quarta-feira, 8 de julho de 2026

CONTO: A FILHA DELE - URDA ALICE KLUEGER - COM GABARITO

 Conto: A filha dele

          Urda Alice Klueger

 

        O ano, já não sei. Foi no ano em que foi fundado o Jornal Brasil de Fato, e o lançamento do mesmo aconteceu no Auditório Araújo Viana, lá em Porto Alegre, durante o Fórum Social Mundial, e o mesmo estava totalmente lotado, três ou quatro mil pessoas ocupando cada espacinho possível, e o palco iluminado lá na frente, com uma longa mesa repleta de celebridades que, cada uma por sua vez, levantou-se e, de pé, diante de um microfone suspenso, falou da importância daquele jornal estar nascendo e da importância de tantas coisas neste mundo que todos nós acreditávamos que poderia ser melhor. Íamos de emoção em emoção, aplaudindo cada celebridade daquelas, sem estarmos, de fato, preparados, para o que viria abalar com a maior força de todas os nossos corações – e já não lembro quem tudo ali levantou e falou, mas lá estavam Sebastião Salgado, e Eduardo Galeano, e a Madre Hebe de Bonafini, vinda diretamente da sua Plaza de Mayo com a carga dos seus filhos mortos pela ditadura argentina, e todos tinham sua história de lutas e de resistência, e todos da longa mesa falaram o que iriam falar ... até que, lá na mesa, restaram apenas duas pessoas, uma mulher e um homem.

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        Até hoje não sei quem era aquele homem, pois ele foi o último a falar, e quando o fez, a emoção apaixonada que tomara conta de todas aquelas milhares de pessoas um pouco antes fez com que nenhum de nós prestasse atenção a ele – e não há que se dizer que havia ali tantos milhares de mal-educados, por terem feito tal coisa com aquele homem que ficara para o final, mas já conto o que aconteceu, e penso que não haverá quem não nos absolverá.

        A penúltima pessoa a falar, portanto, era uma mulher. Teria cerca de 40 anos, era clara, um pouco loira, muito bonita, com um jeito de doçura e amplidão que a gente costuma imaginar nas mães, um pouco cheinha dentro de um simples vestido florido que lhe dava um jeito de primavera, e como eu, penso que quase a totalidade daquele grande público não fazia ideia de quem ela poderia ser. No seu jeito bonito e seguro, suave e doce, ela caminhou até o microfone suspenso, e com grande simplicidade, falou para todos nós:

        -- A última vez em que eu vi o meu pai, eu tinha cinco anos...”

        Enquanto ela tomava fôlego para continuar a sua fala, um silêncio de pedra caiu no grande auditório, e penso que, como eu, cada um de nós fazia uma rápida conferência das suas memórias, olhando incredulamente para aquela linda mulher e comparando a sua imagem com outras imagens conhecidas, fotos famosas em todo o mundo, de um homem tão lindo por fora quanto por dentro, imortalizado pelas lentes de Alberto Korda e de outros, e penso que, como aconteceu em mim, ao mesmo tempo aconteceu com todo o mundo, e houve aquele instante em que “caiu a ficha”, e antes que a mulher pudesse continuar a sua fala, o silêncio de pedra espocou nos mais vibrantes aplausos que já ouvi em minha vida, como fogos de artifício na beira do mar em noites de Ano Novo, e aquele imenso público foi tomado por tal intensidade de amor por aquela mulher que ficara ali sentada um tempão, incógnita e bonita no seu vestido simples e florido, que já nada mais se ouviu do que ela tentou falar.

        Diante de nós, em carne e osso, estava Aleida Guevara, a filha do Che, e penso que muita gente fez o que eu fiz: obedecendo ao coração, sem pensar em mais nada, saí às cegas, descendo as altas arquibancadas em direção ao palco, disparando o flash da minha pobre máquina fotográfica até o fim, tentando fixar de alguma forma aquele momento para sempre.

        Havia um fosso de segurança, separando o palco das enormes arquibancadas, e com centenas de outras pessoas, eu encalhei ali, e os guardas que eram encarregados de manter a ordem naquele lugar sorriam-nos com simpatia e nos entendiam, porque também eles estavam encantados e apaixonados, pois um dia houvera um homem que nos dava o direito de sermos todos irmãos, e havia tal fraternidade ali, por conta daquela mulher de vestido florido que nos trazia, muito próxima, a presença do Che, que em nenhum outro momento da minha vida eu me lembro de ter vivido coisa igual.

        Foi por conta de Aleida Guevara que não ficamos sabendo quem era o último homem que falou, mas penso que não faz mal – ele deve ter entendido que há forças que são maiores que todas as outras.

        Então, o evento acabou, e milhares de pessoas foram saindo dali, mas algumas centenas ficaram, e os guardas não podiam nos liberar para irmos até ela, mas, irmãos como agora éramos, entregávamos a eles nossas máquinas fotográficas para que a fotografassem mais de perto para nós – e então fez ela sinal para que nós nos aproximássemos, e os seguranças ajudaram a nos organizar em fila. 

        Aleida Guevara, linda, serena e doce, aconchegante como uma mãe dentro do seu vestido colorido, ficou ali naquele lugar até que o último de nós pudesse trocar uma palavra com ela, pegar seu autógrafo, pousar para uma foto ao seu lado. Ela tinha a compreensão das coisas incompreensíveis – ela nos entendia. Foi uma noite para nunca mais esquecer. Tenho a foto daquele dia pendurada na parede da sala da minha casa.

        Vi-a, de novo, dois ou três anos depois, em Caracas, no Fórum Social Mundial, e o amor que ela suscitava era o mesmo. Hoje faz 40 anos que assassinaram o seu pai. Não podia deixar de contar esta história.

 

Conto: A filha dele. Urda Alice Klueger.

Entendendo o conto:

01 – Em qual evento e local histórico se passa a narrativa descrita pela autora?

      A história se passa em Porto Alegre, no Auditório Araújo Viana completamente lotado (com três ou quatro mil pessoas), durante o Fórum Social Mundial. O momento exato era o lançamento do jornal Brasil de Fato.

02 – Quem eram algumas das celebridades internacionais que compunham a mesa antes da revelação principal do conto?

      A longa mesa do palco contava com grandes nomes da luta e da resistência internacional, como o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, o escritor uruguaio Eduardo Galeano e a ativista argentina Hebe de Bonafini (líder e fundadora da Associação das Mães da Praça de Maio).

03 – Como o público reagiu no exato momento em que a penúltima palestrante revelou sua identidade indiretamente?

      Logo após a mulher dizer a frase: “A última vez em que eu vi o meu pai, eu tinha cinco anos...”, um "silêncio de pedra" caiu no auditório enquanto o público conectava aquela imagem às fotos históricas de Ernesto Che Guevara. Assim que a "ficha caiu", o silêncio explodiu nos aplausos mais vibrantes que a autora já ouviu na vida, tomados por uma imensa onda de amor coletivo.

04 – Por que a autora afirma que o público "não foi mal-educado" com o último homem que ficou para falar na mesa?

      A autora justifica e absolve o público porque a revelação de que a mulher era Aleida Guevara, filha do revolucionário Che Guevara, gerou uma comoção apaixonada e um alvoroço tão gigantescos que se tornou impossível prestar atenção em qualquer outra coisa. A autora complementa dizendo que o próprio palestrante deve ter entendido que "há forças que são maiores que todas as outras".

05 – Que atitude de fraternidade os guardas de segurança e a própria Aleida Guevara demonstraram após o encerramento do evento?

      Os guardas demonstraram total empatia e simpatia pelo público; eles chegaram a pegar as máquinas fotográficas das pessoas para tirar fotos mais de perto e ajudaram a organizar uma fila quando Aleida fez sinal para o povo se aproximar. Aleida, por sua vez, demonstrou extrema doçura e paciência, permanecendo no local até que a última pessoa pudesse pegar um autógrafo, conversar ou tirar uma foto ao seu lado.

 

 

 

VOZES VERBAIS - CONCEITO - ATIVIDADES - COM GABARITO

 Vozes Verbais

         O conceito de voz verbal está relacionado com critérios semânticos, ou seja, para determinar a voz é necessário saber quem realiza a ação verbal: se o sujeito (caso de voz ativa) ou se o agente da passiva (caso de voz passiva). 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhG7ZSECrXCMVMiPirmVmurDNx6e1l8_CGglVUkbg-aBTH3LLh-yp5Xu2NXZdAsfdvCfyodsg9HCVgtkb9d21fNaB2evbeOtZiUd5uAAM8tzkcLyknaBYO4rdbqMJAdkBQ8FqSdJRX5hM3-IgTYyn3wSZICELEGewvSK1eCgV9RM28Yqsp1xo5sfMDdXcY/s320/images.jpg


        Voz ativa

Ex. Meu pai leu o jornal.

(Meu pai é o sujeito agente – aquele que faz a ação – ler o jornal.)

        Voz passiva

Ex. O jornal foi lido pelo meu pai.

(O jornal é Sujeito paciente – aquele que recebeu a ação – nesse caso, a ação é produzida pelo agente da passiva que é meu pai.)

        Voz passiva analítica – é formada com o auxílio de um verbo auxiliar conjugado seguido de um verbo transitivo direto ou transitivo direto e indireto no particípio.

Ex. Esta questão foi anulada pela banca examinadora.

        Voz passiva sintética – é formada com um verbo transitivo direto ou transitivo direto e indireto na 3a. pessoa do singular ou plural + pronome apassivador se.

Ex. Anulou-se a questão.

(verbo na 3a. pessoa do singular + Partícula apassivadora)

        Voz reflexiva

Ex. Meu pai barbeou-se pela manhã.

(Meu pai é sujeito agente, mas também paciente, pois faz a ação de barbear-se e ficar barbeado.)

        Voz reflexiva recíproca

Ex. Os meus pais beijaram-se amorosamente.

(Os meus pais produziram a ação mutuamente. Nesse caso, o pronome oblíquo se equivale a um ao outro.)

        Agente da passiva é o termo que, na voz passiva analítica, pratica a ação expressa pelo verbo. É um termo obrigatoriamente regido por preposição.

Ex. Muitos livros foram doados pela população.

(Muitos livros – sujeito paciente. A população – agente da passiva.)

 

Exercícios:


01 – Indique se a ação verbal esta na voz ativa, passiva, reflexiva ou reflexiva recíproca:

a. A queda das bolsas fora prevista pelo analista.

      Passiva analítica.

b. Os torcedores ofendiam-se grosseiramente.

      Reflexiva recíproca.

c. O assaltante escondia-se atrás da árvore.

      Reflexiva.

d. Os alunos resolviam as questões com muita facilidade.

      Ativa.

e. Uma bala perdida atingiu uma pobre criança.

      Ativa.

f. A bailarina pintava-se entre um e outro espetáculo.

      Reflexiva.

g. As gavetas foram reviradas pelos ladrões.

      Passiva analítica.

h. Os adversários agrediam-se violentamente.

      Reflexiva recíproca.

i. Já não se fazem filmes como antigamente. 

      Passiva sintética.

j. Essas piadas já forma contadas muitas vezes.

      Passiva analítica.


02 – (UPM - SP) Assinale a alternativa em que há agente da passiva.

a) Nós seremos julgados pelos nossos atos.

b) Olha esta terra toda que se habita dessa gente sem lei, quase infinita.

c) Agradeço-lhe pelo livro.

d) Ouvi a notícia pelo rádio.

e) Por mim, você pode ficar.

 

03 – Assinale a opção em que o termo em destaque tem a função de agente da passiva.

a. A casa foi alugada para os estudantes.

b. Os móveis e as casas foram levados pela correnteza.

c. Seriam cantadas novas canções.

d. Comprei meu jeans favorito pela metade do preço.

e. O grupo de jovens voltou para casa pelo caminho mais longo.



 

POEMA: MALDIÇÃO - OLAVO BILAC - COM GABARITO

 Poema: Maldição 

           Olavo Bilac


Se por vinte anos, nesta furna escura, 

Deixei dormir a minha maldição, 

_ Hoje, velha e cansada da amargura, 

Minha alma se abrirá como um vulcão. 

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhZ1SrogusCOrnp7_HsnS_6sVSQ3IoEwer-9cxvgBxjbXv7uAgHICJnV1NEVtCgjG4NKVPaLfAKds0D2IuXGBhEiHSIPXyMVfHzhVJQhBcMbvI3birxMV_zaJvbKc2uEA2PgkGZQSX-zYUBoAOLqpXRHTRg69cbkSgnSBtV2Zi5UHvUWTEkmjpo_uMVBp8/s320/MALDI%C3%87%C3%83O.jpg
 


E, em torrentes de cólera e loucura,

Sobre a tua cabeça ferverão

Vinte anos de silêncio e de tortura,

Vinte anos de agonia e solidão...


Maldita sejas pelo ideal perdido!

Pelo mal que fizeste sem querer!

Pelo amor que morreu sem ter nascido!


Pelas horas vividas sem prazer!

Pela tristeza do que eu tenho sido!

Pelo esplendor do que eu deixei de ser!...

Olavo Bilac. Poema Maldição.

 

Entendendo o poema:

01 – A primeira estrofe do poema introduz uma mudança drástica no estado de espírito do eu lírico. Explique que mudança é essa e qual metáfora da natureza é utilizada para ilustrá-la.

      A mudança consiste na transição de um longo período de repressão e silêncio emocional para uma explosão violenta de sentimentos guardados. O eu lírico passou vinte anos contendo sua "maldição" em segredo ("furna escura"), mas agora sua alma não suporta mais a amargura. Para ilustrar essa liberação violenta de raiva e dor, ele utiliza a metáfora de um vulcão que se abre, indicando que o que estava guardado virá à tona de forma destrutiva e incontrolável.

02 – Na segunda estrofe, como o eu lírico descreve a passagem do tempo e de que maneira esses anos afetarão o interlocutor (a pessoa a quem o poema é dirigido)?

      O eu lírico descreve o tempo como um período doloroso de duas décadas marcado por "silêncio", "tortura", "agonia" e "solidão". Esse acúmulo de sofrimento não desapareceu; pelo contrário, transformou-se em "torrentes de cólera e loucura". Esses sentimentos represados afetarão o interlocutor de forma punitiva e avassaladora, pois "ferverão" sobre a sua cabeça, caindo como um castigo tarde, mas implacável.

03 – No início da terceira estrofe, o eu lírico amaldiçoa o interlocutor "pelo mal que fizeste sem querer". Como esse trecho humaniza e complexifica a relação entre os dois?

      Ao dizer que o mal foi feito "sem querer", o eu lírico reconhece que o interlocutor pode não ter tido a intenção deliberada de machucá-lo ou de destruir seus sonhos. Isso complexifica a relação porque mostra que a dor do eu lírico não decorre necessariamente de uma maldade cruel ou de uma vilania consciente, mas talvez de uma rejeição, de um desencontro ou da incapacidade do outro de corresponder ao amor esperado. Mesmo sabendo da falta de intenção, o eu lírico não consegue aplacar seu rancor, o que torna o poema ainda mais trágico.

04 – O sofrimento do eu lírico não se limita ao que aconteceu no passado, mas se estende ao que ele se tornou. Com base nos dois últimos versos, explique o duplo motivo de sua amargura atual.

      O duplo motivo de sua amargura reside no contraste entre a realidade presente e o potencial perdido do passado. Primeiro, ele sofre pela "tristeza do que eu tenho sido", ou seja, pela sua condição atual de alguém amargurado, cansado e solitário. Segundo, e de forma ainda mais dolorosa, ele lamenta pelo "esplendor do que eu deixei de ser", que representa a vida brilhante, feliz e realizada que ele poderia ter tido se os seus ideais e o seu amor não tivessem sido destruídos.

05 – O poema utiliza intensamente o recurso da anáfora (repetição de uma palavra ou expressão no início de vários versos) nas duas últimas estrofes. Identifique essa repetição e explique o efeito de sentido que ela causa no texto.

      A anáfora ocorre com a repetição da palavra "Pelo" / "Pela" / "Pelas" no início de quase todos os versos da terceira e da quarta estrofes (ex.: "Pelo ideal perdido", "Pelo mal", "Pelo amor", "Pelas horas"). O efeito de sentido dessa repetição é o de criar uma lista cumulativa de motivos para a maldição. Ela funciona como uma contagem obsessiva dos danos sofridos, aumentando o ritmo dramático e a musicalidade do poema, como se o eu lírico estivesse jogando na cara do interlocutor, um a um, todos os seus sacrifícios e frustrações.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

POEMA: BLUSA FÁTUA - MAIAKÓVSKI - TRADUÇÃO AUGUSTO DE CAMPOS - COM GABARITO

 Poema: BLUSA FÁTUA

 

Costurarei calças pretas

com o veludo da minha garganta

e uma blusa amarela com três metros de poente.

Pela Niévski do mundo, como criança grande,

andarei, donjuan, com ar de dândi.

 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiDz9q1DkljHx65bLcaJUJYGVzUE9M3-kSbRsReIPWnARoHZRorgK7IEruT9laAbQbEFEqdOcNkuvt8Pd-hb1_rRMkcHiiR8qLQbMAAsVGBA_fdM4bjJgMrx6TGo5uKrYBfWKxQFEQHgxtxlcd0-zD6JbA677w4YbmDEi9zjSMLbzQzJcN-ksfcOpnvELw/s1600/BLUSA.jpg

Que a terra gema em sua mole indolência:

“Não viole o verde de as minhas primaveras!”

Mostrando os dentes, rirei ao sol com insolência:

“No asfalto liso hei de rolar as rimas veras!”

 

Não sei se é porque o céu é azul celeste

e a terra, amante, me estende as mãos ardentes

que eu faço versos alegres como marionetes

e afiados e precisos como palitar dentes!

 

Fêmeas, gamadas em minha carne, e esta

garota que me olha com amor de gêmea,

cubram-me de sorrisos, que eu, poeta,

com flores os bordarei na blusa cor de gema!

 

Maiakóvski – tradução: Augusto de Campos.

 

Entendendo o poema: 

01 – Que roupas o eu lírico imagina costurar para si na primeira estrofe e de quais elementos inusitados elas seriam feitas?

      O eu lírico imagina confeccionar calças pretas feitas com o "veludo de sua própria garganta" (uma metáfora ligada à sua voz e poesia) e uma blusa amarela feita com "três metros de poente" (utilizando a luz e a cor do entardecer como tecido).

02 – Qual é a atitude do eu lírico ao caminhar pela "Niévski do mundo" e como ele se autodefine nesse trecho?

      Ele caminha de forma provocadora, vaidosa e desafiadora. O eu lírico se autodefine como uma "criança grande", mas também como um "donjuan" e um "dândi" (um homem requintado, que se preocupa excessivamente com a elegância e a postura urbana), cruzando a Avenida Niévski — a famosa e movimentada avenida de São Petersburgo — que aqui ganha uma dimensão universal ("Niévski do mundo").

03 – Como o eu lírico reage ao apelo da Terra para que ele não viole o "verde de suas primaveras"?

      Ele reage com deboche, insolência e total desprezo pelo tradicionalismo romântico da natureza. Mostrando os dentes e rindo do sol, ele afirma com arrogância que prefere a modernidade urbana: "No asfalto liso hei de rolar as rimas veras!", preferindo a crueza da cidade e da rua para fazer sua poesia real (rimas veras).

04 – Quais são as duas características marcantes que o eu lírico atribui aos seus próprios versos na terceira estrofe?

      Ele define seus versos através de duas comparações muito distintas: primeiro, diz que são "alegres como marionetes", trazendo uma leveza teatral e lúdica; segundo, afirma que são "afiados e precisos como palitar dentes", mostrando o caráter cortante, cirúrgico, cotidiano e sem frescuras de sua poesia.

05 – Na última estrofe, o que o poeta promete fazer com os sorrisos das mulheres que são atraídas por ele?

      O eu lírico pede que as mulheres ("fêmeas, gamadas" em sua carne) e a garota que o olha com amor o cubram de sorrisos. Ele promete receber esses sorrisos e, na sua função de poeta, "bordá-los" com flores em sua blusa cor de gema (a blusa amarela mencionada no início do poema).

 

 

terça-feira, 7 de julho de 2026

CONTO: ALGO RÓI DENTRO DO PEITO - PARTE FINAL - DAVID GONÇALVES - COM GABARITO

 Conto: Algo rói dentro do peito – parte final

          David Gonçalves

Parte V

        Vinte anos se passaram. Para ela, entretanto, o tempo não andara. Estava arcada, cabelos ralos, brancos e encardidos. Na verdade, desde o acontecido, nunca mais se olhara no espelho. No menino, jamais tocou no assunto.

 Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjqr5nE31c895jL1R2Jj9P4n_5vsJ5t-HPz-1MTkaYIiZUQ7FlnNsS5nIIgI8m1L1ZSVLz9sY7IaMDhwERFAC7Q_v-ApX8G-sarbLjuYx8OtlWt9TgmV9x7JBqoXQ5qAVfdl0D36oZVgpf-JwsbVArJAJtKcqfWSICpM2fd-g6di82L3p-TyNLAb909Mbc/s320/dAVID.jpg


        O progresso do garimpo se findara. Restava do cabaré apenas duas ou três mulheres emperebadas com varizes. Os homens que permaneceram na vila estavam velhos e fracos e muitos deles passavam fome ou estavam condenados. Andreza ganhara muito dinheiro, mas estava velha também. Não tinha mais coragem para ir atrás de outro garimpo.

        -- Bananeira que já deu cacho... É daqui para o cemitério... – dizia, enfarada, olhando a decadência do casario.

        Tomázia quase nem comia. Quedava-se alheia a tudo. E pouco dormia. O garimpeiro surdo-mudo morrera há anos numa briga. Um pastor de uma nova igreja quis levá-la, mas Andreza se enfureceu. Ora, só faltava surrupiar-lhe quem cuidava de tudo! O pastor se esquivou e nunca mais apareceu.

        Certo dia, quando o sol se punha amarelo sobre o casario decadente, subiu rua acima um jovem bem trajado. Parava de casa em casa e perguntava por uma mulher chamada Deolinda. Queria descobrir o paradeiro de sua mãe, que desde pequeno não a via, e sequer se lembrava de suas feições. Não teria sossego na vida enquanto não a encontrasse. Parava nas casas e conversava pacientemente, como se estivesse garimpando ouro no meio do cascalho.

        Bateu à porta do cabaré decaído.

        -- Tem um moço aí fora... – disse uma das mulheres que ainda faziam ponto. – Ele quer por quer conversar com a madame.

        Andreza, arrastando as pernas gordas, foi até à porta:

        -- O que quer?

        O moço tirou o chapéu e, de olhos baixos, foi dizendo timidamente:

        -- Estou à procura de uma mulher, minha mãe, desaparecida...

        E tirou do bolso uma fotografia amarelada.

        -- A senhora pode me informar se já viu esta mulher?

        Andreza olhou a fotografia, depois o moço, reconheceu Deolinda quando jovem, voltou a examinar a foto atentamente.

        -- Sabe, moço, muita gente passa por um garimpo. Mas não me lembro de ter visto esta criatura...

        Os olhos do moço se umedeceram. Neste momento, passou por eles Tomázia – arcada, muito magra, cabelos brancos e encardidos, despenteada, como um fantasma. Empunhava uma vassoura e varria a calçada de pedras. Parecia mais velha do que nunca.

        -- Bem, senhora, eu não descansarei enquanto não encontrá-la... É um vazio muito grande que me rói...   

        -- Sinceramente, moço, não sei como ajudá-lo...

        -- De qualquer forma, agradeço. Até mais ver!

        E lá se foi o moço estranho rua abaixo: desolado, triste, numa procura incansável, com um bicho roendo o peito.

        Naquela noite, Tomázia morreu. Sem barulho, quieta, alheia a tudo, como vivera grande parte de sua vida. O caixão de madeirame bruto pesava mais do que o seu corpo enrijecido. Era um fiapo parecido com um barbante.

 

David Gonçalves. Conto Algo rói dentro do peito – parte final.

 

Entendendo o conto:

01 – Como o autor descreve a situação física e psicológica de Tomázia após a passagem de vinte anos?

      Fisicamente, Tomázia estava arcada, extremamente magra, com cabelos brancos, ralos e encardidos — assemelhando-se a um "fantasma" ou a um "fiapo". Psicologicamente, ela estava alheia a tudo, quase não comia, mal dormia e, desde "o acontecido" no passado, nunca mais havia se olhado no espelho.

02 – Qual era o estado do garimpo e do cabaré de Andreza após duas décadas?

      O progresso do garimpo havia chegado ao fim, mergulhando a vila em total decadência. Do cabaré de Andreza restavam apenas duas ou três mulheres doentes e com varizes. Os homens que permaneceram ali estavam velhos, fracos, muitos passando fome ou condenados. A própria Andreza, apesar de ter ganhado muito dinheiro, envelheceu e perdeu as forças para migrar para outro garimpo.

03 – O que a expressão de Andreza — “Bananeira que já deu cacho... É daqui para o cemitério...” — revela sobre sua visão de mundo?

      A frase revela um profundo sentimento de desalento, enfado e resignação diante do inevitável. Andreza reconhece que tanto ela quanto o lugar atingiram o ápice de sua utilidade e vitalidade no passado e que agora, na velhice e na decadência do casario, restava apenas esperar pelo fim da vida.

04 – Qual era o objetivo do jovem bem trajado que subiu a rua da vila e como ele realizava a sua busca?

      O jovem procurava por sua mãe desaparecida, uma mulher chamada Deolinda, de quem ele não se lembrava das feições por ter sido separado dela quando era muito pequeno. Ele realizava sua busca parando de casa em casa e conversando pacientemente com as pessoas, uma atitude que o narrador compara ao ato de "garimpar ouro no meio do cascalho".

05 – Que atitude Andreza toma ao ver a fotografia amarelada trazida pelo jovem e o que essa escolha demonstra?

      Ao olhar a fotografia amarelada, Andreza reconhece imediatamente que se trata de Deolinda quando jovem. No entanto, ela decide mentir para o rapaz, afirmando que muita gente passa por um garimpo e que não se lembrava de ter visto aquela criatura. Essa atitude demonstra a crueldade ou o egoísmo de Andreza em manter o segredo e não revelar que Deolinda, agora chamada Tomázia, estava bem ali na frente dele.

06 – Que ironia dramática acontece na cena em que o jovem conversa com Andreza na porta do cabaré?

      A grande ironia dramática é que, enquanto o jovem chora e relata o "vazio muito grande que lhe rói" por não encontrar a mãe, a própria mãe (Tomázia/Deolinda) passa bem ao lado deles, envelhecida, segurando uma vassoura e varrendo a calçada. Devido ao tempo e à degradação física de Tomázia, nem o filho a reconhece, nem ela, em seu estado de alienação, percebe quem é o rapaz.

07 – O que acontece com Tomázia na mesma noite do encontro e como o título do conto se conecta ao destino dos personagens?

      Naquela mesma noite, Tomázia falece de forma silenciosa, quieta e isolada, terminando a vida tão magra que seu corpo pesava menos que o caixão de madeira bruta. O título "Algo rói dentro do peito" se conecta perfeitamente ao desfecho: representa a dor incurável da mãe que silenciou seu passado, o sofrimento do filho que continuará sua busca incansável com "um bicho roendo o peito" e o terrível remorso ou segredo que corrói aquele ambiente decaído.

 

         

 

 

      

ROMANCE: SANGUE VERDE - PARTE 2 - DAVID GONÇALVES - COM GABARITO

 Romance: Sangue Verde – parte 2

         David Gonçalves

 

        Um garimpeiro, com mais de cinquenta anos, dizia com amargura alguns trechos de sua vida:

        — Se eu fosse jovem e forte, por Deus, não me enterraria aqui. Faria de tudo para partir. Isso é uma draga, chupa todas as forças. É ilusão pura. Não ficaria aqui chafurdando na lama, com gosto de barro na boca. Não mais colocaria minha vida numas poucas pepitas de ouro.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi1whD38gsFY0_vytsO3cilmthrxTB2FttmEvR9eKnp63lNEBIr7UMbhsdpBEaa6goBzPd3zijvktuH4eD8bCjEdPzl436sbs1DGNaQFhHKZyME3F5IBFyWhGoJzp6Szz34V-WvvQkDfutS_NrZOhtflwy8JDjHs_Pq4DgL5LBQuxYgf4eAiPv2THAu3nQ/s320/71QWYoL+z6L._UF1000,1000_QL80_.jpg


        — Velho de uma figa! Cale essa boca!

        — Deixe ele falar. Pelo menos, sua alma se torna mais leve – ordenou Doca mirando as sombras das lamparinas dançando nas paredes.

        — Essa conversa me dá nojo! – confessou outro garimpeiro.

        — O que não dá nojo nessa vida?

        O velho principiou novamente com sua voz cansada e alterada.

        — Joguei minha vida fora. Queria a fortuna!

        — Quem não a quer? Ninguém está por aqui por bonito. É o ouro! O resto não importa.

        — Que ilusão! O que tenho hoje? Reumatismo, perebas e cansaço. Meus braços, que eram fortes, podiam até nocautear um boi, só com um soco, e hoje já não aguentam os trancos. Mas vocês, vejo por essa febre que está em cada olhar, jamais me ouvirão. Estão neste garimpo como urubus numa carniça. Sei lá por que estou falando nessas coisas...

        — Não se tocam urubus de cima de uma carniça – disse Doca, enfarado. – Só quando não houver nenhum naco de carne podre. Mesmo depois de Serra Pelada ter virado um açude, um alagado, água jorrando como um rio, ainda tem gente que vai todo dia contemplar a grande lâmina d’água, ainda enfeitiçado, à espera do borbulho do ouro...

        Voltou a enxugar o suor no rosto.

        — Bem, pessoal, vou dar uns giros. Estou vertendo água. Alguém me acompanha?

        Ninguém mostrou-se interessado. O calor os deixava prostrados, como sacos inúteis. Então saiu barraco afora. A rua torta estava enlameada. Garimpeiros, nas portas de seus barracos, trocavam conversa mole. 

        Que noite tivera! Foi de arrasar. Gastara o pouco dinheiro com aquela mulher. Por isso, sentia-se novamente homem. E isso era tudo que podia sentir de bom. Caminhou sem rumo. De repente, alguém o interpelou no escuro. Era o estranho da noite anterior. O tal de Antônio Russo. Também caminhava absorto. Doca queria ficar só. Cumprimentou e saiu a passos largos, mas o outro o interpelou novamente. 

        — Sente fogo sob os pés?

        — Esse mormaço! 

        — Pensei que fosse na casa de madame Teresa. Parece que se deu bem ontem. 

        — Fiz o que pude.

        — Aquela mulher é de revirar as ventas!

        — Estou apressado. Quero estar só. 

        E desapareceu no escuro. De fato estava atordoado. Aquela mulher fizera estragos em seus sentimentos. Chovera o dia todo e, recostado na rede, enquanto os demais no barraco jogavam baralho, ele ardia em desejos. 

        Matildes, Matildes, Matildes!. Tinha bom corpo e voz macia. Os cabelos longos e pretos desciam-lhe sobre os ombros nus. Sem dúvida, caíra como mosca no mel. Estava se debatendo no melaço e, quanto mais se debatia, mais ficava preso. Queria a todo custo espantar a sua presença e seu cheiro adocicado, mas não conseguia. Ele não era menino bobo, que se engabelava por qualquer fêmea. Experiente, calejado pelo andar da vida, sabia livrar-se de rabo de saia. Não era tolo de amarrar o burro num único pau. 

        Um luar esmaecido subia sobre a floresta.

        GARIMPO — terra rica de gente pobre...

        Um pedaço no meio da Amazônia transformado em turbulento reduto de aventureiros.

        Com as notícias de riqueza fácil, toda a espécie de gente acorria desordenada como um formigueiro desfeito. Vinha tentar a sorte. Cada forasteiro, sem nada nos bolsos, se mostrava mais ganancioso do que o outro.

        Era uma massa de gente que não prestava, desbandeirada, sem pouso nem destino certo. Por toda parte, existia gente que não prestava, mas em menor proporção. Ali, a maioria não valia um níquel, numa ânsia de enriquecer de qualquer jeito. Na luta pela posse do ouro, a ambição cega atropelava. Homens cegos sedentos por ganhos rápidos.

        A maioria vinha só, sem mulher e filhos. Para que levar a família no meio da floresta? Logo, entretanto, a fome por sexo falava mais alto. Não havia mulheres para todos e isso causava pânico. Os homens se tornavam nervosos e inquietos, como se os corpos ardessem em chamas. Então, bebiam. Por qualquer palavra desentendida, as brigas, seguidas de mortes, explodiam. O pequeno cemitério crescia como um organismo vivo.

        Já se cogitava em fabricar caixões. Zeca Maranhão percebera a necessidade e, numa marcenaria improvisada, desenhava caixões grotescos e os construía com tábuas toscas. Mas os enterros, em sua grande parte, aconteciam em redes, que ninguém queria pagar as despesas do defunto.

        O bom negócio, a princípio, se revelava desastroso. Zeca Maranhão esperava por dias melhores. De uma coisa tinha certeza: as mortes sucediam-se irremediavelmente. Quanto mais os homens sentiam necessidade de sexo, mais eles se tornavam insuportáveis e brigões.

        Mulheres eram disputadas à força. A cada leva de mulheres que chegava no cabaré era motivo de ansiosas conversas e expectativas. Mesmo os que nada tinham e estavam roendo as unhas queriam entrar no cabaré para espiar as madames recém-chegadas. Em geral, mulheres maltratadas pela vida, com seios caídos e cinturas deformadas, deixando ver abertamente dobras de gordura e calombos de celulite. Bem vestidas, com maquiagem espessa, sob as luzes fracas e coloridas, elas se transformavam em princesas aos olhos dos garimpeiros. 

        Sob o sol escaldante, os comentários circulavam pejados de angústias e desejos, e todos desejavam bamburrar, mesmo que fosse porção pequena de ouro, para que pudessem pagar àquelas princesas.

        — Desta vez, só uma se salva... aquela morena alta, de quadris redondos, seios erguidos...

        Outro rebatia:

        — Pra mim, mano velho, qualquer uma serve. Quem não tem cão, caça com gato! Estou a matar cachorro a grito...

        — Por que não usa o cinco contra um? — pilheriava o companheiro, sorrindo abertamente. — Pelo menos, você se livra de doenças.

        — Ah, de boa consciência, quem aqui neste fim de mundo já não usou? Estou até com cabelos nas mãos!

        E todos riam. Os desejos, entretanto, aumentavam, afloravam, e deixavam os homens irascíveis.

        O Pastor achava-se dono daquela riqueza. Para entrar no formigueiro desordenado, cobrava das pessoas. Com isso, ele ganhava na entrada, na igreja, na venda dos produtos do armazém, na venda do ouro e na saída. Os devedores fugitivos eram perseguidos por caçadores de recompensas.

        E a primeira coisa que o garimpeiro faz, quando acha uma boa pepita, é comprar uma arma e andar com ela na cintura, debaixo da camisa, desconfiado até da própria sombra. Depois do comércio do ouro, o de armas é o que mais prospera. Tio Nico, a cada três meses, aporta por lá com uma mala recheada de pistolas, todas da Fronteira, onde não há lei alguma e o tráfico corre solto. Para entrar no garimpo, Tio Nico dá polpudas comissões ao Pastor.

        Ninguém está no garimpo para salvar o mundo. Todos desejam salvar a própria pele. 

        Há os que chegam e ainda trazem bons preceitos. A miséria os empurrou para este tipo de trabalho. Mas, com os dias se arrastando de forma selvagem, tudo passa. Dentro de algum tempo, compreendem que a vida não vale nada. Pois o que vale o homem? Exatamente o que ele tem nos bolsos.

        Levas de ambiciosos abandonavam suas terras distantes, reunindo apenas o indispensável para a viagem, e se dirigiam para o garimpo Boa Fortuna. Sem dinheiro para pagar o Pastor, eram despejados de volta, ou se arranchavam na ponta das ruelas, espalhando-se pelo formigueiro à procura de trabalho. Decepcionados, logo descobriam que o garimpo tinha donos, e um deles, sem dúvida, era o Pastor. Sem alternativas — os bolsos vazios, a fome rondando a cada dia, e a grande floresta como muralha, iam ficando, as ruelas cresciam, novos ranchos cobertos de buriti se ajuntavam. Viviam ao deus-dará, como podiam, com os seus cachorros magros e filhos carcomidos por vermes. 

        Garimpo — terra rica de gente pobre.

        NO POVOADO DESAPRUMADO havia uma meia-água tosca, com uma tabuleta pendente da porta, onde se lia “A FLUTARIA DU GARIMPU”, escrita a piche, as letras desengonçadas, fora do prumo. Mais pareciam bonecos desenhados por crianças.

        Havia chegado de barco uma carga de frutas, e o dono, um baiano, sabia que, naquele dia, não teria sossego. Frutas eram iguarias. No dia a dia, feijão, arroz, farofa e carne seca. Uma vez, a cada quinze dias, o barco trazia caixas de madeira com frutas – abacaxis, mangas, laranjas e tubérculos.

        — Tem abacaxi? — perguntou Doca, exausto, sujo de terra, no final da tarde, quando o sol se escondia na floresta feito uma bola de fogo.

        Zé do Coco picava fumo despreocupadamente, só de bermuda, nu da cintura para cima. Distraído, esmigalhava o fumo de corda com um canivete gasto de cabo de osso, lambendo a palha de milho para enrolar o cigarro.

        — Abacaxi, veio desta vez? — voltou a perguntar Doca. – Amanheci com as lombrigas atiçadas!

        Sonhara à noite com balaios lotados de abacaxis amarelos, cheirosos e suculentos. Revirava na rede. 

        — Lá vem o barco! – trabalhando na mina, ficava de olhos no rio, lembrando do sonho da noite. – Será que trouxe abacaxi?

        Era uma frutaria improvisada. Havia cachos de bananas pendurados, envolvidos por telas de nylon, para afastar os pássaros e os macacos famintos. Eram cachos raquíticos cultivados por ribeirinhos, ao longo do rio, ao deus--dará. Muitas vezes, apodreciam antes de madurar. Os ribeirinhos, antes de granar, vendiam, gananciosos. Protegidos por telas, os pássaros não conseguiam bicar, mas os macacos... Atacavam em bandos. Eram rápidos e ardilosos.

        — Tão aí, mininu!

        Em cima de uma banca de tábua suspensa por estaca, que também abrigava carás e mandioca já passados, os abacaxis espalhados, com parte da polpa apodrecida. O cheiro adocicado atiçava as abelhas, atiçando também a gula de Doca.

        — Tão aí, mininu, pode pegá, é deis real cada.

        Doca se assustou. 

        — Cada um?

        — Sim, mininu. Tá tudo muito caro. Vem di longi, ocê sabi. Pur metro, vai dobrano o preçu. Nu garimpu, custa o zóio da cara!

        Queria cinco abacaxis. Mas, no preço que estava, contentou-se com dois. Depois da janta, descascaria um.

        — Faz um desconto, seu Zé. Aí levo mais um.

        — Nun tem jeito, não. Tudo mundo qué ganhá o seu. Quandu chega nu garimpu, tá o zóio da cara!

        Uma velha desdentada, acompanhada de uma cabocla nova e de um menino sardento, que coçava constantemente a cabeça desalojando os piolhos que disputavam o sangue aguado pela maleita e pelas lombrigas, queria comprar fiado, pagar no fim do mês. Zé do Coco fechou os cenhos, alterou a voz:

        — Minha sinhora! Tenhu um loti de cabecinha chata, pançudu e lubriguentu pra criá, i a sinhora vem pedí fiadu. Pru inferno! Aqui, nu garimpu, só nu dinhêro! Nun adianta ficá cum essa cara de cachorro caídu de mudança, não. Quem tem coração moli nun vévi pur essas bandas...

        Doca se apiedou.

        — Que gente pobre... Coitados!

        — Coitadu é fio de rato que nasci peladu! Quem nun tem dinhêro qui nun si estabeleça! A lei da vida. Si eu for ter pena dessa genti, tô fudido e mal pagu. Vá pedi as coisa pru Pastor... Nun vai recebê nadinha! É um mão di vaca. 

        Sempre o Pastor, a mesma conversa.

        — Vê si o home, essi tar de Pastor, vai pegá nu cabu du machadu pra rachá lenha, nem vai amassá barru, muitu meno trepá na iscada pra tirá goteira du ranchu. Nun vai pegá nu cabu da inxada pra plantá mantimenu, nem vai cavá o chão pra tirá ouro. O home manda e dismanda nesti garimpu. Aqui, o pobre se ferra e pur um nadinha é encontradu de boca pru chão, a boca cheia de furmiga. Sabi, seu moçu, eu só queru vendê minhas frutinhas. Queru ficá rico, não. Mais nem pobri. Remediadu, é mio. Os dedos da mão é iguá? Nun é. Tudo diferenti. Si tudo mundu fosse rico, morria tudo de sujeira. Sabe pur quê? Quem ia lavá rôpa? Quem ia cavucá o barru pra achá ouro? Quem ia vendê essas frutas? O que mai aborreci e não aceitu, e mi fais perdê o sonu, é qui os ricos nun gosta de pagá a genti direito. Eles pode comprá tudo, inté a justiça. Aí, que palavrão! Pur aqui, justiça é na basi do revólve, na bala de açu. Nun adianta gritá, os ricos, esse tar de Pastor, pode botá quarqué um fora du garimpu, ou intão mandá pro ôtro mundu. Já viu pobri tê razão?

        Anoitecia. Um vento forte, mas morno, vindo da mata próxima, passou repentinamente, agitando os cabelos de Doca. O menino sardento e empiolhado, enquanto Zé do Coco conversava, havia surrupiado várias frutas e, sorrateiro, saíra correndo. Doca o percebera, mas fizera de conta que não havia visto. Mais adiante, o menino se reuniu à mãe e seguiam pela rua tortuosa.

        Zé do Coco cuspiu violentamente e passou o chinelo enorme em cima da cusparada. No brilho de seus olhos havia raiva e decepção.

        — O sinhô veio da onde? Nun parece cabra encruadu cumo essa leva de genti de vesti esfarramada acenanu ao vento...

        Para disfarçar, Doca fez que não ouviu, jogando duas notas de dez reais sobre o balcão improvisado.

        — Vou levar dois, seu Zé. Outro dia, levo mais. Quando vem outra carga? Só de quinze dias?

        — Tá certu! Si nun qué falá, nun fale. Possu nun sê detetivi, mais nunca saio da pista. Cumo qui si diz, quem isquenta a cabeça é palitu di fósfo! Aprendi a respeitá, seu moçu. Pur aqui, o passadu é sempre feio. Em cada rostu, só a cobiça. Tudu mundu qué ficá ricu, bamburrá. A vida, pur aqui, inté pareci venda de bilheti de loteria. Sempri o memo consêio: “seu dia chegará!”. Mais, inté agora, só pôca genti viu a grandi sorti. Mais, prus pobri, chega nunca!

        — Há como sair daqui com o ouro, seu Zé?

        — Nun mi fale nistu. Daqui, ninguém sai cum o ouro. O Pastor nun deixa. A mina é dele. Já vi uma purção querê saí, e acabaro na valeta ou no riu, banqueti das piranha. Ocê já ouviu falá do Djalmão? O negão mata sem piscá os zóios! Notro dia memo, arrancô as pepita de ouro do rabu de um garimpêro. O pião tinha escondido o ouro no cu. Puis o Djalmão rancô as pepita lá di dentro. Tava cheio de merda. Qui nojeira! Mais nun perdeu o ouro. Aqui, é assim qui funciona. 

        Anoitecera. O lampião clareava frouxamente. Muriçocas atacavam famintas. Fregueses chegavam. Zé do Coco abandonou a conversa e foi atendê-los. Doca saiu em direção do rancho, carregando os abacaxis.

        Mais adiante, avistou Matildes, que entrara na loja “Butike de ouro”. Ela olhava as bugigangas, enquanto o negociante atendia os numerosos fregueses, na maioria prostitutas e garimpeiros gastadores. O mulherio comprava braceletes, brincos, sapatos e bolsas. Pelo balcão engendrado de caixotes de pinho viam-se cortes de tecido e bermudas, saias, sutiãs, calcinhas por preços absurdos. Os olhos de Doca apalparam avidamente o corpo da prostituta, de cima para baixo, de baixo para cima, feito olhar de bisturi. No meio da rua escura, quedou-se cheio de desejo, segurando um abacaxi em cada mão.

        — Para casa! – ordenou a si mesmo, contendo-se. – Sai, satanás! 

        Se fizesse como os outros garimpeiros, que gastavam tudo com mulheres, jamais sairia daquele inferno com os bolsos forrados. Naquele lugar, o mundo viera parar com todas as tentações, toda a sua hipocrisia, as suas grandezas e misérias. Ali, havia dinheiro, miséria e imundície a granel. O que aquelas mulheres queriam? Sapatos e vestidos bonitos, brincos, colares, bebidas que espumavam.

        — Depois de três trepadas, já não é uma aventura, mas um caso – ruminou, apressando os passos.

        No meio do caminho, um grupo de garimpeiros conversava alto:

        — Hoje, o Djalmão teve serviço!

        — Não diga! O que ele fez?

        — O de sempre! Esculhambou três cabras. Estavam escondendo ouro. Ouvi os urros de um. Aquilo deve ter ficado com a bunda sem conserto...

        Doca apressou mais os passos. Cachorros vadios perseguiam cadelas, num cortejo cego. Sobre a mata, a lua começava a pratear.

 

TRECHO 2 DO ROMANCE "SANGUE VERDE" DE DAVID GONÇALVES (Pg.12 a 18).

 

Entendendo o romance:

01 – Que visão o velho garimpeiro de cinquenta anos tem sobre a vida no garimpo e por que ele se arrepende do passado?

      O velho garimpeiro enxerga o local como uma "draga" que chupa todas as forças e classifica a busca pela riqueza fácil como "ilusão pura". Ele se arrepende profundamente de ter jogado sua vida fora chafurdando na lama por poucas pepitas de ouro, restando-lhe na velhice apenas reumatismo, feridas ("perebas") e cansaço.

02 – De que forma o personagem Doca utiliza a metáfora dos urubus na carniça para descrever o comportamento dos garimpeiros?

      Doca compara os garimpeiros a urubus em cima de uma carniça para ilustrar a ganância obstinada que os prende àquele lugar. Ele argumenta que os homens só vão embora dali quando não restar mais nenhum "naco de carne podre" (ouro), citando o exemplo de Serra Pelada que, mesmo após virar um açude alagado, continuava atraindo pessoas enfeitiçadas à espera de um sinal do metal precioso.

03 – Quem é Matildes e qual é o dilema interno que Doca enfrenta em relação a ela?

      Matildes é uma das prostitutas do cabaré local com quem Doca gastou seu pouco dinheiro na noite anterior. O dilema de Doca é que ele se vê perdidamente atraído por ela ("caíra como mosca no mel"), mas tenta a todo custo lutar contra esse desejo. Sendo um homem experiente, ele sabe que se gastar tudo com mulheres e luxos, jamais conseguirá sair daquele "inferno" com os bolsos cheios.

04 – Por que a violência e as mortes eram tão frequentes no garimpo Boa Fortuna e como ocorriam a maioria dos sepultamentos?

      A violência explodia devido à combinação de ganância, consumo de bebida alcoólica e a grave escassez de mulheres, deixando os homens irascíveis e nervosos. Embora o carpinteiro Zeca Maranhão tentasse vender caixões toscos de madeira, a maioria dos enterros no cemitério local acontecia usando apenas redes, já que ninguém queria arcar com as despesas do defunto.

05 – Qual é o papel do "Pastor" na estrutura de poder e na economia exploratória do garimpo?

      O Pastor é descrito como o verdadeiro dono e tirano do garimpo. Ele explora os trabalhadores cobrando taxas em todas as etapas: na entrada do perímetro, na igreja, na venda de produtos do armazém, na comercialização do ouro e até na saída. Ele também financia caçadores de recompensas para perseguir devedores e recebe comissões para permitir o tráfico ilegal de armas no local.

06 – Que crítica social Zé do Coco faz sobre a relação entre ricos, pobres e o conceito de justiça naquela região da Amazônia?

      Zé do Coco afirma que os ricos (representados pelo Pastor) não gostam de pagar o trabalhador direito e têm poder para comprar tudo, inclusive a justiça. Ele resume que, no garimpo, a palavra "justiça" não passa de um palavrão, pois a realidade local é resolvida na base do revólver e da bala de aço, onde o pobre nunca tem razão e pode ser mandado para o "outro mundo" por qualquer capricho dos poderosos.

07 – Quem é Djalmão e que história brutal Zé do Coco conta a Doca para ilustrar que ninguém consegue sair dali roubando ouro?

      Djalmão é o capanga encarregado de aplicar a violência brutal do garimpo a mando dos donos. Zé do Coco relata que Djalmão "mata sem piscar os olhos" e conta que, recentemente, ele descobriu que um peão havia escondido pepitas no próprio ânus. Sem qualquer hesitação, Djalmão arrancou à força o ouro dali de dentro, deixando o garimpeiro gravemente ferido e com a "bunda sem conserto".