professor, revoltado, pois a escola, que era até então um lugar sagrado, tornara-se, repentinamente, um lugar onde não havia respeito e alunos ofendiam professores em público.

        Essa gente queria trabalhar, mas não havia o que fazer. Eram acostumados ao trabalho duro no campo, de sol a sol. Mas os tempos haviam mudado: o campo ganhava produtividade, porém eles conheciam a miséria, e seus filhos eram criados em periferias das cidades junto com ratos e lixões.

        Eis que, do nada, desembargou na rodoviária a Princesa. Chovia muito naquele dia. Uma névoa branca cobria a cidade e uma camada fina de lama vermelha tingia as ruas. Junto dela, uma garota de treze anos. Do bagageiro, desceram na plataforma pesadas malas. Ambas trajavam-se com requinte, com enormes brincos pendurados nas orelhas e sapatos de tacos altos, impróprios para a ocasião.

        -- Sabe quem é a fulana? – perguntou-me o dono do restaurante, onde eu acabara de digerir saborosa refeição caseira.

        Olhei-as. Não acreditei no que via.

        -- É a Princesa! – exclamei surpreso e tomado pela curiosidade. – O fantasma volta ao seu chão!

        -- Veja como elas andam! Eu diria que elas têm a rainha na barriga... Nunca vi tanta vaidade...

        -- Não mudou nada.

        -- Você as conhece?

        -- Uma, pelo menos.

        Fiz questão de ajudá-las a carregar as malas.

        -- Para onde vão?

        -- Ora, para casa – disse-me, enquanto se colocavam na minha frente e caminhavam com altivez. – Vamos, filha!

        -- Mamãe, o que viemos fazer aqui neste fim de mundo? Por acaso, essa gente está ainda na pré-história?

        Ela ralhou entre dentes:

        -- Vá em frente! Não estou disposta a dar explicações.

        Estava mais velha. Mas não perdera o brilho da formosura.

        Uma velha criada a recebeu. Vivia só. Logo que morrera o comerciante, também se findara a esposa. E a criada ficou morando na casa, que era parede e meia com o antigo armazém.

        Deixei-as na porta. Embora ardesse de curiosidade, nada descobri. Retornei ao restaurante e já senti que a notícia se espalhara. Nossa cidade, embora tivesse hábitos novos, despertou-se rapidamente diante do inesperado retorno da Princesa. O assunto estivera adormecido durante uma década, como brasas sob cinza. De repente, bastou um leve sopro e elas se avivaram.

        -- O que a traz de volta? Sumiu sem levantar poeira e voltou como se nunca tivesse pisado por aqui. Há coisas nesta história. Ninguém faz isto à toa...

        E as especulações começaram. A língua espicha porque não tem ossos. Por onde andara naqueles anos? Por que, enfim, voltara? Quem era o pai daquela menina? Que fim tivera o cavalheiro negro que a raptara naquela tarde ensolarada de domingo? Boatos circulavam.

        Aguardávamos impacientes o relato da sua longa ausência. Queríamos ouvir de sua boca e não através de mexericos. Para surpresa geral, ela se enfiou naquela casa e não saiu sequer na porta da rua. Víamos a criada arrastando as pesadas pernas gordas saindo com um cesto para fazer as compras, mas nenhum sinal dela. De nada valia perguntar à criada. Estava surda por causa da idade.

        Restava-nos a visita das irmãs. E, de fato, isto aconteceu.  Quando indagadas, diziam:

        -- Perguntem a ela! – e se fechavam.

        A filha, entretanto, surpreendeu-nos. Frequentando a escola, em poucos dias ficou conhecida. Tinha os mesmos hábitos da mãe quando jovem. Roupas novas, joias, perfumes, o ar esnobe, o culto à beleza. E falava com certa petulância, colocando-se num pedestal. Uma cópia perfeita. Logo ficou odiada e comentada. Os meninos a admiravam e se apaixonavam; as meninas destilavam veneno em suas línguas afiadas. Quando falava sobre as viagens que fizera com a mãe, tornava-se indigesta e criava ciúmes na plateia que nunca havia viajado.

        -- Paris! Paris! Aquilo que é cidade! O berço do amor e da poesia...

        Haveria algum dote para ela? Princesa retornara com algum baú cheio de ouro? Suposições e mais suposições.

        Vi a cidade voltar àqueles anos em que a Princesa desfilava altiva pelas ruas, desprezando jovens apaixonados e causando furor nas amigas, à espera de seu anjo, o cavalheiro negro.

        Perguntaram, certo dia, a Elizabeth por que não se casava. Respondeu com desprezo:

        -- Com esses bodes velhos? Nem morta! Esses homens pré-históricos são capazes de agarrar a mulher pelos cabelos e a arrastarem pelas ruas como troféu. Espero por algo melhor...

        As moças de sua idade foram casando-se. Elizabeth, como a mãe, vivia sozinha, num pedestal. As más línguas a chamavam de Elizabeth, a rainha, já que não podiam chamá-la de princesa.

        -- Se não gosta daqui, por que não vai embora?

        Não havia resposta.

        -- O que está esperando?

        -- Espero por um anjo.

        Por esta ninguém esperava. Um anjo! Mas que besteira! Anjos não habitam a terra.

        -- O fruto não cai longe da árvore – diziam as mulheres que conheciam a Princesa desde pequena.

        -- Só se for o Anjo Negro!

        Elizabeth sacudia os ombros, desdenhando.

        -- Seja o que for. Espero por ele.

        Espalhou-se, de forma abrupta, que ela era fruto de alguma bruxaria. Quando os capuchinhos vieram à cidade para fazer uma lavagem dos pecados, apreensivos, eles foram à casa da Princesa para administrar as bênçãos. Semana Santa, quarta-feira, três deles bateram à porta, mas em vão. Não foram recebidos. Pacientes, esborrifaram água benta nos oitões e a água benta ferveu, evaporando. Eles saíram apressados, como se fugissem de uma legião de demônios, deixando as fiéis beatas apavoradas.

        Na sexta-feira, quando caminhávamos para a celebração do calvário, depois de jejuar até o meio-dia, Elizabeth – com roupas novas, coloridas, pulseiras brilhantes – caminhava alegre na avenida. Parecia que ia para uma festa. Por onde passava, um lastro de colônia pairava no ar, inebriando. Aquilo era um verdadeiro sacrilégio. Mulheres se benziam e caminhavam sôfregas sem olhar para trás.

        Então, para nosso espanto, no meio daquela pequena multidão que caminhava em direção da igreja naquele dia santo, surgiu um cavalheiro negro com um esquisito sorriso sob o bigode espesso, de chapéu de abas largas, e no meio de todos, depois de fazer mesuras, disse com a voz empolada e em bom tom:

        -- Aqui estou, minha rainha.

        Estávamos paralisados.

        -- Sou o teu anjo. Vim buscá-la.

        Elizabeth agarrou-se ao seu braço e, numa conversa elegante, mas abafada, como antigos amantes, caminharam rua afora. Depois, sem deixar vestígios, desapareceram.

        Apavorados, não tivemos dúvidas: era obra do demônio. Quem vira o cavalheiro negro, quando viera buscar a Princesa, não se cansava de dizer:

        -- É o Anjo Mau. Eu vi. Repuxava as orelhas como Belzebu. Aquele chapéu é para esconder os chifres!

        No sábado santo, algumas pessoas picharam a casa da Princesa, com nomes feios, excomungando-a. Mas ela não abriu a porta e muito menos apagou as ofensas das paredes.

        Passou-se mais uma leva de anos. O esquecimento cobriu nossas cabeças. Tudo muda. O mundo é móvel e a vida segue em frente.

        Sempre que passava por perto da casa da Princesa, eu parava, perscrutando. Estaria viva ainda? A criada surda morrera. Urubus nunca pousavam naquele telhado. E ela nunca abria as janelas.

        E um desses dias, em que dava minhas caminhadas, uma janela se abriu, inesperadamente, e vi alguém chamando. Fiquei perturbado. O chamado era para mim. Não havia mais ninguém por perto. Não esperava que alguma janela do velho armazém se abrisse. Belisquei meu braço para ver se estava consciente. Um vulto me chamava. Caminhei trôpego, com chumbo nas pernas. Fosse outro, teria fugido. Ao me aproximar da janela, vi o que não via há anos: a Princesa.

        -- Senhor, por favor, preciso de sua ajuda...

        Abriu-me a porta, que ringiu demoradamente. Mandou-me sentar. O sofá antigo e empoeirado tinha até teias de aranha.

        -- Oh, desculpe a desordem... Depois que a criada se foi...

        Estava curvada e enrugada. Rosto cheio de verrugas e cabelos brancos descuidados. Deixara de pintá-los. Andava com dificuldade. Comunicou-me:

        -- Quero vender tudo o que tenho. Não tenho a quem deixar os meus pertences. Devem valer uma fortuna.

        E me mostrou os casacos de peles, os tapetes persas e chineses, as roupas íntimas, as joias, uma coleção de sapatos, uma infinidade de lenços e vestidos, todos bem dispostos como se estivessem em uma vitrine.

        Fiquei aturdido. Quem compraria aquelas roupas de quarenta anos? Eram vanguarda, então, mas o que fazer com elas hoje? Ela tinha peças íntimas que nunca foram usadas. Ao menor toque, com certeza se desintegrariam como poeira. O cheiro nauseabundo de naftalina me provocava dor de cabeça. Assim mesmo, as traças tinham feito grande estrago. Abriu-me pelo menos uma dúzia de baús. O que fazer com tudo aquilo? Haveria algum maluco disposto a jogar dinheiro fora? Há algo mais volátil do que a moda? Os gostos mudam conforme os ventos. Mesmo as joias – correntes pesadas, longos brincos, pulseiras enormes, grandes broches adornados, anéis de ouro maciço. Só se alguém os derretesse e transformasse em barras.

        -- Quero me desfazer desses objetos.

        Tentei explicar a evolução dos tempos. Minhas palavras soaram inúteis. Enfim, concordei.

        -- Verei o que posso fazer.

        E saí. Respirei fundo: para me desintoxicar, a plenos pulmões. Tinha entrado numa enrascada. O que ela me pedia era absurdo. Bem, pelo menos, estivera frente a frente com ela e, de certo modo, minha curiosidade fora saciada.

        Uma semana depois, quando resolvi visitá-la para dizer que não aceitava a proposta, vi urubus sobrevoando a casa. Forcei a porta e ela se escancarou. Encontrei tudo revirado, baús abertos, roupas jogadas pelo assoalho empoeirado. As joias tinham sumido. No canto da sala, jazia a Princesa, putrefata, o pescoço degolado. Moscas azuis pousavam sobre a pele em decomposição. Ratões remexiam as vísceras e o mau cheiro era insuportável.

        Foi enterrada às pressas. Chovia muito e sua sepultura se encheu de água e lama. Nem mesmo as irmãs compareceram. Ao sair do cemitério, tive a impressão de que o cavalheiro negro também saía. Estava sem guarda-chuva, mas não se molhava, e tinha o mesmo sorriso esquisito sob os espessos bigodes.

David Gonçalves.

 

Entendendo o conto:

 

01 – Como era a personalidade de Lindalva na infância e de que forma ela se diferenciava de suas seis irmãs?

      Ao contrário de suas irmãs, que aceitavam a vida simples da pequena cidade, Lindalva era extremamente exigente, vaidosa e esnobe desde criança. Na escola, ela não se misturava com os outros alunos, mantinha seus cadernos impecáveis e era usada pelas professoras como exemplo de higiene, o que a tornava odiada pelas outras crianças. Enquanto suas irmãs viam o casamento com homens trabalhadores como algo natural, Lindalva desenvolveu uma obsessão por roupas de vanguarda, perfumes e luxo, recusando-se a envelhecer trabalhando como a mãe e as irmãs.

 

02 – Por que Lindalva recebeu o apelido de "Princesa" pelos habitantes da cidade?

      O apelido "Princesa" não era um elogio sincero, mas sim uma forma de deboche, chacota e expressão de inveja ou despeito dos moradores da cidade. O termo surgiu porque Lindalva andava sempre isolada em seu "pedestal", vestindo-se com luxo extravagante e rejeitando sistematicamente todos os pretendentes da região, tratando-os com desdém sob a justificativa de que não se casaria com nenhum "pé-rapado" ou homem vulgar.

 

03 – O que aconteceu de inesperado quando Lindalva completou trinta anos e qual foi a reação da população?

      Em um domingo de muito calor, surgiu na cidade um estranho e altivo cavalheiro inteiramente vestido de preto, usando um chapéu de abas largas, que se aproximou de Lindalva e disse: "Sou o teu anjo. Vim buscar-te". Para o espanto absoluto da população — que esperava o tradicional desprezo da moça —, Lindalva sorriu, deu-lhe o braço e caminhou com ele rua acima. Logo em seguida, os dois desapareceram misteriosamente como o vento, iniciando um sumiço que duraria uma década.

 

04 – Como a filha de Lindalva, Elizabeth, comportava-se ao retornar à cidade e que paralelo os moradores faziam entre ela e a mãe?

      Elizabeth era uma cópia perfeita da mãe na juventude: herdou o ar esnobe, o culto obsessivo à beleza, o uso de perfumes caros, joias e roupas requintadas. Ela agia com petulância e desprezava os rapazes locais, chamando-os de "bodes velhos" e "homens pré-históricos". Os moradores diziam que "o fruto não cai longe da árvore" e passaram a chamá-la de "Elizabeth, a rainha", prevendo que ela teria o mesmo destino misterioso da mãe.

 

05 – De que forma o "Anjo Negro" reaparece na história e qual o impacto desse evento sobre a população religiosa?

      O cavalheiro negro reaparece anos mais tarde, em plena Sexta-Feira Santa, no meio da multidão que caminhava para a celebração do calvário. Ele faz mesuras para Elizabeth e repete a frase: "Sou o teu anjo. Vim buscá-la". Elizabeth agarra seu braço e os dois desaparecem sem deixar vestígios. A população, apavorada e paralisada, conclui que o homem era o próprio demônio (Belzebu), e o evento gera tanto pânico que os moradores chegam a pichar a casa da Princesa com insultos e excomunhões no Sábado de Aleluia.

 

06 – Qual era o estado físico e psicológico da Princesa quando ela abriu a janela e pediu a ajuda do narrador após tantos anos?

      O narrador encontra a Princesa completamente decadente, velha, curvada, enrugada, cheia de verrugas no rosto e com os cabelos brancos descuidados, vivendo sozinha em uma casa abandonada e cheia de teias de aranha. Psiquicamente, ela continuava apegada ao passado de vaidade: chamou o narrador porque queria vender sua imensa coleção de roupas velhas, casacos de pele e joias acumuladas há quarenta anos, sem perceber que a moda havia mudado e que aqueles tecidos estavam se desintegrando com o tempo e cheios de traças.

 

07 – Como a Princesa foi encontrada morta e qual aparição sinistra encerra o conto?

      Uma semana após o encontro com o narrador, atraído por urubus sobrevoando o local, ele entra na casa e encontra a Princesa morta no canto da sala, putrefata e com o pescoço degolado. Os baús estavam abertos, as roupas reviradas e todas as joias valiosas haviam sido roubadas. No desfecho, ao sair do enterro sob uma forte chuva, o narrador tem a nítida impressão de ver o cavalheiro negro saindo do cemitério, completamente seco e exibindo o mesmo sorriso esquisito sob o bigode espesso.

 

CONTO: CHUVA DE MAIO - ALBERTO MORÁVIA - COM GABARITO

 Conto: Chuva de maio

           Alberto Morávia

 

        Um dia desses voltarei a Monte Mario, na Taverna dos Caçadores, mas irei com amigos, aqueles do domingo, que tocam acordeão e, na falta de moças, dançam entre si. Sozinho, nunca teria coragem. De noite, às vezes, sonho com as mesas da taverna, com a chuva quente de maio caindo em cima da gente, as árvores encrespadas que gotejam sobre as mesas, e entre as árvores, no fundo, as nuvens brancas passando e, sob as nuvens, o panorama das casas de Roma. E parece que estou ouvindo a voz do taverneiro, Antônio Tocchi, como a ouvi naquela manhã, chamando da adega: – Dirce, Dirce.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjbCAHub0FEcu6CBBtuKvewP_AkxHo71R8talIE4mwefmLoWaSsSB6KzZnPiyPcmnbvHQMkgy47gLcFMJ0IF31aiFLoXQPW55GntAGyYYfxYzE4HGU1kA0JHnZTljSdYR_0RBwKkT-53_8tQT99G0ilo_PW1etmrSGFJ2zki6TtFeMPFbeAkzAaOhyphenhyphenqGSE/s320/1c35c2944bba90093bf5a6307f76c220b067c65a.jpg


        E parece que o revejo me lançando um olhar de cumplicidade, antes de descer à adega, com aquele seu passo duro que ressoa nos degraus.

        Fora parar ali por acaso, vindo do interior; e quando me ofereceram para fazer as vezes de empregado, sem me pagar, pensei:

        -- Dinheiro não vou ter, mas pelo menos estarei em família.

        -- Mas que família qual nada, ao invés de família, encontrei o inferno. O taverneiro era gordo e redondo como uma bola de manteiga, mas de uma gordura má, ácida. Tinha uma cara larga, cinzenta, com muitas rugas finas em volta do rosto por causa da gordura e dois olhinhos pequenos, pontiagudos, iguais aos das cobras: sempre de jaleco e em mangas de camisa, com um bobo de pala cinza enterrado até os olhos.

        A filha Dirce, quanto ao caráter, não era melhor que o pai, dura ela também, maldosa, áspera; porém bonita: daquelas mulheres pequenas e musculosas, bem feitas, que caminham mexendo os quadris e batendo os pés, como que dizendo:

        -- Esta terra é minha.

        Tinha uma cara larga, de olhos negros e cabelos negros, pálida que parecia uma morta. Apenas a mãe, naquela casa, talvez fosse boa: uma mulher que devia ter uns quarenta anos e aparentava sessenta, magra, com um nariz de velha e os cabelos escorridos de velha, mas talvez fosse apenas abobada, pelo menos era a impressão que dava vê-la de pé diante do fogão com a cara toda repuxada num riso mudo; se se virava, a gente via que tinha um dente ou dois e só. A taverna se debruçava com uma tabuleta em arco, vermelho-sangue, com a inscrição: “Taverna dos Caçadores, proprietário Antônio Tocchi” em letras amarelas. Depois, por uma alameda, chegava-se às mesas, debaixo das árvores, diante do panorama de Roma. A casa era rústica, só paredes e quase sem janelas, coberta de telhas. 

        No verão era a melhor época, vinha gente de manhã até à meia-noite: famílias com crianças, casais de namorados, grupos de homens, e sentavam às mesas, bebiam vinho e comiam a comida dos Tocchi, admirando o panorama. Não tínhamos tempo de respirar: nós homens sempre servindo, as duas mulheres sempre cozinhando e lavando, e à noite estávamos arrebentados e íamos para a cama sem sequer nos olharmos.

        Mas no inverno, ou mesmo no verão, se chovia, começavam os problemas. Pai e filha se odiavam, mas odiar é dizer pouco, se matariam. O pai era autoritário, avarento, estúpido, e por um nadinha já ia avançando com as mãos, a filha era dura como uma pedra, fechada, sempre ela a dar a última palavra, arrogante. Odiavam-se, talvez, sobretudo, porque eram do mesmo sangue e, como se sabe, não há nada como o mesmo sangue para se odiar; mas se odiavam também por questões de interesse. A filha era ambiciosa: dizia que eles com aquele panorama de Roma tinham um capital a ser aproveitado e que o deixavam, ao contrário, entregue aos cachorros. Dizia que o pai deveria construir uma pista de cimento para dançar, contratar uma orquestra e pendurar balõezinhos venezianos, e transformar a casa em restaurante moderno e chamá-lo de Restaurante Panorama. Mas o pai não se atrevia, um pouco porque era avarento e inimigo das novidades, outro, porque era a filha que estava propondo, e ele preferia se deixar degolar que dar o braço a torcer à filha. 

        Os choques entre pai e filha ocorriam sempre à mesa: ela implicava, com maldade, ofendendo, contra alguma coisa de pessoal, contra o fato de que o pai, comendo, soltava um arroto, por exemplo, ele respondia com palavrões e xingos  a filha insistia; o pai dava-lhe um tapa. É preciso dizer que devia sentir algum prazer em esbofeteá-la, porque fazia uma certa cara, prendendo o lábio inferior com os dentes e piscando os olhos. Mas para a, filha aquele tapa era como água fresca numa flor: ficava verde de ódio e de maldade. Então o pai a agarrava pelos cabelos e lá vinha pancadaria. Caíam pratos e copos, sobrava também para a mãe que, de boba, ficava no meio, com aquele riso eterno na boca desdentada e eu, o coração cheio de veneno, saía e ia dar uma volta pela rua que leva a Camillucia.

        Teria ido embora há tempo se não tivesse me apaixonado pela Dirce.

        Não sou do tipo que se apaixona com facilidade, porque sou positivo e as palavras e os olhares não me encantam.

        Porém, quando uma mulher, em lugar de palavras e olhares, oferece a si mesma, inteirinha, em carne e osso e, ainda por cima, de surpresa, então o sujeito fica preso como numa armadilha, e quanto mais esforço faz para se soltar, mais se afundam os dentes da armadilha na carne. Dirce devia ter a intenção antes mesmo de me conhecer, eu ou outro qualquer para ela era a mesma coisa, porque, no dia de minha chegada, entrou de noite no meu quarto quando eu já dormia; e assim, entre o sono e a vigília, que quase eu não entendia se era sonho ou realidade, me fez passar repentinamente da indiferença à paixão. Não houve entre nós nem conversas, nem olhares, nem toques de mão, nem todos os demais subterfúgios a que recorrem os namorados para dizer que se amam; ao contrário, foi como com uma mulher de rua, das baratas. Só que a Dirce não era uma mulher de rua e até passava por virtuosa e cheia de orgulho, e essa diferença foi para mim, justamente, a armadilha em que fiquei preso.

        Tenho gênio paciente, razoável, mas também sou violento e, se me espicaçam, o sangue me sobe à cabeça facilmente. Dá para ver pelo físico: loiro, com o rosto pálido, mas basta um nada para que se torne escarlate. Ora, Dirce vivia me espicaçando e logo entendi por que: queria que me pusesse contra seu pai.

        Dizia que eu era um patife por tolerar que em minha presença seu pai a esbofeteasse e depois a agarrasse pelos cabelos e até, como aconteceu uma vez, a jogasse no chão e lhe desse pontapés. E não digo que não tivesse razão: éramos amantes e devia defendê-la. Mas eu sabia que seu objetivo era outro e entre a raiva que me dava aquele insulto de patife e a raiva de saber que dizia de propósito, eu não dava mais conta.

        Depois, um belo dia mudou de conversa: como seria bonito se pudéssemos nos casar e montar o Restaurante Panorama, eu e ela, sozinhos. Tornara-se boazinha, gentil, amorosa, doce. Foi essa a melhor época do nosso amor; mas eu não mais a reconhecia e pensava: aqui tem coisa. E de fato, de repente, mudou a toada pela terceira vez e disse que, casados ou não casados, não podíamos esperar nada enquanto existisse o pai, e, resumindo, me disse abertamente: devíamos matá-lo. Foi como na primeira noite que entrou no meu quarto, sem preparo nem fingimentos: jogou a proposta ali e foi embora para eu pensar nela sozinho.

        No dia seguinte disse-lhe que estava enganada se achava que ia ajudá-la numa coisa como aquela e ela me respondeu que nesse caso eu fosse tratando de ir logo embora porque para ela eu não existia mais. E manteve a palavra porque desde aquele dia nem sequer me olhava. Quase não nos falávamos e por tabela comecei a odiar o pai porque achava que a culpa era dele.

        Por coincidência, naquela época, o pai aprontava uma todos os dias e parecia que aprontava de propósito para se fazer odiar. Era maio que é a boa estação e as pessoas vêm à taverna para tomar vinho e comer fava fresca; mas, ao contrário, só dava pancada de chuva naquele campo verde e denso, à taverna nem cachorro vinha e ele ficava sempre de mau humor.

        Uma manhã, à mesa, ele afastou o prato, dizendo:

        -- É de propósito que você me dá esta nojeira de sopa grudenta.

        E ela:

        -- Se fosse de propósito, teria posto veneno nela.

        Ele olha para ela e dá-Ihe um tapa, que faz seu pente saltar longe. Estávamos quase no escuro por causa da chuva e o rosto da Dirce naquele escuro era branco e duro como o mármore, com os cabelos que de um dos lados, onde se soltara o pente, se desmanchavam bem devagarinho, iguais a serpentes acordando.

        Eu disse ao Tocchi:

        -- Quer parar com isso de uma vez?

        Ele respondeu:

        -- Não se meta.

        Mas estarrecido porque era a primeira vez que eu intervinha. Eu tive, então, quase que uma sensação de vaidade, como se defendesse um ser frágil, que não era bem o caso, e achei que assim eu a recuperaria e que era o único modo de recuperá-la e disse com força:

        -- Pare, entendeu, não permito isso.

        Estava vermelho feito fogo, com o sangue nos olhos, e a Dirce por baixo da mesa pegou minha mão e vi que tinha caído, mas então já era tarde demais. Ele se levantou e disse:

        -- Está querendo levar o seu também?

        Pegou na bochecha, meio de atravessado, e eu agarrei um copo e atirei todo o vinho na cara dele. No copo e no vinho, pode-se dizer que já vinha pensando neles há um mês, tanto me agradava o gesto quanto odiava o Tocchi. E agora ele estava com o vinho na cara e eu tinha feito o gesto e dava o fora pela escada.

        Ouvi ele gritar:

        -- Eu te mato, viu, vagabundo, mendigo.

        Então, fechei a porta do meu quarto e fui até a janela olhar a chuva caindo e de raiva peguei uma faca que eu tinha na gaveta e a finquei no peitoril com tanta força que a lâmina partiu.

        Chega, estávamos lá em cima, no topo do Monte Mario do mau agouro, e talvez, se estivesse em Roma, não teria aceito, mas ali tudo se tornava natural e o que no dia anterior era impossível, no dia seguinte já estava decidido. Assim, eu e a Dirce combinamos e estabelecemos juntos o modo, o dia e a hora. Tocchi, de manhã, descia à adega para pegar o vinho do dia, junto com a Dirce que lhe trazia o garrafão. A adega era subterrânea e para descer havia uma escadinha montada em cima de um tear e apoiada na parede: seriam sete degraus. Decidimos que eu os alcançaria e, enquanto Tocchi se abaixava para espichar o vinho, eu lhe bateria na cabeça com uma barra curta, de ferro, que servia para atiçar carvões. Em seguida, retiraríamos a escadinha e diríamos que ele tinha caído e ferido a cabeça. Eu queria e não queria; e de raiva disse:

        -- Estou fazendo isso para te mostrar que eu não tenho medo... mas depois eu vou embora e não volto mais.

        E ela:

        -- Então é melhor que você não faça nada e vá indo depressa... eu gosto de você e não quero te perder.

        Sabia quando queria, simular a paixão: e assim eu disse que faria e depois ficaria e abriríamos o restaurante.

        No dia marcado Tocchi disse à Dirce que pegasse o garrafão e se dirigisse à porta da adega, no fundo da taverna. Chovia, o de sempre, e a taverna estava quase às escuras. Dirce pegou o garrafão e seguiu o pai; mas, antes de descer, virou-se e me fez um gesto de cumplicidade, às claras. A mãe, que estava diante do fogão, viu o gesto e ficou de boca aberta, olhando a gente. Eu me ergui da mesa, fui até o fogão e peguei o atiçador em cima da chaminé, passando na frente da mãe. Essa, então, me olhava, olhava a Dirce, ficava olhando, olhando, mas via-se que não iria falar. O pai berrou da adega:

        -- Dirce, Dirce!

        E ela respondeu:

        -- Estou indo.

        Lembro que me agradou fisicamente pela última vez, enquanto descia a escada, com aquele seu andar duro e sensual, dobrando o pescoço branco e roliço sob a viga mestra.

        Naquele instante, a porta que dava para o jardim se abriu e entrou um homem com um saco molhado nas costas: um carroceiro. Sem me olhar, disse:

        -- Moço, me dá uma mãozinha?

        E eu, maquinalmente, com o ferro na mão, o acompanhei. Ali ao lado, numa chácara, estavam construindo uma cocheira, e a carroça carregada de pedras ficara atolada na passagem da porteira e o carvão não conseguia sair. O carroceiro parecia fora de si, um homem torto e feio, quase um animal. Pousei o ferro em cima de uma das pilastras da porteira, pus duas pedras embaixo das rodas e empurrei o carroceiro puxava o cavalo pelo cabresto. Chovia a cântaros sobre as sebes de sabugueiro verdes e cerradas e sobre as acácias floridas que cheiravam forte; a carroça não se movia e o carroceiro praguejava.

        Pegou o chicote e bateu no cavalo com o cabo, depois, enfurecido, agarrou o ferro que eu deixara em cima da pilastra. Dava para ver que estava fora de si não pela carroça, mas pela vida inteira, e que odiava o cavalo como uma pessoa.

        Pensei: – Agora vai matá-lo e quase gritei:

        -- Não, largue esse ferro.

        Mas depois pensei que se ele matasse o cavalo, eu estava salvo. Achava que toda minha raiva estava passando para o corpo daquele carroceiro que parecia um possesso, e de fato, ele se atirou sobre os varais, empurrou de novo e depois bateu na cabeça do cavalo, com o ferro. Eu, ante o golpe, fechei os olhos, e ouvi que ele continuava batendo, e ao mesmo tempo eu me esvaziava e quase desmaiava, e depois voltei a abrir os olhos e vi que o cavalo tinha caído de joelhos e que ele continuava batendo, agora não para fazê-lo levantar, mas para matá-lo. O cavalo arreou de costas, escoiceou o ar, mas debilmente e aí largou a cabeça na lama. O carroceiro arquejante, a cara transtornada, jogou o ferro e deu um safanão no cavalo, porém sem convicção: sabia que o tinha matado.

        Eu passei a seu lado, sem sequer tocá-lo, e pus-me a caminhar pela estrada. Passou o bonde que ia para Roma, eu o peguei na corrida e depois olhei para trás e vi pela última vez a tabuleta:

        "Taverna dos Caçadores, proprietário Antônio Tocchi", entre a folhagem de maio, lavada pela chuva.

Alberto Morávia – Contos Romanos.

 

Entendendo o conto:

 

01 – Qual é o conflito central que move a trama na "Taverna dos Caçadores"?

      O conflito central gira em torno do ódio profundo e da disputa de interesses entre o taverneiro, Antônio Tocchi, e sua filha, Dirce. Enquanto o pai é descrito como um homem autoritário, avarento, violento e avesso a novidades, a filha é ambiciosa, arrogante e deseja modernizar o negócio. Ela quer transformar a taverna rústica no "Restaurante Panorama", construindo uma pista de dança e contratando uma orquestra, mas o pai se recusa a ceder, o que gera agressões físicas e um clima insustentável na casa.

 

02 – Como o narrador-personagem foi parar na taverna e qual foi a "armadilha" que o prendeu ali?

      O narrador chegou à taverna por acaso, vindo do interior. Ele aceitou trabalhar no local sem receber salário em troca de abrigo, pensando que encontraria um ambiente acolhedor, "em família". No entanto, a verdadeira "armadilha" foi ter se apaixonado obsessivamente por Dirce. Ela entrou em seu quarto na primeira noite, e essa entrega carnal súbita e inesperada fez com que ele passasse da indiferença à paixão violenta, tornando-se incapaz de ir embora.

 

03 – De que maneira Dirce manipula o narrador ao longo do conto?

      Dirce manipula o narrador mudando de comportamento estrategicamente para atingir seu objetivo (eliminar o pai). Primeiro, ela o insulta, chamando-o de "patife" por não defendê-la das agressões do pai, tentando jogá-lo contra Antônio Tocchi. Depois, ela muda radicalmente a tática: torna-se doce, gentil e amorosa, prometendo que eles se casarão e abrirão o restaurante juntos. Por fim, quando o ganha pelo afeto, ela propõe abertamente o assassinato do taverneiro.

 

04 – Qual foi o estopim que fez o narrador finalmente aceitar participar do plano de assassinato?

      O estopim ocorre durante uma manhã chuvosa de maio. Após uma discussão à mesa sobre a comida, Antônio Tocchi esbofeteia Dirce com tanta força que seu pente salta longe. Pela primeira vez, o narrador intervém e exige que o taverneiro pare. O pai reage com deboche e agride o narrador de raspão na bochecha. Tomado pelo ódio acumulado, o narrador joga um copo de vinho na cara de Tocchi e foge para o quarto. Humilhado e desafiado pelo patrão, ele decide aceitar o plano de Dirce.

 

05 – Como funcionaria o plano elaborado por Dirce e pelo narrador para matar Antônio Tocchi?

      O plano aproveitaria a rotina matinal da taverna. Antônio Tocchi costumava descer à adega subterrânea para buscar o vinho do dia, descendo uma escada rústica de sete degraus enquanto Dirce segurava o garrafão. O plano consistia em o narrador surpreender Tocchi por trás e desferir um golpe fatal em sua cabeça usando um atiçador de carvão de ferro. Em seguida, eles retirariam a escada para simular que o taverneiro havia caído sozinho e se acidentado.

 

06 – Qual evento inesperado interrompe a execução do crime no momento decisivo?

      No exato momento em que o narrador pega o ferro para descer à adega, a porta do jardim se abre e entra um carroceiro desesperado com uma carroça atolada na lama. Maquinalmente, o narrador larga o plano para ajudá-lo. Na tentativa de desatolar o veículo, o carroceiro — enfurecido com a vida e com a situação — pega o próprio ferro que o narrador carregava e começa a espancar violentamente a cabeça do cavalo até matá-lo.

 

07 – Qual é o significado simbólico do cavalo morto pelo carroceiro e como isso afeta o desfecho da história?

      O espancamento do cavalo funciona como uma catarse e um espelho psicológico para o narrador. Ao ver o carroceiro descarregar toda a sua fúria e brutalidade no animal, o narrador sente como se a sua própria raiva e o seu desejo de matar Antônio Tocchi estivessem sendo transferidos e purgados no corpo daquele homem. Diante da violência real e crua, o narrador "se esvazia" do ódio, desiste do crime, abandona o ferro e foge definitivamente de ônibus para Roma, deixando para trás a taverna e Dirce.

 

 

MÚSICA/POEMA(ATIVIDADES): HINO À PAZ - GOIÁS - JOSÉ FERNANDES - COM GABARITO

 Música/poema (Atividades): HINO À PAZ – Goiás

            José Fernandes

Ó Paz, divina Paz, musica ouvida nos absconsos
silêncios, longe dos olhos dos deuses e dos homens,
que confundes amor e ódio, temperas a guerra com as chamas
da mentira e sufocas a verdade no interior das frias pedras
dos pólos, esconjuro-te pela poderosa Necessidade,
pela inexorável flecha de Eros e pela lira de Hermes,
incendeie os sistemas límbicos de homens e deuses,
para que eles, revigorados pela flecha do grande
arqueiro possam derreter-se em amor uns para os outros
e celebrar as palavras de paulos e pedros nos montes
e nas oliveiras restaurados pelas bem-aventuranças!

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiDWsvwzC7IEIZIiCaQ_XrlG-Yu2EKvhNUsC5__HKf9jTMqp0pmoXPhke6QhrfGiVfjvQ8fN-za2ggv9hCUeVUl_5eCz95fQymYizk4jCaYRAkby0gUeacQgeyqApltYyfNP3pIqhPjIJGWrvVfTHJjfPDpXGZ3bwvVxttr2tyS4dkpheIUaeB45bCkW5M/s320/paz_2024.jpg



Ó Paz, que consomes os sonhos de cristos e maomés,
que desejas silenciar o tiritir, o zinir e o sibilar de balas,
raios, coriscos, baionetas e bombardas de mísseis,
levanta-te e vede por todos os lugares e ponde sobre
o trágico viver dos infelizes humanos que se digladiam,
a fuga dos ventos maus que esfuziam canhões e bombas
e, como uma chama acesa, como um relâmpago,
enfraqueça-os, debilite-os e os torne incapazes
de qualquer atividade que contrarie Aquele
que é Logos, Palavra, Amor, Ahavá, Szerelem.
Ó Sabaot, Adonai, Eloim, Pagourê, Zagourê!

José Fernandes.

 

Entendendo a música:

01 – No início do poema, a Paz não é descrita de forma puramente idílica ou romântica; o eu lírico aponta ambiguidades em sua atuação. Como o texto caracteriza essa natureza complexa da Paz na primeira estrofe?

      A Paz é caracterizada como uma força complexa e ambígua que atua nos "absconsos silêncios". O eu lírico afirma que ela "confundes amor e ódio", "temperas a guerra com as chamas da mentira" e "sufocas a verdade". Essa descrição mostra que, para que a paz exista no mundo dos homens, muitas vezes ocorrem concessões duras, silenciamentos e uma tênue linha entre o equilíbrio e o conflito, distanciando-a de uma visão puramente ingênua.

02 – O autor mistura referências da mitologia clássica grega com a tradição judaico-cristã. Identifique esses dois universos no texto e explique como eles se fundem no pedido do eu lírico.

      O universo mitológico grego aparece na primeira estrofe através das menções à "Necessidade" (Ananque), à "flecha de Eros" (deus do amor) e à "lira de Hermes". Já o universo judaico-cristão surge nas referências às "palavras de paulos e pedros", aos "montes e nas oliveiras" e às "bem-aventuranças". Eles se fundem no clamor para que a força avassaladora do amor mitológico (Eros) revigore os homens para que eles possam, finalmente, compreender e celebrar as mensagens de amor, paz e espiritualidade cristãs.

03 – A segunda estrofe utiliza várias palavras que mimetizam os sons de armas e combates. Que recurso estilístico é esse e quais palavras o autor usa para retratar a violência da guerra?

      O recurso estilístico utilizado é a onomatopeia (ou aliteração associada a imagens sonoras). O autor utiliza os termos "tiritir", "zinir" e "sibilar" para reproduzir o som agudo, metálico e ameaçador de balas, raios, baionetas e mísseis. O objetivo é criar um forte contraste acústico entre o barulho destrutivo da guerra e o silêncio/calmaria pedidos para a manifestação da Paz. 

04 – O que o eu lírico roga que a Paz faça com os seres humanos que se "digladiam" e qual é o objetivo final dessa intervenção?

      O eu lírico roga para que a Paz se levante e dissipe os "ventos maus que esfuziam canhões e bombas". Ele pede que a Paz enfraqueça, debilite e torne os seres humanos incapazes de realizar qualquer atividade violenta. O objetivo final é neutralizar a capacidade humana de fazer o mal, forçando-os a parar a guerra para que não contrariem Aquele que representa a essência universal do "Logos, Palavra, Amor".

 

05 – O poema se encerra com uma sequência de palavras de forte apelo sagrado: "Ó Sabaot, Adonai, Eloim, Pagourê, Zagourê!". Qual é a função dessa escolha de vocabulário no fechamento do hino?

      A escolha de vocábulos como Sabaot, Adonai e Eloim (nomes hebraicos ancestrais para Deus na tradição judaica), junto a termos de tradições místicas e sincréticas (Pagourê, Zagourê), funciona como um encantamento, prece litúrgica ou mantra universal. Ao evocar o divino através de diferentes nomes e línguas, o poema reforça o caráter ecumênico e sagrado do pedido, clamando por uma intervenção espiritual e superior para estabelecer a paz universal acima de qualquer barreira religiosa ou cultural.

 

CONTO: A MÁSCARA DA MORTE RUBRA - EDGAR ALLAN POE - COM GABARITO

 Conto: A máscara da morte rubra

           Edgar Allan Poe

        A “Morte Rubra” havia muito devastava o país. Jamais se viu peste tão fatal ou tão hedionda. O sangue era sua revelação e sua marca. A cor vermelha e o horror do sangue. Surgia com dores agudas e súbita tontura, seguidas de profuso sangramento pelos poros, e então a morte. As manchas rubras no corpo e principalmente no rosto da vítima eram o estigma da peste que a privava da ajuda e compaixão dos semelhantes. E entre o aparecimento, a evolução e o fim da doença não se passava mais de meia hora.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjhkPeuFjyYH_2_XrQEz4uhCifAeZGI9m-Nj2PwaJvPy3PIyKUU6h0ybDZB2KROvlL1RndTYo9jRgysAQDUoQmCWMI780iRMPytdeV3CUdgMiPiiVUJRzf3Jm5a1MsiqsDPlFRvETOZyVAK0-vjo4irCYc8iS1p_Y9gDzSve939Kelh7pQx_dwc235ufxM/s320/81qiDTORgxL._UF1000,1000_QL80_.jpg


        Mas o príncipe Próspero era feliz, destemido e astuto. Quando a população de seus domínios se reduziu à metade, mandou vir à sua presença um milhar de amigos sadios e divertidos dentre os cavalheiros e damas da corte e com eles retirou-se, em total reclusão, para um dos seus mosteiros encastelados. Era uma construção imensa e magnífica, criação do gosto excêntrico, mas grandioso do próprio príncipe. Circundava-a a muralha forte e muito alta, com portas de ferro. Depois de entrarem, os cortesões trouxeram fornalhas e grandes martelos para soldar os ferrolhos. Resolveram não permitir qualquer meio de entrada ou saída aos súbitos impulsos de desespero dos que estavam fora ou aos furores do que estavam dentro. O mosteiro dispunha de amplas provisões. Com essas precauções, os cortesões podiam desafiar o contágio. O mundo externo que cuidasse de si mesmo. Nesse meio-tempo era tolice atormentar-se ou pensar nisso. O príncipe havia providenciado toda a espécie de divertimentos. Havia bufões, improvisadores, dançarinos, músicos, beleza, vinho. Lá dentro, tudo isso mais segurança. Lá fora, a “Morte Rubra”.

        Lá pelo final do quinto ou sexto mês de reclusão, enquanto a peste grassava mais furiosamente lá fora, o príncipe Próspero brindou os mil amigos com um magnífico baile de máscaras.

    Que voluptuosa cena a daquela mascarada! Mas antes descrevamos os salões em que ela se desenrolava. Era uma série imperial de sete salões. Em muitos palácios, porém, esses salões formam uma perspectiva longa e reta, quando as portas se abrem até se encostarem nas paredes de ambos os lados, de tal modo que a vista de toda essa sucessão é quase desimpedida. Ali, a situação era muito diferente, como se devia esperar da paixão do príncipe pelo fantástico. Os salões estavam dispostos de maneira tão irregular que os olhos só podiam abarcar pouco mais de cada um por vez. Havia um desvio abrupto a cada vinte ou trinta metros e, a cada desvio, um efeito novo. À direita e à esquerda, no meio de cada parede, uma alta e estreita janela gótica dava para um corredor fechado que acompanhava as curvas do salão. A cor dos vitrais dessas janelas variava de acordo com a tonalidade dominante na decoração do salão para o qual se abriam. O da extremidade leste, por exemplo, era azul – e de um azul intenso eram suas janelas. No segundo salão os ornamentos e tapeçarias, assim como as vidraças, eram cor de púrpura. O Terceiro era inteiramente verde, e verdes também os caixilhos das janelas. O quarto estava mobiliado e iluminado com cor alaranjada. O quinto era branco, e o sexto, roxo. O sétimo salão estava todo coberto por tapeçarias de veludo negro, que pendiam do teto e pelas paredes, caindo em pesadas dobras sobre um tapete do mesmo material e tonalidade. Apenas nesse salão, porém, a cor das janelas deixava de corresponder à das decorações. As vidraças, ali, eram rubras – de uma violenta cor de sangue.

        Ora, em nenhum dos sete salões havia qualquer lâmpada ou candelabro, em meio à profusão de ornamentos de ouro espalhados por todos os cantos ou dependurados do teto. Nenhuma lâmpada ou vela iluminava o interior da sequência de salões. Mas nos corredores que circundavam a suíte havia, diante de cada janela, um pesado tripé com um braseiro, que projetava seus raios pelos vitrais coloridos e, assim, iluminava brilhantemente a sala, produzindo grande número de efeitos vistosos e fantásticos. Mas no salão oeste, ou negro, o efeito do clarão de luz que jorrava sobre as cortinas escuras através das vidraças da cor do sangue era desagradável ao extremo e produzia uma expressão tão desvairada no semblante dos que entravam que poucos no grupo sentiam ousadia bastante para ali penetrar.

        Era também nesse apartamento que se achava, encostado à parede oeste, um gigantesco relógio de ébano. Seu pêndulo oscilava de um lado para o outro com um bater surdo, pesado, monótono; quando o ponteiro dos minutos completava o circuito do mostrador e o relógio ia dar as horas, de seus pulmões de bronze brotava um som claro, alto, grave e extremamente musical, mas em tom tão enfático e peculiar que, ao final de cada hora, os músicos da orquestra se viam obrigados a interromper momentaneamente a apresentação para escutar-lhe o som; com isso os dançarinos forçosamente tinham de parar as evoluções da valsa e, por um breve instante, todo o alegre grupo mostrava-se perturbado; enquanto ainda soavam os carrilhões do relógio, observava-se que os mais frívolos empalideciam e os mais velhos e serenos passavam a mão pela teste, como se estivessem num confuso devaneio ou meditação. Mas, assim que os ecos desapareciam interiormente, risinhos levianos logo se riam do próprio nervosismo e insensatez e, em sussurros, diziam uns aos outros que o próximo soar de horas não produziria neles a mesma emoção; mas, após um lapso de sessenta minutos (que abrangem três mil e seiscentos segundos do tempo que voa), quando o relógio dava novamente as horas, acontecia a mesma perturbação e idênticos tremores e gestos de meditação de antes.

        Apesar disso tudo, que festa alegre e magnífica! Os gostos do príncipe eram estranhos. Sabia combinar cores e efeitos. Menosprezando a mera decoração da moda, seus arranjos mostravam-se ousados e veementes, e suas ideias brilhavam com um esplendor bárbaro. Alguns podiam considerá-lo louco, sendo desmentidos por seus seguidores. Mas era preciso ouvi-lo, vê-lo e tocá-lo para convencer-se disso.

        Para essa grande festa, ele próprio dirigiu, em grande parte, a ornamentação cambiante dos sete salões, e foi seu próprio gosto que inspirou as fantasias dos foliões. Claro que eram grotescas. Havia muito brilho, resplendor, malícia e fantasia – muito daquilo que foi visto depois no Hernani. Havia figuras fantásticas com membros e adornos que não combinavam. Havia caprichos delirantes como se tivessem sido modelados por um louco. Havia muito de beleza, muito de libertinagem e de extravagância, algo de terrível e um tanto daquilo que poderia despertar repulsa. De um ao outro, pelos sete salões, desfilava majestosamente, na verdade, uma multidão de sonhos. E eles – os sonhos – giravam sem parar, assumindo a cor de cada salão e fazendo com que a impetuosa música da orquestra parecesse o eco de seus passos. Daí a pouco soa o relógio de ébano colocado no salão de veludo. Então, por um momento, tudo se imobiliza e é tudo silêncio, menos a voz do relógio. Os sonhos se congelam como estão. Mas os ecos das batidas extinguem-se – duraram apenas um instante – e risos levianos, mal reprimidos, flutuam atrás dos ecos, à medida que vão morrendo. E logo a música cresce de novo, e os sonhos revivem e rodopiam mais alegremente que nunca, assumindo as cores das muitas janelas multicoloridas, através das quais fluem os raios luminosos dos tripés. Ao salão que fica a mais oeste de todos os sete, porém, nenhum dos mascarados se aventura agora; pois a noite está se aproximando do fim: ali flui uma luz mais vermelha pelos vitrais cor de sangue e o negror das cortinas escuras apavora; para aquele que pousa o pé no tapete negro, do relógio de ébano ali perto chega um clangor ensurdecido mais solene e enfático que aquele que atinge os ouvidos dos que se entregam às alegrias nos salões mais afastados.

        Mas nesses outros salões cheios de gente batia febril o coração da vida. E o festim continuou em remoinhos até que, afinal, começou a soar meia-noite no relógio. Então a música cessou, como contei, as evoluções dos dançarinos se aquietaram, e, como antes, tudo ficou intranquilamente imobilizado. Mas agora iriam ser doze as badaladas do relógio; e desse modo mais pensamentos talvez tenham se infiltrado, por mais tempo, nas meditações dos mais pensativos, entre aqueles que se divertiam. E assim também aconteceu, talvez, que, antes de os últimos ecos da última badalada terem mergulhado inteiramente no silêncio, muitos indivíduos na multidão puderam perceber a presença de uma figura mascarada que antes não chamara a atenção de ninguém. E, ao se espalhar em sussurros o rumor dessa nova presença, elevou-se aos poucos de todo o grupo um zumbido ou murmúrio que expressava a reprovação e surpresa – e, finalmente, terror, horror e repulsa.

        Numa reunião de fantasmas como esta que pintei, pode-se muito bem supor que nenhuma aparência comum poderia causar tal sensação. Na verdade, a liberdade da mascarada dessa noite era praticamente ilimitada; mas a figura em questão ultrapassava o próprio Herodes, indo além dos limites até do indefinido decoro do príncipe. Existem cordas, nos corações dos mais indiferentes, que não podem ser tocadas sem emoção. Até para os totalmente insensíveis, para quem a vida e morte são alvo de igual gracejo, existem assuntos com os quais não se pode brincar. Na verdade, todo o grupo parecia agora sentir profundamente que na fantasia e no rosto do estranho não existia graça nem decoro. A figura era alta e esquálida, envolta dos pés à cabeça em vestes mortuárias. A máscara que escondia o rosto procurava assemelhar-se de tal forma com a expressão enrijecida de um cadáver que até mesmo o exame mais atento teria dificuldade em descobrir o engano. Tudo isso poderia ter sido tolerado, e até aprovado, pelos loucos participantes da festa, se o mascarado não tivesse ousado encarnar o tipo da Morte Rubra. Seu vestuário estava borrifado de sangue, e sua alta testa, assim como o restante do rosto, salpicada com o horror rubro.

        Quando os olhos do príncipe Próspero pousaram nessa imagem espectral (que andava entre os convivas com movimentos lentos e solenes, como se quisesse manter-se à altura do papel), todos perceberam que ele foi assaltado por um forte estremecimento de terror ou repulsa, num primeiro momento, mas logo o seu semblante tornou-se vermelho de raiva.

        -- Quem ousa…? perguntou com voz rouca aos convivas que estavam perto – quem ousa nos insultar com essa caçoada blasfema? Peguem esse homem e tirem sua máscara, para sabermos quem será enforcado no alto dos muros, ao amanhecer!

        O príncipe Próspero estava na sala leste, ou azul, ao dizer essas palavras. Elas ressoaram pelos sete salões, altas e claras, pois o príncipe era um homem ousado e robusto e a música se calara com um sinal de sua mão.

        O príncipe achava-se no salão azul com um grupo de pálidos convivas ao seu lado. Assim que falou, houve um ligeiro movimento dessas pessoas na direção do intruso, que, naquele momento, estava bem ao alcance das mãos, e agora, com passos decididos e firmes, se aproximava do homem que tinha falado. Mas por causa de um certo temor sem nome, que a louca arrogância do mascarado havia inspirado em toda a multidão, não houve ninguém que estendesse a mão para detê-lo; de forma que, desimpedido , passou a um metro do príncipe e, enquanto a vasta multidão, como por um único impulso, se retraía do centro das salas para as paredes, ele continuou seu caminho sem deter-se, no mesmo passo solene e medido que o distinguira desde o início, passando do salão azul para o púrpura, do púrpura para o verde, do verde para o alaranjado, e desse ainda para o branco, e daí para o roxo, antes que se fizesse qualquer movimento decisivo para detê-lo. Foi então que o príncipe Próspero, louco de raiva e vergonha por sua momentânea covardia, correu apressadamente pelos seis salões, sem que ninguém o seguisse por causa do terror mortal que tomara conta de todos. Segurando bem alto um punhal desembainhado, aproximou-se, impetuosamente, até cerca de um metro do vulto que se afastava, quando este, ao atingir a extremidade do salão de veludo, virou-se subitamente e enfrentou seu perseguidor. Ouviu-se um grito agudo e o punhal caiu cintilando no tapete negro, sobre o qual, no instante seguinte, tombou prostrado de morte o príncipe Próspero. Então, reunindo a coragem selvagem do desespero, um bando de convivas lançou-se imediatamente no apartamento negro e, agarrando o mascarado, cuja alta figura permanecia ereta e imóvel à sombra do relógio de ébano, soltou um grito de pavor indescritível, ao descobrir que, sob a mortalha e a máscara cadavérica, que agarravam com tamanha violência e grosseria, não havia qualquer forma palpável.

        E então reconheceu-se a presença da Morte Rubra. Viera como um ladrão na noite. E um a um foram caindo os foliões pelas salas orvalhadas de sangue, e cada um morreu na mesma posição de desespero em que tombou ao chão. E a vida do relógio de ébano dissolveu-se junto com a vida do último dos dissolutos. E as chamas dos braseiros extinguiram-se. E o domínio ilimitado das Trevas, da Podridão e da Morte Rubra estendeu-se sobre tudo.

 

Edgar Allan Poe. Histórias Extraordinárias. A máscara da morte rubra. Dos cem melhores do mundo. revista Bravo.

Entendendo o conto:

01 – Como a peste da "Morte Rubra" se manifestava em suas vítimas e qual era o tempo estimado entre o contágio e a morte?

      A doença se manifestava por meio de dores agudas, tontura súbita e um sangramento profuso pelos poros. A marca característica (o estigma da peste) eram as manchas rubras no corpo e, principalmente, no rosto da vítima. Todo o processo, desde o aparecimento dos sintomas até a morte, durava no máximo meia hora.

 

02 – Qual foi a estratégia do príncipe Próspero para escapar da epidemia que devastava seus domínios?

      O príncipe escolheu um milhar de amigos sadios e divertidos entre os nobres da corte e refugiou-se com eles em reclusão total em um de seus mosteiros encastelados. Para garantir o isolamento absoluto, os cortesãos soldaram os ferrolhos das portas de ferro, impedindo qualquer entrada ou saída. Lá dentro, ele providenciou fartas provisões e diversos entretenimentos (músicos, bufões, vinho) para ignorar o mundo exterior.

 

03 – Como estavam dispostos os sete salões do palácio onde ocorreu o baile de máscaras e qual era a peculiaridade do sétimo salão?

      Diferente de outros palácios, onde as salas formavam uma linha reta, os salões de Próspero eram dispostos de forma irregular, com desvios abruptos a cada vinte ou trinta metros, impedindo que se visse mais de um salão por vez. Cada sala tinha uma cor temática (azul, púrpura, verde, alaranjado, branco, roxo). O sétimo salão era decorado com tapeçarias de veludo negro, mas sua peculiaridade residia nas janelas: ao contrário dos outros salões, cujos vitrais combinavam com a cor da sala, os vitrais do salão negro eram de uma cor rubra, "cor de sangue".

 

04 – De que forma os salões eram iluminados, já que não havia lâmpadas ou candelabros em seu interior?

      A iluminação provinha de corredores que circundavam os salões. Em frente a cada janela gótica, do lado de fora, ficava um pesado tripé com um braseiro aceso. O fogo projetava seus raios através dos vitrais coloridos, iluminando brilhantemente as salas e criando efeitos visuais fantásticos e artísticos.

 

05 – Qual era o efeito das badaladas do relógio de ébano sobre os participantes da festa e os músicos?

      A cada hora cheia, o relógio emitia um som tão claro, grave e peculiar que os músicos eram obrigados a interromper a orquestra e os dançarinos paravam suas coreografias. Durante o soar das badaladas, os convidados ficavam perturbados, os mais frívolos empalideciam e os mais velhos passavam a mão pela testa em devaneio. Assim que as badaladas cessavam, todos riam do próprio nervosismo e tentavam retomar a alegria.

 

06 – O que caracterizava a fantasia do novo mascarado que surgiu à meia-noite e por que ela causou tanta repulsa?

      O intruso vestia trajes mortuários (uma mortalha) e usava uma máscara que imitava perfeitamente o rosto rígido de um cadáver. O que causou horror e repulsa extrema foi o fato de a fantasia encarnar a própria "Morte Rubra": as vestes estavam borrifadas de sangue e a testa e o rosto da máscara estavam salpicados com o horror rubro da peste, quebrando as regras de diversão do príncipe.

 

07 – O que os convivas descobriram quando finalmente agarraram o mascarado após a morte do príncipe Próspero?

      Ao reunirem coragem e avançarem sobre o mascarado no salão negro, os convivas arrancaram a violência a máscara e a mortalha, apenas para descobrir, tomados de pavor indescritível, que não havia nenhuma forma palpável ou corpo físico por baixo das roupas. Eles perceberam, então, que a própria Morte Rubra havia entrado no local "como um ladrão na noite".

 



 

 

POEMA: NÃO TE RENDAS! MARIO BENEDETTI - COM GABARITO

 Poema: Não Te Rendas!

            Mario Benedetti

Não te rendas, ainda é tempo
De se ter objetivos e começar de novo,
Aceitar tuas sombras,
Enterrar teus medos

Soltar o lastro,
Retomar o voo.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiRuCqKI5OCXRdBE852e0FAiA2dAqzD6W0VXj0c1qojJsDJzos3jphjCbI8uZ_JCGEFr7byJZowqdmvy7vBHC-Rbr6ThhMbQy1xGy1in7mdTZAWQY5Ukbk1-M_eYeUUmFkkwpVbDQT0vHZvYtXslD0QXW9KIAa8VNJkQqlWLU6PRNlTpxCCbkaiFknU4dY/s320/sddefault.jpg


Não te rendas que a vida é isso,
Continuar a viagem,
Perseguir teus sonhos,
Destravar o tempo,
Correr os escombros
E destapar o céu.

Não te rendas, por favor, não cedas,
Ainda que o frio queime,
Ainda que o medo morda,
Ainda que o sol se esconda,
E o vento se cale,

Ainda existe fogo na tua alma.
Ainda existe vida nos teus sonhos.

Porque a vida é tua e teu também o desejo
Porque o tens querido e porque eu te quero
Porque existe o vinho e o amor, é certo.
Porque não existem feridas que o tempo não cure.
Abrir as portas,
Tirar as trancas,
Abandonar as muralhas que te protegeram,

Viver a vida e aceitar o desafio,
Recuperar o sorriso,
Ensaiar um canto,
Baixar a guarda e estender as mãos
Abrir as asas
E tentar de novo
Celebrar a vida e se apossar dos céus.

Não te rendas, por favor, não cedas,
Ainda que o frio te queime,
Ainda que o medo te morda,
Ainda que o sol ponha e se cale o vento,
Ainda existe fogo na tua alma,
Ainda existe vida nos teus sonhos
Porque cada dia é um novo começo,
Porque esta é a hora e o melhor momento
Porque não estás sozinho, porque eu te amo.

Poema publicado no Livro “Entre los poetas míos” de Mario Benedetti. 

Entendendo o poema:

01 – Qual é o tema central do poema e que sentimento ele busca despertar no leitor?

      O tema central é a resiliência e a persistência diante das adversidades da vida. O poema busca despertar um sentimento de esperança e coragem, incentivando o leitor a não desistir de seus sonhos e objetivos, independentemente das "cicatrizes", do cansaço ou dos obstáculos temporários que possam surgir no caminho.

02 – O que representam as metáforas do "frio que queima" e do "medo que morde" no contexto da obra?

      Essas metáforas representam as dificuldades externas e internas que tentam paralisar o indivíduo. O "frio que queima" simboliza as circunstâncias adversas do ambiente ou da vida que causam dor, enquanto o "medo que morde" refere-se à insegurança e à ansiedade que podem corroer a determinação de alguém. O poema sugere que, embora esses sentimentos existam, eles não devem ser motivos para interromper a jornada.

03 – Como o poema aborda a relação do indivíduo com o seu passado e as suas falhas?

      O autor aborda o passado não como um fardo impeditivo, mas como algo que deve ser aceito para que se possa seguir em frente. Ao dizer "vencer o tempo e retomar a viagem", o poema enfatiza que as falhas e as feridas do ontem ("enterrar seus medos", "liberar o lastro") não definem o futuro. A mensagem é de que cada novo dia oferece uma oportunidade de recomeço, independentemente do que aconteceu anteriormente.

04 – No poema, por que o autor afirma que "a vida é tua e o desejo também"?

      Essa afirmação reforça o conceito de autonomia e responsabilidade pessoal sobre a própria felicidade. Ao dizer que a vida e o desejo pertencem ao indivíduo, o autor destaca que o poder de mudar a realidade e de persistir em um sonho reside dentro de cada um. É um chamado para o protagonismo, lembrando ao leitor que ninguém mais pode viver ou desejar por ele.

05 – Qual é a importância da natureza e dos ciclos (como o fogo e o vinho) para a mensagem final do poema?

      O uso de elementos como o "fogo na alma" e o "vinho e o cedro" serve para ilustrar a vitalidade e a renovação. O fogo simboliza a paixão e a motivação interna que deve ser mantida acesa. Já a referência ao vinho e ao cedro remete à celebração da vida e à solidez. O poema conclui que a vida é um ciclo de renovação constante ("porque cada dia é um novo começo"), onde a esperança deve ser sempre cultivada.

 

 

POEMA: ESPERANÇA: DA GENTE QUE EU GOSTO - MÁRIO BENEDETTI - COM GABARITO

 Poema: Esperança: Da gente que eu gosto

            Mário Benedetti

Antes de mais nada gosto da gente que vibra,
que não é necessário empurrar,
que não se tem que dizer que faça as coisas
e que sabem o que tem que ser feito
e o fazem em menos tempo que o esperado.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhW2KmXhG8Eor3rAi_xwNmgIF-CzXvH5EdTi5JqPck1si1HrCIy7sUvi2rUt3kxqUGIs3YZ57iKPMY9WnYyIQOhfsikT03PZimwbhWoZOh4s2DdfXkU6eRBMEElTLROEOPTGB56iR4Pa5LxZURx-4eXmung2pddRbpu2AqIN-_Es4Q-Hh6CdaJKe6khjww/s1600/images.jpg

 

Gosto da gente com capacidade de medir
as consequências de suas ações.
A gente que não deixa as soluções para a sorte decidir.

Gosto da gente exigente com seu pessoal e consigo mesma,
mas que não perde de vista que somos humanos
e que podemos nos equivocar.

Gosto da gente que pensa que o trabalho em equipe, entre amigos,
produz às vezes mais que os caóticos esforços individuais.

Gosto da gente que sabe da importância da alegria.
Gosto da gente sincera e franca,
capaz de opor-se com argumentos serenos e racionais às decisões de seus superiores.

Gosto da gente de critério,
a que não sente vergonha de reconhecer
que não conhece algo ou que se enganou.

Gosto da gente que ao aceitar seus erros,
se esforça genuinamente por não voltar a cometê-los.

Gosto da gente capaz de criticar-me construtivamente e sem rodeios:
a essas pessoas as chamo de meus amigos.

Gosto da gente fiel e persistente
e que não descansa quando se trata de alcançar objetivos e ideais.

Gosto da gente que trabalha para alcançar bons resultados.
Com gente como esta, me comprometo a tudo,
já que por ter esta gente ao meu lado me dou por satisfeito.

Mario Benedetti, poeta uruguaio. Poema traduzido para o português por AjAraujo.

Entendendo o poema:

01 – De acordo com a primeira estrofe, quais características definem a atitude das pessoas de quem o eu lírico gosta em relação às suas tarefas cotidianas?

      O eu lírico gosta de pessoas que possuem iniciativa e autonomia. São descritas como pessoas que vibram, que não precisam ser empurradas ou cobradas para fazer as coisas, pois já sabem exatamente o que deve ser feito e realizam suas obrigações em menos tempo do que o esperado.

02 – Como o poema equilibra a busca pela excelência e pela cobrança com a aceitação das limitações humanas?

      O poema alcança esse equilíbrio ao afirmar que gosta de pessoas que são exigentes consigo mesmas e com seus companheiros ("com seu pessoal"), mas que, ao mesmo tempo, mantêm a sensibilidade de lembrar que somos humanos e, por consequência, estamos sujeitos a cometer erros e equívocos.

03 – Qual é a postura ideal recomendada pelo autor quando se trata de discordar de autoridades ou superiores?

      O autor valoriza a sinceridade e a franqueza pautadas no equilíbrio. Para ele, a pessoa ideal é aquela capaz de opor-se às decisões de seus superiores utilizando argumentos serenos e racionais, demonstrando critério e maturidade em vez de rebeldia vazia.

04 – Como o eu lírico define as pessoas que têm o direito ou a liberdade de criticá-lo diretamente e sem rodeios?

      Ele define essas pessoas especificamente como seus amigos. Para o eu lírico, a verdadeira amizade se manifesta na capacidade de oferecer uma crítica construtiva, honesta e direta, sem a necessidade de disfarces ou falsidades.

05 – Qual é o valor atribuído ao trabalho em equipe no poema em comparação com as ações individuais?

      O poema exalta o trabalho em equipe, feito entre amigos, afirmando que ele é capaz de produzir muito mais resultados do que os "caóticos esforços individuais". Há uma clara valorização da cooperação organizada frente ao individualismo desordenado.