Lenda: Bahira, o pajé que roubou o
fogo
Flávia Savary
No passado, não havia fogo na tribo
Kawahiwas. No dia a dia era uma luta: as mulheres faziam das tripas coração pra
que não se estragasse a caça trazida pelos maridos. Comida quentinha? Só se o
sol ajudasse. No inverno, tiritavam de frio. E, à noite, se o medo do escuro
pesasse, que o aguentassem até a aurora.
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As índias, ouvindo histórias sobre
cunhãs de tribos vizinhas que preparavam de um tudo sobre moquéns, choravam suas
mazelas junto a Bahira, o grande pajé. Este, de tanto aturar reclamação, se
encheu e resolveu dar um jeito. Os homens se alegraram, ao verem Bahira partir
tão determinado. Apesar de darem uma de durões, parecendo conformados com a
falta do fogo, cobriram as mulheres de beijos. Sonhavam, antecipadamente, com
os assados que, enfim, provariam.
Bahira, enquanto caminhava, ia
matutando. Ele sabia muito bem a quem pertencia o fogo. E que o dono do fogo
não o daria assim, de mão beijada, a qualquer folgado que chegasse pedindo-o!
Bahira precisaria bolar um plano bem esperto. E foi o que ele fez.
Tendo avistado um ninho de Itapicuins,
dirigiu-se até lá e cumprimentou seus parentes (sim, porque, nessa época, bicho
era gente):
-- Meus irmãos cupins, subam em mim,
pois preciso parecer morto.
Os Itapicuins não eram de fazer muita
questão do porque das coisas. Daí que, saindo do ninho, cobriram o corpo de
Bahira.
O pajé estirou-se no chão, um morto
perfeito. Urubu, o tal que era dono do fogo, lá do alto viu aquela carniça
maravilhosa. Maravilhosa pra bico de Urubu, bem entendido! E a tomou por ótima
opção de almoço. Chamou a mulher, chamou os filhos e convidou-os pra comer
fora.
Naquele planar lento e desconfiado do
Urubu, a família veio descendo do céu em volteios de parafuso. Dizem que o
Urubu não sai de casa sem carregar o fogo debaixo da asa. A fim de checar se o
boato procedia, Bahira abriu meio olho e viu o brilho do Tatá-miri no sovaco do
bichão. Sossegado, voltou a fingir-se de morto.
Na descida, juntou a parentada toda. Ao
baixarem à terra, formou-se aquela mancha negra de urubus num assanhamento só,
diante da perspectiva do churrasco. Já sabemos que, nessa época, Urubu era
gente e, portanto, tinha mãos. Enquanto a mulher preparava o moquém, aos filhos
coube a guarda do defunto.
Os filhos, porém, viram que o morto
estava bulindo e foram comunicar o fato ao pai, que não lhes deu crédito.
-- E morto mexe desde quando? Larguem
de preguiça e tomem conta direito! Usem suas flechinhas pra matar as
varejeiras: não quero comida minha com bicho!
Bahira aproveitou-se da discussão e,
vendo que o fogo embaixo dele estava bem aceso, roubou-o e fugiu. Quando o
Urubu se deu conta do ocorrido, saiu em perseguição do almoço, ele e sua gente.
Entrou Bahira num oco de pau, o Urubu
entrou atrás. Saiu Bahira do outro lado, saiu o Urubu atrás. Na saída, um
tabocal cerrado cruzava o caminho. Bahira venceu-o, mas o Urubu não conseguiu
atravessar e ficou pra trás, praguejando.
O pajé correu, correu até chegar às
margens do braço de um rio, largo feito o mar. Espiou na outra margem e viu sua
tribo, que esperava a chegada do fogo novo. E agora? Que fazer pra atravessar,
pela água, com coisa que se apaga nela?
Chamou a Cobra-surradeira e pediu:
-- Comadre, faça-me a gentileza de
cruzar o rio com esse fogo em seu quengo, sim?
-- Pois não, compadre. Ajeite ele no meu
lombo.
A cobra, apesar da fama de andar
rapidinho, só alcançou até a metade do rio. Ali mesmo morreu queimada. Bahira
arranjou uma vara comprida no mato e puxou o fogo de volta. Tentou a travessia
com parentes da surradeira, mas todas tiveram destino igual: viraram torresmo!
Nisso, veio passando um Pitu. O pajé
pensou:
-- Esse há de atravessar o fogo.
Repetiu-se o pedido e o pronto aceite.
O Pitu, porém, findou-se igual às cobras: morreu queimado, todo vermelho. E é
assim até hoje: quando o fogo queima a casca do camarão, ela fica vermelhinha
igual pimenta!
O pajé recuperou o fogo, de novo, com a
vara. Os Kawahiwas, na margem oposta, já estavam nervosos, achando que a
travessia ia gorar. Passou um Guaiá, andando de lado, e Bahira repetiu o
pedido. Impressionante a boa vontade dos bichos – todos diziam sim ao pedido do
pajé! Lamentavelmente, com o compadre caranguejo não foi diferente: no meio do
rio, morreu tostado.
Então foi a vez da Saracura, da
Uratinga, da Garça, da Upeca, da Piaçoca, da Ariramba, do Jacuaçu e outras
tantas aves de água doce. E todas, apesar da cortesia, se acabaram chamuscadas,
antes de completarem o percurso.
Estava Bahira em ponto de desistir,
quando apareceu o Sapo Cururu. Os pulos do Cururu quase completaram a missão.
Perto de atingir a outra margem, o pobre acabou desmaiando com aquele fogaréu
no costado. Os Kawahiwas, repetindo o uso da vara aprendido de seu pajé,
salvaram o fogo e o sapo, levando os dois pra aldeia.
Bahira, vendo que tudo acabara bem,
pensou de que jeito ele próprio atravessaria o rio. Nem precisou esquentar
muito a cabeça. Sendo um pajé poderoso, mandou o rio se estreitar e ele
obedeceu. Bahira deu um pulo e, pronto! Logo achou-se do outro lado.
Foi assim que os Kawahiwas arranjaram fogo e
se fartaram de assados. E o valente Cururu virou um pajé respeitado.
Flávia Savary. Lendas
da Amazônia... e é assim até hoje. São Paulo: Salesiana, 2006. p. 12-15.
Fonte: Universos –
Língua Portuguesa – Ensino fundamental – Anos finais – 6º ano – Camila Sequetto
Pereira; Fernanda Pinheiro Barros; Luciana Mariz. Edições SM. São Paulo. 3ª
edição, 2015. p. 16-17.
Entendendo a lenda:
01 – No passado, a tribo
Kawahiwas não tinha fogo. Quais eram as consequências dessa ausência para o dia
a dia da tribo?
A – Eles usavam métodos
alternativos para aquecer a comida e iluminar as noites, sem grandes problemas.
B – As mulheres não
conseguiam preservar a caça, a comida só era quente com sol, e sofriam de frio
no inverno e medo do escuro à noite.
C – A caça era abundante e não
precisava ser preservada, e eles preferiam a escuridão e o frio.
D – A tribo não se importava
com a falta de fogo, pois eram acostumados com a natureza.
02 – O que motivou Bahira, o
grande pajé, a decidir conseguir o fogo para sua tribo?
A – Os homens da tribo o
desafiaram a provar seu poder como pajé.
B – As mulheres da
tribo reclamavam constantemente a ele sobre suas dificuldades devido à falta de
fogo, especialmente após ouvirem sobre outras tribos que o possuíam.
C – Ele queria mostrar sua
superioridade aos pajés de outras tribos vizinhas.
D – Ele teve um sonho que o
mandou buscar o fogo para a prosperidade da tribo.
03 – Qual foi o plano esperto
de Bahira para roubar o fogo de Urubu, o seu dono?
A – Ele pediu aos
Itapicuins (cupins) que cobrissem seu corpo para fazê-lo parecer morto, assim,
Urubu o confundiria com carniça e traria o fogo para perto.
B – Ele criou uma distração,
prendendo a família de Urubu para roubar o fogo.
C – Ele seguiu Urubu
secretamente e roubou o fogo quando ele estava distraído.
D – Ele desafiou Urubu para
uma luta para ganhar o fogo de forma justa.
04 – Como Bahira confirmou que
Urubu carregava o fogo, e onde ele estava localizado?
A – Ele ouviu Urubu
conversando com sua família sobre onde guardava o fogo.
B – Ele viu fumaça saindo do
ninho de Urubu, indicando a presença do fogo.
C – Ele abriu meio
olho enquanto fingia de morto e viu o brilho do Tatá-miri (fogo) no sovaco do
bichão (Urubu).
D – Ele perguntou diretamente
a Urubu sobre a localização do fogo.
05 – O que aconteceu quando os
filhos de Urubu tentaram avisá-lo sobre os movimentos de Bahira?
A – Os filhos ajudaram Bahira
a escapar sem que seu pai soubesse.
B – Urubu puniu seus filhos
por fazerem falsas alegações.
C – Urubu ignorou os
avisos deles, acreditando que um corpo morto não se mexia, e mandou-os se
concentrarem em guardar o 'defunto'.
D – Urubu imediatamente
desconfiou e investigou Bahira, descobrindo a farsa.
06 – Qual animal, finalmente,
conseguiu ajudar Bahira a transportar o fogo através do rio largo até a tribo
Kawahiwas?
A – O Sapo Cururu,
que, embora desmaiando perto da outra margem, permitiu que os Kawahiwas
salvassem tanto ele quanto o fogo.
B – O Pitu, que também morreu
queimado na metade do rio, ficando vermelho.
C – O Guaiá (caranguejo), que
morreu tostado no meio do rio.
D – A Cobra-surradeira, que
morreu na metade do rio.
07 – Como o próprio Bahira
atravessou o rio largo depois que o fogo foi entregue em segurança à sua tribo?
A – Ele construiu uma jangada
para atravessar o rio largo.
B – Outro animal o carregou
através do rio.
C – Sendo um pajé
poderoso, ele mandou o rio se estreitar, e este obedeceu, permitindo que ele
pulasse para o outro lado.
D – Ele nadou pelo rio, já que
o fogo não estava mais com ele.