Uma lenda para a noite de S.João: A moura de Algoso
Lendas
Portuguesas de Fernanda Frazão
Algoso
é uma pequena aldeia perdida nas serranias transmontanas. Diz uma lenda que
ainda hoje por lá corre que, no tempo dos Mouros, existia nos arredores um
bruxo famoso, conhecedor de mezinhas milagrosas e sabedor do passado e do
futuro. Vivia num casebre um pouco afastado da povoação, mas nem a pobreza da
sua casa, nem o afastamento da mesmo obstavam a que ali acorressem quantos
acreditavam nas suas capacidades mágicas ou videntes.
Na verdade, ricos e pobres, de longe ou de perto, todos ali acudiam em busca de
cura para os seus males, pedindo filtros de amor ou indagando sobre o que lhes
reservaria o futuro.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEinpyiP0qhbiU1mNCZKOBlzr37EVpZHFz2Kq4IniZOpxkHJUMKvrnqYhF0845-Xk4KatLxV21cQiGnRmIAX4R30dAb5DMCz6okYCCxvGecqeC01yTb7aPqnUgnv79b2HYRZqE9KiPxSYChoZ2OOSjt0fg4_c9ESH88xQK_I6iodyJR1Y0T6N5OaKrJLGLw/s320/ANTONIO.pngEm certos dias era uma autêntica romaria. E com tudo isto
o bruxo criou fama e proveito de homem rico, apesar de continuar a viver no
pobre casebre tentando fazer-se passar por miserável.
Entretanto, os cristãos iam avançando na reconquista do território ainda sobre
a dependência dos Mouros e estavam a aproximar-se rapidamente de Algoso.
Sabendo disto o bruxo, que não podia prever o seu próprio futuro, calculou que
a ocupação cristã não viesse a ser muito demorada e decidiu esconder os seus
tesouros, disposto a recuperá-los mais tarde, quando pudesse recuperar o seu
oficio.
Assim pensando, escolheu o que poderia carregar consigo, e o restante, as jóias
e o ouro, meteu-o num cofre de marfim chapeado a cobre. Feito isto, e como
precisava de encontrar um bom esconderijo para a sua fortuna, partiu com o
cofre debaixo do braço em demanda do melhor local.
Depois de muito procurar, achou que o melhor sitio era debaixo da fonte de S.
João, debaixo das raízes de um enorme e belo chorão que derramava a sua sombra
as águas. Pegou numa enxadinha e cavou um buraco apropriado ao tamanho do
cofre. Meteu-o lá dentro, tapou-o com terra e disfarçou a obra com folhagem e
gravetos.
Terminado o trabalho, levantou-se e olhou em volta. Espantado, viu uma mourinha
que, descuidada, descia uma vereda da serra cantando uma velha canção.
Convencido que a moura o vira esconder o cofre e estava agora disfarçando o
caso, o bruxo encaminhou-se para ela, olhou-a com uma estranha fixidez, fez uns
sinais misteriosos e, recitando certa oração antiga, lançou sobre a menina um
encantamento, de tal modo que ela desapareceu no mesmo instante.
Casquinhando, esfregou as mãos, pegou nos seus haveres e desandou rapidamente
para a floresta, donde nunca mais voltou. A lenda da moura de Algoso foi
passando de boca em ouvido, de geração em geração.
A fonte de S. João de resto, continuava ali, lembrando a todos a desdita da
mourinha encantada pelo bruxo e desafiando a coragem de quem sonhasse
desencantá-la.
Uma noite, muito próxima da de S. João, uma rapaz de Algoso que se apaixonara
pela história sonhou que via a moura na fonte. Mal acordou, decidiu que, desse
lá por onde desse, havia de tentar ver na madrugada de S. João se a lenda era
verdadeira. Além disso, como corria se alguém visse a moura nas suas horas
felizes lhe podia fazer três pedidos, os quais seriam atendidos, o rapaz achou
que, apesar do medo, era talvez vantajoso fazer aquela tentativa.
Na véspera de S. João, encaminhou-se para a fonte ainda antes de anoitecer por
completo. Procurou um local para se esconder, um local de onde visse sem ser
visto, e preparou-se para esperar pela meia noite sem fazer ruído algum. O
velho chorão da fonte, já centenário, continuava lançando sobre a água os seus
ramos lacrimejantes. Do outro lado, havia agora um belíssimo roseiral, donde
provinha um perfume intenso quando todas as rosas abriam.
Chegou a meia noite. De repente o rapaz ouviu uma restolhada vinda das bandas
do roseiral. Era uma enorme serpente que, rastejando, se dirigia para a fonte.
Aí chegada, mergulhou três vezes. Qual não foi o espanto do moço quando viu
aparecer sobre as águas uma menina: a moura da fonte e... mais bela do que
tradição contava!
A moura saltou com leveza da rocha para o solo e, sentando-se na borda da
fonte, começou a cantar uma suave canção que o marulhar da água acompanhava,
enquanto ela ia passando um pente pelos seus cabelos loiros. Subitamente, uma
corça apareceu vinda da floresta e, sem mostrar qualquer receio, aproximou-se
da moura, que a afagou com ternura. A corça, num gesto de agradecimento,
lambeu-lhe as babuchas de damasco azul.
Era realmente um espectáculo de beleza que o rapaz jamais esperava encontrar,
E, acocorado no seu canto, esqueceu os três pedidos que queria fazer, esqueceu
tudo, esqueceu-se até de si mesmo, até que, bruscamente, a moura parou de se
pentear, debruçou-se no tanque e desatou num pranto irreprimível. Chorava,
talvez, a dor da sua solidão sem fim.
Condoído, o rapaz fez um movimento para a consolar, esquecido do que não fosse
aquela ânsia de ternura que dele se apoderara. Ao erguer-se, porém, fez estalar
sob o corpo os ramos da sebe em que se escondera. A corça embrenhou-se
rapidamente no mato e a moura desapareceu subitamente, evolando-se numa névoa
sobre a águas da fonte de S. João de Algoso.
in Lendas Portuguesas de Fernanda Frazão
Entendendo
o texto
01. Onde vivia o bruxo de
Algoso e como era a sua habitação?
a.
Num castelo luxuoso no centro da aldeia.
b. Num casebre pobre e um pouco afastado da povoação.
c.
Debaixo da fonte de São João.
d.
Numa caverna escondida nas serranias.
02. Por que razão as
pessoas procuravam o bruxo de Algoso?
a.
Para aprenderem a ler e a escrever.
b.
Para comprarem gado e sementes para a lavoura.
c. Em busca de curas, filtros de amor ou para saberem o futuro.
d.
Para pedirem proteção contra os soldados cristãos.
03. Qual foi o motivo que
levou o bruxo a decidir esconder os seus tesouros?
a. O avanço dos cristãos na reconquista do território.
b.
Ele tinha medo que os habitantes da aldeia o assaltassem.
c.
Ele ia viajar para um reino distante e não queria levar peso.
d.
Ele queria testar a honestidade da mourinha.
04. Onde é que o bruxo
escolheu esconder o seu cofre de marfim? a. No fundo de um poço seco na
floresta.
b. Debaixo das raízes de um chorão, junto à fonte de S. João.
c.
Atrás de uma rocha no topo da serra.
d.
Dentro das paredes do seu casebre.
05. Por que motivo o
bruxo lançou um encantamento sobre a mourinha?
a.
Porque ela tentou roubar o cofre de marfim.
b.
Porque ele precisava de uma ajudante para as suas mezinhas.
c. Porque ele achou que ela o tinha visto esconder o tesouro.
d.
Porque ela o insultou enquanto descia a vereda.
06. O que dizia a lenda
sobre quem conseguisse ver a moura nas suas "horas felizes"?
a.
Que a pessoa ganharia todo o ouro do bruxo imediatamente.
b. Que a pessoa teria direito a fazer três pedidos que seriam
atendidos.
c.
Que a pessoa se transformaria também numa criatura mágica.
d.
Que a pessoa teria de ficar para sempre a guardar a fonte.
07. Que animal apareceu na
fonte à meia-noite antes de surgir a bela menina?
a.
Uma corça mansa vinda da floresta.
b.
Uma águia real que desceu do céu.
c. Uma enorme serpente que mergulhou três vezes na água.
d.
Um peixe dourado que saltou do tanque.
08. Como é que a moura se
comportava enquanto estava sentada na borda da fonte?
a.
Estava a lavar o rosto e a beber a água fresca.
b. Cantava uma canção suave enquanto penteava os cabelos loiros.
c.
Escondia o cofre de marfim com gravetos e folhas.
d.
Discutia com a corça sobre o bruxo de Algoso.
09. Por que razão o rapaz
não chegou a fazer os pedidos que tinha planeado?
a. Porque ele ficou tão deslumbrado e comovido que se esqueceu de
tudo.
b.
Porque ele teve medo da serpente e fugiu a correr.
c.
Porque ele não conseguiu chegar perto da fonte a tempo.
d.
Porque a moura começou a rir dele e ele ficou envergonhado.
10. O que causou o
desaparecimento súbito da moura e da corça no final?
a.
O sol começou a nascer e o encanto quebrou-se.
b.
O bruxo apareceu e levou a menina para a floresta.
c. O rapaz fez barulho ao levantar-se, fazendo estalar os ramos da
sebe.
d.
A corça deu um grito de alerta ao ver o rapaz.
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