Conto de ficção científica: Impasse
“Gregory
Arnfeld não estava propriamente moribundo, mas não lhe restava muito tempo de
vida. Tinha um câncer inoperável e havia recusado com firmeza todas as
sugestões para que tentasse um tratamento de radiação ou quimioterapia.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi3cd5kDjuQmBJ7w4gElOpfXFk1zS8l6BlbNzdliKrNrb07YO0TBMi2mtn1r00PcLhAd7yzVTFraB3ODB1cpt94wbfJGF46p1zMmmjCzJQgUYtCpkIa5YjLJ9hFqdxFEIDCmy-oRYDsdFSPjMZXpjx7aEfggRHJGLmQZdnStwQi_IsKKV2jO6VmdieOj5c/s320/images.jpg Sorriu
para a mulher, sem levantar a cabeça do travesseiro, e disse:
--
Sou o caso perfeito, Tertia. Mike cuidará de mim. Tertia não sorriu. Parecia
terrivelmente preocupada.
--
Existem tantas coisas que podem ser feitas, Gregory. Mike deve ser considerado
como o último recurso. Talvez não haja necessidade de usá-lo.
--
Não, não, quando acabarem de me afogar com produtos químicos e de me encharcar
de radiação, estarei tão doente que não será um teste justo.
--
Estamos no século XXII, Greg. Existem tantos tratamentos para o câncer.
--
Verdade, mas Mike é um deles, e o melhor, na minha opinião. Estamos no século
XXII e sabemos do que os robôs são capazes. Eu, pelo menos, sei muito bem. Sou
a pessoa mais chegada a Mike. Você sabe disso.
-- Sei, mas não deve usá-lo apenas por
orgulho. Além disso, como pode ter tanta confiança na miniaturização? É uma
ciência ainda mais nova que a robótica.
Arnfeld
assentiu.
--
De acordo, Tertia, mas os rapazes da miniaturização me parecem extremamente
confiantes. Podem diminuir o tamanho do corpo ou fazê-lo voltar ao normal de
forma quase rotineira e os controles que tornam isso possível foram implantados
no corpo de Mike. Ele pode aumentar ou diminuir de tamanho à vontade, sem afetar
as coisas que o cercam.
--
De forma quase rotineira – repetiu Tertia, com ironia.
--
Isso é tudo o que podemos pedir, na verdade. Pense nisso, Tertia. Tenho sorte
de ser parte da experiência. Vou passar para a história como o principal responsável
pelo projeto de Mike, mas isso será secundário. Meu maior feito será o de ter
sido tratado com sucesso por um mini-robô, e por minha livre e espontânea
vontade.
--
Sabe que é perigoso.
--
Tudo na vida é perigoso. Os remédios e a radiação têm graves efeitos
colaterais. Podem retardar a progressão da doença, sem curá-la. Ficarei
reduzido a uma existência limitada, quase vegetativa. E se não fizer nada,
certamente morrerei em pouco tempo. Por outro lado, se Mike cumprir a sua missão,
minha saúde voltará ao normal, e se houver uma recaída, bastará recorrer
novamente a ele.
Estendeu
a mão para segurar a da esposa.
--
Tertia, sabíamos que o momento estava próximo, eu e você. Vamos tirar proveito
desta oportunidade, será uma experiência gloriosa.
Neste
momento, Louis Secundo, do grupo de miniaturização, disse:
--
Não, Sr. Arnfeld. Não podemos garantir o sucesso. O processo de miniaturização
está intimamente ligado à mecânica quântica e, portanto, existe uma componente
probabilística. Enquanto o MIK-27 estiver diminuindo de tamanho, há sempre a
possibilidade de ocorrer uma expansão súbita, não planejada, o que naturalmente
matará o paciente. Quanto maior a redução de tamanho, quanto menor o robô se tornar,
maior a probabilidade de que essa expansão ocorra. E quando ele começar a
voltar ao tamanho normal, a probabilidade de uma expansão descontrolada será
ainda maior. Na verdade, essa será a fase mais perigosa de toda a experiência.
Tertia
sacudiu a cabeça.
--
Acha que isso vai acontecer?
--
É muito pouco provável, Sra. Arnfeld, mas não impossível. É preciso que a
senhora compreenda isso
--
E se Mike for reduzido a um tamanho pequeno demais por causa de algum erro ou
falha no mecanismo? Nesse caso, a expansão súbita seria inevitável, não
seria?
--
Não exatamente. Continuaria a ser um fenômeno estatístico. A probabilidade
aumenta à medida que o tamanho de Mike diminui. Entretanto, quanto menor ele se
torna, menor a sua massa. A partir de um certo ponto, a massa do robô ficará
tão pequena que qualquer movimento o fará sair voando com uma velocidade
próxima da luz.
--
E isso não mataria meu marido?
--
Não. A essa altura, Mike seria tão pequeno que poderia passar por entre os
átomos do doutor sem afetá-los.
--
Mas qual seria a probabilidade de que ele sofresse uma expansão súbita ao
atingir um tamanho tão reduzido?
--
Quando o MIK-27 chegasse ao tamanho de um neutrino, digamos, sua meia vida
seria de alguns segundos. Em outras palavras, haveria uma probabilidade de
cinquenta por cento de que sofresse uma expansão dentro de alguns segundos, mas
a essa altura já estaria a uma distância de centenas de milhares de quilômetros
da Terra, em pleno espaço sideral, de modo que a explosão resultante produziria
apenas uma pequena chuva de raios gama para intrigar os astrônomos. Só que nada
disso vai acontecer. O MIK-27 vai seguir as instruções e reduzir-se apenas ao
tamanho necessário para realizar a operação.
A
Sra. Arnfeld conhecera Mike pouco depois de o robô ter ficado pronto, quando
estava sendo submetido aos primeiros testes. Não era um robô bem-proporcionado.
A cabeça era muito pequena, os quadris largos demais. Tinha uma forma quase
cônica, com o vértice para cima. A Sra. Arnfeld sabia que isso se devia ao fato
de o mecanismo de miniaturização, juntamente com o cérebro localizado no
abdômen, o que aumentava a rapidez dos reflexos. Como o marido lhe explicara,
seria inadequado instalar o cérebro na parte superior da máquina. Entretanto, a
forma escolhida fazia Mike parecer ridículo, quase um retardado mental.
--
Tem certeza de que compreende bem qual é sua missão, Mike?
-- Perguntou a Sra. Arnfeld ao conhece-lo.
--
Compreendo perfeitamente, Sra. Arnfeld. Devo eliminar todas as células
cancerosas. Quando eu estiver do tamanho certo, poderei reconhecer facilmente
as células cancerosas e matá-las, destruindo o núcleo da doença.
-- Disse Mike, em tom solene.
ASIMOV, Isaac. Visões de robôs. Trad.
Ronaldo Sérgio. Rio de Janeiro: Editora Record. 2002.
Entendendo o conto:
01 – Qual é o dilema
de saúde enfrentado por Gregory Arnfeld e qual alternativa de tratamento ele
escolhe?
Gregory tem um
câncer inoperável e recusa categoricamente os tratamentos tradicionais
(quimioterapia e radiação) por conta dos graves efeitos colaterais. Ele opta
por ser submetido a uma técnica experimental: o uso de um robô miniaturizado
chamado Mike (MIK-27), reprogramado para entrar em seu corpo e destruir
diretamente as células cancerosas.
02 – Por que a
esposa de Gregory, Tertia, hesita em aceitar a escolha do marido?
Tertia considera
que o robô deve ser o último recurso, pois a ciência da miniaturização ainda é
muito recente e experimental ("quase rotineira"). Ela se preocupa com
a segurança do marido e teme que o orgulho de Gregory por ter ajudado a criar
Mike o esteja cegando para os riscos reais da experiência.
03 – Segundo o
especialista Louis Secundo, qual é o maior risco do processo de miniaturização?
Devido às leis da
mecânica quântica, o processo tem caráter probabilístico. O maior perigo é a
ocorrência de uma expansão súbita e descontrolada do robô. Se essa expansão
ocorrer enquanto Mike estiver dentro do corpo do paciente, resultará na morte
imediata de Gregory. O risco é ainda maior na fase em que o robô precisa
retornar ao seu tamanho normal.
04 – O que aconteceria
se o robô sofresse uma falha e encolhesse a um tamanho excessivamente pequeno?
Se Mike encolher
a ponto de ter a massa drasticamente reduzida (como o tamanho de um neutrino),
qualquer movimento o faria voar para o espaço a uma velocidade próxima à da
luz. Ele atravessaria o corpo do paciente sem machucá-lo (passando entre os
átomos) e, caso sofresse a expansão súbita no espaço, causaria apenas uma
pequena chuva de raios gama a centenas de milhares de quilômetros da Terra.
05 – Por que a forma
física do robô Mike é descrita como "cônica" e "ridícula"?
Mike tem uma
cabeça pequena e quadris muito largos. O motivo dessa estrutura é técnico: o
mecanismo de miniaturização e seu cérebro posicionado no abdômen exigiam esse
espaço na parte inferior para otimizar e acelerar os reflexos da máquina.
Apesar de parecer desproporcional, o design atende a uma necessidade funcional.
06 – Além do desejo
de cura, qual é a motivação pessoal de Gregory para aceitar o procedimento?
Gregory deseja
entrar para a história. Ele já é reconhecido como o principal responsável pelo
projeto do robô Mike, mas enxerga como seu maior feito a oportunidade de ser o
primeiro ser humano a ser tratado e curado por um mini-robô por livre e
espontânea vontade, considerando isso uma "experiência gloriosa".
07 – Qual é a missão
exata que o robô Mike afirma compreender ao final do trecho?
Mike afirma que
sua missão é ser reduzido ao tamanho ideal para entrar no organismo,
identificar as células cancerosas com facilidade e eliminá-las uma a uma,
destruindo o núcleo da doença para restabelecer a saúde de seu criador.






