Artigo de Opinião: Os meninos do Brasil
Clóvis Rossi
Fonte:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjQVFcJ55U5kDORCTvbo_l0oofYJ1vqMFf4HJgRUgIkTxsNZ5CZvKeGmMqICDnrmolIX8Sl8ftMmOFo4guZbvQMMl44YtzeY-JrLMQfPQyGdDZuwf3SOXDzPF3Hht0VX70qZuyA760phZBVz_PBlfjYFrMUMXlSqY_oedjC39faz7ONv_SIeI5_Ne9f-Ao/s320/barraca_leme.jpg Vê-se
que já não dá sequer para o tolo conformismo de achar que essa espécie de
guerrilha urbana está restrita aos grandes centros, depósitos habituais de
todos os problemas do subdesenvolvimento. Londrina parece ser apenas uma dessas
cidades médias abençoadas pela alta qualidade de vida interiorana.
É
evidente que deve haver, nessa onda de "arrastões", um pouco de
modismo. O pessoal vê pela televisão um grupo "arrepiando bacanas" no
Rio de Janeiro e resolve fazer a mesma coisa na sua própria cidade. Copiar
comportamentos alheios, muito divulgados pela mídia, é um fenômeno até certo
ponto corriqueiro.
O problema é
que a matéria-prima para a repetição dos "arrastões" sobra no país. O
Brasil, que sempre foi exemplo extremo de má distribuição de renda, tornou-se
selvagem nestes muitos anos de estagnação econômica. Se há alguma indústria
nacional que não sofre os efeitos da recessão é a fábrica de produzir
miseráveis e marginalizados. Da marginalização à marginalidade e dela à
brutalidade, a distância costuma ser curta.
Consequência
inevitável; os "bacanas" já estão todos arrepiados. Pior: tornam-se
cada vez mais inúteis os discursos sobre a miséria, sobre a infância
desamparada, sobre as injustiças sociais. A fábrica de produzir retórica sobre
essa temática é, aliás, outro setor que não entrou em recessão.
Seria
altamente conveniente que admitíssemos de uma vez por todas que estamos, todos,
desequipados para agir, em vez de discursar a respeito. Não é um problema que
se possa resolver apenas por meio do poder público. Não é um problema que a
filantropia de meia dúzia vá sequer atenuar. É uma guerra. Não serve de consolo
saber que produziu poucas vítimas fisicamente até agora. Todo o país é vítima
quando seus "bacanas" começam a odiar os meninos do
Brasil.
(Folha de S. Paulo, 30/10/92.)
01. De acordo com o primeiro parágrafo, a
ocorrência de "arrastões" em Londrina demonstra que:
a) O fenômeno está restrito apenas às capitais
litorâneas do país.
b) A criminalidade juvenil deixou de
ser um problema exclusivo dos grandes centros urbanos.
c) O policiamento no interior do Paraná é mais
ineficiente que no Rio de Janeiro.
d) As cidades com alta qualidade de vida estão
imunes aos problemas do subdesenvolvimento.
e) O uso de cola de sapateiro é a única causa
da violência em cidades médias.
02. O autor atribui a rápida disseminação do
comportamento dos "arrastões" por diversas cidades brasileiras
principalmente ao(à):
a) Organização nacional de facções criminosas
juvenis.
b) Falta de opções de lazer para os jovens no
interior.
c) Influência da mídia e da
televisão, que gera um efeito de "modismo" e cópia.
d) Aumento repentino do preço da cola de
sapateiro.
e) Inexistência de leis que punam menores de
idade.
03. No trecho "Se há alguma indústria
nacional que não sofre os efeitos da recessão é a fábrica de produzir
miseráveis e marginalizados", o autor utiliza uma metáfora para criticar:
a) O crescimento do setor industrial brasileiro
apesar da crise.
b) A eficiência do governo em gerar empregos
para a população carente.
c) O agravamento das desigualdades
sociais e da pobreza decorrentes da estagnação econômica.
d) A exportação de mão de obra desqualificada
para outros países. e) A qualidade dos produtos fabricados nas periferias das
grandes cidades.
04. Qual é a principal crítica feita pelo autor
no penúltimo parágrafo em relação aos discursos sobre a miséria?
a) Os discursos são necessários para convencer
os "bacanas" a serem filantropos.
b) A retórica sobre a injustiça
social tornou-se inútil e repetitiva, sem gerar ações práticas.
c) Não existem intelectuais suficientes falando
sobre a infância desamparada.
d) Os discursos ajudam a diminuir a violência
nas ruas de São Paulo.
e) Apenas o poder público tem o direito de
discursar sobre a marginalidade.
05. Ao concluir que "todo o país é vítima
quando seus 'bacanas' começam a odiar os meninos do Brasil", Clóvis Rossi
sugere que:
a) O ódio entre classes sociais é a solução
para acabar com os arrastões.
b) A sociedade deve se armar para combater os
menores carentes. c) O problema é meramente policial e deve ser resolvido com
repressão física.
d) A ruptura social e o preconceito
contra os jovens pobres representam uma derrota para toda a nação.
e) Os "bacanas" são as únicas vítimas
reais da situação descrita.
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