terça-feira, 23 de junho de 2026

CONTO: A DAMA DO CACHORRINHO - ANTON TCHEKHOV - COM GABARITO

 CONTO: A DAMA DO CACHORRINHO

             Anton Tchekhov


        Dizia-se que havia aparecido à beira-mar uma nova personagem: uma senhora com cachorrinho. Dmítri Dmítritch Gurov, que já passara em falta duas semanas e habituara-se àquela vida, começou a interessar-se também por caras novas. Sentado no pavilhão de Verne, viu passar à beira-mar uma jovem senhora, de mediana estatura, loura, de boina. Corria atrás dela um lulu branco.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiJbUdbx2Vg7g_PmGoQJtTMi__AVmrDXFVdKcSweew2bDx3sjohcoN4b-r4xBtQi32mU0bgyG-3he0FA8YoetK37UUQaIB7ygOuEwlZfOXl0gKh4F-FV2Q-CABameoiguk6Hm-HhwlV41-2lJ4CEo7B2daWNHi8cDH81EIpNwdtqRGa8zq0vG5Z-R6nDRw/s320/71PMdV01dcL._AC_UL600_SR600,600_.jpg


        Mais tarde, encontrou-a diversas vezes ao dia, no parque e nos jardinzinhos públicos. Passeava sozinha, sempre com a mesma boina e acompanhada do lulu branco. Ninguém sabia quem era e chamavam-na simplesmente: a dama do cachorrinho.

        "Se está aqui, sem marido e sem conhecidos", calculou Gurov, "não seria mal travar relações com ela".

        Embora com menos de quarenta anos, ele tinha já uma filha de doze e dois filhos no ginásio. Haviam-no casado cedo, quando cursava ainda o segundo ano da universidade, e agora sua mulher parecia vez e meia mais velha que ele. Era uma mulher alta, de sobrancelhas escuras e porte rígido, importante, grave e "pensante", como ela mesma se chamava. Lia muito, escrevia carta simplificando a ortografia, chamava o marido de Dimítri em lugar de Dmítri, e ele, secretamente, considerava-a pouco inteligente, tacanha, deselegante, temia-a e não gostava de ficar em casa. Havia muito que passara a traí-la, fazia-o com frequência e, provavelmente por este motivo, referia-se quase sempre mal às mulheres; quando, em sua presença, falavam nelas, exclamava:

        -- Raça inferior!

        Parecia-lhe que fora suficientemente instruído por sua amarga experiência, para chamá-las como lhe aprouvesse, mas, apesar de tudo, não poderia passar dois dias sem a "raça inferior". Aborrecia-se em companhia de homens e mostrava-se frio, pouco loquaz, mas, encontrando-se no meio de mulheres, sentia-se despreocupado e sabia do que falar e como se portar; era-lhe, mesmo, fácil calar-se em companhia delas. Em seu aspecto exterior, em seu gênio, em toda a sua personalidade, havia algo atraente, imperceptível, que predispunha as mulheres a seu favor, que as atraía; ele sabia disso e, por sua vez, sentia-se impelido para elas.

        Uma experiência variada, realmente amarga, ensinara-lhe, havia muito, que toda aproximação, a qual constitui a princípio uma variação tão agradável na vida e apresenta-se como uma aventura ligeira e aprazível, converte-se invariavelmente, em se tratando de pessoas corretas, especialmente moscovitas, indecisas e pouco dinâmicas, num verdadeiro, problema, extraordinariamente complexo, e a situação, por fim, torna-se verdadeiramente difícil. Mas, a cada novo encontro com uma mulher interessante, essa experiência escapava-lhe da memória, vinha-lhe uma vontade de viver, e tudo parecia simples e divertido.

        Eis que certa vez, à noitinha, estava jantando no jardim, e a senhora de boina aproximou-se, em passo lento, para ocupar a mesa vizinha. A expressão de seu rosto, o andar, a roupa, o tipo de penteado, diziam-lhe que ela era de boa sociedade, casada, estava em falta pela primeira vez, sozinha, e que se aborrecia.

        Havia muita mentira nas histórias que corriam sobre a depravação dos costumes locais, ele desprezava aquelas histórias e sabia que, geralmente, eram inventadas por gente que gostaria de pecar se soubesse fazê-lo, mas, quando a senhora sentou-se à mesa que ficava a três passos da sua, ele se lembrou daquelas histórias sobre fáceis conquistas e passeios na montanha, e tomou dele a ideia tentadora de uma ligação fulminante, de um romance com uma mulher desconhecida, da qual não se conhece o nome, nem o sobrenome.

        Chamou carinhosamente o lulu e, quando este se aproximou, ameaçou-o com o dedo. O lulu rosnou. Gurov tornou a ameaçá-lo.

        A senhora olhou para ele e baixou os olhos.

        -- Não morde – disse ela e corou.

        -- Posso dar-lhe um osso? – e, quando ela assentiu com a cabeça, ele perguntou afavelmente: – A senhora chegou a falta há muito tempo?

        -- Há uns cinco dias.

        -- E eu já estou completando aqui a segunda semana.

        Seguiu-se um silêncio.

        -- O tempo passa depressa e, no entanto, a gente se aborrece tanto aqui! – disse ela, sem olhar o interlocutor.

        -- É apenas uma convenção dizer que aqui é aborrecido. Um habitante de Biélev ou de Jizdra vive em sua terra e não se aborrece, mas, chegando aqui, repete: "Ah; que cacete! Ah, que poeira!". Pode-se pensar que chegou de Granada.

        Ela riu. Continuaram a comer em silêncio, como desconhecidos.

Depois do jantar, porém, caminharam lado a lado e iniciou-se, entre eles, uma conversa ligeira, brincalhona, de gente livre, satisfeita consigo, e à qual fosse indiferente aonde ir e do que falar, ficaram passeando e conversaram sobre o modo estranho, pelo qual estava iluminado o mar: a água tinha uma cor lilás, macia e tépida, e sobre ela a lua deitava uma faixa dourada. Falavam em como o ar ficava sufocante, após um dia de calor. Gurov contou que era moscovita, formado em Filologia, mas que trabalhava num banco; noutros tempos, preparara-se para cantar num teatro particular de ópera, mas desistira; possuía em Moscou duas casas... Por sua vez, soube dela que fora criada em Petersburgo, mas casara-se na cidade de S., onde residia havia dois anos, que passaria ainda em falta cerca de um mês e que era provável vir buscá-Ia o marido, que também queria descansar. Não sabia explicar direito em que repartição, ele trabalhava, e ela mesma achava engraçado esse fato. Gurov soube, ainda, que ela se chamava Ana Sierguéievna.

        Voltando para o quarto, pensou nela e em que, no dia seguinte; certamente haveria de encontrá-Ia. Deitando-se para dormir, lembrou-se de que, ainda há tão pouco tempo, ela estivera no colégio, estudara como agora a filha dele, lembrou-se também de quanta irresolução e angulosidade havia ainda em seu riso, em seu modo de falar com um desconhecido; provavelmente era a primeira vez que se encontrava sozinha, em tais circunstâncias, seguida e contemplada, e que alguém lhe dirigia a palavra, com um objetivo secreto que ela não podia deixar de adivinhar. Lembrou-se também de seu pescoço esguio, frágil, de seus bonitos olhos cinzentos.

        "Apesar de tudo, há nela qualquer coisa que inspira pena", pensou, adormecendo.

        Fazia uma semana que a conhecia. Era dia feriado. Dentro de casa, o ar estava sufocante e, na rua, o vento arrastava a poeira em turbilhão e arrancava os chapéus. Dava sede o dia inteiro, e Gurov entrava com frequência no pavilhão, oferecendo a Ana Sierguéievna ora água com xarope, ora sorvete. Ficava-se sem 'saber onde se meter.

        Ao anoitecer, depois que o tempo amainou um pouco, foram até o quebra-mar, para assistir à chegada de um navio. Havia muita gente passeando no cais; reunira-se um grupo, com flores, para esperar alguém. Distinguiam-se nitidamente duas particularidades da bem vestida gente de falta: as senhoras de idade trajavam-se como jovens e havia muitos generais.

        Em virtude do mar agitado, o navio chegou tarde, quando o sol já se havia posto, e, antes de encostar ao cais, ficou, por muito tempo, fazendo manobra. Ana Sierguéievna olhava por um lorgnon para o navio e para os passageiros, como se estivesse à procura de gente conhecida, e seus olhos fulguravam quando se dirigia a Gurov. Falava muito, fazia perguntas entrecortadas, e ela própria esquecia imediatamente o que havia perguntado. Acabou perdendo o lorgnon.

        A multidão bem vestida estava se dissolvendo, não se distinguiam mais os rostos, o vento amainara de todo, mas Gurov e Ana Sierguéievna permaneciam parados, como se esperassem a descida de mais alguém do navio. Ela estava já silenciosa, cheirando flores, sem olhar para Gurov.

        -- O tempo melhorou – disse ele – Aonde iremos agora? Vamos tomar um carro?

        Ela não respondeu.

        Ele a olhou então fixamente e, de súbito, abraçou-a e beijou-lhe os lábios; foi envolvido pelo perfume e pela umidade das flores e, no mesmo instante, espiou assustado em redor, para certificar-se de que ninguém os vira.

        -- Vamos a sua casa... – disse em voz baixa.

        E caminharam depressa.

        O ambiente do quarto dela era sufocante e cheirava a perfumes, que havia comprado numa loja japonesa. 

        Olhando-a agora, Gurov pensou: "Quantos encontros diferentes acontecem na vida!". O passado deixara-lhe a lembrança de mulheres despreocupadas, benevolentes, alegres de amor, e que lhe eram agradecidas pela felicidade, embora muito breve, que lhes proporcionava; de outras, como, por exemplo, sua mulher, que amavam sem sinceridade, com palavras supérfluas, afetadamente, com histeria, com uma expressão que parecia significar não ser aquilo amor, nem paixão, mas algo mais significativo; e ainda de outras duas ou três, muito bonitas, frias, em cujo rosto aparecia, de repente, uma expressão rapace, um desejo insistente de tirar, arrancar da vida mais do que esta pode dar, e eram mulheres que não estavam mais na primeira juventude, birrentas, voluntariosas, pouco inteligentes; quando Gurov tornava-se indiferente a elas, sua beleza passava a despertar nele ódio e julgava ver escamas no rendado de suas roupas brancas.

        Mas ali persistia a falta de coragem, uma angulosidade de juventude inexperiente, um sentimento de timidez; e havia ainda uma sensação de perturbação, como se alguém tivesse, de repente, batido na porta.

        Ana Sierguéievna, esta dama do cachorrinho, encarou o que sucedera de um modo particular, muito seriamente, como se fosse a sua perdição; assim parecia, e era estranho e fora de propósito. Murcharam-lhe os traços e os cabelos compridos penderam-lhe tristemente dos lados do rosto; ficou pensativa, em atitude desolada,

como a pecadora de um quadro antigo.

        -- Isto não está bem – disse ela. –  Você, agora, é o primeiro a não me estimar.

        No quarto, havia uma melancia sobre a mesa. Gurov cortou um pedaço e começou a comê-lo, sem se apressar.

        Decorreu pelo menos meia hora em silêncio. Ana Sierguéievna estava tocante, emanava dela a pureza de uma mulher correta, ingênua, que vivera pouco. A vela solitária, que ardia sobre a mesa, mal lhe iluminava o rosto, mas se via que estava sofrendo.

        -- Por que é que eu poderia deixar de estimá-la? – perguntou Gurov. – Você mesma não sabe o que diz.

        -- Que Deus me perdoe! – disse ela e seus olhos marejaram-se. – Isto é horrível.

        -- Você parece que está se justificando.

        -- Com que vou me justificar? Sou uma mulher má, ignóbil, desprezo-me e nem penso em me defender. Não enganei o marido, mas a mim mesma. E não foi somente agora, mas há muito que me engano. Meu marido talvez seja um homem bom, honesto, mas é um lacaio! Não sei direito o que faz na repartição e como cumpre as obrigações, mas sei somente que é um lacaio. Quando me casei com ele, tinha vinte anos, torturava-me a curiosidade, eu queria encontrar algo melhor. Dizia-me: "Existe, afinal, uma outra vida". Tinha vontade de viver! Viver e viver ainda... Abrasou-me a curiosidade...você não compreende isto, mas, juro por Deus, eu não me possuía mais, algo me sucedia, ninguém me poderia deter. Disse ao marido que estava doente e vim para cá... E, aqui, estava sempre andando como que atordoada, como uma louca... e eis que me tornei uma mulher infame, vulgar, e qualquer um pode me desprezar.

        Gurov já estava se aborrecendo de ouvir aquilo, irritava-o aquele tom ingênuo, aquele arrependimento tão inesperado e fora de propósito. Não fossem as lágrimas nos olhos e poder-se-ia pensar que ela estava brincando ou desempenhando um papel.

        -- Não compreendo – disse ele suavemente. – O que é que você quer?

        Ela escondeu o rosto em seu peito e apertou-se contra ele.

        -- Acredite, acredite em mim, eu lhe imploro... Amo uma vida honesta, pura, o pecado me repugna, eu mesma não sei o que faço. A gente do povo diz: o diabo tentou. E eu posso também dizer agora, a meu respeito, que o diabo me tentou.

        -- Basta, basta, – balbuciou ele.

        Olhava-a nos olhos imóveis, assustados, beijava-a, falava-lhe com ternura, e ela, aos poucos, acalmou-se e voltou-lhe a alegria. Puseram-se a rir.

        Depois, quando saíram, não havia viva alma à beira-mar. A cidade com seu ciprestes parecia completamente morta, mas o mar ainda fazia ruído e batia contra a margem. Uma barcaça balançava-se sobre as ondas e tremeluzia nela, sonolenta, uma pequena lanterna. Encontraram um carro de aluguel e foram a Oreanda.

        -- Ainda há pouco, soube no vestíbulo o teu sobrenome: na portaria está escrito "Von Dideritz" – disse Gurov. – Teu marido é alemão?

        -- Não, parece que tinha um avô alemão, mas ele próprio é ortodoxo.

        Em Oreanda, ficaram sentados num banco, perto da igreja, olhando em silêncio o mar. Falta mal se via através da névoa matinal, nuvens brancas permaneciam imóveis, junto aos cumes das montanhas. A folhagem não se movia sobre as árvores, gritavam cigarras, e o som monótono, abafado, do mar, que chegava de baixo, falava de descanso, do sono eterno que nos aguarda. Assim tumultuara lá embaixo, quando ainda não existiam falta, nem Oreanda; o mesmo ruído faz agora e fará, do mesmo modo indiferente e abafado, quando

não existirmos mais.

        E nessa permanência, nessa completa indiferença em relação à vida e à morte de cada um de nós, oculta-se talvez o fundamento de nossa eterna salvação, do incessante movimento de vida sobre a terra, da perfeição imorredoura.

        Sentado ao lado da jovem mulher, que, ao alvorecer, parecia tão bonita, acalmado e embevecido face ao ambiente encantado, face ao mar, às montanhas, às nuvens, ao amplo céu, Gurov pensava em como, na realidade, se se refletir direito sobre isto, tudo é belo neste mundo, tudo, com exceção do que nós mesmos pensamos e fazemos, quando nos esquecemos dos objetivos elevados da existência e de nossa própria dignidade humana.

        Acercou-se deles um homem, provavelmente um guarda, olhou-os e se afastou. E este pormenor pareceu igualmente misterioso e belo. Viu-se chegar de Feodóssia um navio, iluminado pela aurora e já de luzes apagadas.

        -- A erva está coberta de orvalho – disse Ana Sierguéievna – depois de um silêncio.

        -- Sim. É tempo de ir para casa.

        Regressaram à cidade. Depois, encontravam-se sempre ao meio-dia, à beira-mar, almoçavam juntos, jantavam, passeavam, encantavam-se com o mar. Ela queixava-se de insônia e de que o coração lhe batia de modo alarmante, fazia-lhe sempre as mesmas perguntas, perturbada ora pelo ciúme, ora pelo temor de que ele não a estimasse o suficiente. E muitas vezes, no parque ou em algum jardinzinho público, quando não havia ninguém nas proximidades, ele a atraía de repente para si e beijava-a apaixonado.

        Àquele ócio, completo, aqueles beijos em pleno dia, repassados do temor de serem surpreendidos, o calor, a maresia e o perpassar incessante de gente ociosa, bem vestida e nutrida, pareceram havê-la transformado completamente.

        Dizia a Ana Sierguéievna como ela era bonita e tentadora, demonstrava uma impaciência apaixonada, não a deixava por um momento. Ela ficava frequentemente pensativa, pedindo-lhe sempre para confessar que não a estimava, não a amava um pouco sequer, e que via nela simplesmente uma mulher vulgar. Quase sempre, quando já estava adiantado o anoitecer, iam para fora da cidade, para Oreanda ou para a cachoeira. Os passeios eram sempre bem sucedidos, deixando invariavelmente impressões magníficas, grandiosas.

        Esperavam a vinda do marido. Mas chegou dele uma carta, em que informava estar com a vista dolorida e implorava à mulher que regressasse o quanto antes. Ana Sierguéievna apressou-se a voltar.

        -- É bom que eu parta – disse ela a Gurov. – É o próprio destino.

        Partiu de carro e ele a acompanhou. Viajaram um dia inteiro. No vagão do trem-correio, ao soar o segundo sinal, ela disse:

        -- Deixe que olhe para você mais uma vez... uma vez mais. Assim. Não chorava, mas estava triste, parecia doente, e. tremia-lhe

o rosto...

        -- Vou pensar em você... lembrar - disse ela. - Fique com Deus. Não guarde má lembrança de mim. É uma despedida para sempre, tem que ser assim, pois nem nos devíamos ter encontrado. Bem, vá com Deus...

        O trem partiu veloz, suas luzes desapareceram e, instantes depois, não se ouvia mais qualquer ruído, como se tudo se tivesse combinado propositalmente, para fazer cessar o quando antes aquele doce alheamento, aquela loucura.

        Sozinho na plataforma da estação, e olhando para a negra distância, Gurov ficou ouvindo o canto dos grilos e a zoada dos fios telegráficos, com a sensação de haver acordado somente naquele instante. Pensava que em sua vida ocorrera mais uma aventura, um episódio, que também terminara, deixando apenas uma recordação... Estava comovido, triste, e sentia um ligeiro arrependimento. Aquela mulher jovem, que não veria mais, não fora feliz com ele. Tinha sido com ela afável, afetuoso, mas, apesar de tudo, em seu modo de tratá-la, no tom de sua voz e nos carinhos que lhe fizera, transparecia a sombra de uma ligeira ironia, o sentimento algo rude de uma superioridade de homem feliz, que, além do mais, tinha quase o dobro de idade.

        Durante todo o tempo, ela o chamara de bondoso, extraordinário, superior. Certamente, Gurov aparecia-lhe como alguém diferente do que era na realidade; por conseguinte, enganava-a sem querer...

        Na estação, já cheirava a outono, a noite estava fresca. – "É tempo de partir também para o norte” pensou Gurov, saindo da plataforma. "É tempo!".

        Em casa, em Moscou, tudo já havia adquirido um aspecto hibernal. Acendiam-se as estufas e, de manhã, quando as crianças preparavam-se para ir ao ginásio e tomavam chá, estava tão escuro que a babá acendia, por algum tempo, as luzes. Começou o frio. 

        Quando cai a primeira neve, no primeiro dia de passeio de trenó, é aprazível ver a terra branca, os telhados brancos, respira-se suave e docemente e, nessa hora, lembram-se os anos de juventude. As velhas tílias e bétulas, alvas de geada, têm uma expressão benevolente, estão mais próximas do coração que os ciprestes e palmeiras, e, junto delas, não se quer mais pensar no mar e nas montanhas.

        Gurov era moscovita. Regressando a Moscou num dia bom, frio, vestindo a peliça e as luvas de inverno, passeando pela Pietrovka e ouvindo sábado à noite o som dos sinos, aquela viagem que fizera havia pouco e os lugares que vira perderam para ele todo encanto. Mergulhou pouco a pouco na vida moscovita, lia já, sequiosamente, três jornais por dia e afirmava não ler jornais moscovitas por uma questão de princípio. Sentia-se já atraído pelos restaurantes, pelos clubes, pelos jantares festivos, pelas homenagens a alguém, e já ficava lisonjeado pelo fato de ser visitado por advogados e artistas famosos e porque, no clube dos médicos, jogava baralho com um catedrático. Era já capaz de comer toda uma porção de sielianka com frituras...

        Passaria um mês, mais ou menos, e Ana Sierguéievna, tinha a impressão, cobrir-se-ia de bruma em sua memória, e somente de raro em raro aparecer-lhe-ia em sonho, com seu tocante sorriso, tal como outras apareciam. 

        No entanto, decorreu mais de um mês, chegaram os rigores do inverno, mas tudo permanecia nítido na memória, como se a separação com Ana Sierguéievna tivesse sido na véspera. E as recordações tornavam-se cada vez mais intensas. Quer lhe chegassem ao escritório, em meio à quietude do anoitecer, as vozes das crianças, que preparavam a lição, quer ouvisse um órgão ou uma canção no restaurante, quer ainda uivasse o vento na lareira, tudo ressuscitava, de repente, em sua memória: o que sucedera no quebra-mar, o amanhecer com aquela névoa sobre as montanhas, o navio chegando de Feodóssia, os beijos. 

        Passava muito tempo caminhando pelo quarto e recordando, sorria e, depois, as lembranças transformavam-se em sonhos e o passado misturava-se, em sua imaginação, ao que viria ainda. Não sonhava mais com Ana Sierguéievna, ela o acompanhava por toda parte, como uma sombra, e vigiava-o.

        Fechando os olhos, via-a e ela parecia mais bonita, mais jovem, mais terna do que fora realmente; e ele próprio aparecia melhor do que tinha sido naqueles dias em Ialta. Ao anoitecer, ela o espreitava de dentro do armário de livros, da lareira, do canto da sala, ele ouvia sua respiração, o frufru carinhoso de suas roupas. 

        Na rua, acompanhava mulheres com o olhar, procurando alguma que a ela se assemelhasse... Começara a oprimi-lo um desejo intenso de partilhar com alguém suas recordações. Mas, em casa, não se podia falar de seu amor e, fora, não havia com quem. Não ia fazê-lo com os moradores do prédio ou no banco em que trabalhava. Além disso, falar do quê? Amara ele então? Havia, porventura, algo belo, poético, edificante ou simplesmente interessante, em suas relações com Ana Sierguéievna? 

        Tornava-se necessário conversar, de modo indefinido, sobre amor, sobre mulheres, e ninguém adivinhava do que se tratava, e somente sua mulher movia as sobrancelhas escuras, dizendo:

        -- Não fica nada bem a você, Dimítri, o papel de fátuo.

        Certa vez, à noite, saindo do clube dos médicos, em companhia de um funcionário, seu parceiro no jogo, não se conteve e disse:

        -- Se soubesse que mulher encantadora eu conheci em Ialta!

        O funcionário sentou-se no trenó e partiu, mas, de repente, voltou-se e chamou-o:

        -- Dmítri Dmítritch!

        -- Que é?

        -- Você tinha razão: o esturjão não estava de todo fresco!

        Aquelas palavras, tão comuns, deixaram Gurov indignado, sem que soubesse por que, pareceram-lhe humilhantes, impuras. Que selvagens costumes, que rostos! Que noites estultas, que dias desinteressantes, anódinos! O jogo desenfreado, a gula, a bebedeira, as imutáveis conversas sobre o mesmo assunto. As ocupações desnecessárias e as conversas invariáveis ocupavam a melhor parte do tempo, as melhores energias e, por fim, sobrava apenas uma vida absurda, sem asas, uma mixórdia qualquer, da qual não se podia fugir, como se se estivesse num manicômio ou numa prisão!

        Ficou a noite toda sem dormir, indignando-se, e passou o dia seguinte com dor de cabeça. Nas noites que se seguiram, dormiu mal também, ficava sentado na cama, pensando, ou andava de um canto a outro do quarto. Aborrecia-se com as crianças, com o banco, não tinha vontade de ir a lugar algum, de falar em coisa alguma.

        Nos feriados de dezembro, preparou-se para viajar. Disse à mulher que ia a Petersburgo, a fim de pedir certos favores de pessoas influentes, para um jovem, mas viajou para S. Para quê? Ele mesmo não sabia ao certo. Tinha vontade de ver Ana Sierguéievna, falar com ela, ajeitar uma entrevista, se possível.

        Chegou a S. de manhã e alugou o melhor quarto do hotel; o assoalho estava ali inteiramente forrado com pano cinzento, de uniforme militar; sobre a mesa, havia um tinteiro, pardo de poeira, ornado de um cavaleiro que perdera a cabeça e mantinha levantado um braço com chapéu. O porteiro deu-lhe as necessárias informações: Von Dideritz morava na rua Staro-Gontchárnaia, em casa própria; era perto do hotel, ele vivia com fartura, possuía cavalos, todos o conheciam na cidade. O porteiro pronunciava: "Dridiritz".

        Gurov caminhou, sem se apressar, para a Staro-Gontchárnaia e procurou a casa. Bem em frente, estendia-se um muro cinzento, comprido, coberto de pregos. "Qualquer um teria vontade de fugir de um muro assim", pensou Gurov, olhando ora para as janelas, ora para o muro.

        Calculava: não era dia de expediente, e o marido estaria provavelmente em casa. Além disso, seria falta de tato entrar e deixá-la perturbada. Se mandasse um bilhete, este poderia cair nas mãos do marido e então tudo estaria perdido. O melhor seria confiar-se ao acaso. E ele passou muito tempo andando pela rua e junto ao muro, esperando aquele acaso. Viu atravessar o portão um mendigo, que foi assaltado por cachorros; passada uma hora, ouviu tocar o piano, mas os sons chegavam-lhe fracos, pouco nítidos. Provavelmente era Ana Sierguéievna quem tocava.

        De repente, abriu-se a porta principal e por ela saiu uma velha, acompanhada pelo lulu branco, que ele conhecia. Gurov quis chamar o cachorro, mas, de súbito, começou a bater-lhe precipitadamente o coração e, perturbado, não conseguiu lembrar o nome do lulu.

        Ficou andando; odiava com intensidade crescente o muro cinzento e pensava já, com irritação, que Ana Sierguéievna esquecera-o e talvez já se divertisse com outro, o que seria muito natural na condição de mulher jovem, obrigada a ver, de manhã à noite, aquele maldito muro. 

        Voltou para o quarto do hotel e passou muito tempo sentado no divã, sem saber o que fazer; jantou, depois dormiu bastante. "Quanta estupidez e nervosismo", pensou, acordando e olhando para as janelas escuras, pois anoitecera. "Dormi não sei para quê. E o que vou fazer de noite?"

        Estava sentado na cama, com um cobertor barato, cinzento, que parecia de hospital, e zombava de si mesmo, com despeito: "Aí tem você a dama do cachorrinho. Aí tem você uma aventura... Por isso mesmo, fique sentado aí."

        Ainda de manhã, na estação, havia-lhe saltado aos olhos um cartaz, de letras muito graúdas, anunciando a estreia de "Gueixa". Lembrou-se disso e foi ao teatro. "É bem possível que ela costume frequentar as estreias", pensou.

        O teatro estava cheio. Como sempre acontece nos teatros de província, havia uma névoa pairando sobre os lustres, a galeria inquietava-se ruidosamente. Antes de começar o espetáculo, os elegantes locais ficavam de pé, na primeira fila, as mãos atrás.

        No camarote do governador, estava sentada, na frente, a filha deste, de boá, enquanto o próprio governador ocultava-se modestamente atrás de uma cortina, deixando aparecer apenas as mãos. O pano de cena balançava-se, os músicos da orquestra passaram muito tempo afinando os instrumentos. 

        Enquanto os espectadores entravam e ocupavam os lugares, Gurov ficou procurando ansiosamente com os olhos. Ana Sierguéievna entrou também. Sentou-se na terceira fila e, quando Gurov a olhou, sentiu apertar-se o coração e compreendeu com nitidez que não existia, agora, para ele, em todo o mundo, pessoa mais próxima, querida e importante.

        Aquela pequena mulher, perdida no meio da multidão provinciana, que não se distinguia das demais e tinha nas mãos um lorgnon vulgar, enchia-lhe agora a vida, era sua aflição e sua alegria, a única felicidade que almejava. Ao som da orquestra ordinária, dos péssimos violinos locais, ele pensava em como ela era bonita. Pensava e sonhava.

        Entrou com Ana Sierguéievna e sentou-se a seu lado um homem moço, de suíças pequenas, muito alto, um tanto curvado. A cada passo, balançava a cabeça e parecia estar cumprimentando incessantemente alguém. Era provavelmente o marido, que ela, num acesso de amargura, chamara, lá em Ialta, de lacaio. Com efeito, havia em seu vulto alongado, nas suíças, na calva pequena, algo modesto e servil, sorria com doçura e, na lapela. fulgia-lhe uma douta insígnia, que parecia também uma chapinha de lacaio.

        No primeiro intervalo, o marido foi fumar, ela permaneceu sentada. Gurov, que estava também na plateia, aproximou-se dela e disse, com voz trêmula e um sorriso forçado:

        -- Boa noite.

        Ela o olhou e empalideceu, depois tornou a olhá-lo apavorada, sem acreditar no que via, e apertou fortemente nas mãos, ao mesmo tempo, o leque e o lorgnon, lutando, sem dúvida, consigo mesma para não desmaiar. Permaneceram calados. Ela estava sentada, ele, de pé, assustado com a perturbação dela e não ousando sentar-se ao lado. Os violinos e a flauta, que estavam sendo afinados pelos músicos, começaram a cantar, veio uma sensação de medo, tinham a impressão de que em todos os camarotes havia gente olhando para eles. Mas, eis que ela se levantou e caminhou depressa para

a saída; Gurov acompanhou-a. 

        Caminharam sem destino por corredores e escadas, ora acima, ora abaixo, e aos seus olhos perpassou gente com uniformes de juiz, de estudante; de funcionário, todos com as respectivas insígnias. Apareciam senhoras, peliças em cabides, soprava um vento encanado, repassado do cheiro de tabaco. E Gurov, que tinha o coração batendo precipitadamente, pensou: "Oh, meu Deus! Para que essa gente, essa orquestra..."

        Naquele momento, lembrou-se de repente de como, certa noite, numa estação de estrada de ferro, tendo acompanhado Ana Sierguéievna ao trem, dissera a si mesmo que tudo estava terminado e que não se tornariam a ver jamais. Mas, como estava longe ainda o fim de tudo!

        Ela deteve-se numa escada estreita e sombria perto da inscrição: "Entrada para o anfiteatro".

        -- Como você me assustou! – disse, respirando pesadamente e ainda pálida, atordoada. – Oh, como me assustou! Estou meio morta. Para que veio até aqui? Para quê?

        -- Mas, compreenda, Ana, compreenda... – disse ele a meia voz e apressadamente. – Eu lhe imploro, compreenda...

        Ela o olhava com expressão de medo, de súplica, de amor, olhava-o fixamente, para reter com mais intensidade na memória os traços de seu rosto.

        -- Sofro tanto! – prosseguiu ela, sem o ouvir. – Todo esse tempo, só pensei em você, só vivi com esse pensamento. Ao mesmo tempo, tinha vontade de esquecer, esquecer, mas, para que, para que foi que você veio?"

        Mais em cima, entre dois lances de escada, havia dois ginasianos fumando e olhando para baixo, mas Gurov não se importava com coisa alguma, atraiu para si Ana Sierguéievna e pôs-se a beijar-lhe o rosto, as faces, as mãos.

        -- Que está fazendo, que está fazendo? – disse ela horrorizada, afastando-o. – Perdemos a cabeça. Vá embora hoje mesmo, neste mesmo instante... Peço-lhe por tudo o que há

de sagrado, imploro-lhe... Vem gente aí! "

        Alguém estava subindo a escada... 

        -- Você deve ir... – prosseguiu Ana Sierguéievna, num murmúrio. Está ouvindo, Dmítri Dmítritch? Vou visitá-lo em Moscou. Nunca fui feliz, mas agora sou infeliz e jamais, jamais terei felicidade! Não me obrigue, então, a sofrer mais ainda! Juro-lhe que irei a Moscou. E agora, separemo-nos! Meu querido, meu bom, meu amado, separemo-nos!

        Ela apertou-lhe a mão e começou a descer rapidamente a escada, voltando a cada momento a cabeça, e em seus olhos percebia-se que, realmente, não era feliz... Gurov permaneceu algum tempo parado, ouvindo seus passos; depois, procurou o cabide e saiu do teatro.

        Ana Sierguéievna passou a viajar a Moscou, para vê-lo.

   Cada dois, três meses, saía de S., dizendo ao marido que ia consultar um professor de Medicina sobre sua doença de senhora, e o marido acreditava e não acreditava ao mesmo tempo.

        Em Moscou, hospedava-se no "Bazar Eslavo" e, logo após sua chegada, mandava um recado a Gurov, por um homem de chapéu vermelho. Gurov ia vê-la e ninguém em Moscou sabia disso.

        Certa manhã de inverno, ele estava indo assim a seu encontro (o criado que lhe fora levar o recado na véspera, ao anoitecer, não o encontrara). A filha caminhava ao lado, pois ele quisera levá-la ao colégio, que ficava a caminho. Caía uma neve graúda, molhada.

        -- Temos três graus acima de zero e, no entanto, cai neve – dizia Gurov à filha. – Mas este calor existe somente na superfície da terra, nas camadas superiores da atmosfera há uma temperatura bem inferior.

        -- Papai, e por que não há trovões no inverno?

        Explicou-lhe isso também. Enquanto falava, pensava em que estava indo para uma entrevista de amor e que nem viva alma sabia disso e, provavelmente, jamais o saberia. Tinha duas vidas: uma, aparente, que viam e conheciam todos os que o queriam, repassada de verdade e de mentira convencionais, completamente semelhante às vidas de seus conhecidos e amigos, e outra que decorria em segredo.

        E por um estranho, talvez casual, acúmulo de circunstâncias, tudo o que era para ele importante, interessante, indispensável, aquilo em que ele era sincero e não enganava a si mesmo, o que constituía o cerne de sua vida, ocorria às ocultas dos demais, enquanto tudo o que formava a sua mentira, a membrana exterior, em que se escondia, para ocultar a verdade, como, por exemplo, seu trabalho no banco, as discussões no clube, a "raça inferior", a ida com a mulher aos espetáculos comemorativos, tudo isso era aparente. 

        E julgava os outros por si mesmo, não acreditava no que via, e sempre supunha que em cada homem decorre, sob o manto do mistério, como sob o manto da noite, a sua vida autêntica e mais interessante. 

        Cada existência individual baseia-se no mistério e talvez seja, em parte, esta a razão por que o homem culto se afana tão nervosamente para ver respeitado o mistério individual.

        Tendo acompanhado a filha ao colégio, Gurov dirigiu-se ao "Bazar Eslavo". Tirou a peliça, subiu a escada e bateu mansamente na porta. Ana Sierguéievna, que estava com o vestido cinzento da predileção de Gurov, esperava-o desde a tarde anterior, estava cansada da viagem e da espera. Pálida, olhou-o sem sorrir e, mal ele entrou no quarto, ela se atirou a seu peito. O beijo que se deram foi prolongado, como senão se tivessem visto uns dois anos.

        -- Bem, como vai a tua vida lá? – perguntou ele. Que há de novo? 

        -- Espere, vou dizer daqui a pouco... Não posso. Ela não podia falar, devido às lágrimas. Virou a cabeça e apertou o lenço contra os olhos. "Bem, que chore um pouco; enquanto isso, vou ficar sentado aí", pensou ele e sentou-se numa poltrona.

        Depois, tocou a campainha e mandou trazer chá. Enquanto o tomava, ela continuava de pé, a cabeça voltada para a janela... Chorava de emoção, da consciência angustiosa de que a vida deles dispusera-se de modo tão triste; viam-se apenas em segredo, escondiam-se das pessoas, como ladrões! Não estava destruída a vida de ambos?

        -- Ora, basta! – disse Gurov.

        Era evidente, para ele, que aquele amor não acabaria logo. Ana Sierguéievna afeiçoava-se a ele com intensidade crescente, adorava-o e seria inconcebível dizer-lhe que tudo aquilo deveria ter fim, um dia; aliás, ela nem acreditaria nisso.

        Aproximou-se dela, segurou-lhe os ombros, para acarinhá-la e gracejar um pouco e, naquele momento, viu-se no espelho.

        A cabeça dele já estava começando a ficar grisalha. Pareceu-lhe estranho que, nos últimos anos, tivesse envelhecido tanto e ficado mais feio. Os ombros, em que haviam pousado as mãos dele, eram cálidos e estremeciam. Compadeceu-se daquela vida, que era ainda tão tépida e bonita, mas que, provavelmente, estava próxima de empalidecer e fanar-se, como a vida dele. Por que ela o amava assim? Ele sempre parecera às mulheres uma pessoa diferente daquela que era na realidade e elas amavam nele não a sua própria pessoa, mas um homem criado pela imaginação e que elas procuravam sequiosamente na vida; depois, percebido o engano, continuavam, todavia, a amá-lo. E nenhuma delas fora feliz com ele. O tempo passava, Gurov travava relações, unia-se a mulheres, separava-se delas, mas nenhuma vez amara, aquilo podia ser tudo, menos amor...

        E somente agora, quando sua cabeça já estava grisalha, ele amava devidamente, verdadeiramente, pela primeira vez na vida.

        Ana Sierguéievna e ele amavam-se como gente próxima e querida, como marido e mulher, como dois ternos amigos. Parecia-lhes que o próprio fado destinara-os um ao outro e era incompreensível por que ele estava casado e ela também.

        Lembravam dois pássaros de arribação, macho e fêmea, caçados e obrigados a viver em gaiolas separadas. Perdoaram um ao outro tudo aquilo de que se envergonhavam em seu passado, perdoavam-se tudo no presente e sentiam que aquele amor os transformara.

        Anteriormente, nos momentos de tristeza, ele procurara consolar-se com toda espécie de reflexões, mas agora afastava-as, sentia uma profunda compaixão, queria ser sincero, carinhoso...

        -- Basta, minha boa menina, dizia ele. – Chorou e chega... Vamos agora conversar, ver se nos ocorre alguma ideia.

        Depois, ficavam por muito tempo trocando conselhos, falavam em como libertar-se da necessidade de se esconder, de enganar, de viver em cidades diferentes e ficar muito tempo sem se ver. Como libertar-se daqueles insuportáveis liames?

        -- Como? Como? – perguntava ele, pondo as mãos à cabeça. – Como?

        Tinham a impressão de que mais um pouco e encontrariam a solução e, então, começaria uma vida nova e bela; todavia, em seguida, tornava-se evidente para ambos que o fim ainda estava distante e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava.

 

Anton Tchekhov. CONTO: A DAMA DO CACHORRINHO.

 

Entendendo o conto:

 

01 – Como Dmítri Gurov e Ana Sierguéievna se conhecem e iniciam o primeiro contato em Ialta?

      Gurov a observa passeando pela beira-mar com seu cão lulu branco e planeja uma aproximação. O contato inicial ocorre à noitinha em um jardim, quando ela se senta na mesa vizinha à dele. Para puxar assunto, Gurov chama carinhosamente o cachorrinho, que rosna. Após a intervenção de Ana dizendo que o cão não morde, Gurov pede permissão para dar um osso ao animal e lhe pergunta há quanto tempo ela havia chegado a Ialta.

 

02 – Qual era a visão que Gurov tinha das mulheres em geral no início do conto e como ele se referia a elas?

      Gurov, devido às suas experiências amargas e traições frequentes, costumava referir-se mal às mulheres, chamando-as secretamente de "raça inferior". Apesar disso, ironicamente admitia que não conseguia passar dois dias sem a companhia delas, sentindo-se muito mais despreocupado, loquaz e à vontade no meio feminino do que no masculino.

 

03 – Como Gurov descreve a personalidade e a aparência de sua esposa?

      Ele a considera pouco inteligente, tacanha e deselegante, admitindo que tinha medo dela e não gostava de ficar em casa. Descreve-a como uma mulher alta, de sobrancelhas escuras, porte rígido e grave, que se autodenominava "pensante". Ela lia muito, escrevia cartas simplificando a ortografia e chamava o marido de "Dimítri" em vez de "Dmítri".

 

04 – Qual foi o real motivo que levou Ana Sierguéievna a deixar sua cidade e viajar sozinha para Ialta?

      Ana revela que casou-se muito jovem, aos vinte anos, movida pela curiosidade e pelo forte desejo de viver e encontrar uma vida melhor. No entanto, passou a considerar o marido um "lacaio" (apesar de honesto) e a se sentir sufocada. Dominada por uma curiosidade que a abrasava, mentiu para o marido dizendo que estava doente para poder viajar e escapar daquela realidade.

 

05 – Como Ana Sierguéievna reage logo após a primeira noite de amor com Gurov no quarto de hotel?

      Ao contrário das aventuras anteriores de Gurov, Ana encara a situação de forma extremamente séria e trágica, enxergando o ocorrido como a sua própria perdição. Ela chora, desunha os cabelos e se compara à "pecadora de um quadro antigo", afirmando que não enganou o marido, mas sim a si mesma, e temendo que Gurov deixasse de estimá-la.

 

06 – Como Gurov reage inicialmente ao profundo arrependimento e choro de Ana?

      Inicialmente, Gurov fica aborrecido e irritado com o tom ingênuo e o arrependimento dela, achando-o inesperado e fora de propósito. Enquanto ela sofre e se confessa, ele corta um pedaço de melancia que estava sobre a mesa e começa a comê-lo calmamente, sem pressa, antes de tentar acalmá-la com carinhos e palavras ternas.

 

07 – O que acontece com os sentimentos de Gurov quando ele retorna a Moscou e mergulha na sua rotina habitual?

      Inicialmente, ele acredita que Ana se cobriria de bruma em sua memória em pouco tempo. No entanto, mesmo com o passar dos meses e o rigor do inverno, as recordações tornam-se cada vez mais intensas. Ana passa a acompanhá-lo por toda parte como uma sombra; ele começa a se sentir sufocado pela rotina fútil de Moscou e desenvolve um desejo desesperado de partilhar suas lembranças com alguém.

 

08 – Qual comentário comum de um amigo no clube dos médicos desperta a indignação e a crise existencial de Gurov?

      Ao sair do clube, Gurov tenta desabafar e diz a um funcionário parceiro de cartas: "Se soubesse que mulher encantadora eu conheci em Ialta!". O homem ignora o comentário romântico e responde apenas: "Você tinha razão: o esturjão não estava de todo fresco!". Essa resposta fútil faz Gurov perceber o quão selvagens, vazios e absurdos eram os costumes e as conversas da sociedade em que vivia.

 

09 – Como se dá o reencontro tenso entre Gurov e Ana na cidade de S.?

      Gurov viaja até a cidade de S. e decide ir ao teatro local na estreia da peça "Gueixa", imaginando que ela poderia frequentar o evento. Ele a encontra na terceira fila e, no primeiro intervalo, enquanto o marido dela sai para fumar, aproxima-se e diz "Boa noite". Ana empalidece, fica apavorada e foge pelos corredores e escadas do teatro, onde finalmente desabafa sobre o quanto sofreu pensando nele.

10 – Como o casal consegue manter o relacionamento após o reencontro no teatro da cidade de S.?

      Ana Sierguéievna passa a viajar para Moscou a cada dois ou três meses para se encontrar secretamente com Gurov. Ela justifica as viagens ao marido dizendo que vai consultar um professor de Medicina sobre uma "doença de senhora". Na capital, ela se hospeda no hotel "Bazar Eslavo" e envia um mensageiro de chapéu vermelho para avisar Gurov, permitindo que vivam uma vida dupla e clandestina.

 

            

 

 

 

 

 



POEMA: ERRANTE - FLORBELA ESPANCA - COM GABARITO

 Poema: Errante

            Florbela Espanca

Meu coração da cor dos rubros vinhos
Rasga a mortalha do meu peito brando
E vai fugindo, e tonto vai andando
A perder-se nas brumas dos caminhos.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjwzQCf7iPP0k30_Z5FYfLsS_ulSJcTRLFqTG5q7pfm89zFG0DUYzzoBzY22jA_LHr5_ncnT7onlhhOSIMYAl8cElwtwnaTlU8WgwCtHXiqKusRH7R-nYyikIZPE-ICd8pkV-mp2D1AQRB5QXIQPH3nw89PrfVAHaj4MPlesprzFKN577ztBz56JFoGrEk/s320/png-transparent-heart-font-burgundy-heart-s-love-burgundy-heart-cliparts-organ-thumbnail.png



Meu coração o místico profeta,
O paladino audaz da desventura,
Que sonha ser um santo e um poeta,
Vai procurar o Paço da Ventura...

Meu coração não chega lá decerto...
Não conhece o caminho nem o trilho,
Nem há memória desse sítio incerto...

Eu tecerei uns sonhos irreais...
Como essa mãe que viu partir o filho,
Como esse filho que não voltou mais!

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas".

Entendendo o poema:

01 – Que imagem do "coração" é construída no primeiro quarteto e o que o título "Errante" sugere sobre ele?

      O coração é descrito como "a cor dos rubros vinhos", sugerindo paixão, intensidade e dor profunda. Ele "rasga a mortalha" do peito, o que indica um ímpeto violento de libertação de um corpo sufocado. O título "Errante" e os versos finais da estrofe revelam que esse coração se move sem rumo fixo, andando "tonto" e "a perder-se nas brumas", simbolizando uma busca cega e desorientada.

02 – No segundo quarteto, quais títulos ou identidades o eu lírico atribui ao seu próprio coração?

      O eu lírico personifica o coração atribuindo-lhe três identidades distintas e elevadas:

      "O místico profeta": Aquele que enxerga além, ligado à espiritualidade e ao destino.

      "O paladino audaz da desventura": Um guerreiro corajoso, mas cuja sina ou missão é o sofrimento (a desventura).

      Aquele que "sonha ser um santo e um poeta": Uma busca pela pureza espiritual máxima combinada com a expressão artística ideal.

03 – O que representa o "Paço da Ventura" que o coração do eu lírico decide procurar?

      O "Paço da Ventura" (sendo paço um palácio e ventura sinônimo de felicidade ou boa sorte) funciona como uma metáfora para a plenitude, a felicidade idealizada e a realização dos sonhos. É o destino utópico onde o coração acredita que encontrará o alívio para as suas dores e a coroação dos seus desejos.

04 – No primeiro terceto, qual é a constatação do eu lírico a respeito da busca empreendida pelo coração?

      O eu lírico assume uma postura de absoluto ceticismo e desilusão, decretando o fracasso da jornada: "Meu coração não chega lá decerto...". A justificativa para essa certeza é o total desconhecimento do caminho e a própria natureza intangível desse destino, classificado como um "sítio incerto" do qual não se tem memória real, restando apenas o isolamento.

05 – Como a imagem da mãe e do filho no último terceto coroa o sentimento de perda definitiva do poema?

      A comparação com "essa mãe que viu partir o filho" e com o "filho que não voltou mais" constrói uma das imagens mais dolorosas da poesia florbeliana. Ela simboliza a separação eterna e irreversível entre o desejo e a realidade. Assim como a mãe fica presa à dolorosa tarefa de tecer "sonhos irreais" sobre alguém que jamais retornará, o eu lírico conforma-se em viver de ilusões sobre uma felicidade que ele sabe que seu coração errante nunca alcançará.

 




BIOGRAFIA: GREGÓRIO DE MATOS E SUAS OBRAS - "BOCA DO INFERNO" - COM GABARITO

 Biografia: Gregório de Matos e suas obras – “Boca do Inferno”

“Eu sou aquele, que passados anos

cantei na minha lira maldizente

torpezas do Brasil, vícios e enganos”


        Esse era Gregório de Matos Guerra, o “Boca do Inferno”. Com seu espírito crítico, satirizava políticos, comerciantes, clero, colonizadores e até mesmo o povo. Para isso, usava palavrões e um vocabulário bem baixo em suas obras.

        Nasceu supostamente em 7 de abril de 1633 na Bahia e morreu em Recife em 1696. Veio de uma família rica que possuía dois engenhos de cana-de-açúcar e 130 escravos.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhgKaDTEr5_-nQ6-cWW1Ass4_QIa4stTTg9CfXTYPD4PrqACOFALkp3rgJ7K2XNWfMRYu1bP5xh4fec94nXD_qOcQy4dqgEwZ1Bj6kMBAWlwYBj9PZrKpVp5Py9GykU4Dcg1Hz8pT2dzWWrGfApI3FI_mrBUzYMJDPDeOaVZR5Z98cNzB8HMn_MHWfUesg/s320/hqdefault.jpg


        Educou-se em casa e no colégio jesuíta. Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra e lá exerceu a profissão sendo, inclusive, juiz de órfãos.

        Em 1681, quando voltou para o Brasil, foi vigário-geral e tesoureiro-mor, porém, durante este período recusou-se a usar a batina e denunciou injustiças da Ordem em que servia. Por causa disso, o Bispo ordenou seu afastamento.

        Escreveu poesia lírica, satírica e religiosa. Suas poesias satíricas possuem um ótimo material do ponto de vista sociológico e linguístico (já que o autor usava um vocabulário bem popular). Nelas o escritor narra episódios da vida popular, cotidiana e política. Através delas podemos conhecer melhor a sociedade da época (período colonial).

        A poesia lírica de Gregório de Matos também é muito boa e pode ser dividida em:

-- Poesia lírico-amorosa.

-- Poesia lírico-filosófica.

-- Poesia lírico-religiosa.


POESIA LÍRICO-AMOROSA

Características:
-- O amor é retratado como fonte de prazer e sofrimento.

-- A mulher é retratada como um anjo e fonte de perdição (pois desperta o desejo carnal).


TEXTO
        Rompe o Poeta com a Primeira Impaciência Querendo Declarar-se e Temendo Perder Por Ousado

 

Anjo no nome, Angélica na cara,
Isso é ser flor, e Anjo juntamente,
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
Em quem, se não em vós se uniformara?
Quem veria uma flor, que a não cortara
De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus, o não idolatrara?
Se como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu custódio, e minha guarda,
Livrara eu de diabólicos azares.
Mas vejo, que tão bela, e tão galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.

 

Vocabulário:
Uniformar: tornar uniforme, com uma só forma
Galharda: elegante.


POESIA LÍRICO-RELIGIOSA

Características:
-- O autor está dividido entre pecado e virtude (sente culpa por pecar e busca a salvação).

-- O autor vê o pecado como um erro humano, mas também, como a única forma de Deus cometer o ato do perdão.

-- O eu-lírico, muitas vezes, se comporta como advogado que faz a própria defesa diante de Deus (para tal, usava, até mesmo, trechos da Bíblia).


TEXTO
Ao mesmo assunto e na Mesma Ocasião

Pequei Senhor: mas não porque hei pecado,
Da vossa Alta Piedade me despido:
Antes, quanto mais tenho delinquido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida, já cobrada,
Glória tal, e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na Sacra História,

Eu sou, Senhor, ovelha desgarrada;
Cobrai-a; e não queirais, Pastor Divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória

Vocabulário:
Despido: despeço.
Sobeja: sobra.
Cobrada: recuperada.

 

Entendendo a biografia:

 

01 – Por que Gregório de Matos recebeu o apelido de “Boca do Inferno” e quais recursos utilizava em suas obras satíricas?

      Ele recebeu esse apelido devido ao seu forte espírito crítico. O poeta utilizava suas obras para satirizar diversas camadas da sociedade colonial, incluindo políticos, comerciantes, o clero, colonizadores e até o próprio povo. Para alcançar esse efeito crítico e provocador, ele fazia uso de palavrões e de um vocabulário de baixo calão.

 

02 – Como foi a trajetória acadêmica e profissional de Gregório de Matos antes de retornar ao Brasil em 1681?

      Gregório de Matos educou-se inicialmente em casa e em um colégio jesuíta no Brasil. Mais tarde, viajou para Portugal, onde se formou em Direito pela Universidade de Coimbra. Naquele país, ele exerceu a profissão jurídica, chegando a ocupar o cargo de juiz de órfãos.

 

03 – Qual foi o motivo do afastamento de Gregório de Matos de suas funções eclesiásticas quando voltou ao Brasil?

      Ao retornar ao Brasil, ele assumiu os cargos de vigário-geral e tesoureiro-mor. No entanto, durante esse período, ele recusou-se a usar a batina e denunciou abertamente as injustiças cometidas pela Ordem religiosa em que servia. Por causa dessas atitudes e denúncias, o Bispo ordenou o seu afastamento.

 

04 – Sob as perspectivas sociológica e linguística, qual é a importância da poesia satírica de Gregório de Matos?

      Do ponto de vista linguístico, sua poesia satírica é rica porque o autor adotava um vocabulário popular e cotidiano da época. Do ponto de vista sociológico, ela funciona como um excelente registro histórico do período colonial, pois narra episódios da vida popular, da política e do cotidiano, permitindo conhecer a fundo a sociedade daquele tempo.

 

05 – No soneto lírico-amoroso "Anjo no nome, Angélica na cara", como o eu-lírico expressa a dualidade e o paradoxo da figura feminina?

      O eu-lírico joga com o nome da mulher (Angélica) para compará-la a um anjo e a uma flor, expressando o desejo de adorá-la e "cortá-la". Contudo, o poema termina revelando um paradoxo: embora os anjos não devessem causar sofrimento, ela é descrita como um "Anjo que tenta, e não guarda", ou seja, uma figura que, em vez de protegê-lo dos azares, desperta o desejo carnal e a tentação.

 

06 – Quais são as principais características da poesia lírico-religiosa de Gregório de Matos apresentadas no texto?

      Suas principais características são o sentimento de culpa e a divisão do autor entre o pecado e a virtude. Além disso, o eu-lírico enxerga o pecado humano como uma oportunidade necessária para que Deus exerça o seu perdão. Muitas vezes, o poeta adota a postura de um advogado, usando argumentos lógicos e trechos da Bíblia (Sacra História) para fazer sua própria defesa perante o Criador.

 

07 – De que maneira o eu-lírico utiliza a parábola bíblica no poema "Pequei Senhor: mas não porque hei pecado" para garantir o perdão divino?

      O eu-lírico recorre à parábola da ovelha perdida (citada como "Sacra História") para argumentar com Deus. Ele se autodeclara a "ovelha desgarrada" e argumenta que, se recuperar uma única ovelha traz tanta glória e alegria ao Pastor Divino, Deus não deveria deixar de salvá-lo, pois, se o fizesse, o próprio Deus perderia a oportunidade de manifestar a Sua glória através do ato de perdoar.

 

 

 

ROMANCE: AS HORAS NUAS - ANÁLISE DO ROMANCE - LÍGIA FAGUNDES TELLES - COM GABARITO

 Romance: As horas nuas – Análise do romance

               Lígia Fagundes Telles

 

        O romance ficcional “As horas nuas”, de Lígia Fagundes Telles, é uma narrativa moderna que focaliza atitude e postura do homem comum. Apresenta um enredo fragmentado, retratando ações, comportamentos e costumes dos indivíduos e da sociedade na qual ele está inserido. 

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg-j_c2Xl4Ogy1kdMa_ZUITFLIINE0K0bEG8InxE-NOuP7h3M4ndgUVlo5ztHk0CJCNlzv9_AfCU3-XpCos8IWDTHHDv_-8xz2UuWWzIts6xlWADoUGAKqyIt0G3cWEkbgU8y9JAwrn8cTBLGOY6PMf49wAX864a_TTDnCdIro9PBn0cJcGaiOVSC1CWb0/s320/Analise-comportamental.jpg 


        A autora da ênfase ao comportamento das personagens em interação com a sociedade, retratando de forma subjetiva dilemas e contradições da alma humana, que se move entre valores, apelos do mundo social materialista e massificante. Assim ela vai projetando a realidade e enfatizando o seu reflexo na vida do indivíduo. 

        No romance em estudo, o narrador busca adequar a linguagem ao vai e vem das ações avançando e retrocedendo, confirmando a vitalidade do tempo. Assim o leitor vai sendo introduzido na trama, conhecendo e penetrando de forma sutil na complexidade, que e calcada nos conflitos existenciais das personagens e que se reflete nos problemas atuais da sociedade. 

        O romance apresenta uma linguagem plurissignificativa fincada nos constantes uso de estrangeirismos “Hasta siempre”, “illustration”. “Formes et couleurs”, nas figuras de linguagem: 

Metáforas, “fecho meus olhos e vejo minha filha boiando no rio do supérfluo”; 

        Personificação presente na figura do gato; 

        Eufemismo “idade da madureza”; 

        E na intertextualidade que aparece no saudosismo da infância de Rosa, onde esta lembra do clássico “João e Maria”, nas cirandas “O cravo e a rosa”, nas lembranças da “antiga Praça da República transformada pelo crescimento desordenado da cidade”, em trechos retirados dos mandamentos bíblicos “não julgueis e não sereis julgados” e na literatura de ficção policial “É elementar meu caro wattson”. 

        A narrativa traz como personagens redondas: Rosa Ambrósio, Rahul (o gato), Ananta Medrado e Diogo. 

      ROSA AMBRÓSIO: protagonista da narrativa, é uma atriz que vive remoendo lembranças de uma infância e adolescência infeliz. Rememora o auge da decadente carreira de atriz e na ânsia para fugir da realidade afoga-se no alcoolismo. 

        Oscila entre momento de delírios, luxúria e lucidez. A atriz foi uma pessoa muito machucada pela vida. Ferida e desconfiada, foi abandonada pelo pai logo cedo e perde o primeiro e grande amor da sua vida, o primo Miguel. A partir de então, busca consolo no ombro amigo de um até então desconhecido, Gregório, que logo viria se tornar pai da sua única filha. 

        Mãe relapsa, Rosa Ambósio mantém um relacionamento meio conturbado e preconceituoso com a filha, da qual sente ciúmes. Ela inveja a juventude e o bom relacionamento da filha com o pai. 

        Só e infeliz procura consolo nos braços do secretário e amante, Diogo. Passa então a arcar com as extravagâncias deste e aturar suas loucuras, assumindo assim uma postura masoquista. Temendo a velhice que prefere chamar de “idade da madureza”, ela procura refúgio também nas sessões de análise e na solidariedade da governanta Dionísia. 

        A atriz apresenta um comportamento ambíguo: apesar de viver de modo desregrado, crítica as futilidades da humanidade, chegando a ponto de pôr em cheques valores éticos e morais, os modismos imposto pela mídia e sua repercussão no modo de vida da sociedade. 

        A personagem não foi sempre rica; muda de vida quando recebe uma herança da tia. 

        RAHUL (o gato): também protagonista, é uma personagem personificada. Ele pensa, age, e se comporta quase como humano contando reminiscências, fazendo reflexões sobre o que acontece. Tem uma relação estranha com a atriz Rosa Medrado, a que ele chama de Rosona. Demonstra verdadeira adoração por Gregório, falecido marido de Rosa e desprezo por Diogo, o amante. Parece viver na esperança de que o falecido volte. Tanto é que consegue vê-lo passeando pela casa. Raul vive momentos de lembranças fugazes, nos quais ele acredita ter vivido outras vidas. 

        ANTAGONISTA:  É a crise existencial vivida pela atriz Rosa Ambrósio. 

        ANANTA:  Personagem de comportamento estranho, demonstra obsessão por um “homem” que ela diz morar no andar superior. É uma analista e dedica-se também ao trabalho social numa Delegacia de Proteção a Mulher. Ananta demonstra tendência para o mistério. Solitária, a analista mantém um círculo restrito de amizades (a governanta, os moradores do prédio, e a amiga Flávia), Desaparece misteriosamente sem deixar pistas. 

        DIOGO:  Era secretário de Rosa, e veio se tornar seu amante. Por ser jovem e bonito age como um gigolô, aproveitando-se das fraquezas da atriz para explorá-la, chantageando-a com suas idas e vindas. Viaja e não volta mais. 

 

        Personagens Planas 

        CORDÉLIA:  Filha de Rosa e de Gregório, a moça demonstra uma personalidade independente e atrevida. Vive a manter relacionamentos amorosos com homens mais velhos, o que choca a mãe. É adepta a modismos e indiferente a crise existencial da mãe, pois se identificava mais com o pai. 

        GREGÓRIO: Marido de Rosa e pai de Cordélia. Moço educado e professor. Conhece a esposa no dia em que está perde seu grande amor. Gregório a amava a sua maneira, mesmo assim foi traído por Rosa. Ele sabia o que se passava mais fingia ignorar. Tinha um espírito calmo tanto é que morreu quieto para não incomodar ninguém. Só demonstrava luta para defender os menos favorecidos. Foi exilado e torturado. Antecipa a morte. Sofria de mal de Parkison. 

        DIONÍSIA:  É mais que uma simples empregada. É também confidente e amiga. É aquela que busca conforto na fé, para aturar as insanidades de Rosa. 

        MIGUEL: Primo de Rosa, foi o primeiro e grande amor da vida da atriz. Ela jamais conseguiu esquecê-lo. Garoto mimado e acostumado à boa vida dos endinheirados, entra no mundo das drogas e morre de overdose. 

        RENATO MEDRADO: Aparece quase no final da trama como primo da analista. É uma personagem suspeita no caso do desaparecimento de Ananta. É através da sua visão que o leitor pode ter noção sobre a infância desta. Mostra-se bastante interessado em resgatar a amizade da prima, a qual ele demonstrou indiferença até então. Esse seu interesse levanta suspeita. Qual será o real interesse de Renato? Será que ele deseja realmente encontrar a prima Ananta? Ou o seu interesse é pelos bens que ela deixou? 

        DELEGADO: Também quer saber o que aconteceu com Ananta Medrado. 

        FLÁVIA:  Parece ser a única amiga de Ananta, mas nem ela sabe o seu paradeiro. 

 

        Outras Personagens que Aparecem no Texto:

 

        TIO ANDRÉ – Marido da tia Lucinda. 

        TIA LUCINDA – Era a mãe de Miguel. Gostava de prestar serviço à comunidade. 

        TIA ANA – Deixou a herança para Rosa. 

        LILI – de personalidade extrovertida, aparece de vez em quando na casa de Rosa. 

 

        ENREDO – O romance possui uma multiplicidade de narradores, que conta a trama de forma não ordenada. A ação começa em um capítulo, é fragmentada e só após outros capítulos ela vai ser retomada. Os desvios do enredo, embora pareçam romper o ritmo da ação, pelo contrário fazem evoluir a trama, eles são essenciais na trama. 

        A autora usa uma adequação do elemento linguagem ao vai e vem da trama, avançando e retrocedendo no entrecruzamento dos episódios, para firmar a realidade do tempo. 

        O enredo é voltado para a problemática da realidade moderna. Os conflitos são vivenciados subjetivamente, mas aparecem objetivamente como indícios da realidade caótica, atuando no desenvolvimento e equilíbrio do ser. 

        Expresso por uma linguagem plurissignificativa ele revela profunda inquietação existencial da espécie humana. As personagens vão se formando num processo fluído e de metamorfose. 

        A narrativa é centrada em momentos de vivência interior das personagens, privilegiando a subjetividade. Estas vivem em constante dilema entre o EU e aceitação da sociedade. A linguagem usada pela autora é de fundamental importância para a constituição do enredo. Este se transforma na própria vivência das personagens. É um reflexo dos seus dilemas interiores, onde se encontra uma forte desconexão entre o indivíduo e a sociedade. 

 

        TEMPO E ESPAÇO – O tempo e o espaço fundem-se na narrativa moderna. Em “As horas nuas”, o tempo é psicológico e subjetivo acompanhando o viver das personagens, por isso, “onde está o tempo está o drama”. São as vivências das personagens que vão fornecendo ao leitor, um quadro verdadeiro do ser, retratando sua fisionomia interior por meio de um fluxo constante e duradouro da consciência. O tempo e o espaço são construídos de forma dissimulada na própria vivência dos personagens 

 

        FOCO NARRATIVO – No romance em estudo, a narrativa apresenta um discurso polifônico. 

        Logo no início há a presença de um narrador em 1ª pessoa, a personagem Rosa Ambrósio. Num monólogo interior esta mergulha e descreve seu passado de dores e glórias. Ela vive uma crise existencial em busca de sua identidade, negando valores sociais vigentes e não aceitando a velhice e o fim da carreira como atriz. 

        Entro no quarto, não acendo a luz, quero o escuro. Tropeço no macio e desabo em cima dessa coisa ah! Meu Pai. 

        “Licença Diu, não leve a mal, mas vou ficar um pouco por aqui mesmo...”. 

 

        Traz também há a presença de um segundo narrador, o narrador personagem, personificado na figura do gato (Rahul), Ele tece comentários a respeito das personagens, mas seu foco é sobre a figura de Rosa Ambrósio e Gregório, o qual ele demonstra verdadeira adoração ou fixação. A descrição que Rahul faz das personagens é de forma quase doentia. Ele descreve minuciosamente atos peculiares e até mesmo lê o íntimo delas. Ele chega às vezes a dar-lhes voz no discurso indireto livre, revestindo-se assim em um narrador onisciente. 

        “Falsas, pensei. Rosona veio com seu robe d’interieur e seu espelho de aumento que odiava mas não podia ficar sem ele.” 

        Começavam sempre mais ou menos assim as discussões entre os dois E que podiam evoluir rapidamente para os palavrões entremeado a de empurrões. Tapas. Ou ter o desfecho na cama. 

        Abriu as pernas bem devagar foi passando a tinta nos pelos do púbis. 

        Os caminhos eram tortos, mas seguidos por eles Rosona acabou por acertar. Gregório escolheu sua morte antes de ser escolhido. Anteviu o que podia vi, futurou e essa futuração deve ter ido além do seu poder de suportar. 

        No quinto capítulo surge um novo narrador em 3ª pessoa. Este de fora passa a apresentar e descrever minuciosamente a personagem Ananta Medrado, uma analista misteriosa, metódica e de personalidade calma e reservada. 

        “O consultório de Ananta era de uma profissional sem vaidade”. Disciplinada... A flanela estava dobrada no canto da gaveta. Passou-a nos poucos objetos e nenhum supérfluo. 

        -- Tenho um Vizinho... Agora não quero pensar no professor com seus teoremas. Era a vez do Vizinho. 

        Ananta foi até a janela e afastou a cortina para ver o céu... Depois da sessão poderia ir (andando) até a delegacia da mulher. Dessa mulher pela qual pode fazer tão pouco. Tão especialmente pela mocinha com os seios furados. 

        No decorrer da trama, outros capítulos são narrados em 3ª pessoa, há mais ações e diálogos. É feita a descrição de ambientes enquanto as cenas se desenrolam. O narrador conta o desaparecimento de Ananta Medrado, a viagem de Diogo, o aparecimento do primo da analista e o internamento de Rosa em uma clínica de recuperação. 

        Subo na poltrona. O quarto esta escuro, mas vejo Rosa Ambrósia... no coração das três mulheres. 

        Mãe querida, você disse que ia almoçar comigo e não foi, queixou-se Cordélia. 

        Hoje não acordei brilhante. A Diu leu o horóscopo, tem aí uma conjuntura de astros que é um horror. 

        “O delegado da delegacia de pessoas desaparecidas estava tomando café” Renato Medrado parou... 

        -- Não usava joias, se tem alguma deve estar no cofre... Dólar? Não sei dizer. O carro... 

 

Bibliografia: LOBO, Luiza. A ficção impressionista e o fluxo de Consciência (Joyce, V. Woolf, Proust). In: VASSALO, Ligia (Org.). A narrativa ontem e hoje. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.

Entendendo o romance:

 

01 – Como se caracteriza a estrutura do enredo e a representação do tempo e do espaço na obra?

      O romance apresenta um enredo fragmentado e não ordenado, que se desenvolve por meio de múltiplos narradores. As ações começam em um capítulo, são interrompidas e retomadas posteriormente. Na narrativa moderna da autora, o tempo é psicológico e subjetivo, fundindo-se com o espaço através do fluxo de consciência das personagens. As descontinuidades e os desvios temporais (avanços e retrocessos) servem para refletir os dilemas e conflitos interiores das personagens em sua relação caótica com a sociedade.

 

02 – Quem é Rosa Ambrósio e quais são os principais conflitos existenciais que ela enfrenta?

      Rosa Ambrósio é a protagonista da obra, uma atriz decadente que vive atormentada pelas lembranças de uma infância infeliz e marcada por perdas, como o abandono do pai e a morte por overdose de seu primeiro amor, o primo Miguel. Seus principais conflitos incluem a recusa em aceitar a velhice (que chama pelo eufemismo de "idade da madureza"), o fim de sua carreira artística, o alcoolismo no qual se afoga para fugir da realidade e um relacionamento amoroso masoquista e de exploração com seu jovem secretário, Diogo.

 

03 – Qual é o papel de Rahul na narrativa e como se justifica sua classificação como uma "personagem personificada"?

      Rahul é um gato e um dos protagonistas do romance. Ele é uma personagem personificada porque pensa, age, se comporta e reflete quase como um ser humano. Ele tece comentários minuciosos sobre os moradores da casa, lê o íntimo das pessoas e chega a manifestar uma onisciência por meio do discurso indireto livre. Rahul idolatra o falecido marido de Rosa, Gregório (a ponto de ver seu fantasma passeando pela casa), despreza o amante Diogo e acredita ter vivido outras encarnações em vidas passadas.

 

04 – Como é descrita a relação entre Rosa Ambrósio e sua filha Cordélia?

      É um relacionamento conturbado, relapso e marcado pelo preconceito e pelo ciúme. Rosa inveja a juventude de Cordélia e o forte vínculo que a filha mantinha com o pai, Gregório. Além disso, Cordélia possui uma personalidade independente e atrevida que choca a mãe, especialmente por manter relacionamentos com homens mais velhos e demonstrar total indiferença em relação à crise existencial e emocional vivida por Rosa.

 

05 – Quem é Ananta Medrado e qual mistério envolve sua trajetória no romance?

      Ananta Medrado é uma analista de comportamento estranho, metódica, disciplinada e solitária, que também realiza trabalho social em uma Delegacia de Proteção à Mulher. Ela demonstra uma tendência para o mistério e possui uma obsessão por um homem que afirma morar no andar superior de seu edifício (o "Vizinho"). O grande mistério em torno de sua trajetória é o seu desaparecimento repentino, que ocorre sem deixar pistas, mobilizando um delegado e levantando suspeitas sobre o real interesse de seu primo, Renato Medrado, em encontrá-la ou herdar seus bens.

 

06 – De que forma o discurso polifônico se manifesta através dos diferentes focos narrativos da obra?

      A polifonia se constrói pela alternância de três tipos de focos narrativos ao longo do texto:

      Narrador em 1ª pessoa (Rosa Ambrósio): Expressa-se por meio de monólogos interiores no início do livro, revirando seu passado de dores e glórias.

      Narrador-personagem personificado (Rahul, o gato): Narra de forma quase doentia e minuciosa a intimidade de Rosa e seu amante, alternando momentos de testemunha com os de narrador onisciente.

      Narrador em 3ª pessoa: Introduzido a partir do quinto capítulo para descrever o consultório e a rotina de Ananta Medrado, além de conduzir as investigações sobre o sumiço da analista, o internamento de Rosa e a partida de Diogo.

 

07 – O texto menciona que o romance possui uma linguagem "plurissignificativa". Quais figuras de linguagem e elementos de intertextualidade exemplificam essa característica?

      A linguagem plurissignificativa se manifesta através de:

      Estrangeirismos: Termos como "Hasta siempre", "illustration" e "Formes et couleurs".

      Figuras de Linguagem: Metáforas (como Rosa ver a filha "boiando no rio do supérfluo"), personificação (atribuída às ações do gato Rahul) e eufemismo (a expressão "idade da madureza" para evitar a palavra velhice).

      Intertextualidade: Referências ao conto infantil "João e Maria", às cantigas de roda ("O cravo e a rosa"), a trechos bíblicos ("não julgueis e não sereis julgados"), à transformação urbana da Praça da República e à clássica frase da literatura policial "É elementar, meu caro Watson".

 

 



POEMA: FALO DE TI ÀS PEDRAS DAS ESTRADAS - FLORBELA ESPANCA - COM GABARITO

 Poema: Falo de Ti às Pedras das Estradas

           Florbela Espanca

 

Falo de ti às pedras das estradas,
E ao sol que e louro como o teu olhar,
Falo ao rio, que desdobra a faiscar,
Vestidos de princesas e de fadas;

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Falo às gaivotas de asas desdobradas,
Lembrando lenços brancos a acenar,
E aos mastros que apunhalam o luar
Na solidão das noites consteladas;

Digo os anseios, os sonhos, os desejos
Donde a tua alma, tonta de vitória,
Levanta ao céu a torre dos meus beijos!

E os meus gritos de amor, cruzando o espaço,
Sobre os brocados fúlgidos da glória,
São astros que me tombam do regaço! 

 

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas".

Entendendo o poema:

01 – A quem o eu lírico se dirige para falar sobre a pessoa amada e qual é o efeito dessa escolha no poema?

      O eu lírico dirige seu desabafo amoroso aos elementos da natureza e do cenário ao seu redor: as pedras das estradas, o sol, o rio, as gaivotas, os mastros dos navios e o luar. O efeito dessa escolha é mostrar a grandiosidade e o transbordamento do sentimento. O amor é tão intenso que o eu lírico não consegue guardá-lo para si, projetando a figura da pessoa amada em absolutamente tudo o que vê, transformando o mundo inteiro em testemunha de sua paixão.

 

02 – No primeiro quarteto, que associações o eu lírico faz entre a pessoa amada e os elementos da natureza (o sol e o rio)?

      O eu lírico utiliza uma comparação e uma metáfora visual:

      O Sol: É descrito como "louro como o teu olhar", associando o brilho, o calor e a cor dourada do sol à beleza e à luz dos olhos da pessoa amada.

      O Rio: Suas águas, ao refletirem a luz e faiscarem, são metaforizadas como "vestidos de princesas e de fadas", conferindo uma atmosfera mágica, encantada e aristocrática ao cenário.

 

03 – Que sentimentos e sensações são sugeridos pelas imagens das gaivotas e dos mastros no segundo quarteto?

      O segundo quarteto introduz uma transição para sentimentos de saudade e solidão. As gaivotas de asas abertas lembram "lenços brancos a acenar", uma imagem poética tradicionalmente ligada à despedida, à distância e à espera. Logo em seguida, a forte imagem dos mastros que "apunhalam o luar" traz uma sensação de dor sutil ou de angústia que corta a calmaria, reforçada pelo verso final que fala explicitamente na "solidão das noites consteladas".

 

04 – Como o primeiro terceto expressa a elevação desse amor através da metáfora da "torre dos meus beijos"?

      O terceto mostra um amor que triunfa e se agiganta. Ao descrever a alma do ser amado como "tonta de vitória", o eu lírico indica o impacto arrebatador que essa paixão causa. A metáfora da "torre dos meus beijos" que se levanta ao céu simboliza uma construção monumental, vertical e sagrada. É a ideia de um amor que não é terreno ou mundano, mas que se eleva em direção ao infinito e ao divino.

 

05 – De que maneira o soneto é encerrado no último terceto e qual é o significado da metáfora cósmica final?

      O poema atinge seu ápice expandindo o sentimento para uma dimensão universal e celestial. Os "gritos de amor" do eu lírico são tão fortes que cruzam o espaço sideral e se transformam em "astros que me tombam do regaço" (estrelas que caem do seu colo). Essa metáfora cósmica traduz tanto a escala infinita e brilhante do amor quanto o cansaço ou o desabamento emocional do eu lírico, que gera mundos e estrelas através de sua própria dor e paixão, mas que vê essa imensidão desabar sobre si.

 

 

POEMA: PERDI OS MEUS FANTÁSTICOS CASTELOS - FLORBELA ESPANCA - COM GABARITO

 Poema: Perdi os meus fantásticos castelos

             Florbela Espanca

 

Perdi meus fantásticos castelos 

Como névoa distante que se esfuma...
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los:
Quebrei as minhas lanças uma a uma!

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Perdi minhas galeras entre os gelos
Que se afundaram sobre um mar de bruma...
- Tantos escolhos! Quem podia vê-los? –
Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma!

Perdi a minha taça, o meu anel,
A minha cota de aço, o meu corcel,
Perdi meu elmo de ouro e pedrarias...

Sobem-me aos lábios súplicas estranhas...
Sobre o meu coração pesam montanhas...
Olho assombrada as minhas mãos vazias...


Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas”.

 

Entendendo o poema:

 

01 – O que representam os "fantásticos castelos" e as "galeras" que o eu lírico afirma ter perdido?

      Os "fantásticos castelos" e as "galeras" funcionam como metáforas para os sonhos, idealizações, grandes ambições e projetos de vida do eu lírico. A perda desses elementos simboliza a destruição de suas ilusões e de suas expectativas de felicidade, que se desfizeram "como névoa distante" ou se afundaram em um "mar de bruma", restando apenas o vazio.

 

02 – No primeiro quarteto, como o eu lírico descreve a sua postura diante da perda de seus castelos?

      O eu lírico deixa claro que não aceitou a derrota passivamente de início. Ele expressa uma postura de resistência e combate através da repetição do verbo "querer" ("Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los"). No entanto, o esforço foi em vão e resultou em esgotamento absoluto, o que é simbolizado pelo verso: "Quebrei as minhas lanças uma a uma!".

 

03 – Qual é a justificativa apresentada no segundo quarteto para o naufrágio das "galeras entre os gelos"?

      O eu lírico justifica o naufrágio apontando a existência de obstáculos invisíveis ou imprevisíveis no caminho, expressando sua impotência por meio de uma pergunta retórica: "— Tantos escolhos! Quem podia vê-los? —". Os "escolhos" (rochedos ocultos na água) e a "bruma" (nevoeiro) representam as armadilhas e as dificuldades imprevistas da vida que tornaram a derrota inevitável.

 

04 – O primeiro terceto traz uma lista de objetos medievais (taça, anel, cota de aço, corcel, elmo de ouro). Qual é o efeito dessa enumeração no poema?

      Essa enumeração reforça a temática da destituição e do despojamento total. Ao listar a perda de itens de valor material e simbólico (como o elmo de ouro e as pedrarias) e de defesa (como a cota de aço), o eu lírico constrói a imagem de um guerreiro que foi completamente desarmado, destronado e despido de suas glórias e proteções.

 

05 – Como o soneto é concluído no último terceto e qual é o sentimento final do eu lírico?

      O poema é concluído com uma forte sensação de angústia física, desespero e desamparo. O eu lírico descreve uma dor sufocante ("Sobre o meu coração pesam montanhas") e uma necessidade quase irracional de socorro ("Sobem-me aos lábios súplicas estranhas"). O texto encerra-se com uma imagem de absoluto choque diante da realidade do próprio fracasso: "Olho assombrada as minhas mãos vazias...".