quarta-feira, 8 de julho de 2026

POEMA: MALDIÇÃO - OLAVO BILAC - COM GABARITO

 Poema: Maldição 

           Olavo Bilac


Se por vinte anos, nesta furna escura, 

Deixei dormir a minha maldição, 

_ Hoje, velha e cansada da amargura, 

Minha alma se abrirá como um vulcão. 

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhZ1SrogusCOrnp7_HsnS_6sVSQ3IoEwer-9cxvgBxjbXv7uAgHICJnV1NEVtCgjG4NKVPaLfAKds0D2IuXGBhEiHSIPXyMVfHzhVJQhBcMbvI3birxMV_zaJvbKc2uEA2PgkGZQSX-zYUBoAOLqpXRHTRg69cbkSgnSBtV2Zi5UHvUWTEkmjpo_uMVBp8/s320/MALDI%C3%87%C3%83O.jpg
 


E, em torrentes de cólera e loucura,

Sobre a tua cabeça ferverão

Vinte anos de silêncio e de tortura,

Vinte anos de agonia e solidão...


Maldita sejas pelo ideal perdido!

Pelo mal que fizeste sem querer!

Pelo amor que morreu sem ter nascido!


Pelas horas vividas sem prazer!

Pela tristeza do que eu tenho sido!

Pelo esplendor do que eu deixei de ser!...

Olavo Bilac. Poema Maldição.

 

Entendendo o poema:

01 – A primeira estrofe do poema introduz uma mudança drástica no estado de espírito do eu lírico. Explique que mudança é essa e qual metáfora da natureza é utilizada para ilustrá-la.

      A mudança consiste na transição de um longo período de repressão e silêncio emocional para uma explosão violenta de sentimentos guardados. O eu lírico passou vinte anos contendo sua "maldição" em segredo ("furna escura"), mas agora sua alma não suporta mais a amargura. Para ilustrar essa liberação violenta de raiva e dor, ele utiliza a metáfora de um vulcão que se abre, indicando que o que estava guardado virá à tona de forma destrutiva e incontrolável.

02 – Na segunda estrofe, como o eu lírico descreve a passagem do tempo e de que maneira esses anos afetarão o interlocutor (a pessoa a quem o poema é dirigido)?

      O eu lírico descreve o tempo como um período doloroso de duas décadas marcado por "silêncio", "tortura", "agonia" e "solidão". Esse acúmulo de sofrimento não desapareceu; pelo contrário, transformou-se em "torrentes de cólera e loucura". Esses sentimentos represados afetarão o interlocutor de forma punitiva e avassaladora, pois "ferverão" sobre a sua cabeça, caindo como um castigo tarde, mas implacável.

03 – No início da terceira estrofe, o eu lírico amaldiçoa o interlocutor "pelo mal que fizeste sem querer". Como esse trecho humaniza e complexifica a relação entre os dois?

      Ao dizer que o mal foi feito "sem querer", o eu lírico reconhece que o interlocutor pode não ter tido a intenção deliberada de machucá-lo ou de destruir seus sonhos. Isso complexifica a relação porque mostra que a dor do eu lírico não decorre necessariamente de uma maldade cruel ou de uma vilania consciente, mas talvez de uma rejeição, de um desencontro ou da incapacidade do outro de corresponder ao amor esperado. Mesmo sabendo da falta de intenção, o eu lírico não consegue aplacar seu rancor, o que torna o poema ainda mais trágico.

04 – O sofrimento do eu lírico não se limita ao que aconteceu no passado, mas se estende ao que ele se tornou. Com base nos dois últimos versos, explique o duplo motivo de sua amargura atual.

      O duplo motivo de sua amargura reside no contraste entre a realidade presente e o potencial perdido do passado. Primeiro, ele sofre pela "tristeza do que eu tenho sido", ou seja, pela sua condição atual de alguém amargurado, cansado e solitário. Segundo, e de forma ainda mais dolorosa, ele lamenta pelo "esplendor do que eu deixei de ser", que representa a vida brilhante, feliz e realizada que ele poderia ter tido se os seus ideais e o seu amor não tivessem sido destruídos.

05 – O poema utiliza intensamente o recurso da anáfora (repetição de uma palavra ou expressão no início de vários versos) nas duas últimas estrofes. Identifique essa repetição e explique o efeito de sentido que ela causa no texto.

      A anáfora ocorre com a repetição da palavra "Pelo" / "Pela" / "Pelas" no início de quase todos os versos da terceira e da quarta estrofes (ex.: "Pelo ideal perdido", "Pelo mal", "Pelo amor", "Pelas horas"). O efeito de sentido dessa repetição é o de criar uma lista cumulativa de motivos para a maldição. Ela funciona como uma contagem obsessiva dos danos sofridos, aumentando o ritmo dramático e a musicalidade do poema, como se o eu lírico estivesse jogando na cara do interlocutor, um a um, todos os seus sacrifícios e frustrações.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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