domingo, 28 de junho de 2026

CONTO: OS MORTOS II - PARTE 2 - JAMES JOYCE - COM GABARITO

 Conto: OS MORTOS II – PARTE 2

          James Joyce


        Gabriel olhou para o teto que tremia com o arrastar e bater de pés no andar de cima. Ouviu por um momento o som do piano e voltou-se novamente para a jovem que, com muito cuidado, dobrava e guardava o seu casaco no alto de uma prateleira.

 

 
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhCVAWyOLbQm6c4FHLxRZMT-PFey2rfLtH54V-akAWDpEOZ1-iSjZeXzyT-AzH7rUGDDgheVtskbUT7PJ8f3XY_DSv7JU3_PSd1r8CzTeGCu0mbKNrAuX6u-y8JkvshRrSHtBiGYZi14eVcIscBY1gZrQqybwyktBjHR65eQ4Pfm4GtDlH5PjzffaP6R48/s1600/24.jpg

        -- Diga-me Lily – perguntou em tom amável – você ainda vai à escola?

        -- Ó, não, senhor! Deixei de estudar há mais de um ano.

        -- Suponho então – acrescentou Gabriel, brincando – que um dia desses iremos ao seu casamento?

        A jovem olhou-o por sobre os ombros e respondeu com azedume:

        -- Os homens de hoje são todos uns aproveitadores bons de conversa.

        Gabriel enrubesceu como se tivesse cometido um deslize e, sem olhar para ela, tirou as galochas e esfregou vigorosamente o cachecol nos sapatos de verniz.

        Era um rapaz forte, bastante alto. O acentuado rubor de suas faces subia até a testa onde se atenuava em manchas informes e rosadas. Em seu rosto liso, cintilavam sem descanso as lentes e os aros dourados dos óculos que lhe cobriam os olhos delicados e inquietos. Os cabelos, negros e lustrosos, eram repartidos no meio e penteados numa longa curva atrás das orelhas, onde se enrolavam levemente no sulco deixado pelo chapéu.

        Quando terminou de lustrar os sapatos, endireitou-se, ajustou o paletó em seu corpo robusto e, afobadamente, tirou uma moeda do bolso:

        Lily – disse ele, colocando a moeda em sua mão. – Estamos no Natal, não é? Tome... uma pequena...

        Apressou-se em direção à porta.

        -- Oh não! – exclamou a moça, saindo atrás dele – Não posso aceitar.

        -- É Natal! É Natal! – disse Gabriel, quase correndo para a escada e agitando a mão num gesto de desculpa.

        Vendo-o subir a escada, Lily gritou:

        -- Então muito obrigada, senhor Conroy.

        Gabriel esperou, junto à porta do salão, que a valsa terminasse, ouvindo vestidos roçarem contra ela e o rumor de pés que se arrastavam no assoalho. Estava ainda perturbado pela resposta brusca e rude da jovem. O incidente lançara uma sombra sobre ele, que agora tentava dissipá-la ajustando os punhos da camisa e o nó da gravata. Tirou um pedaço de papel do bolso do colete e leu os tópicos que anotara para o seu discurso. Continuava indeciso quanto à citação dos versos de Robert Browning, pois temia que estivesse acima da compreensão dos ouvintes. Talvez fossem melhor alguns versos de Shakespeare ou das Melodias de Thomas Moore. A forma grosseira como os homens batiam os pés e arrastavam os sapatos no chão recordou-lhe a diferença de cultura que os separava. Faria um papel ridículo, citando-lhes poesia que não podiam compreender. Pensariam que fazia alarde de sua superioridade. Erraria com eles como errara com a jovem lá embaixo. Escolhera um tom falso. O discurso todo era um equívoco, um completo fracasso.

        Nesse instante, suas tias e sua esposa saíram do quarto de vestir. As duas velhotas, pequeninas, estavam vestidas com simplicidade. Tia Júlia era duas polegadas mais alta que a irmã. Seus cabelos, que cobriam a ponta das orelhas, eram grisalhos e seu rosto, largo e flácido, de um cinzento carregado de sombras. Embora de compleição robusta e ereta, o olhar vago e a boca entreaberta davam-lhe a aparência de uma mulher que não sabia onde estava nem para onde ia. Tia Kate era mais vivaz. Seu rosto, mais saudável que o da irmã, era só rugas e sulcos, lembrando uma maçã seca e murcha. Mas os cabelos, penteados de forma antiga, conservavam a cor de nozes maduras.

        As duas beijaram-no efusivamente. Ele era o sobrinho preferido, filho da falecida irmã mais velha, Ellen, que se casara com T. J. Conroy do Porto e das Docas.

        -- Gretta falou que você pretende não voltar a Monkstown esta noite – disse tia Kate.

        -- É verdade – respondeu Gabriel voltando-se para a esposa – Basta o que nos aconteceu no ano passado, não é? Tia Kate não se lembra do resfriado que Gretta apanhou? As janelas batendo o tempo todo e o vento oeste soprando dentro do carro, depois que passamos Merrion. Não foi nada divertido. Gretta apanhou um terrível resfriado.

        Tia Kate franzia a testa e balançava a cabeça a cada palavra:

        -- Tem razão, Gabriel. Tem razão. Todo cuidado é pouco.

        -- Ela não pensa assim – disse Gabriel.

        -- Iria para casa a pé no meio da neve se a deixassem.

        Gretta sorriu.

        -- Não acredite no que ele diz, tia Kate. É um terrível maçante: abajur verde para proteger os olhos de Tom à noite, ginástica com halteres pela manhã, sopa de aveia para Eva. Pobre menina! Já não pode nem ver essa comida... E vocês não imaginam o que ele me obriga usar agora!

        Rompeu num riso sonoro e fitou o marido, cujos olhos admirados e felizes percorreram-lhe o corpo e fixaram-se em seu rosto. As duas velhas riram gostosamente, pois a solicitude de Gabriel era velho motivo de brincadeira entre elas.

Tradução de Hamilton Trevisan. OS MORTOS – JAMES JOYCE – PARTE 2 / DA LISTA DOS CEM MELHORES CONTOS DO MUNDO / REVISTA BRAVO – 2009.

Entendendo o conto:

01 – O diálogo inicial entre Gabriel Conroy e a jovem Lily começa de forma amável, mas termina em um mal-estar. Como a resposta de Lily afeta Gabriel psicologicamente e de que maneira ele tenta compensar seu deslize?

      A resposta azeda e brusca de Lily ("Os homens de hoje são todos uns aproveitadores bons de conversa") desestabiliza a autoconfiança de Gabriel, fazendo-o enrubescer de vergonha. Sentindo que cometeu um deslize social, ele reage fisicamente tentando se distrair (limpando os sapatos vigorosamente) e tenta compensar seu erro de forma material: ele dá uma moeda de Natal para Lily. Essa atitude demonstra que Gabriel, ao se sentir incapaz de lidar com a tensão emocional e verbal com alguém de uma classe social inferior, recorre ao dinheiro como uma tentativa desajeitada de restaurar a polidez e comprar a simpatia da jovem.

02 – A partir do incômodo com Lily, Gabriel passa a refletir sobre o discurso que fará no jantar. Qual é o dilema de Gabriel em relação à escolha dos poetas (Browning vs. Shakespeare/Moore) e o que isso revela sobre sua visão em relação aos demais convidados?

      O dilema de Gabriel reside no medo de parecer ridículo ou pedante. Ele teme que os versos de Robert Browning estejam "acima da compreensão" dos ouvintes. A atitude grosseira dos convidados ao dançarem faz com que ele sinta uma profunda "diferença de cultura que os separava". Ele conclui que citar Browning faria parecer que ele está fazendo alarde de sua superioridade intelectual. Isso revela o orgulho elitista de Gabriel e, ao mesmo tempo, sua extrema insegurança e vaidade; ele se considera intelectualmente superior ao público da festa, mas teme desesperadamente o julgamento e o fracasso social.

03 – O autor utiliza descrições físicas detalhadas para contrastar a vitalidade e o estado psicológico das personagens. Compare as descrições de Tia Júlia e Tia Kate apresentadas no texto.

      Tia Júlia é descrita com traços que sugerem declínio e apatia: seu rosto é largo, flácido e de um "cinzento carregado de sombras", e seu olhar vago e boca entreaberta dão a impressão de uma mulher desorientada, que "não sabia onde estava nem para onde ia". Em contrapartida, Tia Kate é retratada como muito mais "vivaz" e saudável; embora seu rosto seja cheio de rugas e sulcos (comparado a uma "maçã seca e murcha"), seus cabelos ainda conservam a cor viva de "nozes maduras", demonstrando uma energia e lucidez que contrastam com o apagamento de Júlia.

04 – A dinâmica matrimonial entre Gabriel e Gretta é introduzida a partir da discussão sobre passar a noite em um hotel ou voltar para casa. O que as falas de Gretta sobre os hábitos do marido revelam a respeito da personalidade de Gabriel no ambiente doméstico?

      As falas de Gretta revelam que Gabriel é um homem controlador, excessivamente zeloso e metódico (o que ela chama carinhosamente de "um terrível maçante"). Ela expõe regras rígidas que ele impõe à família, como o uso de abajur verde para proteger os olhos do filho, ginástica matinal e a imposição da sopa de aveia que a filha já não suporta. Essa solicitude exagerada mostra que a necessidade de controle de Gabriel e seu apego às convenções e à modernidade se estendem da sua vida intelectual para o cotidiano familiar, gerando um tom de superproteção que é motivo de piada entre os parentes 

05 – Explique a importância do cenário e da atmosfera inicial (o som do piano, o arrastar de pés, a neve implícita na menção às galochas) para a construção do tom da narrativa nesse fragmento.

      O cenário cria uma atmosfera de isolamento e barulho que amplifica os conflitos internos de Gabriel. Enquanto o andar de cima vibra com a festa (o piano, o arrastar de pés e vestidos), Gabriel se encontra no andar de baixo, em um momento de introspecção e desconforto. A menção às galochas e ao frio lá fora estabelece o contraste entre o calor doméstico da festa das tias e a realidade externa severa, além de introduzir a obsessão de Gabriel com a segurança e o conforto material contra as intempéries da vida e da natureza.

06 – Ao analisar o comportamento de Gabriel após o incidente com Lily, o narrador afirma: "O discurso todo era um equívoco, um completo fracasso." O que essa autocrítica antecipada revela sobre o caráter de Gabriel?

      Essa autocrítica drástica revela que Gabriel tem uma personalidade propensa ao pessimismo e à ansiedade social. Um pequeno desentendimento com a criada é suficiente para desmoronar toda a sua segurança em relação ao seu papel na festa. Ele generaliza o pequeno erro com Lily para o seu discurso como um todo, demonstrando que sua pose de homem culto e seguro é frágil e que ele é profundamente afetado pela opinião alheia, caindo facilmente na automutilação psicológica e no medo da rejeição.

07 – Mesmo após as provocações de Gretta sobre suas manias, o texto indica que os olhos de Gabriel "admirados e felizes percorreram-lhe o corpo e fixaram-se em seu rosto". Como você interpreta a reação de Gabriel diante das provocações da esposa?

      A reação de Gabriel mostra que, apesar de ser o alvo das brincadeiras de Gretta, ele sente um profundo afeto, orgulho e atração física por sua esposa. O riso sonoro e a vivacidade de Gretta parecem desarmar a tensão e a insegurança que Gabriel sentia minutos antes por causa de Lily e do discurso. A admiração no olhar dele revela que a presença e a beleza de Gretta funcionam como um refúgio para o seu ego ferido, reafirmando o seu papel de marido provedor e protetor, mesmo que sob a leve zombaria da família.

 

 

 

CONTO: O CAPOTE IV - ÚLTIMA PARTE - NICOLAI GOGÓL - COM GABARITO

 Conto: O CAPOTE IV – ÚLTIMA PARTE

         Nicolai Gogól

         Desapareceu e ocultou-se um ser a quem ninguém protegera, quem ninguém dedicara afeição e que nem sequer atraíra o interesse de qualquer naturalista, um desses indivíduos que não desdenham pôr num alfinete a mosca vulgar e observá-la ao microscópio; um homem que atraíra a zombaria dos seus companheiros de repartição e que desceu à sepultura sem ter realizado qualquer ato excepcional; antes pelo contrário, a quem nada importava, ainda que no fim da sua vida brilhasse para ele a luz sob a forma de um capote, reanimando um momento fugaz a sua pobre vida, e sobre quem caiu depois a desgraça em grau superior às suas forças, como cai também, por vezes, sobre os mais poderosos da Terra... 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgxk04DOJ0ab53ARVIDOcUiOyXxdw2GytIXIVEalti3kduqhbH_a4ZGUeCe5OXy7109MMT0hTqfQPu3jE8kILc1hhZHjNxjXUrjpw1nsNqwOCcSFiR_cG38kMdOVa0yZS3n9jm4Vzvtk3R6jOObZlPEP7uoh9eaMqnkQEdpwoQxe56BlH6t3RI4RSBhyd4/s320/capote.jpg


        Poucos dias depois da sua morte compareceu na sua residência um contínuo, enviado pela repartição, com ordem para se apresentar imediatamente; exigia-o o chefe; mas o homem teve de voltar sozinho, levando a informação de que o funcionário não podia apresentar-se. Tendo-lhe sido perguntado: "Por que não pode?", respondeu estas palavras: "Não pode: morreu; há quatro dias que o enterraram." 

        Desta maneira se conheceu na repartição a morte de Acaqui Acaquievich, e no dia seguinte já estava sentado no seu lugar um novo funcionário, muito mais alto, que não desenhava as letras em linhas tão retas, mas, pelo contrário, em linhas muito mais inclinadas e contrafeitas.

        Mas quem poderia imaginar que ainda não dissemos tudo acerca de Acaqui Acaquievich, condenado a tornar-se famoso alguns tempos depois da morte, como recompensa de uma vida que passou ignorada? Sucedeu efetivamente isso, e a nossa pobre história tem uma abrupta conclusão.

        Começou a difundir-se por Sampetersburgo o rumor de que na ponte de Kaliuquine, nas ruas vizinhas e nos bairros a que ela conduzia aparecia de noite um fantasma, com aspecto de funcionário público, que procurava um capote roubado e tirava capotes de todos os ombros, sem diferençar classes ou profissões: os de gola de pele de gato, de castor, de coelho, de raposa ou de qualquer outra espécie de pele.

        Um dos funcionários da repartição viu com os seus próprios olhos o fantasma e reconheceu imediatamente o defunto Acaqui Acaquievich; mas produziu-lhe este tal terror que se pôs a correr quanto podia, sem se atrever a voltar a olhar para o fantasma, que o ameaçava com o dedo espetado. 

        De todos os lados surgiam queixas de indivíduos a quem tinham desaparecido os capotes, e isso acontecia a titulares e também às altas gentes do Paço; muitos tinham-se até constipado em consequência do roubo.

        A polícia fez investigações para se apoderar do defunto, vivo ou morto, e castigá-lo severamente, para exemplo de outros, mas a diligência não resultou.

        Assim, por exemplo, um polícia de vigilância a uma das pequenas ruas de Kiriuquine, tendo agarrado o defunto pela gola (no momento em que este ia a roubar o capote de certo músico, que então tocava flauta), chamou em seu auxílio outros guardas de ronda, enquanto tirava do bolso a caixa de rapé para encher o nariz, que já lhe gelara seis vezes; mas o rapé devia ser de tal qualidade que nem sequer o morto pôde suportá-lo. 

        Mal o polícia, fechando com o dedo a narina direita, meteu o rapé na esquerda, o defunto espirrou tão fortemente que lançou salpicos pelos olhos. E enquanto o polícia esfregava os olhos com as mãos, o defunto desaparecia. Chegaram a duvidar se, na verdade, o tinham tido na mão. 

        Desde aí, os polícias amedrontaram-se tanto com as almas do outro mundo que não se atreviam a apanhá-las nem sequer vivas, e só de longe gritavam: "Olá, segue o teu caminho!"

        E o funcionário defunto começou a aparecer também na ponte Kaliuquine, suscitando terror às pessoas tímidas.

        Mas abandonamos por completo a "alta personalidade", verdadeira responsável por que a nossa história tenha tido um fim fantástico. Para honra da verdade, devemos dizer, antes de mais nada, que a "alta personalidade", depois da morte do pobre Acaqui Acaquievich, sentiu alguma compaixão. A piedade não lhe era completamente estranha; o seu coração sentia impulsos de muito boas ações; simplesmente a sua categoria não lhe permitia segui-los. 

        Mal o amigo que o visitara saiu do seu gabinete, começou a pensar no pobre Acaqui Acaquievich. E desde então, muitas vezes, quase diariamente, evocava Acaqui Acaquievich, pálido, humilde, incapaz de reagir à sua repreensão. 

        Aquela recordação causava-lhe tão grande intranquilidade que, decorrida uma semana, resolveu enviar um funcionário a casa de Acaqui Acaquievich para se informar do que havia, como estava e se nalguma coisa podia ajudá-lo.

        Ao saber que morrera de febre, de um dia para o outro, comoveu-se profundamente, escutou as censuras da sua consciência e esteve um dia inteiro de mau humor.

        Desejando distrair-se e esquecer aquela desagradável impressão, foi, à noite, a casa de um amigo, o que se refletiu de um modo admirável no seu estado de espírito. 

        Esteve animada a conversa, que decorreu agradável e amistosa; numa palavra, passou a noite muito satisfeito. Ao cear, bebeu duas taças de champanhe, que, como se sabe, é um excelente meio de aumentar a alegria. 

        O champanhe, modificando-lhe o humor, decidiu-o a ir visitar certa senhora sua conhecida, Catarina Ivanovna, uma alemã, segundo parece, com quem mantinha afetuosas e excessivamente íntimas relações. Devemos acrescentar que a "alta personalidade" não era já um homem novo e solteiro; era casado e todos o consideravam um honrado pai de família. Tinha um filho funcionário na Chancelaria e uma filha, bonita rapariga de 16 anos, com o nariz um pouco adunco, que vinha todos os dias beijar-lhe a mão, dizendo: "Bonjour, papa!" A esposa, que não se pode dizer que fosse velha ou feia, estendia-lhe a mão para que ele lha beijasse; depois, voltando-se para o outro lado, beijava-lhe ela, por seu turno, a mão.

        Mas a "alta personalidade", que se encontrava, aliás, plenamente satisfeito com as ternuras domésticas, achou, no entanto, muito importante, para se impor aos amigos, ter uma amante num bairro da cidade afastado daquele onde vivia. 

        A amante não era nem mais nova nem mais fresca do que a esposa, mas estes enigmas existem no mundo, e não é nosso propósito esmiúça-los. Assim, pois, a "alta personalidade" saiu de casa do seu amigo e, sentando-se na carruagem, disse ao cocheiro: "Para casa de Catarina Ivanovna"; e, embrulhando-se no seu quente capote, permaneceu nesse estado agradável, como não é possível imaginar melhor para um russo, em que nada se pensa e em que, entretanto, as ideias se agitam na cabeça, cada qual mais lisonjeira, sem haver o penoso encargo de as seguir ou coordenar. 

        Toda a sua alegria consistia em recordar o sítio onde passara a noite e todos os ditos com que fizera rir às gargalhadas o restrito e amável círculo dos seus amigos; repetia a meia voz muitos desses ditos espirituosos e observava que conservavam toda a graça dos antigos tempos, não podendo assim deixar de rir-se sozinho com vontade.

        Incomodou-o subitamente a ventania que se levantara, Deus sabe donde e por quê, fustigando-o fortemente no rosto, atirando-lhe flocos de neve aos olhos, bufando-lhe na gola do capote como na vela de um navio, ou, pelo contrário, colando-lha inesperadamente à cara com força sobrenatural, de tal modo que se agitava constantemente de uma maneira e de outra, sem poder libertar-se. 

        De repente sentiu a "alta personalidade" que alguém o agarrava muito fortemente pela gola do capote. Ao voltar-se, notou que era um indivíduo de pequena estatura, com um fato velho e coçado, e reconheceu com terror Acaqui Acaquievich.

        O rosto do funcionário estava pálido e o olhar era bem o de um defunto. Mas o terror da "alta personalidade" não teve limites quando viu que a boca do morto se abria e, exalando um odor de sepultura, lhe dirigia estas palavras: "Sempre te apanhei! Agarrei-te finalmente pela gola! Preciso do teu capote! Não quiseste preocupar-te com o meu, e até me insultaste! Dá-me agora o teu!" 

        A pobre "alta personalidade" por pouco não morreu de susto.

        Era bem conhecida a sua severidade para com os inferiores e, considerando o seu aspecto enérgico, todos diziam: "Está ali uma personalidade!" No entanto, aqui, como muitos outros que posam de heróis, sentia tal pavor que, não sem razão, começou a recear cair doente. Ele próprio despiu o capote e disse para o cocheiro, com voz alterada: "Segue para casa! Sem demora!" Mal o cocheiro ouviu aquele tom de voz, que o amo só empregava nos momentos decisivos e que era acompanhado muitas vezes de alguma coisa de mais efetivo, ocultando a cabeça entre os ombros, brandiu o chicote e a carruagem despediu como um raio. 

        Seis minutos depois achava-se a "alta personalidade" à porta da cocheira. Pálido, amedrontado e sem capote, em vez de visitar Catarina Ivanovna, entrou em casa, ocultou-se num quarto interior e passou a noite muito inquieto. 

        No dia seguinte de manhã, à hora do pequeno-almoço, a filha, ao vê-lo, disse imediatamente: "Como estás pálido, papá!"; mas o papa calou-se e a ninguém confessou palavra do sucedido, nem acerca do lugar onde estivera, nem onde se dirigira depois. Aquele sucedido impressionara-o fortemente.   

        E muito poucas vezes mais lhe ouviram dizer: "Como se atreve o senhor? Sabe quem tem diante de si?"; e, se tal acontecia, nunca era sem se informar antes do que se tratava.

        E o mais notável foi, todavia, que a partir daquele dia não voltou a aparecer o funcionário defunto: talvez porque o capote do general lhe ficava perfeitamente. O certo é que nunca mais se ouviu falar de um roubo de capote do mesmo gênero. 

        Muitos, já se vê, não queriam ainda tranquilizar-se e contavam que em certos sítios da cidade mais afastados aparecia o funcionário defunto. 

        Um polícia viu, com os seus próprios olhos, sair o fantasma de uma casa; mas, achando-se um tanto debilitado e falto de forças, não se atreveu a detê-lo e limitou-se a segui-lo de longe. 

        O fantasma, em determinado sítio, deu uma volta, olhou o polícia e perguntou-lhe: "Que desejas?", mostrando um punho que não é possível observar nos seres vivos. 

        O polícia replicou: "Nada", e voltou para trás. O fantasma, que era, no entanto, muito mais alto e tinha uns imensos bigodes, dirigiu-se com grandes passadas para a ponte de Obujo, desaparecendo nas trevas da noite.

 

Nicolai Gogól. Parte 4. Da lista dos cem melhores contos do mundo. É a história de um funcionário público que com grande sacrifício consegue comprar um capote novo e é roubado no mesmo dia...

Entendendo o conto:

01 – De que maneira a repartição pública tomou conhecimento da morte de Acaqui Acaquievich e como ele foi substituído no trabalho?

      A repartição só soube da morte porque um contínuo foi enviado à casa do funcionário com ordens do chefe para que ele se apresentasse imediatamente. O contínuo retornou sozinho informando que Acaqui não podia ir porque havia morrido e sido enterrado quatro dias antes. No dia seguinte, um novo funcionário, muito mais alto, já ocupava o seu lugar, desenhando as letras com linhas bem mais inclinadas e contrafeitas.

 

02 – Que acontecimento fantástico passou a assombrar a cidade de Sampetersburgo algum tempo após a morte de Acaqui Acaquievich?

      Começou a difundir-se o rumor de que um fantasma com aspecto de funcionário público aparecia à noite na ponte de Kaliuquine e nas redondezas. O espectro buscava um capote roubado e arrancava violentamente os agaloados de qualquer pessoa que passasse, sem distinguir classe ou profissão, fossem golas de pele de gato, castor, raposa ou coelho.

 

03 – Como um guarda de rua quase conseguiu capturar o fantasma e por que a tentativa falhou de forma cômica?

      O guarda conseguiu agarrar o defunto pela gola no momento em que ele roubava o capote de um músico que tocava flauta. Enquanto chamava reforços, o guarda decidiu tirar sua caixa de rapé para aquecer o nariz congelado. Porém, ao aspirar o tabaco, o defunto espirrou tão fortemente que salpicou os olhos do guarda. Enquanto o policial esfregava os olhos, o fantasma desapareceu, deixando os guardas com medo de tentar capturar até almas vivas.

 

04 – Como a "alta personalidade" reagiu intimamente ao saber que Acaqui Acaquievich havia morrido de febre?

      A "alta personalidade" sentiu uma profunda compaixão e os remorsos de sua consciência, pois já vinha se lembrando diariamente da figura humilde do funcionário que ele havia repreendido. Ao receber a notícia do falecimento através de um emissário que enviara para ajudar o pobre homem, o general comoveu-se e passou o dia inteiro de mau humor.

 

05 – O que a "alta personalidade" pretendia fazer na noite em que foi atacada pelo fantasma e qual era o seu estado de espírito antes do susto?

      Após beber champanhe na casa de um amigo, ele pegou sua carruagem para visitar sua amante, Catarina Ivanovna, com o objetivo de se exibir para os amigos (embora fosse um honrado pai de família). Antes do ataque, ele estava em um estado extremamente agradável e tipicamente russo: relaxado, embrulhado em seu capote quente, rindo sozinho ao recordar as piadas espirituosas que fizera horas antes.

 

06 – Como foi o confronto direto entre o fantasma de Acaqui Acaquievich e a "alta personalidade" no meio da tempestade?

      Uma ventania sobrenatural atingiu o rosto do general e, de repente, alguém o agarrou fortemente pela gola. Ao olhar, ele reconheceu com pavor o pálido Acaqui Acaquievich. Exalando um odor de sepultura, o morto abriu a boca e exigiu o casaco do general dizendo: "Sempre te apanhei! (...) Preciso do teu capote! Não quiseste preocupar-te com o meu, e até me insultaste! Dá-me agora o teu!". Apavorado, o próprio general despiu o capote e fugiu desesperadamente na carruagem.

 

07 – Quais foram as consequências do ataque do fantasma na conduta e nos hábitos da "alta personalidade" a partir daquele dia?

      O general mudou drasticamente o seu comportamento autoritário. Ele quase adoeceu de susto, voltou para casa pálido, cancelou o encontro com a amante e não contou a ninguém o que houvera. A partir dali, ele raramente voltou a gritar com seus subordinados as frases "Como se atreve o senhor? Sabe quem tem diante de si?" e, se o fazia, buscava se informar detalhadamente sobre o caso antes.

 

CONTO: O CAPOTE I - PARTE 1 - NICOLAI GOGÓL - COM GABARITO

 Conto: O CAPOTE I – PARTE 1

          NICOLAI GOGÓL

        Na Repartição de... Mas será melhor não a nomearmos, porque nada há mais susceptível do que os nossos empregados públicos, desde os amanuenses aos chefes de repartição. Atualmente, cada um sente-se em particular como se na sua pessoa toda a sociedade tivesse sido ofendida.

 
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiZNqqkwcB-srr7Km_940nOlrSnFxFyqEz4dGo3k4HdqCug8IoRmVodyngVO_rI1KykY9ibXXFRz-AYSI2XItNLODwrw7CsohJq9yZYTLc3ObuKlBUhyphenhyphenrYAFtZ67iiINol_zhGRgOJIm8G7Hx2uNV1R7pHSpc9gN7RM1NQXcixowVFYJ_HWyOeNTxYR8i0/s320/capote.jpg

 

        Diz-se que um capitão da polícia apresentou, ainda não há muito tempo, uma queixa – não me recordo em que cidade isto se passou – revelando claramente que os decretos imperiais eram desdenhados por toda a gente e que o santo nome de um oficial era proferido com desprezo. E juntava, como prova, o volumoso tomo de certa novela em que, de dez em dez páginas, aparecia um capitão da polícia, e, o que é demais, em completo estado de embriaguez. Deste modo, para evitar desgostos, em vez de indicar a repartição onde ocorreu o facto, é preferível dizer apenas: "Numa repartição..."

        Por conseguinte, "numa repartição" servia "um funcionário". Esse funcionário, é justo dizê-lo, era muito distinto: de estatura baixa, um pouco picado das bexigas e igualmente um pouco curto de vista, com uma pequena calva a principiar na testa, rugas nas duas faces e, no rosto, essa cor característica do hemorroidal ... Que se lhe há de fazer: A culpa era do clima de Sampetersburgo. Pelo que se refere à sua categoria (pois é entre nós a primeira coisa que se menciona), era o que se designa por "conselheiro titular perpétuo", um daqueles com que satirizam certos escritores que têm o benemérito hábito de cair a fundo sobre os inofensivos.

        O nosso funcionário tinha o apelido de Blaquemaquine (sapateiro), e já por esse apelido se vê qual tinha sido a sua ascendência; mas quando, onde e de que maneira tal apelido surgira ninguém o sabia; sabia-se apenas que pai, o avô e até mesmo o cunhado, e em geral todos os Blaquemaquines, tinham ascendentes sapateiros.

        Chamava-se Acaqui Acaquievich. Ora é possível que o leitor considere este nome um pouco estranho e pretensioso, mas pode crer que não é assim: ele foi-lhe posto nas circunstancias mais naturais e é fácil ver que não poderia ter sido outro.

        Acaqui Acaquievich nasceu na noite de 23 de março. A sua defunta mãe, esposa de um funcionário, muito boa mulher, dispôs as coisas para que o menino fosse batizado segundo as praxes. A mãezinha estava ainda da cama em frente da porta; à direita, de pé, o padrinho, Ivan Ivanovitch Erochquine, excelente homem, chefe de uma secretaria do Senado, e a madrinha, Arina Semenovna Bielobriuchkova, esposa de um oficial e mulher de extraordinárias virtudes. Apresentaram à parturiente três nomes para que escolhesse aquele de que mais gostasse: Moquia, Sosia, ou então o nome do mártir Josdasata. "Não!", pensou a doente. "Que nomes!" Para lhe serem agradáveis, levantaram a folhinha do calendário e leram, noutro lugar, mais três nomes: Trifili, Dula e Varaiasi. "Que castigo este!", comentou a mulher. “São tão bonitos como os outros! Nunca ouvi esses nomes! Ainda se fosse Varadat, ou Varui, mas agora Trifili e Varaiasi!"

        Voltaram mais uma folhinha do calendário e deparou-se-lhes: Pafsicai e Vaitisi. "Já vejo", disse, "é o destino que o quer! Nesse caso, prefiro que tenha o nome do pai. O pai chamava-se Acaqui, e o nome do filho será,portanto, Acaqui." Resultou dessa maneira Acaqui Acaquievich.

        O menino foi batizado, chorou e fez grandes caretas, como se pressentisse que teria de ser conselheiro titular. Foi isso que aconteceu.

        Contamos isto com o propósito de levar o leitor a compreender por si próprio como foi fatal a impossibilidade de lhe dar outro nome. Quando teria sido colocado na repartição e quem o teria nomeado são coisas de que ninguém se recorda. Todos os diretores e todos os chefes de repartição que por lá passaram viram-no sempre no mesmo lugar, na mesma posição e com a inalterável dignidade de um burocrata que compulsa requerimentos; ao vê-lo, poderia julgar-se que assim nascera neste mundo, completamente burocratizado, de uniforme e calvo.

        Ninguém na repartição o respeitava. O porteiro não só não se levantava à sua passagem como nem sequer se dignava lançar-lhe um olhar: importava-se tanto com Acaqui como com uma mosca. Os chefes aproximavam-se dele com uma frieza autoritária. Qualquer ajudante do chefe de secretaria metia-lhe um oficio debaixo do nariz sem lhe dizer sequer: "Copie!", ou "Aqui tem você um belo trabalhinho, uma tarefa interessante", ou outra qualquer coisa amável, como é estrito dever dos funcionários inferiores bem-educados dizerem. O nosso homem pegava no ofício, olhava-o, sem mesmo reparar em quem lho entregara ou se aquele trabalho lhe competia, e punha-se imediatamente a escrever. 

        Os empregados mais jovens elegiam-no por tema de zombarias e chacotas e os amanuenses, que se presumiam de espirituosos, contavam, na sua presença e de diversos modos, a sua própria história e a da sua hospedeira, velhota dos seus 70 anos, que, segundo diziam, o espancava; e perguntavam quando era o casório, atirando-lhe à cabeça pequenos pedaços de papel, a fingir de flocos de neve. Acaqui Acaquievich não respondia uma só palavra às zombarias, como se ali estivesse sozinho. Essas chalaças nem sequer exerciam influência na tarefa que o absorvia: apesar de todas as impertinências de que era objeto, não fazia um único erro de escrita. Só quando a brincadeira se tornava insuportável e lhe batiam no cotovelo, desviando-lhe a atenção. exclamava:

        -- Deixem-me! Por que zombam de mim?

        E havia alguma coisa de estranho nas suas palavras e na voz alterada com que as pronunciava. Alguma coisa soava nelas que despertava compaixão; e, por isso, um jovem colocado na repartição havia pouco tempo, que, seguindo o exemplo dos demais, se permitia zombar dele, deteve-se, impressionado, e modificou, a partir de certa altura, o seu comportamento, como se tudo, repentinamente, se tivesse transformado. 

     Que forca sobrenatural o elevava acima de todos os seus companheiros, a quem, até então, considerara pessoas corretas e civilizadas! E muito tempo depois, no meio das suas alegrias e prazeres, detinha-se, perplexo, a recordar o funcionário baixo, de calva a principiar na testa, e ouvia-lhe as penetrantes palavras: "Deixem-me! Porque me vexam?" E juntamente com essas palavras penetrantes ressoavam outras: "Sou vosso irmão!" E o jovem cobria o rosto com as mãos e estremecia intensamente, vendo quanta desumanidade existe no homem e quanta grosseria se disfarça sob a polidez, a educação e as maneiras da gente fina.

        "Deus meu! Até mesmo aquele cavalheiro a quem toda a gente considera digno e honrado..." Dizer que servia com zelo não basta; deve dizer-se: servia com amor. Ali, naquelas cópias, revia-se como num mundo tranquilo e feliz. O prazer gritava-lhe na face. Havia letras que eram suas favoritas e, quando as escrevia, ficava como que excitado: sorria, devorava-as com os olhos e acompanhava a tarefa soletrando com os lábios, de maneira que era quase possível ler-lhe no rosto cada uma das letras que com a pena escrevia. 

        Se tivesse sido proposta, uma recompensa proporcional à sua diligência, talvez que, com espanto seu, já tivesse sido nomeado conselheiro de Estado. Mas tudo quanto ouviu foi uma cruel alusão dos seus companheiros irônicos: que em vez de uma condecoração na lapela tinha hemorroidas noutro sítio. E era assim a consideração que mostravam ter por ele. 

        Um diretor, homem de bom coração, desejando recompensá-lo pelos seus diligentes serviços, ordenou que lhe dessem alguns trabalhos de mais importância do que as simples cópias vulgares; encarregaram-no de informar outra repartição acerca dos documentos passados naquela a que pertencia, consistindo a sua tarefa em mudar os títulos e passar os textos da primeira pessoa gramatical para a terceira. Isto exigia-lhe tamanho esforço que, sem exagero, transpirava; esfregando a testa, exclamou por fim: "Não; é melhor que me deem um trabalho de cópia." E desde então ficou, para sempre, copista.

        Fora do mundo das cópias de ofícios, nada para ele existia. Nem sequer se preocupava com o vestuário; o seu uniforme perdera a cor amarela e tinha agora um tom desbotado e indefinido; a gola do casaco era estreita e baixa, de modo que o pescoço, apesar de ser um pouco gordo, parecia de uma extraordinária altura, lembrando aqueles gatitos de gesso que movem a cabeça.

        Trazia sempre qualquer coisa agarrada ao uniforme, fossem palhas ou palitos, pois tinha tanta sorte, ao ir pela rua, que passava debaixo de uma janela no preciso momento em que deitavam fora uma lata vazia, e trazia sempre no chapéu de chuva pevides e cascas de melão, ou coisas semelhantes. Nem uma só vez na vida prestara atenção ao que se passava ou sucedia diariamente na rua. 

        Nisso era muito diferente dos jovens funcionários, que, de olhar extremamente móvel e penetrante, imediatamente notavam quem levava os fundilhos das calças um pouco coçados, sorrindo com irônico prazer das alheias misérias. 

        Acaqui Acaquievich, embora divagando o olhar por tudo isso, via exclusivamente os seus ofícios corretos, copiados com uma letra esmerada, e só por casualidade, quando lhe roçava pelo ombro o focinho de um cavalo e o vento lhe soprava no rosto, só então, dava conta de que se não encontrava no meio de um parágrafo, mas no meio da rua.

        Ao chegar à casa, sentava-se à mesa, levava rapidamente à boca umas tantas colheradas de sopa, comia a carne de vaca com cebola, sem atender sequer ao paladar: era capaz de comê-la com moscas e tudo. Quando verificava que começava a ter o estômago cheio, levantava-se da mesa, ia buscar um pequeno tinteiro e copiava os papéis que trouxera da repartição para trabalhar em casa; se não trouxera trabalho, ocupava-se então a copiar por gosto e divertimento, e fazia-o com uma íntima satisfação, não derivada apenas do belo talhe de letra que possuía, mas da importância da pessoa a quem imaginava que o ofício se dirigia.

        Até quando se obscurece totalmente o céu nevoento de Sampetersburgo e toda a multidão de empregados ceia segundo as suas possibilidades, conforme os vencimentos e os gostos particulares de cada qual; quando todos descansam de ouvir o incessante arranhar da pena no papel e do constante vaivém da vida diária, quer das andanças realizadas por motivo da profissão, quer de todas quantas empreendem homens insatisfeitos e inquietos; quando os funcionários se apresentam a dedicar o tempo que lhes resta em distrações várias – uns no teatro, outros na rua, observando certas sombrinhas elegantes, outros ainda adorando uma bela e modesta dama, estrela de um pequeno círculo de empregados, e, ainda mais frequentemente, algum outro em casa de um colega que habita no segundo ou terceiro andar, em dois diminutos compartimentos, tais como uma antessala e uma cozinha e uma lâmpada ou qualquer outro objeto que ostensivamente pretende estar na moda e que custou muitos sacrifícios, renúncias a prazeres e divertimentos –, numa palavra, à hora em que todos os burocratas se dispersam pelas exíguas habitações dos amigos, para jogar o whist, bebendo aos golos pequenos chá com açúcar, apertando-se uns contra os outros no ambiente denso do fumo que se evola dos grandes cachimbos, contando o resultado de qualquer intriga da alta sociedade, coisa a que nunca o Russo, e em qualquer condição, pode renunciar, ou então, quando não há outro assunto, repetindo uma velha anedota acerca de um comandante a quem vieram dizer que tinha sido cortado o pescoço do cavalo do monumento de Pedro, o Grande; em suma, até nos momentos em que todos procuram divertir-se, Acaqui Acaquievich não se entregava a divertimento algum. Ninguém podia afirmar tê-lo visto num sarau.

        Depois de copiar o mais que podia, deitava-se, antecipadamente se regozijando a pensar no dia seguinte. "Que lhe ofereceria Deus para copiar amanhã?"

        Assim se escoava a vida do homem pacífico a quem bastaria uma modesta aposentação para fazer feliz e que teria de prosseguir a mesma vida até à mais proveta idade se não sucedesse qualquer das desgraças que não surgem apenas na vida de um titular, mas também na dos próprios conselheiros secretos efetivos e na dos conselheiros da coroa, inclusive na daqueles que não dão conselho algum e de quem, de resto, nem se aceitam.

        Em Sampetersburgo existe um poderosíssimo inimigo de todos os que recebem uns quatrocentos rublos de vencimentos anuais. Esse inimigo não é outro senão o frio do Inverno, que é, aliás, considerado, por alguns, muito sadio. 

        Às dez da manhã, ou seja, à hora em que as ruas se enchem de todos os que se dirigem para as respectivas repartições, começa o vento a distribuir fortes zurzidelas, que cortam todos os narizes à direita e à esquerda, sem seleção de nenhuma espécie, de maneira que os pobres funcionários não sabem onde e como os podem resguardar. À hora em que até aos mais altos empregados dói a cabeça com frio e em que as lágrimas lhes saltam irresistivelmente dos olhos os pobres conselheiros titulares encontram-se, por vezes, indefesos. A única salvação consiste em caminhar o mais depressa possível, embrulhados nos finos capotes, percorrendo cinco ou seis ruas, e deixar depois arrefecer os pés na portaria, perdendo assim a única vantagem da ofegante caminhada.

        Acaqui Acaquievich andava há tempos a sentir intensas picadas nas costas e nos ombros, apesar de se esforçar por transpor as distâncias o mais rapidamente possível. Começou a pensar se o responsável disso não seria o seu capote. Ao chegar à casa, examinou-o cuidadosamente e descobriu que a fazenda estava puída em dois ou três lugares, precisamente nas costas e nos ombros, de tal modo que se tornara uma rede, e em virtude de o forro se encontrar também esgarçado. Convém saber que o capote de Acaqui Acaquievich servia também de motivo de chacota aos funcionários; chegaram até a recusar-lhe o nobre nome de capote e a chamarem-lhe capinha. 

        Tinha, efetivamente, uma forma pouco comum nos capotes, visto que a gola diminuía de ano para ano, porque era utilizada para remendar o resto. Quanto aos remendos, não demonstravam gosto algum da parte do alfaiate; demonstravam, muito pelo contrário, grosseria e fealdade.

        Tendo Acaqui Acaquievich considerado ponderadamente os prós e os contras, decidiu-se a levar o capote a Petrovich, um alfaiate que habitava num quarto andar sem sol e que, apesar de zarolho e bexiguento, se ocupava, com bastante habilidade, em consertar calças e fraques de funcionários, isto, é claro, nos momentos em que não se encontrava em estado de completa embriaguez e não alimentava na sua cabeça outras ideias. 

        Não faria falta, dir-se-á, falar deste alfaiate, mas, já que é costume dar a conhecer plenamente em todas as histórias o caráter de uma personagem, não deve haver inconveniente em que apresentemos aqui Petrovich. Começara por se chamar simplesmente Gregório, e era então um homem equilibrado, servo de um senhor. O nome Petrovich data da época em que alcançara a liberdade e em que dera em emborrachar-se valentemente todos os dias de festa; primeiro só nos dias grandes, e depois, sem destrinças, em todos os dias santificados, sempre que no calendário encontrasse uma cruz. Permanecia, por este lado, fiel aos costumes dos antepassados, e, ralhando com a mulher, chamava-lhe mundana e tudesca.

        Já que citamos a consorte, conviria dizer duas palavras acerca dela: por desgraça, tudo quanto se sabe a seu respeito é que era mulher de Petrovich, que usava gorro à russa e não lenço; não parecia distinguir-se pela sua beleza, e o mais que aconteceu foi encontrarem-se duma vez com ela os soldados da guarda ao regimento, mirarem-na por baixo do gorro, fazerem trejeitos com a boca e proferirem certas palavras que não podemos repetir.

        Subindo a escada que conduzia a casa de Petrovich – escada essa que, para dizer a verdade inteira, estava cheia de pequenas poças de água de cheiro nauseabundo e penetrante, vencendo esse odor estonteante que faz até arder os olhos e que, como se sabe, constitui característica inseparável de todos os andares interiores das casas de Sampetersburgo –, subindo a escada, meditava Acaqui Acaquievich naquilo que podia pedir-lhe Petrovich, e a si mesmo jurava não dar mais de dois rublos. A porta estava aberta.

        A mulher do alfaiate cozinhava peixe e provocara tal fumarada na cozinha que não era sequer possível descortinar as baratas. 

        Acaqui Acaquievich passou junto da cozinha sem que a mulher o notasse e chegou ao quarto, onde encontrou Petrovich sentado sobre uma grande mesa de madeira, com as pernas cruzadas como um paxá. Estando de pés descalços, como é costume entre sapateiros quando estão a trabalhar, despertavam atenção, pelo seu tamanho, os artelhos, bem conhecidos de Acaqui Acaquievich, com as unhas enormes, espessas e fortes como carapaças de tartaruga.

        Em volta do pescoço tinha fios de linha e de seda e estendidos nas pernas farrapos velhos de variegadas cores. Havia três minutos já que tentava enfiar a agulha, sem o conseguir, e por isso praguejava exaltadamente contra a obscuridade e contra a maldita linha, gritando em altos berros: "A imbecil não entra na agulha! Esta maldita cai-me das mãos!"

        Era para Acaqui Acaquievich extremamente desagradável chegar ali no momento exato em que Petrovich experimentava um tal assomo de cólera: preferiria encarregá-lo do trabalho noutra altura, quando tivesse perdido a fúria ou, como dizia a mulher, quando esse diabo torto estivesse adormecido pela aguardente. Nessas ocasiões, Petrovich mostrava-se relativamente afetuoso e aquiescente, chegando mesmo a conceder um cumprimento ou a agradecer. A mulher vinha, é claro, ato contínuo, a chorar, dizer que o marido estava embriagado e que, por isso, ajustara o trabalho por uma ninharia; mas, juntando dez copeques ao preço estipulado, o assunto ficava resolvido.

        Neste momento, Petrovich encontrava-se, segundo parecia, num dos seus dias de temperança, e, por conseguinte, rígido, pouco falador e disposto a pedir preços exorbitantes. Compreendendo-o, Acaqui Acaquievich ainda pensou em retroceder, sem ser visto; mas era demasiado tarde. Petrovich virou para ele o seu único olho e Acaqui Acaquievich disse, sem querer:

        -- Bom dia, Petrovich!

        -- Muito bom dia, cavalheiro! – replicou Petrovich, desviando o olho em direção às mãos de Acaqui Acaquievich, a ver que bela prenda lhe traria.

        -- Venho a tua casa, Petrovich, efetivamente...

        Convém saber que Acaqui Acaquievich se exprimia quase sempre mediante partículas gramaticais sem qualquer significado. Se o assunto era muito complicado, tinha por costume não terminar a frase, de modo que os elementos principais da oração eram precedidos das palavras "coisa, com efeito, absolutamente...", e calava-se depois, supondo ter já dito tudo quanto pretendia.

        -- Quê? Vamos lá a ver... – interpôs Petrovich, observando naquele instante, com o seu único olho, toda a fatiota, desde a gola às mangas, desde as costas à labita e às pernas das calças, tudo tão seu conhecido, como produto da virtuosidade das suas mãos. Era o que, como um verdadeiro alfaiate, fazia antes de mais conversa.

        -- Pois eu, o caso é este, Petrovich... este capote, a fazenda... como vês, está ainda boa em todos os sítios... um pouco coçada, é certo, e com aspeto de velha, embora seja nova ainda, se exceptuares neste sítio um rasgãozito, uma coisa pequena aqui... nas costas... e também aqui... neste ombro, um pouquinho puído. E só isto, vês? Não é grande coisa.

        Petrovich pegou no capote, estendeu-o em cima da mesa, examinou-o durante largo tempo, abanou a cabeça e estendeu a mão para uma velha caixa de rapé que tinha na tampa o retrato de um general, cujo nome não é possível precisar por a sua fisionomia estar suja dos dedos do possuidor.

        Depois de tomar uma pitada, Petrovich pôs o capote contra a luz e voltou a abanar a cabeça: tornou a pegar na caixa que tinha o general na tampa e, introduzindo o rapé no nariz, fechou-a e pô-la de lado, dizendo finalmente:

        -- Não, não tem conserto; isto é um monte de trapos.

        Ao ouvir estas palavras, a Acaqui Acaquievich oprimiu-se-lhe o coração.

        -- Por que dizes isso, Petrovich? – murmurou ele quase implorativamente, com a sua voz infantil. – Só está um pouco puído aqui nos ombros, mas tu, certamente, hás-de ter algum pedaço que...

        -- Não seria essa a dúvida, ainda tenho dessa fazenda – disse Petrovich. – Mas a dificuldade reside no cosê-lo; está completamente podre, tão podre que não aguenta a linha.

        -- Podes aproveitá-lo, cosendo uns remendos por cima.

        -- Uns remendos por cima! Mas não se segura numa fazenda neste estado! O próprio vento é capaz de o arrancar.

        -- Nesse caso, reforça então a fazenda por dentro, e ficará bem...

        -- Não – objetou Petrovich com decisão –, nada se pode fazer. O melhor, visto que se aproxima agora o maior frio do Inverno, será você fazer umas polainas desta fazenda. Sempre lhe resguardarão as pernas melhor do que as meias, que são apenas invenção dos Alemães para ganhar dinheiro. (Agradava a Petrovich aproveitar a ocasião para insultar os Alemães.) –  Quanto ao capote, o melhor é mandar fazer um novo.

        Ao ouvir a palavra "novo", toldaram-se os olhos de Acaqui Acaquievich, que começou a ver andar à roda de si tudo quanto se encontrava naquela sala.

        Só via claramente a figura do general na caixa do rapé.

        -- Novo? – dizia como em sonho. – Desgraçadamente, não tenho dinheiro para tal.

        -- Sim, novo – repetia Petrovich com uma calma brutal.

        -- E, sendo novo, a quanto montaria? – Quanto custaria?

        -- Teria de gastar uns cento e cinquenta rublos – disse Petrovich, cerrando os lábios.

        Era partidário dos efeitos fortes; agradava-lhe desconcertar por completo alguém e lançar um olhar de soslaio para observar a cara do assustado ao ouvi-lo.

        -- Cento e cinquenta rublos pelo capote! – exclamou o pobre Acaqui Acaquievich, sendo talvez este o primeiro grito desde que nasceu, já que, geralmente, se conservava em silêncio.

        -- Naturalmente – afirmou Petrovich. – E isso conforme seja o capote. Se levar gola de marta e bandas de seda, atira a uns duzentos.

        -- Por Deus, Petrovich! – disse Acaqui Acaquievich com voz suplicante, sem escutar nem pretender considerar as palavras de Petrovich ou os seus efeitos. – Arranja-me este como puder ser, para que ainda me sirva algum tempo.

        -- De modo nenhum; seria perder trabalho e dinheiro – respondeu Petrovich.

        Depois de ouvir aquelas palavras, Acaqui Acaquievich saiu, acabrunhado.

        Petrovich viu-o caminhar pela rua e permaneceu largo tempo de pé, com os lábios cerrados, sem fazer caso do trabalho, tal era o seu contentamento por não se ter rebaixado nem traído a sua nobre arte de alfaiate.

        Quando Acaqui Acaquievich chegou à rua, encontrava-se como num sonho.

        "Alguém viu já semelhante coisa?", dizia ele com os seus botões, "Nunca pensaria que podia chegar a tal..." E logo, após um silêncio, acrescentou: "Ora aí está! Cheguei finalmente a isto! Nunca teria suposto que fosse assim." E, depois de outro largo silêncio, voltou a exclamar: "Assim é, pois! Já não há esperança possível... Acabou-se... As circunstâncias requerem-no!"

        E, dito isto, em vez de ir para casa, seguiu na direção contrária, sem se dar de maneira alguma conta disso.

Nicolai Gogól. Parte 1. Da lista dos cem melhores contos do mundo. É a história de um funcionário público que com grande sacrifício consegue comprar um capote novo e é roubado no mesmo dia...

Entendendo o conto:

01 – Por que o narrador decide não nomear explicitamente a repartição pública onde o protagonista trabalha?

      O narrador opta por não nomear a repartição porque os funcionários públicos da época eram extremamente suscetíveis e orgulhosos. Ele ilustra isso contando a história de um capitão da polícia que se sentiu pessoalmente ofendido e insultado por causa de uma novela literária que retratava um capitão bêbado. Assim, para evitar desgostos e problemas, prefere usar a generalização "numa repartição".

02 – Qual é o nome do protagonista e qual a curiosa justificativa para a escolha desse nome por sua mãe?

      O protagonista chama-se Acaqui Acaquievich. A escolha ocorreu porque a mãe dele rejeitou todos os nomes sugeridos pelo calendário nas primeiras folhas consultadas (como Moquia, Sosia, Trifili e Varaiasi), achando-os estranhos e feios. Ao virar mais uma página e encontrar "Pafsicai e Vaitisi", ela desistiu e considerou um sinal do destino dar ao menino o mesmo nome do pai, que também se chamava Acaqui.

03 – Como os outros funcionários da repartição (colegas e chefes) tratavam Acaqui Acaquievich no dia a dia?

      Ele era tratado com total desprezo, frieza e desrespeito. O porteiro nem sequer olhava para ele; os chefes agiam com frieza autoritária; os ajudantes jogavam papéis em sua mesa sem dizer uma palavra amável; e os funcionários mais jovens zombavam dele constantemente, faziam piadas sobre sua vida pessoal e jogavam pedacinhos de papel em sua cabeça.

04 – Qual frase dita por Acaqui Acaquievich causou um profundo impacto em um jovem funcionário recém-chegado e o que esse jovem percebeu a partir disso?

      A frase foi: "Deixem-me! Por que zombam de mim?" (e a variação gravada na memória do jovem: "Deixem-me! Porque me vexam? / Sou vosso irmão!"). Ao ouvir o tom de sofrimento na voz de Acaqui, o jovem funcionário parou de zombar dele e percebeu quanta desumanidade, grosseria e falta de compaixão existiam no ser humano, mesmo sob o disfarce da polidez e da educação da "gente fina".

05 – Como era a relação de Acaqui Acaquievich com o seu trabalho de copista? Ele gostava do que fazia?

      Ele não apenas trabalhava com zelo, mas servia com verdadeiro amor. O mundo das cópias era o seu refúgio tranquilo e feliz; ele tinha letras favoritas e sorria, movia os lábios e se entusiasmava ao escrevê-las. Ele gostava tanto que, mesmo em casa, copiava papéis por puro gosto e divertimento.

06 – O que aconteceu quando um diretor de bom coração tentou dar a Acaqui uma tarefa de maior importância do que as cópias vulgares?

      A tarefa consistia em fazer um relatório para outra repartição, o que exigia mudar os títulos e alterar o texto da primeira pessoa gramatical para a terceira pessoa. Esse trabalho exigiu tanto esforço mental de Acaqui que ele começou a transpirar, esfregou a testa e acabou pedindo para voltar a fazer apenas cópias. Desde então, permaneceu copista para sempre.

07 – Como o narrador descreve a atitude de Acaqui em relação às ruas de Sampetersburgo e ao seu próprio vestuário?

      Acaqui era totalmente alheio ao mundo exterior. Ele não reparava nas roupas que vestia (seu uniforme estava desbotado e a gola era curta demais) e andava na rua tão absorto em seus pensamentos sobre os ofícios que frequentemente ficava com palhas, pevides e cascas de melão presas à roupa sem perceber. Ele só se dava conta de que estava na rua quando o focinho de um cavalo esbarrava em seu ombro ou o vento forte lhe batia no rosto.

08 – Qual é o "poderosíssimo inimigo" dos funcionários públicos que ganham baixos salários em Sampetersburgo e como ele afeta Acaqui?

      O inimigo é o rigoroso frio do inverno de Sampetersburgo. O vento forte da manhã corta o rosto dos funcionários e causa dores de cabeça. No caso de Acaqui, ele começou a sentir fortes picadas nas costas e nos ombros porque seu velho capote estava extremamente desgastado e puído.

09 – Por que o capote de Acaqui era chamado de "capinha" pelos seus colegas e qual era o estado real da peça de roupa?

      Era chamado de "capinha" de forma irônica porque já não parecia um capote de verdade. A fazenda estava tão gasta nas costas e nos ombros que parecia uma rede, o forro estava esgarçado e a gola diminuía a cada ano porque o alfaiate usava os pedaços dela para fazer remendos grosseiros e feios no resto da peça.

10 – Qual foi o veredicto do alfaiate Petrovich ao examinar o capote e qual foi o impacto disso sobre Acaqui?

      Petrovich afirmou categoricamente que o capote não tinha conserto porque a fazenda estava totalmente podre e não aguentaria a linha, dizendo que o melhor seria fazer polainas dele e encomendar um capote novo por 150 rublos. Ao ouvir a palavra "novo" e o preço exorbitante, os olhos de Acaqui ficaram toldados, ele ficou chocado (chegando a dar um grito, algo raro para ele) e saiu do ateliê completamente atordoado e caminhando sem rumo, como se estivesse em um sonho.