sexta-feira, 27 de março de 2026

LENDA PORTUGUESA - UMA LENDA PARA A NOITE DE S.JOÃO: A MOURA DE ALGOSO - FERNANDA FRAZÃO - COM GABARITO

 Uma lenda para a noite de S.João: A moura de Algoso

Lendas Portuguesas de Fernanda Frazão

 

Algoso é uma pequena aldeia perdida nas serranias transmontanas. Diz uma lenda que ainda hoje por lá corre que, no tempo dos Mouros, existia nos arredores um bruxo famoso, conhecedor de mezinhas milagrosas e sabedor do passado e do futuro. Vivia num casebre um pouco afastado da povoação, mas nem a pobreza da sua casa, nem o afastamento da mesmo obstavam a que ali acorressem quantos acreditavam nas suas capacidades mágicas ou videntes.
Na verdade, ricos e pobres, de longe ou de perto, todos ali acudiam em busca de cura para os seus males, pedindo filtros de amor ou indagando sobre o que lhes reservaria o futuro. 

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEinpyiP0qhbiU1mNCZKOBlzr37EVpZHFz2Kq4IniZOpxkHJUMKvrnqYhF0845-Xk4KatLxV21cQiGnRmIAX4R30dAb5DMCz6okYCCxvGecqeC01yTb7aPqnUgnv79b2HYRZqE9KiPxSYChoZ2OOSjt0fg4_c9ESH88xQK_I6iodyJR1Y0T6N5OaKrJLGLw/s320/ANTONIO.png


Em certos dias era uma autêntica romaria. E com tudo isto o bruxo criou fama e proveito de homem rico, apesar de continuar a viver no pobre casebre tentando fazer-se passar por miserável.
Entretanto, os cristãos iam avançando na reconquista do território ainda sobre a dependência dos Mouros e estavam a aproximar-se rapidamente de Algoso. Sabendo disto o bruxo, que não podia prever o seu próprio futuro, calculou que a ocupação cristã não viesse a ser muito demorada e decidiu esconder os seus tesouros, disposto a recuperá-los mais tarde, quando pudesse recuperar o seu oficio.
Assim pensando, escolheu o que poderia carregar consigo, e o restante, as jóias e o ouro, meteu-o num cofre de marfim chapeado a cobre. Feito isto, e como precisava de encontrar um bom esconderijo para a sua fortuna, partiu com o cofre debaixo do braço em demanda do melhor local.
Depois de muito procurar, achou que o melhor sitio era debaixo da fonte de S. João, debaixo das raízes de um enorme e belo chorão que derramava a sua sombra as águas. Pegou numa enxadinha e cavou um buraco apropriado ao tamanho do cofre. Meteu-o lá dentro, tapou-o com terra e disfarçou a obra com folhagem e gravetos.
Terminado o trabalho, levantou-se e olhou em volta. Espantado, viu uma mourinha que, descuidada, descia uma vereda da serra cantando uma velha canção. Convencido que a moura o vira esconder o cofre e estava agora disfarçando o caso, o bruxo encaminhou-se para ela, olhou-a com uma estranha fixidez, fez uns sinais misteriosos e, recitando certa oração antiga, lançou sobre a menina um encantamento, de tal modo que ela desapareceu no mesmo instante.
Casquinhando, esfregou as mãos, pegou nos seus haveres e desandou rapidamente para a floresta, donde nunca mais voltou. A lenda da moura de Algoso foi passando de boca em ouvido, de geração em geração.
A fonte de S. João de resto, continuava ali, lembrando a todos a desdita da mourinha encantada pelo bruxo e desafiando a coragem de quem sonhasse desencantá-la.
Uma noite, muito próxima da de S. João, uma rapaz de Algoso que se apaixonara pela história sonhou que via a moura na fonte. Mal acordou, decidiu que, desse lá por onde desse, havia de tentar ver na madrugada de S. João se a lenda era verdadeira. Além disso, como corria se alguém visse a moura nas suas horas felizes lhe podia fazer três pedidos, os quais seriam atendidos, o rapaz achou que, apesar do medo, era talvez vantajoso fazer aquela tentativa.
Na véspera de S. João, encaminhou-se para a fonte ainda antes de anoitecer por completo. Procurou um local para se esconder, um local de onde visse sem ser visto, e preparou-se para esperar pela meia noite sem fazer ruído algum. O velho chorão da fonte, já centenário, continuava lançando sobre a água os seus ramos lacrimejantes. Do outro lado, havia agora um belíssimo roseiral, donde provinha um perfume intenso quando todas as rosas abriam.
Chegou a meia noite. De repente o rapaz ouviu uma restolhada vinda das bandas do roseiral. Era uma enorme serpente que, rastejando, se dirigia para a fonte. Aí chegada, mergulhou três vezes. Qual não foi o espanto do moço quando viu aparecer sobre as águas uma menina: a moura da fonte e... mais bela do que tradição contava!
A moura saltou com leveza da rocha para o solo e, sentando-se na borda da fonte, começou a cantar uma suave canção que o marulhar da água acompanhava, enquanto ela ia passando um pente pelos seus cabelos loiros. Subitamente, uma corça apareceu vinda da floresta e, sem mostrar qualquer receio, aproximou-se da moura, que a afagou com ternura. A corça, num gesto de agradecimento, lambeu-lhe as babuchas de damasco azul.
Era realmente um espectáculo de beleza que o rapaz jamais esperava encontrar, E, acocorado no seu canto, esqueceu os três pedidos que queria fazer, esqueceu tudo, esqueceu-se até de si mesmo, até que, bruscamente, a moura parou de se pentear, debruçou-se no tanque e desatou num pranto irreprimível. Chorava, talvez, a dor da sua solidão sem fim.
Condoído, o rapaz fez um movimento para a consolar, esquecido do que não fosse aquela ânsia de ternura que dele se apoderara. Ao erguer-se, porém, fez estalar sob o corpo os ramos da sebe em que se escondera. A corça embrenhou-se rapidamente no mato e a moura desapareceu subitamente, evolando-se numa névoa sobre a águas da fonte de S. João de Algoso.

in Lendas Portuguesas de Fernanda Frazão

 

Entendendo o texto

 

01. Onde vivia o bruxo de Algoso e como era a sua habitação?

a. Num castelo luxuoso no centro da aldeia.

b. Num casebre pobre e um pouco afastado da povoação.

c. Debaixo da fonte de São João.

d. Numa caverna escondida nas serranias.

02. Por que razão as pessoas procuravam o bruxo de Algoso?

a. Para aprenderem a ler e a escrever.

b. Para comprarem gado e sementes para a lavoura.

c. Em busca de curas, filtros de amor ou para saberem o futuro.

d. Para pedirem proteção contra os soldados cristãos.

03. Qual foi o motivo que levou o bruxo a decidir esconder os seus tesouros?

a. O avanço dos cristãos na reconquista do território.

b. Ele tinha medo que os habitantes da aldeia o assaltassem.

c. Ele ia viajar para um reino distante e não queria levar peso.

d. Ele queria testar a honestidade da mourinha.

04. Onde é que o bruxo escolheu esconder o seu cofre de marfim? a. No fundo de um poço seco na floresta.

b. Debaixo das raízes de um chorão, junto à fonte de S. João.

c. Atrás de uma rocha no topo da serra.

d. Dentro das paredes do seu casebre.

05. Por que motivo o bruxo lançou um encantamento sobre a mourinha?

a. Porque ela tentou roubar o cofre de marfim.

b. Porque ele precisava de uma ajudante para as suas mezinhas.

c. Porque ele achou que ela o tinha visto esconder o tesouro.

d. Porque ela o insultou enquanto descia a vereda.

06. O que dizia a lenda sobre quem conseguisse ver a moura nas suas "horas felizes"?

a. Que a pessoa ganharia todo o ouro do bruxo imediatamente.

b. Que a pessoa teria direito a fazer três pedidos que seriam atendidos.

c. Que a pessoa se transformaria também numa criatura mágica.

d. Que a pessoa teria de ficar para sempre a guardar a fonte.

07. Que animal apareceu na fonte à meia-noite antes de surgir a bela menina?

a. Uma corça mansa vinda da floresta.

b. Uma águia real que desceu do céu.

c. Uma enorme serpente que mergulhou três vezes na água.

d. Um peixe dourado que saltou do tanque.

08. Como é que a moura se comportava enquanto estava sentada na borda da fonte?

a. Estava a lavar o rosto e a beber a água fresca.

b. Cantava uma canção suave enquanto penteava os cabelos loiros.

c. Escondia o cofre de marfim com gravetos e folhas.

d. Discutia com a corça sobre o bruxo de Algoso.

09. Por que razão o rapaz não chegou a fazer os pedidos que tinha planeado?

a. Porque ele ficou tão deslumbrado e comovido que se esqueceu de tudo.

b. Porque ele teve medo da serpente e fugiu a correr.

c. Porque ele não conseguiu chegar perto da fonte a tempo.

d. Porque a moura começou a rir dele e ele ficou envergonhado.

10. O que causou o desaparecimento súbito da moura e da corça no final?

a. O sol começou a nascer e o encanto quebrou-se.

b. O bruxo apareceu e levou a menina para a floresta.

c. O rapaz fez barulho ao levantar-se, fazendo estalar os ramos da sebe.

d. A corça deu um grito de alerta ao ver o rapaz.

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