Romance: Sangue Verde – parte 2
David Gonçalves
Um
garimpeiro, com mais de cinquenta anos, dizia com amargura alguns trechos de
sua vida:
—
Se eu fosse jovem e forte, por Deus, não me enterraria aqui. Faria de tudo para
partir. Isso é uma draga, chupa todas as forças. É ilusão pura. Não ficaria
aqui chafurdando na lama, com gosto de barro na boca. Não mais colocaria minha
vida numas poucas pepitas de ouro.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi1whD38gsFY0_vytsO3cilmthrxTB2FttmEvR9eKnp63lNEBIr7UMbhsdpBEaa6goBzPd3zijvktuH4eD8bCjEdPzl436sbs1DGNaQFhHKZyME3F5IBFyWhGoJzp6Szz34V-WvvQkDfutS_NrZOhtflwy8JDjHs_Pq4DgL5LBQuxYgf4eAiPv2THAu3nQ/s320/71QWYoL+z6L._UF1000,1000_QL80_.jpg —
Velho de uma figa! Cale essa boca!
—
Deixe ele falar. Pelo menos, sua alma se torna mais leve – ordenou Doca mirando
as sombras das lamparinas dançando nas paredes.
—
Essa conversa me dá nojo! – confessou outro garimpeiro.
—
O que não dá nojo nessa vida?
O
velho principiou novamente com sua voz cansada e alterada.
—
Joguei minha vida fora. Queria a fortuna!
—
Quem não a quer? Ninguém está por aqui por bonito. É o ouro! O resto não
importa.
—
Que ilusão! O que tenho hoje? Reumatismo, perebas e cansaço. Meus braços, que
eram fortes, podiam até nocautear um boi, só com um soco, e hoje já não
aguentam os trancos. Mas vocês, vejo por essa febre que está em cada olhar,
jamais me ouvirão. Estão neste garimpo como urubus numa carniça. Sei lá por que
estou falando nessas coisas...
—
Não se tocam urubus de cima de uma carniça – disse Doca, enfarado. – Só quando
não houver nenhum naco de carne podre. Mesmo depois de Serra Pelada ter virado
um açude, um alagado, água jorrando como um rio, ainda tem gente que vai todo
dia contemplar a grande lâmina d’água, ainda enfeitiçado, à espera do borbulho
do ouro...
Voltou
a enxugar o suor no rosto.
—
Bem, pessoal, vou dar uns giros. Estou vertendo água. Alguém me acompanha?
Ninguém
mostrou-se interessado. O calor os deixava prostrados, como sacos inúteis.
Então saiu barraco afora. A rua torta estava enlameada. Garimpeiros, nas portas
de seus barracos, trocavam conversa mole.
Que
noite tivera! Foi de arrasar. Gastara o pouco dinheiro com aquela mulher. Por
isso, sentia-se novamente homem. E isso era tudo que podia sentir de bom.
Caminhou sem rumo. De repente, alguém o interpelou no escuro. Era o estranho da
noite anterior. O tal de Antônio Russo. Também caminhava absorto. Doca queria
ficar só. Cumprimentou e saiu a passos largos, mas o outro o interpelou
novamente.
—
Sente fogo sob os pés?
—
Esse mormaço!
—
Pensei que fosse na casa de madame Teresa. Parece que se deu bem ontem.
—
Fiz o que pude.
—
Aquela mulher é de revirar as ventas!
—
Estou apressado. Quero estar só.
E
desapareceu no escuro. De fato estava atordoado. Aquela mulher fizera estragos
em seus sentimentos. Chovera o dia todo e, recostado na rede, enquanto os
demais no barraco jogavam baralho, ele ardia em desejos.
Matildes,
Matildes, Matildes!. Tinha bom corpo e voz macia. Os cabelos longos e pretos
desciam-lhe sobre os ombros nus. Sem dúvida, caíra como mosca no mel. Estava se
debatendo no melaço e, quanto mais se debatia, mais ficava preso. Queria a todo
custo espantar a sua presença e seu cheiro adocicado, mas não conseguia. Ele
não era menino bobo, que se engabelava por qualquer fêmea. Experiente, calejado
pelo andar da vida, sabia livrar-se de rabo de saia. Não era tolo de amarrar o
burro num único pau.
Um
luar esmaecido subia sobre a floresta.
GARIMPO
— terra rica de gente pobre...
Um
pedaço no meio da Amazônia transformado em turbulento reduto de aventureiros.
Com
as notícias de riqueza fácil, toda a espécie de gente acorria desordenada como
um formigueiro desfeito. Vinha tentar a sorte. Cada forasteiro, sem nada nos
bolsos, se mostrava mais ganancioso do que o outro.
Era
uma massa de gente que não prestava, desbandeirada, sem pouso nem destino
certo. Por toda parte, existia gente que não prestava, mas em menor proporção.
Ali, a maioria não valia um níquel, numa ânsia de enriquecer de qualquer jeito.
Na luta pela posse do ouro, a ambição cega atropelava. Homens cegos sedentos
por ganhos rápidos.
A
maioria vinha só, sem mulher e filhos. Para que levar a família no meio da
floresta? Logo, entretanto, a fome por sexo falava mais alto. Não havia
mulheres para todos e isso causava pânico. Os homens se tornavam nervosos e
inquietos, como se os corpos ardessem em chamas. Então, bebiam. Por qualquer
palavra desentendida, as brigas, seguidas de mortes, explodiam. O pequeno
cemitério crescia como um organismo vivo.
Já
se cogitava em fabricar caixões. Zeca Maranhão percebera a necessidade e, numa
marcenaria improvisada, desenhava caixões grotescos e os construía com tábuas
toscas. Mas os enterros, em sua grande parte, aconteciam em redes, que ninguém
queria pagar as despesas do defunto.
O
bom negócio, a princípio, se revelava desastroso. Zeca Maranhão esperava por
dias melhores. De uma coisa tinha certeza: as mortes sucediam-se
irremediavelmente. Quanto mais os homens sentiam necessidade de sexo, mais eles
se tornavam insuportáveis e brigões.
Mulheres
eram disputadas à força. A cada leva de mulheres que chegava no cabaré era
motivo de ansiosas conversas e expectativas. Mesmo os que nada tinham e estavam
roendo as unhas queriam entrar no cabaré para espiar as madames recém-chegadas.
Em geral, mulheres maltratadas pela vida, com seios caídos e cinturas
deformadas, deixando ver abertamente dobras de gordura e calombos de celulite.
Bem vestidas, com maquiagem espessa, sob as luzes fracas e coloridas, elas se
transformavam em princesas aos olhos dos garimpeiros.
Sob
o sol escaldante, os comentários circulavam pejados de angústias e desejos, e
todos desejavam bamburrar, mesmo que fosse porção pequena de ouro, para que
pudessem pagar àquelas princesas.
—
Desta vez, só uma se salva... aquela morena alta, de quadris redondos, seios
erguidos...
Outro
rebatia:
—
Pra mim, mano velho, qualquer uma serve. Quem não tem cão, caça com gato! Estou
a matar cachorro a grito...
—
Por que não usa o cinco contra um? — pilheriava o companheiro, sorrindo
abertamente. — Pelo menos, você se livra de doenças.
—
Ah, de boa consciência, quem aqui neste fim de mundo já não usou? Estou até com
cabelos nas mãos!
E
todos riam. Os desejos, entretanto, aumentavam, afloravam, e deixavam os homens
irascíveis.
O
Pastor achava-se dono daquela riqueza. Para entrar no formigueiro desordenado,
cobrava das pessoas. Com isso, ele ganhava na entrada, na igreja, na venda dos
produtos do armazém, na venda do ouro e na saída. Os devedores fugitivos eram
perseguidos por caçadores de recompensas.
E
a primeira coisa que o garimpeiro faz, quando acha uma boa pepita, é comprar
uma arma e andar com ela na cintura, debaixo da camisa, desconfiado até da
própria sombra. Depois do comércio do ouro, o de armas é o que mais prospera.
Tio Nico, a cada três meses, aporta por lá com uma mala recheada de pistolas,
todas da Fronteira, onde não há lei alguma e o tráfico corre solto. Para entrar
no garimpo, Tio Nico dá polpudas comissões ao Pastor.
Ninguém
está no garimpo para salvar o mundo. Todos desejam salvar a própria pele.
Há
os que chegam e ainda trazem bons preceitos. A miséria os empurrou para este
tipo de trabalho. Mas, com os dias se arrastando de forma selvagem, tudo passa.
Dentro de algum tempo, compreendem que a vida não vale nada. Pois o que vale o
homem? Exatamente o que ele tem nos bolsos.
Levas
de ambiciosos abandonavam suas terras distantes, reunindo apenas o
indispensável para a viagem, e se dirigiam para o garimpo Boa Fortuna. Sem
dinheiro para pagar o Pastor, eram despejados de volta, ou se arranchavam na
ponta das ruelas, espalhando-se pelo formigueiro à procura de trabalho.
Decepcionados, logo descobriam que o garimpo tinha donos, e um deles, sem dúvida,
era o Pastor. Sem alternativas — os bolsos vazios, a fome rondando a cada dia,
e a grande floresta como muralha, iam ficando, as ruelas cresciam, novos
ranchos cobertos de buriti se ajuntavam. Viviam ao deus-dará, como podiam, com
os seus cachorros magros e filhos carcomidos por vermes.
Garimpo
— terra rica de gente pobre.
NO
POVOADO DESAPRUMADO havia uma meia-água tosca, com uma tabuleta pendente da
porta, onde se lia “A FLUTARIA DU GARIMPU”, escrita a piche, as letras
desengonçadas, fora do prumo. Mais pareciam bonecos desenhados por crianças.
Havia
chegado de barco uma carga de frutas, e o dono, um baiano, sabia que, naquele
dia, não teria sossego. Frutas eram iguarias. No dia a dia, feijão, arroz,
farofa e carne seca. Uma vez, a cada quinze dias, o barco trazia caixas de
madeira com frutas – abacaxis, mangas, laranjas e tubérculos.
—
Tem abacaxi? — perguntou Doca, exausto, sujo de terra, no final da tarde,
quando o sol se escondia na floresta feito uma bola de fogo.
Zé do Coco picava fumo despreocupadamente,
só de bermuda, nu da cintura para cima. Distraído, esmigalhava o fumo de corda
com um canivete gasto de cabo de osso, lambendo a palha de milho para enrolar o
cigarro.
—
Abacaxi, veio desta vez? — voltou a perguntar Doca. – Amanheci com as lombrigas
atiçadas!
Sonhara
à noite com balaios lotados de abacaxis amarelos, cheirosos e suculentos.
Revirava na rede.
—
Lá vem o barco! – trabalhando na mina, ficava de olhos no rio, lembrando do sonho
da noite. – Será que trouxe abacaxi?
Era
uma frutaria improvisada. Havia cachos de bananas pendurados, envolvidos por
telas de nylon, para afastar os pássaros e os macacos famintos. Eram cachos
raquíticos cultivados por ribeirinhos, ao longo do rio, ao deus--dará. Muitas
vezes, apodreciam antes de madurar. Os ribeirinhos, antes de granar, vendiam,
gananciosos. Protegidos por telas, os pássaros não conseguiam bicar, mas os
macacos... Atacavam em bandos. Eram rápidos e ardilosos.
—
Tão aí, mininu!
Em
cima de uma banca de tábua suspensa por estaca, que também abrigava carás e
mandioca já passados, os abacaxis espalhados, com parte da polpa apodrecida. O
cheiro adocicado atiçava as abelhas, atiçando também a gula de Doca.
— Tão aí, mininu, pode pegá, é deis real
cada.
Doca
se assustou.
—
Cada um?
—
Sim, mininu. Tá tudo muito caro. Vem di longi, ocê sabi. Pur metro, vai dobrano
o preçu. Nu garimpu, custa o zóio da cara!
Queria
cinco abacaxis. Mas, no preço que estava, contentou-se com dois. Depois da
janta, descascaria um.
—
Faz um desconto, seu Zé. Aí levo mais um.
—
Nun tem jeito, não. Tudo mundo qué ganhá o seu. Quandu chega nu garimpu, tá o
zóio da cara!
Uma
velha desdentada, acompanhada de uma cabocla nova e de um menino sardento, que
coçava constantemente a cabeça desalojando os piolhos que disputavam o sangue
aguado pela maleita e pelas lombrigas, queria comprar fiado, pagar no fim do
mês. Zé do Coco fechou os cenhos, alterou a voz:
—
Minha sinhora! Tenhu um loti de cabecinha chata, pançudu e lubriguentu pra
criá, i a sinhora vem pedí fiadu. Pru inferno! Aqui, nu garimpu, só nu dinhêro!
Nun adianta ficá cum essa cara de cachorro caídu de mudança, não. Quem tem
coração moli nun vévi pur essas bandas...
Doca
se apiedou.
—
Que gente pobre... Coitados!
—
Coitadu é fio de rato que nasci peladu! Quem nun tem dinhêro qui nun si
estabeleça! A lei da vida. Si eu for ter pena dessa genti, tô fudido e mal
pagu. Vá pedi as coisa pru Pastor... Nun vai recebê nadinha! É um mão di
vaca.
Sempre
o Pastor, a mesma conversa.
—
Vê si o home, essi tar de Pastor, vai pegá nu cabu du machadu pra rachá lenha,
nem vai amassá barru, muitu meno trepá na iscada pra tirá goteira du ranchu.
Nun vai pegá nu cabu da inxada pra plantá mantimenu, nem vai cavá o chão pra
tirá ouro. O home manda e dismanda nesti garimpu. Aqui, o pobre se ferra e pur
um nadinha é encontradu de boca pru chão, a boca cheia de furmiga. Sabi, seu
moçu, eu só queru vendê minhas frutinhas. Queru ficá rico, não. Mais nem pobri.
Remediadu, é mio. Os dedos da mão é iguá? Nun é. Tudo diferenti. Si tudo mundu
fosse rico, morria tudo de sujeira. Sabe pur quê? Quem ia lavá rôpa? Quem ia
cavucá o barru pra achá ouro? Quem ia vendê essas frutas? O que mai aborreci e
não aceitu, e mi fais perdê o sonu, é qui os ricos nun gosta de pagá a genti
direito. Eles pode comprá tudo, inté a justiça. Aí, que palavrão! Pur aqui,
justiça é na basi do revólve, na bala de açu. Nun adianta gritá, os ricos, esse
tar de Pastor, pode botá quarqué um fora du garimpu, ou intão mandá pro ôtro
mundu. Já viu pobri tê razão?
Anoitecia.
Um vento forte, mas morno, vindo da mata próxima, passou repentinamente,
agitando os cabelos de Doca. O menino sardento e empiolhado, enquanto Zé do
Coco conversava, havia surrupiado várias frutas e, sorrateiro, saíra correndo.
Doca o percebera, mas fizera de conta que não havia visto. Mais adiante, o
menino se reuniu à mãe e seguiam pela rua tortuosa.
Zé
do Coco cuspiu violentamente e passou o chinelo enorme em cima da cusparada. No
brilho de seus olhos havia raiva e decepção.
—
O sinhô veio da onde? Nun parece cabra encruadu cumo essa leva de genti de
vesti esfarramada acenanu ao vento...
Para
disfarçar, Doca fez que não ouviu, jogando duas notas de dez reais sobre o
balcão improvisado.
—
Vou levar dois, seu Zé. Outro dia, levo mais. Quando vem outra carga? Só de
quinze dias?
—
Tá certu! Si nun qué falá, nun fale. Possu nun sê detetivi, mais nunca saio da
pista. Cumo qui si diz, quem isquenta a cabeça é palitu di fósfo! Aprendi a
respeitá, seu moçu. Pur aqui, o passadu é sempre feio. Em cada rostu, só a
cobiça. Tudu mundu qué ficá ricu, bamburrá. A vida, pur aqui, inté pareci venda
de bilheti de loteria. Sempri o memo consêio: “seu dia chegará!”. Mais, inté
agora, só pôca genti viu a grandi sorti. Mais, prus pobri, chega nunca!
—
Há como sair daqui com o ouro, seu Zé?
—
Nun mi fale nistu. Daqui, ninguém sai cum o ouro. O Pastor nun deixa. A mina é
dele. Já vi uma purção querê saí, e acabaro na valeta ou no riu, banqueti das
piranha. Ocê já ouviu falá do Djalmão? O negão mata sem piscá os zóios! Notro
dia memo, arrancô as pepita de ouro do rabu de um garimpêro. O pião tinha
escondido o ouro no cu. Puis o Djalmão rancô as pepita lá di dentro. Tava cheio
de merda. Qui nojeira! Mais nun perdeu o ouro. Aqui, é assim qui
funciona.
Anoitecera.
O lampião clareava frouxamente. Muriçocas atacavam famintas. Fregueses
chegavam. Zé do Coco abandonou a conversa e foi atendê-los. Doca saiu em
direção do rancho, carregando os abacaxis.
Mais
adiante, avistou Matildes, que entrara na loja “Butike de ouro”. Ela olhava as
bugigangas, enquanto o negociante atendia os numerosos fregueses, na maioria
prostitutas e garimpeiros gastadores. O mulherio comprava braceletes, brincos,
sapatos e bolsas. Pelo balcão engendrado de caixotes de pinho viam-se cortes de
tecido e bermudas, saias, sutiãs, calcinhas por preços absurdos. Os olhos de
Doca apalparam avidamente o corpo da prostituta, de cima para baixo, de baixo
para cima, feito olhar de bisturi. No meio da rua escura, quedou-se cheio de
desejo, segurando um abacaxi em cada mão.
—
Para casa! – ordenou a si mesmo, contendo-se. – Sai, satanás!
Se
fizesse como os outros garimpeiros, que gastavam tudo com mulheres, jamais
sairia daquele inferno com os bolsos forrados. Naquele lugar, o mundo viera
parar com todas as tentações, toda a sua hipocrisia, as suas grandezas e
misérias. Ali, havia dinheiro, miséria e imundície a granel. O que aquelas
mulheres queriam? Sapatos e vestidos bonitos, brincos, colares, bebidas que
espumavam.
—
Depois de três trepadas, já não é uma aventura, mas um caso – ruminou,
apressando os passos.
No
meio do caminho, um grupo de garimpeiros conversava alto:
—
Hoje, o Djalmão teve serviço!
—
Não diga! O que ele fez?
—
O de sempre! Esculhambou três cabras. Estavam escondendo ouro. Ouvi os urros de
um. Aquilo deve ter ficado com a bunda sem conserto...
Doca
apressou mais os passos. Cachorros vadios perseguiam cadelas, num cortejo cego.
Sobre a mata, a lua começava a pratear.
TRECHO 2 DO ROMANCE "SANGUE
VERDE" DE DAVID GONÇALVES (Pg.12 a 18).
Entendendo o romance:
01 – Que visão o
velho garimpeiro de cinquenta anos tem sobre a vida no garimpo e por que ele se
arrepende do passado?
O velho
garimpeiro enxerga o local como uma "draga" que chupa todas as forças
e classifica a busca pela riqueza fácil como "ilusão pura". Ele se
arrepende profundamente de ter jogado sua vida fora chafurdando na lama por
poucas pepitas de ouro, restando-lhe na velhice apenas reumatismo, feridas
("perebas") e cansaço.
02 – De que forma o
personagem Doca utiliza a metáfora dos urubus na carniça para descrever o
comportamento dos garimpeiros?
Doca compara os
garimpeiros a urubus em cima de uma carniça para ilustrar a ganância obstinada
que os prende àquele lugar. Ele argumenta que os homens só vão embora dali
quando não restar mais nenhum "naco de carne podre" (ouro), citando o
exemplo de Serra Pelada que, mesmo após virar um açude alagado, continuava atraindo
pessoas enfeitiçadas à espera de um sinal do metal precioso.
03 – Quem é Matildes
e qual é o dilema interno que Doca enfrenta em relação a ela?
Matildes é uma
das prostitutas do cabaré local com quem Doca gastou seu pouco dinheiro na
noite anterior. O dilema de Doca é que ele se vê perdidamente atraído por ela
("caíra como mosca no mel"), mas tenta a todo custo lutar contra esse
desejo. Sendo um homem experiente, ele sabe que se gastar tudo com mulheres e
luxos, jamais conseguirá sair daquele "inferno" com os bolsos cheios.
04 – Por que a
violência e as mortes eram tão frequentes no garimpo Boa Fortuna e como
ocorriam a maioria dos sepultamentos?
A violência
explodia devido à combinação de ganância, consumo de bebida alcoólica e a grave
escassez de mulheres, deixando os homens irascíveis e nervosos. Embora o
carpinteiro Zeca Maranhão tentasse vender caixões toscos de madeira, a maioria
dos enterros no cemitério local acontecia usando apenas redes, já que ninguém
queria arcar com as despesas do defunto.
05 – Qual é o papel
do "Pastor" na estrutura de poder e na economia exploratória do
garimpo?
O Pastor é
descrito como o verdadeiro dono e tirano do garimpo. Ele explora os
trabalhadores cobrando taxas em todas as etapas: na entrada do perímetro, na
igreja, na venda de produtos do armazém, na comercialização do ouro e até na
saída. Ele também financia caçadores de recompensas para perseguir devedores e
recebe comissões para permitir o tráfico ilegal de armas no local.
06 – Que crítica
social Zé do Coco faz sobre a relação entre ricos, pobres e o conceito de
justiça naquela região da Amazônia?
Zé do Coco afirma
que os ricos (representados pelo Pastor) não gostam de pagar o trabalhador
direito e têm poder para comprar tudo, inclusive a justiça. Ele resume que, no
garimpo, a palavra "justiça" não passa de um palavrão, pois a
realidade local é resolvida na base do revólver e da bala de aço, onde o pobre
nunca tem razão e pode ser mandado para o "outro mundo" por qualquer
capricho dos poderosos.
07 – Quem é Djalmão
e que história brutal Zé do Coco conta a Doca para ilustrar que ninguém
consegue sair dali roubando ouro?
Djalmão é o
capanga encarregado de aplicar a violência brutal do garimpo a mando dos donos.
Zé do Coco relata que Djalmão "mata sem piscar os olhos" e conta que,
recentemente, ele descobriu que um peão havia escondido pepitas no próprio
ânus. Sem qualquer hesitação, Djalmão arrancou à força o ouro dali de dentro,
deixando o garimpeiro gravemente ferido e com a "bunda sem conserto".
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