Crônica: Há sempre um barco
Donald Malschitzky
Poderia
ser apenas mais uma quinta-feira como todas quando Florianópolis é o destino de
trabalho, e espio a paisagem naquela curva à esquerda, em São Miguel onde
sempre há uma bateira ancorada e ao longe se vê parte da ilha e seus contornos
que sobem ao céu. Só que é outono, só que o mar, liso e acariciante, está tão
incrivelmente azul e tanto reflete que ficava impossível não concordar com
Fernando Pessoa, e algo sussurra: “Mas foi nele que espelhou o céu”.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEinIsY0wE57UxKaSF5ksAfbZRfyv3Auzt2-L2rVgkApk_1RMk3GIbv76dbKJDDd-W6V0BPLkzOKGV_FehTETYGbO06hOcbeGfGwImqnfb416V_kGVIw4J8es_Gb2397VQfrg5mJ6tHcnM9jZRsl0M-8_jmREbDKKcIbCGUr35ZjYyS7Aw5C-a4AcWd_QbQ/s320/pngtree-a-boat-with-sunlit-reflection-in-it-picture-image_13204537.jpg Há
dias, e são a maioria, em que o vento levanta aquelas ondas curtas de altura e
de distância entre elas na água que separa ou une continente e ilha e o fundo
lodoso se mistura à superfície e aparece uma outra beleza de contraste e
nostalgia. Não que seja triste – cinza não é triste, é apenas cinza –, mas há
em nós a necessidade da segurança trazida pelo que é claro, decifrável aos
olhos e sentimentos, talvez para compensar os labirintos mais tenebrosos de
nossas mentes.
Em
dias assim, as cores da bateira ancorada, embora destoem do entorno, pouco
aparecem. Falta-lhes o brilho do reflexo.
Na
quinta-feira, no entanto, há um vermelho-pescador e um
amarelo-navegar-é-preciso flutuando sobre o anil. Visto de cima, da estrada,
daria bela aquarela, uma foto tocante da Lair Bernardoni (onde anda você?), um
anúncio de viagem inesquecível. Mirando da margem, no nível do mar, é nave
errante buscando contornos no horizonte.
Velho
CD de Renato Teixeira embala o caminho e adia a escolha de sempre: “Pela Via
Expressa ou pelo Estreito”. Pura coincidência: “O velho barco, toda vez que vê
o mar, fica confuso, com vontade de zarpar”. O trânsito no Estreito, de tão
tranquilo, parece desenhado para não estragar a paisagem nem as lembranças. De
cima da ponte com pouco movimento, extensões de azul, de novo, convidam o
pensamento ao voo.
Há
um velho barco dentro de nós, um barco de sentimentos confusos, de medos e
desejos, que precisa navegar, mas não sabe se prefere fixar-se à âncora ou
enfrentar as ondas, se espera pelo vento ou vai com ele, mas, enfim, navega,
“mesmo que o casco seja corroído”, como continua a canção, porque há o chamado
do horizonte, e segue até transmutar-se em ponto, em azul. Libertar-se.
Donald Malschitzky. Há sempre um barco.
Entendendo a crônica:
01 – Que cenário o
cronista costuma observar em suas viagens de trabalho nas quintas-feiras e o
que havia de especial no dia relatado?
O cronista
costuma espiar a paisagem em uma curva à esquerda na localidade de São Miguel,
no caminho para Florianópolis, onde sempre há uma bateira (tipo de embarcação
pesqueira artesanal) ancorada com a ilha ao longe. O diferencial daquela
quinta-feira específica era o outono, que trouxe um mar liso, acariciante e tão
incrivelmente azul que refletia perfeitamente o céu.
02 – Como o autor
descreve os dias em que o mar não está calmo e qual reflexão psicológica ele
faz a partir dessa mudança de tempo?
Ele descreve que,
na maioria dos dias, o vento levanta ondas curtas e mistura o fundo lodoso com
a superfície, trazendo uma beleza feita de contraste, nostalgia e tons de
cinza. A partir disso, ele reflete que os seres humanos têm a necessidade da
segurança trazida pelo que é claro e decifrável aos olhos, talvez como uma
forma de compensar os "labirintos mais tenebrosos" de nossas próprias
mentes.
03 – Quais são as
cores da bateira citadas na crônica e com quais expressões poéticas o autor as
associa?
O autor
identifica na embarcação as cores vermelha e amarela. Poeticamente, ele as
rebatiza como um "vermelho-pescador" e um
"amarelo-navegar-é-preciso" flutuando sobre o azul-anil do mar,
transformando as cores simples do barco em símbolos da atividade pesqueira e do
desejo humano de explorar.
04 – Qual é a
relação entre a trilha sonora da viagem do cronista e os seus pensamentos sobre
o trajeto?
O cronista
viajava ouvindo um velho CD de Renato Teixeira. A música tocava exatamente no
momento em que ele precisava decidir entre ir "pela Via Expressa ou pelo
Estreito", e a letra dizia: “O velho barco, toda vez que vê o mar, fica
confuso, com vontade de zarpar”. Essa coincidência musical acabou embalando o
caminho e ajudando a manter o trânsito e os pensamentos em perfeita harmonia
com a paisagem.
05 – No final do
texto, que metáfora o autor estabelece entre o "velho barco" e a
própria alma ou sentimentos humanos?
O autor conclui
que existe um "velho barco" dentro de cada um de nós, feito de
sentimentos confusos, medos e desejos. Esse barco interno vive o dilema humano
de não saber se prefere a segurança de fixar-se à âncora ou a aventura de
enfrentar as ondas. Apesar das dúvidas e mesmo que o "casco seja
corroído" pelo tempo, ele decide navegar, atraído pelo chamado do
horizonte, até libertar-se.
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