Poema: Maldição
Olavo Bilac
Se por vinte anos, nesta furna escura,
Deixei
dormir a minha maldição,
_
Hoje, velha e cansada da amargura,
Minha
alma se abrirá como um vulcão.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhZ1SrogusCOrnp7_HsnS_6sVSQ3IoEwer-9cxvgBxjbXv7uAgHICJnV1NEVtCgjG4NKVPaLfAKds0D2IuXGBhEiHSIPXyMVfHzhVJQhBcMbvI3birxMV_zaJvbKc2uEA2PgkGZQSX-zYUBoAOLqpXRHTRg69cbkSgnSBtV2Zi5UHvUWTEkmjpo_uMVBp8/s320/MALDI%C3%87%C3%83O.jpg
E, em torrentes de cólera e loucura,
Sobre
a tua cabeça ferverão
Vinte
anos de silêncio e de tortura,
Vinte
anos de agonia e solidão...
Maldita sejas pelo ideal perdido!
Pelo
mal que fizeste sem querer!
Pelo
amor que morreu sem ter nascido!
Pelas horas vividas sem prazer!
Pela
tristeza do que eu tenho sido!
Pelo
esplendor do que eu deixei de ser!...
Olavo Bilac. Poema Maldição.
Entendendo o poema:
01 – A primeira
estrofe do poema introduz uma mudança drástica no estado de espírito do eu
lírico. Explique que mudança é essa e qual metáfora da natureza é utilizada
para ilustrá-la.
A mudança
consiste na transição de um longo período de repressão e silêncio emocional
para uma explosão violenta de sentimentos guardados. O eu lírico passou vinte
anos contendo sua "maldição" em segredo ("furna escura"),
mas agora sua alma não suporta mais a amargura. Para ilustrar essa liberação
violenta de raiva e dor, ele utiliza a metáfora de um vulcão que se abre,
indicando que o que estava guardado virá à tona de forma destrutiva e
incontrolável.
02 – Na segunda
estrofe, como o eu lírico descreve a passagem do tempo e de que maneira esses
anos afetarão o interlocutor (a pessoa a quem o poema é dirigido)?
O eu lírico
descreve o tempo como um período doloroso de duas décadas marcado por
"silêncio", "tortura", "agonia" e "solidão".
Esse acúmulo de sofrimento não desapareceu; pelo contrário, transformou-se em
"torrentes de cólera e loucura". Esses sentimentos represados
afetarão o interlocutor de forma punitiva e avassaladora, pois
"ferverão" sobre a sua cabeça, caindo como um castigo tarde, mas
implacável.
03 – No início da
terceira estrofe, o eu lírico amaldiçoa o interlocutor "pelo mal que
fizeste sem querer". Como esse trecho humaniza e complexifica a relação
entre os dois?
Ao dizer que o
mal foi feito "sem querer", o eu lírico reconhece que o interlocutor
pode não ter tido a intenção deliberada de machucá-lo ou de destruir seus
sonhos. Isso complexifica a relação porque mostra que a dor do eu lírico não
decorre necessariamente de uma maldade cruel ou de uma vilania consciente, mas
talvez de uma rejeição, de um desencontro ou da incapacidade do outro de
corresponder ao amor esperado. Mesmo sabendo da falta de intenção, o eu lírico
não consegue aplacar seu rancor, o que torna o poema ainda mais trágico.
04 – O sofrimento do
eu lírico não se limita ao que aconteceu no passado, mas se estende ao que ele
se tornou. Com base nos dois últimos versos, explique o duplo motivo de sua
amargura atual.
O duplo motivo de
sua amargura reside no contraste entre a realidade presente e o potencial
perdido do passado. Primeiro, ele sofre pela "tristeza do que eu tenho
sido", ou seja, pela sua condição atual de alguém amargurado, cansado e
solitário. Segundo, e de forma ainda mais dolorosa, ele lamenta pelo
"esplendor do que eu deixei de ser", que representa a vida brilhante,
feliz e realizada que ele poderia ter tido se os seus ideais e o seu amor não
tivessem sido destruídos.
05 – O poema utiliza
intensamente o recurso da anáfora (repetição de uma palavra ou expressão no
início de vários versos) nas duas últimas estrofes. Identifique essa repetição
e explique o efeito de sentido que ela causa no texto.
A anáfora ocorre
com a repetição da palavra "Pelo" / "Pela" /
"Pelas" no início de quase todos os versos da terceira e da quarta
estrofes (ex.: "Pelo ideal perdido", "Pelo mal", "Pelo
amor", "Pelas horas"). O efeito de sentido dessa repetição é o
de criar uma lista cumulativa de motivos para a maldição. Ela funciona como uma
contagem obsessiva dos danos sofridos, aumentando o ritmo dramático e a
musicalidade do poema, como se o eu lírico estivesse jogando na cara do
interlocutor, um a um, todos os seus sacrifícios e frustrações.
Nenhum comentário:
Postar um comentário