quarta-feira, 8 de julho de 2026

CRÔNICA: HÁ SEMPRE UM BARCO - DONALD MALSCHITZKY - COM GABARITO

 Crônica: Há sempre um barco

            Donald Malschitzky

 

        Poderia ser apenas mais uma quinta-feira como todas quando Florianópolis é o destino de trabalho, e espio a paisagem naquela curva à esquerda, em São Miguel onde sempre há uma bateira ancorada e ao longe se vê parte da ilha e seus contornos que sobem ao céu. Só que é outono, só que o mar, liso e acariciante, está tão incrivelmente azul e tanto reflete que ficava impossível não concordar com Fernando Pessoa, e algo sussurra: “Mas foi nele que espelhou o céu”.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEinIsY0wE57UxKaSF5ksAfbZRfyv3Auzt2-L2rVgkApk_1RMk3GIbv76dbKJDDd-W6V0BPLkzOKGV_FehTETYGbO06hOcbeGfGwImqnfb416V_kGVIw4J8es_Gb2397VQfrg5mJ6tHcnM9jZRsl0M-8_jmREbDKKcIbCGUr35ZjYyS7Aw5C-a4AcWd_QbQ/s320/pngtree-a-boat-with-sunlit-reflection-in-it-picture-image_13204537.jpg


        Há dias, e são a maioria, em que o vento levanta aquelas ondas curtas de altura e de distância entre elas na água que separa ou une continente e ilha e o fundo lodoso se mistura à superfície e aparece uma outra beleza de contraste e nostalgia. Não que seja triste – cinza não é triste, é apenas cinza –, mas há em nós a necessidade da segurança trazida pelo que é claro, decifrável aos olhos e sentimentos, talvez para compensar os labirintos mais tenebrosos de nossas mentes. 

        Em dias assim, as cores da bateira ancorada, embora destoem do entorno, pouco aparecem. Falta-lhes o brilho do reflexo. 

        Na quinta-feira, no entanto, há um vermelho-pescador e um amarelo-navegar-é-preciso flutuando sobre o anil. Visto de cima, da estrada, daria bela aquarela, uma foto tocante da Lair Bernardoni (onde anda você?), um anúncio de viagem inesquecível. Mirando da margem, no nível do mar, é nave errante buscando contornos no horizonte.

        Velho CD de Renato Teixeira embala o caminho e adia a escolha de sempre: “Pela Via Expressa ou pelo Estreito”. Pura coincidência: “O velho barco, toda vez que vê o mar, fica confuso, com vontade de zarpar”. O trânsito no Estreito, de tão tranquilo, parece desenhado para não estragar a paisagem nem as lembranças. De cima da ponte com pouco movimento, extensões de azul, de novo, convidam o pensamento ao voo. 

        Há um velho barco dentro de nós, um barco de sentimentos confusos, de medos e desejos, que precisa navegar, mas não sabe se prefere fixar-se à âncora ou enfrentar as ondas, se espera pelo vento ou vai com ele, mas, enfim, navega, “mesmo que o casco seja corroído”, como continua a canção, porque há o chamado do horizonte, e segue até transmutar-se em ponto, em azul. Libertar-se.

 

Donald Malschitzky. Há sempre um barco.

 

Entendendo a crônica:

01 – Que cenário o cronista costuma observar em suas viagens de trabalho nas quintas-feiras e o que havia de especial no dia relatado?

      O cronista costuma espiar a paisagem em uma curva à esquerda na localidade de São Miguel, no caminho para Florianópolis, onde sempre há uma bateira (tipo de embarcação pesqueira artesanal) ancorada com a ilha ao longe. O diferencial daquela quinta-feira específica era o outono, que trouxe um mar liso, acariciante e tão incrivelmente azul que refletia perfeitamente o céu.

02 – Como o autor descreve os dias em que o mar não está calmo e qual reflexão psicológica ele faz a partir dessa mudança de tempo?

      Ele descreve que, na maioria dos dias, o vento levanta ondas curtas e mistura o fundo lodoso com a superfície, trazendo uma beleza feita de contraste, nostalgia e tons de cinza. A partir disso, ele reflete que os seres humanos têm a necessidade da segurança trazida pelo que é claro e decifrável aos olhos, talvez como uma forma de compensar os "labirintos mais tenebrosos" de nossas próprias mentes.

03 – Quais são as cores da bateira citadas na crônica e com quais expressões poéticas o autor as associa?

      O autor identifica na embarcação as cores vermelha e amarela. Poeticamente, ele as rebatiza como um "vermelho-pescador" e um "amarelo-navegar-é-preciso" flutuando sobre o azul-anil do mar, transformando as cores simples do barco em símbolos da atividade pesqueira e do desejo humano de explorar.

04 – Qual é a relação entre a trilha sonora da viagem do cronista e os seus pensamentos sobre o trajeto?

      O cronista viajava ouvindo um velho CD de Renato Teixeira. A música tocava exatamente no momento em que ele precisava decidir entre ir "pela Via Expressa ou pelo Estreito", e a letra dizia: “O velho barco, toda vez que vê o mar, fica confuso, com vontade de zarpar”. Essa coincidência musical acabou embalando o caminho e ajudando a manter o trânsito e os pensamentos em perfeita harmonia com a paisagem.

05 – No final do texto, que metáfora o autor estabelece entre o "velho barco" e a própria alma ou sentimentos humanos?

      O autor conclui que existe um "velho barco" dentro de cada um de nós, feito de sentimentos confusos, medos e desejos. Esse barco interno vive o dilema humano de não saber se prefere a segurança de fixar-se à âncora ou a aventura de enfrentar as ondas. Apesar das dúvidas e mesmo que o "casco seja corroído" pelo tempo, ele decide navegar, atraído pelo chamado do horizonte, até libertar-se.

 

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