domingo, 28 de junho de 2026

CONTO: O POÇO E O PÊNDULO - EDGAR ALLAN POE - COM GABARITO

 Conto: O poço e o pêndulo

          Edgar Allan Poe

 

        Estava exausto, mortalmente exausto com aquela longa agonia e, quando por fim me desamarraram e pude sentar-me, senti que perdia os sentidos. A sentença – a terrível sentença de morte – foi a última frase que chegou, claramente, aos meus ouvidos. Depois, o som das vozes dos inquisidores pareceu apagar-se naquele zumbido indefinido de sonho. O ruído despertava em minha alma a ideia de rotação, talvez devido à sua associação, em minha mente, com o ruído característico de uma roda de moinho. Mas isso durou pouco, pois, logo depois, nada mais ouvi.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgJQ8VaBbdD-aoELGX_HumlNUEiWbeM65RrfGoIcTVifvlDtEAxkpl2i0OjqhA9ci7p8DI2hChpwzXx1GWRSp4C7dJlhp4bH8h-0eQG4kE-Z7dDR-O36oHHtQ-RPzrszn4EkL7kd_zV6NpoBA3yCid1CxOIHE5mOkcq5p-QSY9H2hL5Kq_Wxq2KRwvaW8w/s320/81FQEiA45hL._UF350,350_QL50_.jpg


        Não obstante, durante alguns momentos, pude ver, mas com que terrível exagero! Via os lábios dos juízes vestidos de preto. Pareciam-me brancos, mais brancos do que a folha de papel em que traço estas palavras, e grotescamente finos – finos pela intensidade de sua expressão de firmeza, pela sua inflexível resolução, pelo severo desprezo ao sofrimento humano. Via que os decretos daquilo que para mim representava o destino saíam ainda daqueles lábios. Vi-os contorcerem-se numa frase mortal; vi-os pronunciarem as sílabas de meu nome – e estremeci, pois nenhum som lhes acompanhava os movimentos. Vi, também, durante alguns momentos de delírio e terror, a suave e quase imperceptível. ondulação das negras tapeçarias que cobriam as paredes da sala, e o meu olhar caiu então sobre as sete grandes velas que estavam em cima da mesa. A princípio, tiveram para mim o aspecto de uma claridade, e pareceram-me anjos brancos e esguios que deveriam salvar-me. Mas, de repente, uma náusea mortal invadiu-me a alma, e senti que cada fibra de meu corpo estremecia como se houvesse tocado os fios de uma bateria galvânica. As formas angélicas se converteram em inexpressivos espectros com cabeças de chama, e vi que não poderia esperar delas auxílio algum. Então, como magnífica nota musical, insinuou-se em minha imaginação a ideia do doce repouso que me aguardava no túmulo. Chegou suave, furtivamente – e penso que precisei de muito tempo para apreciá-la devidamente. Mas, no instante preciso em que meu espírito começava a sentir e alimentar essa ideia, as figuras dos juízes se dissiparam, como por arte de mágica, ante os meus olhos. As grandes velas reduziram-se a nada; suas chamas se apagaram por completo e sobreveio o negror das trevas; todas as sensações pareceram desaparecer como numa queda louca da alma até o Hades. E o universo transformou-se em noite, silêncio, imobilidade.

        Eu desmaiara; mas, não obstante, não posso dizer que houvesse perdido de todo a consciência. Não procurarei definir, nem descrever sequer, o que dela me restava. Nem tudo, porém, estava perdido. Em meio do mais profundo sono… não! Em meio do delírio… não! Em meio do desfalecimento... não! Em meio da morte… não! Nem mesmo na morte tudo está perdido. Do contrário, não haveria imortalidade para o homem. Quando despertamos do mais profundo sono, desfazemos as teias de aranha de algum sonho. E, não obstante, um segundo depois não nos lembramos de haver sonhado, por mais delicada que tenha sido a teia. Na volta a vida, depois do desmaio, há duas fases: o sentimento da existência moral ou espiritual e o da existência física. Parece provável que, se ao chegar à segunda fase tivéssemos de evocar as impressões da primeira, tornaríamos a encontrar todas as lembranças eloquentes do abismo do outro mundo. E qual é esse abismo? Como, ao menos, poderemos distinguir suas sombras das do túmulo?

        Mas, se as impressões do que chamamos primeira fase não nos acodem de novo ao chamado da vontade, acaso não nos aparecem depois de longo intervalo, sem ser solicitadas, enquanto, maravilhados, perguntamos a nós mesmos de onde provêm? Quem nunca perdeu os sentidos não descobrirá jamais estranhos palácios e rostos singularmente familiares entre as chamas ardentes; não contemplará, flutuante no ar, as melancólicas visões que muitos talvez jamais contemplem; não meditará nunca sobre o perfume de alguma flor desconhecida, nem mergulhará no mistério de alguma melodia que jamais lhe chamou antes a atenção.

        Em meio de meus frequentes e profundos esforços para recordar, em meio de minha luta tenaz para apreender algum vestígio desse estado de vácuo aparente em que minha alma mergulhara, houve breves, brevíssimos instantes em que julguei triunfar, momentos fugidios em que cheguei a reunir lembranças que, em ocasiões posteriores, meu raciocínio, lúcido, me afirmou não poderem referir-se senão a esse estado em que a consciência parece aniquilada. Essas sombras de lembranças apresentavam, indistintamente, grandes figuras que me carregavam, transportando-me, silenciosamente, para baixo… para baixo… ainda mais para baixo… até que uma vertigem horrível me oprimia, ante a ideia de que não tinha mais fim tal descida. Também me lembro de que despertavam um vago horror no fundo de meu coração, devido precisamente à tranquilidade sobrenatural desse mesmo coração. Depois, o sentimento de uma súbita imobilidade em tudo o que me cercava, como se aqueles que me carregavam (espantosa comitiva!) ultrapassassem, em sua descida, os limites do ilimitado, e fizessem uma pausa, vencidos pelo cansaço de seu esforço. Depois disso, lembro-me de uma sensação de monotonia e de umidade. Depois, tudo é loucura – a loucura da memória que se agita entre coisas proibidas.

        Súbito, voltam à minha alma o movimento e o som – o movimento tumultuoso do coração e, em meus ouvidos, o som de suas batidas. Em seguida, uma pausa, em que tudo é vazio. Depois, de novo, o som, o movimento e o tato, como uma sensação vibrante que penetra em meu ser. Logo após, a simples consciência da minha existência, sem pensamento – estado que durou muito tempo. Depois, de maneira extremamente súbita, o pensamento, e um trêmulo terror – o esforço enorme para compreender o meu verdadeiro estado. Logo após, vivo desejo de mergulhar na insensibilidade. Depois, um brusco renascer da alma e um esforço bem sucedido para mover-me. E, então, a lembrança completa do que acontecera, dos juízes, das tapeçarias negras, da sentença, da fraqueza, do desmaio. Esquecimento completo de tudo o que acontecera – e que somente mais tarde, graças aos mais vivos esforços, consegui recordar vagamente.

        Até então, não abrira ainda os olhos. Sentia que me achava deitado de costas, sem que estivesse atado. Estendi a mão e ela caiu pesadamente sobre alguma coisa úmida e dura. Deixei que ela lá ficasse durante muitos minutos, enquanto me esforçava por imaginar onde é que eu estava e o que é que poderia ter acontecido comigo. Desejava, mas não me atrevia a fazer uso dos olhos. Receava o primeiro olhar sobre as coisas que me cercavam. Não que me aterrorizasse contemplar coisas terríveis, mas tinha medo de que não houvesse nada para ver. Por fim, experimentando horrível desespero em meu coração, abri rapidamente os olhos. Meus piores pensamentos foram, então, confirmados. Envolviam-me as trevas da noite eterna. Esforcei-me por respirar. A intensidade da escuridão parecia oprimir-me, asfixiar-me. O ar era intoleravelmente pesado. Continuei ainda imóvel, e esforcei-me por fazer uso da razão. Lembrei-me dos procedimentos inquisitoriais e, partindo daí, procurei deduzir qual a minha situação real.

        A sentença fora proferida, e parecia-me que, desde então, transcorrera longo espaço de tempo. Não obstante, não imaginei um momento sequer que estivesse realmente morto. Tal suposição, pese o que lemos nos livros de ficção, é absolutamente incompatível com a existência real. Mas onde me encontrava e qual era o meu estado? Sabia que os condenados à morte pereciam, com frequência, nos autos-de-fé – e um desses autos havia-se realizado na noite do dia em que eu fora julgado. Teria eu permanecido em meu calabouço, à espera do sacrifício seguinte, que não se realizaria senão dentro de muitos meses? Vi, imediatamente, que isso não poderia ser. As vítimas eram exigidas sem cessar. Além disso, meu calabouço, bem como as celas de todos os condenados, em Toledo, tinha piso de pedra e a luz não era inteiramente excluída.

        De repente, uma ideia terrível acelerou violentamente o sangue em meu coração e, durante breve espaço, mergulhei de novo na insensibilidade. Ao recobrar os sentidos, pus-me logo de pé, a tremer convulsivamente. Alucinado, estendi os braços para o alto e em torno de mim, em todas as direções. Não senti nada. Não obstante, receava dar um passo, com medo de ver os meus movimentos impedidos pelos muros de um túmulo. O suor brotava-me de todos os poros e grossas gotas frias me salpicavam a testa. A angústia da incerteza tornou-se, por fim, insuportável e avancei com cautela, os braços estendidos, os olhos a saltar-me das órbitas, na esperança de descobrir algum tênue raio de luz. Dei muitos passos, mas, não obstante, tudo era treva e vácuo. Sentia a respiração mais livre. Parecia-me evidente que o meu destino não era, afinal de contas, o mais espantoso de todos.

        Continuei a avançar cautelosamente e, enquanto isso, me vieram à memória mil vagos rumores dos horrores de Toledo. Sobre calabouços, contavam-se coisas estranhas – fábulas, como eu sempre as considerara; coisas, contudo, estranhas, e demasiado horríveis para que a gente as narrasse a não ser num sussurro. Acaso fora eu ali deixado para morrer de fome naquele subterrâneo mundo de trevas, ou quem sabe um destino ainda mais terrível me aguardava? Conhecia demasiado bem o caráter de meus juízes para duvidar de que o resultado de tudo aquilo seria a morte, e uma morte mais amarga do que a habitual. Como seria ela e a hora de sua execução eram os únicos pensamentos que me ocupavam o espírito, causando-me angústia.

        Minhas mãos estendidas encontraram, afinal, um obstáculo sólido. Era uma parede que parecia de pedra, muito lisa, úmida e fria. Segui junto a ela, caminhando com a cautelosa desconfiança que certas narrações antigas me haviam inspirado. Porém, essa operação não me proporcionava meio algum de averiguar as dimensões de meu calabouço; podia dar a volta e tornar ao ponto de partida sem perceber exatamente o lugar em que me encontrava, pois, a parede me parecia perfeitamente uniforme. Por isso, procurei um canivete que tinha num dos bolsos quando fui levado ao tribunal, mas havia desaparecido. Minhas roupas tinham sido substituídas por uma vestimenta de sarja grosseira. A fim de identificar o ponto de partida, pensara em enfiar a lâmina em alguma minúscula fenda da parede. A dificuldade, apesar de tudo, não era insuperável, embora, em meio à desordem de meus pensamentos, me parecesse, a princípio, uma coisa insuperável. Rasguei uma tira da barra de minha roupa e coloquei-a ao comprido no chão. formando um ângulo reto com a parede. Percorrendo as palpadelas o caminho em torno de meu calabouço, ao terminar o circuito teria de encontrar o pedaço de fazenda. Foi, pelo menos, o que pensei; mas não levara em conta as dimensões do calabouço, nem a minha fraqueza. O chão era úmido e escorregadio. Cambaleante, dei alguns passos, quando, de repente, tropecei e caí. Meu grande cansaço fez com que permanecesse caído e, naquela posição, o sono não tardou em apoderar-se de mim.

        Ao acordar e estender o braço, encontrei ao meu lado um pedaço de pão e um púcaro com água. Estava demasiado exausto para pensar em tais circunstâncias, e bebi e comi avidamente. Pouco depois, reiniciei minha viagem em torno do calabouço e, com muito esforço, consegui chegar ao pedaço de sarja. Até o momento em que caí, já havia contado cinquenta e dois passos e, ao recomeçar a andar até chegar ao pedaço de pano, mais quarenta e oito. Portanto, havia ao todo cem passos e, supondo que dois deles fossem uma jarda, calculei em cerca de cinquenta jardas a circunferência de meu calabouço. No entanto, deparara com numerosos ângulos na parede, e isso me impedia de conjeturar qual a forma da caverna, pois não havia dúvida alguma de que se tratava de uma caverna.

        Tais pesquisas não tinham objetivo algum e, certamente, eu não alimentava nenhuma esperança; mas uma vaga curiosidade me levava a continuá-las. Deixando a parede, resolvi atravessar a área de minha prisão. A princípio, procedi com extrema cautela, pois o chão, embora aparentemente revestido de material sólido, era traiçoeiro, devido ao limo. Por fim, ganhei coragem e não hesitei em pisar com firmeza, procurando seguir cm linha tão reta quanto possível. Avancei, dessa maneira, uns dez ou doze passos, quando o que restava da barra de minhas vestes se emaranhou em minhas pernas. Pisei num pedaço da fazenda e caí violentamente de bruços.

        Na confusão causada pela minha queda, não reparei imediatamente numa circunstância um tanto surpreendente, a qual, no entanto, decorridos alguns instantes, enquanto me encontrava ainda estirado, me chamou a atenção. Era que o meu queixo estava apoiado sobre o chão da prisão, mas os meus lábios e a parte superior de minha cabeça, embora me parecessem colocados numa posição menos elevada do que o queixo, não tocavam em nada. Por outro lado, minha testa parecia banhada por um vapor pegajoso, e um cheiro característico de cogumelos em decomposição me chegou às narinas. Estendi o braço para a frente e tive um estremecimento, ao verificar que caíra bem junto às bordas de um poço circular cuja circunferência, naturalmente, não me era possível verificar no momento. Apalpando os tijolos, pouco abaixo da boca do poço, consegui deslocar um pequeno fragmento e deixei-o cair no abismo. Durante alguns segundos, fiquei atento aos seus ruídos, enquanto, na queda, batia de encontro às paredes do poço; por fim, ouvi um mergulho surdo na água, seguido de ecos fortes. No mesmo momento, ouvi um som que se assemelhava a um abrir e fechar de porta. acima de minha cabeça, enquanto um débil raio de luz irrompeu subitamente através da escuridão e se extinguiu de pronto.

        Percebi claramente a armadilha que me estava preparada, e congratulei-me comigo mesmo pelo oportuno acidente que me fizera escapar de tal destino. Outro passo antes de minha queda, e o mundo jamais me veria de novo. E a morte de que escapara por pouco era daquelas que eu sempre considerara como fabulosas e frívolas nas narrações que diziam respeito à Inquisição. Para as vítimas de sua tirania, havia a escolha entre a morte com as suas angústias físicas imediatas e a morte com os seus espantosos horrores morais. Eu estava destinado a esta última. Devido aos longos sofrimentos, meus nervos estavam à flor da pele, a ponto de tremer ao som de minha própria voz, de modo que era, sob todos os aspectos, uma vítima adequada para a espécie de tortura que me aguardava.

        Tremendo dos pés à cabeça, voltei, às apalpadelas, até a parede, resolvido antes a ali perecer do que a arrostar os terrores dos poços, que a minha imaginação agora pintava. em vários lugares do calabouço. Em outras condições de espírito, poderia ter tido a coragem de acabar de vez com a minha miséria, mergulhando num daqueles poços; mas eu era, então, o maior dos covardes. Tampouco podia esquecer o que lera a respeito daqueles poços: que a súbita extinção da vida não fazia parte dos planos de meus algozes.

        A agitação em que se debatia o meu espírito fez-me permanecer acordado durante longas horas; contudo, acabei por adormecer de novo. Ao acordar, encontrei ao meu lado, como antes, um pão e um púcaro com água. Consumia-me uma sede abrasadora, e esvaziei o recipiente de um gole só. A água devia conter alguma droga, pois, mal acabara de beber, tornei-me irresistivelmente sonolento. Invadiu-me profundo sono – um sono como o da morte. Quanto tempo aquilo durou, certamente, não posso dizer; mas, quando tornei a abrir os olhos, os objetos em torno eram visíveis. Um forte clarão cor de enxofre, cuja origem não pude a princípio determinar, permitia-me ver a extensão e o aspecto da prisão.

        Quanto ao seu tamanho, enganara-me completamente. A extensão das paredes, em toda a sua. volta, não passava. de vinte e cinco jardas. Durante alguns minutos, tal fato me causou um mundo de preocupações inúteis. Inúteis, de fato, pois o que poderia ser menos importante, nas circunstâncias em que me encontrava, do que as simples dimensões de minha cela? Mas minha alma se interessava vivamente por coisas insignificantes, e eu me empenhava em explicar a mim mesmo o erro cometido em meus cálculos. Por fim, a verdade fez-se-me subitamente clara. Em minha primeira tentativa de exploração, eu contara cinquenta e dois passos até o momento em que caí; devia estar, então, a um ou dois passos do pedaço de sarja; na verdade, havia quase completado toda a volta do calabouço. Nessa altura, adormeci e, ao despertar, devo ter voltado sobre meus próprios passos – supondo, assim, que o circuito do calabouço era quase o dobro do que realmente era. A confusão de espírito em que me encontrava impediu-me de notar que começara a volta seguindo a parede pela esquerda, e que a terminara seguindo-a para a direita.

        Enganara-me, também, quanto ao formato da cela. Ao seguir o meu caminho, deparara com muitos ângulos, o que me deu ideia de grande irregularidade, tão poderoso é o efeito da escuridão total sobre alguém que desperta do sono ou de um estado de torpor! Os ângulos não passavam de umas poucas reentrâncias, ou nichos, situadas em intervalos iguais. A forma geral da prisão era retangular. O que me parecera alvenaria, parecia-me, agora, ferro, ou algum outro metal, disposto em enormes pranchas, cujas suturas ou juntas produziam as depressões. Toda a superfície daquela construção metálica era revestida grosseiramente de vários emblemas horrorosos e repulsivos nascidos das superstições sepulcrais dos monges. Figuras de demônios de aspectos ameaçadores, com formas de esqueleto, bem como outras imagens ainda mais terríveis, enchiam e desfiguravam as paredes. Observei que os contornos de tais monstruosidades eram bastante nítidos, mas que as cores pareciam desbotadas e apagadas, como por efeito da umidade. Notei, então, que o piso era de pedra. Ao centro, abria-se o poço circular de cujas fauces eu escapara – mas era o único existente no calabouço.

        Vi tudo isso confusamente e com muito esforço, pois minha condição física mudara bastante durante o sono. Estava agora estendido de costas numa espécie de andaime de madeira muito baixo, ao qual me achava fortemente atado por uma longa tira de couro. Esta dava muitas voltas em torno de meus membros e de meu corpo, deixando apenas livre a minha cabeça e o meu braço esquerdo, de modo a permitir que eu, com muito esforço, me servisse do aumento que se achava sobre um prato de barro, colocado no chão. Vi, horrorizado, que o púcaro havia sido retirado, pois uma sede intolerável me consumia. Pareceu-me que a intenção de meus verdugos era exasperar essa sede, já que o alimento que o prato continha consistia de carne muita salgada.

        Levantei os olhos e examinei o teto de minha prisão. Tinha de nove a doze metros de altura e o material de sua construção assemelhava-se ao das paredes laterais. Chamou-me a atenção uma de suas figuras, bastante singular. Era a figura do Tempo, tal como é comumente representado, salvo que, em lugar da foice, segurava algo que me pareceu ser, ao primeiro olhar, um imenso pêndulo, como esses que vemos nos relógios antigos. Havia alguma coisa, porém, na aparência desse objeto, que me fez olhá-lo com mais atenção.

        Enquanto a observava diretamente, olhando para cima, pois se achava colocada exatamente sobre minha cabeça, tive a impressão de que o pêndulo se movia. Um instante depois, vi que minha impressão se confirmava. Seu oscilar era curto e, por conseguinte, lento. Observei-o, durante alguns minutos, com certo receio, mas, principalmente, com espanto. Cansado, por fim, de observar o seu monótono movimento, voltei o olhar para outros objetos existentes na cela.

        Um ligeiro ruído atraiu-me a atenção e, olhando para o chão, vi que enormes ratos o atravessavam. Tinham saído do poço, que ficava à direita, bem diante de meus olhos. Enquanto os olhava, saíam do poço em grande número, apressadamente, com olhos vorazes, atraídos pelo cheiro da carne. Foi preciso muito esforço e atenção de minha parte para afugentá-los.

        Talvez houvesse transcorrido meia hora, ou mesmo uma hora – pois não me era possível perceber bem a passagem do tempo –, quando levantei de novo os olhos para o teto. O que então vi me deixou atônito, perplexo. O oscilar do pêndulo havia aumentado muito, chegando quase a uma jarda. Como consequência natural, sua velocidade era também muito maior. Mas o que me perturbou, principalmente, foi a ideia de que havia, imperceptivelmente, descido. Observei, então – tomado de um horror que bem se pode imaginar –, que a sua extremidade inferior era formada de uma lua crescente feita de aço brilhante, de cerca de um pé de comprimento de ponta a ponta. As pontas estavam voltadas pura cima e o fio inferior era, evidentemente, afiado como uma navalha. Também como uma navalha, parecia pesada e maciça, alargando-se, desde o fio, numa estrutura larga e sólida. Presa a cela havia um grosso cano de cobre, e tudo isso assobiava, ao mover-se no ar.

        Já não me era possível alimentar qualquer dúvida quanto à sorte que me reservara o terrível engenho monacal de torturas. Os agentes da Inquisição tinham conhecimento de que eu descobrira o poço – o poço cujos horrores haviam sido destinados a um herege tão temerário quanto eu –, o poço, imagem do inferno, considerado como a Última Tule de todos os seus castigos. Um simples acaso me impedira de cair no poço, e eu sabia que a surpresa, ou uma armadilha que levasse ao suplício constituíam uma parte importante de tudo o que havia de grotesco naqueles calabouços de morte. Ao que parecia, tendo fracassado a minha queda no poço, não fazia parte do plano demoníaco o meu lançamento no abismo e, assim, não havendo outra alternativa, aguardava-me uma forma mais suave de destruição. Mais suave! Em minha angústia, esbocei um sorriso ao pensar no emprego dessas palavras.

        Para que falar das longas, longas horas de horror mais do que mortal, durante as quais contei as rápidas oscilações do aço? Polegada a polegada, linha a linha, descia aos poucos, de um modo só perceptível a intervalos que para mim pareciam séculos. E cada vez descia mais, descia mais!…

        Passaram-se dias, talvez muitos dias, antes que chegasse a oscilar tão perto de mim a ponto de me ser possível sentir o ar acre que deslocava. Penetrava-me as narinas o cheiro do aço afiado. Rezei – cansando o céu com as minhas preces – para que a sua descida fosse mais rápida. Tomado de frenética loucura, esforcei-me para erguer o corpo e ir ao encontro daquela espantosa e oscilante cimitarra. Depois, de repente, apoderou-se de mim uma grande calma e permaneci sorrindo diante daquela morte cintilante, como uma criança diante de um brinquedo raro.

        Seguiu-se outro intervalo de completa insensibilidade -um intervalo muito curto, pois, ao voltar de novo à vida, não me pareceu que o pêndulo houvesse descido de maneira perceptível. Mas é possível que haja decorrido muito tempo; sabia que existiam seres infernais que tomavam nota de meus desfalecimentos e podiam deter, à vontade, o movimento do pêndulo. Ao voltar a mim, senti um mal-estar é uma fraqueza indescritíveis, como se estivesse a morrer de inanição. Mesmo entre todas as angústias por que estava passando, a natureza humana ansiava por alimento. Com penoso esforço, estendi o braço esquerdo tanto quanto me permitiam as ataduras e apanhei um resto de comida que conseguira evitar que os ratos comessem. Ao levar um bocado à boca, passou-me pelo espírito um vago pensamento de alegria… de esperança. Não obstante, que é que tinha com a ver com a esperança? Era, como digo, um pensamento vago – desses que ocorrem a todos com frequência, mas que não se completam. Mas senti que era de alegria, de esperança. Como senti, também, que se extinguira antes de formar-se. Esforcei-me em vão por completá-lo… por reconquistá-lo. Meus longos sofrimentos haviam quase aniquilado todas as Faculdades de meu espírito. Eu era um imbecil, um idiota.

        A oscilação do pêndulo se processava num plano que formava um ângulo reto com o meu corpo. Vi que a lâmina fora colocada de modo a atravessar-me a região do coração. Rasgaria a minha roupa, voltaria e repetiria a operação… de novo, de novo. Apesar da grande extensão do espaço percorrido – uns trinta pés, mais ou menos – e da sibilante energia de sua oscilação, suficiente para partir ao meio aquelas próprias paredes de ferro, tudo o que podia fazer, durante vários minutos, seria apenas rasgar as minhas roupas. E, ao pensar nisso, detive-me. Não ousava ir além de tal reflexão. Insisti sobre ela com toda atenção, como se com essa insistência pudesse parar ali a descida da lâmina. Comecei a pensar no som que produziria ao passar pelas minhas roupas, bem como na estranha e arrepiante sensação que o rasgar de uma fazenda produz sobre os nervos. Pensei em todas essas coisas fazendo os dentes rangerem, de tão contraídos.

        Descia… cada vez descia mais a lâmina. Sentia um prazer frenético ao comparar sua velocidade de cima a baixo com a sua velocidade lateral. Para a direita… para a esquerda… num amplo oscilar… com o grito agudo de uma alma penada; para o meu coração, com o passo furtivo de um tigre! Eu ora ria, ora uivava, quando esta ou aquela ideia se tornava predominante.

        Sempre para baixo… certa e inevitavelmente! Movia-se, agora, a três polegadas do meu peito! Eu lutava violentamente, furiosamente. para livrar o braço esquerdo. Este estava livre apenas desde o cotovelo até a mão. Podia mover a mão, com grande esforço, apenas desde o prato, que haviam colocado ao meu lado, até a boca. Nada mais. Se houvesse podido romper as ligaduras acima do cotovelo, teria apanhado o pêndulo e tentado detê-lo. Mas isso seria o mesmo que tentar deter uma avalancha!

        Sempre mais baixo, incessantemente, inevitavelmente mais baixo! Arquejava e me debatia a cada vibração. Encolhia-me convulsivamente a cada oscilação. Meus olhos seguiam as subidas e descidas da lâmina com a ansiedade do mais completo desespero; fechavam-se espasmodicamente a cada descida, como se a morte houvesse sido um alívio… oh, que alívio indizível! Não obstante, todos os meus nervos tremiam. à ideia de que bastaria que a máquina descesse um pouco mais para que aquele machado afiado e reluzente se precipitasse sobre o meu peito. Era a esperança que fazia com que meus nervos estremecessem, com que todo o meu corpo se encolhesse. Era a esperança – a esperança que triunfa mesmo sobre o suplício –, a que sussurrava aos ouvidos dos condenados à morte, mesmo nos calabouços da Inquisição.

        Vi que mais umas dez ou doze oscilações poriam o aço em contato imediato com as minhas roupas e, com essa observação, invadiu-me o espírito toda a calma condensada e viva do desespero. Pela primeira vez durante muitas horas – ou, talvez dias – consegui pensar. Ocorreu-me, então, que a tira ou correia que me envolvia o corpo era inteiriça. Não estava amarrada por meio de cordas isoladas.

        O primeiro golpe da lâmina em forma. de meia lua sobre qualquer lugar da correia a desataria, de modo a permitir que minha mão a desenrolasse de meu corpo. Mas como era terrível, nesse caso, a sua proximidade. O resultado do mais leve movimento, de minha parte, seria mortal! Por outro lado, acaso os sequazes do verdugo não teriam previsto e impedido tal possibilidade? E seria provável que a correia que me atava atravessasse o meu peito justamente no lugar em. que o pêndulo passaria? Temendo ver frustrada essa minha fraca e, ao que parecia, última esperança, levantei a cabeça o bastante par ver bem o meu peito. A correia, envolvia-me os membros e o corpo fortemente em todas as direções, menos no lugar em que deveria passar a lâmina assassina.

        Mal deixei cair a cabeça em sua posição anterior, quando senti brilhar em meu espírito algo que só poderia descrever aproximadamente, dizendo que era como que a metade não formada da ideia de liberdade a que aludi anteriormente, e da qual apenas uma parte flutuou vagamente em meu espírito quando levei o alimento aos meus lábios febris. Agora, todo o pensamento estava ali presente – débil, quase insensato, quase indefinido –, mas, de qualquer maneira, completo. Procurei imediatamente, com toda a energia nervosa do desespero, pô-lo em execução.

        Havia várias horas, um número enorme de ratos se agitava junto do catre em que me achava estendido. Eram temerários, ousados, vorazes; fitavam sobre mim os olhos vermelhos, como se esperassem apenas minha imobilidade para fazer-me sua presa. “A que espécie de alimento”, pensei, “estão eles habituados no poço?” Haviam devorado, apesar de todos os meus esforços para os impedir, quase tudo o alimento que se encontrava no prato, salvo uma pequena parte. Minha mão se acostumara a um movimento oscilatório sobre o prato e, no fim, a uniformidade inconsciente de tal movimento deixou de produzir efeito. Em sua veracidade, cravavam frequentemente em meus dedos os dentes agudos. Com o resto da carne oleosa e picante que ainda sobrava. esfreguei fortemente, até o ponto em que podia alcançá-la, a correia com que me haviam atado. Depois, erguendo a mão do chão, permaneci imóvel, quase sem respirar.

        A princípio, os vorazes animais ficaram surpresos, aterrorizados com a mudança verificada – com a cessação de qualquer movimento. Mas isso apenas durante um momento. Não fora em vão que eu contara com a sua voracidade. Vendo que eu permanecia imóvel, dois ou três dos mais ousados soltaram sobre o catre e puseram-se a cheirar a correia. Dir-se-ia que isso foi o sinal para a investida geral. Vindos da parede, arremeteram em novos bandos. Agarraram-se ao estrado, galgaram-no e pularam. as centenas sobre o meu corpo. O movimento rítmico do pêndulo não os perturbava de maneira alguma. Evitando seus golpes, atiraram-se à correia besuntada. Apertavam-se, amontoavam-se sobre mim. Contorciam-se sobre meu pescoço; seus focinhos, frios procuravam meus lábios. Sentia-me quase sufocado sob o seu peso. Um asco espantoso, para o qual não existe nome, enchia-me o peito e gelava-me, com pegajosa umidade, o coração. Mais um minuto, e percebia que a operação estaria terminada. Sentia claramente que a correia afrouxava. Sabia que, em mais de um lugar, já devia estar completamente partida. Com uma determinação sobre-humana continuei imóvel.

        Não errei em meus cálculos; todos esses sofrimentos não foram em vão. Senti, afinal, que estava livre. A correia pendia, em pedaços, de meu corpo. Mas o movimento do pêndulo já se realizava sobre o meu peito. Tanto a sarja da minha roupa, como a camisa que vestia já haviam sido cortadas. O pêndulo oscilou ainda por duas vezes, e uma dor aguda me penetrou todos os nervos. Mas chegara o momento da salvação. A um gesto de minha mão, meus libertadores fugiram tumultuosamente. Com um movimento decidido, mas cauteloso, deslizei encolhido, lentamente, para o lado, livrando-me das correias e da lâmina da cimitarra. Pelo menos naquele momento, estava livre.

        Livre! E nas garras da Inquisição! Mal havia escapado daquele meu leito de horror e dado uns passos pelo piso de pedra da prisão, quando cessou o movimento da máquina infernal e eu a vi subir, como que atraída por alguma força invisível, para o teto. Aquela foi uma lição que guardei desesperadamente no coração. Não havia dúvida de que os meus menores gestos eram observados. Livre! Escapara por pouco à morte numa determinada forma de agonia, apenas para ser entregue a uma outra, pior do que a morte. Com este pensamento, volvi os olhos, nervosamente, para as paredes de ferro que me cercavam. Algo estranho – uma mudança que, a princípio, não pude apreciar claramente – havia ocorrido, evidentemente, em minha cela. Durante muitos minutos de trêmula abstração, perdi-me em conjeturas vãs e incoerentes. Pela primeira vez percebi a origem da luz sulfurosa que alumiava a cela. Procedia de uma fenda, de cerca de meia polegada de largura, que se estendia em torno do calabouço, junto a base das paredes, que pareciam, assim, e, na verdade estavam, completamente separadas do solo. Procurei, inutilmente, olhar através dessa abertura.

        Ao levantar-me, depois dessa tentativa, o mistério da modificação verificada tornou-se-me, subitamente, claro. Já observara que, embora os contornos dos desenhos das paredes fossem bastante nítidos, suas cores, não obstante, pareciam apagadas e indefinidas. Essas cores, agora, haviam adquirido, e estavam ainda adquirindo, um brilho intenso e surpreendente, que dava às imagens fantásticas e diabólicas um aspecto que teria arrepiado nervos mais firmes do que os meus. Olhos demoníacos, de uma vivacidade sinistra e feroz, cravavam-se em mim de todos os lados, de lugares onde antes nenhum deles era visível, com um brilho ameaçador que eu, em vão, procurei considerar como irreal.

        Irreal! Bastava-me respirar para que me chegasse às narinas o vapor de ferros em brasa! Um cheiro sufocante invadia a prisão! Um brilho cada vez mais profundo se fixava nos olhos cravados em minha agonia! Um vermelho mais vivo estendia-se sobre aquelas pinturas horrorosas e sangrentas. Eu arquejava. Respirava com dificuldade. Não poderia haver dúvida quanto à intenção de meus verdugos, os mais implacáveis, os mais demoníacos de todos os homens! Afastei-me do metal incandescente, colocando-me ao centro da cela. Ante a perspectiva da morte pelo fogo, que me aguardava, a ideia da frescura do poço chegou à minha alma como um bálsamo. Precipitei-me para as suas bordas mortais. Lancei o olhar para o fundo. O resplendor da abóbada iluminava as suas cavidades mais profundas. Não obstante, durante um minuto de desvario, meu espírito se recusou a compreender o significado daquilo que eu via. Por fim, aquilo penetrou, à força, em minha alma, gravando-se a fogo em minha trêmula razão. Oh, indescritível! Oh, horror dos horrores! Com um grito, afastei-me do poço e afundei o rosto nas mãos, a soluçar amargamente.

        O calor aumentava rapidamente e, mais uma vez, olhei para cima, sentindo um calafrio. Operara-se uma grande mudança na cela – e, dessa vez, a mudança era, evidentemente, de forma. Como acontecera antes, procurei inutilmente apreciar ou compreender o que ocorria. Mas não me deixaram muito tempo em dúvida. A vingança da Inquisição se exacerbara por eu a haver frustrado por duas vezes – e não mais permitiria que zombasse dela! A cela, antes, era quadrada. Notava, agora, que dois de seus ângulos de ferro eram agudos, sendo os dois outros, por conseguinte, obtusos. Com um ruído surdo, gemente, aumentava rapidamente o terrível contraste. Num instante, a cela adquirira a forma de um losango. Mas a modificação não parou aí – nem eu esperava ou desejava que parasse. Poderia haver apertado as paredes incandescentes de encontro ao peito, como se fossem uma vestimenta de eterna paz. “A morte”, disse de mim para comigo. “Qualquer morte, menos a do poço!” Insensato! Como não pude compreender que era para o poço que o ferro em brasa me conduzia? Resistiria eu ao seu calor? E, mesmo que resistisse, suportaria sua pressão? E cada vez o losango se aproximava mais, com uma rapidez que não me deixava tempo para pensar. Seu centro e, naturalmente, a sua parte mais larga chegaram até bem junto do abismo aberto. Recuei, mas as paredes, que avançavam, me empurravam, irresistivelmente, para a frente. Por fim, já não existia, para o meu corpo chamuscado e contorcido, senão um exíguo lugar para firmar os pés, no solo da prisão. Deixei de lutar, mas a angústia de minha alma se extravasou em forte e prolongado grito de desespero. Senti que vacilava à boca do poço, e desviei os olhos… Mas ouvi, então, um ruído confuso de vozes humanas! O som vibrante de muitas trombetas! E um rugido poderoso, como de mil trovões, atroou os ares! As paredes de fogo recuaram precipitadamente! Um braço estendido agarrou o meu, quando eu, já quase desfalecido, caía no abismo. Era o braço do General Lassalle. O exército francês entrara em Toledo. A Inquisição estava nas mãos de seus inimigos.

 

Edgar Allan Poe. O poço e o pêndulo. Da lista dos cem melhores contos do mundo – Revista Bravo.

 

Entendendo o conto:

 

01 – O que o narrador ouve logo antes de perder os sentidos no início do texto?

      Ele ouve a terrível sentença de morte proferida pelos juízes da Inquisição, cujas vozes depois começam a parecer um zumbido indefinido de sonho.

 

02 – Qual foi o primeiro método que o narrador utilizou para tentar medir as dimensões de seu calabouço na escuridão total?

      Ele rasgou uma tira de tecido da barra de sua roupa e a colocou no chão para marcar o ponto de partida. Depois, começou a contornar a parede tateando e contando os passos.

 

03 – Por que o cálculo inicial do narrador sobre o tamanho do calabouço estava errado?

      Porque ele adormeceu no meio da contagem. Ao acordar e retomar a caminhada, ele inverteu o sentido sem perceber (andando para a direita em vez de continuar para a esquerda), o que o fez contar o circuito quase em dobro. A cela tinha 25 jardas e não 50.

 

04 – Como o narrador descobriu a existência do poço no centro da cela?

      Ao tentar atravessar o centro da cela, ele tropeçou no próprio tecido de sua roupa e caiu violentamente de bruços. Ao notar que seu queixo tocava o chão, mas sua testa e lábios flutuavam no vazio, ele estendeu o braço e percebeu que estava na borda de um poço.

 

05 – Quando a cela finalmente é iluminada por um clarão cor de enxofre, o que o narrador vê decorado nas paredes?

      Ele descobre que as paredes são feitas de metal (ferro) e estão cobertas de figuras repulsivas e horrorosas, como demônios com formas de esqueleto e imagens ligadas a superstições sepulcrais.

 

06 – Em que situação física o narrador se encontra após acordar do segundo sono (induzido por uma droga na água)?

      Ele se encontra amarrado de costas em um andaime de madeira baixo. Uma longa tira de couro dá várias voltas em seu corpo, deixando livres apenas a sua cabeça e o seu braço esquerdo para que ele pudesse se alimentar com dificuldade.

 

07 – O que os algozes colocaram no prato do narrador e qual era a intenção oculta por trás disso?

      Colocaram carne muito salgada e retiraram o púcaro de água. A intenção demoníaca dos verdugos era torturá-lo, exasperando uma sede intolerável.

 

08 – Como era o pêndulo que o narrador viu descer do teto e onde ele estava programado para atingir?

      O pêndulo tinha na extremidade inferior uma lâmina em forma de lua crescente feita de aço brilhante, com cerca de um pé de comprimento e afiada como uma navalha. Ele foi posicionado para cortar a região do coração do narrador.

 

09 – Que estratégia o narrador utiliza para conseguir se livrar das amarras de couro?

      Ele esfrega os restos da carne oleosa e salgada nas tiras de couro que o prendiam. Isso atrai centenas de ratos vorazes vindos do poço, que sobem em seu corpo e roem a correia até parti-la.

 

10 – O que acontece com o pêndulo assim que o narrador escapa do leito de madeira, e o que isso prova a ele?

      O movimento do pêndulo cessa imediatamente e a máquina é puxada para o teto por uma força invisível. Isso provou ao narrador que seus menores movimentos estavam sendo constantemente vigiados pelos inquisidores.

 

 

 

POEMA: NÃO TE FIES DO TEMPO NEM DA ETERNIDADE - CECÍLIA MEIRELES - COM GABARITO

 Poema: Não te Fies do Tempo nem da Eternidade

          Cecília Meireles

 

Não te fies do tempo nem da eternidade
que as nuvens me puxam pelos vestidos,
que os ventos me arrastam contra o meu desejo.
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhw_ULcaI8uH_3lAUkFlTId56NXC5wP-0u7gZlauY8B7yEaCFT61Vo7UxmbS1dGz8Ei7IVhc6fgN20O1bpIqaWtfWZowYysaXxk4gDb5F0AoFk_WPx1qU8HT73rSzs6wksBDdm_yULJgf1UEvPYOP0l0hjJXLErO55e7J1GOsmUYY0SbjPjLpx5xK2soEI/s1600/mqdefault.jpg



Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
ó lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te escuto!

Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo...
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te digo...


Cecília Meireles, in Retrato Natural.

Entendendo o poema:

01 – Qual é o tema central do poema e como a repetição dos dois últimos versos de cada estrofe reforça essa ideia?

      O tema central é o carpe diem (aproveitar o momento presente) associado à angústia da brevidade da vida e à iminência da morte. A repetição dos versos "Apressa-te, amor, que amanhã eu morro, / que amanhã morro e não te..." funciona como um refrão desesperado que dita o ritmo de urgência do poema. Essa estrutura reforça a efemeridade do tempo e a necessidade absoluta do encontro amoroso imediato, pois o amanhã é sinônimo de ausência e fim.

 02 – Por que o eu lírico adverte o ser amado a não confiar ("não te fies") no tempo nem na eternidade?

      O eu lírico alerta que nem o tempo (que é mutável e passageiro) nem a eternidade (que é abstrata e distante) podem garantir a permanência da vida ou do encontro. Na primeira estrofe, o eu lírico descreve-se como alguém vulnerável às forças da natureza ("as nuvens me puxam pelos vestidos", "os ventos me arrastam"), evidenciando que os seres humanos não têm controle sobre o destino e estão à mercê de forças maiores que os desgastam e os levam embora.

03 – De que forma os sentidos humanos (visão, audição e fala) são distribuídos ao longo das estrofes para marcar a progressão da perda?

      Há uma progressão melancólica e sensorial da perda da vida que se manifesta no fechamento de cada estrofe:

      Na primeira estrofe, o foco é a visão: o medo de morrer e "não te vejo".

      Na segunda estrofe, o foco é a audição: o medo de morrer e "não te escuto".

      Na terceira estrofe, o foco é a fala/comunicação: o medo de morrer e "não te digo". Essa gradação mostra o corpo e a capacidade de se conectar com o outro silenciando-se aos poucos diante da morte.

04 – Como as imagens marítimas e minerais da segunda estrofe ajudam a construir o distanciamento do ser amado?

      Na segunda estrofe, o eu lírico pede ao amor que não demore "tão longe, em lugar tão secreto". Para ilustrar esse isolamento, utiliza as metáforas "nácar de silêncio que o mar comprime" e "ó lábio, limite do instante absoluto!". O nácar (substância dura e brilhante das conchas) associado ao silêncio esmagado pelo mar evoca uma barreira intransponível, mostrando que a distância e o silêncio do amado são tão rígidos e profundos quanto as profundezas do oceano.

05 – Qual é o significado da metáfora "a anêmona aberta na tua face" e o que representa o "vento inimigo" na última estrofe?

      A "anêmona aberta na tua face" é uma metáfora para o frescor, a beleza e a vivacidade da juventude e do rosto do ser amado (a anêmona é uma flor marinha ou terrestre delicada e colorida). O eu lírico pede o encontro agora, enquanto ainda mantém a capacidade de reconhecer essa beleza. Em contrapartida, o "vento inimigo" que ronda os muros representa o tempo devastador, a velhice ou a própria morte que cerca a existência e ameaça destruir essa delicadeza.

 

 

CRÔNICA: A CONCEPÇÃO DE FELICIDADE NA ÉTICA ARISTOTÉLICA - JOÃO FRANCISCO P. CABRAL - COM GABARITO

 Crônica: A CONCEPÇÃO DE FELICIDADE NA ÉTICA ARISTOTÉLICA

             João Francisco P. Cabral

         A palavra ethos é de etimologia grega e significa comportamento, ação, atividade. É dela que deriva a palavra ética. A ética é, portanto, o estudo do comportamento, das ações, das escolhas e dos valores humanos. Mas no nosso cotidiano ocorre de percebermos que há uma série de modelos de “éticas” diferentes que postulam modos de vida e de ação, por vezes excludentes. Qual é o melhor tipo de vida (se é que há um)? O que é a felicidade? É melhor ser feliz ou fazer o bem ou o que é certo?

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhF8HPLQZ7MT6vMsmYMloUo9eGwBidug5fwt2uUjEkkAVRQdxpvL32hYdnpbrvb7NuR8avOJXqCWWUOFsPSN0mvZ48bmH6wTxtwCxhJ74lxMz_QQXylM3V17EgBFBboXFPR6c6aCXoi8HkR8eqDAk3O51IFevdVWwAh2kMW4n-DjKKE4Fr6xuE09CSu3jc/s320/maxresdefault.jpg


        Perguntas como essas são feitas em todas as épocas da história humana. E desde a antiguidade clássica dos gregos, já havia muitos modelos de respostas para elas. Uma delas é a fornecida pelo filósofo Aristóteles, famoso por sua Metafísica. Vamos nos aprofundar um pouquinho mais no que ele tem a nos dizer.

        Em seu livro “Ética a Nicômaco”, Aristóteles consagrou a tão famosa ética do meio-termo. Em meio a um período de efervescência cultural, o prazer e o estudo se confrontam para disputar o lugar de melhor meio de vida. No entanto, a sobriedade de nosso filósofo o fez optar por um caminho que condene ambos os extremos, sendo, pois, os causadores dos excessos e dos vícios.

        A metrética (medida) que usa o estagirita (Aristóteles era chamado assim por ter nascido em Estagira) procurava o caminho do meio entre vícios e virtudes, a fim de equilibrar a conduta do homem com o seu desenvolvimento material e espiritual. Assim, entendido que a especificidade do homem é a de ser um animal racional, a felicidade só poderia se relacionar com o total desenvolvimento dessa capacidade. A felicidade é o estado de espírito a que aspira o homem e para isso é necessário tanto bens materiais como espirituais.

        Aristóteles herda o conceito de virtude ou excelência de seus antecessores, Sócrates e Platão, para os quais um homem deve ser senhor de si, isto é, ter autocontrole (autarquia). Trata-se do modo de pensar que promove o homem como senhor e mestre dos seus desejos e não escravos destes. O homem bom e virtuoso é aquele que alia inteligência e força, que utiliza adequadamente sua riqueza para aperfeiçoar seu intelecto. Não é dado às pessoas simples nem inocentes, tampouco aos bravos, porém tolos. A excelência é obtida através da repetição do comportamento, isto é, do exercício habitual do caráter que se forma desde a infância.

        Segundo Aristóteles, as qualidades do caráter podem ser dispostas de modo que identifiquemos os extremos e a justa medida. Por exemplo, entre a covardia e a audácia está a coragem; entre a belicosidade e a bajulação está a amizade; entre a indolência e a ganância está a ambição e etc. É interessante notar a consciência do filósofo ao elaborar a teoria do meio-termo. Conforme ele, aquele que for inconsciente de um dos extremos, sempre acusará o outro de vício. Por exemplo, na política, o liberal é chamado de conservador e radical por aqueles que são radicais e conservadores. Isso porque os extremistas não enxergam o meio-termo.

        Portanto, seguindo o famoso lema grego “Nada em excesso”, Aristóteles formula a ética da virtude baseada na busca pela felicidade, mas felicidade humana, feita de bens materiais, riquezas que ajudam o homem a se desenvolver e não se tornar mesquinho, bem como bens espirituais, como a ação (política) e a contemplação (a filosofia e a metafísica).

 

Por João Francisco P. Cabral. Colaborador Brasil Escola.

 

Entendendo a crônica:

01 – O que é a ética de acordo com a etimologia da palavra ethos e qual o seu objeto de estudo?

      A palavra ética deriva do termo grego ethos, que significa comportamento, ação ou atividade. Portanto, a ética é definida no texto como o estudo científico e filosófico do comportamento humano, englobando a análise das ações, das escolhas e dos valores que orientam a vida dos indivíduos em sociedade.

02 – Em que consiste a famosa "ética do meio-termo" de Aristóteles e o que ela condena?

      A ética do meio-termo consiste na busca por uma justa medida (ou metrética) entre os extremos da conduta humana, equilibrando o desenvolvimento material e espiritual do homem. Ela condena categoricamente os extremos — tanto o cultivo exclusivo do prazer quanto o ascetismo ou estudo radical —, apontando que o excesso e a falta são os verdadeiros causadores dos vícios e dos desvios de caráter.

03 – Como Aristóteles define a felicidade e qual a relação dela com a natureza essencial do ser humano?

      Para Aristóteles, a felicidade é o estado de espírito máximo a que todo homem aspira. Como a especificidade que define e diferencia o ser humano dos outros seres é o fato de ele ser um "animal racional", a verdadeira felicidade só pode ser alcançada através do total desenvolvimento dessa capacidade racional. Para que esse estado seja pleno, o indivíduo necessita de um equilíbrio entre bens materiais (riquezas que evitam a mesquinhez) e bens espirituais.

04 – De acordo com o texto, como um indivíduo alcança a excelência (virtude) e quem é o homem virtuoso para Aristóteles?

      A excelência não é um dom nato, mas sim um hábito obtido através da repetição do comportamento e do exercício constante do caráter, idealmente cultivado desde a infância. O homem virtuoso é aquele que possui autocontrole (autarquia), sendo senhor e mestre de seus próprios desejos. Ele sabe aliar inteligência e força, utilizando adequadamente seus recursos e riquezas para aperfeiçoar seu intelecto, distanciando-se tanto da ignorância ingênua quanto da bravura tola.

05 – Como funciona a aplicação prática do meio-termo em relação às qualidades do caráter e por que os extremistas não conseguem enxergá-lo?

      Na prática, o meio-termo situa-se exatamente no centro entre dois extremos viciosos. O texto exemplifica que a coragem é a justa medida entre a covardia e a audácia, assim como a amizade está entre a belicosidade e a bajulação. Os extremistas não conseguem enxergar esse ponto de equilíbrio porque são inconscientes da moderação; assim, quem está em um extremo sempre acusará o homem do meio-termo de praticar o vício oposto (como na política, onde o moderado é rotulado de radical pelos conservadores e de conservador pelos radicais).

 

 

CONTO: AS ÁGUAS DO MUNDO - CLARICE LISPECTOR - COM GABARITO

 Conto: As águas do mundo

          Clarice Lispector

        Aí está ele, o mar, o mais ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhVLj-1rp8pYRgQEjOkl9exeLMvFV3kZckRwzkKFvNcG-G22QDZr6J-Wmm2anHLut1QfC_eGS1s1Rv22IRGVRvSo3tQ-C0oiyRKRDCwCJEPas95u6NhE43iV00cDRKWE6ds9Vs18CtKT2TaOm4fsE0t04eA3Vy3jmOhv8RHt2Mi31KamvsWnQSMa5p1tNM/s1600/AGUAS.jpg 


        Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões.

        Ela olha o mar, é o que se pode fazer. Ele só lhe é delimitado pela linha do horizonte, isto é, pela sua incapacidade humana de ver a curvatura da terra.

        São seis horas da manhã. Só um cão livre hesita na praia, um cão negro. Por que é que um cão é tão livre? Porquê ele é o mistério vivo que não se indaga. A mulher hesita porque vai entrar.

        Seu corpo se consola com sua própria exiguidade em relação a vastidão do mar porque é a exiguidade do corpo que o permite manter-se quente e é essa exiguidade que a torna livre gente, com sua parte de liberdade de cão nas areias. Esse corpo entrará no ilimitado frio que sem raiva ruge no silêncio das seis horas. A mulher não está sabendo: mas está cumprindo uma coragem. Com a praia vazia nessa hora da manhã, ela não têm o exemplo de outros humanos que transformam a entrada no mar em simples jogo leviano de viver. Ela está sozinha. O mar salgado não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização. Nessa hora ela se conhece menos ainda do que conhece o mar. Sua coragem é a de, não se conhecendo, no entanto prosseguir. É fatal não se conhecer, e não se conhecer exige coragem.

        Vai entrando. A água salgada é de um frio que lhe arrepia em ritual as pernas. Mas uma alegria fatal – a alegria é uma fatalidade – já a tomou, embora nem lhe ocorrera sorrir. Pelo contrário, está muito séria. O cheiro é de uma maresia tonteante que a desperta de seus mais adormecidos sonos seculares. E agora ela está alerta, mesmo sem pensar, como um caçador está alerta, mesmo sem pensar. A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda- e abre caminho na gelidez que, líquida, se opõe a ela, e no entanto a deixa entrar, como no amor em que a oposição pode ser um pedido.

        O caminho lento aumenta as coragem secreta. E de repente ela se deixa cobrir pela primeira onda. O sal, o iodo, tudo líquido, deixam-na por uns instantes cega, toda escorrendo- espantada de pé, fertilizada.

        Agora o frio se transformou em frígido. Avançando, ela sobre o mar pelo meio. Já não precisa da coragem, agora já é antiga no ritual. Abaixa a cabeça dentro do brilho do mar e retira uma cabeleira que sai escorrendo toda sobre os olhos salgados que ardem. Brinca com a mão na água, pausada, os cabelos ao sol quase imediatamente já estão endurecendo de sal. Com a concha das mãos faz o que sempre fez no mar, e com altivez dos que nunca darão explicação nem a eles mesmos: com a concha das mãos cheia de água, bebe em goles grandes, bons.

        E era isso o que estava lhe faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem. Agora está toda igual a si mesma. A garganta alimentada se constringe com o sal, os olhos avermelham-se pelo sal secado pelo sol, as ondas suaves lhe batem e voltam pois ela é um anteparo compacto.

        Mergulha de novo, de novo bebe mais água, agora sem sofreguidão pois não precisa mais. Ela é a amante que sabe que terá tudo de novo. O sol se abre mais e arrepia-a ao secá-la, ela mergulha de novo: está cada vez menos sôfrega e menos aguda. Agora sabe o que quer. Quer ficar de pé parada no mar. Assim fica pois. Como contra os costados de um navio, a água bate, volta, bate. A mulher não recebe transmissões. Não precisa de comunicação.

        Depois caminha dentro da água de volta à praia. Não está caminhando sobre as águas- ah, nunca faria isso depois que há milênios já andaram sobre as águas- mas ninguém lhe tira isso: caminhar dentro das águas. Às vezes o mar lhe impõe resistência puxando-a com força para trás, mas então a proa da mulher avança um pouco mais dura e áspera.

        E agora pisa na areia. Sabe que está brilhando de água, e sal e sol. Mesmo que o esqueça daqui a uns minutos, nunca poderá perder tudo isso. E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos escorridos são de náufrago. Porque sabe – sabe que fez um perigo. Um perigo tão antigo quanto o ser humano.

 

Clarice Lispector. In: Felicidade Clandestina: José Olympio, 1975.

 

Entendendo o conto:

01 – O que aproxima e o que diferencia a mulher e o mar no início do conto?

      O que os aproxima é o fato de ambos serem descritos como "ininteligíveis" — o mar como o mais ininteligível das existências não humanas, e a mulher como o mais ininteligível dos seres vivos. No entanto, o que os diferencia essencialmente é a consciência humana: a mulher tornou-se incompreensível a partir do momento em que "fez um dia uma pergunta sobre si mesmo". Enquanto o mar é um mistério pleno e realizado por sua vastidão e salinidade, a mulher carrega o mistério da autodescoberta e da indagação.

02 – Qual é o significado da "coragem" mencionada pelo narrador quando a mulher hesita antes de entrar no mar?

      A coragem da mulher reside no ato de prosseguir e avançar em direção ao desconhecido, mesmo sem se autoconhecer ("Sua coragem é a de, não se conhecendo, no entanto prosseguir"). O texto destaca que ela cumpre esse ritual de forma solitária e autêntica às seis horas da manhã, desprovida do "exemplo de outros humanos" que reduzem o mar a um "simples jogo leviano de viver". Trata-se de uma coragem existencial: a de enfrentar a própria exiguidade diante da imensidão do mundo.

03 – Como a relação da mulher com o mar se transforma após ela ser coberta pela primeira onda?

      Inicialmente, a entrada exige esforço, vigilância (como a de um caçador) e uma "coragem secreta" diante da oposição da gelidez líquida. Porém, após ser coberta pela primeira onda — ficando temporariamente cega, escorrendo e sentindo-se "fertilizada" —, a dinâmica muda. O frio torna-se frígido, o medo desaparece e ela passa a se sentir "antiga no ritual". Ela deixa de ser uma intrusa e passa a agir com a intimidade e a segurança de uma "amante que sabe que terá tudo de novo".

04 – Qual é o significado simbólico do ato de a mulher beber a água do mar com a concha das mãos?

      O ato de beber a água salgada simboliza a interiorização do absoluto e a fusão definitiva entre o seu mundo interno e o mundo externo ("E era isso o que estava lhe faltando: o mar por dentro"). Ao ingerir o mar, a mulher preenche seu vazio existencial e atinge uma plenitude identitária, tornando-se "toda igual a si mesma". É um ato realizado com altivez, que dispensa comunicações, transmissões ou qualquer tipo de explicação racional.

05 – Por que, ao retornar à praia, a mulher sente que realizou "um perigo antigo quanto o ser humano"?

      Ao caminhar de volta, o mar tenta retê-la, exigindo que sua "proa" avance de forma dura e áspera. Ao pisar na areia, ela se reconhece com "cabelos de náufrago" porque vivenciou uma experiência limite de dissolução e renascimento. O "perigo" não é meramente físico, mas espiritual: o risco de se entregar completamente ao ilimitado, de perder as fronteiras do próprio ego na vastidão do mundo e, ainda assim, conseguir retornar transformada, brilhando de água, sal e sol.

 

POEMA: FRÊMITO DO MEU CORPO A PROCURAR-TE - FLORBELA ESPANCA - COM GABARITO

 Poema: Frêmito do Meu Corpo a Procurar-te

 Frêmito do meu corpo a procurar-te,

Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doído anseio dos meus braços a abraçar-te,

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiQ1FAw20VgxgQ1K1c5QsNNqj4pdzL9Jcl4Ar3aU-OO044MBc-7uyIixh2slMNIkX6hJtz2AMcBy4Osj4I9sQERMV5oj7SZEL5B9kTi4mQAvFlG8yeHDLF0ka4X5mK0DnuPlK4fHFNrFSif59AhvxO9mdlP7XDAMU_OP3CNVUKF7RQBA4hJNdd7DOlkRqs/s320/corpo.jpg



Olhos buscando os teus por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel,
Que nada existe que a mitigue e a farte!

E vejo-te tão longe! Sinto tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que não me amas...

E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas...

 

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas".

Entendendo o poema:

 

01 – Como a sensorialidade é explorada na primeira estrofe do poema para expressar o desejo do eu lírico?

      O eu lírico utiliza imagens sensoriais intensas, focando principalmente no tato e no olfato. Expressões como "frêmito do meu corpo", "febre das minhas mãos" e o "doído anseio dos meus braços" evocam uma necessidade física urgente de contato. Além disso, a referência aos aromas de "âmbar, baunilha e mel" personifica o ser amado através de sensações olfativas doces, contrastando com a dor da ausência descrita logo em seguida.

 

02 – Na segunda estrofe, o eu lírico menciona uma "fome, áspera e cruel". Qual é o significado metafórico dessa fome e o que ela revela sobre o seu estado emocional?

      A "fome" funciona como uma metáfora para o desejo insaciável e a carência afetiva. Ao descrevê-la como algo que "nada existe que a mitigue e a farte", Florbela Espanca reforça a ideia de um sofrimento absoluto e de uma busca incessante por algo que não pode ser alcançado, transformando a paixão em uma tortura física e emocional ("amargor de fel").

 

03 – Qual é o contraste estabelecido na terceira estrofe entre o estado de espírito do eu lírico e a atitude do ser amado?

      O contraste é marcado pela oposição entre a agitação do eu lírico e a passividade do ser amado. Enquanto o eu lírico está em "frêmito" e busca ansiosamente, a alma do ser amado é descrita como uma "lagoa calma". Essa calma não é positiva, mas sim uma representação da indiferença e da falta de reciprocidade, culminando na revelação dolorosa de que o outro "não ama" o eu lírico.

 

04 – Explique o simbolismo da metáfora final: "Esquife negro sobre um mar de chamas".

      Esta é uma imagem de forte impacto visual e emocional que encerra o soneto. O "esquife negro" (caixão) representa o coração do eu lírico, sugerindo que o seu sentimento está morto ou em estado de luto devido à rejeição. O "mar de chamas" simboliza o sofrimento devastador ou a paixão não correspondida que o consome. A imagem do esquife boiando ao acaso indica a perda de controle e a total desesperança diante do abandono.

 

05 – Considerando a estrutura do soneto e o vocabulário utilizado, qual é o tema central da obra?

      O tema central é a angústia do amor não correspondido e o desespero do desejo físico e emocional insatisfeito. O poema transita da urgência da carne (o frêmito e o desejo de tocar) para a melancolia da alma que se descobre ignorada, resultando em uma sensação de aniquilamento e solidão existencial, característica marcante da poesia de Florbela Espanca.

 

 

POEMA: CREIO NO MUNDO COMO NUM MALMEQUER - FERNANDO PESSOA - COM GABARITO

 Poema: Creio no mundo como num malmequer

            Fernando Pessoa

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiRUqag09_g_U1mbGr5loKROVFkWkwAj0qeCa3xEo55bRCxC3djqW5IFpFBkk2O0UI4fS6O1dEf8ntPtf4y_OEOzK0G2HpDpvN_E1T7gH4ho_Z8Rb6PNRWIdcmeg9UVxkD_Prx5lAdL5x1BPKL1Cc29-fFnTmonWOW4ZjZfSoWU0STiEkwfgL_68XDPzmY/s1600/images.jpg



O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Fernando Pessoa.

Entendendo o poema:

01 – Qual é o significado da comparação inicial "Creio no mundo como num malmequer"?

      A comparação com um malmequer (uma flor simples do campo, como a margarida) simboliza uma crença na realidade baseada na simplicidade, na evidência e na pureza visual. O eu lírico não precisa de dogmas, teorias ou religiões complexas para acreditar na existência do universo; ele crê no mundo da mesma forma direta e natural com que aceita a existência de uma flor comum: simplesmente "porque o vejo".

02 – Por que o eu lírico afirma que "pensar é não compreender" e define o pensamento como estar "doente dos olhos"?

      Para Alberto Caeiro, o pensamento abstrato deforma a realidade. Ao tentar intelectualizar o mundo, o ser humano distancia-se da verdade imediata das coisas. A metáfora "pensar é estar doente dos olhos" sugere que a filosofia e a racionalização funcionam como uma visão embaçada ou distorcida, que impede o homem de enxergar as coisas como elas realmente são em sua crueza e beleza física.

03 – De acordo com a segunda estrofe, qual é a verdadeira finalidade do mundo em relação aos seres humanos?

      O texto afirma categoricamente que o mundo não foi feito para ser transformado em objeto de especulação intelectual ("O Mundo não se fez para pensarmos nele"). A verdadeira finalidade da existência é a pura contemplação sensorial e a harmonia com o real: fomos feitos para "olharmos para ele e estarmos de acordo", isto é, para aceitar a natureza sem questionamentos ou rebeldias metafísicas.

04 – Como o eu lírico define a sua própria relação com o conhecimento e com a filosofia na última estrofe?

      O eu lírico recusa qualquer sistema filosófico tradicional ao declarar: "Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...". Ele substitui o império da razão pela soberania das sensações físicas (ver, ouvir, tocar). Ele admite que não possui um saber científico ou acadêmico sobre a Natureza, mas que se conecta com ela através de uma experiência puramente sensorial, prática e existencial.

05 – Como o conceito de amor é articulado nos versos finais para justificar o mistério da Natureza?

      O eu lírico explica que seu elo com a Natureza nasce do amor, e o amor, por definição, prescinde da lógica e do entendimento intelectual. Ao escrever que "quem ama nunca sabe o que ama / Nem sabe por que ama, nem o que é amar", ele defende que o sentimento autêntico é involuntário e inexplicável. Portanto, não saber definir o que é a Natureza não diminui a sua relação com ela; pelo contrário, é justamente essa falta de explicações intelectuais que valida a pureza do seu amor pelo mundo.



POEMA: TRAZES-ME EM TUAS MÃOS DE VITORIOSO - FLORBELA ESPANCA - COM GABARITO

 Poema: Trazes-me em Tuas Mãos de Vitorioso

 Trazes-me em tuas mãos de vitorioso

Todos os bens que a vida me negou,
E todo um roseiral, a abrir, glorioso
Que a solitária estrada perfumou.

 Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi7U1htMIRTYcjDYKMSf7qO1RsZtFA7Q42STppWOXsmG7f677l57KXpBzvP-fpkHweyGzVbkcLi8AZxH2jwvUo3ywuHQxA6Y6vlvXHy-FXLZH78wcedJpBnKGxx_pSlv2tJ9wnEoBOfUBaFJB4RA7cdZZXAlCHRjsf86mFVtCucM6HF_hYQuLP4cBIUrBk/s320/MAOS.jpg



Neste meio-dia límpido, radioso,
Sinto o teu coração que Deus talhou
Num pedaço de bronze luminoso,
Como um berço onde a vida me pousou.

O silêncio, ao redor, é uma asa quieta...
E a tua boca que sorri e anseia,
Lembra um cálix de tulipa entreaberta...

Cheira a ervas amargas, cheira a sândalo...
E o meu corpo ondulante de sereia
Dorme em teus braços másculos de vândalo...


Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas".

Entendendo o poema:

 

01 – Qual é a transformação que a presença do "tu" (a pessoa amada) opera na vida do eu lírico, segundo a primeira estrofe?

      A presença do "tu" representa uma compensação e uma cura. O eu lírico afirma que o amado traz "todos os bens que a vida me negou". A solidão e a escassez do passado (a "solitária estrada") são substituídas pela abundância e beleza, representadas pela metáfora do "roseiral a abrir, glorioso" que perfuma o caminho que antes era ermo.

 

02 – Como a figura do amado é divinizada ou enobrecida na segunda estrofe?

      O amado é descrito como alguém cuja essência é de origem divina e material nobre. O eu lírico diz que seu coração foi "talhado por Deus" em um "pedaço de bronze luminoso". O uso do bronze sugere força e durabilidade, enquanto a luz e a intervenção divina elevam a figura do amado a um patamar sagrado e protetor, servindo de "berço" para o eu lírico.

 

03 – Identifique e explique uma metáfora presente na terceira estrofe.

      Uma metáfora central é a comparação do silêncio a uma "asa quieta". Esta imagem sugere uma sensação de paz, proteção e imobilidade sagrada que envolve o casal. Além disso, a boca do amado é comparada a um "cálix de tulipa entreaberta", o que evoca delicadeza, desejo e beleza natural, reforçando a sensualidade contida no encontro.

 

04 – Quais sentidos são estimulados na última estrofe e qual o efeito dessa escolha?

      A última estrofe foca intensamente no olfato ("cheira a ervas amargas", "cheira a sândalo") e no tato ("corpo ondulante", "braços másculos"). Esse apelo sensorial cria uma atmosfera de intimidade física e exotismo. O uso de cheiros contrastantes (amargo vs. sândalo) sugere uma paixão complexa, que mistura o rústico com o refinado.

 

05 – Como o eu lírico se posiciona em relação ao amado nos versos finais do poema?

      O eu lírico se coloca em uma posição de entrega e vulnerabilidade mística. Ao se descrever como um "corpo ondulante de sereia" que dorme nos braços de um "vândalo", utiliza figuras arquetípicas: a sereia (sedutora, mas aqui submissa ao sono/paz) e o vândalo (figura de força bruta, conquistadora). Isso indica uma entrega total a um amor que é, ao mesmo tempo, protetor e avassalador.

 

 

POEMA: A MINHA PIEDADE A BOURBON E MENESES - FLORBELA ESPANCA - COM GABARITO

 Poema: A Minha Piedade

          A Bourbon e Meneses 

Tenho pena de tudo quanto lida

Neste mundo, de tudo quanto sente,
Daquele a quem mentiram, de quem mente,
Dos que andam pés descalços pela vida,

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjyu9sOG2BozqFKKKoGQC39U-Nphm4sDIHN5MQhkMZ1LVycvfoD9eKvFfieyZ011WH6zAlA5p9n8L2NFPTKSk4BIvdkTsdhPjaGueJEH6_ulY77Uy29Jd1JjtBlHo91ZfxDK6-U1TowRGGwqu_efGN9ffaSQu73yiGxa3u35VKecik4lLV97sjSSwa-3zU/s320/pena.jpg



Da rocha altiva, sobre o monte erguida,
Olhando os céus ignotos frente a frente,
Dos que não são iguais à outra gente,
E dos que se ensanguentam na subida!

Tenho pena de mim... pena de ti...
De não beijar o riso duma estrela...
Pena dessa má hora em que nasci...

De não ter asas para ir ver o céu...
De não ser Esta... a Outra... e mais Aquela...
De ter vivido e não ter sido Eu...


Florbela Espanca, in "Charneca em Flor".

Entendendo o poema:

 

01 – Nos dois primeiros quartetos, o eu lírico manifesta um sentimento de "piedade" que parece abranger toda a existência. Como essa empatia é construída e quais grupos ou elementos são destacados?

      A empatia é construída de forma universalista e inclusiva. Florbela Espanca utiliza a repetição da preposição "de" e do pronome "tudo" para demonstrar que sua piedade não seleciona apenas os "bons". Ela sente pena tanto de quem foi enganado ("daquele a quem mentiram") quanto do culpado ("de quem mente"). O eu lírico destaca os marginalizados socialmente ("pés descalços"), os marginalizados por sua natureza ou comportamento ("os que não são iguais à outra gente") e até elementos da natureza personificados ("rocha altiva"), unindo o sofrimento humano ao esforço da própria existência.

 

02 – No segundo quarteto, a autora personifica a "rocha altiva". Qual é o significado simbólico dessa imagem e como ela se relaciona com os versos seguintes?

      A "rocha altiva" simboliza a solidão e a soberba de quem tenta enfrentar o destino ou o desconhecido ("céus ignotos") com altivez. Ao personificá-la, o eu lírico estabelece um paralelo com "os que não são iguais" e os que "se ensanguentam na subida". A rocha representa o isolamento daqueles que buscam o transcendente ou o superior, sugerindo que mesmo a força e a elevação carregam um fardo de sofrimento que merece piedade.

 

03 – Há uma mudança de foco sensível entre os quartetos e os tercetos do soneto. Explique essa transição.

      O poema transita de uma "piedade" externa e coletiva para uma angústia interna e existencial. Enquanto nos quartetos o eu lírico observa o mundo (a mentira, a pobreza, a diferença), nos tercetos a dor volta-se para o "eu" e para o "ti" (o outro próximo). A perspectiva deixa de ser a observação social ou metafísica do mundo para se tornar um lamento sobre a própria vida, a impossibilidade de realizar desejos ideais e a insatisfação com a própria identidade.

 

04 – Interprete os versos "De não ser Esta... a Outra... e mais Aquela... / De ter vivido e não ter sido Eu...". O que eles revelam sobre a crise de identidade de Florbela Espanca?

      Esses versos revelam uma profunda fragmentação do eu e uma sensação de inautenticidade existencial. O desejo de ser "Esta, a Outra e mais Aquela" reflete a vontade de experienciar múltiplas vidas ou personalidades, indicando que a identidade atual é insuficiente ou limitadora. O verso final coroa essa crise com a constatação trágica de que a vida foi gasta em uma existência que não correspondia à essência verdadeira do eu lírico ("não ter sido Eu"), sugerindo um desencontro entre a alma e a realidade vivida.

 

05 – Como o tema da transcendência e da impossibilidade é abordado no poema? Cite elementos do texto que comprovem sua resposta.

      A transcendência é abordada como um desejo frustrado e uma limitação física e espiritual. O eu lírico anseia pelo que está além da condição humana, como "beijar o riso duma estrela" ou "ter asas para ir ver o céu". A impossibilidade reside no fato de que esses desejos são metafóricos e inalcançáveis, resultando na "pena dessa má hora em que nasci". O conflito entre o desejo de infinito (o céu, as estrelas) e a finitude humana é a causa central da melancolia que permeia o soneto.

 

 

 

FÁBULA: A PARREIRA E A VELHA ÁRVORE - LEONARDO DA VINCI - COM GABARITO

 Fábula: A Parreira e a Velha Árvore 

        Uma parreira, a fim de sentir-se mais segura, apoiou-se fortemente numa velha árvore. Suas companheiras, agarradas às estacas que o vinhateiro havia colocado com essa finalidade, perguntaram:

        -- Por que você escolheu uma velha árvore para se apoiar? E se ela morrer, que vai fazer você?

        A parreira, tranquila e satisfeita com sua escolha, não tomou conhecimento das companheiras. Agarrou-se ainda mais fortemente ao velho tronco, certa de que viveria mais tempo que todas as outras vinhas.

Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjGWqTr91Yo1YkmNeY0BP9pU0_KTajwD2u6XuhiTvNBj4p9FrQPCHMNGUHMwF7Qr7kQq10lyWVty7_30TtbYHWzbZINPoZqeDW0Cuiw1ZYVQMV4GNrBiIes2p5FJp2q2O8xKnCmCNteyzpXR9ocrCn4b2jfpErsvgHIckjGdsJu-DY4YTJTMUx5qujYM1o/s1600/images.jpg 


        Porém a árvore vivera muitos anos. Era tão velha que não aguentava mais. Estremecia ao menor sopro de vento e muitos de seus galhos já estavam secos e mortos. Um dia, finalmente, caiu com grande estrondo e ficou deitada na grama. A tola parreira, sempre envolvendo-a, caiu ao chão junto com ela.

        Moral: Buscar proteção naquilo que já está decadente ou sem vida própria nos leva inevitavelmente à queda.

 

Fábulas de Leonardo Da Vinci (Século XV).

Entendendo a fábula:

 

01 – Por que a parreira escolheu a velha árvore em vez das estacas colocadas pelo vinhateiro, e o que essa escolha representava para ela?

      A parreira escolheu a velha árvore porque buscava uma sensação de maior segurança e grandiosidade. Para ela, o tronco robusto e antigo da árvore parecia muito mais imponente e duradouro do que as simples estacas de madeira dispostas pelo vinhateiro. Essa escolha representava a busca por uma proteção que ela julgava ser superior e eterna, trazendo-lhe orgulho e tranquilidade inicial.

02 – Qual foi o alerta feito pelas outras parreiras e como a parreira protagonista reagiu a ele? O que essa reação demonstra sobre a sua personalidade?

      As companheiras questionaram o motivo de ela escolher uma árvore tão antiga e alertaram para o risco de a árvore morrer, deixando-a sem sustentação. A parreira ignorou o aviso, demonstrando arrogância e teimosia. Em vez de refletir sobre o conselho, ela se agarrou ainda mais forte ao tronco, o que revela uma postura de soberba e uma falsa sensação de infalibilidade.

03 – Como o autor descreve o estado real da velha árvore antes de sua queda? Que contraste essa descrição cria com a percepção da parreira?

      O autor descreve a árvore como alguém que já havia vivido muitos anos e não aguentava mais o próprio peso: ela estremecia com qualquer vento fraco e já possuía vários galhos secos e mortos. Isso cria um contraste irônico com a percepção da parreira, que via na árvore um símbolo de imortalidade e força, mostrando que a planta estava cega pela sua própria escolha e incapaz de enxergar a realidade óbvia da decadência.

04 – De que forma o desfecho da fábula justifica o uso do adjetivo "tola" para qualificar a parreira no último parágrafo?

      O desfecho justifica o termo "tola" porque a parreira acabou caindo ao chão junto com a árvore quando esta desabou. Ela se apegou tanto à sua ilusão de segurança que preferiu afundar com o seu apoio a reconhecer o erro a tempo de se salvar. A sua falta de discernimento e a insistência em permanecer vinculada a algo que já estava morrendo selaram o seu próprio fracasso.

05 – Trazendo a fábula para as relações humanas atuais, que tipo de comportamento ou situação social a atitude da parreira exemplifica?

      A atitude da parreira exemplifica situações em que pessoas se agarram cegamente a tradições obsoletas, a instituições falidas, a empregos sem futuro ou a relacionamentos tóxicos e desgastados apenas por medo de mudar ou por uma falsa sensação de status e segurança. Assim como a parreira rejeitou o suporte prático e seguro (as estacas do vinhateiro), muitas pessoas rejeitam caminhos novos e realistas para insistir em apoios que claramente estão prestes a ruir.