Crônica: Acabaram com a nossa letra
Mário Prata
_ Pode deixar que a
máquina faz isso!
Fico
uns segundos atabalhoado, olho para o cheque.
_ Faço questão de
eu mesmo preencher.
E
preenchi.
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgeKHlXw4L1We-NflFCfUEoKIQTt4w0CQMU62K0j_-KVpmn0bvDFDe6KRAFXk1i5m9k3L6nM6nKneA9AVZnpAbImGgWdo0Uel97TlHZNjthb73PvA3-A_fXEQFv_HluhiZZj4GSzOBsSoRjA5TCZN5vEfIfqxU6ecfoBWNUu1743ITxfJSUWO5jN3t6Fy0/s320/CHEQUE.jpg A cena é corriqueira, não é? Mas ali,
naquele momento, aquela mocinha estava me tirando o prazer de colocar a minha
letra no cheque. Afinal, pensei eu naquele momento, é a única coisa que eu
escrevo à mão: o cheque.
Você já notou que a
gente não escreve mais nada? Nada! Acho que desde que saí da faculdade não uso
a mão para tais finalidades. Estão aí todas as máquinas e cartões para tal uso.
E olha que
aprender a escrever à mão, no meu tempo, era uma dificuldade. No curso primário
a gente tinha aula de linguagem. Tinha o caderno de linguagem, que todos eram
obrigados a comprar. A linha era subdividida em duas partes, sendo a de baixo
menorzinha para caberem as letras baixas, como o "a" e o
"o", por exemplo. E quando pintava um "l" ou um
"t", tinha que ir até lá em cima. Assim, todo mundo ficava com a
letra igual à da professora, que era perfeita, por sinal.
Com o
passar dos anos e com o desuso, a minha letra foi ficando horrorosa. Nem eu
mesmo entendia. Passei a só escrever em letra de forma. O tempo passou mais e
mais e a letra de forma se foi deformando toda. Mas dava para o cheque. Agora,
com a máquina de preencher cheque, lá se vai a minha letra. Com você anda
acontecendo o mesmo?
Tenho certeza que, no futuro próximo, os alunos vão levar
os notebooks para a sala de aula. A letra à mão será coisa
pré-histórica. Imagino os novos alunos, quando já grandinhos, olhando as
receitas dos médicos e imaginando que os pais e avós escreviam daquele jeito.
Ou será que também os médicos vão ter uma maquininha para dar suas tortas
receitas?
Fico triste ao constatar tudo isso. É como se uma parte de mim
fosse embora. Uma parte
trabalhada duramente durante anos e anos.
O
correio-elegante das quermesses, como ficará? Persistirá, mesmo com as pessoas
tendo letras cada vez mais confusas? Como conquistar uma moça com aquela letra,
gente? E o cartãozinho das flores remetidas? Será que só usaremos as letras
manuais para os motivos apaixonantes?
Chegará o momento que usaremos a nossa mão apenas para a
assinatura. Ou será que teremos um cartão a laser que, passado em
cima de um papel, depois de codificado por um número, imprimirá nossa
assinatura? Ou será que voltaremos ao uso infalível da impressão digital?
Será que um dia chegaremos ao absurdo de ser proibido escrever à
mão? Penas pesadas para os infratores? Fulano preso escrevendo
poesias em plena praça. O que o pai do fulano não vai pensar daquilo? Mesmo a
multa aplicada pelo guarda não será escrita à mão. Ele digita a placa do seu
carro e a informação vai diretamente para o Detran.
Nos países mais metidos a besta (também conhecidos como Primeiro
Mundo), os garçons já pegam o seu pedido com um minicomputador que leva
imediatamente o seu pedido para o cozinheiro. Nem garçom vai escrever mais.
Claro
que o jogo do bicho será rapidamente informatizado, evitando aqueles
papeizinhos que a gente sempre perde ou não confere. Sorteio de amigo-secreto
com aqueles pedacinhos de papéis dobrados. Sobreviverá? Haverá, na repartição,
ainda alguém com boa letra para tanto?
Como as secretárias vão avisar o chefe que fulano telefonou a tal
hora? Tudo por cabos eletrônicos, é claro.
Agendas eletrônicas já se encontram em qualquer das boas
casas do ramo.
E conta? Alguém ainda faz contas no papel? Será que nas
escolas ainda ensinam raiz quadrada, com o aluno ali com a sua calculadora?
Você deve saber que, nos vestibulares, já se admitem as tais maquininhas.
Listinha de pecados para se confessar. Grava-se num
gravadorzinho e enfia no ouvido do padre. Afinal, os nossos pecados são sempre
os mesmos. Principalmente o pecado da preguiça, que marcará nossas vidas neste
século que está chegando. Em algarismos romanos, sei lá por quê.
Entendendo
o texto
a) O fato de ele ter esquecido como se escreve
o próprio nome.
b) A tentativa de uma funcionária de
supermercado de preencher seu cheque com uma máquina.
c) A dificuldade de entender a letra de um
médico em uma receita. d) O recebimento de uma fatura de cartão de crédito
impressa.
e) A obrigatoriedade de usar computadores em
seu trabalho como escritor.
02. Como o autor descreve o aprendizado da
escrita em sua época de escola (curso primário)?
a) Era um processo livre, onde cada aluno
desenvolvia seu próprio estilo desde cedo.
b) Era focado apenas na digitação em máquinas
de escrever antigas.
c) Era rigoroso, utilizando cadernos
de linguagem com linhas subdivididas para padronizar a letra.
d) Era opcional, pois a maioria das crianças já
preferia usar calculadoras.
e) Era baseado em desenhos e pinturas, sem
preocupação com a forma das letras.
03. Qual é o sentimento predominante do
narrador ao constatar que a escrita manual está desaparecendo?
a) Entusiasmo com a agilidade proporcionada
pelas novas máquinas.
b) Indiferença, pois ele acredita que a
tecnologia sempre melhora a vida.
c) Alívio, por não precisar mais usar cadernos
de caligrafia.
d) Tristeza, como se uma parte de sua
própria identidade estivesse indo embora.
e) Ansiedade para aprender a usar os novos
notebooks escolares.
04. Ao mencionar o "correio-elegante"
e os "cartõezinhos de flores", o autor sugere que:
a) A escrita à mão deveria ser abolida até
mesmo em situações românticas.
b) A tecnologia tornará as conquistas amorosas
muito mais fáceis e rápidas.
c) A letra confusa ou a falta da
escrita manual podem afetar a expressão de sentimentos e o romantismo.
d) O correio eletrônico (e-mail) é idêntico ao
correio-elegante das quermesses.
e) Ninguém mais se interessará por flores no
futuro próximo.
05. O autor utiliza o termo "países mais
metidos a besta" para se referir a:
a) Países que proíbem o uso de tecnologia em
restaurantes.
b) Países do chamado "Primeiro
Mundo", onde a informatização já chegou até aos garçons.
c) Países que ainda preservam a tradição da
caligrafia artística.
d) Cidades do interior que mantêm as quermesses
e o jogo do bicho.
e) Sociedades que valorizam a escrita manual
acima de tudo.
06. No trecho "Principalmente o pecado da
preguiça, que marcará nossas vidas neste século que está chegando", o
autor estabelece uma relação entre:
a) A facilidade tecnológica e o
esforço humano em manter habilidades manuais.
b) A prática religiosa e o uso de gravadores
nos confessionários.
c) A matemática escolar e o uso excessivo de
algarismos romanos. d) O trabalho das secretárias e a eficiência dos cabos
eletrônicos. e) O jogo do bicho e a informatização dos sorteios.
07. Qual é a principal crítica social ou
reflexão central presente na crônica?
a) A defesa absoluta de que o progresso
tecnológico é prejudicial em todos os setores.
b) Uma crítica aos supermercados que não
aceitam mais cheques preenchidos à mão.
c) Uma reflexão sobre como a
tecnologia despersonaliza ações cotidianas e extingue habilidades humanas
tradicionais.
d) Um guia prático de como melhorar a letra de
forma após anos de desuso.
e) Uma reclamação específica sobre a má
qualidade do ensino de matemática nas escolas modernas.
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