Artigo de opinião: Internetês – Ameaça à Língua Portuguesa
Karla Hansen
Quem
tem acesso à rede mundial de computadores, não dispensa o “internetês” para escrever suas
mensagens ou se comunicar nas salas de bate-papos virtuais. No entanto, o que parecia uma
brincadeira de adolescente está abalando o coração, já tão cansado, dos professores da
língua portuguesa.
O assunto também já ganhou as páginas dos jornais e tem alimentado calorosos
debates entre acadêmicos,
escritores e jornalistas.
Basicamente,
o debate tem dividido os interessados entre os que são contra e os que são a
favor. De
um lado e do outro existem os exagerados e alarmistas de plantão. Entre os que são
contra, por
exemplo, um
argumento bem forte é o de que o “internetês” é mais que uma degradação da língua, um verdadeiro
atentado infame a ela.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEioQfEOw-IJP6ONhzxJzYLJfM0FikzI32cM8CfVGTaylxJwFUd2P4zxqmHN4CokyrmP_muqXv9XGxU2MTHebuL_m2rtWhxSACaBGowqTKNpv72Ii9lNNlc0EGW4Bw-g03xUvP7Vxsemh_kQGn7kqHea3jZrdYyeXLxoXJz8PlcFqh0RW4O9aM91IOh4Rx8/s1600/unnamed.png O
escritor Deonísio da Silva chamou de “besteirol” o novo “idioma” e classificou o fenômeno como “assassinato a
tecladas” da
língua portuguesa.
Segundo o escritor,
nunca se escreveu tanto como nesses tempos de correspondências eletrônicas, mas para ele estão “botando os carros na
frente dos bois”.
Ou seja, esses
adolescentes têm acesso à internet e ao celular, mas não à norma culta da língua
escrita.
Nas
palavras de Deonísio:
Os pequenos burgueses tinham internet e celular, mas não dominavam a língua escrita. E por isso criaram a
deles. Nada
espantoso.
Também os habitantes das periferias não dominam a norma culta da língua e criam
suas gírias,
devidamente circunscritas a cada grupo de usuários. Para resumir, o escritor defende
que o “internetês” é um sintoma da grave
falência educacional,
que por sua vez,
gera a exclusão dos jovens ao mundo letrado ao qual só poucos têm acesso.
Combatendo
serenamente essa tese,
Marisa Lajolo é uma das que não veem nada de grave na invenção dos adolescentes. Ao contrário, ela acredita que a
nova escrita na Internet está promovendo um “surto de poliglotas”. Na sua opinião, o “internetês” é apenas mais uma
linguagem usada pelos jovens para se comunicarem entre si, considerados, por ela, poliglotas pela
capacidade
de se expressar de maneira diferente com seus pais, professores e com os
demais interlocutores da comunidade. Dessa forma, para a escritora, isso demonstra
criatividade dos adolescentes em criar um código próprio, que reforça a
identidade dos mesmos.
Sérgio
Nogueira aconselhou os professores a não se assustarem, mas procurarem
conhecer a linguagem.
Ele admite que esse é um
“fenômeno natural”.
Para ele, o
problema maior a ser atacado pelos professores é mesmo o domínio da linguagem
padrão.
Há, do outro lado, entusiastas febris. Pessoas afirmam que o “internetês” veio revolucionar a
língua portuguesa e chegam a oferecer um “curso de língua de internetês”, no qual estão
traduzidas as principais expressões da “língua” num “dicionário”.
Seguindo
o bom senso do professor Sérgio Nogueira, alguns professores de língua portuguesa já
tiveram a iniciativa de promover, em sala de aula, atividades com o dialeto. Não se trata de
rejeitar, diminuindo-lhe
a importância,
ou de elevar aos céus,
atribuindo-lhe poderes para “revolucionar” ou mesmo ameaçar a língua portuguesa. Essas experiências em
sala de aula têm a qualidade de reconhecer o fenômeno e explorá-lo, mostrando sua dimensão
real.
Dessa
forma, é
possível que o
“internetês”
ainda dê o que falar.
Mas, com o
vocabulário reduzido de que ele dispõe, é provável que o debate, assim como a própria
vida do novo
dialeto, não
sejam capazes de ir muito longe.
Karla Hansen. Internetês – Ameaça à
Língua Portuguesa.
Entendendo o artigo:
01 – De acordo com o
texto, qual é a principal justificativa do escritor Deonísio da Silva para
criticar o "internetês"?
Deonísio da Silva
defende que o "internetês" é um sintoma da grave falência
educacional. Para ele, os jovens criaram esse novo código porque, embora tenham
acesso à tecnologia (internet e celular), não dominam a norma culta da língua
escrita. Ele compara o fenômeno às gírias das periferias e afirma que isso gera
a exclusão dos jovens do mundo letrado.
02 – Como a
escritora Marisa Lajolo se posiciona em relação ao fenômeno e o que significa o
"surto de poliglotas" mencionado por ela?
Marisa Lajolo se
posiciona contra as teses alarmistas e não vê gravidade na invenção dos
adolescentes. Ao falar em um "surto de poliglotas", ela se refere à
capacidade dos jovens de alternar sua forma de se expressar: eles conseguem
usar o "internetês" entre si, mas sabem se comunicar de maneira
diferente com pais, professores e outros interlocutores, demonstrando
criatividade e fortalecimento de sua identidade.
03 – Qual é o
conselho dado pelo professor Sérgio Nogueira aos educadores e onde ele enxerga
o verdadeiro problema a ser combatido?
Sérgio Nogueira
aconselha os professores a não se assustarem e procurarem conhecer a nova linguagem,
classificando o "internetês" como um "fenômeno natural".
Para ele, o foco principal e o maior problema a ser atacado pelos professores
não é a existência do dialeto da internet, mas sim garantir que os alunos
dominem a linguagem padrão (a norma culta).
04 – Como o texto
descreve a postura dos "entusiastas febris" (os defensores
exagerados) do internetês?
O texto aponta
que, no extremo oposto dos críticos, existem entusiastas que afirmam que o
"internetês" veio para revolucionar a língua portuguesa. O exagero
chega ao ponto de pessoas oferecerem um “curso de língua de internetês”,
incluindo um “dicionário” com a tradução das principais expressões desse
dialeto virtual.
05 – Qual é a
conclusão da autora, Karla Hansen, sobre o futuro do debate e a relevância a
longo prazo do "internetês"?
A autora conclui
que, devido ao vocabulário reduzido de que o "internetês" dispõe, é
muito provável que tanto o debate caloroso quanto a própria vida útil desse
novo dialeto não sejam capazes de ir muito longe. Além disso, ela elogia os
professores que usam o fenômeno em sala de aula de forma equilibrada, sem
demonizá-lo nem glorificá-lo, apenas mostrando sua dimensão real.
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