sábado, 14 de março de 2026

ARTIGO DE OPINIÃO: EXTERMÍNIO TAMBÉM É BRINCADEIRA - GILBERTO DIMENSTEIN - COM GABARITO

 Artigo de Opinião: Extermínio também é brincadeira

                                Gilberto Dimenstein

 

         BRASÍLIA - A imprensa revelou ontem uma nova "brincadeira" inventada por crianças numa escola do Rio. O nome da brincadeira: "extermínio". No intervalo, escolhem um menino pequeno a ser submetido a uma sessão de pancadaria. Na quarta-feira passada, um garoto de sete anos, uma das vítimas, foi levado pela mãe direto ao Hospital da Lagoa. Estava com o corpo repleto de hematomas.

Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgE3ho75ctXQCjqozVBMmHrJpUb4rPzF2Ad4FqsgudJIPoWNPR5r16TWaLhtWRY1fjgnnVbg8Y7KxVYUOHJdMBDI9_1NRVlsClVsPRSv6ImGd5NmEjeO3lXV9Iptb0y5kUBS2Tdu7PE4T2m86LqnT9UPBhsd460kvdOnTgscE8ghMbk-fazYYQG5F7oJls/s320/BRINCADEIRAS.jpeg


     O terrível da notícia não é apenas o garoto cheio de hematomas, mas como a violência vai-se incorporando ao cotidiano, capaz de virar brincadeira. A banalização da violência é, hoje, a principal questão política brasileira _ interessa mais à população do que a reforma ministerial ou a composições no Congresso. Está em jogo a eficácia do Estado de Direito democrático. Está em jogo também direito à vida. Em certas áreas, o direito de ir e vir é uma ficção. Quem vai pode não voltar.

         Daí ser absolutamente espantosa a reação de Leonel Brizola à entrevista do ministro Célio Borja. O ministro comparou o Rio a Beirute no auge da guerra. Brizola preferiu, entretanto, fazer uma competição. Disse que São Paulo era pior _ portanto é, concluiu com a precisão de engenheiro, uma "Beirute e meia". Só a indigência pode explicar a comparação macabra. O governador parece mais preocupado com a estatística do que com a violência.

      Tanto faz se o assassinato é no Rio, São Paulo, Paraná. A degradação é nacional. Quando crianças inventam brincadeiras como "extermínio", a vergonha não é do carioca, mas do brasileiro. Quando os governadores Luiz Antônio Fleury Filho e Leonel Brizola ficam competindo para saber quem administra o Estado menos violento, a vergonha não é do Rio ou São Paulo _ é de todos nós.

      Essa medíocre disputa não ajuda ninguém. Ambos, na realidade, deveriam estudar, juntos, mecanismos de colaboração, já que os marginais não são bairristas _ assaltam e matam em qualquer lugar. Será mais civilizado e inteligente que eles se comovam mais com o menino de sete anos cheio de hematomas do que com as estatísticas de uma competição inútil.  

(Folha de S. Paulo, 24/4/92.)

  Entendendo o texto

 01. No segundo parágrafo, o autor afirma que o "terrível da notícia" vai além das agressões físicas sofridas pelo menino. O que mais preocupa Dimenstein nesse episódio?

a.  A falta de vagas em hospitais públicos como o Hospital da Lagoa.

b.  A forma como a violência se torna banal a ponto de ser incorporada ao cotidiano como uma "brincadeira".

c.  O fato de a imprensa demorar a revelar o nome da escola onde o caso ocorreu.

d.  A necessidade de reformar o Congresso Nacional antes de resolver o problema das escolas.

02. Ao mencionar que "em certas áreas, o direito de ir e vir é uma ficção", o autor pretende dizer que:

a. A legislação brasileira não prevê o direito de locomoção dos cidadãos.

b.  A insegurança é tão alta que o direito constitucional de circular livremente não se aplica na prática.

c.  O Estado de Direito democrático no Brasil é superior ao de países como o Líbano.

d.  As crianças não podem ir à escola sozinhas por causa das reformas ministeriais.

 03. Qual é a principal crítica feita pelo autor aos governadores Leonel Brizola e Luiz Antônio Fleury Filho?

a.  A falta de investimentos em engenharia civil e construção de novas escolas.

b. A decisão de não conceder entrevistas ao ministro Célio Borja sobre a guerra.

c. A postura competitiva e estatística para decidir qual estado é "menos violento", em vez de buscarem colaboração.

d. O fato de serem bairristas e não permitirem que marginais circulem entre o Rio e São Paulo.

 04. A comparação entre o Rio de Janeiro e Beirute, mencionada no texto, serve para ilustrar:

a. A beleza arquitetônica das duas cidades litorâneas.

b. O alto nível de desenvolvimento tecnológico alcançado pelo Brasil em 1992.

c. A gravidade da situação de conflito e violência urbana, assemelhando a cidade a uma zona de guerra.

d. O sucesso das políticas de segurança pública adotadas pelos engenheiros do governo.

05. Segundo o texto, por que os governadores deveriam adotar mecanismos de colaboração em vez de competir?

a. Porque os criminosos não respeitam fronteiras geográficas (não são bairristas) e a degradação é um problema nacional.

b. Porque as estatísticas mostram que o Paraná é o estado mais seguro do Brasil.

c. Porque a reforma ministerial no Congresso depende da união entre Rio e São Paulo.

d. Porque o Hospital da Lagoa precisa de recursos vindos de outros estados para tratar hematomas.

 

 

 

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