quarta-feira, 8 de julho de 2026

CONTO: REENCONTRO DE NATAL - SALVADOR NETO - COM GABARITO

 Conto: Reencontro de Natal

          Salvador Neto

         Estavam os três ali, sacolejando ao balanço do caminhão, dentro de um caixote que não parava de pular na carroceria. Pudera, em ruas tão esburacadas como queijo suíço… Fred, um carrinho de madeira, Joana, uma boneca descabelada, e Jujuba, um velho pião com as cordas surradas de tanto rodar por aí, já estavam há dias naquele vai, não vai. Já usados, velhos de tanto brincarem com seus donos, não tinham mais esperanças de voltar às mãos de crianças brincalhonas, arteiras e felizes. Estavam ali entre tantos outros brinquedos abandonados.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhS-pPPGv3Yjw4EguKzIfEMs9J9C_3t7HcncDYqZrdvVHQRPTHgObxHXaro0uATrAzRFX05KWyp6snwdSzrGzs5kJ9tB48TK3_x9l135IV2JpQuHTeZ9S2-rO35Q_MkG-c5DvjvYJAUkVN-28d-xWVPAXFPGZE18lzCeMkwJeiCHIlr6E1B8EOdmo8h-Lw/s1600/1520063413608.jpg


        É a vida, pensavam os velhos companheiros de tantas crianças! Conheceram várias delas por algumas gerações, doações, mas agora competiam com poderosos concorrentes internacionais que falam, voam, pulam, choram, andam em velocidade sem serem jogados pelas mãozinhas. O Natal estava à porta, e em meio às campanhas solidárias, lá se foram Fred, Joana e Jujuba para uma caixa entre tantas dispostas naquele shopping luxuoso. Sequer tiveram tempo de se despedir de seus donos! E o pior, até ali, ninguém os pegara para cuidar e brincar…

        Joana era a mais sentida. Com seus belos olhos azuis, cabelos loiros, já um pouco ralos, sim é verdade, vestida com uns paninhos coloridos e sem sapatinhos, não aceitava a solidão. – Sou muito bela para estar aqui! Mereço uma bela cama com lençóis de seda!, reclamava. Fred, do alto da dureza do seu ser, madeira bruta, apesar de bem arrebentado por muitas corridas e carregamentos de barros e batidas (já não tinha mais a caçamba…), retrucava. – Ora, eu sim, um forte, parceiro para todas as durezas, preciso de quem me valorize, que goste de aventura! E Jujuba… ah, este não tinha ambições.

        -- Eu quero é girar logo por aí. Sei que perdi um pouco a graça, afinal tem uns novos colegas aí bem mais modernos, mas ainda tenho muito a rodopiar e dar show!, dizia. A verdade é que em meio a tantos outros brinquedos, uns mais quebrados, outros não, a rota do caminhão solidário de Natal dirigido pelo velho voluntário Sebastião estava chegando ao final. Tião, como era conhecido em tantos anos de corridas pelos bairros da cidade, já tinha os ralos cabelos brancos. Se na próxima parada sobrasse algum daqueles brinquedos, o jeito era deixar por aí, ou jogar no lixo. – Tenho pena, quando eu era criança nem tinha um desses para brincar, pensava enquanto dirigia-se ao último ponto de parada.

        Nas paradas anteriores a maioria da criançada tinha pegado os brinquedos mais novos, modernos, com menos uso. O que estava ali na carroceria do velho Mercedes cara chata talvez não agradasse aos meninos e meninas que o esperavam nos fundões do Paranaguá-Mirim, bairro da periferia. Afinal, o que sobrara ali eram brinquedos antigos, bem velhinhos e uns tão usados e quebrados que… bom, era melhor não pensar nisso e seguir a missão. Junto com Tião ia João, vestido de vermelho como manda o figurino. Não via a hora de terminar o serviço que durava o dia todo.

        Mas lá no Paranaguá, como o povão chama seu próprio lugar mais ao gosto da simplicidade, a gurizada esperava. Mães e pais também, na esperança de que os filhos ficassem felizes com a chegada do bom velhinho e seus brinquedos. Famílias pobres, lutavam todos os dias para por comida na mesa, e não sobrava para dar brinquedos novos e modernos como os de hoje, que dirá tablets, celulares. Então, aguardavam amontoadas no pátio da igreja, local de encontro daquele ano. Era uma festa. No meio do povo, vendedores ambulantes ofertavam algodão doce, pipoca, doces, também na busca dos últimos trocados para garantir as festas de final de ano.

        De repente, lá na esquina surge o cara chata com o bom velhinho acenando! Alvoroço na comunidade. Era só criança correndo para ver quem chegava primeiro para abraçar o Noel, e ver o que podia ganhar. Tião dirige com todo o cuidado, porque nessas horas a multidão não tem controle. Ao parar o caminhão, João Noel desce e distribui balas e doces. Uma alegria só, e um empurra-empurra generalizado! Imagine o desejo infantil do brinquedo adorado, e o sonho de pais em ver seus filhos felizes. De repente o vozeirão avisa: – Atenção! Vamos organizar a fila gente! Era o padre Felício tentando organizar a desorganização de sempre.

        O povo o respeitava muito, afinal ele era o homem de Deus na região, e também sabia das coisas. Cobrava das autoridades uma vida melhor para aquele povo. Magro, com seus óculos quadrados, pretos, mas com fala firme e olhar decidido, padre Felício liderava movimentos em favor de mais saúde, infraestrutura, e agora, ajeitava tudo para que não faltassem brinquedos para a criançada. O motorista Tião já sabia que, se faltasse brinquedo ali a bronca seria enorme! No roteiro de visitas pela cidade, cuidava para que nada faltasse até o final no encontro com o padre.

        Se o alvoroço era grande lá fora, imagine naquela caixa. Entre os colegas brinquedos, Fred, Joana e Jujuba tentavam se ajeitar para serem notados, afinal, queriam voltar para a alegria das crianças, viver em animação nas ruas, animar histórias nas mãos infantis. E começou a entrega dos brinquedos. Uma a uma as crianças saiam com seus troféus, já a brincar com os coleguinhas. Quase ao final da fila estava José. Com seus dez anos, pequeno para a idade, olhos miúdos e castanhos, cabelos da mesma cor, ondulados, tinha chegado atrasado.

        A tristeza já tomava o seu coração. Será que ainda sobraria brinquedos para ele seus irmãos? A cada metro que a fila avançava, mais sua respiração acelerava, parecia que o coração saltaria boca afora. Seu pai e sua mãe garantiam o sustento da casa com a pesca artesanal. Seu atraso se justificava: estava até a pouco cuidando dos manos pequenos. Quando os pais chegaram, ele correu até a igreja. Será que daria certo? Conseguiria ao menos um presente? E a fila andava… e não chegava a sua vez!

        E João Noel não aguentava mais de entregar presente para a meninada agitada. Tião preparava o caminhão para ir embora ver a sua família. E o padre avisava a todos que daqui a pouco tinha a missa, não poderiam faltar! Deus não perdoa, dizia ele. Fred se batia ao lado de Jujuba, e aquele barulho de madeira batendo o deixava furioso! Joana, já quase perdendo o vestidinho, lamentava a sua má sorte: nenhuma criança a tinha escolhido! E agora! Será que ficariam sem dono, sem eira nem beira em pleno Natal?

        Chegou a vez de José. Ansioso, olha nos olhos do Papai Noel como quem espera o prato de comida. Tião empurra a caixa que ainda tinha algo dentro. – É o que sobrou filho, diz ele a José. Um brilho nos olhos surgiu, e por trás dele, lágrimas de alegria, pois sobraram apenas três brinquedos! Era muita sorte! – Obrigado!, disse José já pegando nas mãos aqueles três brinquedos, exatamente o que precisava para que todos em casa ficassem contentes. Ao espiar cada um deles nos pacotes de presente meio rasgados, parece que via alegria também vinda daqueles brinquedos! Seria possível?

        Correu para casa sem parar! O trecho da igreja até a sua pequena casa de madeira que beirava o rio parecia ter milhares de metros, não acabava mais! Os cabelos esvoaçavam ante os ventos do início da noite. Fred, Joana e Jujuba percebiam o chacoalhar, diferente dos pulos na carroceria do Mercedes de Tião. O que acontecia, imaginavam. José chegou finalmente. Seu pai e sua mãe o receberam enquanto limpavam seus peixes. A pequena Sara, a caçula, e Mateus, irmão do meio, pularam em sua frente. – O que nós ganhamos, o que veio, gritavam!

        José então entregou a cada um o seu presente. Sara não sabia o que dizer da boneca loira que tinha nas mãos… era a mais linda que tinha ganhado, na verdade, inteira, era a única. Mateus pegou o pião nas mãos e saiu a atirar ele ao chão e ver rodar. Já tinha visto os amigos com alguns, mas agora tinha o dele. E José, enfim teve seu caminhão. Faltava a caçamba, mas isso dava para enjambrar. Saiu também a fazer vruummm, vruummm, pelo terreiro da casa. Depois do susto, era a realização de sonhos, sonhos natalinos dele, dos pais, da família. O reencontro da alegria que só o Natal faz.

        E Fred, Joana e Jujuba? Bom, eles também se reencontraram com a alegria da brincadeira, dos inventos, e sentiram-se úteis e felizes. No dia seguinte, Fred já tinha sua caçamba feita de casca de ostra. Joana ganhou novo vestido feito pela mãe de Sara, todo florido! E Jujuba, ah, Jujuba agora roda mais forte que nunca! Ganhou uma nova corda reforçada e sai por aí rodando o mundo a partir do Paranaguá!

 

Escrito por Salvador Neto em 8 de dezembro de 2014, especial para a sétima mini antologia Letras da Confraria da Associação Confraria das Letras.

 

Entendendo o conto:

01 – Quem são Fred, Joana e Jujuba e qual era o principal receio deles no início do conto?

      Fred é um carrinho de madeira (sem caçamba), Joana é uma boneca descabelada de olhos azuis e Jujuba é um velho pião com cordas surradas. Por serem brinquedos usados e antigos, eles disputavam espaço com brinquedos modernos internacionais e temiam nunca mais voltar às mãos de crianças para brincar, correndo o risco de serem esquecidos ou descartados.

02 – O que os brinquedos pensavam sobre si mesmos enquanto esperavam para ser doados?

      Cada um expressava sua personalidade e desejo de utilidade: Joana, apesar de descabelada e sem sapatos, achava-se muito bela e dizia que merecia uma cama com lençóis de seda; Fred, orgulhoso de sua resistência de madeira bruta, afirmava ser parceiro para "todas as durezas" e aventuras; já Jujuba não tinha ambições intelectuais, apenas desejava voltar a girar e dar show, mesmo sabendo que existiam colegas mais modernos.

03 – Quem era Tião e qual era a preocupação dele em relação aos brinquedos que restavam na carroceria do caminhão?

      Tião (Sebastião) era o velho motorista voluntário que dirigia o caminhão Mercedes "cara chata" da campanha solidária. Sua preocupação era que, como as crianças das paradas anteriores escolheram os brinquedos mais novos e modernos, o que havia sobrado eram apenas os brinquedos antigos, quebrados e surrados, que poderiam não agradar as crianças da última parada e acabar indo para o lixo.

04 – Onde ficava a última parada do caminhão solidário e como é descrita a realidade socioeconômica daquela comunidade?

      A última parada era no pátio da igreja do bairro Paranaguá-Mirim (ou simplesmente "Paranaguá"), na periferia. É descrita como uma comunidade de famílias muito simples e pobres, que lutavam diariamente para colocar comida na mesa. Os pais não tinham condições financeiras de comprar brinquedos modernos, tablets ou celulares para os filhos, tornando a chegada do Papai Noel um evento muito aguardado e festivo.

05 – Por que o menino José quase perdeu a entrega de presentes de Natal e qual era a sua situação familiar?

      José, de dez anos, chegou atrasado porque precisou ficar em casa cuidando de seus irmãos mais novos (Sara e Mateus). Ele só pôde correr para a igreja quando seus pais voltaram do trabalho. A subsistência de sua família vinha da pesca artesanal, uma realidade humilde que aumentava a ansiedade do menino de conseguir pelo menos um presente.

06 – Como a "falta de opções" no final da caixa de doações acabou se tornando um golpe de extrema sorte para José?

      Quando José finalmente chegou à sua vez, o caminhão estava prestes a ir embora e restavam exatamente os três últimos brinquedos da caixa (Fred, Joana e Jujuba). Isso acabou sendo uma enorme sorte, pois a quantidade era o número exato de presentes de que ele precisava para que ele e seus dois irmãos ganhassem algo e ficassem contentes.

07 – Como os irmãos de José reagiram aos presentes e de que forma os três brinquedos ganharam uma "nova vida" no final do conto?

      A reação dos irmãos foi de pura felicidade: Sara achou a boneca Joana a mais linda que já tivera; Mateus começou a girar o pião Jujuba imediatamente; e José usou a imaginação para brincar com o caminhão Fred. Os brinquedos ganharam uma nova vida através da criatividade da família: Fred ganhou uma caçamba feita de casca de ostra; Joana ganhou um vestido novo e florido costurado pela mãe das crianças; e Jujuba ganhou uma corda nova e reforçada para rodar mais forte do que nunca.

 

 

COLOCAÇÃO PRONOMINAL - ATIVIDADES - COM GABARITO

 Colocação pronominal

 

        Relembre as posições dos pronomes átonos em relação ao verbo, em seguida, pratique.

        A colocação pronominal trata da posição dos pronomes oblíquos átonos em relação ao verbo. São três as posições em que os pronomes: me, te, se, o, a, os, as, nos, nos, lhe, lhes.

A - Próclise: pronome antes do verbo.

Exemplo: Você não me disse a verdade.

B - Mesóclise: pronome encaixado (no meio do verbo).

Exemplo: Dir-me-ia a verdade.

C - Ênclise: pronome depois do verbo.

Exemplo: Disse-me a verdade.   

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Exercícios:

01 – “O funcionário que se inscrever fará prova amanhã.”

Quanto à colocação do pronome no texto:

1. ocorre próclise em função de pronome relativo.

2. deveria ocorrer ênclise.

3. a mesóclise é impraticável.

4. tanto a ênclise quanto a próclise são aceitáveis.

a) Correta apenas a 1ª afirmativa.

b) Apenas a 2ª é correta.

c) São corretas a 1ª e 3ª.

d) A 4ª é a única correta.


02 – O pronome está mal colocado na alternativa:

a) Lá, disseram-me que entrasse logo.

b) Aqui me disseram que saísse.

c) Posso ir, se me convidarem.

d) Irei, se quiserem-me.

e) Estou pronto. Chamem-me.


03 – A frase em que há erro de colocação pronominal é:

a) Dize-me com quem andas, dir-te-ei quem és.

b) Quando a mamãe limpa a louça, ela o faz com muito cuidado.

c) É um prazer ouvi-lo falar.

d) Caberia-lhe, então, mostrar patriotismo e competência.

e) Mandou-me embora mais cedo.


04 – Segundo a norma culta, a colocação do pronome pessoal destacado está incorreta em:

a) Companheiros, escutai-me”

b) Não nos iludamos, o jogo está feito.

c) Dir-se-ia que os amigos tinham prazer em falar difícil.

d) Queria convidá-lo a participar da festa.

e) Não entreguei-lhe a carta.


05 – Marque a alternativa em que há erro quanto à colocação do pronome oblíquo átono:

a) Para Josefa, que encorajou-me a repertir estas histórias, ofereço este livro.

b) Pedro arriou o feixe de lenha, voltou-se para os filhos e sorriu.

c) Infelizmente, não lhe foi possível dominar as divagações.

d) As linhas irregulares da costura tumultuaram-se no avesso da roupa.

e) O esgotamento, confundindo-se com a fome, ia envolvendo o velho lenhador.


06 – Observe as frases abaixo, analisando a colocação dos pronomes oblíquos:

I. Quando lembro-me de você, fico feliz.

II. Não me diga que a prova de Língua Portuguesa é hoje!

III. Em demorando-se a pagar, a duplicata irá a juízo.

IV. O pai esperava-a no aeroporto.

V. Vê-la-ia ao menos uma vez, após a briga?

Assinale a opção correta:

a) I, II, V

b) II, IV, V

c) III, IV, V

d) II, III, IV

e) I, III, V.

 

07 – Assinale a frase em que o pronome oblíquo átono está colocado incorretamente:

a) O guarda chamou-nos a atenção para os pivetes.

b) Quantas lágrimas se derramaram pelo jovem casal.

c) Ninguém nos convencerá de que esta notícia seja verdadeira.

d) As pessoas afastaram-se daquele pacote suspeito.

e) O vizinho cumprimentou o casal, se retirando imediatamente.


08 – Assinale a frase em que a colocação do pronome pessoal oblíquo não obedece às normas do português padrão:

a) Essas vitórias pouco importam; alcançaram-nas os que tinham mais dinheiro.

b) Estamos nos sentindo desolados: temos prevenido-o várias vezes e ele não nos escuta.

c) Ele me evitava constantemente! Ter-lhe-iam falado a meu respeito?

d) Entregaram-me a encomenda ontem, resta agora a vocês ofereceram-na ao chefe.

e) O Presidente cumprimentou o Vice dizendo: - Fostes incumbido de difícil missão, mas cumpriste-la com denodo e eficiência.


09 – O pronome pessoa oblíquo átono está bem colocado em um só dos períodos. Qual?

a) Me causava admiração ver aquela turma se dedicando com tanto afinco aos estudos, enquanto os outros não esforçavam-se nada.

b) Apesar de contrariarem-me, não farão me mudar de resolução.

c) Já percebeu que não é este o lugar onde devem-se colocar os livros.

d) Ninguém falou-nos, outrora, com tanta prioridade e delicadeza.

e) Não se vá cedo; custa-lhe ficar mais?


10 – Assinale a alternativa em que a colocação pronominal não corresponde ao que preceitua a gramática:

a) Há muitas estrelas que nos atraem a atenção.

b) Jamais dar-te-ia tantas explicações, se não fosses pessoa de tanto merecimento.

c) A este compete, em se tratando do corpo da Patroa, revigorá-lo com o sangue do trabalho.

d) Não o realizaria, entretanto, se a árvore não se mantivesse verde sobre a neve.

e) N.d.a.

 

CRÔNICA: HÁ SEMPRE UM BARCO - DONALD MALSCHITZKY - COM GABARITO

 Crônica: Há sempre um barco

            Donald Malschitzky

 

        Poderia ser apenas mais uma quinta-feira como todas quando Florianópolis é o destino de trabalho, e espio a paisagem naquela curva à esquerda, em São Miguel onde sempre há uma bateira ancorada e ao longe se vê parte da ilha e seus contornos que sobem ao céu. Só que é outono, só que o mar, liso e acariciante, está tão incrivelmente azul e tanto reflete que ficava impossível não concordar com Fernando Pessoa, e algo sussurra: “Mas foi nele que espelhou o céu”.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEinIsY0wE57UxKaSF5ksAfbZRfyv3Auzt2-L2rVgkApk_1RMk3GIbv76dbKJDDd-W6V0BPLkzOKGV_FehTETYGbO06hOcbeGfGwImqnfb416V_kGVIw4J8es_Gb2397VQfrg5mJ6tHcnM9jZRsl0M-8_jmREbDKKcIbCGUr35ZjYyS7Aw5C-a4AcWd_QbQ/s320/pngtree-a-boat-with-sunlit-reflection-in-it-picture-image_13204537.jpg


        Há dias, e são a maioria, em que o vento levanta aquelas ondas curtas de altura e de distância entre elas na água que separa ou une continente e ilha e o fundo lodoso se mistura à superfície e aparece uma outra beleza de contraste e nostalgia. Não que seja triste – cinza não é triste, é apenas cinza –, mas há em nós a necessidade da segurança trazida pelo que é claro, decifrável aos olhos e sentimentos, talvez para compensar os labirintos mais tenebrosos de nossas mentes. 

        Em dias assim, as cores da bateira ancorada, embora destoem do entorno, pouco aparecem. Falta-lhes o brilho do reflexo. 

        Na quinta-feira, no entanto, há um vermelho-pescador e um amarelo-navegar-é-preciso flutuando sobre o anil. Visto de cima, da estrada, daria bela aquarela, uma foto tocante da Lair Bernardoni (onde anda você?), um anúncio de viagem inesquecível. Mirando da margem, no nível do mar, é nave errante buscando contornos no horizonte.

        Velho CD de Renato Teixeira embala o caminho e adia a escolha de sempre: “Pela Via Expressa ou pelo Estreito”. Pura coincidência: “O velho barco, toda vez que vê o mar, fica confuso, com vontade de zarpar”. O trânsito no Estreito, de tão tranquilo, parece desenhado para não estragar a paisagem nem as lembranças. De cima da ponte com pouco movimento, extensões de azul, de novo, convidam o pensamento ao voo. 

        Há um velho barco dentro de nós, um barco de sentimentos confusos, de medos e desejos, que precisa navegar, mas não sabe se prefere fixar-se à âncora ou enfrentar as ondas, se espera pelo vento ou vai com ele, mas, enfim, navega, “mesmo que o casco seja corroído”, como continua a canção, porque há o chamado do horizonte, e segue até transmutar-se em ponto, em azul. Libertar-se.

 

Donald Malschitzky. Há sempre um barco.

 

Entendendo a crônica:

01 – Que cenário o cronista costuma observar em suas viagens de trabalho nas quintas-feiras e o que havia de especial no dia relatado?

      O cronista costuma espiar a paisagem em uma curva à esquerda na localidade de São Miguel, no caminho para Florianópolis, onde sempre há uma bateira (tipo de embarcação pesqueira artesanal) ancorada com a ilha ao longe. O diferencial daquela quinta-feira específica era o outono, que trouxe um mar liso, acariciante e tão incrivelmente azul que refletia perfeitamente o céu.

02 – Como o autor descreve os dias em que o mar não está calmo e qual reflexão psicológica ele faz a partir dessa mudança de tempo?

      Ele descreve que, na maioria dos dias, o vento levanta ondas curtas e mistura o fundo lodoso com a superfície, trazendo uma beleza feita de contraste, nostalgia e tons de cinza. A partir disso, ele reflete que os seres humanos têm a necessidade da segurança trazida pelo que é claro e decifrável aos olhos, talvez como uma forma de compensar os "labirintos mais tenebrosos" de nossas próprias mentes.

03 – Quais são as cores da bateira citadas na crônica e com quais expressões poéticas o autor as associa?

      O autor identifica na embarcação as cores vermelha e amarela. Poeticamente, ele as rebatiza como um "vermelho-pescador" e um "amarelo-navegar-é-preciso" flutuando sobre o azul-anil do mar, transformando as cores simples do barco em símbolos da atividade pesqueira e do desejo humano de explorar.

04 – Qual é a relação entre a trilha sonora da viagem do cronista e os seus pensamentos sobre o trajeto?

      O cronista viajava ouvindo um velho CD de Renato Teixeira. A música tocava exatamente no momento em que ele precisava decidir entre ir "pela Via Expressa ou pelo Estreito", e a letra dizia: “O velho barco, toda vez que vê o mar, fica confuso, com vontade de zarpar”. Essa coincidência musical acabou embalando o caminho e ajudando a manter o trânsito e os pensamentos em perfeita harmonia com a paisagem.

05 – No final do texto, que metáfora o autor estabelece entre o "velho barco" e a própria alma ou sentimentos humanos?

      O autor conclui que existe um "velho barco" dentro de cada um de nós, feito de sentimentos confusos, medos e desejos. Esse barco interno vive o dilema humano de não saber se prefere a segurança de fixar-se à âncora ou a aventura de enfrentar as ondas. Apesar das dúvidas e mesmo que o "casco seja corroído" pelo tempo, ele decide navegar, atraído pelo chamado do horizonte, até libertar-se.

 

CONTO: A FILHA DELE - URDA ALICE KLUEGER - COM GABARITO

 Conto: A filha dele

          Urda Alice Klueger

 

        O ano, já não sei. Foi no ano em que foi fundado o Jornal Brasil de Fato, e o lançamento do mesmo aconteceu no Auditório Araújo Viana, lá em Porto Alegre, durante o Fórum Social Mundial, e o mesmo estava totalmente lotado, três ou quatro mil pessoas ocupando cada espacinho possível, e o palco iluminado lá na frente, com uma longa mesa repleta de celebridades que, cada uma por sua vez, levantou-se e, de pé, diante de um microfone suspenso, falou da importância daquele jornal estar nascendo e da importância de tantas coisas neste mundo que todos nós acreditávamos que poderia ser melhor. Íamos de emoção em emoção, aplaudindo cada celebridade daquelas, sem estarmos, de fato, preparados, para o que viria abalar com a maior força de todas os nossos corações – e já não lembro quem tudo ali levantou e falou, mas lá estavam Sebastião Salgado, e Eduardo Galeano, e a Madre Hebe de Bonafini, vinda diretamente da sua Plaza de Mayo com a carga dos seus filhos mortos pela ditadura argentina, e todos tinham sua história de lutas e de resistência, e todos da longa mesa falaram o que iriam falar ... até que, lá na mesa, restaram apenas duas pessoas, uma mulher e um homem.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhi6q-zet2J5a9qXxxkUUlkc0GhDhPHNeP69ER9uHAPrZj6dbuTfT_x_dxmIMbqaMf-G7D_UO7GP9vLrqtQA6yJCH25zJ_yjYuz7inxVuikkN7ynaS2YBP0_-pgSykuEo3vWSrnSWFJUCrqoIGVIq6rfMHv1EZ7d5XB9-qNyi2BJSbKyJ-RpP6rDnrOfzA/s320/images%20(1).jpg


        Até hoje não sei quem era aquele homem, pois ele foi o último a falar, e quando o fez, a emoção apaixonada que tomara conta de todas aquelas milhares de pessoas um pouco antes fez com que nenhum de nós prestasse atenção a ele – e não há que se dizer que havia ali tantos milhares de mal-educados, por terem feito tal coisa com aquele homem que ficara para o final, mas já conto o que aconteceu, e penso que não haverá quem não nos absolverá.

        A penúltima pessoa a falar, portanto, era uma mulher. Teria cerca de 40 anos, era clara, um pouco loira, muito bonita, com um jeito de doçura e amplidão que a gente costuma imaginar nas mães, um pouco cheinha dentro de um simples vestido florido que lhe dava um jeito de primavera, e como eu, penso que quase a totalidade daquele grande público não fazia ideia de quem ela poderia ser. No seu jeito bonito e seguro, suave e doce, ela caminhou até o microfone suspenso, e com grande simplicidade, falou para todos nós:

        -- A última vez em que eu vi o meu pai, eu tinha cinco anos...”

        Enquanto ela tomava fôlego para continuar a sua fala, um silêncio de pedra caiu no grande auditório, e penso que, como eu, cada um de nós fazia uma rápida conferência das suas memórias, olhando incredulamente para aquela linda mulher e comparando a sua imagem com outras imagens conhecidas, fotos famosas em todo o mundo, de um homem tão lindo por fora quanto por dentro, imortalizado pelas lentes de Alberto Korda e de outros, e penso que, como aconteceu em mim, ao mesmo tempo aconteceu com todo o mundo, e houve aquele instante em que “caiu a ficha”, e antes que a mulher pudesse continuar a sua fala, o silêncio de pedra espocou nos mais vibrantes aplausos que já ouvi em minha vida, como fogos de artifício na beira do mar em noites de Ano Novo, e aquele imenso público foi tomado por tal intensidade de amor por aquela mulher que ficara ali sentada um tempão, incógnita e bonita no seu vestido simples e florido, que já nada mais se ouviu do que ela tentou falar.

        Diante de nós, em carne e osso, estava Aleida Guevara, a filha do Che, e penso que muita gente fez o que eu fiz: obedecendo ao coração, sem pensar em mais nada, saí às cegas, descendo as altas arquibancadas em direção ao palco, disparando o flash da minha pobre máquina fotográfica até o fim, tentando fixar de alguma forma aquele momento para sempre.

        Havia um fosso de segurança, separando o palco das enormes arquibancadas, e com centenas de outras pessoas, eu encalhei ali, e os guardas que eram encarregados de manter a ordem naquele lugar sorriam-nos com simpatia e nos entendiam, porque também eles estavam encantados e apaixonados, pois um dia houvera um homem que nos dava o direito de sermos todos irmãos, e havia tal fraternidade ali, por conta daquela mulher de vestido florido que nos trazia, muito próxima, a presença do Che, que em nenhum outro momento da minha vida eu me lembro de ter vivido coisa igual.

        Foi por conta de Aleida Guevara que não ficamos sabendo quem era o último homem que falou, mas penso que não faz mal – ele deve ter entendido que há forças que são maiores que todas as outras.

        Então, o evento acabou, e milhares de pessoas foram saindo dali, mas algumas centenas ficaram, e os guardas não podiam nos liberar para irmos até ela, mas, irmãos como agora éramos, entregávamos a eles nossas máquinas fotográficas para que a fotografassem mais de perto para nós – e então fez ela sinal para que nós nos aproximássemos, e os seguranças ajudaram a nos organizar em fila. 

        Aleida Guevara, linda, serena e doce, aconchegante como uma mãe dentro do seu vestido colorido, ficou ali naquele lugar até que o último de nós pudesse trocar uma palavra com ela, pegar seu autógrafo, pousar para uma foto ao seu lado. Ela tinha a compreensão das coisas incompreensíveis – ela nos entendia. Foi uma noite para nunca mais esquecer. Tenho a foto daquele dia pendurada na parede da sala da minha casa.

        Vi-a, de novo, dois ou três anos depois, em Caracas, no Fórum Social Mundial, e o amor que ela suscitava era o mesmo. Hoje faz 40 anos que assassinaram o seu pai. Não podia deixar de contar esta história.

 

Conto: A filha dele. Urda Alice Klueger.

Entendendo o conto:

01 – Em qual evento e local histórico se passa a narrativa descrita pela autora?

      A história se passa em Porto Alegre, no Auditório Araújo Viana completamente lotado (com três ou quatro mil pessoas), durante o Fórum Social Mundial. O momento exato era o lançamento do jornal Brasil de Fato.

02 – Quem eram algumas das celebridades internacionais que compunham a mesa antes da revelação principal do conto?

      A longa mesa do palco contava com grandes nomes da luta e da resistência internacional, como o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, o escritor uruguaio Eduardo Galeano e a ativista argentina Hebe de Bonafini (líder e fundadora da Associação das Mães da Praça de Maio).

03 – Como o público reagiu no exato momento em que a penúltima palestrante revelou sua identidade indiretamente?

      Logo após a mulher dizer a frase: “A última vez em que eu vi o meu pai, eu tinha cinco anos...”, um "silêncio de pedra" caiu no auditório enquanto o público conectava aquela imagem às fotos históricas de Ernesto Che Guevara. Assim que a "ficha caiu", o silêncio explodiu nos aplausos mais vibrantes que a autora já ouviu na vida, tomados por uma imensa onda de amor coletivo.

04 – Por que a autora afirma que o público "não foi mal-educado" com o último homem que ficou para falar na mesa?

      A autora justifica e absolve o público porque a revelação de que a mulher era Aleida Guevara, filha do revolucionário Che Guevara, gerou uma comoção apaixonada e um alvoroço tão gigantescos que se tornou impossível prestar atenção em qualquer outra coisa. A autora complementa dizendo que o próprio palestrante deve ter entendido que "há forças que são maiores que todas as outras".

05 – Que atitude de fraternidade os guardas de segurança e a própria Aleida Guevara demonstraram após o encerramento do evento?

      Os guardas demonstraram total empatia e simpatia pelo público; eles chegaram a pegar as máquinas fotográficas das pessoas para tirar fotos mais de perto e ajudaram a organizar uma fila quando Aleida fez sinal para o povo se aproximar. Aleida, por sua vez, demonstrou extrema doçura e paciência, permanecendo no local até que a última pessoa pudesse pegar um autógrafo, conversar ou tirar uma foto ao seu lado.

 

 

 

VOZES VERBAIS - CONCEITO - ATIVIDADES - COM GABARITO

 Vozes Verbais

         O conceito de voz verbal está relacionado com critérios semânticos, ou seja, para determinar a voz é necessário saber quem realiza a ação verbal: se o sujeito (caso de voz ativa) ou se o agente da passiva (caso de voz passiva). 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhG7ZSECrXCMVMiPirmVmurDNx6e1l8_CGglVUkbg-aBTH3LLh-yp5Xu2NXZdAsfdvCfyodsg9HCVgtkb9d21fNaB2evbeOtZiUd5uAAM8tzkcLyknaBYO4rdbqMJAdkBQ8FqSdJRX5hM3-IgTYyn3wSZICELEGewvSK1eCgV9RM28Yqsp1xo5sfMDdXcY/s320/images.jpg


        Voz ativa

Ex. Meu pai leu o jornal.

(Meu pai é o sujeito agente – aquele que faz a ação – ler o jornal.)

        Voz passiva

Ex. O jornal foi lido pelo meu pai.

(O jornal é Sujeito paciente – aquele que recebeu a ação – nesse caso, a ação é produzida pelo agente da passiva que é meu pai.)

        Voz passiva analítica – é formada com o auxílio de um verbo auxiliar conjugado seguido de um verbo transitivo direto ou transitivo direto e indireto no particípio.

Ex. Esta questão foi anulada pela banca examinadora.

        Voz passiva sintética – é formada com um verbo transitivo direto ou transitivo direto e indireto na 3a. pessoa do singular ou plural + pronome apassivador se.

Ex. Anulou-se a questão.

(verbo na 3a. pessoa do singular + Partícula apassivadora)

        Voz reflexiva

Ex. Meu pai barbeou-se pela manhã.

(Meu pai é sujeito agente, mas também paciente, pois faz a ação de barbear-se e ficar barbeado.)

        Voz reflexiva recíproca

Ex. Os meus pais beijaram-se amorosamente.

(Os meus pais produziram a ação mutuamente. Nesse caso, o pronome oblíquo se equivale a um ao outro.)

        Agente da passiva é o termo que, na voz passiva analítica, pratica a ação expressa pelo verbo. É um termo obrigatoriamente regido por preposição.

Ex. Muitos livros foram doados pela população.

(Muitos livros – sujeito paciente. A população – agente da passiva.)

 

Exercícios:


01 – Indique se a ação verbal esta na voz ativa, passiva, reflexiva ou reflexiva recíproca:

a. A queda das bolsas fora prevista pelo analista.

      Passiva analítica.

b. Os torcedores ofendiam-se grosseiramente.

      Reflexiva recíproca.

c. O assaltante escondia-se atrás da árvore.

      Reflexiva.

d. Os alunos resolviam as questões com muita facilidade.

      Ativa.

e. Uma bala perdida atingiu uma pobre criança.

      Ativa.

f. A bailarina pintava-se entre um e outro espetáculo.

      Reflexiva.

g. As gavetas foram reviradas pelos ladrões.

      Passiva analítica.

h. Os adversários agrediam-se violentamente.

      Reflexiva recíproca.

i. Já não se fazem filmes como antigamente. 

      Passiva sintética.

j. Essas piadas já forma contadas muitas vezes.

      Passiva analítica.


02 – (UPM - SP) Assinale a alternativa em que há agente da passiva.

a) Nós seremos julgados pelos nossos atos.

b) Olha esta terra toda que se habita dessa gente sem lei, quase infinita.

c) Agradeço-lhe pelo livro.

d) Ouvi a notícia pelo rádio.

e) Por mim, você pode ficar.

 

03 – Assinale a opção em que o termo em destaque tem a função de agente da passiva.

a. A casa foi alugada para os estudantes.

b. Os móveis e as casas foram levados pela correnteza.

c. Seriam cantadas novas canções.

d. Comprei meu jeans favorito pela metade do preço.

e. O grupo de jovens voltou para casa pelo caminho mais longo.



 

POEMA: MALDIÇÃO - OLAVO BILAC - COM GABARITO

 Poema: Maldição 

           Olavo Bilac


Se por vinte anos, nesta furna escura, 

Deixei dormir a minha maldição, 

_ Hoje, velha e cansada da amargura, 

Minha alma se abrirá como um vulcão. 

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhZ1SrogusCOrnp7_HsnS_6sVSQ3IoEwer-9cxvgBxjbXv7uAgHICJnV1NEVtCgjG4NKVPaLfAKds0D2IuXGBhEiHSIPXyMVfHzhVJQhBcMbvI3birxMV_zaJvbKc2uEA2PgkGZQSX-zYUBoAOLqpXRHTRg69cbkSgnSBtV2Zi5UHvUWTEkmjpo_uMVBp8/s320/MALDI%C3%87%C3%83O.jpg
 


E, em torrentes de cólera e loucura,

Sobre a tua cabeça ferverão

Vinte anos de silêncio e de tortura,

Vinte anos de agonia e solidão...


Maldita sejas pelo ideal perdido!

Pelo mal que fizeste sem querer!

Pelo amor que morreu sem ter nascido!


Pelas horas vividas sem prazer!

Pela tristeza do que eu tenho sido!

Pelo esplendor do que eu deixei de ser!...

Olavo Bilac. Poema Maldição.

 

Entendendo o poema:

01 – A primeira estrofe do poema introduz uma mudança drástica no estado de espírito do eu lírico. Explique que mudança é essa e qual metáfora da natureza é utilizada para ilustrá-la.

      A mudança consiste na transição de um longo período de repressão e silêncio emocional para uma explosão violenta de sentimentos guardados. O eu lírico passou vinte anos contendo sua "maldição" em segredo ("furna escura"), mas agora sua alma não suporta mais a amargura. Para ilustrar essa liberação violenta de raiva e dor, ele utiliza a metáfora de um vulcão que se abre, indicando que o que estava guardado virá à tona de forma destrutiva e incontrolável.

02 – Na segunda estrofe, como o eu lírico descreve a passagem do tempo e de que maneira esses anos afetarão o interlocutor (a pessoa a quem o poema é dirigido)?

      O eu lírico descreve o tempo como um período doloroso de duas décadas marcado por "silêncio", "tortura", "agonia" e "solidão". Esse acúmulo de sofrimento não desapareceu; pelo contrário, transformou-se em "torrentes de cólera e loucura". Esses sentimentos represados afetarão o interlocutor de forma punitiva e avassaladora, pois "ferverão" sobre a sua cabeça, caindo como um castigo tarde, mas implacável.

03 – No início da terceira estrofe, o eu lírico amaldiçoa o interlocutor "pelo mal que fizeste sem querer". Como esse trecho humaniza e complexifica a relação entre os dois?

      Ao dizer que o mal foi feito "sem querer", o eu lírico reconhece que o interlocutor pode não ter tido a intenção deliberada de machucá-lo ou de destruir seus sonhos. Isso complexifica a relação porque mostra que a dor do eu lírico não decorre necessariamente de uma maldade cruel ou de uma vilania consciente, mas talvez de uma rejeição, de um desencontro ou da incapacidade do outro de corresponder ao amor esperado. Mesmo sabendo da falta de intenção, o eu lírico não consegue aplacar seu rancor, o que torna o poema ainda mais trágico.

04 – O sofrimento do eu lírico não se limita ao que aconteceu no passado, mas se estende ao que ele se tornou. Com base nos dois últimos versos, explique o duplo motivo de sua amargura atual.

      O duplo motivo de sua amargura reside no contraste entre a realidade presente e o potencial perdido do passado. Primeiro, ele sofre pela "tristeza do que eu tenho sido", ou seja, pela sua condição atual de alguém amargurado, cansado e solitário. Segundo, e de forma ainda mais dolorosa, ele lamenta pelo "esplendor do que eu deixei de ser", que representa a vida brilhante, feliz e realizada que ele poderia ter tido se os seus ideais e o seu amor não tivessem sido destruídos.

05 – O poema utiliza intensamente o recurso da anáfora (repetição de uma palavra ou expressão no início de vários versos) nas duas últimas estrofes. Identifique essa repetição e explique o efeito de sentido que ela causa no texto.

      A anáfora ocorre com a repetição da palavra "Pelo" / "Pela" / "Pelas" no início de quase todos os versos da terceira e da quarta estrofes (ex.: "Pelo ideal perdido", "Pelo mal", "Pelo amor", "Pelas horas"). O efeito de sentido dessa repetição é o de criar uma lista cumulativa de motivos para a maldição. Ela funciona como uma contagem obsessiva dos danos sofridos, aumentando o ritmo dramático e a musicalidade do poema, como se o eu lírico estivesse jogando na cara do interlocutor, um a um, todos os seus sacrifícios e frustrações.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

POEMA: BLUSA FÁTUA - MAIAKÓVSKI - TRADUÇÃO AUGUSTO DE CAMPOS - COM GABARITO

 Poema: BLUSA FÁTUA

 

Costurarei calças pretas

com o veludo da minha garganta

e uma blusa amarela com três metros de poente.

Pela Niévski do mundo, como criança grande,

andarei, donjuan, com ar de dândi.

 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiDz9q1DkljHx65bLcaJUJYGVzUE9M3-kSbRsReIPWnARoHZRorgK7IEruT9laAbQbEFEqdOcNkuvt8Pd-hb1_rRMkcHiiR8qLQbMAAsVGBA_fdM4bjJgMrx6TGo5uKrYBfWKxQFEQHgxtxlcd0-zD6JbA677w4YbmDEi9zjSMLbzQzJcN-ksfcOpnvELw/s1600/BLUSA.jpg

Que a terra gema em sua mole indolência:

“Não viole o verde de as minhas primaveras!”

Mostrando os dentes, rirei ao sol com insolência:

“No asfalto liso hei de rolar as rimas veras!”

 

Não sei se é porque o céu é azul celeste

e a terra, amante, me estende as mãos ardentes

que eu faço versos alegres como marionetes

e afiados e precisos como palitar dentes!

 

Fêmeas, gamadas em minha carne, e esta

garota que me olha com amor de gêmea,

cubram-me de sorrisos, que eu, poeta,

com flores os bordarei na blusa cor de gema!

 

Maiakóvski – tradução: Augusto de Campos.

 

Entendendo o poema: 

01 – Que roupas o eu lírico imagina costurar para si na primeira estrofe e de quais elementos inusitados elas seriam feitas?

      O eu lírico imagina confeccionar calças pretas feitas com o "veludo de sua própria garganta" (uma metáfora ligada à sua voz e poesia) e uma blusa amarela feita com "três metros de poente" (utilizando a luz e a cor do entardecer como tecido).

02 – Qual é a atitude do eu lírico ao caminhar pela "Niévski do mundo" e como ele se autodefine nesse trecho?

      Ele caminha de forma provocadora, vaidosa e desafiadora. O eu lírico se autodefine como uma "criança grande", mas também como um "donjuan" e um "dândi" (um homem requintado, que se preocupa excessivamente com a elegância e a postura urbana), cruzando a Avenida Niévski — a famosa e movimentada avenida de São Petersburgo — que aqui ganha uma dimensão universal ("Niévski do mundo").

03 – Como o eu lírico reage ao apelo da Terra para que ele não viole o "verde de suas primaveras"?

      Ele reage com deboche, insolência e total desprezo pelo tradicionalismo romântico da natureza. Mostrando os dentes e rindo do sol, ele afirma com arrogância que prefere a modernidade urbana: "No asfalto liso hei de rolar as rimas veras!", preferindo a crueza da cidade e da rua para fazer sua poesia real (rimas veras).

04 – Quais são as duas características marcantes que o eu lírico atribui aos seus próprios versos na terceira estrofe?

      Ele define seus versos através de duas comparações muito distintas: primeiro, diz que são "alegres como marionetes", trazendo uma leveza teatral e lúdica; segundo, afirma que são "afiados e precisos como palitar dentes", mostrando o caráter cortante, cirúrgico, cotidiano e sem frescuras de sua poesia.

05 – Na última estrofe, o que o poeta promete fazer com os sorrisos das mulheres que são atraídas por ele?

      O eu lírico pede que as mulheres ("fêmeas, gamadas" em sua carne) e a garota que o olha com amor o cubram de sorrisos. Ele promete receber esses sorrisos e, na sua função de poeta, "bordá-los" com flores em sua blusa cor de gema (a blusa amarela mencionada no início do poema).

 

 

terça-feira, 7 de julho de 2026

CONTO: ALGO RÓI DENTRO DO PEITO - PARTE FINAL - DAVID GONÇALVES - COM GABARITO

 Conto: Algo rói dentro do peito – parte final

          David Gonçalves

Parte V

        Vinte anos se passaram. Para ela, entretanto, o tempo não andara. Estava arcada, cabelos ralos, brancos e encardidos. Na verdade, desde o acontecido, nunca mais se olhara no espelho. No menino, jamais tocou no assunto.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjqr5nE31c895jL1R2Jj9P4n_5vsJ5t-HPz-1MTkaYIiZUQ7FlnNsS5nIIgI8m1L1ZSVLz9sY7IaMDhwERFAC7Q_v-ApX8G-sarbLjuYx8OtlWt9TgmV9x7JBqoXQ5qAVfdl0D36oZVgpf-JwsbVArJAJtKcqfWSICpM2fd-g6di82L3p-TyNLAb909Mbc/s320/dAVID.jpg


        O progresso do garimpo se findara. Restava do cabaré apenas duas ou três mulheres emperebadas com varizes. Os homens que permaneceram na vila estavam velhos e fracos e muitos deles passavam fome ou estavam condenados. Andreza ganhara muito dinheiro, mas estava velha também. Não tinha mais coragem para ir atrás de outro garimpo.

        -- Bananeira que já deu cacho... É daqui para o cemitério... – dizia, enfarada, olhando a decadência do casario.

        Tomázia quase nem comia. Quedava-se alheia a tudo. E pouco dormia. O garimpeiro surdo-mudo morrera há anos numa briga. Um pastor de uma nova igreja quis levá-la, mas Andreza se enfureceu. Ora, só faltava surrupiar-lhe quem cuidava de tudo! O pastor se esquivou e nunca mais apareceu.

        Certo dia, quando o sol se punha amarelo sobre o casario decadente, subiu rua acima um jovem bem trajado. Parava de casa em casa e perguntava por uma mulher chamada Deolinda. Queria descobrir o paradeiro de sua mãe, que desde pequeno não a via, e sequer se lembrava de suas feições. Não teria sossego na vida enquanto não a encontrasse. Parava nas casas e conversava pacientemente, como se estivesse garimpando ouro no meio do cascalho.

        Bateu à porta do cabaré decaído.

        -- Tem um moço aí fora... – disse uma das mulheres que ainda faziam ponto. – Ele quer por quer conversar com a madame.

        Andreza, arrastando as pernas gordas, foi até à porta:

        -- O que quer?

        O moço tirou o chapéu e, de olhos baixos, foi dizendo timidamente:

        -- Estou à procura de uma mulher, minha mãe, desaparecida...

        E tirou do bolso uma fotografia amarelada.

        -- A senhora pode me informar se já viu esta mulher?

        Andreza olhou a fotografia, depois o moço, reconheceu Deolinda quando jovem, voltou a examinar a foto atentamente.

        -- Sabe, moço, muita gente passa por um garimpo. Mas não me lembro de ter visto esta criatura...

        Os olhos do moço se umedeceram. Neste momento, passou por eles Tomázia – arcada, muito magra, cabelos brancos e encardidos, despenteada, como um fantasma. Empunhava uma vassoura e varria a calçada de pedras. Parecia mais velha do que nunca.

        -- Bem, senhora, eu não descansarei enquanto não encontrá-la... É um vazio muito grande que me rói...   

        -- Sinceramente, moço, não sei como ajudá-lo...

        -- De qualquer forma, agradeço. Até mais ver!

        E lá se foi o moço estranho rua abaixo: desolado, triste, numa procura incansável, com um bicho roendo o peito.

        Naquela noite, Tomázia morreu. Sem barulho, quieta, alheia a tudo, como vivera grande parte de sua vida. O caixão de madeirame bruto pesava mais do que o seu corpo enrijecido. Era um fiapo parecido com um barbante.

 

David Gonçalves. Conto Algo rói dentro do peito – parte final.

 

Entendendo o conto:

01 – Como o autor descreve a situação física e psicológica de Tomázia após a passagem de vinte anos?

      Fisicamente, Tomázia estava arcada, extremamente magra, com cabelos brancos, ralos e encardidos — assemelhando-se a um "fantasma" ou a um "fiapo". Psicologicamente, ela estava alheia a tudo, quase não comia, mal dormia e, desde "o acontecido" no passado, nunca mais havia se olhado no espelho.

02 – Qual era o estado do garimpo e do cabaré de Andreza após duas décadas?

      O progresso do garimpo havia chegado ao fim, mergulhando a vila em total decadência. Do cabaré de Andreza restavam apenas duas ou três mulheres doentes e com varizes. Os homens que permaneceram ali estavam velhos, fracos, muitos passando fome ou condenados. A própria Andreza, apesar de ter ganhado muito dinheiro, envelheceu e perdeu as forças para migrar para outro garimpo.

03 – O que a expressão de Andreza — “Bananeira que já deu cacho... É daqui para o cemitério...” — revela sobre sua visão de mundo?

      A frase revela um profundo sentimento de desalento, enfado e resignação diante do inevitável. Andreza reconhece que tanto ela quanto o lugar atingiram o ápice de sua utilidade e vitalidade no passado e que agora, na velhice e na decadência do casario, restava apenas esperar pelo fim da vida.

04 – Qual era o objetivo do jovem bem trajado que subiu a rua da vila e como ele realizava a sua busca?

      O jovem procurava por sua mãe desaparecida, uma mulher chamada Deolinda, de quem ele não se lembrava das feições por ter sido separado dela quando era muito pequeno. Ele realizava sua busca parando de casa em casa e conversando pacientemente com as pessoas, uma atitude que o narrador compara ao ato de "garimpar ouro no meio do cascalho".

05 – Que atitude Andreza toma ao ver a fotografia amarelada trazida pelo jovem e o que essa escolha demonstra?

      Ao olhar a fotografia amarelada, Andreza reconhece imediatamente que se trata de Deolinda quando jovem. No entanto, ela decide mentir para o rapaz, afirmando que muita gente passa por um garimpo e que não se lembrava de ter visto aquela criatura. Essa atitude demonstra a crueldade ou o egoísmo de Andreza em manter o segredo e não revelar que Deolinda, agora chamada Tomázia, estava bem ali na frente dele.

06 – Que ironia dramática acontece na cena em que o jovem conversa com Andreza na porta do cabaré?

      A grande ironia dramática é que, enquanto o jovem chora e relata o "vazio muito grande que lhe rói" por não encontrar a mãe, a própria mãe (Tomázia/Deolinda) passa bem ao lado deles, envelhecida, segurando uma vassoura e varrendo a calçada. Devido ao tempo e à degradação física de Tomázia, nem o filho a reconhece, nem ela, em seu estado de alienação, percebe quem é o rapaz.

07 – O que acontece com Tomázia na mesma noite do encontro e como o título do conto se conecta ao destino dos personagens?

      Naquela mesma noite, Tomázia falece de forma silenciosa, quieta e isolada, terminando a vida tão magra que seu corpo pesava menos que o caixão de madeira bruta. O título "Algo rói dentro do peito" se conecta perfeitamente ao desfecho: representa a dor incurável da mãe que silenciou seu passado, o sofrimento do filho que continuará sua busca incansável com "um bicho roendo o peito" e o terrível remorso ou segredo que corrói aquele ambiente decaído.