ARTIGO DE OPINIÃO: PROMOÇÃO X MITIFICAÇÃO DA LEITURA
(BRITTO, L. L. e BARZOTTO, V. H.
Este é o quadro: crendo que a questão da
leitura é um problema pessoal, de gosto e interesse, que pode ser resolvido
através do estímulo e do proselitismo*, constrói-se um movimento em que, na
tentativa de interferir no comportamento dos sujeitos, de modo a fazê-los
leitores, se combinam sedução e persuasão intelectual, através da vinculação da
leitura ora a um valor maior (leitura de ilustração; leitura redentora) ora a
um apelo emocional (leitura hedonista; leitura de entretenimento), e da criação
de estratégias e ambientes favorecedores de "práticas leitoras"
(sensibilização, ambiência, atração, contação de história, dramatização, etc.).
Fonte: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEghQ9373zey1qqIyOLLLmNDicmQ9UbBS1F4B5-s3tWhuehKyfhIGh-NF-U2TLkmxZZo6hHLVQW_Awf1Z3BXZI5keqougwkCv4apEKiY1j7qFV3PJEvy80gLQcbmaUVqt_K8kxws4IUaflEOZsWU5avl2BvYbD_8NogKhPdbu2ZGhVPC5ITl3gu2KxrvnGA/s1600/LEITURA.jpgA promoção da leitura, vista desde uma
perspectiva não-ingênua, é um problema político e não apostólico. O leitor não
é um sujeito desarraigado de sua condição de classe, que encontra na leitura uma
forma de redenção individual. O que está em questão é o direito do cidadão de
ter acesso (material e intelectual) à informação escrita e à cultura letrada e
não um comportamento de avaliação subjetiva. Ninguém fica necessariamente bom
porque lê, nem faz sentido apelos morais para que as pessoas leiam. (...)
Do mesmo modo que, no que diz respeito à saúde,
cabe ao Estado garantir uma rede de atenção integral ao cidadão (hospitais,
médicos, medicamentos) e garantir o investimento em pesquisa e produção, compete
ao Estado garantir o direito à leitura, através da instalação de bibliotecas,
salas de leitura e aparelhamento das escolas; da formação e remuneração
apropriada aos profissionais ligados à leitura (bibliotecários, professores); e
do estímulo à produção intelectual cultural e científica. (...)
Se queremos promover a leitura efetivamente,
como bem público, como marca de cidadania, temos de abandonar visões ingênuas
de leitura e investir no conhecimento objetivo das práticas de leitura e num
movimento pelo direito de poder ler. O excluído de fato da leitura não é o
sujeito que sabe ler e que não gosta de romance, mas o mesmo sujeito que, no
Brasil de hoje, não tem terra, não tem emprego, não tem habitação.
A questão da leitura na sociedade contemporânea
é uma questão político-social e não de gosto ou prazer!
(BRITTO, L. L. e BARZOTTO, V. H. "Em Dia: Leitura & Crítica". Campinas: Associação de Leitura do Brasil, agosto de 1998.)
Entendendo o texto
01. De acordo com o texto,
qual é a visão "ingênua" que se tem sobre a leitura?
a.
Que a leitura é um direito de todos os cidadãos garantido pelo Estado.
b. Que a leitura é um problema de gosto pessoal que se resolve
apenas com estímulos e festas.
c.
Que a leitura deve ser ensinada apenas nas bibliotecas públicas. d. Que ler é
importante para conseguir um bom emprego no futuro.
02. Os autores afirmam que
a promoção da leitura não deve ser vista como algo "apostólico", mas
sim como um problema:
a.
Religioso e espiritual.
b.
Emocional e de entretenimento.
c. Político e de direito do cidadão.
d.
De falta de criatividade dos professores.
03. O que o texto defende
que o Estado deve fazer para garantir o direito à leitura?
a.
Obrigar todas as pessoas a lerem pelo menos um livro por mês. b. Criar
propagandas na TV dizendo que ler faz as pessoas ficarem bonitas.
c. Instalar bibliotecas, equipar escolas e pagar bem os professores
e bibliotecários.
d.
Distribuir apenas livros de romance e contos de fadas para as crianças
04. Segundo o texto, quem
é o verdadeiro "excluído" da leitura no Brasil?
a. O cidadão que não tem acesso a direitos básicos como terra,
emprego e habitação
b.
A pessoa que sabe ler, mas prefere ver televisão ou jogar videogame.
c.
O estudante que não gosta de ler os livros clássicos da literatura.
d.
Os professores que não têm tempo de ler durante o intervalo das aulas.
05. Qual é a conclusão
principal dos autores sobre a leitura na sociedade atual?
a.
Que ler é um prazer individual e ninguém deve interferir nisso.
b. Que a leitura é uma questão político-social e um direito de
acesso à informação.
c.
Que as pessoas só vão ler se as histórias forem dramatizadas com fantasias.
d.
Que a leitura serve apenas para tornar as pessoas mais "boas" e
educadas.
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