Crônica: Pamonha, pamonha, pamonha
Sérgio Tannenbaum
“Pamonha,
pamonha, pamonha. Pamonha de Piracicaba. Pamonha, milho verde e curau.”
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjqFAvFUOcqkbnZQ1sexb1m4D-Ae2vC8TY_vNP-E5aKwgVaoM892Ppo-3cc8jVHRh2fXiFIyPYF3JjRFU7XtMpm7A1gP8O1wr_hCeAKJrXVAWBhDrmJtYZB3OpgDm2bU01GQSV-nbPxt2QA-ys18vWQO76Ow3QugPTvrdygThsU5NqxL-yIjapYmUy8cxw/s1600/paminha.jpg Uma
frase já era suficiente para acordar qualquer um. Mesmo aqueles de sono mais
pesado eram religiosamente despertados pelo homem da pamonha, todos os
domingos. E enquanto houvesse um único morador no prédio ou em toda vizinhança
dormindo, lá vinha o alto-falante:
“Pamonha,
pamonha, pamonha. Pamonha de Piracicaba. Pamonha, milho verde e curau.”
Nas
primeiras semanas, apesar do incômodo, nada fizemos. Era só uma questão de
tempo. Logo o Pamonha, como ficou conhecido o sujeito, iria arrumar outros
clientes nas redondezas e nos deixaria em paz. Mas passados dois meses, o
inferno continuava. Por isso, resolvemos convocar uma reunião dos moradores.
A assembleia foi marcada para o
domingo, às nove da manhã. Tínhamos certeza de que todos estariam acordados e,
principalmente, revoltados com o Pamonha. Foi o maior quorum em assembleias de
toda a história do condomínio.
Foram
necessários menos de quinze minutos para a deliberação final.
Definiram-se
três etapas para se alcançar o objetivo. A primeira consistia em dialogar com o
Pamonha e tentar convencê-lo a ir embora. A segunda etapa seria subornar o
Pamonha para que ele sumisse do mapa. Se isso também não funcionasse, a última etapa,
a mais radical, deveria entrar em ação. Uma criança, escolhida por sorteio no
condomínio, iria se vestir com um colete de dinamite e ser explodida exatamente
no momento em que fosse comprar uma pamonha.
A
terceira etapa nem precisou ser acionada. O Pamonha fez um acordo: não mais
usaria o alto-falante se tivesse garantida a compra de vinte pamonhas por
domingo. Era um preço baixo que tínhamos que pagar. Dividíamos as despesas
entre os moradores. Cada semana, cinco apartamentos recebiam as pamonhas.
Muitos abriram mão da pamonha e apenas pagavam a sua parte.
Com
o passar do tempo, as pessoas foram enjoando das pamonhas. Ninguém mais aguentava
o cheiro de milho verde. Em nova assembleia, novamente por unanimidade, ficou estabelecido
que o Pamonha nem precisaria mais entregar as pamonhas. E mais: se ele
insistisse em entregar as pamonhas, a etapa três seria ativada. Mas, para o
Pamonha não sair no lucro, combinamos que ele deveria entregar as pamonhas
gratuitamente numa favela próxima.
O
valor rateado para pagar o Pamonha já estava embutido no total do condomínio do
mês, o que fez com que muitos moradores esquecessem definitivamente o assunto.
Os novos moradores surpreendiam-se ao ver na prestação de contas do condomínio
um item denominado “taxa do Pamonha”. Diante do valor pouco expressivo,
contentavam-se com qualquer explicação do síndico.
O
Pamonha, por sua vez, cumpriu sua parte no acordo. Toda semana aparecia na
favela pra distribuir as pamonhas gratuitas. Assim, foi-se tornando muito
popular e querido na região. No domingo, as crianças esperavam ansiosas a
chegada da perua. Para muitas, o curau, o milho verde ou as pamonhas entregues
de graça eram a única refeição em muitos dias.
O
Pamonha já não era só o Pamonha. Passou a ser chamado de o “Pamonha, o amigo
dos pobres”. E mesmo sem nos consultar, ele resolveu entregar as pamonhas
gratuitas em outras favelas mais distantes. Em dois anos, “Pamonha, o amigo dos
pobres” já era conhecido em todas as favelas da região. Seus fãs queriam ver o
seu trabalho comunitário e filantrópico patrocinado pelo governo, já que “o
coitado pagava tudo do bolso”. Queriam-no como vereador.
As
comunidades que o Pamonha visitava aos domingos resolveram se unir para eleger
o seu candidato. Fizeram bazares, jogos de futebol e venderam artesanato com o
objetivo de arrecadar fundos. Consultores de marketing político foram
contratados. A candidatura do Pamonha se tornou realidade.
Agora,
três vezes por dia, todos os dias da semana (inclusive domingo), passa um trio
elétrico na porta do prédio, anunciando:
“Pamonha,
Pamonha, Pamonha. Pra vereador, vote no Pamonha, o amigo dos pobres.”
Entendendo a crônica:
01 – Por que os moradores resolveram fazer uma
reunião?
Porque não aguentavam mais ser acordados pelo carro da
pamonha.
02 – A reunião foi marcada para domingo às 9
horas. Por quê?
Porque todos estariam acordados por causa do carro da pamonha
e estariam irritados com isso.
03 – Os moradores chegaram rapidamente a um
acordo sobre o que seria feito. Quais eram as três etapas que eles seguiriam
para acabar com o problema?
1ª – dialogar com o Pamonha; 2ª – suborna-lo; 3ª – sortear
uma criança do condomínio para usar um colete de dinamites e explodir na hora
de comprar a pamonha.
04 – “A terceira etapa nem precisou ser
acionada. O Pamonha fez um acordo.” Qual foi o acordo feito?
Eles pagariam um valor fixo de 20 pamonhas e ele não
passaria.
05 – Por que o Pamonha ficou conhecido como “Pamonha,
o amigo dos pobres”?
Porque dava as pamonhas pagas para pobres em favelas.
06 – As pessoas queriam o Pamonha como
vereador. O que elas fizeram para que isso se tornasse real?
Bazares, jogos de futebol, artesanatos etc.
07 – Qual foi a consequência da candidatura do
Pamonha para os moradores do prédio?
Agora passa todos os dias, 3x por dia, um trio elétrico
anunciando a candidatura dele.
08 – Qual desses ditados populares funciona
como moral da história?
a) Quem ri por último, ri melhor.
b) Nada é tão ruim que não possa
piorar.
c) O pior cego é aquele que não quer ver.
d) Um dia da caça, outro do caçador.
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