Crônica: EM MAUS LENÇÓIS
Eu tinha apenas quatorze anos
quando fugi de casa pela primeira vez. Não suportando a tensão que me
aniquilava, efeito das perseguições e xingamentos incessantes, tratei de
escapulir. Frequentava o ginásio, mas, entre os meus colegas, considerava-me
perseguido e humilhado. No meu lar não tinha liberdade para nada, vivia
confinado, aguentando ameaças e descomposturas; na escola sempre preterido, por
este ou aquele pretexto, rejeitado até nas atividades esportivas de que tanto
gostava. Sempre o pior trajado, o uniforme sovadíssimo, de um amarelo
desbotado, horrível, e os sapatos estropiados, desmanchando-se. Era tempo de
guerra, havia crise. Mas eu não compreendia isso: meus colegas vestiam-se bem.
O pior mesmo eram as xingações, as invectivas.^
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhO1tdrq5uisjiaFq-2xviol2V0EtfqU31VQeCjZ-hCFRbXqnSmuT4WrOeNmUSJhnEZMHeI0gRfodxXjiv0nh1j0SDqXwMwo8srb3iVyLm5NXfRCwKFjbh3an0VZa7ZBDBnLMl_LjBpHMKgj0mZ7YrTrVKfak3bmUnuEGbY7pNJ-IL4dCvw379lETpUnN8/s320/maus-lencois.png Ela
bradava com frequência:
-- Você anda jogando buzo com os botões da calça! Não é capaz de andar
arrumado, limpo, moleque sem-vergonha! O seu fim vai ser triste, bruaco!...
Ele
corroborava, mesmo à mesa das refeições:
-- Você não merece o feijão que come, pedaço de asno,
ignorante!...
Não
aguentei. Meti algumas peças de roupa dentro da bolsa escolar e, ao invés de
dirigir-me ao ginásio, emboquei num ônibus estacionado na rodoviária. Vazio,
aguardava horário de partida e, também, os passageiros que dia a dia minguavam.
Não me foi difícil, pois, passar despercebido. Encaracolado atrás do encosto do
último assento, esperei ansiosa e nervosamente a partida: minha independência.
Apesar de ter sido bem-sucedido naquela estratégia comum de fuga, não driblei
por muito tempo o fracasso. Na madrugada imediata, enquanto eu dormia no banco
de uma jardineira carunchenta, abandonada nas proximidades de um posto de
gasolina, fui descoberto por um bate-pau e prontamente conduzido ao xadrez. Sem
mais cerimônias, cortaram-se as asas e meteram-me na gaiola. Permaneci várias
semanas ali esquecido, sem jamais ser interrogado, e sem ninguém dar-se pela
presença de uma criança na cadeia pública. Tinha, aliás, por companheiro, um
outro garoto, mais ou menos de minha idade, que já se achava preso há mais
tempo. Também fora encontrado a sós e metido a ferros. Era necessário limpar as
ruas da progressista comarca, dar segurança e tranquilidade aos seus moradores
ordeiros e pacatos. Ao reclamar da situação, o carcereiro, bocejando de tédio,
respondeu-me:
-- Quando vier o novo delegado, ele resolve...
-- E eu? Perguntou Giba.
-- Está na mesma... Dependo do delegado que vier. Às vezes vem logo, às
vezes não...
Em
tal expectativa passamos tempo considerável.
Antônio Machetti.
Entendendo a crônica:
01 – Quem é o narrador do texto?
O narrador é um narrador-personagem (em primeira pessoa).
Trata-se de um homem adulto que relembra um episódio doloroso de sua
adolescência, quando tinha apenas quatorze anos.
02 – O que ele nos conta?
Ele conta a história da primeira vez que fugiu de casa na
adolescência para escapar dos maus-tratos de seus pais e das humilhações na
escola, e como essa fuga acabou resultando em sua prisão injusta em uma cadeia
pública.
03 – O que a personagem central fazia antes de
abandonar o lar?
Ele frequentava o ginásio (escola) e tentava participar de
atividades esportivas, além de viver confinado em casa sob constantes ameaças e
xingamentos.
04 – Por que resolveu fugir?
Porque ele não suportava mais a tensão, as perseguições, as
humilhações e os xingamentos incessantes que sofria tanto dentro do seu lar
(onde não tinha liberdade) quanto na escola.
05 – Por que era perseguido e humilhado pelos
colegas?
O texto sugere que a rejeição acontecia pelo fato de ele ser
o "pior trajado" de todos, vestindo um uniforme velho
("sovadíssimo"), de um amarelo desbotado e sapatos estropiados, que
se desmanchavam devido à crise e à pobreza no tempo de guerra.
06 – O que aconteceu ao rapaz, quando fugiu de
casa?
Ele conseguiu pegar um ônibus na rodoviária e viajar, mas na
madrugada seguinte, enquanto dormia no banco de uma jardineira (ônibus antigo)
abandonada perto de um posto de gasolina, foi descoberto por um
"bate-pau" (guarda/policial) e trancafiado na cadeia pública.
07 – Por que fracassou na sua tentativa de
fuga?
Ele fracassou porque foi capturado muito rápido, logo na
primeira madrugada, pelas autoridades locais que queriam "limpar as
ruas" dos garotos sem rumo.
08 – Sua situação se resolveu de imediato? Por
quê?
Não. Ele passou várias semanas esquecido na cela, sem nunca
ser interrogado. O carcereiro informou que nada seria resolvido até que um novo
delegado chegasse à comarca, algo que não tinha prazo para acontecer.
09 – O garoto voltou para casa? Se voltou
tentou fugir novamente? Justifique sua resposta com um trecho do texto.
O texto não mostra o desfecho da história nem o retorno dele
para casa; a crônica termina de forma abrupta com os meninos ainda presos
esperando o delegado. Porém, o primeiríssimo período do texto comprova que
aquela foi apenas a primeira vez que ele fugiu, indicando que houve outras no
futuro: "Eu tinha apenas quatorze anos quando fugi de casa pela primeira
vez."
10 – Assinale, a fuga é consequência:
A - Do fato de ele ser mal
compreendido e humilhado em casa?
B - De ele não ter liberdade?
C - De ele ser um menino rebelde?
11 – Quem é Giba?
Giba é um outro garoto, de idade próxima à do narrador, que
já estava preso na mesma cela há mais tempo, também recolhido das ruas pela
polícia local.
12 – Onde o rapaz estava e o que fazia, quando
foi trancafiado na cadeia?
Ele estava nas proximidades de um posto de gasolina, dormindo
no banco de uma jardineira (veículo de transporte antigo) carunchenta e
abandonada.
13 – Retire do texto expressões que mostrem o
tempo da narrativa.
As expressões que indicam a época e a passagem do tempo são:
"apenas quatorze anos", "Era tempo de guerra", "Vinte
anos" (mencionados de forma figurada nos xingamentos), "Na madrugada
imediata" e "várias semanas".
14 – “Você não merece o feijão que come,
pedaço de asno, ignorante!...”. Quem dizia isso ao rapaz?
Essa frase era dita pelo pai do garoto (indicado no texto
pelo pronome "Ele", que corroborava com os xingamentos da mãe à mesa
de refeições).
15 – Em qual parágrafo é feita a descrição da
personagem principal? Retire um trecho que comprove sua resposta.
A descrição física e social da personagem é feita no primeiro
parágrafo.
Trecho que comprova: "...Sempre o pior trajado, o uniforme
sovadíssimo, de um amarelo desbotado, horrível, e os sapatos estropiados,
desmanchando-se."
Nenhum comentário:
Postar um comentário