Conto: Reencontro de Natal
Salvador Neto
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhS-pPPGv3Yjw4EguKzIfEMs9J9C_3t7HcncDYqZrdvVHQRPTHgObxHXaro0uATrAzRFX05KWyp6snwdSzrGzs5kJ9tB48TK3_x9l135IV2JpQuHTeZ9S2-rO35Q_MkG-c5DvjvYJAUkVN-28d-xWVPAXFPGZE18lzCeMkwJeiCHIlr6E1B8EOdmo8h-Lw/s1600/1520063413608.jpg É
a vida, pensavam os velhos companheiros de tantas crianças! Conheceram várias
delas por algumas gerações, doações, mas agora competiam com poderosos concorrentes
internacionais que falam, voam, pulam, choram, andam em velocidade sem serem
jogados pelas mãozinhas. O Natal estava à porta, e em meio às campanhas
solidárias, lá se foram Fred, Joana e Jujuba para uma caixa entre tantas
dispostas naquele shopping luxuoso. Sequer tiveram tempo de se despedir de seus
donos! E o pior, até ali, ninguém os pegara para cuidar e brincar…
Joana
era a mais sentida. Com seus belos olhos azuis, cabelos loiros, já um pouco
ralos, sim é verdade, vestida com uns paninhos coloridos e sem sapatinhos, não
aceitava a solidão. – Sou muito bela para estar aqui! Mereço uma bela cama com
lençóis de seda!, reclamava. Fred, do alto da dureza do seu ser, madeira bruta,
apesar de bem arrebentado por muitas corridas e carregamentos de barros e
batidas (já não tinha mais a caçamba…), retrucava. – Ora, eu sim, um forte,
parceiro para todas as durezas, preciso de quem me valorize, que goste de
aventura! E Jujuba… ah, este não tinha ambições.
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Eu quero é girar logo por aí. Sei que perdi um pouco a graça, afinal tem uns
novos colegas aí bem mais modernos, mas ainda tenho muito a rodopiar e dar
show!, dizia. A verdade é que em meio a tantos outros brinquedos, uns mais
quebrados, outros não, a rota do caminhão solidário de Natal dirigido pelo
velho voluntário Sebastião estava chegando ao final. Tião, como era conhecido
em tantos anos de corridas pelos bairros da cidade, já tinha os ralos cabelos
brancos. Se na próxima parada sobrasse algum daqueles brinquedos, o jeito era
deixar por aí, ou jogar no lixo. – Tenho pena, quando eu era criança nem tinha
um desses para brincar, pensava enquanto dirigia-se ao último ponto de parada.
Nas
paradas anteriores a maioria da criançada tinha pegado os brinquedos mais
novos, modernos, com menos uso. O que estava ali na carroceria do velho
Mercedes cara chata talvez não agradasse aos meninos e meninas que o esperavam
nos fundões do Paranaguá-Mirim, bairro da periferia. Afinal, o que sobrara ali
eram brinquedos antigos, bem velhinhos e uns tão usados e quebrados que… bom,
era melhor não pensar nisso e seguir a missão. Junto com Tião ia João, vestido
de vermelho como manda o figurino. Não via a hora de terminar o serviço que
durava o dia todo.
Mas
lá no Paranaguá, como o povão chama seu próprio lugar mais ao gosto da
simplicidade, a gurizada esperava. Mães e pais também, na esperança de que os
filhos ficassem felizes com a chegada do bom velhinho e seus brinquedos.
Famílias pobres, lutavam todos os dias para por comida na mesa, e não sobrava
para dar brinquedos novos e modernos como os de hoje, que dirá tablets,
celulares. Então, aguardavam amontoadas no pátio da igreja, local de encontro
daquele ano. Era uma festa. No meio do povo, vendedores ambulantes ofertavam
algodão doce, pipoca, doces, também na busca dos últimos trocados para garantir
as festas de final de ano.
De
repente, lá na esquina surge o cara chata com o bom velhinho acenando! Alvoroço
na comunidade. Era só criança correndo para ver quem chegava primeiro para
abraçar o Noel, e ver o que podia ganhar. Tião dirige com todo o cuidado,
porque nessas horas a multidão não tem controle. Ao parar o caminhão, João Noel
desce e distribui balas e doces. Uma alegria só, e um empurra-empurra
generalizado! Imagine o desejo infantil do brinquedo adorado, e o sonho de pais
em ver seus filhos felizes. De repente o vozeirão avisa: – Atenção! Vamos
organizar a fila gente! Era o padre Felício tentando organizar a desorganização
de sempre.
O
povo o respeitava muito, afinal ele era o homem de Deus na região, e também
sabia das coisas. Cobrava das autoridades uma vida melhor para aquele povo.
Magro, com seus óculos quadrados, pretos, mas com fala firme e olhar decidido,
padre Felício liderava movimentos em favor de mais saúde, infraestrutura, e
agora, ajeitava tudo para que não faltassem brinquedos para a criançada. O
motorista Tião já sabia que, se faltasse brinquedo ali a bronca seria enorme!
No roteiro de visitas pela cidade, cuidava para que nada faltasse até o final
no encontro com o padre.
Se
o alvoroço era grande lá fora, imagine naquela caixa. Entre os colegas
brinquedos, Fred, Joana e Jujuba tentavam se ajeitar para serem notados,
afinal, queriam voltar para a alegria das crianças, viver em animação nas ruas,
animar histórias nas mãos infantis. E começou a entrega dos brinquedos. Uma a
uma as crianças saiam com seus troféus, já a brincar com os coleguinhas. Quase
ao final da fila estava José. Com seus dez anos, pequeno para a idade, olhos
miúdos e castanhos, cabelos da mesma cor, ondulados, tinha chegado atrasado.
A
tristeza já tomava o seu coração. Será que ainda sobraria brinquedos para ele
seus irmãos? A cada metro que a fila avançava, mais sua respiração acelerava,
parecia que o coração saltaria boca afora. Seu pai e sua mãe garantiam o
sustento da casa com a pesca artesanal. Seu atraso se justificava: estava até a
pouco cuidando dos manos pequenos. Quando os pais chegaram, ele correu até a
igreja. Será que daria certo? Conseguiria ao menos um presente? E a fila
andava… e não chegava a sua vez!
E
João Noel não aguentava mais de entregar presente para a meninada agitada. Tião
preparava o caminhão para ir embora ver a sua família. E o padre avisava a
todos que daqui a pouco tinha a missa, não poderiam faltar! Deus não perdoa,
dizia ele. Fred se batia ao lado de Jujuba, e aquele barulho de madeira batendo
o deixava furioso! Joana, já quase perdendo o vestidinho, lamentava a sua má
sorte: nenhuma criança a tinha escolhido! E agora! Será que ficariam sem dono,
sem eira nem beira em pleno Natal?
Chegou
a vez de José. Ansioso, olha nos olhos do Papai Noel como quem espera o prato
de comida. Tião empurra a caixa que ainda tinha algo dentro. – É o que sobrou
filho, diz ele a José. Um brilho nos olhos surgiu, e por trás dele, lágrimas de
alegria, pois sobraram apenas três brinquedos! Era muita sorte! – Obrigado!,
disse José já pegando nas mãos aqueles três brinquedos, exatamente o que
precisava para que todos em casa ficassem contentes. Ao espiar cada um deles
nos pacotes de presente meio rasgados, parece que via alegria também vinda
daqueles brinquedos! Seria possível?
Correu
para casa sem parar! O trecho da igreja até a sua pequena casa de madeira que
beirava o rio parecia ter milhares de metros, não acabava mais! Os cabelos
esvoaçavam ante os ventos do início da noite. Fred, Joana e Jujuba percebiam o
chacoalhar, diferente dos pulos na carroceria do Mercedes de Tião. O que
acontecia, imaginavam. José chegou finalmente. Seu pai e sua mãe o receberam enquanto
limpavam seus peixes. A pequena Sara, a caçula, e Mateus, irmão do meio,
pularam em sua frente. – O que nós ganhamos, o que veio, gritavam!
José
então entregou a cada um o seu presente. Sara não sabia o que dizer da boneca
loira que tinha nas mãos… era a mais linda que tinha ganhado, na verdade,
inteira, era a única. Mateus pegou o pião nas mãos e saiu a atirar ele ao chão
e ver rodar. Já tinha visto os amigos com alguns, mas agora tinha o dele. E
José, enfim teve seu caminhão. Faltava a caçamba, mas isso dava para enjambrar.
Saiu também a fazer vruummm, vruummm, pelo terreiro da casa. Depois do susto,
era a realização de sonhos, sonhos natalinos dele, dos pais, da família. O
reencontro da alegria que só o Natal faz.
E
Fred, Joana e Jujuba? Bom, eles também se reencontraram com a alegria da
brincadeira, dos inventos, e sentiram-se úteis e felizes. No dia seguinte, Fred
já tinha sua caçamba feita de casca de ostra. Joana ganhou novo vestido feito
pela mãe de Sara, todo florido! E Jujuba, ah, Jujuba agora roda mais forte que
nunca! Ganhou uma nova corda reforçada e sai por aí rodando o mundo a partir do
Paranaguá!
Escrito por Salvador Neto em 8 de
dezembro de 2014, especial para a sétima mini antologia Letras da Confraria da
Associação Confraria das Letras.
Entendendo o conto:
01 – Quem são Fred,
Joana e Jujuba e qual era o principal receio deles no início do conto?
Fred é um
carrinho de madeira (sem caçamba), Joana é uma boneca descabelada de olhos
azuis e Jujuba é um velho pião com cordas surradas. Por serem brinquedos usados
e antigos, eles disputavam espaço com brinquedos modernos internacionais e
temiam nunca mais voltar às mãos de crianças para brincar, correndo o risco de
serem esquecidos ou descartados.
02 – O que os brinquedos
pensavam sobre si mesmos enquanto esperavam para ser doados?
Cada um
expressava sua personalidade e desejo de utilidade: Joana, apesar de
descabelada e sem sapatos, achava-se muito bela e dizia que merecia uma cama
com lençóis de seda; Fred, orgulhoso de sua resistência de madeira bruta,
afirmava ser parceiro para "todas as durezas" e aventuras; já Jujuba
não tinha ambições intelectuais, apenas desejava voltar a girar e dar show,
mesmo sabendo que existiam colegas mais modernos.
03 – Quem era Tião e
qual era a preocupação dele em relação aos brinquedos que restavam na
carroceria do caminhão?
Tião (Sebastião)
era o velho motorista voluntário que dirigia o caminhão Mercedes "cara
chata" da campanha solidária. Sua preocupação era que, como as crianças
das paradas anteriores escolheram os brinquedos mais novos e modernos, o que
havia sobrado eram apenas os brinquedos antigos, quebrados e surrados, que
poderiam não agradar as crianças da última parada e acabar indo para o lixo.
04 – Onde ficava a
última parada do caminhão solidário e como é descrita a realidade
socioeconômica daquela comunidade?
A última parada
era no pátio da igreja do bairro Paranaguá-Mirim (ou simplesmente
"Paranaguá"), na periferia. É descrita como uma comunidade de
famílias muito simples e pobres, que lutavam diariamente para colocar comida na
mesa. Os pais não tinham condições financeiras de comprar brinquedos modernos,
tablets ou celulares para os filhos, tornando a chegada do Papai Noel um evento
muito aguardado e festivo.
05 – Por que o
menino José quase perdeu a entrega de presentes de Natal e qual era a sua
situação familiar?
José, de dez
anos, chegou atrasado porque precisou ficar em casa cuidando de seus irmãos
mais novos (Sara e Mateus). Ele só pôde correr para a igreja quando seus pais
voltaram do trabalho. A subsistência de sua família vinha da pesca artesanal,
uma realidade humilde que aumentava a ansiedade do menino de conseguir pelo
menos um presente.
06 – Como a
"falta de opções" no final da caixa de doações acabou se tornando um
golpe de extrema sorte para José?
Quando José
finalmente chegou à sua vez, o caminhão estava prestes a ir embora e restavam
exatamente os três últimos brinquedos da caixa (Fred, Joana e Jujuba). Isso
acabou sendo uma enorme sorte, pois a quantidade era o número exato de
presentes de que ele precisava para que ele e seus dois irmãos ganhassem algo e
ficassem contentes.
07 – Como os irmãos
de José reagiram aos presentes e de que forma os três brinquedos ganharam uma "nova
vida" no final do conto?
A reação dos
irmãos foi de pura felicidade: Sara achou a boneca Joana a mais linda que já
tivera; Mateus começou a girar o pião Jujuba imediatamente; e José usou a
imaginação para brincar com o caminhão Fred. Os brinquedos ganharam uma nova
vida através da criatividade da família: Fred ganhou uma caçamba feita de casca
de ostra; Joana ganhou um vestido novo e florido costurado pela mãe das
crianças; e Jujuba ganhou uma corda nova e reforçada para rodar mais forte do
que nunca.
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