domingo, 28 de junho de 2026

CONTO: O ESPELHO - MACHADO DE ASSIS - COM GABARITO

 Conto: O espelho

          Machado de Assis

 

        Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de alta transcendência, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa, a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora. Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas, resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas do universo.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj3wJU_GhPWbvg_QEdPljA8jbpS_hRiV3zoVfWkdzwhArbQ8FeTgNdZTGOXXgvVW0Mmxpfu-O83dvP6OkLJ2wGAaMvR0cIzJQ0YLi3V53auyqLV9Dc8prOxyVnkugRyh96vnYf-WcHQYES2n3Nm-hB2u_Awt4-swe2Sv3c45s89BxrqqFYhyphenhypheno6b-O_ZJiA/s320/71zQ+0s3oBL._UF1000,1000_QL80_.jpg
 

        Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os que falavam; mas, além deles, havia na sala um quinto personagem, calado, pensando, cochilando, cuja espórtula no debate não passava de um ou outro resmungo de aprovação. Esse homem tinha a mesma idade dos companheiros, entre quarenta e cinquenta anos, era provinciano, capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo que a discussão é a forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem, como uma herança bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição espiritual e eterna. Como desse esta mesma resposta naquela noite, contestou-lha um dos presentes, e desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um instante, e respondeu:

        -- Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.

        Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu que este casmurro usou da palavra, e não dois ou três minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que dividiu radicalmente os quatro amigos.

        Cada cabeça, cada sentença; não só o acordo, mas a mesma discussão tornou-se difícil, senão impossível, pela multiplicidade das questões que se deduziram do tronco principal e um pouco, talvez, pela inconsistência dos pareceres. Um dos argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião, – uma conjetura, ao menos.

        -- Nem conjetura, nem opinião, redarguiu ele; uma ou outra pode dar lugar a dissentimento, e, como sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas...

        -- Duas?

        -- Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para entro... Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; –  e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. Shylock, por exemplo. A alma exterior aquele judeu eram os seus ducados; perdê-los equivalia a morrer. "Nunca mais verei o meu ouro, diz ele a Tubal; é um punhal que me enterras no coração." Vejam bem esta frase; a perda dos ducados, alma exterior, era a morte para ele. Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma...

        -- Não?

        -- Não, senhor; muda de natureza e de estado. Não aludo a certas almas absorventes, como a pátria, com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas enérgicas e exclusivas; mas há outras, embora enérgicas, de natureza mudável. Há cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde uma provedoria de irmandade, suponhamos. Pela minha parte, conheço uma senhora, – na verdade, gentilíssima, – que muda de alma exterior cinco, seis vezes por ano. Durante a estação lírica é a ópera; cessando a estação, a alma exterior substitui-se por outra: um concerto, um baile do Cassino, a rua do Ouvidor, Petrópolis...

        -- Perdão; essa senhora quem é?

        -- Essa senhora é parenta do diabo, e tem o mesmo nome; chama-se Legião... E assim outros mais casos. Eu mesmo tenho experimentado dessas trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me ao episódio de que lhes falei. Um episódio dos meus vinte e cinco anos...

        Os quatro companheiros, ansiosos de ouvir o caso prometido, esqueceram a controvérsia.

        Santa curiosidade! tu não és só a alma da civilização, és também o pomo da concórdia, fruta divina, de outro sabor que não aquele pomo da mitologia. A sala, até há pouco ruidosa de física e metafísica, é agora um mar morto; todos os olhos estão no Jacobina, que conserta a ponta do charuto, recolhendo as memórias. Eis aqui como ele começou a narração:

        -- Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da Guarda Nacional. Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa. Minha mãe ficou tão orgulhosa! tão contente! Chamava-me o seu alferes. Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura. Na vila, note-se bem, houve alguns despeitados; choro e ranger de dentes, como na Escritura; e o motivo não foi outro senão que o posto tinha muitos candidatos e

que esses perderam. Suponho também que uma parte do desgosto foi inteiramente gratuita: nasceu da simples distinção. Lembra-me de alguns rapazes, que se davam comigo, e passaram a olhar-me de revés, durante algum tempo. Em compensação, tive muitas pessoas

que ficaram satisfeitas com a nomeação; e a prova é que todo o fardamento me foi dado por amigos... Vai então uma das minhas tias, D. Marcolina, viúva do Capitão Peçanha, que morava a muitas léguas da vila, num sítio escuso e solitário, desejou ver-me, e pediu que fosse ter com ela e levasse a farda. Fui, acompanhado de um pajem, que daí a dias tornou à vila, porque a tia Marcolina, apenas me pilhou no sítio, escreveu a minha mãe dizendo que não me soltava antes de um mês, pelo menos. E abraçava-me! Chamava-me também o seu alferes. Achava-me um rapagão bonito. Como era um tanto patusca, chegou a confessar que tinha inveja da moça que houvesse de ser minha mulher. Jurava que em toda a província não havia outro que me pusesse o pé adiante. E sempre alferes; era alferes para cá, alferes para lá, alferes a toda a hora. Eu pedia-lhe que me chamasse Joãozinho, como dantes; e ela abanava a cabeça, bradando que não, que era o "senhor alferes". Um cunhado dela, irmão do finado Peçanha, que ali morava, não me chamava de outra maneira. Era o "senhor alferes", não por gracejo, mas a sério, e à vista dos escravos, que naturalmente foram pelo mesmo caminho. Na mesa tinha eu o melhor lugar, e era o primeiro servido. Não imaginam. Se lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnífica, que destoava do resto da casa, cuja mobília era modesta e simples... Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe, que o comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de D. João VI. Não sei o que havia nisso de verdade; era a tradição. O espelho estava naturalmente muito velho; mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em parte pelo tempo, uns delfins esculpidos nos ângulos superiores da moldura, uns enfeites de madrepérola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas bom...

        -- Espelho grande?

        -- Grande. E foi, como digo, uma enorme fineza, porque o espelho estava na sala; era a melhor peça da casa. Mas não houve forças que a demovessem do propósito; respondia que não fazia falta, que era só por algumas semanas, e finalmente que o "senhor alferes" merecia muito mais. O certo é que todas essas coisas, carinhos, atenções, obséquios, fizeram em mim uma transformação, que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou. Imaginam, creio eu?

        -- Não.

        -- O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade. Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem. A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado. Custa-lhes acreditar, não?

        -- Custa-me até entender, respondeu um dos ouvintes.

        -- Vai entender. Os fatos explicarão melhor os sentimentos: os fatos são tudo. A melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada; e, se bem me lembro, um filósofo antigo demonstrou o movimento andando. Vamos aos fatos. Vamos ver como, ao tempo em que a consciência do homem se obliterava, a do alferes tornava-se viva e intensa. As dores humanas, as alegrias humanas, se eram só isso, mal obtinham de mim uma compaixão apática ou um sorriso de favor. No fim de três semanas, era outro, totalmente outro. Era exclusivamente alferes. Ora, um dia recebeu a tia Marcolina uma notícia grave; uma de suas filhas, casada com um lavrador residente dali a cinco léguas, estava mal e à morte. “Adeus, sobrinho! Adeus, alferes!” Era mãe extremosa, armou logo uma viagem, pediu ao cunhado que fosse com ela, e a mim que tomasse conta do sítio. Creio que, se não fosse a aflição, disporia o contrário; deixaria o cunhado e iria comigo. Mas o certo é que fiquei só, com os poucos escravos da casa. Confesso-lhes que desde logo senti uma grande opressão, alguma coisa semelhante ao efeito de quatro paredes de um cárcere, subitamente levantadas em torno de mim. Era a alma exterior que se reduzia; estava agora limitada a alguns espíritos boçais. O alferes continuava a dominar em mim, embora a vida fosse menos intensa, e a consciência mais débil. Os escravos punham uma nota de humildade nas suas cortesias, que de certa maneira compensava a afeição dos parentes e a intimidade doméstica interrompida. Notei mesmo, naquela noite, que eles redobravam de respeito, de alegria, de protestos. Nhô alferes, de minuto a minuto; nhô alferes é muito bonito; nhô alferes há de ser coronel; nhô alferes há de casar com moça bonita, filha de general; um concerto de louvores e profecias, que me deixou extático. Ah! pérfidos! mal podia eu suspeitar a intenção secreta dos malvados.

        -- Matá-lo?

        -- Antes assim fosse.

        -- Coisa pior?

        -- Ouçam-me. Na manhã seguinte achei-me só. Os velhacos, seduzidos por outros, ou de movimento próprio, tinham resolvido fugir durante a noite; e assim fizeram. Achei-me só, sem mais ninguém, entre quatro paredes, diante do terreiro deserto e da roça abandonada. Nenhum fôlego humano. Corri a casa toda, a senzala, tudo; ninguém, um molequinho que fosse. Galos e galinhas tão-somente, um par de mulas, que filosofavam a vida, sacudindo as moscas, e três bois. Os mesmos cães foram levados pelos escravos. Nenhum ente humano. Parece-lhes que isto era melhor do que ter morrido? era pior. Não por medo; juro-lhes que não tinha medo; era um pouco atrevidinho, tanto que não senti nada, durante as primeiras horas. Fiquei triste por causa do dano causado à tia Marcolina; fiquei também um pouco perplexo, não sabendo se devia ir ter com ela, para lhe dar a triste notícia, ou ficar tomando conta da casa. Adotei o segundo alvitre, para não desamparar a casa, e porque, se a minha prima enferma estava mal, eu ia somente aumentar a dor da mãe, sem remédio nenhum; finalmente, esperei que o irmão do tio Peçanha voltasse naquele dia ou no outro, visto que tinha saído havia já trinta e seis horas. Mas a manhã passou sem vestígio dele; à tarde comecei a sentir a sensação como de pessoa que houvesse perdido toda a ação nervosa, e não tivesse consciência da ação muscular. O irmão do tio Peçanha não voltou nesse dia, nem no outro, nem em toda aquela semana. Minha solidão tomou proporções enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o sol abrasou a terra com uma obstinação mais cansativa. As horas batiam de século a século no velho relógio da sala, cuja pêndula tic-tac, tic-tac, feria-me a alma interior, como um piparote contínuo da eternidade. Quando, muitos anos depois, li uma poesia americana, creio que de Longfellow, e topei este famoso estribilho: Never, for ever! – For ever, never! confesso-lhes que tive um calafrio: recordei-me daqueles dias medonhos. Era justamente assim que fazia o relógio da tia Marcolina: – Never, for ever! – For ever, never! Não eram golpes de pêndula, era um diálogo do abismo, um cochicho do nada. E então de noite! Não que a noite fosse mais silenciosa. O silêncio era o mesmo que de dia. Mas a noite era a sombra, era a solidão ainda mais estreita, ou mais larga. Tic-tac, tic-tac. Ninguém, nas salas, na varanda, nos corredores, no terreiro, ninguém em parte nenhuma... Riem-se?

        -- Sim, parece que tinha um pouco de medo.

        -- Oh! fora bom se eu pudesse ter medo! Viveria. Mas o característico daquela situação é que eu nem sequer podia ter medo, isto é, o medo vulgarmente entendido. Tinha uma sensação inexplicável. Era como um defunto andando, um sonâmbulo, um boneco mecânico. Dormindo, era outra coisa. O sono dava-me alívio, não pela razão comum de ser irmão da morte, mas por outra. Acho que posso explicar assim esse fenômeno: – o sono, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava atuar a alma interior. Nos sonhos, fardava-me orgulhosamente, no meio da família e dos amigos, que me elogiavam o garbo, que me chamavam alferes; vinha um amigo de nossa casa, e prometia-me o posto de tenente, outro o de capitão ou major; e tudo isso fazia-me viver. Mas quando acordava, dia claro, esvaía-se com o sono a consciência do meu ser novo e único – porque a alma interior perdia a ação exclusiva, e ficava dependente da outra, que teimava em não tornar... Não tornava. Eu saía fora, a um lado e outro, a ver se descobria algum sinal de regresso. Soeur Anne, soeur Anne, ne vois-tu rien venir? Nada, coisa nenhuma; tal qual como na lenda francesa. Nada mais do que a poeira da estrada e o capinzal dos morros. Voltava para casa, nervoso, desesperado, estirava-me no canapé da sala. Tic-tac, tic-tac. Levantava-me, passeava, tamborilava nos vidros das janelas, assobiava. Em certa ocasião lembrei-me de escrever alguma coisa, um artigo político, um romance, uma ode; não escolhi nada definitivamente; sentei-me e tracei no papel algumas palavras e frases soltas, para intercalar no estilo. Mas o estilo, como tia Marcolina, deixava-se estar. Soeur Anne, soeur Anne... Coisa nenhuma. Quando muito via negrejar a tinta e alvejar o papel.

        -- Mas não comia?

        -- Comia mal, frutas, farinha, conservas, algumas raízes tostadas ao fogo, mas suportaria tudo alegremente, se não fora a terrível situação moral em que me achava. Recitava versos, discursos, trechos latinos, liras de Gonzaga, oitavas de Camões, décimas, uma antologia em trinta volumes. As vezes fazia ginástica; outra dava beliscões nas pernas; mas o efeito era só uma sensação física de dor ou de cansaço, e mais nada. Tudo silêncio, um silêncio vasto, enorme, infinito, apenas sublinhado pelo eterno tic-tac da pêndula. Tic-tac, tic-tac... Na verdade, era de enlouquecer. Vão ouvir coisa pior. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, naquela casa solitária; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradição humana, porque no fim de oito dias deu-me na veneta de olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra. A realidade das leis físicas não permite negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação. Então tive medo; atribuí o fenômeno à excitação nervosa em que andava; receei ficar mais tempo, e enlouquecer. – Vou-me embora, disse comigo. E levantei o braço com gesto de mau humor, e ao mesmo tempo de decisão, olhando para o vidro; o gesto lá estava, mas disperso, esgaçado, mutilado... Entrei a vestir-me, murmurando comigo, tossindo sem tosse, sacudindo a roupa com estrépito, afligindo-me a frio com os botões, para dizer alguma coisa. De quando em quando, olhava furtivamente para o espelho; a imagem era a mesma difusão de linhas, a mesma decomposição de contornos... Continuei a vestir-me. Subitamente por uma inspiração inexplicável, por um impulso sem cálculo, lembrou-me... Se forem capazes de adivinhar qual foi a minha ideia...

        -- Diga.

        -- Estava a olhar para o vidro, com uma persistência de desesperado, contemplando as próprias feições derramadas e inacabadas, uma nuvem de linhas soltas, informes, quando tive o pensamento... Não, não são capazes de adivinhar.

        -- Mas, diga, diga.

        -- Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e... não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la recolhida no espelho. Imaginai um homem que, pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver, distingue as pessoas dos objetos, mas não conhece individualmente uns nem outros; enfim, sabe que este é Fulano, aquele é Sicrano; aqui está uma cadeira, ali um sofá. Tudo volta ao que era antes do sono. Assim foi comigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ente animado. Daí em diante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo olhando, meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra vez. Com este regime pude atravessar mais seis dias de solidão sem os sentir...

        Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas.

 

Fonte: ASSIS, Machado de. O ESPELHO. Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar 1994. v. II.

 

Entendendo o conto:

 

01 – Qual é a tese principal defendida pelo personagem Jacobina a respeito da natureza humana?

      Jacobina defende que o ser humano não possui apenas uma alma, mas sim duas. A primeira é a "alma interior", que olha de dentro para fora. A segunda é a "alma exterior", que olha de fora para dentro. Segundo ele, as duas metades se completam para formar o indivíduo e a perda da alma exterior pode esvaziar ou até extinguir a própria existência do homem.

 

02 – O que pode constituir a "alma exterior" de uma pessoa, de acordo com a teoria de Jacobina?

      A alma exterior é extremamente variável e moldável. Ela pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto ou até uma operação. Como exemplos, Jacobina cita que a alma exterior de um judeu Shylock eram seus ducados, a de Camões era a pátria, a de César era o poder, e que para outras pessoas pode ser um botão de camisa, a ópera, um jogo de cartas ou um par de botas.

 

03 – Qual acontecimento na juventude de Jacobina mudou radicalmente a percepção que ele e os outros tinham de sua identidade?

      Aos 25 anos, sendo jovem e pobre, Jacobina foi nomeado alferes da Guarda Nacional. Esse posto gerou enorme orgulho e alegria em sua mãe e parentes, além de despeito em alguns rapazes da vila. A partir de então, todos passaram a tratá-lo exclusivamente pelo título de "senhor alferes", fazendo com que a vaidade do posto (a nova alma exterior) eliminasse progressivamente a sua antiga natureza humana original.

 

04 – Por que a tia Marcolina decidiu colocar um espelho grande e luxuoso no quarto de Jacobina?

      Foi uma demonstração de grande agrado, respeito e entusiasmo pela nomeação do sobrinho. O espelho era a melhor peça da casa, uma obra rica e magnífica com moldura de ouro e detalhes em madrepérola que destoava do restante da mobília simples. A tradição dizia que o objeto fora comprado de uma fidalga que viera de Portugal com a corte de Dom João VI em 1808.

 

05 – Como Jacobina acabou ficando completamente isolado no sítio de sua tia?

      Cerca de três semanas após sua chegada, tia Marcolina recebeu a notícia de que uma de suas filhas estava à beira da morte. Ela partiu às pressas levando o cunhado e deixando Jacobina encarregado de tomar conta do sítio. Na noite seguinte à partida dos tios, os escravos da propriedade decidiram fugir juntos, levando inclusive os cães e deixando Jacobina totalmente sozinho, sem nenhum outro ser humano por perto.

 

06 – O que Jacobina enxergava quando olhou pela primeira vez no espelho após passar uma semana em completa solidão?

        Ele não viu sua figura de forma nítida e inteira. A imagem projetada pelo vidro aparecia vaga, esfumada, difusa — o que ele descreve como uma "sombra de sombra" ou uma "nuvem de linhas soltas". Embora as leis físicas reproduzissem seus contornos reais, a sensação de esvaziamento de sua alma exterior fez com que ele se sentisse incapaz de enxergar a própria identidade humana, gerando-lhe medo de enlouquecer.

 

07 – Como Jacobina conseguiu resolver o problema da imagem difusa no espelho e sobreviver ao restante dos dias de solidão?

      Por um impulso inexplicável, ele teve a ideia de vestir a sua farda de alferes completa. Ao olhar novamente para o espelho fardado, o vidro reproduziu instantaneamente sua figura integral, sem nenhuma linha borrada. Ele percebeu que sua alma exterior, que havia sumido com as pessoas do sítio, estava recolhida na farda. A partir daí, ele passou a vestir-se de alferes por duas ou três horas todos os dias diante do espelho para recuperar a própria existência e suportar o isolamento.

 

ORAÇÕES SUBORDINADAS VI - EXERCÍCIOS - COM GABARITO

 Orações Subordinadas VI – Exercícios

 

01 – Esse texto classifica-se como:

a) reportagem   

b) publicidade          

c) notícia               

d) carta.

 

02 – Qual é o objetivo desse texto?

      Divulgar a promoção de torpedos da Claro.

 

03 – Como funciona a promoção?

      Todos os sábados os torpedos têm 50% de desconto, saindo a R$ 0,14.

 

04 – A promoção apresentada funciona em todos os dias da semana? Explique.

      Não, funciona apenas aos sábados.

 

05 – No período “Mandar um Claro torpedo é como dar beijo na boca”, a oração em destaque tem como função comparar o ato de mandar torpedo com o ato de beijar. Logo, classifica-se como subordinada adverbial:

(  ) Final          

(X) Comparativa       

(  ) Conformativa.     

(  ) Condicional.

 

06 – Em “Quando você começa, não quer mais parar”, a oração em destaque indica o momento em que ocorre o fato apresentado na oração principal. Portanto, classifica-se como subordinada adverbial:

(X) Temporal              

(  ) Proporcional         

(  ) Consecutiva      

(  ) Causal.

 

07 – Transforme as frases a seguir em períodos compostos por subordinação, relacionando-as por meio da conjunção subordinativa adverbial indicada entre parênteses, conforme o exemplo:

Exemplo: Eu me formei e me mudei pra cá. (depois)

                Depois que eu me formei, mudei-me para cá.

 

a) Nosso ônibus se adiantou e chegamos cedo. (porque)

      Chegamos cedo porque nosso ônibus se adiantou.

b) Os fornos de micro-ondas são práticos e muitas pessoas os compram. (tão... que)

      Os fornos de micro-ondas são tão práticos que muitas pessoas os compram.

c) Termine sua tarefa e você irá ao jogo de futebol. (desde que)

      Você irá ao jogo de futebol desde que termine sua tarefa.

d) Sua moto é econômica e a minha também é. (tão... quanto)

      Sua moto é tão econômica quanto a minha.

e) A hora da prova se aproximava e a tensão aumentava. (à medida que).

      À medida que a hora da prova se aproximava, a tensão aumentava.

 

TRANSITIVIDADE VERBAL - CRUZADINHA - COM GABARITO

 Transitividade Verbal – Cruzadinha

 

        Complete a cruzadinha de acordo com a matéria estudada, seguindo as pistas:

 

1 – Em “Fiz uma casinha de madeira”, o termo em destaque acrescenta uma informação à palavra casinha, mas não é essencial para a compreensão da frase. Logo é um...

2 – Na frase “Não assisti ao filme de ontem”, o verbo em destaque liga-se ao seu complemento por meio de uma preposição. Sendo assim, esse verbo é...

3 – O complemento do verbo “assisti” na frase anterior (ao filme) tem preposição, por isso é chamado de...

4 – Em “Ganhei vários presentes”, o verbo “ganhei” liga-se ao sem complemento sem preposição, de forma direta. Portanto esse verbo é...

5 – Na frase anterior, o complemento do verbo “ganhei” (vários presentes) não tem preposição. Quando o complemento do verbo não tem preposição, ele é chamado de...

6 – Se um verbo não necessita de complemento (como em “Ele dormiu”) ou tem um adjunto adverbial – palavra que indica tempo, modo, lugar ou intensidade (como em “Ele dormiu cedo” ou “Ele dormiu demais”), ele é um verbo...

7 – Em “Venha aqui, menino”, o termo em destaque é usado para chamar o interlocutor. Esse termo é chamado de ...

8 – Na frase “A professora de português, Ana Carolina, raramente falta”, o termo em destaque explica quem é a professora de português. Esse termo explicativo na frase é chamado de ...

9 – Em “Tenha fé em Deus”, o termo destacado completa o sentido da palavra fé e liga-se a essa palavra por meio de uma preposição. Logo, esse termo é um exemplo de... 

 

Respostas:

 


HISTÓRIA: JECA TATU - FRAGMENTO - MONTEIRO LOBATO - COM GABARITO

 História: Jeca Tatu – Fragmento

            Monteiro Lobato

 

        Jeca Tatu é uma das figuras geradas pelo escritor Monteiro Lobato, muito conhecido por suas histórias infanto-juvenis, as quais giram em torno dos famosos personagens do Sítio do Pica-pau Amarelo. Algumas de suas obras, porém, são de cunho social, de natureza crítica e denunciam questões como o contexto arcaico do universo rural e o descaso com doenças como o amarelão, então sério problema de saúde pública.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgd3NcYvsD1s84NHQMnKCnZniWRSYQoeW4ifVH0WFmj5GJq21JvaSujwWE37JJ5-KhStzU5Pxp7b9kwhZRD7o2NJ1XxNYPp4ROqTvX3avn4mR1l_BhtrS60CB3DLMybKCvfK-dFtXULVBDgkpLlED54LJFGckF4QeTB38pwgpkq0vScGMYvwx2PrGoaEDE/s320/J%C3%A9ca_Tatuzinho_(1).png


        Este modelo do caipira não idealizado está presente no livro Urupês, da saga criada por Lobato para os adultos. Ele revela, em um painel composto por 14 narrativas, a real situação do trabalhador campestre de São Paulo, visão nada agradável para as autoridades políticas da época e também para a classe dos intelectuais.

        Isto porque Jeca é a imagem do ser legado ao abandono pelo Estado, à mercê de enfermidades típicas dos países atrasados, da miséria e do atraso econômico. Condição nada romântica e utópica, como muitos escritores pretendiam moldar o caboclo brasileiro, nesta mesma época.

        A imagem de Jeca Tatu foi utilizada inclusive como instrumento em operações de esclarecimento sobre a importância do saneamento público e a urgência em erradicar doenças como o amarelão, que matava tantas pessoas nos anos 20. Como afirmava Lobato, “Jeca Tatu não é assim, ele está assim”, vitimado pelo desprezo de um governo nada preocupado com esta camada social.

        Jeca era um caipira de aparência desleixada, com a barba pouco densa, calcanhares sempre desnudos, portanto rachados, pois ele detestava calçar sapatos. Miserável, detinha somente algumas plantações de pouca monta, apenas para sua sobrevivência. Perto de sua habitação havia um pequeno riacho, no qual ele podia pescar. Sem cultura, ele não cultivava de forma alguma os necessários hábitos de higiene.

        Residente no Vale do Paraíba, em São Paulo, região muito arcaica, era visto pelas pessoas como preguiçoso e alcoólatra. A questão da saúde transparece no enredo quando um médico, ao cruzar o seu caminho, passa diante de sua tosca residência e se assusta com tanta pobreza. Notando sua coloração amarela e a intensa magreza, decide examinar o caboclo.

        O paciente se queixa de muita fadiga e dores corporais. O doutor então diagnostica a presença de uma enfermidade tecnicamente conhecida como ancilostomose, o famoso amarelão. Ele orienta Jeca a usar sapatos e a tomar os remédios necessários, pois os vermes que provocam este distúrbio orgânico introduzem-se no corpo através da pele dos pés e das pernas.

        A vida de Jeca muda radicalmente. Ele se cura, volta a trabalhar, reduz a bebida, sua pequena plantação prospera e o trabalhador se torna um homem honrado pelas outras pessoas. A família Tatu agora só anda calçada e, portanto, saudável. É assim que Monteiro Lobato denuncia a precária situação do trabalhador rural; ele revela que medidas simples poderiam transformar este cenário sombrio. Este personagem se torna o símbolo do brasileiro que vive no campo.


Fontes: http://pt.wikipedia.org/wiki/Jeca_Tatu.

http://www.ibb.unesp.br/departamentos/Educacao/Trabalhos/obichoquemedeu/ancilostomose_jeca_tatu.htm.

 

Entendendo a história:

 

01 – Qual é a principal crítica social feita por Monteiro Lobato por meio da criação do personagem Jeca Tatu?

      Monteiro Lobato utiliza Jeca Tatu para denunciar a real situação de miséria, o contexto arcaico do universo rural e o descaso do Estado com a saúde pública na época. O personagem representa o trabalhador campestre abandonado pelo governo, à mercê de doenças evitáveis e do atraso econômico, contrapondo-se à visão romântica e idealizada que outros escritores tentavam moldar do caboclo brasileiro.

02 – Como o texto justifica a famosa frase de Monteiro Lobato: "Jeca Tatu não é assim, ele está assim"?

      A frase justifica que a condição de Jeca Tatu — descrita inicialmente pela população como preguiça e alcoolismo — não era uma característica natural de sua personalidade ou de sua raça, mas sim o resultado do adoecimento físico causado pelo "amarelão" (ancilostomose) e do desprezo de um governo que não investia em saneamento público e higiene para aquela camada social.

03 – Quais eram as características físicas e os hábitos de Jeca Tatu que facilitavam o seu contágio pelo "amarelão"?

      Jeca tinha uma aparência desleixada, extrema magreza, coloração amarela na pele e andava sempre com os calcanhares desnudos e rachados, pois detestava calçar sapatos. Além disso, por falta de cultura, ele não cultivava hábitos básicos de higiene, o que facilitava a entrada dos vermes causadores da doença, que penetram no organismo através da pele dos pés e das pernas em contato com o solo contaminado.

04 – Como ocorre a reviravolta na história de Jeca Tatu a partir da intervenção de um médico?

      Ao passar pela tosca residência de Jeca, um médico se assusta com a pobreza e, ao notar a magreza e a cor amarelada do caipira, decide examiná-lo. O doutor diagnostica a ancilostomose e receita os remédios necessários, além de orientar Jeca a passar a usar sapatos.

05 – Quais foram as transformações que ocorreram na vida de Jeca Tatu e de sua família após ele seguir as recomendações médicas?

      Após curar-se da doença, a vida de Jeca mudou radicalmente: ele recuperou as forças, voltou a trabalhar com vigor, reduziu o consumo de bebida alcoólica e fez sua pequena plantação prosperar, tornando-se um homem honrado e respeitado pelas outras pessoas. Além disso, toda a família Tatu passou a andar calçada e permaneceu saudável.

 

 

 

CONTO: COLINAS COMO ELEFANTES BRANCOS - ERNEST HEMINGWAY - COM GABARITO

 Conto: Colinas como elefantes brancos

           Ernest Hemingway

        As colinas do outro lado do vale eram longas e brancas. Deste lado, não havia sombra nem árvores e a estação ficava entre duas linhas de trilhos sob o sol. Rente ao lado da estação havia a sombra quente da casa e uma cortina, feita de fieiras de contas de bambu, pendurada na porta vazada para o bar, a fim de deter as moscas. O americano e a moça com ele estavam sentados a uma mesa na sombra, fora da casa. Estava muito quente e o expresso de Barcelona chegaria em quarenta minutos. Ele parava neste entroncamento por dois minutos e seguia para Madri. 

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiopOIx42YlfY84o90cHw1b8llrqujZi1dDc7JyTL2Pvd6-eFsHU-7wsLPlXsditPwogWM-Fj2DqQoNfIm6gpShZ4XxQu0Y8Cf9TrX5jEg-FeYbMR_w1BX7bX61HIhoSUpn6k964nJo9Ug52YlepGav5CpF0YuucYTXvIgAhfjaj39EZtCnR1EbLFOYAo8/s320/71I8MhMTWwL._AC_UF1000,1000_QL80_.jpg


        -- O que vamos beber? a moça perguntou. Ela tirara o chapéu e o pusera sobre a mesa. 

        -- Está bem quente? o homem disse. 

        -- Vamos beber cerveja.

        -- Duas cervejas, o homem disse para a cortina. 

        -- Grandes? uma mulher perguntou do vão da porta. 

        -- Sim. Duas grandes. 

        A mulher trouxe dois copos de cerveja e dois apoios de feltro. Pôs os apoios de feltro e os copos de cerveja sobre a mesa e olhou para o homem e a moça. A moça olhava para a linha de colinas. Eram brancas sob o sol e a região era parda e seca. 

        -- Parecem elefantes brancos, ela disse. 

        -- Nunca vi um, o homem bebeu sua cerveja. 

        -- Não, não teria como.

        -- Eu poderia ter visto, o homem disse. – Você dizer que eu não teria como não prova nada. 

        A moça olhou para a cortina de contas.

        -- Pintaram alguma coisa em cima, ela disse. – O que quer dizer?

        -- Anís del Toro. É uma bebida.

        -- Podemos provar?

        -- Escute, o homem chamou pela cortina.

        A mulher veio do bar. 

        -- Quatro reales.

        -- Queremos Anís del Toro.

        -- Com água?

        -- Você quer com água? 

        -- Não sei, a moça disse. – Fica bom com água?

        -- Fica, sim. 

        -- Vocês querem com água? perguntou a mulher. 

        -- Sim, com água.

        -- Tem gosto de alcaçuz, a moça disse e baixou o copo. 

        -- É sempre assim?

        -- É, disse a moça. – Tudo tem gosto de alcaçuz. Especialmente aquelas coisas que você esperou por muito tempo, amargas que nem absinto. 

        -- Ah, pare com isso.

        -- Foi você que começou, a moça disse. – Eu estava adorando. Foi um bom momento.

        -- Bem, vamos tentar ter um bom momento. 

        -- Tudo bem. Eu estava tentando. Disse que as colinas parecem elefantes brancos. Não é brilhante?

        -- É brilhante. 

        -- Eu queria provar essa bebida nova: nós não fazemos outra coisa, não é? Olhar para as coisas e provar bebidas novas. 

        -- Acho que sim.

        A moça olhou para as colinas do outro lado. 

        -- As colinas são lindas, ela disse. – Na verdade, não parecem elefantes brancos. Quero dizer, só a pele vista entre as árvores. 

        -- Bebemos mais uma? 

        -- Está bem.

        O vento quente fez a cortina de contas roçar a mesa. 

        -- A cerveja está boa e gelada, o homem disse. 

        -- Está ótima, a moça disse. 

        -- É uma operação muito simples mesmo, Jig, o homem disse. – Nem é uma operação de verdade.

        A moça olhou para o piso em que se apoiavam os pés da mesa. 

        -- Eu sabia que você iria concordar, Jig. Não é nada mesmo. É só deixar o ar entrar. A moça não disse nada. 

        -- Vou junto e vou ficar com você o tempo todo. Eles só deixam o ar entrar e então é tudo completamente natural. 

        -- E o que nós fazemos depois?

        -- Vamos ficar bem depois. Como antes. 

        -- Como é que você sabe? 

        -- Essa é a única coisa que atrapalha. É a única coisa que nos deixa infelizes. 

        A moça olhou para a cortina de contas, estendeu a mão e segurou duas fieiras. 

        -- E você acha que depois nós vamos ficar bem e vamos ser felizes. 

        -- Tenho certeza. Não precisa ter medo. Conheço muita gente que já fez. 

        -- Eu também, disse a moça. – E depois foram todos muito felizes.

        -- Bem, disse o homem, – Se não quiser, você não precisa fazer. Eu não forçaria você se você não quisesse fazer. Mas sei que é muito simples. 

        -- E você quer mesmo? 

        -- Acho que é a melhor coisa a fazer. Mas não quero que você faça se você não quiser mesmo. 

        -- Mas se eu fizer você vai ficar feliz e as coisas vão ser como eram e você vai me amar? 

        -- Eu amo você agora mesmo. Você sabe que eu amo.

        -- Eu sei. Mas se eu fizer vai voltar a ser bom quando eu digo que as coisas parecem elefantes brancos, você vai gostar? 

        -- Vou adorar. Eu adoro agora mesmo, só não consigo pensar nisso. Você sabe como eu sou quando fico preocupado. 

        -- Se eu fizer você não vai ficar preocupado? 

        -- Não vou ficar preocupado porque é tudo muito simples. 

        -- Então eu faço. Porque eu não me importo comigo. 

        -- Como assim? 

        -- Eu não me importo comigo.

        -- Bem, eu me importo com você.

        -- Ah, sei. Mas eu não me importo comigo. E vou fazer e tudo vai ficar bem.

        -- Não quero que você faça se é isso que você sente. 

        A moça se levantou e andou até o fim da estação. Em frente, do outro lado, havia campos de trigo e árvores ao longo das margens do Ebro. Ao longe, para lá do rio, estavam as montanhas. A sombra de uma nuvem atravessou o campo de trigo e ela viu o rio entre as árvores. 

        -- E nós poderíamos ter tudo isso, ela disse. – E nós poderíamos ter tudo e todo dia fazer coisas ainda mais impossíveis. 

        -- O que você disse? 

        -- Disse que nós poderíamos ter tudo. 

        -- Nós podemos ter tudo. 

        -- Não, não podemos.

        -- Podemos ter o mundo todo.

        -- Não, não podemos.

        -- Podemos ir para qualquer lugar.

        -- Não, não podemos. Já não é nosso.

        -- É nosso.

        -- Não, não é. E depois que tiram, você nunca mais pega de volta. 

        -- Mas ninguém tirou nada. 

        -- Vamos ver. 

        -- Volte aqui para a sombra, ele disse. – Não se sinta assim.

        -- Não estou sentindo nada, a moça disse. – É só que eu sei.

        -- Não quero que você faça nada que você não queira fazer... 

        -- Não é que não seja bom para mim, ela disse. – Eu sei. Vamos beber outra cerveja? 

        -- Está bem. Mas você tem que entender...

        -- Eu entendo, a moça disse. – Será que não podemos parar de falar? 

        Sentaram-se à mesa e a moça olhou para as colinas do lado seco do vale e o homem olhou para ela e para a mesa. 

        -- Você tem que entender, ele disse, – que eu não quero que você faça se você não quiser fazer. Estou perfeitamente disposto a seguir adiante se isso fizer diferença para você.

        -- Não faz diferença para você? Podíamos seguir adiante. 

        -- É claro que faz. Mas eu não quero ninguém além de você. Não quero mais ninguém. E sei que é tudo muito simples. 

        -- É, você sabe que tudo é muito simples. – Você pode muito bem falar assim, mas eu sei como é. 

        -- Você faria uma coisa por mim? 

        -- Faria qualquer coisa por você. 

        -- Você pode parar de falar, por favor, por favor, por favor? 

        Ele não disse nada mas olhou para as malas encostadas na mureta da estação. Tinham etiquetas de todos os hotéis em que haviam dormido. 

        -- Mas eu não quero que você faça, ele disse, – eu não me importo com nada. 

        -- Eu vou gritar, a moça disse. 

        A mulher atravessou a cortina com dois copos de cerveja e os depositou sobre os apoios de feltro úmidos. – O trem chega em cinco minutos, ela disse. 

        -- O que ela disse? perguntou a moça. 

        -- Que o trem chega em cinco minutos. 

        A moça deu um sorriso radiante para a mulher, para agradecer. 

        -- Acho melhor levar as malas para o outro lado da estação, o homem disse.

        Ela sorriu para ele. 

        -- Está bem. Depois volte e terminamos a cerveja.

        Ele pegou as duas malas pesadas e carregou-as pela estação até os trilhos do outro lado. 

        Espreitou mas não conseguiu ver o trem. Voltando, entrou no salão do bar, onde as pessoas que esperavam o trem estavam bebendo. Bebeu um anis no balcão e olhou para as pessoas. Todas esperavam ordeiramente pelo trem. Atravessou a cortina de contas. Ela estava sentada à mesa e sorriu para ele. 

        -- Está se sentindo melhor? ele perguntou. 

        -- Estou bem, ela disse. – Não tem nada de errado comigo. Estou bem.

 

Colinas como elefantes brancos. Ernest Hemingway. Da lista dos cem melhores contos do mundo. Revista Bravo. Tradução de Samuel Titan Jr.

 

Entendendo o conto:

 

01 – Embora a palavra nunca seja pronunciada no texto, qual é o procedimento médico sobre o qual o casal está discutindo? Cite trechos do diálogo que confirmam essa interpretação.

      O casal está discutindo a realização de um aborto. Hemingway utiliza eufemismos e descrições vagas para indicar o procedimento. O homem tenta minimizar a gravidade da situação dizendo que "é uma operação muito simples" e que "nem é uma operação de verdade", acrescentando que "é só deixar o ar entrar" e que depois tudo voltará a ser "completamente natural". O fato de ele insistir que essa gravidez é "a única coisa que atrapalha" e que os impede de serem felizes reforça que se trata de uma gestação indesejada por ele.

 

02 – O conto se passa em uma estação de trem isolada, situada entre duas linhas de trilhos. Como esse cenário funciona como uma metáfora para a situação vivida pelas personagens?

      A estação de trem funciona como uma metáfora para uma encruzilhada existencial e uma decisão iminente. O casal está literalmente "entre duas linhas", parado em um ponto de transição (o entroncamento) aguardando o trem que os levará a Madri. O limite de tempo (o trem chega em quarenta minutos) gera uma pressão psicológica sufocante. A escolha que eles precisam fazer ditará o rumo definitivo de suas vidas, dividida entre dois caminhos opostos e irreversíveis: manter o relacionamento livre de responsabilidades (fazendo o aborto) ou assumir a parentalidade.

 

03 – Hemingway faz um forte contraste geográfico na descrição da paisagem: de um lado, a região é "parda e seca", sem sombra; do outro, há campos de trigo, árvores e o rio Ebro. Qual é o significado simbólico desse contraste em relação ao dilema de Jig?

      A paisagem espelha o conflito interno sobre a fertilidade e o futuro. O lado pardo, seco e sem sombra, onde o casal está sentado, representa a esterilidade, o vazio e a morte do relacionamento caso eles escolham interromper a gravidez. Em contrapartida, o outro lado do vale, com o rio, as árvores e os campos de trigo, simboliza a vida, a fertilidade e a possibilidade de um futuro pleno e familiar. Quando Jig olha para esse lado verdejante e diz "nós poderíamos ter tudo isso", ela expressa o desejo latente de manter a criança e viver aquela fertilidade, enquanto o homem tenta forçá-la a voltar para a sombra seca.

 

04 – A expressão "elefante branco" dá título ao conto e é a primeira imagem poética trazida por Jig. Qual é o duplo sentido dessa metáfora no contexto da história?

      A metáfora possui um duplo significado central:

      Primeiro, o termo "elefante branco" refere-se a algo valioso ou sagrado, mas cuja posse traz tanto trabalho, custo e incômodo que se torna indesejável (um presente incômodo). Para o americano, o bebê é exatamente isso: uma bênção teórica, mas um fardo prático que ele quer descartar.

      Segundo, a imagem das colinas brancas e arredondadas remete visualmente à silhueta do ventre de uma mulher grávida, conectando diretamente a observação casual da natureza ao segredo físico que ela carrega em seu corpo.

 

05 – Ao longo do diálogo, o homem americano repete várias vezes que a decisão é de Jig e que ele não a forçaria a nada. Analisando o tom de suas falas, essa postura dele é genuinamente altruísta? Justifique.

      Não, a postura do homem não é altruísta, mas sim uma forma sutil de manipulação psicológica. Embora ele afirme que ela não precisa fazer a operação se não quiser, ele pontua cada uma dessas declarações com argumentos de que o aborto é a melhor saída ("sei que é muito simples", "é a única coisa que nos deixa infelizes"). Ao repetir constantemente que se importa com ela, mas reiterar que o relacionamento só voltará ao normal após a cirurgia, ele transfere toda a culpa e o peso da decisão para os ombros de Jig, tentando fazer com que ela ceda por vontade própria para aliviar a consciência dele.

 

06 – Perto do final do conto, a moça pede repetidamente: "Você pode parar de falar, por favor, por favor, por favor?". O que esse momento de saturação verbal revela sobre o estado emocional de Jig e a dinâmica do casal?

      Esse apelo desesperado revela o esgotamento emocional de Jig diante da insistência hipócrita do parceiro. Ela percebe que o diálogo é circular e que o homem não está realmente disposto a ouvir os seus anseios, mas apenas a reafirmar a própria vontade através de uma retórica cansativa. O acúmulo de "por favores" (sete vezes na frase original) demonstra que as palavras perderam o sentido e se tornaram uma violência psicológica, evidenciando o abismo comunicativo entre os dois e o isolamento emocional em que ela se encontra.

 

07 – Na última linha do conto, Jig sorri e diz: "Estou bem. Não tem nada de errado comigo. Estou bem". Diante de toda a tensão anterior, como essa frase final pode ser interpretada?

      A frase final carrega uma profunda ironia e pode ser interpretada de duas maneiras:

      Pode indicar uma capitulação irônica ou submissão, onde Jig decide vestir uma máscara de normalidade, fingindo que está tudo bem para encerrar a discussão, embora saiba que a relação está destruída e que o que há "de errado" não é com ela, mas com a situação.

      Pode indicar uma tomada de postura ou distanciamento emocional. Ao afirmar "não tem nada de errado comigo", ela valida a si mesma e à sua gravidez, rejeitando a narrativa do americano de que eles têm um "problema" a ser consertado. Ela se fecha em seu próprio mundo, sinalizando que, independentemente do que aconteça com o bebê, o vínculo de intimidade e cumplicidade com o homem já acabou.