sábado, 17 de fevereiro de 2018

CONTO: A ESCOLA DA VILA - VIRIATO CORRÊA - COM GABARITO

CONTO: A ESCOLA DA VILA
                 Viriato Corrêa

Fonte da imagem - https://www.blogger.com/blog/post/edit/7220443075447643666/8962504675627433419#

    Para quem já tivesse visto o mundo, a Vila do Coroatá devia ser feia, atrasada e pobre. Mas, para mim, que tinha vindo da pequenice do povoado, foi um verdadeiro deslumbramento.
        As quatro ou cinco ruas, com a maioria de casas de telha; os três ou quatro sobradinhos; as casas comerciais sempre cheias de mercadorias e de gente; as missas aos domingos; a banda de música de dez figuras; as procissões, de raro em raro, eram novidades que me deixaram maravilhado.
        A igreja acanhadinha e velha, onde os morcegos voejavam, tinha aos meus olhos um esplendor estonteante.
        A Casa da Câmara, acaçapada e pesadona, com o vasto salão onde, às vezes, se realizavam festas, parecia-me um palácio.
        O que mais me encantou foi a escola.
        Quando chegamos à vila, já haviam acabado as férias. Durante os quinze dias em que fiquei em casa curando-se das febres, eu via, da janela, as crianças passarem em grandes bandos, à hora em que terminavam as aulas. A vontade de ficar bom para misturar-me com aquela meninada alegre apressou a minha cura.
        A escola funcionava num velho casarão de vastas salas, que devia ter mais de meio século.
        Quando lá entrei, no primeiro dia, levado pela mão de meu pai, senti no peito o coração bater jubilosamente.
        Dona Janoca, a diretora, recebeu-me com o carinho com que se recebe um filho. Os meninos e as meninas, que me viram chegar, olharam-se risonhamente, como se já houvessem brincado comigo.
        Eu que vinha do duro rigor da escola do povoado, de alunos tristes e de professor carrancudo, tive um imenso consolo na alma.
        A escola da Vila era diferente da escolinha da povoação como o dia o é da noite.
        Dona Janoca tinha vindo da capital, onde aprendera a ensinar crianças.
        Era uma senhora de trinta e cinco anos, cheia de corpo, simpática, dessas simpatias que nos invadem o coração sem pedir licença.
        Havia nas suas maneiras suaves um quê de tanta ternura que nós, às vezes, a julgávamos nossa mãe.
        A sua voz era doce, dessas vozes que nunca se alteram e que mais doces se tornam quando fazem alguma censura.
        Mostrava, sem querer, um grande entusiasmo pela profissão de educadora: ensinava meninos porque isso constituía o prazer de sua vida.
        Se um aluno adoecia, ela, apesar dos afazeres, encontrava tempo pra lhe levar uma fruta, um biscoito, um remédio
        Vivia arranjando livros, papel e lápis nas casas comerciais para os meninos paupérrimos. Se um pai se recusava a mandar o filho à escola corria a convencê-lo de que o pequeno nada seria na vida se não tivesse instrução.
        Quando chegou da capital para dirigir o grupo escolar da vila, o prédio em que as aulas funcionavam estava em ruinas e o mobiliário, de tão velho e maltratado, já não servia para nada.
        Era preciso dar àquilo um jeito de coisa decente. Mas não havia vintém.
        Ela trazia, como auxiliares, as suas irmãs Rosinha e Neném, ambas moças.
        E as três deixavam o povo surpreendido: saíram de casa em casa a pedir auxílio para as obras, fizeram rifas, organizaram festas, leilões, bazares de sorte, tudo enfim que pudesse render dinheiro.
        E a vila, cochilona e desacostumada a novidades, viu, com pasmo, dona Janoca e as irmãs, de brocha e pincel nas mãos, caiando e pintando paredes.
        E a velha casa, de mais de meio século, ressuscitou maravilhosamente, como os palácios surgem nos contos de fada.
        Os salões, amplos e claros, abriam-se de um lado e de outro do vasto corredor, com filas de carteiras escolares, vasos de plantas, aqui e ali, e jarras de flores sobre as mesas.
        As paredes, por si sós, faziam as delícias da pequenada. De alto a baixo uma infinidade de quadros, bandeiras, mapas, fotografias, figuras recortadas de revistas, retratos de grandes homens, coleções de insetos, vistas de cidades, cantos e cantinhos do Brasil e do mundo.
        E tudo aquilo me encantava de tal maneira que eu, às vezes, deixava de brincar todo o tempo do recreio para ficar revendo paisagem por paisagem, mapa por mapa, figurinha por figurinha.

                           Viriato Corrêa. Cazuza. São Paulo: Nacional, 2004.

Acaçapada: escondida, encolhida.
Jubilosamente: alegremente.

Entendendo o texto:
01 – O menino Cazuza ficou encantado com a Vila do Coroatá. O que mais o deixou maravilhado na vila?
       A escola.

02 – O que Cazuza sentiu quando entrou na escola no seu primeiro dia de aula?
       Ele sentiu no peito o coração bater jubilosamente.

03 – Como Cazuza foi recebido por todos na escola?
        A diretora o recebeu com o carinho com que se recebe um filho. Os meninos e as meninas o olharam risonhamente, como se já houvessem brincado com ele.

04 – Quando, em um texto, indicam-se as características de determinados objetos – pessoas, coisas, lugares, animais, etc. – apresentando ao leitor de que modo eles são ou se encontram, temos uma descrição. No texto “A escola da Vila”, qual é a descrição que o menino faz da diretora?
        Resposta possível: Dona Janoca era uma senhora de trinta e cinco anos, cheia de corpo, simpática, de maneiras suaves, terna, de voz doce, entusiasmada pela profissão, preocupada com a saúde dos alunos e que lutava para que todas as crianças frequentassem a escola.

05 – Como estavam o prédio, as instalações e a conversação da escola quando Cazuza a conheceu?
        O prédio em que as aulas funcionavam estava em ruínas e o mobiliário, de tão velho e maltratado, já não servia para nada.

06 – O que Dona Janoca fez para conseguir melhorias para a escola? Quem a ajudou?
        Ela e suas irmãs, Rosinha e Neném, saíram de casa em casa a pedir auxílio para as obras, fizeram rifas, organizaram festas, leilões, bazares de sorte, tudo enfim que pudesse render dinheiro.

07 – Como ficou a escola depois da reforma?
        Os salões, amplos e claros, abriam-se de um lado e de outro do vasto corredor, com filas de carteiras escolares, vasos de plantas, aqui e ali, e jarras de flores sobre as mesas. As paredes ficaram repletas de uma infinidade de quadros, bandeiras, mapas, fotografias, figuras, etc.

08 – Ao que Cazuza comparou a escola depois de reformada?
        Comparou-a com os palácios dos contos de fadas.

09 – A visão que o menino tinha de escola foi sempre a mesma? Por quê?
        Não. Pois a escola do povoado era de suro rigor, de alunos tristes e de educador carrancudo. A nova escola deu a Cazuza um imenso consolo na alma e o deixou encantado.

10 – Para demonstrar que a escola da Vila era muito diferente da escola que frequentou no povoado, Cazuza faz uma comparação. Copie a frase que a expressa.
        “A escola da Vila era diferente da escolinha da povoação como o dia o é da noite”.



CRÔNICA: HISTÓRIA DE BEM-TE-VI - CECÍLIA MEIRELES - COM GABARITO

CRÔNICA: HISTÓRIA DE BEM-TE-VI 
                      CECÍLIA MEIRELES


        Com estas florestas de arranha-céus que vão crescendo, muita gente pensa que passarinho é coisa de jardim zoológico; e outros até acham que seja apenas antiguidade de museu. Certamente chegaremos lá; mas por enquanto ainda existem bairros afortunados onde haja uma casa, casa que tenha um quintal que tenha uma árvore.  Bom será que essa árvore seja a mangueira.
        Pois nesse vasto palácio verde podem morar muitos passarinhos.
        Os velhos cronistas desta terra encantaram-se com canindés e araras, tuins e sabiás, maracanãs e “querejuás todos azuis de cor finíssima…”. Nós esquecemos tudo: quando um poeta fala num pássaro, o leitor pensa que é literatura…
        Mas há um passarinho chamado bem-te-vi. Creio que ele está para acabar.
        E é pena, pois com esse nome que tem – e que é a sua própria voz – devia estar em todas as repartições e outros lugares, numa elegante gaiola, para no momento oportuno anunciar a sua presença. Seria um sobressalto providencial e sob forma tão inocente e agradável que ninguém se aborrecia.
        O que me leva a crer no desaparecimento do bem-te-vi são as mudanças que começo a observar na sua voz. O ano passado, aqui nas mangueiras dos meus simpáticos vizinhos, apareceu um bem-te-vi caprichoso, muito moderno, que se recusava a articular as três sílabas tradicionais do seu nome, limitando-se a gritar: “…te-vi! …te-vi!”, com a maior irreverência gramatical. Como dizem que as últimas gerações andam muito rebeldes e novidadeiras, achei natural que também os passarinhos estivessem contagiados pelo novo estilo humano.
        Logo a seguir, o mesmo passarinho, ou seu filho ou seu irmão – como posso saber, com a folhagem cerrada da mangueira? – animou-se a uma audácia maior.
        Não quis saber das duas sílabas, e começou a gritar daqui, dali, invisível e brincalhão: “…Vi! …Vi! …Vi!”, o que me pareceu divertido, nesta era do twist.
        O tempo passou, o bem-te-vi deve ter viajado, talvez seja cosmonauta, talvez tenha voado com o seu team de futebol – que se há de pensar de bem-te-vis assim progressistas, que rompem com o canto da família e mudam os lemas dos seus brasões? Talvez tenha sido atacado por esses crioulos fortes que agora saem do mato de repente e disparam sem razão nenhuma no primeiro indivíduo que encontram.
        Mas hoje ouvi um bem-te-vi cantar. E cantava asim; “Bem-bem-bem-bem… te-vi!” Pensei: ‘É uma nova escola poética que se eleva da mangueira! …” Depois, o passarinho mudou. E fez: “Bem-te-te-te … vi!” Tornei a refletir: “Deve estar estudando a sua cartilha… Estará soletrando…”. E o passarinho: “Bem-bem-bem … te-te-te … vi-vi-vi!”
        Os ornitólogos devem saber se isso é caso comum ou raro. Eu jamais tinha ouvido uma coisa assim! Mas as crianças, que sabem mais do que eu, e vão diretas aos assuntos, ouviram, pensaram e disseram: “Que engraçado! Um bem-te-vi gago!”
        (É: talvez não seja mesmo exotismo, mas apenas gagueira…!)

                                                           (Cecília Meireles)


Vocabulário:
Ornitólogo – aquele que estuda as aves
Querejuá – nome de pássaro de plumas de cores vivas e variadas, comum na região litorânea da Bahia e Rio de Janeiro. Também conhecido como cotinga, catingá, crejoá, quereiná e quiruá.
Twist – dança de origem americana, da década de 1960.
Team – palavra da língua inglesa traduzida em português como “time”, isto é, grupo esportivo.

Entendendo o texto:
Após a leitura do texto, responda às questões abaixo:
A – Marque a alternativa que substitui a expressão que está em destaque nas frases:
01 – Muita gente acha que passarinho seja apenas antiguidade de museu.
a.(   ) coisa que não existe mais             b.(   ) coisa inútil
c.(X) coisa muita antiga                          d.(   ) coisa já esquecida.

02 – O canto do bem-te-vi seria um sobressalto providencial em todas as repartições.
a.(   ) um grande susto                            
b.(   ) uma surpresa agradável
c.(   ) um aviso atrasado                         
d.(X) um acontecimento inesperado e agradável.

03 – Um bem-te-vi caprichoso se recusava articular seu nome completo.
a.(   ) dizer        b.(X) pronunciar      c.(   ) cantar         d.(   ) explicar.

04 – O passarinho limita-se a gritar: “…te-vi! …”
a.(   ) começa a                      b.(   ) contenta-se com             
c.(   ) excede-se em               d.(X) restringe-se a.

05 – O bem-te-vi gritava com a maior irreverência gramatical.
a.(X) desrespeito                   b.(   ) prudência       
c.(   ) correção                       d.(   ) despreocupação.

06 – O bem-te-vi devia estar em todas as repartições para no momento oportuno anunciar sua presença.
a.(   ) marcado                           b.(X) favorável     
c.(   ) impróprio                          d.(   ) previsto.
07 – Como dizem que as últimas gerações andam muito rebeldes e novidadeiras achei natural seu comportamento.
a.(X) revoltadas               b.(   ) precipitadas      
c.(   ) descuidadas            d.(   ) impacientes.

B – Assinale a alternativa adequada para completar as frases seguintes, de acordo com o texto:
01 – No texto, o fato é narrado sobretudo com:
a.(   ) ironia                        b.(   ) tristeza     
c.(X) bom humor               d.(   ) saudosismo.

02 – No primeiro parágrafo do texto, diz-se que a relação entre o homem e a natureza será:
a.(X) cada vez menos frequente            
b.(   ) sempre importante
c.(   ) um privilégio para poucos              
d.(   ) coisa esquecida e desnecessária.

03 - Em repartições públicas, canto do bem-te-vi seria uma agradável surpresa porque:
a.(   ) alegraria os funcionários no trabalho
b.(X) lembraria a natureza num local caracteristicamente urbano
c.(   ) distrairia funcionários e visitantes
d.(   ) despertaria a curiosidade das pessoas da cidade.

04 – O fato interessante que o texto mostra a respeito do passarinho é:
a.(   ) seu aparecimento no quintal dos vizinhos
b.(   ) sua viagem com um time de futebol
c.(X) a mudança observada no seu canto
d.(   ) a mudança nas cores de suas penas.

05 – O canto “…te-vi! …te-vi! …” seria uma irreverência gramatical porque:
a.(   ) o verbo deve concordar com o sujeito
b.(X) não se deve começar uma frase com pronome pessoal oblique
c.(   ) deve-se pronunciar corretamente as palavras
d.(   ) deve-se iniciar frases sempre com maiúsculas.

C – Assinale mais de uma alternativa de acordo com o texto:
06 - O texto sugere várias causas para o comportamento do bem-te-vi, entre elas:
a.(   ) o bem-te-vi estava cansado
b.(X) estava soletrando sua cartilha
c.(   ) estava brincando
d.(X) o passarinho era gago
e.(X) estava fazendo poesia nova
f.(   ) era um passarinho preguiçoso.

D – Para você pensar e tirar suas conclusões.
01 – O texto fala sobre a probabilidade de haver passarinhos nas repartições públicas. É possível isso acontecer atualmente?
(   ) sim    (X) não       Por quê?
      Resposta pessoal.  Por lei brasileira é proibido ter em domicílio doméstico ou ter enjaulado animais silvestres. Se a lei proíbe tê-los em casa, nas repartições públicas é ainda mais impossível de tê-los. Lembrando também que o habitat natural dos animais silvestres é a mata, onde devem ficar livres para ir e vir. Aliás, o direito de ir e vir dos brasileiros é também aplicado aos animais silvestres que vivem no Brasil.




CRÔNICA: A CONSULTA - DOMINGOS PELLEGRINI - COM GABARITO

           CRÔNICA: A CONSULTA 
                                 Domingos Pellegrini


  Doutor: Bom dia. (Examina rapidamente a ficha de Coitado, que uma      secretária trouxe) Coitado de Tal – confere, seu Coitado?
        Coitado: Sou eu mesmo, doutor.
        Doutor: Quarenta e dois anos, casado, rua 1º de Maio – confere?
        Coitado: Confere, doutor, sou eu mesmo.
        Doutor: Porque tem muito Coitado de Tal no fichário, pode confundir.
        Coitado: Mas por falar em coitado, doutor, eu vim aqui porque…
      Doutor: O senhor pode ficar à vontade. (Faz Coitado sentar ao lado de uma máquina registradora) Muito bem, vamos com isso – o que é que o senhor sente, seu Coitado?
      Coitado: Bom, doutor, eu sinto que estou morrendo.
     Doutor: (Vai anotando na ficha) Muito bem, então o senhor sente que está morrendo. Todo dia, seu Coitado?
        Coitado: Todo dia, doutor. Tem dia que eu acho até que já morri, de tanta dor e fraqueza.
        Doutor: (Anotando) Acha que já morreu, muito bem. O senhor precisa ver um médico da cabeça, seu Coitado, um psiquiatra. Vou dar o endereço de um para o senhor. (Aciona a manivela da caixa registradora, tira um cartão da gaveta) O senhor entregue a ele este cartão, diga que fui eu quem mandei.
        Coitado: Muito obrigado, doutor – mas o senhor acha que o caso é na cabeça?
        Doutor: Não se incomode, seu Coitado, que o senhor já morreu. Mas me diga: e a urina?
        Coitado: Pois é, doutor, a urina…
        Doutor: Era o que eu pensava – vou indicar pro senhor um especialista em urina, um urologista. (Retira mais um cartão da registradora, entrega a Coitado) E as tonturas, seu Coitado?
        Coitado: Que tontura, doutor?
        Doutor: O senhor não disse que sente umas tonturas?
        Coitado: Deve ter sido outro coitado, eu não, doutor.
        Doutor: O senhor não deve esconder nada do médico, eu estou aqui para ajudar o senhor.
        Coitado: Pois é, doutor, mas…
    Doutor: Se o senhor me sonega alguma informação eu não posso estruturar o quadro clínico simplesmente porque foi solapada a anamnese, e o levantamento sindromático é base do quadro clínico. Toda a moderna medicina está pautada no relacionamento médico-paciente, entre os quais a confiança é fundamental.
        Coitado: O senhor tem razão, doutor, eu… eu não sabia que estava tão ruim.
        Doutor: Então só me responda sim ou não, por favor.
        Coitado: Tá certo, doutor, mas é que com tanta pergunta eu fico até meio tonto…
        Doutor: Ah! Que tipo de tontura, seu Coitado?
        Coitado: O senhor quem sabe, ué, doutor.
        Doutor: Não, não sei, seu Coitado, isto requer um especialista – vou indicar para o senhor um ótimo neurologista. (Retira um cartão da registradora, entrega a Coitado) E o apetite vai bem?
        Coitado: O meu, doutor? Nem me fale…
      Doutor: Não vou falar nada mesmo, seu Coitado, quem vai falar é um especialista – vou indicar um ótimo apetitista para o senhor. (Outro cartão)
        Coitado: Muito obrigado, doutor, mas o que eu sinto mesmo…
   Doutor: Com um bom tratamento o senhor não vai sentir mais nada. (Rapidamente levanta a camisa de Coitado e lhe ausculta as costas com o estetoscópio) Respire fundo. (Entra a enfermeira)
        Enfermeira: Telefone da clínica, doutor.
     Doutor: (Transfere o estetoscópio para o peito de Coitado) O senhor segura isto aqui no peito, assim, e vai respirando fundo. (O doutor sai. Coitado fica segurando o estetoscópio no peito e respirando fundo. Depois de algum tempo, o doutor volta, retira o estetoscópio)
        Doutor: Muito bem, seu Coitado. (Anota na ficha) Abra a boca e os olhos bem abertos. (Examina boca e olhos ao mesmo tempo) Deita. (Faz Coitado deitar rapidamente, lhe enfia o termômetro na boca, enquanto lhe apalpa a barriga e lhe dá pancadinhas com os dedos e marteladas nos joelhos) Sente alguma coisa, seu Coitado? Dói aqui? O que é que o senhor sente quando aperto aqui? E me diga uma coisa: o senhor bebe muito?
        Coitado: Eu…
        Doutor: Então o senhor controla a bebida, seu Coitado, controla para seu próprio bem. Pode levantar.
        Enfermeira: (Entrando rapidamente de novo) Estão chamando da clínica, doutor.
        Doutor: Vou receitar uns medicamentos (vai escrevendo a receita), mas o senhor não deve deixar de seguir as outras orientações.
        Coitado: Mas, doutor, eu queria saber…
       Doutor: O senhor não se incomode que isso vai passar, na vida tudo passa. O senhor volte aqui me trazendo um relatório de cada um dos especialistas que indiquei, e mais resultados de raio-x e dos outros exames que eles pedirem, de sangue, de urina, de fezes, eletroencefalograma, etc.
        Coitado: Mas até lá eu posso estar morto, doutor…!
        Doutor: O senhor já morreu demais, seu Coitado.

                                                                            Domingos Pellegrini.

     Entendendo o texto:
     Após a leitura do texto teatral, responda a estas questões:
    01 – Que diferença há entre doutor e médico?
      Doutor – aquele que se formou numa universidade e recebeu a mais alta graduação após haver defendido uma tese (doutorado).
      Médico – aquele que estudou qualquer área da medicina e a exerce.

  02 – Nas frases abaixo foi usada a palavra “simpatia” com significados    diferentes. Dê o significado da palavra usada em cada frase.
a)   simpatia dessa mulher me faz esquecer que ela é muito feia.
Atitude amável no trato com as pessoas, tendência instintiva de aceitação entre as pessoas.

b)   Tomara que dê certo a simpatia que ela ensinou.
Ritual para prevenir ou curar enfermidades ou atrair objeto de desejo.

  03 – No texto teatral, há dois instrumentos médicos: estetoscópio e termômetro. Para serve cada um deles?
      Estetoscópio – serve para ampliar e ouvir sons internos do corpo humano como batidas do coração e a entrada e saída do ar nos pulmões.
      Termômetro – serve para medir a temperatura interno do corpo humano.

 04 – O paciente não entendeu a fala do médico e supôs que, pelo palavreado, estivesse muito mal. Como você daria essa mesma explicação de modo que o paciente entendesse?
      Resposta pessoal. A resposta mais óbvia é que se empregaria linguagem menos técnica e mais acessível à compreensão do paciente.

  05 – A medicina atual é altamente especializada e, por isso, muita gente se  atrapalha na escolha de médico. Complete as lacunas com a palavra correta  da especialidade médica a que se refere a frase:
   a) Eu tive uns problemas de urina e fui a um Urologista.
  b) Minha prima teve umas complicações próprias de mulher e procurou um   ginecologista.
  c) Meu sobrinho teve uns problemas nos pulmões e consultou um pneumologista.
  d) Eu estou com uns problemas de vista. Vou ao oftalmologista.
  e) Estou com meu coração batendo muito depressa e sempre me dá falta de  ar. Que você aconselha? Vá a um cardiologista.
 f) Estou com problemas de falta de dinheiro. O que eu faço? Ora, vá… (trabalhar!)

  06 – Podemos afirmar que o paciente procurou o médico tão logo percebeu sintomas de doença? Explique.
      Não. Porque o seu Coitado afirmou que sentia que estava morrendo e todo dia sentia dor e fraqueza, sinal que esses sintomas já aconteciam a algum tempo.

07 – Dando ao paciente o nome de Coitado de Tal, o autor pretendeu:
      a. (   ) demonstrar que as tentativas de cura fora da medicina maltratam as pessoas.
      b. (X) fazê-lo representar qualquer pessoa, sem lhe atribuir individualidade.
      c. (  ) evitar que o nome coincidisse com o de qualquer outra pessoa e a melindrasse.
      d. (   ) deixar claro que todos os doentes são iguais e merecem tratamentos iguais.

08– Que especialistas o médico indicou ao paciente?
      Um psiquiatra, um urologista, um neurologista, um apetitista.

09 – O Coitado de Tal disse: “eu não sabia que estava tão ruim”. O que o fez pensar assim?
      A linguagem muito técnica usada pelo médico, a qual o paciente não entendia. A explicação muito longa e confusa levou o paciente a achar que estava muito doente.

  10 – A enfermeira interrompeu a consulta duas vezes para anunciar chamado da clínica. O modo de agir do médico nas duas ocasiões insinua que ele:
a. (X) resolvia os casos de sua clínica por telefone, em horário de atendimento aos pacientes.
b. (   ) dava prioridade a quem o procurava pessoalmente.
c. (   ) considerava inoportunos os telefonemas da clínica.
d. (   ) se preocupava muito mais com sua clínica particular.

  11 – A caixa registradora é um elemento estranho a um consultório médico. Por que o autor a incluiu no cenário?
      Para indicar que a prioridade do médico era financeira e não a saúde dos pacientes.

  12 – Na sua opinião, a medicina é um comércio ou apenas há médicos que fazem da medicina um comércio? Explique.
      Resposta pessoal. Qualquer que seja a resposta, deverá apresentar argumentos plausíveis à afirmação, isto é, situações que comprovam a afirmação.