terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

POEMA: O GIRASSOL - VINÍCIUS DE MORAES - COM GABARITO

Poema: O Girassol
VINÍCIUS DE MORAES

 
Sempre que o sol
Pinta de anil
Todo o céu
O girassol
Fica um gentil
Carrossel.

O girassol é o carrossel das abelhas.



Pretas e vermelhas
Ali ficam elas
Brincando, fedelhas
Nas pétalas amarelas.

--- Vamos brincar de carrossel, pessoal?

--- “Roda, roda, carrossel
Roda, roda, rodador
Vai rodando, dando mel
Vai rodando, dando flor”.

--- Maribondo não pode ir que é bicho mau!
--- Besouro é muito pesado!
--- Borboleta tem que fingir de borboleta na entrada!
--- Dona Cigarra fica tocando seu realejo!

--- “Roda, roda, carrossel
Gira, gira, girassol
Redondinho como o céu
Marelinho como o sol.”

E o girassol vai girando dia afora...

O girassol é o carrossel das abelhas.

                        Moraes, Vinícius de. A arca de Noé: poemas infantis.
                                      14. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1984.
Afora (dia afora): o dia todo, sem parar.
Anil: azul.
Fedelhas (fedelho): criança enxerida, que se intromete onde não deveria.
Realejo: instrumento musical antigo, que produz som quando é girado uma manivela.

Entendendo o poema:
01 – Releia a primeira estrofe do poema.
a)   Pintar de anil significa deixar o céu azul ou azulado. Em que parte do dia o sol pinta de anil o céu?
A ação ocorre durante as horas de sol, refere-se a dias ensolarados, iluminados pelo sol.

b)   Por que o girassol nessa parte do dia vira um “gentil carrossel”?
Porque se movimenta em direção ao sol. O girassol, com a passagem do sol, vai girando, acompanhando a luz solar. No poema, as abelhas fazem deles um brinquedo, um gira-gira natural.

02 – Por que as abelhas são denominadas com o adjetivo “fedelhas”?
      As abelhas ficam brincando no girassol, intrometidas.

03 – Quais são os três verbos do poema que indicam o movimento realizado pelo girassol?
      Os verbos são: roda, rodando e gira.

04 – Qual a intenção do autor ao usar esses verbos? O que ele quer destacar?
      O poeta destaca o movimento ritmado do girassol, acompanhando o sol. O uso de uma mesma palavra mais de uma vez serve para estacar o movimento repetitivo e circular da flor.

05 – Na canção, há alguns versos iniciados com travessão. O que indica o uso desse sinal gráfico?
      Travessão indica que alguém está falando, mostra que as abelhas, como as crianças num gira-gira, estão conversando.

06 – Registre quem as abelhas deixam de fora da brincadeira e explique os diferentes motivos.
      Os insetos que não podem entrar são:
      Marimbondo – porque é mau.
      Besouro – porque é muito pesado.
      Cigarra – para ficar tocando realejo.

07 – Leia a definição de carrossel em um dicionário:
      Car-ros-sel:
      1- Exercício ou exibição hípicos com execução de evoluções.
      2- Maquinismo comumente encontrado em parques de diversões que consiste em uma plataforma circular com assentos, muitas vezes em forma de cavalos ou outros animais, que gira em torno de um centro fixo.
      3- Aparelho de parque infantil que é essencialmente um banco circular que gira ao redor de um centro fixo.
a)   Qual das definições é adequada ao sentido atribuído no poema à palavra carrossel?
O significado n° 2.

b)   Por que o girassol é chamado de “carrossel”?
O girassol, com a passagem do sol, vai girando, acompanhando a luz solar. No poema, as abelhas fazem deles um brinquedo, um gira-gira natural.

c)   Quais as semelhanças entre carrossel e girassol?
Os dois são redondos e giram.

d)   Entre o significado do dicionário e aquele criado pelo poeta, qual deles é o mais criativo?
O significado criado pelo poeta é o mais criativo.



segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

MÚSICA(ATIVIDADES): TIRO AO ÁLVARO - ELIS REGINA E ADONIRAN BARBOSA - COM GABARITO

Música(ATIVIDADES): Tiro Ao Álvaro


 Elis Regina e Adoniran Barbosa

De tanto levar frechada do teu olhar
Meu peito até parece sabe o quê?
Táubua de tiro ao álvaro
Não tem mais onde furar
Não tem mais

De tanto levar frechada do teu olhar
Meu peito até parece sabe o quê?
Táubua de tiro ao álvaro
Não tem mais onde furar

Teu olhar mata mais do que bala de carabina
Que veneno estriquinina
Que peixeira de baiano
Teu olhar mata mais que atropelamento de automóver
Mata mais que bala de revórver.

Carabina: tipo antigo de espingarda.
Estriquinina: espécie de veneno cuja grafia correta é estricnina.
Peixeira: faca de lâmina larga usada para limpar peixe.

Entendendo a canção:

01 – De que assunto trata a canção?
      A canção é o relato de alguém que está recebendo muitos olhares penetrantes e amorosos de outra pessoa, a ponto de se sentir, de modo figurado, com o peito furado.

02 – A que o eu lírico compara seu peito?
      O peito dele é comparado a uma tábua de tiro ao alvo.

03 – Por que o peito dele estaria desse modo?
      O eu lírico diz que é alvo do olhar fulminante de outro alguém, talvez apaixonado por ele.

04 – Por que o eu lírico faz essa comparação?
      A comparação é feita porque tábua de tiro ao alvo apresenta muitos furos, após receber flechas, balas de revólver ou dardos.

05 – O poder do olhar é tão forte que é comparado, em determinado momento, à bala de carabina. A que outros elementos o olhar também é comparado?
      Veneno, estricnina, peixeira de baiano, atropelamento de automóvel e bala de revólver.

06 – Os elementos aos quais o olhar é comparado são positivos ou negativos? O que isso indica sobre a intensidade do olhar recebido?
      Os elementos são negativos, mas o sentido que se quer dar é o contrário, pois se trata de um olhar apaixonado, penetrante, com sentimentos fortes e intensos.

07 – Há alguns trechos que são repetidos na letra da canção. Você sabe como se chama essa parte da música que é repetida?
      O trecho repetido chama-se refrão ou estribilho.

08 – Algumas palavras da canção “Tiro ao Álvaro” reproduzem o português falado em determinadas regiões do nosso país.
a)   Que palavras são essas?
Frechada – táubua – Álvaro – automóver – revórver.

b)   Indique de que forma seriam escritas se estivessem de acordo com a língua padrão escrita.
Flechada – tábua – alvo – automóvel – revólver.

09 – As palavras usadas na canção são utilizadas em artigos de jornal, revista ou em noticiários da televisão?
      Não.

10 – Foi possível compreender a letra da canção, apesar do uso dessas palavras?
      Sim.

11 – Como se trata de uma letra de música, a linguagem é diferente daquela empregada no cotidiano. Localize no texto e transcreva no caderno algumas passagens que ilustrem recursos próprios da linguagem poética, como a metáfora e a hipérbole.
      Metáfora: “de tanto levar / frechada do teu olhar.”
      Hipérbole: todos os outros versos.

12 – Qual recurso foi mais empregado por Adoniram Barbosa em “Tiro as Álvaro”: a metáfora ou a hipérbole? Justifique sua resposta com base na letra.
      Hipérbole: O eu lírico se queixa da agressividade do olhar do outro de modo enfático, para ressaltar sua sensação desagradável.

13 – Nessa letra, o autor escreveu algumas palavras do modo como são faladas em algumas regiões do Brasil. Diga quais são elas.
      Táubua, tiro ao Álvaro, automóver, revórver.

14 – Na sua opinião, por que Adoniran Barbosa não escreveu essas palavras de acordo com a norma padrão da língua?

      Adoniran Barbosa, registrava em suas letras o modo como falavam os paulistanos descendentes de italianos. Tratava-se de uma “fala ítalo-caipira”, nas palavras de José Paulo Paes.




REPORTAGEM: O SONHO DE SER DONO DO PRÓPRIO NARIZ - O GLOBO - COM GABARITO

REPORTAGEM: O SONHO DE SER DONO DO PRÓPRIO NARIZ


         Dirigir, beber e entrar em boates são, para menores, as vantagens de ser maior.
         Chiquinho tem 16 anos e, para impressionar as meninas e tirar onda de mais velho, anda com uma chave de carro pendurada no chaveiro, que fica sempre à vista, preço à calça. Parece brincadeira, mas é sério. Chiquinho é amigo de Júlio [...], de 15 anos, que, como a maioria dos garotos de sua idade, também tem vontade de ser mais velho.
         -- Queria poder dirigir. Para quê?
         Ah, para poder levar as garotas em casa e não ter que depender dos pais para buscar nas festas – diz Júlio.
         Aparentemente bem mais do que seus 14 anos, Guilherme [...] garante que nunca mentiu sobre sua idade. Para ele, ter 18 anos não é tudo:
         -- Queria ter logo 21, pois com 18 anos você ainda deve satisfação aos pais. O bom de ter carro é que qualquer um, mesmo sendo feio, leva uma menina para casa depois de uma festa. É sério! Qual a menina que gosta de voltar a pé ou de ônibus? – argumenta.
         Edson [...], de 15 anos, cita outras vantagens de ser maior de idade:
         -- Poder ir a boates sem correr o risco de ser barrado na porta, tomar cerveja e não ter hora para voltar para casa – lista Edson.

         A responsabilidade que chega junto com a maioridade

         André [...], de 16 anos, também queria poder voltar mais tarde para casa, de carro, mas acha que ainda não está preparado para dirigir.
         -- Acho que 16 anos ainda é muito cedo para dirigir. Até os 18 a gente amadurece, ganha mais experiência. Não sei se teria maturidade para dirigir sozinho, só acompanhado por alguém mais velho.
         Como ele, sua namorada Júlia [...], de 15 anos, também busca a responsabilidade.
         -- Não tinha vontade de ter 18 anos, mas de poder fazer as coisas que os mais velhos podem com a idade que tenho. Queria ter a liberdade para fazer o que quiser. Não só para entrar em lugares proibidos para menores, mas para poder trabalhar, ter o meu próprio dinheiro, ter mais responsabilidade. Deve ser bom responder pelos seus atos, sem depender de mais ninguém – acredita Júlia.
         É justamente essa responsabilidade que Júlia procura que as amigas Soraya [...] e Maria [...], ambas de 14 anos, acham a única coisa ruim de ser maior de idade.
         -- O ruim é que com 18 anos a adolescência já está acabando. Você passa a ter muita responsabilidade e tem que trabalhar – lamenta Soraya, acrescentando que, em compensação, poderá entrar em boates.
         Já sua amiga Renata [...], de 13 anos, só vê vantagens.
         -- Com 18 anos você está livre, pode ir morar sozinha! Já até combinei de dividir apartamento com uma amiga – sonha Renata, que está contando os dias, ou melhor, os anos, para fazer 18 anos.

               O Globo, Rio de Janeiro, 2 ago. 1998, Caderno Planeta Globo, p. 4.
                                 Os sobrenomes dos entrevistados foram retirados.

Entendendo o texto:
01 – O texto é uma reportagem. Leia a diferença entre estes dois tipos de texto jornalístico – a notícia e a reportagem:
         Notícia: relata a informação da maneira mais objetiva possível; raramente é assinada:
         Reportagem: traz informações mais detalhadas sobre notícias, interpretando os fatos; é assinada quando em informação exclusiva ou se destaca pelo estilo ou pela análise.
     a) Por que o texto é uma reportagem e não uma notícia?
      Porque não apenas noticia o que adolescentes pensam sobre as restrições que enfrentam, mas detalha e interpreta os fatos, comprovando-os com entrevistas e mostrando a diferença entre as opiniões dos adolescentes.

b)A reportagem é assinada por quem? Por quê?
      Por Inês Amorim. Porque a matéria não apenas informa sobre as restrições a menores, mas interpreta essas restrições e acrescenta informações exclusivas, por meio de entrevistas; a avaliação do estilo e da análise, mencionados na definição de reportagem, é pessoal – qualquer resposta pode ser aceita, desde que justificada.

02 – Recorde o título da reportagem:
            “O Sonho de ser dono do próprio nariz
     a) O que quer dizer “ser dono do próprio nariz”?
      Ser livre, independente para tomara decisões e assumir responsabilidades; não ser submetido a restrições ou impedimentos.

     b) Em sua opinião, este título é adequado ao conteúdo da reportagem? É atraente, motivando o leitor a ler a matéria?
      Resposta pessoal.

03 – Releia o lide da reportagem.
       Veja o objetivo atribuído ao lide: O lide tem por objetivo introduzir o leitor na reportagem e despertar seu interesse pelo texto já nas linhas iniciais.
    a) Em sua opinião, o lide da reportagem atinge o objetivo de introduzir o leitor na matéria, apresentando uma boa síntese dela?
      Resposta pessoal.

     b) Em sua opinião, o lide da reportagem desperta o interesse do leitor pelo texto? Despertou o seu interesse pelo texto?
      Resposta pessoal.

04 – A jornalista usou um subtítulo na reportagem.
     a) Qual é o subtítulo?
      A responsabilidade que chega junto com a maioridade.

     b) O que diferencia os adolescentes que aparecem na parte inicial da reportagem dos que aparecem depois do subtítulo?
      Na parte inicial: adolescentes que desejam livrar-se das restrições impostas aos menores de idade; após o subtítulo: adolescentes que reconhecem a importância de aguardar a maturidade, ou identificam a relação entre maioridade e responsabilidade.

05 – Neste livro, este sinal [...] foi introduzido em vários pontos da reportagem.
     a) Esse sinal substitui o quê?
      A questão retorna, para fins de revisão, o significado de recurso gráfico apresentado em texto anterior. Substitui o sobrenome dos entrevistados.

     b) Por que foi feito essa substituição?
      Para respeitar a privacidade dos entrevistados, que podem não desejar sua identificação num livro didático.

TEXTO: IAIÁ E SUAS HISTÓRIAS - GILBERTO AMADO - COM GABARITO

TEXTO: IAIÁ E SUAS HISTÓRIAS

 Iaiá era contadora de histórias à criançada, que ao  escurecer, tendo levado banho, depois do brinquedo, vinha chegando para nossa calçada.
       De cabelos fouveiros amarrados por uma fita, os olhos muito abertos onde a sensibilidade tremia, olhando para todos e para ninguém, Iaiá começava a contar. Fora eu, santo de casa, toda a pequenada sentava-se ali, em torno dela. Onde tinha ido ela achar tanta história de trancoso, tanto conto da carochinha?
       Saíam-lhe da boca, um atrás do outro, príncipes vestidos de ouro, cavaleiro montado em dragão que botava fogo pelo nariz, bicho falando, velha que come meninos, a passarem pelos olhos da garotada, presos aos olhos dela, uns babando. 
     Que façanhas, sortilégios e proezas de mouras-tortas, de fadas e de velhinhas feiticeiras, de pagens encantados, de corceis, de palácios e de castelos, não trazia para aquela meninada! 
       Vi muito molequinho chorar com as histórias, sobretudo, nas em que ela cantava, como a do “Jardineiro de Meu Pai”; cantava de cortar o coração. Vi-a, lembro-me tanto, consolando os cabrochinhas, que era só história; os cabrochinhas chorando, e ela a contagiar-se das lágrimas que provocava, chorando também. 
        A verdade é que se esquecia de estava inventando; ficava com medo dos próprios fantasmas, figuras e monstros que criava. Como todo verdadeiro artista, acabava acreditando nas próprias criações. Se tivesse vivido em outro meio, teria sido uma atriz.

                                                                  Gilberto Amado.
 Entendendo o texto:
Agora faça o que se pede.
I – Marque com um X, o sinônimo das palavras ou expressões grifadas.
01 – Em: “… à criançada, que ao escurecer, tendo levado banho…”  A expressão grifada pode ser entendida como:
a.(   ) tendo levado um jato de água fria                  
b.(X) tendo tomado banho
c.(   ) tendo molhado as roupas do corpo               
d.(   ) tendo lavado as mãos e o rosto.

02 – Em: “Fora eu, santo de casa, toda a pequenada…”  A expressão grifada indica que o narrador:
a.(   ) vive segundo os preceitos religiosos       c.(   ) é inocente
b.(   ) tem um coração bondoso                        d.(X) é da família.

03 – Em: “…uns babando…”  A palavra grifada pode ser entendida como:
a.(   ) molhando a roupa              b.(X) deliciando-se
c.(   ) gritando de raiva                d.(   ) falando com dificuldade.

04 – Em: “Vi muito molequinho chorar com as histórias, sobretudo nas em que ela cantava…”  A palavra grifada equivale a:
a.(   ) muito menos                   b.(X) principalmente
c.(   ) em compensação           d.(   ) de maneira nenhuma.

05 – Em: “…cantava de cortar o coração.”  A palavra grifada pode ser entendida como:
a.(   ) fazer cortes                  b.(   ) separar                   
c.(   ) fazer parar                    d.(X) sensibilizar.

II – Marque com um X a alternativa correta, de acordo com texto:
06 – A respeito de Iaiá, lemos no texto: “…os olhos muito abertos onde a sensibilidade tremia…”. Através desse trecho, percebemos que:
a.(   ) os olhos de Iaiá eram granes e bonitos.           
b.(X) o olhar de Iaiá transmitia sua emoção
c.(   ) os olhos de Iaiá estavam sempre tristes           
d.(   ) o olhar de Iaiá era terno e meigo.

07 – O narrador diz: “Saíam-lhe da boca, um atrás do outro, príncipes vestidos de ouro, cavaleiros montados em dragão que botava fogo pelo nariz, bicho falando, velha que come menino.”. Isso significa que Iaiá:
a.(   ) era muito falante                  
b.(   ) era muito orgulhosa
c.(   ) demorava muito para começar as histórias           
d.(X) tinha muita facilidade em inventar histórias.

08 – Por que o narrador afirma que, se Iaiá tivesse vivido em outro meio, teria sido atriz?
      Por que ela, com certeza, teria tido oportunidade de aperfeiçoar sua vocação natural de representar personagens de teatro.





CRÔNICA: CASO DE CANÁRIO - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - COM GABARITO

CRÔNICA:  CASO DE CANÁRIO
                        Carlos Drummond de Andrade


     Casara-se havia duas semanas. Por isso, em casa dos sogros, a família resolveu que ele é que daria cabo do canário:
      – Você compreende. Nenhum de nós teria coragem de sacrificar o pobrezinho, que nos deu tanta alegria. Todos somos muito ligados a ele, seria uma barbaridade. Você é diferente, ainda não teve tempo de afeiçoar-se ao bichinho. Vai ver que nem reparou nele, durante o noivado.
      – Mas eu também tenho coração, ora essa. Como é que vou matar um pássaro só porque o conheço há menos tempo do que vocês?
     – Porque não tem cura, o médico já disse. Pensa que não tentamos tudo? É para ele não sofrer mais e não aumentar o nosso sofrimento. Seja bom, vá.
       O sogro, a sogra apelaram no mesmo tom. Os olhos claros de sua mulher pediram-lhe com doçura:
        – Vai, meu bem.
       Com repugnância pela obra de misericórdia que ia praticar, ele aproximou-se da gaiola. O canário nem sequer abriu o olho. Jazia a um canto, arrepiado, morto-vivo. É, esse está mesmo na última lona e dói ver a lenta agonia de um ser tão precioso, que viveu para cantar.
       – Primeiro me tragam um vidro de éter e algodão. Assim ele não sentirá o horror da coisa.
        Embebeu de éter a bolinha de algodão, tirou o canário para fora com infinita delicadeza, aconchegou-o na palma da mão esquerda e, olhando para outro lado, aplicou-lhe a bolinha no bico. Sempre sem olhar para a vítima, deu-lhe uma torcida rápida e leve, com dois dedos no pescoço.
          E saiu para a rua, pequenino por dentro, angustiado, achando a condição humana uma droga. As pessoas da casa não quiseram aproximar-se do cadáver. Coube à cozinheira recolher a gaiola, para que sua vista não despertasse saudade e remorso em ninguém. Não havendo jardim para sepultar o corpo, depositou-o na lata de lixo.
          Chegou a hora de jantar, mas quem é que tinha fome naquela casa enlutada? O sacrificador, esse, ficara rodando por aí, e seu desejo seria não voltar para casa nem para dentro de si mesmo.
         No dia seguinte, pela manhã, a cozinheira foi ajeitar a lata de lixo para o caminhão, e recebeu uma bicada voraz no dedo.
         – Ui!
         Não é que o canário tinha ressuscitado, perdão, reluzia vivinho da silva, com uma fome danada?
         – Ele estava precisando mesmo era de éter – concluiu o estrangulador, que se sentiu ressuscitar, por sua vez.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE.
Elenco de cronistas modernos.
Rio de Janeiro: José Olympio, 1976.

Entendendo o texto:
I – Assinale a alternativa correta para cada item.
01 – A expressão: “… daria cabo do canário…” significa:
a.(   ) dar o canário a alguém    
b.(   ) soltar o canário da gaiola
c.(X) matar o canário                 
d.(   ) prender o canário na gaiola.

02 – Na frase: “Você ainda não teve tempo de afeiçoar-se ao bichinho”, a palavra em destaque pode ser substituída por:
a.(X) apegar-se                               b.(   ) enfurecer-se
c.(   ) desencantar-se                      d.(   ) preocupar-se.

03 – Na frase: “Com repugnância pela obra de misericórdia que ia praticar…”, a palavra em destaque pode ser substituída por:
a.(X) escrúpulo                               b.(   ) tédio     
c.(   ) ansiedade                              d.(   ) raiva.

04 – Na frase: “O canário …. jazia a um canto…” , a palavra em destaque pode ser substituída por:
a.(   ) cantava                                 b.(   ) arrepiava-se
c.(X) estava deitado                      d.(   ) saltitava.

05 – Na frase: “Tirou o canário com infinita delicadeza…”, a palavra em destaque pode ser substituída por:
a.(   ) arrogante                       b.(X) enorme    
c.(   ) desajeitado                    d.(   ) espontânea.

06 – Nas frases abaixo, aparecem em destaque, expressões da fala coloquial. Relacione as duas colunas, de acordo com o significado dessas expressões:
1. “…esse está mesmo na última lona…”
2. “…achando a condição humana uma droga…”
3. “O canário reluzia vivinho da silva…”
4. “ O canário estava com uma fome danada.” 
a. (2) uma coisa muito ruim
b. (4) muito grande, fora do comum
c. (1) no fim
d. (3) vivo, sem nenhuma dúvida.

II – Responda com base no texto.
07– Por que os sogros e a esposa escolheram o rapaz para sacrificar o canário?
      Porque ele, sendo novo na família, ainda não tivera tempo de se apegar ao canário.

08– O que o genro quis dizer com a frase: “Mas eu também tenho coração.”?
      Ele quis dizer que também era sensível e que tinha pena do bichinho.

09 – Por que a família decidiu matar o canário de estimação?
      Porque o médico afirmara que ele estava muito doente, não tinha cura.

10 – Por que o jovem marido considerou o sacrifício do canário como uma obra de misericórdia?
      Porque seria um ato de caridade abreviar o sofrimento do canário.

11 – Como procedeu ele para matar o canário?
      Deu-lhe éter para cheirar e depois torceu-lhe de leve o pescoço.

12 – Transcreva do texto a frase que mostra o estado de espírito do personagem depois que executou o passarinho.
      “E saiu para a rua, pequenino por dentro, angustiado, achando a condição humana uma droga”. 

13 – As expressões sepultar enlutada referem-se normalmente à morte de pessoas. Por que o narrador as empregou referindo-se ao canário?
      O canário era como uma pessoa da família. Todos lhe queriam bem, como a uma criatura humana.

14 – Como você entende a expressão “voltar para dentro de si mesmo”?
      A expressão significa parar para pensar, para meditar.

15 – Na crônica, não aparece o nome do personagem escolhido para matar o canário. Retire do texto as palavras empregadas para se referir a ele.
      As palavras usadas para se referir ao personagem são sacrificador e estrangulador.

16 – Como se explica o fato de o canário estar vivo?
      Na verdade, o canário não tinha morrido. A torcida rápida e leve no pescoço não foi suficiente para matá-lo.

17 – Por que o personagem, no final, também se sentiu ressuscitado?
      O personagem estava desolado com a morte do canário. Ao saber que ele estava vivo, sentiu grande alivio e felicidade.

18 – Na crônica, o canário aparece em duas situações diferentes. Primeiro, ele está muito mal, semimorto. Depois, ele aparece curado, bem vivo. Transcreva as frases que mostrem o canário nessas duas situações.
      1a. – Jazia a um canto, arrepiado, morto-vivo. 
      2a. – Não é que o canário tinha ressuscitado, perdão, reluzia vivinho da silva com uma fome danada?