Conto: A filha dele
Urda Alice Klueger
O
ano, já não sei. Foi no ano em que foi fundado o Jornal Brasil de Fato, e o
lançamento do mesmo aconteceu no Auditório Araújo Viana, lá em Porto Alegre,
durante o Fórum Social Mundial, e o mesmo estava totalmente lotado, três ou
quatro mil pessoas ocupando cada espacinho possível, e o palco iluminado lá na
frente, com uma longa mesa repleta de celebridades que, cada uma por sua vez,
levantou-se e, de pé, diante de um microfone suspenso, falou da importância
daquele jornal estar nascendo e da importância de tantas coisas neste mundo que
todos nós acreditávamos que poderia ser melhor. Íamos de emoção em emoção,
aplaudindo cada celebridade daquelas, sem estarmos, de fato, preparados, para o
que viria abalar com a maior força de todas os nossos corações – e já não
lembro quem tudo ali levantou e falou, mas lá estavam Sebastião Salgado, e
Eduardo Galeano, e a Madre Hebe de Bonafini, vinda diretamente da sua Plaza de
Mayo com a carga dos seus filhos mortos pela ditadura argentina, e todos tinham
sua história de lutas e de resistência, e todos da longa mesa falaram o que
iriam falar ... até que, lá na mesa, restaram apenas duas pessoas, uma mulher e
um homem.
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhi6q-zet2J5a9qXxxkUUlkc0GhDhPHNeP69ER9uHAPrZj6dbuTfT_x_dxmIMbqaMf-G7D_UO7GP9vLrqtQA6yJCH25zJ_yjYuz7inxVuikkN7ynaS2YBP0_-pgSykuEo3vWSrnSWFJUCrqoIGVIq6rfMHv1EZ7d5XB9-qNyi2BJSbKyJ-RpP6rDnrOfzA/s320/images%20(1).jpg Até
hoje não sei quem era aquele homem, pois ele foi o último a falar, e quando o
fez, a emoção apaixonada que tomara conta de todas aquelas milhares de pessoas
um pouco antes fez com que nenhum de nós prestasse atenção a ele – e não há que
se dizer que havia ali tantos milhares de mal-educados, por terem feito tal
coisa com aquele homem que ficara para o final, mas já conto o que aconteceu, e
penso que não haverá quem não nos absolverá.
A
penúltima pessoa a falar, portanto, era uma mulher. Teria cerca de 40 anos, era
clara, um pouco loira, muito bonita, com um jeito de doçura e amplidão que a gente
costuma imaginar nas mães, um pouco cheinha dentro de um simples vestido
florido que lhe dava um jeito de primavera, e como eu, penso que quase a
totalidade daquele grande público não fazia ideia de quem ela poderia ser. No
seu jeito bonito e seguro, suave e doce, ela caminhou até o microfone suspenso,
e com grande simplicidade, falou para todos nós:
--
A última vez em que eu vi o meu pai, eu tinha cinco anos...”
Enquanto
ela tomava fôlego para continuar a sua fala, um silêncio de pedra caiu no
grande auditório, e penso que, como eu, cada um de nós fazia uma rápida
conferência das suas memórias, olhando incredulamente para aquela linda mulher
e comparando a sua imagem com outras imagens conhecidas, fotos famosas em todo
o mundo, de um homem tão lindo por fora quanto por dentro, imortalizado pelas
lentes de Alberto Korda e de outros, e penso que, como aconteceu em mim, ao
mesmo tempo aconteceu com todo o mundo, e houve aquele instante em que “caiu a
ficha”, e antes que a mulher pudesse continuar a sua fala, o silêncio de pedra
espocou nos mais vibrantes aplausos que já ouvi em minha vida, como fogos de
artifício na beira do mar em noites de Ano Novo, e aquele imenso público foi
tomado por tal intensidade de amor por aquela mulher que ficara ali sentada um
tempão, incógnita e bonita no seu vestido simples e florido, que já nada mais
se ouviu do que ela tentou falar.
Diante
de nós, em carne e osso, estava Aleida Guevara, a filha do Che, e penso que
muita gente fez o que eu fiz: obedecendo ao coração, sem pensar em mais nada,
saí às cegas, descendo as altas arquibancadas em direção ao palco, disparando o
flash da minha pobre máquina fotográfica até o fim, tentando fixar de alguma
forma aquele momento para sempre.
Havia
um fosso de segurança, separando o palco das enormes arquibancadas, e com
centenas de outras pessoas, eu encalhei ali, e os guardas que eram encarregados
de manter a ordem naquele lugar sorriam-nos com simpatia e nos entendiam,
porque também eles estavam encantados e apaixonados, pois um dia houvera um
homem que nos dava o direito de sermos todos irmãos, e havia tal fraternidade
ali, por conta daquela mulher de vestido florido que nos trazia, muito próxima,
a presença do Che, que em nenhum outro momento da minha vida eu me lembro de
ter vivido coisa igual.
Foi
por conta de Aleida Guevara que não ficamos sabendo quem era o último homem que
falou, mas penso que não faz mal – ele deve ter entendido que há forças que são
maiores que todas as outras.
Então,
o evento acabou, e milhares de pessoas foram saindo dali, mas algumas centenas
ficaram, e os guardas não podiam nos liberar para irmos até ela, mas, irmãos
como agora éramos, entregávamos a eles nossas máquinas fotográficas para que a
fotografassem mais de perto para nós – e então fez ela sinal para que nós nos
aproximássemos, e os seguranças ajudaram a nos organizar em fila.
Aleida
Guevara, linda, serena e doce, aconchegante como uma mãe dentro do seu vestido
colorido, ficou ali naquele lugar até que o último de nós pudesse trocar uma
palavra com ela, pegar seu autógrafo, pousar para uma foto ao seu lado. Ela
tinha a compreensão das coisas incompreensíveis – ela nos entendia. Foi uma
noite para nunca mais esquecer. Tenho a foto daquele dia pendurada na parede da
sala da minha casa.
Vi-a,
de novo, dois ou três anos depois, em Caracas, no Fórum Social Mundial, e o
amor que ela suscitava era o mesmo. Hoje faz 40 anos que assassinaram o seu
pai. Não podia deixar de contar esta história.
Conto: A filha dele. Urda Alice Klueger.
Entendendo o conto:
01 – Em qual evento
e local histórico se passa a narrativa descrita pela autora?
A história se
passa em Porto Alegre, no Auditório Araújo Viana completamente lotado (com três
ou quatro mil pessoas), durante o Fórum Social Mundial. O momento exato era o
lançamento do jornal Brasil de Fato.
02 – Quem eram
algumas das celebridades internacionais que compunham a mesa antes da revelação
principal do conto?
A longa mesa do
palco contava com grandes nomes da luta e da resistência internacional, como o
fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, o escritor uruguaio Eduardo Galeano e a
ativista argentina Hebe de Bonafini (líder e fundadora da Associação das Mães
da Praça de Maio).
03 – Como o público
reagiu no exato momento em que a penúltima palestrante revelou sua identidade
indiretamente?
Logo após a
mulher dizer a frase: “A última vez em que eu vi o meu pai, eu tinha cinco
anos...”, um "silêncio de pedra" caiu no auditório enquanto o público
conectava aquela imagem às fotos históricas de Ernesto Che Guevara. Assim que a
"ficha caiu", o silêncio explodiu nos aplausos mais vibrantes que a
autora já ouviu na vida, tomados por uma imensa onda de amor coletivo.
04 – Por que a
autora afirma que o público "não foi mal-educado" com o último homem
que ficou para falar na mesa?
A autora
justifica e absolve o público porque a revelação de que a mulher era Aleida
Guevara, filha do revolucionário Che Guevara, gerou uma comoção apaixonada e um
alvoroço tão gigantescos que se tornou impossível prestar atenção em qualquer
outra coisa. A autora complementa dizendo que o próprio palestrante deve ter
entendido que "há forças que são maiores que todas as outras".
05 – Que atitude de
fraternidade os guardas de segurança e a própria Aleida Guevara demonstraram
após o encerramento do evento?
Os guardas
demonstraram total empatia e simpatia pelo público; eles chegaram a pegar as
máquinas fotográficas das pessoas para tirar fotos mais de perto e ajudaram a
organizar uma fila quando Aleida fez sinal para o povo se aproximar. Aleida,
por sua vez, demonstrou extrema doçura e paciência, permanecendo no local até
que a última pessoa pudesse pegar um autógrafo, conversar ou tirar uma foto ao
seu lado.
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