quarta-feira, 8 de julho de 2026

CONTO: AS AREIAS DA ENSEADA - SALUSTIANO SOUZA - COM GABARITO

 Conto: As areias da Enseada

           Salustiano Souza

 

        O ônibus riscava o asfalto com seus faróis acesos e na minha imaginação ia muito veloz. Eu olhava embevecido a mata que recobria as margens da rodovia, as poucas casas que povoavam Araquari e o céu que começava a tingir-se de alaranjado, prenunciando mais um dia ensolarado no verão.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjbUFxMPfdzN6GySJzq-e1tZ4OmGl_p3AeyLZORpQlzvZ4k4Uc1lCjEW5XBfxuwFEF90UPkAN6BdbpdtJEE8emHtUBXSV8U1hiVHUY1ZT0ebsy_jNifAMcn6gIcgpm87Kx8yX-scEhURjjEX28-TbW3GcOUdZ6ZxzyNW_n9SYxpXlfiUsMYnz8PEFMjypk/s320/images.jpg


        O ônibus parou na fila de carros e todos se levantaram. Olhamos com curiosidade o trem que atravessava a pista, fiquei contando os vagões, na época ainda havia vagões de passageiros, mas naquela hora estavam vazios. O pessoal estava animado, as cestas, caixas e bolsas rolavam pelo corredor nas freadas bruscas e manobras radicais, denunciando que o Beca, motorista maluco que levava os alunos para a Escola Técnica Tupy, era mesmo maluco.

        Sentia um pouco de sono, afinal eu me levantara várias vezes na noite para espiar o céu, com medo de perder a hora e com uma ansiedade incomum. Tinha pouco mais de treze anos, estava começando o curso de mecânico ajustador no Senai e com um misto de alegria e ansiedade aceitara o convite para a excursão da família de um amigo de lá, o Dagoberto, para passar o domingo na praia da Enseada. O ônibus ia lotado, todos os parentes do Dagoberto estavam lá, uma grande festa.

        Sonhos espocaram nas noites que antecederam a partida. Eu praticamente não conhecia praia, apesar de morar em Joinville. Lembranças do mar tinha pouco, algumas parcas passagens por Barra Velha onde via o espetáculo do mar descortinar-se na descida do morrinho e uma vez em Balneário Camboriú, levado pela mão de meu pai, olhando com inveja as crianças que brincavam na areia. Queria molhar os pés, mas ele não deixou. E nem televisão tínhamos para mitigar o desejo que tanto me fascinava de ver o mar.

        Por isso o sonho agora era mais intenso, o desejo mais incontido. Me imaginava correndo na areia da praia, chutando a água, exatamente como vira as crianças fazerem, há muitos anos atrás. Antes de dormir naquela noite acalentei o último sonho que antecede a realização de um desejo. Acordei muito cedo e às cinco e meia da manhã cheguei de bicicleta na frente da casa deles, lá no Itaum. O cheirinho do café misturava-se com a algazarra da família se reunindo.

        O sol agora nascia soberbo, espelhando-se nas águas plácidas do canal do Linguado. A mãe do Dagoberto distribuía orelha de gato. Humm, uma delícia. De repente um estranho barulho, um pneu furou. Quase todo mundo desceu, não tinha muita gente para ajudar, mas para dar palpites estava cheio. Olhei com interesse uma prima do Dagoberto, afinal a puberdade transpirava por todos os poros. Senti que seus olhos fugidios manifestaram interesse.

        A viagem recomeçou e eu comecei a dividir meus sonhos de ver o mar com os sonhos de conhecer melhor aquela garota.

        -- Chegamos em São Francisco, gritou alguém quando fizemos a curva e entramos no Bairro Laranjeiras. Olhei para a janela, procurando o mar, mas só via casas e árvores.

        -- Cadê o mar, perguntei, e todos riram.

        -- Calma menino, mais meia hora e nós chegamos, falou uma das mulheres.

        Logo à frente, a polícia, ao lado da igreja, parou o ônibus. Examinou documentos, conversou com o Beca e fez pouco caso da minha impaciência. Liberou o ônibus, não sem antes ganhar umas orelhas de gato da mãe do Dagoberto.

        Nunca imaginara que a praia pudesse ser tão longe. Mais mato, mais asfalto, e por fim um pedaço de estrada de chão. 

        -- A praia, ouvi o grito quando já saboreava as nesgas de mar que apareciam no meio das árvores. Na Enseada da minha infância havia uma ou outra casa esparsa, porque os prédios vieram anos depois. A praia era quase selvagem.

        Mal parou o ônibus eu corri para água. Na pressa esqueci de tirar o único tênis que tinha, um kichute, e a calça boca sino. Parei com água nas canelas, as ondas brincando de molhar meus joelhos, o olhar embevecido não conseguia abarcar aquela imensidão de água. Fiquei ali parado, sem saber o que fazer, aquele movimento das ondas marulhando no encontro com a areia, ah, aquilo era divino.

        Fechei os olhos e lembrei do poema de Casimiro de Abreu, Deus. Como havia sonhado com aquele momento! A alegria era imensa, não sabia o que fazer, fiquei ali, extasiado, com um sorriso abestalhado, vendo o sol dançar em miríade de cores naquela efervescência de ondas.

        -- Vem! falou a prima do Dagoberto, pegando na minha mão. – Vai colocar um calção!

Salustiano Souza. Fevereiro/2015.

 

Entendendo o conto:

01 – Qual era o principal motivo da ansiedade e da insônia do narrador na noite anterior à viagem?

       O narrador estava extremamente ansioso porque teria a oportunidade de passar o domingo na praia da Enseada. Apesar de morar em Joinville, ele praticamente não conhecia o mar (tinha apenas lembranças vagas de infância) e não tinha televisão em casa para saciar seu desejo de vê-lo. Por isso, passou a noite acordando para olhar o céu, com medo de perder a hora.

02 – Quem era Dagoberto e como o narrador se juntou àquela excursão?

      Dagoberto era um amigo do narrador, colega do curso de mecânico ajustador no Senai. O narrador, que na época tinha pouco mais de treze anos, aceitou o convite da família de Dagoberto para se juntar a eles em um ônibus lotado de parentes para a viagem de domingo.

03 – Quem era "Beca" e como o seu comportamento no volante é descrito no conto?

      Beca era o motorista do ônibus, conhecido por também levar os alunos para a Escola Técnica Tupy. Ele é descrito de forma bem-humorada como um "motorista maluco" que fazia "freadas bruscas e manobras radicais", fazendo com que as cestas, caixas e bolsas da excursão rolassem pelo corredor do veículo.

04 – Que quitute a mãe de Dagoberto distribuiu durante a viagem e em qual momento ele serviu como uma "moeda de troca"?

      A mãe de Dagoberto distribuía orelha de gato (um doce frito tradicional). Além de ser saboreado pelos passageiros durante a parada para trocar o pneu furado, o quitute foi usado para agradar os policiais que pararam o ônibus para examinar os documentos ao lado da igreja, ajudando na liberação da viagem.

05 – Além do desejo de ver o mar, que outro interesse surge no coração do narrador durante o trajeto?

      Durante a parada para consertar o pneu furado próximo ao canal do Linguado, o narrador, que estava no início da puberdade, nota o interesse mútuo nos "olhos fugidios" de uma prima de Dagoberto. A partir dali, ele passa a dividir seus pensamentos entre o sonho de ver o mar e o desejo de conhecer melhor a garota.

06 – Como era a paisagem da praia da Enseada na época da infância do narrador, segundo o relato?

      A praia era descrita como "quase selvagem". Naquela época, a Enseada tinha apenas uma ou outra casa esparsa na orla, bem diferente do cenário atual, já que os prédios e a urbanização só vieram muitos anos depois.

07 – Tomado pela emoção ao chegar, que descuido o narrador cometeu ao correr para a água e quem o "desperta" daquele transe?

      Devido à imensa pressa e ao êxtase de finalmente ver o mar, o narrador correu para a água esquecendo-se de tirar a calça boca de sino e o seu único par de tênis (um kichute). Quem o desperta daquele estado de transe e contemplação é a prima de Dagoberto, que pega na mão dele e diz: “Vem! Vai colocar um calção!”.

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