domingo, 21 de junho de 2026

CONTO: O CAPOTE III - PARTE 3 - NICOLAI GOGÓL - COM GABARITO

 Conto: O CAPOTE III – PARTE 3

          Nicolai Gogól

 

        Ao entrar na antecâmara, Acaqui Acaquievich viu uma fila de taças. Entre estas, a meio do compartimento, fervia um samovar, que espargia volutas de vapor. Pelas paredes estavam pendurados os vários capotes e agasalhos, alguns dos quais tinham golas de castor ou de veludo. Ouviam-se por detrás da parede ruídos e diálogos, que se tornaram mais próximos quando um criado abriu a porta e saiu com chávenas e taças vazias, uma compoteira e uma bandeja com pastéis. Concluía-se que os funcionários se encontravam reunidos já há algum tempo e que acabavam de tomar a primeira chávena de chá.

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        Acaqui Acaquievich despiu o capote sozinho e penetrou no salão; ante ele resplandeceram as velas, os funcionários, os cachimbos, as mesas de jogo, e surpreenderam-no confusamente os diversos ruídos; ouvia-se em todas as direções rumor de conversas e movimentos de cadeiras.

        Permaneceu atônito no centro do salão, pensando no que devia fazer. Mas já tinham reparado nele; rodearam-no, com alguns gritos, e levaram-no à antecâmara, para que lhes mostrasse o capote. Acaqui Acaquievich encontrava-se um tanto aflito, mas, como homem de bom coração, não pôde deixar de alegrar-se ao ver como todos elogiavam o seu capote. Depois, claro está, deixaram-no a ele e ao seu capote e voltaram para as mesas de jogo.

        Tudo aquilo – ruído, conversação, grande número de convivas – era para Acaqui Acaquievich como que um sonho. Não sabia verdadeiramente o que experimentava, nem onde havia de colocar as mãos, os pés, o seu próprio ser; por último, aproximou-se dos jogadores, olhou as cartas, contemplou ora um, ora outro, e pouco depois começou a bocejar, sentindo que se aborrecia, tanto mais que havia passado há muito a hora a que costumava deitar-se. Quis, por conseguinte, despedir-se do dono da casa, mas não lho consentiram, alegando que tinha de beber uma taça de champanhe em honra do novo elemento da sua indumentária.

        Uma hora mais tarde foi servida a ceia, composta de fiambre, vitela, empada, pastéis e champanhe. Acaqui Acaquievich teve de beber duas taças, sentindo que, depois delas, se tornava ainda mais alegre e ruidoso tudo quanto o cercava; entretanto, não se esqueceu de que dera já a meia-noite, e, portanto, muito tarde para estar fora de casa.

        A fim de que ninguém o obrigasse a permanecer ali, saiu silenciosamente do salão e procurou o seu capote, que, não sem íntimo desgosto, encontrou caído no chão; apanhou-o, sacudiu-o, limpou-o, pô-lo pelos ombros, desceu as escadas e encontrou-se ao ar livre.

        Na rua tudo estava iluminado. Algumas tabernas (que são os clubes dos porteiros e gente parecida) achavam-se ainda abertas; das outras, já fechadas, saiam longos feixes de luz por entre os interstícios das portas, mostrando que não estavam sem freguesia, criados certamente que se entretinham a falar e a dizer mal dos patrões.

        Acaqui Acaquievich caminhava com alegre disposição de ânimo e quase se sentiu capaz de correr atrás de uma dama que passou veloz por diante dele, dama cujo corpo se lhe afigurou extraordinariamente flexível. Dominou-se, no entanto, e prossegui muito lentamente, admirado de si próprio. 

        Em breve se estenderam ante ele as ruas desertas, onde de dia não se notava alegria alguma, quanto mais de noite. Apareciam-lhe agora mais profundas e isoladas, luziam os candeeiros cada vez menos, porque já o azeite se ia esgotando; começavam a surgir as casas de madeira dos bairros mais pobres; em parte alguma se via vivalma; a única luz era agora a que refletia a neve do chão; e sobre a neve recortavam-se lugubremente as sombras das baixas choupanas, de janelas cerradas. Aproximava-se do lugar em que a rua desembocava numa praça enorme, mal se podendo ver as casas do outro lado, como se se tratasse de um terrível deserto.

        Ao longe (só Deus sabe onde!) brilhava o fogo de alguma guarita, que parecia encontrar-se nos confins do mundo. A boa disposição de Acaqui Acaquievich passara já. Penetrou na praça, não sem certo terror, como se o seu coração pressentisse perigo. Olhou para trás de si e para o lado; em volta via-se apenas o espaço deserto. "É melhor não olhar", pensou.

        Continuou a avançar, de olhos fechados. Quando os abriu, para ver se estava já próximo do outro extremo da praça, observou que tinha diante de si gente de bigode. Mas nada mais pôde distinguir. Toldaram-se-lhe os olhos e recebeu uma pancada no peito. "Este capote é meu!", disse um dos homens, agarrando-lhe pela gola. Acaqui Acaquievich quis ainda gritar: "Ó da guarda!", mas o outro colocou-lhe a mão na boca e disse: "Desgraçado de ti se gritas!" O nosso herói só se deu conta de que lhe arrancavam o capote e de que lhe davam um violento pontapé. Caiu então de costas na neve e nada mais sentiu. 

        Voltou a si minutos depois, mas já não viu ninguém. Sentindo a frialdade do chão e a falta do capote, começou a gritar; parecia, entretanto, que a sua voz se perdia naquela praça enorme e não atingia o outro lado. 

        Desesperado, sem parar de gritar, pôs-se a correr em direção à guarita, atrás da qual estava um soldado apoiado à sua arma; parecia perguntar-se, com curiosidade, quem diabo era aquele que vinha assim a correr e a gritar com voz humana. 

        Acaqui Acaquievich chegou, ofegante, junto dele e começou, com voz aguda, a clamar que se tinha embriagado e que nada mais sabia senão que dois homens o tinham roubado. O soldado replicou nada ter visto; tinha observado apenas que dois homens o deixavam no meio da praça, mas supusera que eram seus amigos; acrescentou que, em vez de queixar-se ali, em vão, devia ir no dia seguinte à esquadra, onde por certo investigariam acerca de quem lhe roubara o capote.

        Acaqui Acaquievich dirigiu-se para casa num estado lamentável: os cabelos, que ainda lhe restavam, em pequenas quantidades, nas têmporas e na nuca, totalmente desgrenhados; o peito, as costas e as calças cobertos de neve. 

        A velha patroa, ao ouvir o tremendo ruído do batente da porta, saltou rapidamente da cama, calçando apenas uma meia, e foi a correr abrir aquela, segurando pudicamente a camisa contra os seios; mal abriu, ao ver Acaqui Acaquievich, esqueceu o seu pudor. 

        Quando o hóspede contou o que lhe sucedera, ela cruzou as mãos de espanto e disse ser preciso recorrer sem demora ao capitão da polícia, "porque o tenente nada mais faz que ouvir, fazer muitas promessas e dar tempo ao tempo"; melhor era ir diretamente ao capitão, de quem ela tinha boas informações, pois Ana, que fora sua cozinheira estava agora de ama em casa dele. Acrescentou que o via muitas vezes, principalmente ao domingo, na igreja, onde rezava com muita devoção e, ao mesmo tempo, olhava amigavelmente para toda a gente, parecendo um homem bondoso.

        Depois de ouvir este conselho, Acaqui Acaquievich, amargurado, retirou-se para a sua habitação. Como ele passou a noite... compreendê-lo-á quem tenha capacidade de se imaginar na situação de uma outra pessoa.

        Na manhã seguinte, muito cedo, dirigiu-se ao Comissariado, mas disseram-lhe que o capitão estava ainda a dormir; foi às dez e disseram-lhe outra vez: "Está a dormir"; foi às onze e responderam-lhe: "Não está"; à hora de comer... Mas os amanuenses não lhe consentiam de maneira nenhuma vê-lo, e queriam saber exatamente do que se tratava e o que acontecera; de maneira que Acaqui Acaquievich quis provar, uma vez na vida, que tinha energia e disse, com ar decidido, que precisava de falar ao inspetor, que contínuos agaloados, que abriam a porta a quem chegava: e convém saber que nesta importante secretaria de Estado pouco mais cabia que uma vulgar secretária.

        O modo de receber, assim como os gestos e hábitos da "alta personalidade", eram graves e majestosos, mas um tanto complicados. O fundamento principal do seu sistema era a disciplina. "Disciplina, disciplina e... disciplina", costumava ele dizer. E ao repetir pela terceira vez esta palavra fixava intensamente a pessoa a quem se dirigia, ainda mesmo sem o menor motivo para tal, pois os dez funcionários de que se compunha o mecanismo burocrático da repartição andavam sempre num verdadeiro terror.

        A conversação da "alta personalidade" com os inferiores recaia, em geral, no tema disciplina e compunha-se de frases deste gênero: "Como se atreve você? Sabe com quem está a falar? Sabe bem quem é que se encontra diante de si?" Era, noutros aspectos, homem de bom coração, afável e até serviçal para os da sua classe; mas a patente de general fizera-lhe perder o senso comum. Desde que recebera a nomeação, andava desvairado, descontrolara-se e não se apercebia bem do que se passava nele próprio. 

        Se tratava com iguais, era um homem correto, ordenado, e até, sob muitos aspectos; inteligente, mas, apenas se encontrava num grupo de gente de situação social inferior, já não sabia onde tinha a mão direita: tornava-se hirto e silencioso e a sua situação era tanto mais digna de dó quanto é certo que ele era o primeiro a saber que poderia passar o tempo de maneira muito mais agradável. Transparecia, às vezes, nos seus olhos o desejo de entabular uma conversa interessante com os funcionários; mas paralisava-o este pensamento: "Não seria excesso da sua parte? Não seria excesso de familiaridade, com que a sua dignidade perigasse?" Como consequência de tais reflexões, permanecia eternamente só, impenetrável, limitando-se a emitir um ou outro monossílabo. Conquistou por esta razão o título de "o homem que se aborrece".

 

Nicolai Gogól. Parte 3. Da lista dos cem melhores contos do mundo. É a história de um funcionário público que com grande sacrifício consegue comprar um capote novo e é roubado no mesmo dia...

Entendendo o conto:

01 – Como foi a reação dos funcionários da repartição ao verem o novo capote de Acaqui Acaquievich na festa?

      Os funcionários rodearam Acaqui com gritos assim que ele chegou e o levaram até a antecâmara para que mostrasse a nova vestimenta. Eles elogiaram bastante o capote, o que deixou Acaqui aflito, mas intimamente alegre. Logo após os elogios, no entanto, eles perderam o interesse e voltaram rapidamente para as mesas de jogo.

 

02 – Por que Acaqui resolveu ir embora da festa antes dos demais convidados e o que ele notou de desagradável ao pegar o seu capote?

      Ele resolveu ir embora silenciosamente porque já passava da meia-noite, horário muito tardio para ele, e sentia-se aborrecido e com sono observando o jogo. Ao procurar seu capote, sofreu um íntimo desgosto ao encontrá-lo jogado no chão; ele precisou apanhá-lo, sacudi-lo e limpá-lo antes de vestir.

 

03 – Como o cenário urbano se transforma enquanto Acaqui caminha de volta para casa e como isso afeta o seu estado de espírito?

      Inicialmente, ele caminha por ruas iluminadas e animadas, mantendo uma alegre disposição. Gradualmente, ele entra em ruas desertas, escuras (pois o azeite dos candeeiros estava no fim) e com habitações miseráveis de madeira. A alegria desaparece e dá lugar ao terror ao chegar a uma praça enorme e vazia, que lhe parecia um "terrível deserto" onde mal se viam as casas do outro lado.

 

04 – Como ocorreu o assalto a Acaqui Acaquievich e qual foi a reação do soldado que vigiava a guarita próxima?

      No meio da praça deserta, dois homens de bigode o interceptaram. Um deles desferiu uma pancada no peito de Acaqui e o segurou pela gola dizendo: "Este capote é meu!". Quando Acaqui tentou gritar por socorro, taparam-lhe a boca, ameaçaram-no, arrancaram-lhe o capote e deram-lhe um violento pontapé, deixando-o desmaiado na neve. O soldado da guarita afirmou não ter visto o crime; ele apenas notou dois homens deixando Acaqui na praça, mas achou que eram amigos dele.

 

05 – Qual foi o conselho dado pela velha patroa de Acaqui ao saber do roubo e qual era a justificativa dela para evitar o tenente?

      Ela aconselhou Acaqui a ir diretamente falar com o capitão da polícia. A justificativa era que o tenente apenas ouvia, fazia promessas e "dava tempo ao tempo", sem resolver nada. Ela recomendou o capitão por saber, através de uma ex-cozinheira, que ele era um homem bondoso e devoto, que olhava amigavelmente para todos na igreja.

 

06 – Que dificuldades Acaqui enfrentou na manhã seguinte ao tentar relatar o roubo no Comissariado?

      Acaqui foi ao Comissariado várias vezes desde muito cedo, mas em todas as ocasiões os amanuenses davam desculpas: primeiro que o capitão estava dormindo, depois que não estava. Os funcionários recusavam-se a deixá-lo entrar e queriam saber todos os detalhes antes. Acaqui só conseguiu ser atendido quando, num raro momento de energia, ameaçou queixar-se deles diretamente ao inspetor.

 

07 – Como o narrador descreve o caráter da "alta personalidade" e de que maneira o cargo de general afetou o comportamento desse homem?

      O fundamento principal do sistema da "alta personalidade" era a palavra "disciplina", usada para aterrorizar os subordinados com arrogância e frases autoritárias. Apesar de ser um homem de bom coração com seus iguais, a patente de general fez com que ele perdesse o senso comum. Ele tornou-se hirto, artificialmente distante e silencioso com os inferiores por medo de que a familiaridade fizesse sua dignidade perigar, o que o tornou um homem eternamente isolado e conhecido como "o homem que se aborrece".

 

 

CONTO: O CAPOTE II - PARTE 2 - NICOLAI GOGÓL - COM GABARITO

 Conto: O CAPOTE II – PARTE 2

          Nicolai Gogól

 

        Enquanto caminhava, roçou por ele um limpa-chaminés, que o sujou no ombro, e caiu-lhe também em cima um pedaço de argamassa de uma casa em construção. Não se apercebia de nada, e, mais tarde, quando tropeçou contra um guarda municipal, ao mudar este a espingarda para tirar tabaco do bolso, despertou ao ouvir o mesmo admoestá-lo:

        -- Porque te metes debaixo do meu nariz? Não te chega a rua?

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        Aquilo obrigou-o a refletir e a dirigir-se a casa. Só então lhe foi dado concentrar os seus pensamentos e viu com clareza a sua presente situação; começou a falar com os seus botões, sem a anterior incoerência, mas meditando com lógica, como se revelasse a um amigo inteligente o mais íntimo segredo do seu coração.

        "Não", monologava Acaqui Acaquievich. "Não convém hoje tratar com Petrovich. Hoje, a mulher... deve ter-lhe dado uma sova. O melhor será voltar domingo de manhã: depois da bebedeira da véspera estará ainda com o olho pisco e sonolento, e, como precisa de voltar a beber e a mulher não lhe dá dinheiro, se eu lhe passar uns rublos para a mão, deixa-se convencer e conserta-me o capote."

        Assim ia monologando e assim se ia animando Acaqui Acaquievich. Esperou até ao domingo seguinte e, depois de ver a mulher de Petrovich sair de casa, entrou com ar decidido.

        Custava muitíssimo a Petrovich, com efeito, abrir o seu único olho depois do que bebera na véspera, e cabeceava, sonolento; mas, apenas soube do que se tratava, pareceu que se apossara dele o Diabo.

        -- Não pode ser! – disse. – Tem de se lazer outro novo.

        Acaqui Acaquievich meteu-lhe uns copeques na mão.

        -- Obrigado, senhor. Agora poderei fortalecer-me um pouco à sua saúde – disse o alfaiate. – E não se preocupe você com o capote: não serve para nada. Far-lhe-ei um novo; e, quanto ao preço, havemos de entender-nos.

        Acaqui Acaquievich preferia que ele lhe cosesse o velho, mas Petrovich não fazia caso das suas palavras e insistia:

        -- Far-lhe-ei um novo, com toda a perfeição; tenha confiança em mim, farei quanto puder. E, se for preciso, até lhe ponho botões de prata, pois agora estão na moda.

        -- E Acaqui Acaquievich, vendo que não tinha outra solução senão fazer um capote novo, sentia um grande pavor na sua alma. Era necessário, tinha de ser, mas o dinheiro? Podia, certamente, contar com a gratificação que receberia nas próximas festas, mas esse dinheiro estava há muito já destinado. Necessitava fazer umas calças novas, pagar ao sapateiro uma dívida antiga de umas meias solas e, além disso, tinha de mandar fazer, sem falta, três camisas novas, duas das quais brancas; numa palavra, o dinheiro estava já destinado, e, ainda que tivesse um diretor compreensivo, capaz de conceder uma gratificação de quarenta e cinco ou cinquenta rublos, em vez de quarenta, o restante seria apenas uma insignificância para a soma de que necessitava para o capote – uma verdadeira gota de água no oceano.

        Sabia perfeitamente que Petrovich costumava fazer preços exorbitantes, de tal modo que até a mulher não podia conter-se e exclamava: "Mas tu estás com o juízo todo? Umas vezes aceitas o trabalho por nada, e agora atreveste a pedir um preço que nem tu próprio vales." E sabia perfeitamente também que Petrovich acabaria por fazer-lhe o capote por oitenta rublos; entretanto, donde haviam de vir-lhe esses oitenta rublos? Metade ainda podia arranjar-se: metade, sim, e talvez um pouco mais; mas onde conseguir a outra metade? Antes de prosseguirmos, deve o leitor ficar a saber donde lhe podia vir a primeira metade.

        Acaqui Acaquievich tinha o costume de reservar uma pequena quantia por cada rublo que gastava num mealheiro pequeno e fechado, com uma larga abertura. Ao cabo de cada meio ano contava o dinheiro em cobre e trocava-o por moedas de prata. Assim procedera durante muito tempo, e, desta maneira, ao fim de alguns anos reunira uma soma superior a quarenta rublos. A metade, por conseguinte, encontrava-se nas suas mãos; mas a outra metade? Onde obter os outros quarenta rublos?

        Acaqui Acaquievich pensava, pensava, e chegou à conclusão de que o único recurso era reduzir até ao extremo possível todos os gastos ordinários durante um ano, abolir o hábito de tomar chá à noite, não acender a luz e, quando precisasse de copiar qualquer coisa, ir ao quarto da patroa e trabalhar à luz da sua vela; ao caminhar pela rua, fazer por andar o mais cuidadosamente possível e evitar as pedras ou pedaços de ferro, para não gastar rapidamente as solas dos sapatos; dar à lavadeira a roupa branca com a menor frequência possível e, para que se não gastasse, tirá-la logo ao chegar a casa e substitui-la pela camisa de dormir, que era de algodão, muito velha, e não podia durar muito mais.

        Para dizer inteiramente a verdade, consignaremos que, a princípio, lhe custou muito habituar-se a todas estas privações, mas depois, uma vez acostumado, chegou até a suprimir a refeição da noite; em compensação, alimentava-se espiritualmente, pensando no seu futuro capote. 

        A partir daí pareceu encontrar um complemento do seu ser, como se fora casar, ou como se se sentisse outro, como se não estivesse sozinho na vida, como se tivesse encontrado uma companheira que aceitasse seguir juntamente com ele pela estrada da vida; ora esta companheira não era outra senão o seu capote, de grosso forro, sem a menor passagem. 

        Tornou-se mais animado e de caráter mais firme, como um homem que se propôs um fim determinado. Do seu rosto e até dos seus passos desapareceram a dúvida e a indecisão. No seu olhar aparecia mesmo um certo lampejo; no cérebro passavam-lhe, como relâmpagos, pensamentos audazes e temerários: "Porque não havia de pôr a gola de marta?" Com estas ideias tornou-se um tanto distraído. Uma ocasião, ao copiar um oficio, esteve a ponto de fazer um erro; quase gritou em voz alta "ai!" e fez o sinal da cruz.

        Uma vez por mês, pelo menos, visitava Petrovich, com o propósito de lhe falar acerca da memória começa a fraquejar e os nomes das ruas de Sampetersburgo misturaram-se-me de tal maneira na cabeça que me é muito difícil ordená-las. Seja como for, o fato é que vivia numa das melhores artérias da cidade, bastante longe de Acaqui Acaquievich.

        Teve este de seguir primeiramente através de ruas solitárias, de iluminação escassa; mas, à medida que se aproximava do domicílio do funcionário, as ruas eram mais animadas, a iluminação maior e mais intensa; os viandantes iam e vinham, mais frequentes, multiplicavam-se as mulheres elegantemente vestidas; os homens levavam golas de pele de castor; quase não se viam já os bancos de madeira esburacada; os cocheiros, de libré dourada e gorro de veludo carmesim, sobre os trenós envernizados e forrados de peles, vagueavam pelas ruas... Acaqui Acaquievich admirava tudo aquilo como uma novidade; há muitos anos que não saía à noite. 

        Cheio de curiosidade, deteve-se diante de uma montra para ver o quadro de uma mulher belíssima a descalçar um sapato, mostrando assim toda a perna escultural; por detrás dela assomava a uma porta um sujeito de patilhas e com uma bonita barba ao gosto espanhol. Acaqui Acaquievich abanou a cabeça, sorrindo, e prosseguiu o seu caminho. 

        Porque sorria ele? Talvez por lhe serem desconhecidas todas as pessoas com quem cruzava, ou talvez por um sentimento oculto em relação a esse ambiente, ou então porque pensava como pensam funcionários: "Vá! Estes Franceses! O que se diz! Que inveja causa! Há que ver, precisamente e tal!...", ou então seria isto que pensava: que não é possível perscrutar a alma de um homem e apreender tudo quanto pensa. Chegou por fim à casa em que habitava o ajudante do chefe. Este vivia à grande: a escadaria era iluminada por um magnífico candelabro; a habitação ficava no segundo andar.

 Nicolai Gogól. Parte 2. Da lista dos cem melhores contos do mundo. É a história de um funcionário público que com grande sacrifício consegue comprar um capote novo e é roubado no mesmo dia...

Entendendo o conto:

 01 – Qual foi a estratégia lógica que Acaqui Acaquievich planejou para convencer o alfaiate Petrovich a consertar seu capote velho em vez de fazer um novo?

      Acaqui decidiu não falar com Petrovich imediatamente porque deduziu que a esposa dele devia ter lhe dado uma sova. Ele planejou voltar no domingo de manhã, pois calculou que, após a bebedeira de sábado, o alfaiate estaria sonolento, com o "olho pisco" e precisando de dinheiro para continuar bebendo. Acaqui acreditava que, ao passar alguns rublos direto para a mão dele sem a esposa ver, Petrovich cederia e aceitaria fazer o conserto.

 02 – Acaqui tinha uma quantia guardada que cobria metade do valor do novo capote (quarenta rublos). Como ele conseguiu reunir esse dinheiro ao longo dos anos?

      Ele tinha o hábito de poupar uma pequena quantia (em moedas de cobre) para cada rublo que gastava, depositando-as em um pequeno mealheiro fechado com uma abertura larga. A cada seis meses, ele contava esse dinheiro acumulado e trocava o cobre por moedas de prata.

 03 – Quais foram as privações extremas que Acaqui se impôs no dia a dia para conseguir economizar a outra metade do dinheiro (os outros quarenta rublos)?

      Ele cortou o chá da noite; aboliu o uso de velas (indo copiar no quarto da patroa para usar a luz dela); passou a andar com extremo cuidado na rua para não gastar as solas dos sapatos nas pedras ou ferros; reduziu a frequência das lavagens de roupa e passou a tirar o uniforme logo ao chegar em casa para não gastar o tecido, substituindo-o por uma camisa de dormir de algodão muito velha. Eventualmente, ele suprimiu até a refeição da noite.

 04 – De que maneira a obsessão pelo novo capote alterou a psicologia e a postura de Acaqui Acaquievich no cotidiano?

      O capote transformou-se em uma "companheira" existencial. Pensar nele fez com que Acaqui se alimentasse espiritualmente, tornando-se mais animado, firme e decidido. A dúvida e a indecisão sumiram de seu rosto e de seus passos, e seus olhos ganharam um lampejo. Ele começou a ter pensamentos audazes (como colocar gola de marta) e ficou tão distraído que quase cometeu um erro de escrita na repartição.

 05 – Por que Acaqui não pôde contar inteiramente com a gratificação de fim de ano do diretor para pagar o capote, mesmo que ela fosse maior do que o esperado?

      Porque aquele dinheiro já estava totalmente comprometido com outras necessidades básicas e urgentes acumuladas: ele precisava fazer calças novas, pagar uma dívida antiga ao sapateiro por meias solas e mandar fazer três camisas novas (sendo duas brancas). Assim, o dinheiro da gratificação seria apenas "uma gota de água no oceano".

 06 – Como o narrador descreve a mudança de cenário urbano à medida que Acaqui se deslocava de seu bairro em direção à casa do ajudante do chefe?

      Acaqui sai de ruas solitárias e de escassa iluminação para adentrar uma das melhores artérias da cidade, onde as ruas eram muito movimentadas e intensamente iluminadas. O cenário muda para a ostentação: pedestres bem-vestidos, homens com golas de pele de castor, cocheiros de libré dourada e gorro carmesim conduzindo trenós envernizados, além de lojas com grandes montras, culminando na casa do chefe, que tinha uma escadaria iluminada por um magnífico candelabro.

07 – Diante de uma montra iluminada na parte rica da cidade, o que chamou a atenção de Acaqui e qual foi a sua reação?

      Chamou sua atenção o quadro de uma mulher belíssima descalcando um sapato e exibindo a perna escultural, com um homem de barba espanhola a observando por trás de uma porta. Acaqui reagiu abanando a cabeça e sorrindo, um comportamento raro para quem passou anos sem sair à noite ou prestar atenção nas distrações da rua.

 

 

 

 

 

TIRINHA: COLOCAÇÃO PRONOMINAL I - EXERCÍCIOS - COM GABARITO

 Colocação Pronominal I – Exercícios

Leia a tirinha a seguir e responda às questões:

 

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01 – Afinal, por que o desejo do leão não se realizou?

      Porque ele jogou só uma moedinha.

02 – O que ele deve fazer se quiser que seu desejo se realize?

      Jogar mais moedas.

03 – Observe a fala do leão: Meu desejo não se realizou!

a) Nessa frase ocorre próclise (pronome antes do verbo), mesóclise (pronome no meio do verbo) ou ênclise (pronome depois do verbo)?

      Próclise.

04 – Com relação à colocação pronominal, essa frase está:

(X) correta, pois a palavra negativa (não) pede próclise (pronome antes do verbo).

(  ) incorreta, pois a palavra negativa (não) pede ênclise (pronome depois do verbo).

 

 

TIRINHA: COLOCAÇÃO PRONOMINAL II - EXERCÍCIOS - COM GABARITO

 Colocação Pronominal II – Exercícios

Leia a tirinha a seguir e responda às questões de 5 a 9:

 

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 01 – Por que a moça desistiu de beijar o rapaz?

      Porque ele usou o pronome de forma incorreta.

02 – Se ao invés de dizer “Abraça-me” e “Beije-me”, ele dissesse “Me abrace” e “Me beije”, as frases estariam corretas?

(  ) Sim, porque o pronome pode estar no início da frase e todos falam assim.

(X) Não, porque não se inicia frase com pronome oblíquo.

03 – A frase “Nunca deixe-me”, com relação à colocação pronominal está:

(  ) correta, pois a palavra negativa (nunca) pede ênclise (pronome depois do verbo).

(X) incorreta, pois a palavra negativa (nunca) pede próclise (pronome antes do verbo) e o certo seria “Nunca me deixe”.

04 – Ao se declarar para a moça, o rapaz estava usando a linguagem informal (do dia a dia, que não segue as regras gramaticais) ou formal (que segue as regras da gramática)?

      Formal.

05 – Você acha que dependendo da pessoa que se pretende conquistar, falar errado pode ser um empecilho? Justifique sua resposta.

      Resposta pessoal do aluno.

 

CONTO: SAPATOS DE CAPIM - DAVID GONÇALVES - COM GABARITO

 Conto: Sapatos de capim

           David Gonçalves

 

        Vem esta viração da tarde farfalhando as roseiras e as folhagens verdes, sacudindo levemente as trepadeiras do mato, redescobrindo na alma a alegria doce da infância. Ela chega devagar toda tarde, acaricia a pele e purifica os sonhos do menino que existe dentro do homem grande e surrado pelo tempo...

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgirf6tKFnqcEV_ByT4YCVNVdoQKznuN5_Vl5d2Y6LE5FbAGnIHeG9nr3Fge7gH8lnz_uids6JVjNNJaD-vUNhI-rQD7X5zvPNe2I-J47rxiE2JS_xPv97o9mlmavyyBnrNSMwJ3vVX1UYNmLkeHGR8hzUgO6oqWvSB_hxLz4_PSOxcB4GpzADB5GslQ_c/s320/SAPATOS.jpg


        Aquele menino magro e franzino que abre a porteira de dobradiças enferrujadas sou eu. Ele se dependura no gemido prolongado das dobradiças enferrujadas no pátio da fazenda. O gemido parece alma penada solta no meio das pastarias e dos cafezais verdes.

        O sol vermelho, na tarde calorenta, é uma ciranda de fogo dependurada na aba dos morros, à espera do encantamento da noite. As sombras invadem o pátio. Os boias-frias trepam nos caminhões de lona. Cansados, estropiados, cobertos por uma camada de terra vermelha, soltam suspiros entalados nas gargantas ressecadas. O patrão paga-os, nota por nota, como se eles fossem vadios.

        -- Você, amanhã, não precisa vir. O trabalho não rendeu. Quem sabe, noutro dia...

        -- Mas tenho família, preciso do trabalho, me dá mais uma chance – implora o boia-fria, como mendigo.

        -- Já disse: vá andando! – engrossa a voz.

        Depois, o patrão chama o gato:

        -- Não me traga mais essa gente carcomida, que não aguenta sequer um saco de batatas às costas!

        O menino brinca pelo pátio. Corre de um lado a outro. Parece que engoliu um pedaço da ciranda do sol. Dependura-se na porteira e faz repetir o lamento prolongado das dobradiças enferrujadas. No mourão esquerdo há uma caveira de boi. É para espantar as pragas, doenças e maldições. O ringido das dobradiças corta o pátio empoeirado e o caminhão de trabalhadores se movimenta devagar – o fordeco geme, sente o lamento da porteira.

        -- Para com isso, menino! – ralha o capataz. – Tem fogo no rabo?

        Ele pula da porteira e mete os pés na poeira fofa como um redemoinho. Reina no ar uma alegria incontida. O sangue pula nas veias. Os olhos brilham. Novamente o vento da tarde farfalha as roseiras, os folhames das trepadeiras e arrepia a sua pele. Ele não se aguenta de contentamento; parece que vai estourar de tanta alegria. Ah, o mundo é belo, a vida se renova a cada instante.

        O caminhão atravessa a porteira e some na estrada, deixando um canudo de pó na tarde. O capataz fecha a porteira e o lamento das dobradiças enferrujadas corta o pátio da fazenda.

        Na sede da fazenda há grande reboliço. O coração do menino ronda inquieto a sala. Lá, não pode entrar. Espia de longe, curioso, magoado. As moças preparam o presépio. Dão os últimos retoques. Pelas frestas de tábuas largas ele se esforça e consegue ver o Menino Jesus num berço de palha, rodeado por Nossa Senhora e São José. Os animais acalentando – as narinas inchadas expelindo o bafo quente. Lembra-se da vaquinha Andorinha e da mula Preciosa, as duas riquezas de sua família. Quer embarafustar corredor adentro, num supetão, mas é esbarrado.

        -- Sai, moleque! Aqui não é seu lugar!

        A mulher gorda o pega pelo revés das calças curtas e o joga no terreiro, além do varandão, como cachorro. Que mal fizera? Quer ver o presépio, ajoelhar-se diante do Menino Jesus e pedir um presente. Desapontado, ele sai pelo pátio, sem destino, uma grande dor no peito magro. Sente raiva da mulher gorda. Jesus a castigaria, com certeza. Deseja que ela se transforme numa rã chata, redonda, buchuda, as papadas caindo de lado, orlada de limo verde e fedorento. Com muito arrependimento, ela cantaria: um-dois, h-a-ã-ã-ã, um-dois, h-a-ã-ã-ããããã! Príncipe nenhum haveria de beijá-la. Ela apodreceria no brejo, repetindo um-dois-h-a-ã-aã-ããããã!                                                

        O menino – olhos grandes e saltados – se abeira do pai, Seu Angico, peão respeitado, empurrador de boias-frias nos caminhões de lona, na esperança de receber migalhas de amor. Lembra-se da missa que assistiu meses atrás – o padre de Jandaia, um sujeito taludo e ruivo, numa voz doce e confiante, que era tempo de amar. O menino Jesus entraria em todas as casas e nelas faria um berço de capim. Permanece ao redor do pai olhando os trabalhadores desnutridos e cadavéricos. Tenta descobrir o que há por trás daqueles rostos pejados de rugas. Mas não encontra nenhuma alegria. Roça nas pernas do pai, que o interpela:

        -- Sai, moleque! Não vê que estou na lida?

        Vai enxugar as lágrimas atrás do paiol, sentado sobre as pedras do pequeno córrego de águas cristalinas e burbulhantes. O riozinho sulca a terra vermelha e fértil. Vários patinhos brincam no seu leito sob os olhos atentos da mãe. Sente uma imensa poesia dentro de si, mas não consegue transmitir. Expulso da sede, não conseguia ver o presépio. O pai sequer o repara. A tarde avança. Outro caminhão entra no pátio para levar o restante dos trabalhadores. A poeira levantada pelo rodado esparge no ar abafado uma camada fina de terra. Há, nele, uma vontade incontrolável de espiar o presépio, quem sabe perguntar ao menino Jesus se a caminha é quente, macia, se não machuca as costelinhas nos fiapos de vassoura seca... Em sua cabeça as palavras do padre de Jandaia:

        -- Natal é tempo de amar... Cada coração se enche de bondade e transborda. Só assim se pode receber as graças do Menino...

        Mas ninguém lhe dá atenção. A vontade de amar e ser amado explode dentro do peito. Ele tem vontade de colher as flores nos campos e distribuir entre os últimos camaradas suados.

        Nesta noite, o Menino renasceria dentro do homem; cada homem se tornaria menino de orvalho novamente a correr pelas campinas verdes. No amanhecer, a pureza tomaria cada coração.

        Natal! – o renascimento do homem. A alegria de viver estaria em cada rosto. Ela dançaria dentro de cada coração como o minuano dança nos telheiros de ricos e pobres. Em sua casa, não haverá presépio. Mas o que importa? O menino Jesus está no ar, dança alegre na tarde sobre a copada das árvores.

        Sai em disparada ao campo e colhe sempre-vivas e margaridas. Distribui aos trabalhadores suados. O pai balança a cabeça:

        -- Este pirralho está bestando!

        Então, ele pergunta, com medo:

        -- Deixa eu ir na missa do galo?

        -- Ora, só: nem calças compridas veste!

        Os camaradas riem.

        -- Pra casa, já! Me deixe em paz!

        O pai fala sério. Sente as lágrimas brotarem ali no meio dos homens. Com sacrifício, engole o nós na garganta.  Desmancha-se num sorriso sem graça. Onde está o amor que o padre de Jandaia falara naquela missa de domingo? O gato comeu. Ele quer mostrar o quanto ama, mas as muralhas são intransponíveis. O pai nem o olha, acha-o muito pequeno. Sente inveja dos homens grandes. Mas ele haveria de crescer muito, ficar taludo, forte como um touro. Acordaria o sol nas madrugadas, amarraria os bois nos mangueiros, tiraria leite gordo das tetas da vaquinha Mimosa, montaria em burro brabo, dirigiria o trator da fazenda... Poderia ir aos bailes, beliscar as moças, dançar, jogar truco, embebedar-se... Ah, como o tempo não passa!

        Ele sabe que é tempo de ganhar presentes. O Papai Noel faz visitas no meio da noite, com um grande saco cheio de brinquedos e vai deixando em casa os pedidos dos meninos. O padre de Jandaia dissera que ele entra nas casas dos patrões e dos empregados. Com certeza, também entraria na sua casa nesta noite. Ele desejava tanto um caminhãozinho! Igual àquele que puxava os trabalhadores para o eito, sob sol e chuva... Há dias vinha sonhando com o presente. Nesta noite, com certeza, Papai Noel não o esqueceria.

        Volta apressado à sede da fazenda e, sorrateiro, por entre tábuas, olha o presépio. Lá está o menino Jesus, Nossa Senhora e São José com o seu cajado. Ao redor, os animais. Novamente vem à cabeça: será que a caminha de fiapos de vassoura é quentinha? Será que o menino Jesus não passará frio?

        -- Acho que não – conclui, depois de alguns segundos. – Está fazendo calor, faz dias que não chove...

        Mira o final de tarde. O sol cai esbraseado na aba dos morros achatados. Não há prenúncios de chuva. A noite será morna e cálida. Dá uma volta ao redor casarão e ouve vozes dos filhos do fazendeiro: A menina diz:

        -- Eu quero ganhar uma boneca que fala. Daquelas que eu vi na revista. Se não for igual, eu jogo fora! Já pedi pro Papai Noel. E você?

        O garoto remexe um baú de madeira cheio de brinquedos, que raramente são lembrados.

        -- Eu quero um robô que me obedeça! Estou cansado desses brinquedos que não se movem. Parecem lesma...

        -- Você já fez o pedido?

        -- Ah, sim, já coloquei os sapatos na janela.

        -- Seu bobo! O sapato limpo não chama o Papai Noel.

        -- Não chama?

        -- Claro que não! Você tem que fazer uma caminha de capim dentro dele, como foi feito no presépio, a caminha do menino Jesus.

        Ele se sobressalta. Não tinha colocado nada na janela. Como receberia Papai Noel? Sai apressado. Como um raio, antes de escurecer, vai ao campo, logo depois do piquete dos bezerros e com as mãos magras arranca um feixe de capim. Por que não pensara nisto antes? Agora, precisa correr, fazer tudo às pressas. Passa como um rojão entre os últimos trabalhadores. Esbarra num boia-fria e quase deixa escapar o feixezinho de capim ainda tenro.

        -- Mas que pirralho! Vê se olha por onde anda! Parece que tem formigas na bunda!

        Passa pela mãe na cozinha de chão batido. Ela prepara o arroz e feijão. Depena também uma galinha para o almoço de Natal. Alguns fiapos de capim caem pelo chão, mas a mãe não vê. Há cheiro de cebola e alho por toda a casa. Ele entra no quartinho e procura o par de sapatos rotos debaixo da cama. Aquilo nem era cama. O pai a fizera com três tábuas podres que serviam de poleiro para as galinhas. Ansioso, coloca o feixe de capim no fundo do sapato velho. Fica indeciso: no pé direito ou no esquerdo? Por um momento, sente-se perdido, como se estivesse numa encruzilhada e não soubesse que rumo tomar. Por via das dúvidas, faz o ninho nos dois. E fica imaginando se é quentinho como o berço de fiapos de vassoura do presépio na sede da fazenda. Apalpa e remexe o capim. Sente o cheiro acre. Está fofo, sim. Agora, ele precisa fazer o pedido. Quer ganhar um caminhãozinho igual àqueles que levam os trabalhadores de volta à cidade depois de uma jornada de trabalho. Quando se prepara para pedir, é interrompido.  A mãe o chama.

        -- O que você está aprontando no quarto? Vem cá, vá chamar o pai, que a janta está quente! Mexa-se, pirralho!

        Ele coloca os sapatos debaixo da cama e sai correndo. Ninguém pode descobrir o seu segredo. Passa pela cozinha como um pé de vento, nem percebe que a mãe está acendendo o lampião a querosene e as primeiras sombras da noite estão dançando nas paredes sujas de picumãs.

        -- Paiêêê!

        Está lusco-fusco. A noite abraça a natureza rapidamente.

        -- O que é? –  a voz do pai parece aborrecida, cansada.

        -- A mãe tá chamando!

        -- Ainda tenho um monte de coisas pra fazer...

        -- O que eu digo pra ela?

        -- Não enche, moleque! Eu já vou!

        Por que o pai anda aborrecido? É véspera de Natal. Lembra-se novamente das palavras do padre de Jandaia. Tempo de alegria, muito amor nos corações... De volta ao casebre, já é noite e as sombras produzidas pelo lampião dançam nas paredes fazendo desenhos assustadores.

        -- Meu Deus! Como você está sujo! Já pro banho! – a mãe o empurra para a casinha de banho, que fica no quintal, perto da bica d’água.

        Entrega-lhe uma toalha úmida de algodão ralo. Enche o tambor de água morna e o levanta à altura do caibro, amarrando-o com uma corda.

        -- Passe bastante sabão e esfregue pra valer! Está parecendo mais um porco! Não sei o que você faz pra ficar assim!

        Toma banho rápido esfrega, esfrega, ensaboa, esfrega, depois abre a torneirinha do latão e deixa a água já fria escorrer-lhe pelo corpo magro. Está visivelmente com pressa. Ainda não fez o pedido a Papai Noel. Enxuga-se pela metade. Nos ouvidos ainda permanecem manchas de terra vermelha como cascões. Veste a camiseta de malha e o calção de brim. E sai descalço. A mãe ralha:

        -- Pestinha! Coloque o chinelo, pelo menos!

        Ele se dirige ao quartinho, espia debaixo da cama. Lá estão os sapatos de capim. Precisa fazer o pedido. Mas não sabe como fazer. Ajoelha-se, coloca os dois sapatos sobre o peito e olha para o alto. Com os lábios trêmulos, diz:

        -- Papai Noel, não me esqueça. Sei que você passa em todas as casas. Eu quero o caminhãozinho...

        Os joelhos, nas tábuas largas e ásperas, doem.

        -- Prometo que serei um bom menino. Obedecerei à mamãe, papai, e não matarei os passarinhos.

        Mexe os joelhos nas tábuas largas e pressiona os sapatos de capim sobre o peito magro.

        -- Ah, ia me esquecendo! Quero um caminhãozinho vermelho!

        Da cozinha, vem a voz da mãe:

        -- Onde se meteu este pestinha? Venha comer, moleque!

        O pai entra na cozinha e liga o rádio a pilha. Uma doce melodia natalina toma conta da pequena cozinha. O fogo na taipa do fogão a lenha está quase apagado. Os pernilongos esvoaçam famintos.

        -- Arre, não gosto desse tipo de música. Parece moda de enterro...

        -- Você não gosta de Natal! – diz a mãe, irritada, lavando a louça numa bacia de alumínio.

        -- Pudera! Que alegria os pobres têm com tanta propaganda? Só tem Natal gordo quem tem dinheiro!

        -- O que importa é a fé! – rebate a mãe, agora esfregando um pano de prato com força para tirar a gordura.

        O pai se torna ofendido.

        -- Minha parte eu quero em dinheiro! O que se ganha não dá nem pra comida! Que alegria posso ter por ocasião das festas?

        -- Faça orações, quem sabe seremos ouvidos.

        -- Sabe, mulher, estou cansado desta vida. Natal, pra mim, não significa nada. É um bom meio de vida para os mais vivos ganharem suas fortunas...

        -- Agradeça, homem, agradeça! Se fosse um boia-fria, teria muitas razões para reclamar! Moramos na fazenda, temos um teto, ainda não fomos expulsos da terra. Agradeça, homem!

        -- Até quando ficaremos aqui? O patrão está doidinho pra botar todo mundo porteira afora!

        -- A mãe não rebate. O menino vai ao quartinho. Está cansado. As pálpebras pesam. Com esforço, abaixa-se e pega os sapatos e os coloca no parapeito da janela. Dormiria com a janela aberta. Em seguida, deita-se. Não quer dormir. Quem sabe, fechar um olho e deixar o outro aberto para espiar a chegada do Papai Noel carregando o grande saco cheio de brinquedos... Mas o sono vem e ele adormece.                                      

        O menino sonha. Lá vem o Papai Noel. Carrega um saco grande de brinquedos. Passa de casa em casa. Bate na porta, segura os meninos no colo largo, beija a face de cada um, entrega os presentes. Ele está deitado, finge que dorme. Mas está de olhos bem abertos. As estrelas brilham. A noite está clara como dia. Lá vem o papai Noel. Em pouco tempo, estará na sua janela. Dá passadas apressadas, tem muitos presentes para entregar, não pode perder tempo. Os presentes devem ser entregues antes do nascer do sol. Ele está bem perto, a poucos passos. Uma luz resplandece por onde passa. Chega à janela, espia para dentro do quarto. E diz:

        -- Ah, que belo menino! Como me esqueci de você em outros Natais! Oh, aqui está o seu caminhãozinho vermelho! Mas tem que me prometer que será um bom menino durante o ano inteiro. Promete?

        Ele balança a cabeça. Papai Noel entra pela janela e o suspende da cama e dá um beijo em cada face. Em seguida, vai embora, um feixe de luz o acompanha. Há muitos presentes para entregar. O menino sorri satisfeito.

        Acorda já dia. A passarinhada faz um barulhão no quintal; galos e galinhas esvoaçam de um lado a outro bicando o chão duro. Ele se lembra do sonho e sorri. Abre os olhos e pula como mola para ver o presente sobre os sapatos de capim. Mas não vê nada, senão os sapatos forrados de capim. Sem crer, ele se abaixa, olha debaixo da cama. Quem sabe, Papai Noel escondeu em outro lugar só para atiçar a sua curiosidade. Mas também não vê nada. Desapontado, volta para a cama e soluça. Papai Noel se esquecera dele. Ouve a mãe, da cozinha, chamando-o:

        -- Acorde, moleque! O sol já está alto. Vá ajudar seu pai!

        Vai até a janela e recolhe o capim dos fundilhos rotos dos sapatos e o joga pela janela, enquanto recoloca os sapatos debaixo da cama. Mais tarde, os meninos da sede da fazenda estão mostrando os presentes aos moleques da pária. Ele cobiça os brinquedos com os olhos saltados e lacrimejantes.

        Ah, esta viração da tarde que vem farfalhando as roseiras e as folhagens verdes, sacudindo levemente as trepadeiras do mato, redescobrindo na alma a infância amarga. Resta ao menino trepar na porteira e fazer as dobradiças enferrujadas soltarem o lamento pelo pátio.

David Gonçalves

Entendendo o conto:

01 – Por que o conto tem o título “Sapatos de Capim”?

      O título faz referência à estratégia que o menino usa na esperança de receber um presente de Natal. Após ouvir a conversa dos filhos do fazendeiro, ele acredita que, para atrair o Papai Noel, precisa preparar uma "caminha de capim" dentro de seus sapatos velhos, imitando o berço do Menino Jesus no presépio.

02 – A caveira de boi dependurada no mourão da porteira tinha uma finalidade. Qual?

      A finalidade era mística/supersticiosa: servia para afastar pragas, doenças e maldições da fazenda.

03 – O que estava provocando rebuliço na fazenda?

      O rebuliço era causado pelos preparativos de Natal na sede da fazenda, especificamente a montagem e os retoques finais do presépio pelas moças.

04 – “Protagonista” é o personagem principal de uma história. Em “Sapatos de Capim”, o protagonista passa por dois momentos bem distintos: um de felicidade e outro de decepção, de tristeza. Diga:

A – Quando ocorre o primeiro momento?

      Ocorre no final da tarde, quando ele brinca na porteira, sente a viração do vento e é tomado por uma alegria pura e incontida, fascinado pela beleza do mundo e pela esperança do Natal. Também se repete no momento em que ele sonha que o Papai Noel o visita e lhe dá o caminhãozinho.

B – Quando ocorre o segundo momento?

      Ocorre na manhã de Natal, quando ele acorda e percebe que seus sapatos continuam vazios (apenas com o capim), percebendo que o Papai Noel se esqueceu dele.

05 – Em um determinado momento, o personagem principal, desapontado, sente raiva e deseja algo.

A – Quando isso acontece?

      Acontece quando ele tenta espiar o presépio dentro da casa grande e é rudemente expulso por uma mulher gorda, que o joga no terreiro "como um cachorro".

B – O que deseja ele?

      Ele deseja que a mulher gorda seja castigada por Jesus e se transforme em uma rã chata, redonda e buchuda, morando em um brejo fedorento, sem que nenhum príncipe a beije.

06 – O desejo do protagonista, quando sente raiva, faz lembrar de alguma história que você conhece? Qual?

      O desejo faz lembrar o clássico conto de fadas "O Príncipe Sapo" (dos Irmãos Grimm), mas de forma invertida: enquanto na história original o sapo vira príncipe com um beijo, no desejo do menino a mulher viraria rã e quebraria a tradição do "beijo do príncipe", apodrecendo no brejo.

07 – “Emissor” é aquele que emite, que diz algo. Identifique o emissor nos trechos abaixo.

A – “Natal é tempo de amar.” O Padre de Jandaia (lembrado pelo menino).

B – “Tem fogo no rabo?” O capataz.

C – “Deixa eu ir na missa do galo?” O protagonista (o menino).

D – “Eu quero ganhar uma boneca que fala.” A filha do fazendeiro.

E – “(...) Estou cansado desses brinquedos que não se movem.” O filho do fazendeiro.

F – “Papai Noel, não me esqueça (...). Eu quero o caminhãozinho...” O protagonista (o menino).

G – “Natal pra mim não significa nada. (...)” Seu Angico (o pai do menino).

H – “Agradeça, homem, agradeça.” A mãe do menino.

08 – Você sabe o que é “missa do galo”? O que é?

      Resposta pessoal do aluno. Sugestão: A Missa do Galo é uma tradicional celebração da Igreja Católica que ocorre à meia-noite do dia 24 de dezembro para o dia 25 de dezembro (Véspera de Natal), celebrando o nascimento de Jesus Cristo.

09 – De acordo com o padre de Jandaia, o que é o Natal? Você concorda com ele?

      De acordo com o padre: O Natal é o tempo de amar, um momento em que cada coração se enche de bondade e transborda, permitindo que o Menino Jesus entre nas casas (tanto de patrões quanto de empregados) e faça nelas um berço de capim.

      Opinião pessoal: Sugestão: Sim, concordo, pois a essência do Natal deveria ser a empatia, a união e o amor ao próximo, independentemente de bens materiais. (Você também pode discordar apontando que, na realidade do conto, o Natal se mostra muito mais comercial e desigual do que o padre pregava).

10 – Qual parte de “Sapatos de capim” você mais gostou? Por quê?

      Resposta pessoal do aluno. Sugestão: A parte de que mais gostei foi o momento em que o menino colhe sempre-vivas e margaridas no campo para distribuir aos trabalhadores suados. Gostei dessa parte porque mostra a pureza genuína da infância e como o menino, mesmo sem ter nada material para oferecer, tentou praticar o verdadeiro espírito do Natal (o amor e a partilha) com aqueles que eram tão invisíveis e sofridos quanto ele.

 

 

 

 

sexta-feira, 19 de junho de 2026

POEMA: NATUREZA VIVA COM PONTOS - JOSÉ FERNANDES - COM GABARITO

 Poema: NATUREZA VIVA COM PONTOS

           José Fernandes

O sangue do crepúsculo se deita no leito
do rio para amar os peixes na brancura das águas
e espalhar o viver pelas beiradas limosas
do encanto e do húmus burburinhando alevinos.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjP2d_4MJS2xIpgzX3YjvyWPh9e46CwLYDDcte9wJlEB8OwOIGWlAMD5X9s1lX2ABhAvkysnWospvh8UQsahpHBrZEq6muvlV3z4BijRTXgNFmR7AMYxjemB6DzBhxviIqt7eBfik8uzwDKprbDLqkPxB78UagRW0dKrIFYme5-kftKWN44J4CYHraZppk/s320/NATUREZA.jpg



A manhã arrasta o sol e se debruça sobre o verde
para o fervor da ventania nas folhas e nos ramos
que bebem água pelos barrancos emprumados
de sua altivez de pedras mergulhadas no tempo.

Nas escamas dos dourados o sol se enfeita de brilho
e aguarda o lusco-fusco para se despedir da lua
com as mãos estendidas pela abóbada celeste
a fim de saciar a sede do dragão de São Jorge.

Cada tuiuiú que pousa nas copas do vento
sabe de cor as normas de todas as folhas do verão
e viaja altaneiro nas estradas das chalanas
que vencem os remansos todos do outono.

Nas romãs, eu colho as sementes dos pássaros
e caminho para o vermelho da tarde: repouso
nos olhos dos sapos que intanham a noite
e seus mistérios de rio e água indovoltandoindo...

José Fernandes.

 Entendendo o poema:

01 – Na primeira estrofe, o autor utiliza uma metáfora marcante: "O sangue do crepúsculo se deita no leito do rio". O que significa essa imagem poética e qual processo biológico/natural ela introduz logo em seguida?

      A metáfora do "sangue do crepúsculo" representa a cor avermelhada ou alaranjada do pôr do sol refletida nas águas do rio ao fim do dia. Essa imagem introduz uma atmosfera de fertilidade e geração de vida, pois o eu lírico descreve esse momento como um ato de amor ("para amar os peixes") que espalha a vida pelas margens enriquecidas de matéria orgânica ("húmus"), resultando no surgimento e agitação de filhotes de peixes ("burburinhando alevinos").

 

02 – A fauna e a flora do poema remetem a um ecossistema brasileiro muito específico. Identifique dois elementos nativos presentes na quarta estrofe que ajudam a situar geograficamente o cenário da obra.

      Os dois elementos são o tuiuiú e as chalanas. O tuiuiú é a ave-símbolo do Pantanal, conhecida por sua imensa envergadura, e as chalanas são as embarcações típicas de fundo chato que navegam pelos rios daquela região. A menção a esses dois termos fixa o cenário do poema nas planícies inundáveis do Centro-Oeste brasileiro (Pantanal/bacia do rio Paraguai ou Araguaia).

 

03 – No encerramento da terceira estrofe, há uma transição lírica do entardecer para a noite através da menção ao "dragão de São Jorge". Como essa referência mítica se conecta com os elementos astronômicos citados no mesmo trecho?

      A referência se conecta através do imaginário popular e da astronomia. O texto descreve o sol se despedindo da lua no "lusco-fusco" (o crepúsculo). Na cultura popular brasileira, as manchas escuras da Lua Cheia são frequentemente associadas à figura de São Jorge montado em seu cavalo combatendo o dragão. Ao dizer que as mãos estendidas na abóbada celeste vão "saciar a sede do dragão de São Jorge", o poeta funde o cenário real do anoitecer com a mitologia lunar, poeticamente humanizando o céu noturno que surge.

 

04 – A quarta estrofe constrói uma imagem de sabedoria instintiva e harmonia entre os animais e as estações do ano. De que maneira o tuiuiú é integrado a esse ciclo natural?

      O tuiuiú é integrado como um ser perfeitamente sintonizado com a natureza. O eu lírico afirma que a ave "sabe de cor as normas de todas as folhas do verão", o que simboliza o conhecimento instintivo e ancestral que o animal possui sobre o clima, as cheias e a vegetação. Além disso, ele navega pelo ar ("copas do vento") acompanhando o ritmo das chalanas que vencem os remansos "do outono", mostrando o trânsito harmônico da vida selvagem através da mudança das estações.

 

05 – Na última estrofe, o autor cria o neologismo (palavra inventada) "indovoltandoindo". Analisando o contexto do poema, qual é o efeito de sentido dessa palavra e como ela se relaciona com o movimento das águas de um rio?

      O neologismo indovoltandoindo (a junção de "indo" + "voltando" + "indo") traduz visual e ritmicamente o movimento contínuo, sinuoso e cíclico da água do rio, que avança, esbarra nas margens gerando redemoinhos ou remansos (volta) e continua o seu curso (vai novamente). A palavra expressa a fluidez eterna da natureza e o mistério do tempo, que parece passar e permanecer ao mesmo tempo no fluxo da correnteza.