segunda-feira, 9 de março de 2026

CRÔNICA: ACABARAM COM A NOSSA LETRA - MÁRIO PRATA - COM GABARITO

   Crônica:  Acabaram com a nossa letra

                    Mário Prata

          Faço as minhas compras no supermercado, pego o meu talão de cheques, vou preencher. A mocinha:

       _ Pode deixar que a máquina faz isso!

           Fico uns segundos atabalhoado, olho para o cheque.

        _ Faço questão de eu mesmo preencher.

           E preenchi.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgeKHlXw4L1We-NflFCfUEoKIQTt4w0CQMU62K0j_-KVpmn0bvDFDe6KRAFXk1i5m9k3L6nM6nKneA9AVZnpAbImGgWdo0Uel97TlHZNjthb73PvA3-A_fXEQFv_HluhiZZj4GSzOBsSoRjA5TCZN5vEfIfqxU6ecfoBWNUu1743ITxfJSUWO5jN3t6Fy0/s320/CHEQUE.jpg


        A cena é corriqueira, não é? Mas ali, naquele momento, aquela mocinha estava me tirando o prazer de colocar a minha letra no cheque. Afinal, pensei eu naquele momento, é a única coisa que eu escrevo à mão: o cheque.

       Você já notou que a gente não escreve mais nada? Nada! Acho que desde que saí da faculdade não uso a mão para tais finalidades. Estão aí todas as máquinas e cartões para tal uso.

         E olha que aprender a escrever à mão, no meu tempo, era uma dificuldade. No curso primário a gente tinha aula de linguagem. Tinha o caderno de linguagem, que todos eram obrigados a comprar. A linha era subdividida em duas partes, sendo a de baixo menorzinha para caberem as letras baixas, como o "a" e o "o", por exemplo. E quando pintava um "l" ou um "t", tinha que ir até lá em cima. Assim, todo mundo ficava com a letra igual à da professora, que era perfeita, por sinal.

            Com o passar dos anos e com o desuso, a minha letra foi ficando horrorosa. Nem eu mesmo entendia. Passei a só escrever em letra de forma. O tempo passou mais e mais e a letra de forma se foi deformando toda. Mas dava para o cheque. Agora, com a máquina de preencher cheque, lá se vai a minha letra. Com você anda acontecendo o mesmo? 

                Tenho certeza que, no futuro próximo, os alunos vão levar os notebooks para a sala de aula. A letra à mão será coisa pré-histórica. Imagino os novos alunos, quando já grandinhos, olhando as receitas dos médicos e imaginando que os pais e avós escreviam daquele jeito. Ou será que também os médicos vão ter uma maquininha para dar suas tortas receitas?

                Fico triste ao constatar tudo isso. É como se uma parte de mim fosse embora. Uma parte 

trabalhada duramente durante anos e anos.

            O correio-elegante das quermesses, como ficará? Persistirá, mesmo com as pessoas tendo letras cada vez mais confusas? Como conquistar uma moça com aquela letra, gente? E o cartãozinho das flores remetidas? Será que só usaremos as letras manuais para os motivos apaixonantes?

                 Chegará o momento que usaremos a nossa mão apenas para a assinatura. Ou será que teremos um cartão a laser que, passado em cima de um papel, depois de codificado por um número, imprimirá nossa assinatura? Ou será que voltaremos ao uso infalível da impressão digital?

                Será que um dia chegaremos ao absurdo de ser proibido escrever à mão? Penas pesadas   para os infratores? Fulano preso escrevendo poesias em plena praça. O que o pai do fulano não vai pensar daquilo? Mesmo a multa aplicada pelo guarda não será escrita à mão. Ele digita a placa do seu carro e a informação vai diretamente para o Detran.

               Nos países mais metidos a besta (também conhecidos como Primeiro Mundo), os garçons já pegam o seu pedido com um minicomputador que leva imediatamente o seu pedido para o cozinheiro. Nem garçom vai escrever mais.

           Claro que o jogo do bicho será rapidamente informatizado, evitando aqueles papeizinhos que a gente sempre perde ou não confere. Sorteio de amigo-secreto com aqueles pedacinhos de papéis dobrados. Sobreviverá? Haverá, na repartição, ainda alguém com boa letra para tanto?

                Como as secretárias vão avisar o chefe que fulano telefonou a tal hora? Tudo por cabos eletrônicos, é claro.

                 Agendas eletrônicas já se encontram em qualquer das boas casas do ramo.

                 E conta? Alguém ainda faz contas no papel? Será que nas escolas ainda ensinam raiz quadrada, com o aluno ali com a sua calculadora? Você deve saber que, nos vestibulares, já se admitem as tais maquininhas.

                    Listinha de pecados para se confessar. Grava-se num gravadorzinho e enfia no ouvido do padre. Afinal, os nossos pecados são sempre os mesmos. Principalmente o pecado da preguiça, que marcará nossas vidas neste século que está chegando. Em algarismos romanos, sei lá por quê.

                                                  Crônica de autoria de Mario Prata. In: O Estado de S. Paulo, 12/11/1997.

 

Entendendo o texto

 01. No início do texto, o que motiva a reflexão do narrador sobre a perda da escrita à mão?

a) O fato de ele ter esquecido como se escreve o próprio nome.

b) A tentativa de uma funcionária de supermercado de preencher seu cheque com uma máquina.

c) A dificuldade de entender a letra de um médico em uma receita. d) O recebimento de uma fatura de cartão de crédito impressa.

e) A obrigatoriedade de usar computadores em seu trabalho como escritor.

 

02. Como o autor descreve o aprendizado da escrita em sua época de escola (curso primário)?

a) Era um processo livre, onde cada aluno desenvolvia seu próprio estilo desde cedo.

b) Era focado apenas na digitação em máquinas de escrever antigas.

c) Era rigoroso, utilizando cadernos de linguagem com linhas subdivididas para padronizar a letra.

d) Era opcional, pois a maioria das crianças já preferia usar calculadoras.

e) Era baseado em desenhos e pinturas, sem preocupação com a forma das letras.

 

03. Qual é o sentimento predominante do narrador ao constatar que a escrita manual está desaparecendo?

a) Entusiasmo com a agilidade proporcionada pelas novas máquinas.

b) Indiferença, pois ele acredita que a tecnologia sempre melhora a vida.

c) Alívio, por não precisar mais usar cadernos de caligrafia.

d) Tristeza, como se uma parte de sua própria identidade estivesse indo embora.

e) Ansiedade para aprender a usar os novos notebooks escolares.

 

04. Ao mencionar o "correio-elegante" e os "cartõezinhos de flores", o autor sugere que:

a) A escrita à mão deveria ser abolida até mesmo em situações românticas.

b) A tecnologia tornará as conquistas amorosas muito mais fáceis e rápidas.

c) A letra confusa ou a falta da escrita manual podem afetar a expressão de sentimentos e o romantismo.

d) O correio eletrônico (e-mail) é idêntico ao correio-elegante das quermesses.

e) Ninguém mais se interessará por flores no futuro próximo.

 

05. O autor utiliza o termo "países mais metidos a besta" para se referir a:

a) Países que proíbem o uso de tecnologia em restaurantes.

b) Países do chamado "Primeiro Mundo", onde a informatização já chegou até aos garçons.

c) Países que ainda preservam a tradição da caligrafia artística.

d) Cidades do interior que mantêm as quermesses e o jogo do bicho.

e) Sociedades que valorizam a escrita manual acima de tudo.

 

06. No trecho "Principalmente o pecado da preguiça, que marcará nossas vidas neste século que está chegando", o autor estabelece uma relação entre:

a) A facilidade tecnológica e o esforço humano em manter habilidades manuais.

b) A prática religiosa e o uso de gravadores nos confessionários.

c) A matemática escolar e o uso excessivo de algarismos romanos. d) O trabalho das secretárias e a eficiência dos cabos eletrônicos. e) O jogo do bicho e a informatização dos sorteios.

 

07. Qual é a principal crítica social ou reflexão central presente na crônica?

a) A defesa absoluta de que o progresso tecnológico é prejudicial em todos os setores.

b) Uma crítica aos supermercados que não aceitam mais cheques preenchidos à mão.

c) Uma reflexão sobre como a tecnologia despersonaliza ações cotidianas e extingue habilidades humanas tradicionais.

d) Um guia prático de como melhorar a letra de forma após anos de desuso.

e) Uma reclamação específica sobre a má qualidade do ensino de matemática nas escolas modernas.

 

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