terça-feira, 7 de julho de 2026

CRÔNICA: EM MAUS LENÇÓIS - ANTÔNIO MACHETTI - COM GABARITO

 Crônica: EM MAUS LENÇÓIS


        Eu tinha apenas quatorze anos quando fugi de casa pela primeira vez. Não suportando a tensão que me aniquilava, efeito das perseguições e xingamentos incessantes, tratei de escapulir. Frequentava o ginásio, mas, entre os meus colegas, considerava-me perseguido e humilhado. No meu lar não tinha liberdade para nada, vivia confinado, aguentando ameaças e descomposturas; na escola sempre preterido, por este ou aquele pretexto, rejeitado até nas atividades esportivas de que tanto gostava. Sempre o pior trajado, o uniforme sovadíssimo, de um amarelo desbotado, horrível, e os sapatos estropiados, desmanchando-se. Era tempo de guerra, havia crise. Mas eu não compreendia isso: meus colegas vestiam-se bem. O pior mesmo eram as xingações, as invectivas.^

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhO1tdrq5uisjiaFq-2xviol2V0EtfqU31VQeCjZ-hCFRbXqnSmuT4WrOeNmUSJhnEZMHeI0gRfodxXjiv0nh1j0SDqXwMwo8srb3iVyLm5NXfRCwKFjbh3an0VZa7ZBDBnLMl_LjBpHMKgj0mZ7YrTrVKfak3bmUnuEGbY7pNJ-IL4dCvw379lETpUnN8/s320/maus-lencois.png


        Ela bradava com frequência:

        -- Você anda jogando buzo com os botões da calça! Não é capaz de andar arrumado, limpo, moleque sem-vergonha! O seu fim vai ser triste, bruaco!...

        Ele corroborava, mesmo à mesa das refeições:

        -- Você não merece o feijão que come, pedaço de asno, ignorante!... 

        Não aguentei. Meti algumas peças de roupa dentro da bolsa escolar e, ao invés de dirigir-me ao ginásio, emboquei num ônibus estacionado na rodoviária. Vazio, aguardava horário de partida e, também, os passageiros que dia a dia minguavam. Não me foi difícil, pois, passar despercebido. Encaracolado atrás do encosto do último assento, esperei ansiosa e nervosamente a partida: minha independência. Apesar de ter sido bem-sucedido naquela estratégia comum de fuga, não driblei por muito tempo o fracasso. Na madrugada imediata, enquanto eu dormia no banco de uma jardineira carunchenta, abandonada nas proximidades de um posto de gasolina, fui descoberto por um bate-pau e prontamente conduzido ao xadrez. Sem mais cerimônias, cortaram-se as asas e meteram-me na gaiola. Permaneci várias semanas ali esquecido, sem jamais ser interrogado, e sem ninguém dar-se pela presença de uma criança na cadeia pública. Tinha, aliás, por companheiro, um outro garoto, mais ou menos de minha idade, que já se achava preso há mais tempo. Também fora encontrado a sós e metido a ferros. Era necessário limpar as ruas da progressista comarca, dar segurança e tranquilidade aos seus moradores ordeiros e pacatos. Ao reclamar da situação, o carcereiro, bocejando de tédio, respondeu-me:

        -- Quando vier o novo delegado, ele resolve...

        -- E eu? Perguntou Giba.

        -- Está na mesma... Dependo do delegado que vier. Às vezes vem logo, às vezes não...

        Em tal expectativa passamos tempo considerável.


Antônio Machetti.

Entendendo a crônica:

01 – Quem é o narrador do texto?

      O narrador é um narrador-personagem (em primeira pessoa). Trata-se de um homem adulto que relembra um episódio doloroso de sua adolescência, quando tinha apenas quatorze anos.

02 – O que ele nos conta?

      Ele conta a história da primeira vez que fugiu de casa na adolescência para escapar dos maus-tratos de seus pais e das humilhações na escola, e como essa fuga acabou resultando em sua prisão injusta em uma cadeia pública.

03 – O que a personagem central fazia antes de abandonar o lar?

      Ele frequentava o ginásio (escola) e tentava participar de atividades esportivas, além de viver confinado em casa sob constantes ameaças e xingamentos.

04 – Por que resolveu fugir?

      Porque ele não suportava mais a tensão, as perseguições, as humilhações e os xingamentos incessantes que sofria tanto dentro do seu lar (onde não tinha liberdade) quanto na escola.

05 – Por que era perseguido e humilhado pelos colegas?

      O texto sugere que a rejeição acontecia pelo fato de ele ser o "pior trajado" de todos, vestindo um uniforme velho ("sovadíssimo"), de um amarelo desbotado e sapatos estropiados, que se desmanchavam devido à crise e à pobreza no tempo de guerra.

06 – O que aconteceu ao rapaz, quando fugiu de casa?

      Ele conseguiu pegar um ônibus na rodoviária e viajar, mas na madrugada seguinte, enquanto dormia no banco de uma jardineira (ônibus antigo) abandonada perto de um posto de gasolina, foi descoberto por um "bate-pau" (guarda/policial) e trancafiado na cadeia pública.

07 – Por que fracassou na sua tentativa de fuga?

      Ele fracassou porque foi capturado muito rápido, logo na primeira madrugada, pelas autoridades locais que queriam "limpar as ruas" dos garotos sem rumo.

08 – Sua situação se resolveu de imediato? Por quê?

      Não. Ele passou várias semanas esquecido na cela, sem nunca ser interrogado. O carcereiro informou que nada seria resolvido até que um novo delegado chegasse à comarca, algo que não tinha prazo para acontecer.

09 – O garoto voltou para casa? Se voltou tentou fugir novamente? Justifique sua resposta com um trecho do texto.

      O texto não mostra o desfecho da história nem o retorno dele para casa; a crônica termina de forma abrupta com os meninos ainda presos esperando o delegado. Porém, o primeiríssimo período do texto comprova que aquela foi apenas a primeira vez que ele fugiu, indicando que houve outras no futuro: "Eu tinha apenas quatorze anos quando fugi de casa pela primeira vez."

10 – Assinale, a fuga é consequência:

A - Do fato de ele ser mal compreendido e humilhado em casa?

B - De ele não ter liberdade?

C - De ele ser um menino rebelde?

11 – Quem é Giba?

      Giba é um outro garoto, de idade próxima à do narrador, que já estava preso na mesma cela há mais tempo, também recolhido das ruas pela polícia local.

12 – Onde o rapaz estava e o que fazia, quando foi trancafiado na cadeia?

      Ele estava nas proximidades de um posto de gasolina, dormindo no banco de uma jardineira (veículo de transporte antigo) carunchenta e abandonada.

13 – Retire do texto expressões que mostrem o tempo da narrativa.

      As expressões que indicam a época e a passagem do tempo são: "apenas quatorze anos", "Era tempo de guerra", "Vinte anos" (mencionados de forma figurada nos xingamentos), "Na madrugada imediata" e "várias semanas".

14 – “Você não merece o feijão que come, pedaço de asno, ignorante!...”. Quem dizia isso ao rapaz?

      Essa frase era dita pelo pai do garoto (indicado no texto pelo pronome "Ele", que corroborava com os xingamentos da mãe à mesa de refeições).

15 – Em qual parágrafo é feita a descrição da personagem principal? Retire um trecho que comprove sua resposta.

      A descrição física e social da personagem é feita no primeiro parágrafo.

      Trecho que comprova: "...Sempre o pior trajado, o uniforme sovadíssimo, de um amarelo desbotado, horrível, e os sapatos estropiados, desmanchando-se."

 

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