domingo, 24 de janeiro de 2021

HISTÓRIA: ULISSES CONTRA O CICLOPE (FRAGMENTO) - TRAD.E ADAPT. MARQUES REBELO - COM GABARITO

 História: Ulisses contra o ciclope (Fragmento)

             Trad. E adapt. Marques Rebelo

    Em sua obra Odisséia, o poeta grego Homero conta que, em tempos muito distantes, houve uma longa guerra entre dois povos: os gregos e os troianos. Dentre os guerreiros gregos, destacava-se Odisseu, hoje mais conhecido como Ulisses, que muito contribuiu para a vitória de seu povo. Com a destruição de Tróia, Ulisses quis voltar para Ítaca, uma das ilhas gregas, da qual era rei. Mas nessa viagem, que durou dez anos, encontrou inúmeras dificuldades, já que Posêidon, o deus do mares e protetor de Tróia, prometera vingar os troianos e impedir que Ulisses retornasse a seu reino. Contando com a proteção de Atena, a deusa da sabedoria, o herói viveu muitas aventuras: encontros com deuses, sereias, monstros. O texto a seguir narra um episódio em que a coragem e a inteligência de Ulisses são postas à prova: ele chega a uma ilha habitada por gigantes devoradores de gente, os ciclopes.

        [...] Certo dia, quando o sol se punha, Ulisses deu com uma ilha deserta, onde uma mansa praia favorecia seguro abrigo.

        [...]

        Entraram no barco e remaram em direção à ilha. Lá chegando, Ulisses escolheu doze dos mais valentes homens da tripulação e desembarcou para explorar o lugar. Levava um saco de couro de bode cheio do generoso vinho que o sacerdote de Apolo em Ísmaros lhe oferecera para salvar a si e a família, quando a cidade fora atacada. Era um vinho sem igual: bastava juntar uma medida dele a vinte de água para se obter uma bebida maravilhosa. Levava também uma razoável porção de trigo tostado, por pressentir que talvez precisasse de alimento.

        Vagaram algum tempo até que encontraram uma gruta, que parecia ser a moradia de um precavido pastor. Havia baias para os carneiros e cabritos, cestos cheios até a borda de cereais e cântaros de leite encostados nas paredes.

        [...]

        Anoitecia quando o ciclope voltou. Era um gigante imenso, o olho na testa muito aberto e encimado por espessa sobrancelha. Vinha trazendo às costas um enorme feixe de troncos de pinheiro para alimentar seu fogo. Jogou-o estrondosamente no chão, recolheu o rebanho, após o que vedou a entrada com uma pedra tão grande que vinte carroças mal poderiam carregá-la. [...] E, então, reanimou o fogo com uns poucos troncos de pinheiro. As chamas se elevaram logo e o clarão denunciou os gregos que se haviam escondido no fundo da caverna, quando viram o gigante entrar.

        –– Quem são vocês? Mercadores ou piratas? – gritou.

        –– Nós não somos piratas, senhor – respondeu Ulisses –, mas gregos que retornam de Tróia, onde lutamos pelo grande Rei Agamenon, cuja fama se espalha por todos os cantos do mundo. Rogamos que nos receba com hospitalidade que os deuses recompensam.

        [...]

        O gigante não disse uma palavra, mas lentamente agarrou dois dos homens, com a facilidade com que Ulisses teria agarrado dois cachorrinhos, lançou-os ao chão, despedaçou-os e devorou-os inteiramente, entrecortando a deglutição com grandes goles de leite. Terminando de comê-los, deitou-se entre os carneiros e caiu no sono.

        Ulisses raciocinou: poderia matar aquele monstro enquanto ele estava adormecido, furando-lhe o coração com sua forte espada; mas, se assim fizesse, morreriam todos, pois não tinham forças para remover a descomunal pedra que impedia a saída. E deixou a noite passar com o coração pesado de aflição.

        Bem cedo o ciclope despertou, ordenhou as ovelhas, devorou mais dois homens e saiu para as pastagens, levando o seu rebanho, mas recolocando a pedra na boca da gruta.

        Ulisses passou muitas horas imaginando como poderia safar-se e safar seus companheiros. E afinal armou um plano. Havia na gruta um tronco de oliveira, ainda verde, que o ciclope usaria como bordão, depois de tê-lo convenientemente secado com fumaça. Ulisses tirou uma boa acha de pau, aguçou-a numa das suas pontas, endureceu-a no fogo e escondeu-a. À noitinha o gigante regressou e comeu mais dois homens. Quando acabara de comê-los, Ulisses dirigiu-se a ele com o saco de vinho na mão e disse:

        –– Agora que acabou de cear prove este vinho, senhor. Veja que coisas maravilhosas trazíamos no nosso navio. Mas ninguém trará coisas iguais para esta ilha se for tão cruel com os estrangeiros. O gigante tomou o saco, entornou um bom trago, gostou imensamente do vinho e disse:

        –– Quero mais.  É uma bebida magnífica. Acho que é a que deuses bebem no Olimpo. Mas diga qual é o seu nome, pois desejo lhe dar um presente como todo hóspede merece.

        –– Meu nome é Ninguém –respondeu Ulisses. –Agora me dê o presente.

        –– Meu presente é muito simples: você será comido por último. – E dito isto, o ciclope tombou num sono de bêbado.

        Aí, Ulisses dirigiu-se a seus homens:

        –– Sejam valentes, rapazes! Chegou a hora de nos livrarmos desta prisão.

        Puseram a acha no fogo até que ela, embora verde, ficasse incandescente e assim a enfiaram no olho do ciclope e ela chiou na órbita como ferro em brasa dentro d’água.  É preciso dizer que Ulisses fê-la girar como se girasse uma chave na fechadura. O gigante deu um pulo, arrancou a acha fumegante e soltou tão alto e medonho uivo que todos os ciclopes da ilha, que estavam dormindo, acudiram para ver o que sucedera.

        –– Que diabo tem você para fazer tal escarcéu a ponto de nos acordar? – perguntaram do lado de fora. –– Será que estão lhe roubando ou estão lhe ferindo?

        –– Ninguém me feriu! – berrou o gigante.

        –– Se ninguém lhe feriu, foram então os deuses que o fizeram e contra eles de nada valemos.

        E os ciclopes se retiraram. Ulisses não pôde deixar de sorrir quando viu que os havia enganado dando um nome trocado, mas não atinara ainda de que maneira ele e os companheiros iriam escapar.

        O ciclope sentara-se à entrada da gruta, barrando a passagem e apalpando os carneiros para evitar que os estrangeiros tentassem escapulir escondidos no meio deles. Ulisses, então, depois de muitos tratos à bola, arquitetou um plano para fuga.  O ciclope, felizmente, havia levado para dentro da gruta os carneiros maiores, que habitualmente deixava do lado de fora. Ulisses arrebanhou alguns deles e utilizando varas de vime, ligou-os três a três. O carneiro do meio levava um homem convenientemente amarrado na barriga e os outros, um de cada lado, ajudaram a escondê-lo. Só que Ulisses ficou desamarrado, pois não podia atar-se a si próprio, mas como era astucioso, resolveu prontamente a sua dificuldade. Como havia um carneiro maior do que os outros, agarrou-se a ele, segurando a lã com unhas e dentes.

        Assim que rompeu o dia, os rebanhos deixaram a caverna como de costume; o ciclope ia apalpando-os quando passaram perto dele, mas não descobriu nenhum dos homens. Ao apalpar o carneiro maior, estranhou:

        –– Que houve? Nunca ficou para trás, pelo contrário, sempre foi você o primeiro a desabalar pelo pasto de manhã e o primeiro a correr para o aprisco de tardinha... Será que está perturbado com o olho do seu dono que o vil Ninguém furou? Ah, se você pudesse falar e me dizer onde está aquele miserável! Eu arrebentaria a cabeça dele contra a pedra! – e deixou o animal sair.

        Tão depressa Ulisses se viu longe do ciclope, desprendeu-se do carneiro, desamarrou os companheiros e correram todos para o lugar onde tinham deixado o barco, virando-se várias vezes na corrida para se certificarem de que o gigante não os perseguia. [...] E, sem dizer palavras, chegaram a bordo e logo remaram com quanta força tinham.

                   A Odisséia. Trad. E adapt. Por Marques Rebelo. Rio de Janeiro, Ediouro, 1971. Col. Clássicos para o Jovem Leitor.

Fonte: Livro – Ler, entender, criar – Português – 6ª Série – Ed. Ática, 2007 – p. 28-34.

Entendendo a história:

01 – Agora voltando ao texto “Ulisses contra o ciclope”. Quais são as características que fazem de Ulisses um herói?

      Resposta pessoal do aluno. Sugestão: Ulisses superou um obstáculo que parecia intransponível por meio da astúcia, da inteligência, do espírito de liderança, da coragem de tomar decisões e de correr riscos.

02 – Que semelhanças e diferenças você notou entre Ulisses, herói da mitologia grega, e os heróis modernos da ficção, isto é, criados pela imaginação?

      Resposta pessoal do aluno. Sugestão: Nesse episódio, Ulisses não demonstra possuir nenhum tipo de poder mágico, os chamados superpoderes, comuns entre os heróis modernos. As características que lhe permitem vencer o perigo são humanas, e não sobrenaturais.

03 – Com um colega, tente descobrir o significado das palavras destacadas nos trechos abaixo. Se necessário, usem o dicionário. Depois, copie os trechos no caderno, substituindo os termos destacados por outros de mesmo sentido. Faça nas frases os ajustes necessários:

a)   “[...] encontraram uma gruta, que parecia ser a moradia de um precavido pastor”.

Moradia: morada, casa, habitação;

Precavido: prevenido.

b)   “[...] recolheu o rebanho, após o que vedou a entrada com uma pedra tão grande que vinte carroças mal poderiam carrega-la”.

Vedar: fechar; Mal: a custo, dificilmente.

c)   “Bem cedo o ciclope despertou, ordenhou as ovelhas, devorou mais dois homens e saiu [...]”.

Ordenhou: tirar o leite.

d)   “Havia na gruta um tronco de oliveira, ainda verde, que o ciclope usaria como bordão, depois de tê-lo convenientemente secado com fumaça”.

Oliveira: árvore cujo fruto (as azeitonas) são usadas na alimentação humana;

Bordão: cajado, bastão (usado pelos pastores para conduzir o rebanho);

Convenientemente: de forma conveniente, adequada.

04 – Identifique no texto e copie no caderno trechos que informem:

a)   Como era a alimentação dos viajantes e dos habitantes da ilha.

“Levava também uma razoável porção de trigo tostado [...]”, “[...] cestos cheios até a borda de cereais e cântaros de leite encostados nas paredes”.

b)   De que forma iluminavam suas moradias.

“E, então, reanimou o fogo com uns poucos troncos de pinheiro”.

c)   Algumas das atividades realizadas pelos homens naquele tempo.

“Quem são vocês? Mercadores ou piratas?”, “Nós não somos piratas, senhor [...], mas gregos que retornam de Tróia, onde lutamos pelo grande Rei Agamenon [...]”.

05 – Por que Ulisses concluiu que não deveria matar o ciclope enquanto ele dormia?

      Porque o ciclope era o único que poderia remover a descomunal pedra que vedava a entrada da gruta; se ele morresse, os gregos permaneceriam presas lá e morreriam.

06 – Leia:

        “–– Ninguém me feriu! – berrou o gigante.

        –– Se ninguém lhe feriu, foram então os deuses que o fizeram e contra eles de nada valemos.

        E os ciclopes se retiraram.”

a)   A quem o ciclope se refere quando diz que Ninguém o feriu?

A Ulisses, que enganara o gigante dizendo-lhe que se chamava Ninguém.

b)   Quem, entretanto, os outros ciclopes imaginaram que havia ferido o gigante?

Os outros ciclopes entenderam que pessoa alguma o atacara, portanto o ferimento só poderia ter sido obra dos deuses.

c)   Na sua opinião, por que os ciclopes dizem que contra os deuses eles nada valiam?

Resposta pessoal do aluno. Sugestão: No pensamento dos gregos antigos, acreditavam que os deuses controlavam o destino dos homens.

07 – Ulisses, com um pedaço de pau incandescente, furou e cegou o único olho do ciclope. Ainda assim os gregos teriam que passar pelo gigante, que barrava a entrada da gruta e apalpava os carneiros que saiam, verificando se os prisioneiros não se escondiam neles. Explique no caderno, com suas palavras, que plano o herói arquitetou para fuga.

      Resposta pessoal do aluno. Sugestão: Utilizando varas de vime, Ulisses juntou alguns carneiros, três a três; em cada grupo de três carneiros, o do meio levava um homem amarrado na barriga. Quanto ao próprio Ulisses, agarrou-se ao maior dos carneiros. Quando de manhã, os carneiros deixaram a caverna, os viajantes viram-se livres.

08 – Releia:

        Entraram no barco e remaram em direção à ilha. Lá chegando, Ulisses escolheu doze dos mais valentes homens da tripulação e desembarcou para explorar o lugar.”

a)   Em que pessoa gramatical estão os verbos destacados nesse trecho?

Na terceira pessoa gramatical.

b)   Pode-se dizer então que, nesse texto, o narrador é uma personagem da história? Ou ele é um observador que não participa dos fatos narrados?

O narrador é um observador que não participa da história.

c)   Que tempo verbal predomina nesse trecho da narrativa? Por que, na sua opinião, esse tempo é o mais usado nesse trecho?

O pretérito perfeito do indicativo. O narrador usa esse tempo verbal porque está relatando fatos passados, totalmente concluídos.

09 – Em que espaço se passam os fatos narrados? Copie no caderno trechos do texto em que há descrição desses locais.

      Os fatos narrados acontecem na praia e em uma gruta de uma ilha deserta. “Certo dia, quando o sol se punha, Ulisses deu com uma ilha deserta, onde uma mansa praia favorecia seguro abrigo”, “Vagaram algum tempo até que encontraram uma gruta, que parecia ser a moradia de um precavido pastor. Havia [...] nas paredes”.

10 – Quais são as personagens principais de “Ulisses contra ciclope”? Escreva no caderno um parágrafo caracterizando-as. Procure dar detalhes significativos sobre elas. Empregue substantivos acompanhados de adjetivos.

      Ulisses e o ciclope. Sugestão: “O ciclope é um gigante imenso, forte, com um olho muito aberto na testa e sobrancelha espessa. Ulisses, o herói, é inteligente e esperto”.

11 – Em diversos momentos do texto o relato do narrador é interrompido pelo discurso direto, isto é, pela transcrição das falas das personagens. Nesses momentos, é como se o narrador desse a palavra às personagens, deixando-as falar. Transcreva no caderno um trecho em que ocorra discurso direto. Depois, de sua opinião: a presença de discurso direto em uma narrativa enriquece ou empobrece o texto?

      Resposta pessoal do aluno.

12 – As narrativas de aventuras contêm, em geral:

·        Uma situação inicial, em que são apresentados as personagens e o espaço onde a ação ocorre;

·        Um ou mais obstáculos à ação do herói, estabelecendo-se um conflito entre ele e seu antagonista (adversário);

·        Diversos momentos de ação, um dos quais apresenta maior emoção, mantendo o leitor em clima de suspense: é o clímax;

·        Um desfecho, após o clímax, momento em que tudo se resolve.

Identifique no texto lido:

a)   A situação inicial: Ulisses e seus companheiros chegam à ilha e encontram a gruta do ciclope gigante.

b)   O clímax: Surge o gigante, que fecha a porta da gruta com uma pedra e devora alguns gregos.

c)   O obstáculo: Os gregos, prisioneiros na gruta, serão devorados pelo ciclope. Para salvar a si e a seus companheiros, Ulisses terá que arquitetar um plano.

d)   O desfecho: Os gregos já saíram da gruta amarrados aos carneiros. Ulisses, entretanto, ainda não se salvou. O gigante apalpa o último carneiro, ao qual Ulisses está agarrado, e o herói corre o risco de ser descoberto e morrer.

e)   O conflito entre o herói e seu antagonista: Ulisses consegue sair da gruta e desamarra os companheiros. Todos correm para o barco e remam com força para longe da praia.

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário